quinta-feira, 9 de abril de 2026

Rússia (ferrovia Transiberiana), Mongólia e China (parte 3/8)

 ...continuação

O primeiro vagão da longa composição, logo atrás da locomotiva, era exclusivo da República Popular da Coreia (Coreia do Norte). Na parte lateral e externa do vagão, o símbolo da república. O vagão seria desengatado em trevo específico da ferrovia, a partir do qual outra locomotiva o levaria ao país vizinho.

O trem partiu ao amanhecer. Me instalei no beliche superior da cabine. Seriam mais de cinquenta horas de percurso até o desembarque, o trecho mais longo daquele trajeto pela ferrovia Transiberiana.

Ao contrário da primeira impressão, desenvolvi preferência pela cama superior do beliche. Certo que havia a escadinha, ou os dois suportes de metal para subir e descer, exigindo impulso e posição adequada. Por outro lado, lá em cima eu tinha mais privacidade, havia a prateleira grande sobre a porta da cabine, acessível aos meus pés, e outra prateleira menor sobre a janela, ao lado da cabeceira, permitindo distribuir os itens de maior e menor uso.

Como cortesia de café da manhã, as funcionárias do vagão entregaram porções individuais de mingau de aveia, bolo de maçã industrializado, bolacha de arroz, garrafa de água. Mandei ver tudo sem deixar um grão. E ainda avancei sobre a caixa do café da manhã fornecido pelo hotel de Ulan-Ude. Sanduíche de presunto, tomate, pepino e queijo, maçã fresca, bolo de café. E me deitei para recuperar o sono atrasado pela alvorada madrugadora.


No meio do dia parada de vinte minutos em Khilok. Desci vestido com o casaco duplo, mas ainda com calção e chinelo de dedo. Chineses de outros vagões riram apontando minhas pernas expostas ao frio siberiano de verão. Subi as escadas da plataforma. Acessei a passarela superior a fim de apreciar a estação e os arredores.

Com o trem em movimento permaneci horas apreciando e registrando a paisagem siberiana pela janela do corredor lateral do vagão. A vegetação se apresentava esverdeada, amarelada, às vezes alaranjada, apontando o começo iminente do outono. Riachos sinuosos, vilarejos com robustas casas de madeira escura e janelas grandes, campos, florestas de bétulas, abetos e pinheiros.

Me juntei à aglomeração em outra cabine para conversar e me informar com o guia e historiador. Na mesa entre as camas, beliscos de embutidos russos, kalbassá, uvas russas, queijos russos.

Parada longa na estação de Tchitá, de onde partia o ramal ferroviário para a China. Desci apenas com o casaco duplo. Sentia frio danado nas pernas de fora. Os soldados do vagão norte-coreano vestiam quepes militares desproporcionalmente grandes e se mostravam discretos e simpáticos.

De volta ao vagão, com o trem em movimento, mais beliscos em comidas das outras cabines. E bastante chá-preto para esquentar o sangue.

Dormi bem e bastante, apesar de acordado por duas horas durante a madrugada. Eu me deitara cedo demais e estava doze horas à frente do fuso horário de São Paulo.

Pela manhã mandei ver três sanduíches de salame e queijo mais caneca de café solúvel dos colegas. Pronto para mais um dia ao longo da ferrovia Transiberiana.

Do lado de fora, tempo nublado, ainda úmido da chuva fraca da madrugada. Relevo ondulado, florestas densas de bétulas, abetos, pinheiros e outras espécies da flora siberiana, campos e cursos d’água, vilarejos com casas rústicas de madeira escura e grandes janelas envidraçadas.

Parada de meia hora na estação de Mogocha.

Manhã descontraída, entre conversas sérias, engraçadas, gargalhadas, sempre em volume alto. As cabines próximas e ocupadas por russos sisudos deveriam estranhar, ou admirar maravilhados, tanta alegria contagiante dos brasileiros.


No começo da tarde parada na estação Yerofey Pavlovich. A chefe do vagão pediu foto coletiva com todos os brasileiros. Ela se emocionou com o calor humano dos trópicos.

Experimentei o vagão-restaurante do trem, a três vagões de distância. Almocei comida farta e saborosa, servida por prestativas garçonetes. Até anoitecer permaneci entre conversas sobre história, cultura e temas gerais. Nem desci na estação de Skovorodino.

Ao retornar me deitei na cama superior do beliche.

Amanheceu com paisagem diferente pela janela do corredor lateral do vagão. Mais arbustos e campos do que árvores de porte. Praticamente nada de cores outonais. Tudo era em tons pálidos. Nenhuma plantação ou semeadura à vista. A ferrovia se tornara bastante sinuosa desde a tarde anterior. O sol brilhava ora em um lado ora em outro do trem. Eu via a locomotiva ou os últimos vagões da composição a cada curva mais acentuada.

Era o terceiro dia dentro do mesmo e confortável trem. Tempo que passou voando, sem perceber, entre momentos bons e ótimos, interna e externamente.

No vagão-restaurante almocei prato de pelmeni, pão e suco gasoso industrializado de limão. O atendimento elétrico da garçonete, eficiente e sorridente, jamais deixou a peteca cair.

Desembarque à tarde na estação de Birobidjan, cidade escala de somente algumas horas, para explorar o que mais interessava e depois, à noite, seguir viagem pela ferrovia até Khabarovsk.

Deixamos as bagagens no guarda-volumes da estação.

Pelas ruas da cidade de Birobidjan, visita ao Museu de História Natural. A cidade oferecia ruas e alamedas ricamente arborizadas, calçadas extensas e sombreadas por árvores frondosas. Ao longo da orla do rio Bira, o parque linear atraía moradores e visitantes. Na parede frontal do moderno teatro municipal, altos-relevos em metal com motivos soviéticos, deliberadamente escondidos atrás de árvores altas e plantadas intencionalmente para este fim.

Ao anoitecer volta à estação ferroviária para retirada das bagagens dos guarda-volumes e embarque em novo trem. O pôr do sol deslumbrou os olhares.


Embarque em vagão de terceira classe, o único assim naquela travessia ferroviária, para percurso de duas horas. Os corredores e vãos entre as camas virou acúmulo bagunçado de malas e passageiros. O alto-astral da maioria compensou tudo e ainda sobrou.

A noite avançava quando o trem atravessou a extensa ponte sobre o rio Amur e parou na belíssima e moderna estação ferroviária de Khabarovsk, a cerca de trinta quilômetros da fronteira da China. Era o fim daquele trecho intermediário de quase três dias ferroviários, longos e ricos em emoções e experiências.

Exploração matinal pelas ruas de Khabarovsk em dia ensolarado, com temperaturas amenas. A cidade primava pela arborização intensa, praças, parques, traçado planejado das ruas e avenidas, arquitetura imponente, povo atraente, compondo imagens belíssimas. Abaixo do centro, o extenso e vistoso rio Amur que, em algum ponto perto dali, divide a Rússia da China. Na margem de cá do rio, a orla urbanizada com amplo calçadão ao longo de parque linear, em espaço público, democrático, gratuito, de qualidade, sempre prestigiado pela população. Gente bonita passeava, brincava, namorava, pescava, circulava de barco, se exercitava, beliscava comes e bebes, observava os brasileiros invariavelmente alegres e falando alto, tendo ao lado a paisagem exuberante da orla do vale do rio Amur e as montanhas da China ao fundo da margem oposta.

Visita às alas do Museu Regional de História Natural. As diversas salas contam, com textos, fotos, desenhos, animais vivos e empalhados, a história antiga e moderna da região.

Em restaurante decorado com madeira rústica enchi a pança com carne de boi, batatas ao alho e óleo, queijo curtido, salada camponesa, regado a suco de framboesa. Um grupo animado de russos de cidade vizinha, e que veio a Khabarovsk assistir a partidas do campeonato de hóquei sobre o gelo, nos chamou para tentar conversar e tirar fotos em conjunto. As mímicas incompreensíveis, os sorrisos sinceros, contagiaram ambos os lados.

Embarque em trem noturno na belíssima construção da estação ferroviária de Khabarovsk.

Pela manhã, visão de campos aplainados ofereciam cores esverdeadas, brilhantes. Nada das imagens outonais das etapas anteriores ao longo da ferrovia. Provavelmente efeito da proximidade do oceano Pacífico.

Era o último trecho da extensa travessia da ferrovia Transiberiana desde Moscou. A expectativa da chegada em Vladivostok crescia a cada minuto. De pé no corredor lateral do vagão eu não tirava os olhos da paisagem que lembrava o cerrado brasileiro. E acompanhava os marcos quilométricos calculando quanto ainda faltava para o destino final.

Pouco a pouco a paisagem foi se abrindo. A imensidão de água, agora salgada, do oceano Pacífico e do mar do Japão, se apresentava ao sul da ferrovia. Praias encascalhadas abrigavam casas esparsas de veraneio e marinas de barcos variados. Um ou outro banhista se arriscava nas águas daquele final de verão russo.

Antes do meio-dia o trem finalmente parou numa das plataformas da estação ferroviária de Vladivostok. Largamos as bagagens num canto e fomos registrar imagens ao redor do ansiado marco quilométrico 9.288, que revelava a distância percorrida desde a capital russa. Foram oito trens diferentes, parando em sete cidades da Rússia europeia e da Rússia asiática, a Sibéria. Vivas!

Ao lado havia a antiga locomotiva a vapor, dos tempos do começo do período soviético, exibindo bem na frente a estrela vermelha, o símbolo da foice e martelo, a sigla, em alfabeto cirílico, CCCP, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, ou URSS, transliterado para o alfabeto latino.

O ônibus percorreu ruas e avenidas da cidade de relevo acidentado, atravessando pontes estaiadas sobre o mar, revelando zona urbana erguida ao longo de alta e estreita península. Atingiu morro proeminente, do lado oposto ao centro, onde se localizava um dos dezesseis fortes do complexo de fortalezas navais de Vladivostok. Era possível visitar as partes externas, mais as galerias e túneis subterrâneos, alguns bem profundos da construção abandonada e datada do início do século XX.

Jantei no restaurante envidraçado e localizado na cúpula do hotel, erguido no alto de colina, com direito a vista deslumbrante da cidade, da baía de Vladivostok. Somente uma ou duas mesas ocupadas no ambiente requintado. Silêncio, paz, tranquilidade para me entregar a pensamentos, reflexões, lembranças das experiências vividas na Rússia até ali. Duas doses de vodca. Salada verde variada de entrada. Macarrão chinês com legumes. Tudo servido sem pressa e com muita elegância pela garçonete russa, bem jovem e atraente.

Em manhã ensolarada rumo ao distante farol Takarevsky, construído em istmo da península ao longo da qual se estendia Vladivostok. Vista privilegiada do oceano Pacífico e das colinas da cidade. Caminhada curta pela estreita faixa de cascalhos até a construção propriamente dita do farol.

Atravessando a segunda ponte estaiada, o acesso à ilha Rusky para almoçar em restaurante dentro de parque e próximo às águas do mar.

Visita à última residência, e transformada em museu, de V. K. Arseniev. Explorador, viajante, pesquisador, humanista russo, ele se notabilizou pelas incursões científicas e sociais na Sibéria e extremo oriente do país, mas sobretudo pelo livro Dersu Uzalá, escrito depois dele travar conhecimento com o membro de uma das etnias siberianas. O livro posteriormente foi transformado em filme de produção soviética e dirigido por Akira Kurosawa. Os cômodos da casa estavam repletos de objetos, textos e fotos sobre a rica obra deixada pelo também militar russo.


Descontraídas circuladas pelas ruas, algumas em ladeira, do centro charmoso de Vladivostok. Almocei lamen entre outros quitutes em restaurante de comida japonesa. De fabricação japonesa também eram muito dos veículos em circulação. Importados com isenção de impostos, os carros vinham inalterados das montadoras, mantendo o volante do lado direito, como no Japão, e não como na Rússia.

Andanças livres e soltas pelo bairro de Milbuka, ou Millionka, na beira das águas da baía. Monumentos em homenagem aos heróis e mortos durante a guerra civil russa, entre 1917 e 1922, e nos anos da Grande Guerra Patriótica, chamada no ocidente de Segunda Guerra Mundial, entre 1939 e 1945, na qual a União Soviética impôs derrota definitiva ao exército nazista.

O traçado irregular das vias públicas de Vladivostok, atravessando terreno acidentado e sinuoso que contornava a baía do oceano Pacífico, lhe fornecia charme especial e diferenciado em relação às demais cidades russas visitadas ao longo da ferrovia Transiberiana. Pena que as duas extensas pontes estaiadas, construídas após o fim da União Soviética, ao mesmo tempo que auxiliava no fluxo do transporte rodoviário, principalmente de automóveis, retirou parte da beleza e originalidade urbanística da cidade.

Jantar em restaurante próximo ao istmo do farol Takarevsky na base de caranguejos reais, imensos, vieiras também de tamanho exagerado, e doses incontáveis de vodca. Era a noite de despedida da cidade de Vladivostok.

Muita alegria e bebedeira dos brasileiros, provocando ruídos, gargalhadas e falatório em volume bem acima do normalmente tolerado pela sociedade russa, comumente séria, discreta e silenciosa, pelo menos antes de se embebedarem. Os que mais se embebedaram do grupo berravam em uníssono o nome do guia. Os russos nas outras mesas ficaram perplexos. Apreensivos pelo tumulto causado no restaurante, os mesmos passaram a berrar a expressão “desculpa” em russo. O detalhe é que, pela pronúncia equivocada, a palavra gritada em russo se pareceu com outra de significado bem distinto e próximo a “prostituta”. Até as garçonetes, prestativas e pacientes até então, se constrangeram. Mas a alegria prosseguia no ar.

Acordei com o despertador do celular. Em percurso de uma hora o ônibus alcançou o aeroporto situado em cidade próxima a Vladivostok.

Na fila de obtenção do cartão de embarque, e depois no próprio voo, cerca de quarenta jovens da Coreia Popular (Coreia do Norte), vestindo camisetas vermelhas com a bandeira do país estampada na parte da frente. Sorridentes, tranquilas, na delas, não pareciam ter vidas sofridas ou sufocantes, conforme os monopólios da mídia burguesa vomitam há décadas.

Entre conversas com os colegas li bastante A Estrela Vermelha Brilha Sobre a China, de Edgar Snow. O livro narra em detalhes a viagem exploratória do jornalista à China durante o período de guerra popular prolongada do exército vermelho pela libertação do povo chinês, na década de 1930.

As dez horas do voo doméstico de Vladivostok a Moscou valeram, no relógio, apenas três horas, em razão do avião cruzar sete fusos horários entre as duas cidades.

continua...

2 comentários:

  1. Que bela viagem, hein!? E eu viajo junto por aqui. Um abraço.

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  2. Oi Sônia!
    Obrigado pela visita e pelos comentários.
    Realmente essa viagem saiu da média. Marcou demais. Não sei se consegui transmitir as emoções sentidas.
    Comente sempre!

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