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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

do Nepal ao Camboja (parte 9/12)

...continuação
Até a descida empolgou. E mais samosas, tickias, xícaras de café com leite cremoso. Retorno ao quarto do hotel ao anoitecer.
Subidas em dois outros picos na manhã seguinte, caminhando sobre a neve. Era dia eleitoral e nada funcionou. Relaxar e preguiça. Havia os pequenos lanches e local para comer masala dosa e chowmein. O quarto do hotel agradava. A cidade e os moradores conquistaram logo de cara. As caminhadas maravilhavam. Não havia razões para mudanças ou partida de Nainital.
Já eram mais de três meses na estonteante Índia. O país fascinava e muito. As eventuais frustrações jamais lhe tirariam o brilho. A maioria dos indianos encontrados, no entanto, primava pela chatice. Os adolescentes puxavam a fila. Invariavelmente com visual de astros de cinema indiano, vestidos à moda dos anos de 1930, projetos de bigodes, pentes nos bolsos traseiros das calças para acertar os repartidos dos cabelos, esses indivíduos faziam o sangue subir. Não conversavam nada de interessante, apenas perguntavam. Grudavam e não se afastavam. Mas eles jamais tirariam o brilho dos detalhes e do conjunto da Índia.
Uma barraquinha de rua, na beira do lago, servia pão com omelete pelas manhãs. E havia o café com leite na barraca ao lado. Eu comia dois sanduíches e vários copos, tudo quente, preparado na hora. A fuligem enegrecia as mãos do homem da barraca e ele as usava diretamente nos ovos e pães. E, como toque final, colocava uma das fatias de pão sobre a omelete e a pressionava com a mão escurecida para penetrar o gosto, da omelete e das mãos dele. Nunca fez mal e repeti inúmeras vezes. E, para arrematar a refeição matinal, dois copos de coalhada artesanal no beco mais adiante.

Dia para relaxar e apreciar o movimento dos moradores sob o sol de inverno. Na volta, parada em bar para o chá com leite. O rapaz do balcão ofereceu a mesa na calçada. Então saíram os três funcionários do bar em direções diferentes. Um correu para o lado direito, outro para o lado esquerdo e o terceiro subiu na moto e disparou. Sumiram todos de vista. O bar ficou vazio, sem ninguém para atender. Dez minutos depois voltaram com pacotes nas mãos. Um com chá, outro com leite, o terceiro com o açúcar. Somente aí iniciaram a preparação. E serviram. Era a Índia. O chá temperado com leite empolgou, como sempre, ainda mais naquele friozinho de fim de tarde.
Nova subida ao pico Tiffin. Voltamos ao hotel, estendemos as roupas ao sol, nos sentamos. Permanecemos horas assim. Sentimos suave sensação de calor enquanto líamos e apreciávamos a paisagem.
Após pães com omelete, sucos, café com leite cremoso, durante a manhã na beira do lago, descida de ônibus para Kathgodan. Entre salgadinhos, chá no bar da plataforma, circuladas pelas ruas sem graça da cidade sem graça, o tempo passava lentamente. O relógio não andava. Mas o trem noturno finalmente partiu, pontualmente.
Em Delhi troquei livros e guias em sebo no meio da calçada. E saí com dois exemplares bem gorduchos, ambos em inglês, do escritor russo Leon Tolstoi, Guerra e Paz e Anna Karenina. Teria a viagem toda, e mais um pouco, para lê-los.
E bem cedo, o trem expresso, com comes e bebes incluídos na passagem, vagões com cadeiras reclináveis, contribuíram para o astral do percurso. Na estação ferroviária de Ajmer, ônibus para Pushkar, dessa vez sem a feira de camelos.
Pushkar mantinha-se linda e charmosa, mas o crescimento vertiginoso do turismo deixava marcas profundas. Meninos e meninas perambulavam pelas ruas e becos pedindo ou exigindo dinheiro, agressivamente. Os restaurantes ofereciam pratos ocidentalizados no formato de bufê. A comida com gosto de hospital preparada sem inspiração carecia de tempero. Somente depois de buscas prolongadas, vinham as comidas indianas. Pratos vegetarianos do sul do país, quase impossível. Paradoxal em cidade sagrada, vegetariana e abstêmia como Pushkar.
Café da manhã tardio e farto, longas e soltas caminhadas pela cidade, bastante música clássica indiana nas tendas. Sem a feira de camelos e os preços abusivos de meses antes, quando de nossa primeira visita, Pushkar agradava bem mais.
A mente se sentia leve, sem rumo, sem compromissos, sem roteiros. Os instintos conduziriam para cá, para lá, para lugar nenhum. Do topo de imensa duna de areia, o deserto de Thar sem fim. Um camelo descansava sob a sombra de árvore. Ignorávamos as crianças que continuavam a pedir de tudo. Nada dos bufês ocidentais que infestavam a cidade. Comíamos somente nos raros e escondidos restaurantes de comida indiana.

Pushkar era vegetariana e proibia o consumo de álcool e drogas, de acordo com o código de conduta afixado em todos os cantos da cidade. O comércio de cigarros e do alucinógeno indiano bang, no entanto, se escancarava pelas lojas e ruas. Nada de ovos, mas tudo de laticínios em geral, venda de artigos de couro e demais derivados de animais. Sem falar nos golpes dos ônibus privados que sentíramos na pele meses antes. A cidade sofria nas mãos da casta dos brâmanes, para quem o lucro falava mais alto. A tal cidade sagrada, vegetariana e abstêmia constava apenas nos folhetos e guias turísticos. Os turistas, na esmagadora maioria, consumiam de tudo, sem ressalvas. E contribuíam para a descaracterização de lugar tão especial.
O pôr-do-sol de um lado do horizonte, enquanto a enorme lua cheia nascia do lado oposto, foi de cair o queixo. O alto do morro, como se não bastassem o sol e a lua, proporcionava imagens marcantes das construções brancas e azuladas da cidadezinha refletida nas águas espelhadas do lago. E, pelos becos da cidade, a refeição foi de katchori e gulab jamun.
Entre perambuladas pelas pequenas dunas nos arredores da cidade, cabras se aproximaram e gostaram da companhia. Chamamos o rebanho na volta à cidade. Seguiram bem de perto pelas ruas. Entra e sai de ruas, e elas atrás, firmes e animadas. Conseguimos despistá-las no centro da cidade somente após acelerar o passo e aumentar a distância delas.
De ônibus à cidade não turística de Ajmer. Em restaurante muito simples em frente à estação ferroviária, pedimos masala dosa. E vieram pegando fogo de tanta pimenta. As lágrimas se derramavam caudalosas dos olhos e molhavam as camisetas. A pimenta realmente incendiava por dentro. Mas não dava para parar de comer. Estava delicioso demais. E viramos atração mais uma vez. Os cozinheiros, garçons, frequentadores, não acreditavam no que viam, sobretudo depois de repetirmos os pratos. Os olhos estavam vermelhos, os rostos molhados de lágrimas que não paravam de brotar. Mas que masala dosa divino! O café e chá com leite cortou parcialmente o ardor generalizado.
O trem noturno partiu a Delhi, onde foi difícil conseguir riquixá à outra estação. Mais uma hora e meia para deixar as mochilas no guarda-volumes na estação de Nova Delhi.
Ao entrar no vagão do expresso Rajdhani, muita euforia diante da cabine privativa, exclusiva. A melhor cabine de primeira classe do melhor trem de toda a Índia aguardava ampla e arrumada. Enorme e confortável sofá de couro, carpete, armário, pia, duas pequenas mesas. O sofá virava cama abaixo de outra cama embutida mais acima. O serviço dos funcionários internos primava pela opulência. Trouxeram vasos de flores, jornais, travesseiros, água mineral, sabonetes, toalhas, entre dezenas de itens para tornar a viagem a mais agradável possível.

O expresso Rajdhani partiu à tarde rumo a Calcutá e todas as refeições estariam incluídas no baixo preço das passagens. Serviram chá em xícaras de porcelana pintada, acompanhado de biscoitos e bolachas. A imensa janela exibia as paisagens externas nitidamente. O som ambiente divulgava avisos sobre o funcionamento dos serviços e, para destoar da perfeição, vomitava lixo musical estadunidense, em imperdoável deslize da eficaz empresa estatal ferroviária da Índia. Tantas maravilhas da música clássica indiana e optaram justo por aquilo.
O jantar oferecia opção vegetariana ou não. Para manter a classe, foi servido em quatro etapas. A primeira consistia de sopa, pães, torradas, manteiga. A segunda incluía fatias de carneiro assado com batatas fritas e verdura cozida. A terceira chegou com maçã recheada e legumes. A quarta e última etapa coroou o lauto jantar com sorvete.
Mais à noite o prestativo funcionário trouxe lençóis perfumados e cobertores.
Logo ao amanhecer serviram chá com pães e biscoitos. Mas ainda não era o café da manhã. O verdadeiro surgiu em seguida, incluindo omeletes, peixe frito, batatas, queijo, maçã, mais chá.
As curtíssimas dezessete horas voaram e Calcutá se fazia visível pela enorme periferia. A escolha de viajar pelo expresso Rajdhani não poderia ter sido mais apropriada rumo à última cidade a ser visitada na Índia. Parabéns ao expresso Rajdhani. Parabéns a todo o sistema ferroviário estatal indiano, em constante expansão e modernização. Com muita admiração e inveja de dois viajantes residentes em um Brasil criminosamente rodoviário.
A Índia, os trens, as ferrovias, já deixavam saudades depois dos quatro meses de explorações pelo país. Foram tantas as imagens, internas e externas. As estações, os vendedores ambulantes, as filas imensas, os cagões matinais alinhados nas dormentes, os sacolejos, os assentos, as camas, os banheiros no estilo indiano, os lugares destinados às bagagens, as conversas, os indianos que nunca abriam mão de conforto, levando colchão, lençol, travesseiro, cobertor, gorro, sempre bem alimentados com comida de verdade, nada de lanches ocidentais. Difícil esquecer aqueles momentos ferroviários. Nem se eu quisesse. E eu não queria.
Calcutá contava com personalidade e charme de cidade grande. Diferentemente da industrial Mumbai e da administrativa Delhi, Calcutá era a capital intelectual da Índia. Ali residiam as principais cabeças culturais do país e produziam os filmes de qualidade que frequentavam festivais internacionais. Não parecia ser cidade tão barulhenta como diziam, reservava áreas verdes, árvores nas calçadas, construções antigas, cafés simpáticos. O eficiente metrô primava pela limpeza.
O jantar de despedida da Índia, em grande estilo, veio de apenas masala dosa e idli. Foram vários deles para a felicidade geral da nação.
A minoria de indianos no avião da manhã tornou-se maioria em razão do tumulto criado. Não paravam quietos, incomodavam as comissárias com pedidos insistentes, encaravam as pessoas, fumavam demais. O avião ainda nem aterrissara e se levantaram espalhafatosos. E imediatamente me lembrei das sessões de cinema quando os espectadores se assanhavam e saíam da sala antes do final do filme. Era a Índia que não queria ir embora, mesmo próximo do desembarque na tenebrosa Tailândia.

O avião pousou à noite em Bancoc debaixo de calor forte e abafado. Foi difícil encontrar quarto livre no hotel em que me hospedara dois anos antes. Um pat thay na rua, outras coisinhas para completar o estômago e cama.
Pela famigerada região de Khao San tentamos traçar planos das próximas etapas. Não havia disposição para nada. Rango novamente nas barracas de rua, local mais saboroso, mais fresco e ventilado que os restaurantes. Entre mapas, fotos, guias, agências de viagens, muitos planos, muitas incertezas, nada decidido. O calor beirava o insuportável, fazendo transpirar por todas as partes do corpo, nas ruas, bares, sob o ventilador do quarto do hotel. A região do Grand Palace lotava de turistas como sempre.
À noite, durante andanças pelas ruas previsíveis de Khao San, eu vestia camiseta amarela com frases e propagandas de produtos tipicamente brasileiros. De dentro de um das dezenas de bares entupidos de turistas, saiu um cabeludo de pouco mais de vinte anos. Correu em minha direção, balançando os braços, gritando qualquer coisa. Só quando se aproximou percebi o motivo. Brasileiro e por muito tempo sem contatos com outros brasileiros, ele me reconhecera pela camiseta. Os olhos dele brilhavam de emoção indisfarçável. E convidou à mesa do bar junto a mais brasileiros que também viajavam havia muito tempo. Moraram na Austrália, passaram por vários países e planejavam voltar ao Brasil. Foram horas e copos sem perceber o tempo passar. Brasileiros fazem festa quando encontram brasileiros, sobretudo durante longas viagens restritas a contatos com turistas insípidos dos demais países.
Depois da estonteante Índia, nada despertava entusiasmo. O tremendo equívoco cometido no roteiro da viagem começava a aparecer. Eu já sentira parcialmente a frustração dois anos antes. O sudeste asiático atraía bem menos que o subcontinente indiano. Desta vez o choque negativo fora mais intenso. A decisão correta seria ter tomado rumo oeste, em direção ao Paquistão, Irã, Síria, Turquia. A viagem ganharia contornos mais desafiadores e instigantes.
continua...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

do Nepal ao Camboja (parte 8/12)

...continuação
Os condutores de riquixás abordaram gentilmente na plataforma da estação. Após as pechinchas de praxe, surpreendeu a ausência de tentativas de arrastar a hotéis que lhes pagavam comissão. Ainda mais em cidade turística como Varanasi. O riquixá percorreu diversos becos, entrou à esquerda, à direita, entrou no pátio interno e parou nas escadas em frente à recepção. Quanta atenção e carinho! Embora com preços levemente acima da média, o quarto razoável agradou. Mas somente no momento de preencher o formulário na recepção percebi que era outro hotel. Em nenhum lugar visível dentro ou fora do sobrado exibiam o nome em destaque. O condutor do riquixá desaparecera na poeira, com a comissão obviamente. E aquele hotel se localizava distante da margem do rio Ganges, o contrário do desejado inicialmente.
Em longa caminhada ao centro antigo de Varanasi, nas imediações da margem do Ganges, contato direto com a incrível e fascinante confusão da cidade. O trânsito beirava o absurdo, mesmo sem ônibus, caminhões, poucos carros. Os vendedores de serviços e objetos em geral abordavam a todo instante. A atmosfera religiosa com peregrinos, becos muito estreitos, gente por todos os lados, cheiro de leite fervido e das coalhadas caseiras, vacas e mais vacas gordas e bem nutridas, sem falar no rio com toda a parafernália mística e espiritual nos degraus da margem.
Opções melhores e mais caras de hospedagem seduziam pela privilegiada localização no centro antigo, pela vista deslumbrante do Ganges, os degraus, as cerimônias, os becos, os telhados das casas antigas, se descortinando das janelas e sacadas dos quartos decorados à indiana.

Varanasi era referência musical na Índia. À noite, procura de recitais de música clássica indiana. O primeiro local era praticamente inacessível à noite devido à completa escuridão dos becos da cidade antiga. Nem com o acompanhamento “desinteressado” das crianças dava para encarar aquele breu. A segunda tentativa, em bar e restaurante, estava às moscas, sem sinal de música. O terceiro local lotava de espectadores e quiseram nos jogar no fundo escondido e longe dos músicos. Nos restaurantes, com música de fita, eles impunham lixo estadunidense. Mas, se pedia música indiana, concordavam sem pestanejar. Ufa, alívio para a mente e corpo.
Varanasi tornava-se a cidade com mais assédios e abordagens interesseiras. Nenhum minuto de sossego, sobretudo na margem do Ganges. Multidão de vendedores, massagistas, homens sagrados, guias, estudantes de história, agentes de empresas de turismo, muitos inteiramente falsos, procuravam turistas desavisados. Da linha das águas, ou mesmo nos degraus, os barqueiros ofereciam passeios, a todo instante, insistentemente. Nem nos setores das cremações davam trégua.
Tarde de domingo para pegar uma sessão de cinema. Finalmente o famoso Raja Hindusthani, o mais comentado e adorado filme indiano daquela temporada.
Depois da fila imensa, as bilheterias ofereciam diversos preços conforme o setor da sala. Mais próximo à tela e nas laterais, os mais baratos. No balcão superior, os mais caros. Ainda nem todos tinham entrado e o filme já começara. Com as luzes acesas. Ninguém parecia se importar com isso. Não se apressavam, continuavam a entrar, conversavam alto, iam e voltavam do banheiro, comiam, bebiam. E o filme seguia na tela. As luzes finalmente se apagaram. Tudo indicava que viria o silêncio e eles prestariam atenção. Nada disso. Não parava de entrar gente e a gritaria prosseguia. Os lanterninhas mais atrapalhavam que ajudavam. Os seguranças disfarçavam e nem pressionavam para botar ordem no recinto. As luzes se acendiam e apagavam diversas vezes. E o filme seguia na tela. De repente entrou um sujeito com uma bandeja repleta de xícaras de café com leite e as ofereceu em voz alta. Alguns aceitavam. Outros falavam. Os lanterninhas e os seguranças circulavam para lá e para cá. E o filme seguia na tela. Sim, tinha gente que prestava atenção no filme, gritava e aplaudia. Outros vendedores entraram na plateia. Agora carregavam caixas de refrigerantes e de salgadinhos. Raspavam o abridor nas garrafas de vidro, berravam as ofertas, todos ao mesmo tempo, com nas feiras livres. E o filme seguia na tela. Veio o intervalo. A maioria se levantou, comprou comes e bebes, foi ao banheiro. O intervalo terminou sem qualquer aviso. O filme recomeçou com a maior parte dos espectadores ainda do lado de fora. Novamente ninguém se abalou ou se apressou para voltar às cadeiras. Mais divertido pela balbúrdia indiana na plateia do que pelo filme de mais de três horas de duração, falado em hindi, sem legendas. A barreira da língua nunca seria problema. Dramalhões, interpretações exageradas e risíveis, enredo mais que óbvio orientavam a entender o enredo. Bastaram as penúltimas cenas apareceram na tela, para a maioria se levantar e se dirigir às saídas. Mas o filme ainda não terminara!
A afirmação que os indianos são a principal paisagem na Índia era a mais pura verdade durante uma sessão de cinema.
À noite finalmente restaurante com música clássica indiana, ao vivo. A apresentação se resumiu a menos da metade do prometido. E aquilo nunca foi música clássica indiana. Os tais que se exibiam no minúsculo palco no canto do ambiente apostavam na ignorância dos fregueses, cem por cento de estrangeiros, e enrolavam improvisos nas cítaras, flautas, tablas. Nada além de embromação para turistas.

Para a estação ferroviária rumo ao embarque depois da meia noite. Com longos cassetetes de madeira pendurados no cinto, policiais abordavam e posavam de rigorosos na segurança das plataformas. Exibiam olhares inquisidores e enchiam de perguntas.
Pela primeira vez na Índia, um trem feio, velho, mal conservado. Mais parecia sucata. O desembarque em Satna na manhã seguinte aconteceu por pura sorte. No exato momento em que o trem parara, avistei sem querer, pela porta de saída, o nome da estação no muro da plataforma. Ainda adormecidos, conseguimos correr e descer assustados com as mochilas antes que o trem partisse.
Não havia trens de Satna a Khajuraho. O ônibus podre, caindo aos pedaços, seguiu por estradas esburacadas. O pequeno vilarejo de Khajuraho, no estado de Madhia Pradesh, oferecia paz e tranquilidade, quebradas apenas pelos berros dos insistentes donos de lojas de bugigangas.
Foram várias horas perambulando em meio aos templos de Khajuraho. Mereciam! Se dispunham ao redor de gramados e flores, formando conjuntos harmônicos e bem preservados. Mesmo depois de tantos templos visitados, encantavam profundamente, no geral e no detalhe. Guardavam arquitetura impecável, ricamente ornamentada com esculturas, imagens, trabalhos em alto relevo em rocha dos mais impressionantes em toda a Índia. Os detalhes incluíam temas variados da história, costumes, cenas cotidianas da vida, sexo, guerras, danças, festas, trabalho. As maravilhas emocionavam inclusive os discretos casais e as recatadas famílias indianas diante de posições nítidas e explícitas de sexo entre duas pessoas, casais, grupal, zoofilia. Poses sensuais de mulheres exibiam corpos perfeitos e a alegria de viver. A cada ângulo, os detalhes revelavam mais e mais belezas.
Perto da vila, outros grupos de templos. Embora bonitos, se ofuscavam pelo impacto dos templos principais. Valeu pela caminhada nas estradas e na vila velha de Khajuraho, por entre casinhas brancas com portas pequenas e baixas, chão de barro, gente colorida, muita delicadeza, limpeza. Os adultos sorriam e cumprimentavam. Desvirtuadas pelo turismo predatório, as crianças imploravam por caneta, chocolate, dinheiro.
À tarde preguiça gostosa e relaxante nos arredores da vila, ao embalo dos sons da natureza.
Ainda no escuro ônibus a Jhansi, em Uthar Pradesh, de onde o riquixá levou à estação ferroviária. Em vagão de segunda classe, quase vazio, chegada em Agra antes do tempo previsto. E mais parabéns ao eficiente transporte público e estatal indiano.
Possuidora da atração mais famosa da Índia, Agra não deixaria de contar com batalhões de chatos ainda na plataforma da estação. Cercaram e¸ com a insistência habitual, ofereceram riquixás, táxis, hotéis, passeios. Cobravam inicialmente preços altíssimos pela corrida. Alegavam que cumpriam a tabela. Tabelas de riquixás na Índia? Outros condutores se aproximaram e os preços baixaram gradualmente. E os condutores comunicaram solenemente que a região do Taj Ghanj, perto do Taj Mahal, não existia mais. Segundo eles, depois de repetidas enchentes, o governo demolira a área a fim de preservar o Taj Mahal. E que havia melhores opções de hospedagem em outros bairros, das quais, por acaso, eles tinham sugestões a mostrar. Impressionante a imaginação de inventar estórias mirabolantes para conduzir a hotéis dos quais arrancavam comissões. Nem pensar! Baixaram os preços, mais ainda. Depois de tanta encenação, um condutor de ciclo-riquixá, mais sereno, aceitou levar ao Taj Ghanj por preço justo.

A região de Taj Ghanj, claro, permanecia de pé, firme e forte, sem enchentes, sem demolições. A vista do hotel dirigido por muçulmano vestido a caráter exibia parte da cúpula do Taj Mahal.
Era o dia do nascer do sol no Taj Mahal. Ainda nem amanhecera. O Taj Mahal mudava gradativamente de cores à medida que o dia nascia. Nem o frio tirou o encanto do visual. Construído por encomenda de um muçulmano, o Taj Mahal guardava formas de mesquita. Mas, como o idealizador visava apenas guardar os restos mortais da ex-esposa, a face da construção não se voltou para Meca, impedindo que se transformasse em destino de fiéis. Foram horas apreciando as simétricas formas, de longe, de perto. Retorno ao Taj Mahal perto do meio-dia e também durante o pôr-do-sol. De todas as maneiras, sob todas as luzes, de todas as distâncias.
Mas nem tudo são flores no Taj Mahal. Os turistas dos países imperialistas, aqueles que os desinformados chamam de primeiro mundo, continuavam a dar espetáculos de má educação, desrespeito, arrogância, prepotência. Com posturas racistas, de superiores em contato com os inferiores, os sujeitos pisavam na grama, mesmo diante de avisos em inglês, grandes e visíveis. Sentavam nas escadas impedindo o livre trânsito dos demais visitantes. Empurravam. Jogavam lixo fora das lixeiras.
O muçulmano a caráter que dirigia o hotel gostava de conversar. Sempre parava para trocar frases e observações. Nunca tocou em assuntos religiosos ou tentou converter ninguém. Apenas queria falar e ouvir sobre assuntos em geral.
O vagão de segunda classe do trem para Delhi transbordou de passageiros. Não adiantou aguardar os trens seguintes. Era um mar de gente, muita gente. Permanecemos em pé, esmagados entre os outros passageiros, enquanto as mochilas eram esmagadas e pisoteadas.
Em Delhi, riquixá à outra estação ferroviária, de onde sairia o próximo trem. A estação oferecia boa infraestrutura para comer e descansar. O trem noturno entrou na manhã seguinte em Kathgodan, ponto final da ferrovia. Dali somente ônibus com destino a cidade serrana e gelada de Nainital, ainda em Uthar Pradesh.
O hotel contava com água quente no banheiro, quarto amplo com janelas, vista para o lago e para as montanhas mais ao fundo. A diária não era das mais baratas, mas a baixa temporada permitiu generoso desconto após as pechinchas de costume.
Nainital servia como destino dos indianos que se refrescavam do forte calor das planícies. Mas a temporada começaria somente em um mês. Era inverno ainda. Ventava, o frio castigava, na sombra e à noite. Ainda havia neve nas ruas e nas montanhas do outro lado do lago. A cidadezinha conquistou de imediato, com o grande lago, bazares, moradores simpáticos de tipos montanheses. A maioria dos hotéis e restaurantes se mantinha fechado e sobravam poucas opções de refeições, sobretudo à noite, em meio a ruas desertas e geladas. O céu estrelado se refletia nas águas espelhadas do lago. Era outra Índia, montanhosa, fria, bela.
A caminhada bem cedo visava alcançar o topo do pico Cheena, a poucas horas do centro da cidade. Mas já bem no alto da montanha o tempo nublara. Escurecia, ventava forte, o frio doía nos ossos. Nada feito. Meia volta volver. Descida e café da manhã reforçado em mercearia da cidade. E nos abastecemos de muita comida antes de retornar ao quarto do hotel e permanecer debaixo dos cobertores. Não saímos mais. Pela janela, deitados e aquecidos, víamos o tempo piorar. Escurecia, relampejava, trovoava, chovia, nevava, enevoava. E dificultava a visão do lago e das montanhas em frente. Delícia a preguiça. Leituras, sonecas, comes e bebes no quarto aconchegante e aquecido, dormir bem cedo.
Amanheceu dia brilhante, ensolarado, céu limpo, raras nuvens. A cidade cobria-se de neve nos telhados, árvores, veículos, ruas, estátuas.
Nova tentativa de subir o pico Cheena. Os caminhos se cobriam de neve. O branco predominava nas árvores da floresta, nas casas esparsas, no pequeno templo do início da subida. Dificuldades de avançar na neve espessa. Os pés afundavam, escorregavam, perdiam a trilha. Mas a brancura, a sombra da vegetação sobre a neve, a vista da cidade lá embaixo, compensavam as dificuldades. Mas novamente nada de topo. A trilha sumiu encoberta pela camada de neve. A fome e sede vieram com toda a força. De volta à cidade.

As ruelas e becos de Nainital se animavam pelos carregadores, as lojinhas lado a lado. A neve derretia rapidamente sob o sol, escorria dos telhados, permanecia apenas nos lugares sombreados. O cenário brilhava sob a luz típica de inverno. Reforços ao estoque de comestíveis para o quarto. Circuladas despretensiosas ao redor do lago, pelos bazares da outra extremidade da cidade. Muita leveza das sensações e prazeres.
O cardápio do bar simples do centro da cidade não ia além do chowmein e do divino masala dosa. Foram vários dessas maravilhas apimentadas, sempre regadas a xícaras de café com leite bem quente e cremoso coberto com chocolate em pó.
Subida do pico Tiffin, do outro lado do lago, por trilha fácil e agradável. A visão da cidade e da cordilheira do Himalaia ao fundo era impressionante. Animados com a visão das montanhas, nova tentativa da subida do pico Cheena. Após ultrapassar o ponto de impasse do dia anterior, o rumo certo, um pouco mais visível, entre florestas cobertas de neve. A luz do sol penetrava por entre as árvores e brilhava todo o cenário. Caminhar sobre a neve era desgastante, mas as diferentes paisagens espantavam o cansaço. E, depois de subir mais e mais, caminhar bastante sobre neve escorregadia, finalmente o topo do pico Cheena. Na terceira tentativa. E que visual! A extensa faixa da cordilheira do Himalaia dominava o horizonte com dezenas de picos nevados. Nainital e o lago azulado marcavam a visão do lado oposto. Difícil descrever exatamente os sentimentos. Demais! Ninguém queria sair dali.
continua...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

do Nepal ao Camboja (parte 7/12)

...continuação
Vestindo roupas demasiadamente sociais, calças, cinto, camisa por dentro das calças, sapatos e meias, os indianos pós-adolescentes perambulavam pela praia observando as turistas ocidentais de biquínis ou maiôs. Ao se aproximarem, diminuíam o passo e as olhavam de queixo caído. Raros os indianos que tiravam as roupas sociais, ficavam à vontade ou entravam no mar. As indianas, dentro de coloridos e insinuantes saris, apenas permaneciam sentadas na areia e, de longe, apreciavam a paisagem e a diversão dos homens da família. Os olhares revelavam sonhos e desejos não permitidos pela opressão machista da sociedade indiana.
Visita ao conjunto de templos mais ao sul da cidade. Cercado e com cobrança de ingressos, o complexo interessava pelo todo, perdendo feio nos detalhes para os templos da beira da praia. Os becos de Mahabalipuram se decoravam para o Pongal. Os moradores desenhavam figuras coloridas nas calçadas e ruas de areia, geralmente em forma de plantas e flores.
A cada dia o céu ficava mais limpo e a cor do mar se acentuava em tons azulados ou esverdeados. A correnteza diminuía e as águas se tornavam mais límpidas. Mas, na extensa praia de tombo oferecendo sequência de ondas ininterruptas e mar agitado, era entrar, tirar o suor, balançar para cá e para lá, voltar para a areia. Eram ali todos os finais da tarde. A luz do entardecer valorizava a beira do mar, becos, casinhas de pescadores, grutas, templos.

Depois de meses pela Índia, com olhos anestesiados, as coloridas roupas femininas já não chamavam tanto a atenção. Não que os saris, punjabis e sarongues não merecessem elogios. Apenas tinham perdido o impacto da novidade. Os indianos do sul chamavam mais a atenção e se diferenciavam dos colegas mais ao norte. A maioria vestia sarongues, estampados ou não, soltos até os tornozelos ou recolhidos acima dos joelhos para espantar o calor. Os tons da pele, no entanto, em ambos os sexos, evoluíam para o escuro.
A cidade amanheceu para o dia principal do Pongal. O comércio estava quase todo fechado. Moradores saíam às ruas para festejar. Não faltavam bêbados cambaleantes. Policiais observavam o movimento. Crianças entravam nos restaurantes turísticos e, com o cofrinho nas mãos, desejavam Feliz Pongal. E pediam dinheiro, por tradição ou por mendicância vinda do turismo.
Pela praia ao entardecer, a fim das despedidas da areia e do mar. Adolescentes e pós-adolescentes indianos, levemente bêbados, nos cercaram. Ela entrou no mar. Não desgrudavam os olhos na expectativa de a verem sair da água de maiô. Mudei de lugar na areia e ela fez o mesmo nadando. Não adiantou. Continuavam seguindo. Ao tentar espantá-los, me perguntavam o nome. O turismo predatório, aliado à invasão do lixo cultural ocidental, combinado com a sociedade indiana machista e repressora, provocava cenas absurdas como aquelas. Mas não com os mais velhos, mais simples, ainda imunes às influências do exterior, guardando mais simpatia, hospitalidade, tolerância.
Cedo o ônibus logo entrou na doce cidade de Chenai, o paraíso na Terra. Que alegria estar em cidade tão bela e acolhedora! Mas finalmente uma sorveteria, tão comum na Índia central, raras por ali. Foram duas enormes taças de três bolas, várias caldas, castanhas. Ainda sobrou espaço para a coalhada batida com sorvete de café. Aqueles sorvetes fizeram mudar o mundo.
Noite para comer masala dosa no bar instalado em sobrado horrível, cheio, desorganizado, esfumaçado, com atendimento odioso. Mas, quando chegava o soberbo masala dosa, nenhum mal ou problema existia, apenas prazeres diante da naquela delícia.
O trem procedente de cidades mais ao sul atrasou. O compartimento que continha os assentos e as camas reservadas estava entulhado de malas, sacolas, comida, bugigangas, pertencentes à família de quatro indianos de Calcutá. Como uma das camas era no nível superior, a usávamos para largar as mochilas durante o dia. Quando comia, a família se espalhava, não sobrando espaço para ninguém. Mas surgiram boas conversas durante o trajeto.
À noite o jeito foi dividir o exíguo espaço das camas com as grandes mochilas. Não conseguimos relaxar, nem pregar os olhos. E, na cama acima, um dos bengaleses roncava feito trator na subida com o afogador entupido.
As mais de vinte e quatro horas do trajeto cruzaram o nordeste de Tamil Nadu, Andhra Pradesh de sul a norte, o sudeste de Orissa. Além dos bons papos com os demais passageiros, daquele e de outros compartimentos, valeu o variado serviço de comida vendida nos vagões pelos ambulantes, aparecendo a todo instante com algo para comer, beliscar, beber. O cardápio incluía thalis completos, samosas, bolinhos, frituras em geral, pães, doces, sorvetes, frutas variadas, inclusive goiabas vermelhas e gordas salpicadas de pimenta vermelha.

Os banheiros nas extremidades dos vagões se separavam entre os de estilo indiano e os de estilo ocidental. Os primeiros não possuíam vaso sanitário, apenas latrina pouco acima do nível do chão. Mais higiênicos ao impedirem contatos físicos e mais convenientes nas eventuais prisões de ventre, foram os eleitos em todos os trens na Índia.
Desembarque do trem lotado em Khurda Road, estação de conexão ferroviária rodeada de poucas e esparsas casinhas.
Os moradores do vilarejo aos poucos se aproximaram da estação ainda vazia. E, tomados de infinita curiosidade, se aproximavam mais e mais. Revelavam expressões de espanto e perplexidade diante de seres tão incomuns. Os mais corajosos chegavam bem perto e olhavam estupefatos. Não acreditavam no que viam. Dois estrangeiros despenteados, sujos, vestidos como malucos, com bagagem esquisita nas costas. Adolescentes na maioria se arrumaram e se pentearam antes de se aproximar. Não assimilavam um ser do sexo feminino, vestido de camiseta, calça esverdeada, com cabelos pretos e cacheados, um enorme saco junto ao corpo. Um deles vestia camisa e calça folgadas, ambas sociais e coloridas, sandália de dedo e, apesar do calor, cachecol verde limão cuidadosamente enlaçado no pescoço. Às vezes puxava o pente do bolso traseiro da calça e ajeitava as franjas dos cabelos pretos e lisos. Escolheu postura e olhar de ator de cinema indiano e se posicionou na frente dela. A menos de um metro de distância, cruzou os braços, se compenetrou e examinou cada centímetro. Os olhos dele percorriam o corpo dela de baixo para cima sem deixar nada despercebido. Quanto mais a olhava e a analisava, menos ele compreendia. Não pronunciou nenhuma palavra. Depois de tentar em vão explicar o inexplicável, se retirou cheio de interrogações. Outros se seguiram nas infrutíferas investigações e partiam intrigados de volta às casas.
Horas depois o trem de passageiros chegou, lotado. E partiu lotadíssimo. Fomos empurrados no canto próximo à porta do vagão e esmagados pelos passageiros que entravam ou saíam. E todos nos olhavam como se fôssemos extraterrestres.
Desembarque em Puri, amassados, cansados, com as pernas bambas, braços doloridos. Aceitamos o primeiro hotel, pequeno e razoável. Era Orissa, mais um estado indiano com língua, escrita e culturas diferenciadas. Nocauteados pelos dois desgastantes trajetos ferroviários, jantar e cama cedo. Camas confortáveis, poucos mosquitos, temperatura agradável, contribuíram para o sono ininterrupto.
Após café da manhã reforçado, caminhada ao centro da cidade nas imediações do templo hindu de Jagarnath. Como de praxe, não permitiam a entrada de não hindus. Ao redor, o febril movimento dos fiéis, religiosos, homens sagrados, peregrinos, mendigos, vendedores em geral, vacas, búfalos. O colorido e a vida pulsante impressionavam. Os becos nas proximidades do templo, sem turistas, tranquilos, se ocupavam por gente simples e gentil.

De micro-ônibus ao vilarejo de Konark. Deslumbrante o complexo do templo do Sol, entre diversas construções distribuídas nos gramados. Seduzia pela grandeza e imponência, apesar de pontos em ruínas e mal conservados. Milhares de figuras finamente trabalhadas nas paredes de rocha mostravam cenas eróticas, danças, poses sensuais. Em certos momentos parecia que não daria mais para suportar visitas a templos. Mas, ao deparar com construções imperdíveis, a emoção brotava ao lado do desejo de contemplar por mais tempo. Assim era com Konark, tombado formalmente pela UNESCO. Mas a entidade não contribuía com dinheiro ou assistência. Era uma placa e nada mais.
Ao contrário de Tamil Nadu, terra de gorduchos e barrigudos, os habitantes de Orissa apresentavam corpos magros e franzinos, ainda de tez escura, mas pequenos e esqueléticos.
Puri reservava atmosfera calma, com pouco movimento nas imediações da praia. Pelo labirinto de cabanas de palha montadas sobre a areia da vila de pescadores, poços comunitários, peixes espalhados para secagem, gente colorida e alegre chamando e saudando. As crianças irritavam pelo assédio, pedindo dinheiro, caneta, fotos. As principais atividades ocorriam fora das cabanas, em espaços comuns, tornando constante o contato entre os moradores. O passeio fascinava do início ao fim, entre cenas emocionantes, marcantes.
À beira-mar, o belo e o horror se misturavam. Homens teciam, consertavam redes de pesca, ou, junto a mulheres e crianças, as puxavam do mar, num forte colorido de roupas. Como contraponto, merda, mas muita merda mesmo, e lixo amontoado, se estendiam ao longo da linha da maré. Cemitérios de peixes se espalhavam na areia, ao lado de carcaças de tubarões, enguias que mais pareciam cobras, caranguejo com jeito de aranhas. Sem falar nas águas-vivas e cachorros mortos às dezenas largados na beira da água.
Resolvemos mudar a disposição do quarto hotel. As lâmpadas do banheiro foram para o quarto, que, sem o lustre, ficou mais claro e agradável. Giramos as duas camas em noventa graus. Diante do pouco espaço interno, a operação foi difícil e barulhenta. Caíram pedaços da armação do mosquiteiro que estavam presas à janela pelo varal de roupas improvisado. Quase quebrei o vidro da janela no momento em que ajeitava as ripas de madeira. As mudanças trouxeram mais claridade e espaço livre.
A praia de Puri se dividia etnicamente em duas partes. Os indianos permaneciam ao sul, os estrangeiros e ocidentais se postavam ao norte. A maioria dos indianos se compunha de turistas provenientes de Calcutá. As mulheres se vestiam de sari, da cabeça aos pés, sob o sol, em plena areia da praia. Às vezes levantavam poucos centímetros da roupa e molhavam os pés. Raras as que entravam no mar e jamais tiravam o sari. Os homens que se banhavam usavam apenas calções, sem as camisas. Não se cansavam de tirar fotos, sempre em grupos, fazendo poses de cinema.
À noite esfriava suavemente. O céu amanheceu azul e sem nuvens. Mas, calor mesmo, só perto do meio-dia. Caminhadas sem compromisso pela região do templo Jagarnath, pelos becos, em meio ao dia a dia das pessoas. Leituras durante boa parte da tarde na sacada do quarto do hotel. Preguiça bem-vinda. Puri não contava com praias lindas. Mas o conjunto agradava. A sensação de rotina, vez ou outra, caía bem. E sempre vinha mais um dia de estadia em Puri.
Nos diversos restaurantes experimentados a comida nunca passou do comível. Nenhum lugar muito bom ou muito ruim. O café da manhã tornou-se a vedete do dia. Saboroso demais, em especial a coalhada caseira. Os lugares favoritos daquele lugar cativante mereciam incontáveis repetições. Vila de pescadores, becos ao redor do templo Jagarnath, praia, recepção dos barcos vindos do mar seguidos de leilões dos peixes frescos, sol, pôr-do-sol.
Viagem tranquila e rápida em vagão de segunda classe no trem para a capital de Orissa, Bhubaneswar. Para não perder o costume, o mapa da cidade no tal guia estrangeiro reservava erros grosseiros e fez dar voltas desnecessárias até o ponto desejado.

Comemos thali insípido em ambiente pesado. Os thalis variavam de estado para estado. Aquele fora o thali típico de Gujarat, adocicado, provocando saudades dos saborosos thalis de Tamil Nadu. Barraquinhas vendiam pan, um coquetel de pós, sementes, cremes, envoltos em folha de bethel. Feito para mascar, tornava-se mania entre homens e mulheres de Orissa. Mascavam e cuspiam líquidos, deixando o calçamento das ruas cheias de manchas coloridas, os lábios e dentes avermelhados.
Orissa contava com comunidades isoladas da chamada civilização, mantendo estilos de vida intocados há milhares de anos. Depois de experiências mal sucedidas com o turismo, o governo indiano suspendeu a visitação àquelas áreas.
À noite, minúsculos pontos, em geral nas calçadas, serviam pratos da cozinha chinesa, como sopas substanciosas, rolinhos primavera, chowmein. Só funcionavam no início da noite e não ofereciam lugares para sentar. Era de pé ou sentados nas guias das calçadas ao lado dos fregueses.
 Longa distância separava o centro da região dos templos da capital. Pelo caminho, multidões e congestionamentos nas ruas e avenidas. Bhubaneswar revelava o charme durante a noite. A tênue iluminação pública e do comércio proporcionava atmosfera instigante. Miniaturas de lojinhas vendiam doces, bebidas, sorvetes, pratos rápidos da culinária chinesa. E nas ruazinhas transversais, incrivelmente fazia silêncio, ou pouco barulho, fornecendo à cidade peculiaridade especial e cativante. Mas somente à noite.
Desta vez foi moleza dormir no trem noturno a Varanasi. O compartimento jamais lotou. Dava para relaxar, esticar, escolher posições, e até deitar antes do horário estipulado. O serviço de bordo não chegava aos pés das outras linhas, mas abasteceu o estômago. Adormeci. Desembarque em Varanasi, no estado de Uthar Pradesh, no meio da manhã.
continua...

sábado, 12 de fevereiro de 2011

do Nepal ao Camboja (parte 6/12)

...continuação
Em Kerala não se via tanta vaca, religiosidade, lassi e coalhada como nos estados da parte central do país. Sem ser bonita ou marcante, Kollan seduzia pela simpatia e simplicidade.
De trem em percurso rápido até Thiruvananthapuran, a capital de Kerala. O quarto da espelunca escolhida vivia na penumbra devido às lâmpadas quebradas. Os funcionários jamais as trocavam. Os mosquitos reinavam absolutos. Do chuveiro do banheiro, caíam apenas pingos isolados.
De nome tão longo, Thiruvananthapuran desagradava da cabeça aos pés. Não faltava sujeira e barulho pelas ruas. Restaurantes ruins mantinham a má reputação culinária de Kerala. E a turística praia de Kovallan, perto dali, repelia com preços altos, acesso ruim, frequência de estrangeiros convencionais, rumores de pequenos roubos.
Era a virada do ano. De antes da meia noite até alta madrugada o hotel mergulhou em gritaria. Misturados com hóspedes estrangeiros, funcionários imitavam os gringos, berravam, dançavam, se embebedavam, punham músicas ocidentais no último volume. Nada nos seduzia a participar. Tudo era agressivo e sem graça. Os terríveis mosquitos atacaram no escuro e nem o ventilador os expulsou.
De ônibus local à praia de Kovallan. O conjunto de diversas praias guardava ainda parte do charme original, anterior à invasão do turismo, se compondo de coqueirais ao lado de pequenas baías, rochas, pescadores com redes e barcos típicos. Os melhores pontos se afastavam da agitação internacional e ofereciam praias mais bonitas, preservadas, quase vazias. Mas o turismo predatório, com loiros selvagens do tipo que estavam no barco pelos canais, maltratara demais a natureza. Vendedores de bugigangas e pedintes abordavam a todo instante, grudavam, insistiam, tiravam chances de momentos de paz. Algumas turistas tiravam a parte de cima do biquíni em flagrante desrespeito à cultura local.

No cinema de Thiruvananthapuran para assistir a filme falado em tamil. Não havia legendas, mas a estória simples divertia. O personagem principal se vestia de mulher para se aproximar da amada, se envolvendo em trapalhadas ingênuas. As cenas de dança se destacavam pelos cenários inusitados e alheios ao filme. Do nada, surgiam dançarinos de dentro de vagões de metrô, bailavam pelas plataformas e escadarias e, em segundos, passavam a bailar em montanhas nevadas. O público acompanhava com palmas. A sessão durou três horas, com intervalo, mas passou rápido.
Os filmes indianos não possuíam legendas, apenas o som original. E isso em país cuja maioria dos estados falava apenas a própria língua. Nos suplementos culturais dos jornais, os filmes anunciados vinham separados, em hindi, kanada, malalayo, tamil, bengalês, inglês, entre outras. Não era à toa que a Índia tinha a maior produção cinematográfica do mundo. Em sessão do meio da tarde de dia útil, o cinema lotava e longa fila se formava do lado de fora. Os atores atuavam em vários filmes ao mesmo tempo. Cenas podiam ser reaproveitadas em outros filmes. Havia debates no parlamento indiano sobre projeto de lei que tratava da proibição do mesmo ator atuar em mais de trinta filmes ao mesmo tempo. Jamais descobri como chegaram ao número trinta, mas fornecia ideia das dimensões da indústria cinematográfica indiana.
Não havia linha ferroviária de Thiruvananthapuran ao estado de Tamil Nadu. O ônibus noturno, velho e sujo deixava para trás Kerala, o estado indiano sem coalhadas, sem vacas nas ruas, de comida insípida, dos turistas ocidentais e selvagens.
Amanhecia no desembarque em Madurai, sul o estado de Tamil Nadu. O bagageiro inferior do ônibus lambuzou de óleo e graxa as mochilas. Depois de tentar hotéis pavorosos, sujos e caindo aos pedaços, escolhemos um ainda inteiro, com o quarto em andar alto.
Na cidade sagrada de Madurai, a Índia de verdade. A atmosfera indiana seduzia em cada beco, esquina, num prazer indescritível em se perder nos trechos mais escondidos da cidade. A um quarteirão do hotel, inúmeras vacas, ciclo-riquixás, bazares, pequenas cerimônias, aquela confusão absurda nas ruas, cruzamentos, pedaços de calçadas. Era gente, muita gente. Vida pura. Viva! O mais importante estado do sul da Índia se destacava pelas construções dravidianas. Junto com os Vedas, os Dravidianos são considerados os povos fundadores da Índia, não sofrendo influências dos invasores da Ásia Central que deixaram marcas na arquitetura, culinária, religião e costumes na Índia Central. Principal etnia do estado, de pele escura, o povo tamil é herdeiro direto dos Dravidianos.
Visita aos interiores do principal templo hindu e centro de peregrinação da cidade. Nos quatro cantos do complexo erguiam-se torres altas ornamentadas com divindades em alto relevo e intensamente coloridas. A força do templo residia na amplidão e nas atrações aos peregrinos. Tanto que em extensas áreas internas e em meio aos pilares, espalhavam-se dezenas de lojinhas e barracas de artigos religiosos, artesanato, bijuterias, lembranças. Os pedintes, verdadeiros atores, estalavam até chicotes para obter o dinheiro. Resistimos bravamente sem contribuir com a mendicância.

Madurai merecia mais dias de explorações. Nada de viajar, mudar, procurar hotéis. Melhor soltos, entre voltas e mais voltas pelas ruelas, pequenos templos. Sem pressa na contemplação da movimentação dos peregrinos e habitantes. De vez em quando conversas com palavras, sinais, sorrisos. Os moradores saíam das casas ou se debruçavam nas janelas para se comunicarem. Os homens vestiam sarongues estampados, curtos pelo calor. As mulheres não abriam mão dos belíssimos saris.
Madurai é Índia!
As páginas do guia estrangeiro continuavam com os escândalos de desinformação. Além de erros e omissões constantes, faziam questão de enfatizar detalhes em desrespeito à cultura indiana. Exageravam nas dicas sobre bebidas alcoólicas, sobretudo onde se proibia a comercialização, chegando ao disparate de indicar onde tinha ilegalmente, como pedir discretamente, até como subornar garçons. Para o tal guia, o bar ou restaurante merecia ou não indicações se vendia cerveja. A maioria dos turistas de mochila carregava o guia debaixo do braço, para todos os lados, seguindo-o fielmente, como bíblia.
Fora da cama ainda no escuro devido ao volume das músicas religiosas vindas dos alto-falantes. Em trem vazio, um casal de alemães se sentou no mesmo compartimento, após percorrer toda a plataforma na busca do melhor vagão. Com menos de trinta anos, eram simpáticos e comunicativos, apesar de ela não falar praticamente nada de inglês. Em poucas horas, sem atrasos, chegávamos a Thiruchirapalli.
Depois de nos perdermos nas ruas da cidade, graças aos erros no mapa do guia, nos instalamos em hotel decadente, com quartos e banheiros imensos, encanamento com problemas, telas contra mosquitos destroçadas nas janelas, amplas sacadas privativas. Era construção mal conservada em meio a parque semiabandonado. Silêncio e tranquilidade.
O restaurante animado, com mesas ao ar livre, frequentado apenas por indianos, parecia sujo e mal cuidado. Os turistas estrangeiros não tomavam a coragem de arriscar. Arriscamos. E valeu e muito a pena. Servia a legítima comida vegetariana do sul da Índia. E legítimo também o atendimento. Desorganizado, rude, descuidado. O inglês do garçom misturado com o sotaque tamil era quase incompreensível. Mas o que mais importava era a comida. Perfeitos os inúmeros masala dosa, idli. E usando apenas as mãos. Foi um banquete deliciosamente apimentado. Para acompanhar, chá com leite ou café com leite cremoso. Os olhos brilhavam, o estômago agradecia. Viramos atração na mesa cercada de indianos. Além do garçom principal, havia crianças que recolhiam pratos e copos. Vez ou outra, paravam em grupos e ficavam a nos observar, rindo, bem de perto. O casal alemão nos viu da rua e entrou também, apesar da desconfiança com o aspecto. Surgiu empatia entre os quatro e os assuntos não acabavam. O dialogo entre ela e a alemã chamava a atenção. Quase não falavam, se restringiam a substantivos, adjetivos, verbos soltos. Mas se comunicavam.
O restaurante fechou, seguimos pelas ruas, entramos na área do hotel. As conversas não esfriavam. Ainda mais que o casal partiria na manhã seguinte.

 Após café da manhã tardio, ida ao templo principal, encravado acima do rochedo. Trechos fascinantes ao longo dos bazares próximos às escadarias. O templo conquistava mais pela localização privilegiada e a vista do alto do que pelos discretos interiores. Valia a visita, a caminhada, a subida.
De volta ao centro da cidade, o restaurante com aspecto mais desanimador que o da noite anterior. Era frequentado por indianos bem simples e servia apenas o thali, espécie de rodízio vegetariano do sul da Índia. As instalações eram para lá de precárias. Sem cardápios ou pedidos, esperamos o início dos serviços. Puseram folhas de bananeira sobre a mesa, uma para cada um, depois de limpá-las com panos encardidos tirados de balde com água escura. Em frente a cada uma das folhas de bananeira dispuseram diversos e pequenos potes de tempero líquido e de legumes cozidos. Outro garçom apareceu com enorme caldeirão e esparramou uma montanha de arroz branco sobre a folha de bananeira. Apareceu mais um e despejou um punhadinho de coco ralado ao lado do arroz. Outro ainda trouxe o pão que, de tão grande e fino, se desfazia assim que o tocávamos. Nada de talheres, apenas a mão, a mão direita. As mesas ao lado não paravam de nos observar. E atacamos. Formávamos blocos de arroz, juntávamos com coco ralado, mergulhávamos em um ou mais dos molhos à frente. Beliscávamos pedaços do pão delgado. O sabor agradava, sobretudo pelos molhos fortemente apimentados e diferentes entre si. Bastava baixar a montanha do arroz, o coco ralado desaparecer, o pão acabar ou os molhos secarem, para os garçons imediatamente reabastecerem sem dó nem piedade. Se não implorássemos para parar, iríamos até o estômago estourar. E deixavam também a jarra de água de torneira sobre as mesas. Preferimos água mineral. Queríamos viver muito ainda... Viramos, como não podia deixar de ser, a grande atração do restaurante. Os demais estrangeiros jamais entravam ali. Os garçons e clientes nos sorriam e apoiavam quando aceitávamos mais arroz, coco, pão, molhos. No final, as mãos direitas estavam para lá de lambuzadas. Não havia e nem precisávamos de guardanapos. Pias providenciais socorriam os clientes nos fundos do restaurante. Saímos satisfeitos sob os olhares sorridentes de todos.
Thiruchirapalli, agitada e barulhenta como autêntica cidade indiana, reservava povo simpático, curioso e, na maioria, desprovido de segundas intenções. A imagem do hotel evoluiu com o tempo e se tornou quase ideal. Tiramos proveito da imensidão do quarto, do banheiro, da sacada ampla e com cadeiras sombreadas, do silêncio nos corredores e demais dependências.
Café da manhã na base de ovos mexidos temperados com cebolas e condimentos. De ônibus local ao enorme e fascinante complexo de templos hindus de Sri Ranganathaswamy. Maravilhoso! Não nos cansamos de nos deslumbrar com a arquitetura e em percorrer os ricos interiores, cruzando portais dos vários círculos murados e concêntricos. Templos, oratórios, salões com centenas de colunas esculpidas. E o vaivém dos peregrinos e fiéis. A atmosfera nas diversas partes internas seduzia pela paz e ficamos horas por ali sem sentir cansaço ou monotonia. De ônibus à noite para Thiruchirapalli.
De trem à cidade de Thanjavur. Valeu e muito explorar o complexo hindu que incluía templos de diversos tamanhos em ótimo estado de conservação. De cor natural e dedicados a Shiva, apresentavam ricos trabalhos em pedra para formar figuras divinas em alto relevo. Impressionantes pinturas nas paredes e tetos retratavam o cotidiano da época. Nada de pressa por entre as várias construções para apreciar tanta beleza preservada. Retorno a Thiruchirapalli em trem lotado. Pela porta da extremidade do vagão, as paisagens próximas à ferrovia.
Para não perder o costume de comer bem no jantar, mais prazeres com os pratos vegetarianos do sul da Índia no restaurante favorito.
Em trem moderno rumo à capital do estado de Tamil Nadu. Na época ainda chamada de Madras, Chenai representava a filial do inferno na terra. Em quase todos os sentidos.

Nos hotéis mais em conta, nas imediações da estação ferroviária, sempre a mesma resposta seca: “está cheio”. Em qualquer dia, em qualquer hora, a resposta seria sempre a mesma: “está cheio”. Parecia gravação. Sobrou hotel cobrando quatro vezes mais que as diárias habituais em outras cidades indianas. E ainda incluíam mais 20% de “taxas” sei lá de quê. A recepção levou a quarto pequeno, abafado, com odor de mofo e baratas circulando impunemente. Com jatos fracos e irregulares, o chuveiro do banheiro mais molhava a parede.
As ruas de Chenai estavam arrebentadas, esburacadas, sujas, barulhentas. O atendimento na maioria dos lugares primava pela desorganização e rispidez.
Para a compra das passagens de trem ao estado de Orissa, através da concorrida linha entre Chenai e Calcutá, foi uma verdadeira via sacra. Foram quatro lugares distante entre si, invariavelmente mal atendidos e enfrentando imensas filas. Somente depois de cinco horas de peregrinações e chateações conseguimos os tão preciosos bilhetes de trem.
Entre ofertas apenas em inglês, escolhi o livro Cousin Bette, de Honoré de Balzac em sebo despretensioso do centro da cidade.
Mais cansaço para obter informações sobre ônibus para a cidade litorânea de Mahabalipuram. Não havia ferrovias até lá e ninguém informava nada de útil.
E mais facetas de Chenai no terminal rodoviário oficial. Era o caos completo. Não havia nenhum tipo de lógica no funcionamento. Nem Gujarat era tão confuso. Não existiam plataformas nem horários ou destinos afixados nos veículos. Corríamos com as mochilas nas costas de um lado para outro, completamente perdidos, na tentativa de descobrir qual, dentre as dezenas de ônibus, seguiria para Mahabalipuram. Abutres queriam cobrar para conseguir assentos nos ônibus desejados. O exército de parasitas seguia e assediava. Foram inúmeras consultas a vários motoristas até encontrar, entrar e sentar tranquilamente no veículo certo. Mesmo assim, surgiu do nada um pivete que pedia dinheiro, alegando ter sido ele quem encontrara o ônibus. Está esperando a grana até hoje! Livres, por alguns dias, de Chenai.
O curto percurso transcorreu rapidamente à pequena Mahabalipuram. Rodamos bastante para encontrar hotel barato oferecendo quarto básico com mosquiteiro, banheiro e chuveiro forte.
Durante a madrugada, as músicas dos alto-falantes de templo próximo ao hotel. Crianças batiam lata incessantemente. O Pongal, festival da colheita, se aproximava e a cidade não dormia. Os moradores de Tamil Nadu seguiam o rumo normal da vida.
Mahabalipuram abrigava os únicos templos localizados na beira da praia em toda a Índia. Eram maravilhosos com os trabalhos em rocha, externa e internamente, grutas. Esculturas, elefantes entalhados, cenas do hinduismo e da história dos ancestrais do povo tamil de mil anos atrás se distribuíam pelos quatro cantos do complexo. O encanto provocado pela beleza e riqueza dos templos compensava o assédio dos pedintes, vendedores de bugigangas, crianças insistentes.
continua...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

do Nepal ao Camboja (parte 5/12)

...continuação
Embarque à noite em vagão dormitório com quatro camas largas e confortáveis por compartimento. E o funcionário do vagão ainda me entregou roupa de cama completa, limpa e cheirosa, multiplicando o conforto. Ao lado, o indiano visitaria a família depois de estudos na Inglaterra. Dormi bem a noite curta em cama confortável. Que delicia estar de volta aos ótimos trens indianos!
O estudante sugeriu o desembarque na penúltima estação. Assim daria para pegar o segundo trem sem trocar de estação ferroviária em Mumbai, a maior e mais populosa cidade da Índia. Seguimos até o final e nos demos mal. O tempo apertado nos obrigou a morrer com táxi, da estação ferroviária de chegada até a estação de partida. O motorista aproveitou a pressa e esfaqueou cobrando adicional pelas bagagens no porta-malas, pela rapidez do percurso, por sei lá mais o quê. O veículo naquela manhã atravessou a orla de Mumbai, o mar, prédios altos, ruas arborizadas, dezenas de restaurantes e bares. Em cima da hora, embarque no trem com vagão tradicional, bancos acolchoados e ventilação natural. Havia lugar marcado para até quatro passageiros no banco, mas nos momentos mais cheios sentaram cinco ou seis pessoas. Parada longa na cidade de Puna, famosa no ocidente pelos centros de estudos filosóficos e religiosos, chamados de ashram, uns autênticos, outros nem tanto.
Desembarque em Solapur, ainda no estado de Maharasthra, no final da tarde, depois de dois dias e duas noites em trânsito. Do hotel, nem precisou atravessar a rua da cidadezinha para encontrar restaurante com legítima comida indiana, saborosa, em quantidade para ninguém botar defeito. E mais sucos de manga.

Embarque matinal a Badami em trem ainda mais simples que o anterior, cruzando a fronteira do estado de Karnataka por paisagem plana, muito verde, plantada. Os habitantes revelavam tons de pele mais escuros. Em trem quase vazio, conversas e trocas de sinais e sorrisos com os passageiros que faziam várias perguntas, pediam endereços, adoravam ver e tirar fotos. E apareceu novamente o casal de franceses, ele bom de papo, ela muda e com cara de desgosto.
Na estação ferroviária de Badami, charrete compartilhada com os dois franceses, em longo percurso até a cidade, em meio ao aperto das bagagens amontoadas. Logo após a instalação no hotel, a parede vizinha do quarto ao lado começou a ser derrubada. E a barulheira e a poeira dominaram o ambiente.
A dúzia de bananas, os pães de canela e a água mineral encheram o bucho no café da manhã.
Viva! Dia sem viagens em ônibus ou trens, sem embarques e desembarques, sem carregar mochilas. E livre para apreciar as belezas da Índia. Badami contava com rua principal que a cortava de ponta a ponta, ao longo da qual se dispunha o terminal rodoviário, pontos de ônibus, charretes e carroças, hotéis, restaurantes, algumas árvores. A cidade atraía pela simpatia das casas claras, becos estreitos, moradores alegres. As crianças pediam de tudo, canetas, balas, dinheiro, insistentes como moscas. Os alto-falantes das mesquitas chamavam os fiéis para os cultos e orações.
No fundo da cidade se erguiam enormes paredões de arenito avermelhado, guardando templos, grutas, ruínas de fortes encravados na rocha, e entre tudo, um imenso lago de águas esverdeadas. Extensas e sinuosas escadarias levavam aos pontos mais pitorescos das escarpas. Trabalhos em alto relevo, esculturas, colunas, imagens e pinturas desgastadas, predominavam no sitio arqueológico. Era o tipo de lugar para andar a esmo, sem pressa, despretensiosamente. Nada de rigor, muito de descontração.
A lanchonete especializada em comidas rápidas do sul da Índia, servindo masala dosa e idli, se transformou na preferida para os jantares. Eram vários deles para matar a fome, entre conversas com os frequentadores. Um senhor de sarongue branco, emaranhado em baixo das pernas como os usados por Gandhi, se aproximou e, sem mais introduções, perguntou: “quantos filhos vocês têm?” E se sentia satisfeito com a resposta, a felicidade brilhando no rosto.
Ônibus local à cidadezinha de Patadakal. Valeu pela harmonia e beleza do complexo de templos, embora nos detalhes deixasse a desejar, com imagens e esculturas gastas e mal conservadas.
Mais dois trens simples, em vagões quase vazios, pelo norte de Karnataka, até Hospet. O segundo trem parou fora da plataforma obrigando todos a desembarcar entre os trilhos e as dormentes. Nesse momento um garoto com o rosto coberto por máscara de festa regional aproveitou e passou a mão no meio das pernas dela. Mais à tarde, depois de bem hospedados, o encontramos na rua. Ela o reconheceu, mesmo sem a máscara, e o cobriu de tabefes e chutes. Prováveis familiares, dele e dos amiguinhos, se sentavam na porta das casas e assistiram imóveis à cena, talvez desconfiando das razões. Hospet era barulhenta, empoeirada, cidade indiana de verdade.
Depois de noite bem dormida e farto café da manhã, ônibus lotado até Hampi, permanecendo de pé e esmagados durante todo o percurso.

O complexo de ruínas de Hampi se compunha de construções isoladas em extensa área formada por morros, vales e planícies. Os enormes blocos rochosos se amontoavam de maneira esparsa, eram acinzentados, pouco ou nada trabalhados, muitas vezes escorados por colunas, também de coloração cinza, funcionando como remendos recentes, mal feitos, destoando do conjunto. Apenas os templos de Vittala e Hazara Rama se destacaram. Estátuas, colunas, trabalhos em alto relevo nas pedras, ornamentavam as construções. Valia pelas caminhadas sem compromisso pelas trilhas que levavam às ruínas. Pouca gente circulava pelas imediações, garantindo paz e tranquilidade durante as explorações. Na parte mais baixa do complexo, à margem do lago, moradores, vestindo sarongues, saris, túnicas, subiam em barcos redondos rumo à zona rural.
No dia seguinte percorremos novamente as trilhas, de maneira solta e despreocupada. E a avaliação positiva compensou. A vila de Hampi, no entanto, transformava-se a passos largos em mais um daqueles guetos turísticos previsíveis. A proliferação de pousadas, restaurantes e bares ocidentalizados, tráfico de drogas em meio a estrangeiros pseudoalternativos, lixo sonoro estadunidense, a fauna característica que infestava esses pontos, retiravam o pouco que restava da atmosfera autenticamente indiana.
Muitos turistas ocidentais carregavam consigo a inseparável cola, o roteiro informal preparado a partir de experiências anteriores por viajantes conhecidos deles. Na cola havia aonde ir, como ir, onde se hospedar, onde comer, o que ver, o que não ver, o que buscar, o que evitar. Tudo enfim. Seguiam fielmente o que estava escrito na cola. Jamais desviavam um milímetro sequer do estipulado. O que foi feito dos mochileiros aventureiros e exploradores?
Conseguimos sentar em banco arejado e estrategicamente posicionado no ônibus de volta a Hospet. Mas o danado quebrou poucos metros depois. Desembarcamos e tivemos que esperar o seguinte, que partiu lotado. De novo de pé e tentando segurar onde e como podia.
Fomos acordados antes do amanhecer pela poluição sonora. Não das ruas da cidade, mas dos corredores e portas do hotel, onde inúmeros funcionários gritavam, lavavam o piso, batiam e esfregavam portas, pregavam batentes. A barulheira vibrava pelas paredes e móveis. Era a Índia.
Preguiça nos jardins do hotel esperando o embarque no trem noturno. O estômago chiava e as suspeitas recaíam sobre o carneiro ensopado com o qual me empanturrara na noite anterior. Mas o prato estava divino, esplendidamente temperado, como sempre. As travessas ficaram vazias e reluzentes após raspá-las com vários chapattis para não perder nem uma gota daquela delícia.
Desembarque no início da manhã na estação ferroviária de Bangalore. Ao tentar adquirir as passagens de trem noturno para Ernakulan caímos em lista de espera. Os prestativos funcionários da estação sugeriram as cotas de emergência. E funcionou, bem e rápido. Em minutos, lugares marcados e confirmados. O sistema ferroviário público e estatal da Índia demonstrava cada vez mais a eficiência. Qualidade nada desprezível em país pobre com mais de um bilhão de habitantes. As linhas, trens e estações estavam em constante renovação, ampliação, modernização. A informatização da compra de bilhetes e marcação de lugares atingia quase a totalidade do sistema. Em nenhuma das dezenas de viagens pelo país, nas mais variadas classes e tipos de trens, ocorreu qualquer problema com os lugares marcados, nos bancos ou camas.

A despeito do trânsito intenso e das buzinas, que caracterizava as grandes cidades indianas, Bangalore se diferenciava das demais, revelando-se mais arejada, arborizada, com mais parques e, por incrível que pareça, calçadas para pedestres. O povo mais discreto não abordava com insistência. Mas parte dele tendia a ocidentalização. Mulheres vestiam calças, minissaias, malhas amarradas na cintura. Homens usavam bonés. A decoração nas ruas e nos centros comerciais imitava costumes natalinos de outros países, inclusive com o deprimente papai Noel. Cartazes de filmes estrangeiros abundavam nos cinemas. Grupos de amigos trocavam olhares invejosos e competitivos, reparavam nas roupas e cabelos, engoliam a insípida comida rápida das redes transnacionais. Outros trocavam presentes e sorrisos falsos. E me entristeci ao ver a fascinante cultura da Índia esmagada pelo lixo consumista e individualista do ocidente. Ainda que em apenas pequenas e isoladas partes do país, as transnacionais abriam brechas para a destruição cultural indiana.
Noite confortável no trem a Ernakulan sobre os acolchoados do vagão. Pelas janelas do vagão, cenários tropicais enquanto o dia clareava no estado de Kerala. Muito verde e água, coqueirais, palmeirais, arrozais, se alternavam na paisagem. Desembarque em Ernakulan no meio do dia, sob um sol escaldante. Os condutores de riquixá pediam fortunas se negando a pechinchar. Seguimos a pé mesmo.
Acordamos tarde depois de noite interrompida pelo calor, mosquitos e a fome, a bem recebida fome. Café da manhã, farto e saboroso, com direito a vários ovos, em bar animado e bastante frequentado por indianos de sarongue branco.
Barco rumo à cidade antiga de Kochi, local pitoresco e ideal para relaxar. Perambulamos pelas ruas. Sentamos na murada na beira do mar. Os pescadores iam e vinham manuseando estranhas redes de pesca, que lembravam imensas aranhas ao jogar os tentáculos nas águas. Comemos peixe frito.
O sul da Índia guardava atmosfera mais leve e relaxante. O povo não abordava e tudo parecia mais fácil. A frequência turística também se diferenciava da parte central do país. Predominavam estrangeiros mais arrumados, convencionais, recém-saídos das lojas. Exibiam olhares e andares idiotizados. Os pseudoalternativos não apareciam nas ruas. Por outro lado, era evidente o maior nível social e cultural de Kerala, apresentando os melhores índices do país em alfabetização, emprego, poder aquisitivo, distribuição de renda, saúde, habitação, situação social da mulher. Era resultado de décadas de governos estaduais de esquerda que priorizaram o social.
À noite, danças típicas do estado de Kerala em centro cultural. Novas e vãs tentativas de encontrar lugares para jantar em Ernakulan. Duas tentativas sofríveis. E também pizza em lanchonete popular. A grossa massa mais parecia borracha. E a dividiam em quatro pedaços com potente machado, lembrando um matadouro, tal a violência dos golpes. Nem sempre acertavam a mira e a divisão gerava formatos imprevisíveis.
Novamente barco com destino a Kochi. Circulamos pelas ruas comerciais, armazéns, a área do palácio caindo aos pedaços. Em Kochi atraíam os passeios descontraídos, sobretudo pelo acesso ao porto, em rua tomada por velhos armazéns e depósitos, sempre charmosos e interessantes.
À noite, o famoso espetáculo de dança Kathakali, típica de Kerala, cercados de turistas ocidentais das excursões convencionais que mais filmavam ou fotografavam que apreciavam o espetáculo. Os dançarinos dançavam com máscaras e cores esverdeadas.

De ônibus à cidade de Allapuzha onde enchemos a barriga no café da manhã. Na beira do canal o barco partiu com dezenas de turistas estrangeiros. Embarcaram como cavalos, se empurrando como bárbaros, disputando os melhores lugares da mesma maneira que os respectivos governos invadem, pilham, matam nos demais países. Os indivíduos do assim chamado primeiro mundo jogavam lixo diretamente nas águas dos canais. Entregavam “presentes” às crianças das margens, cultivando a mendicância. E lançavam às cegas. A maioria das canetas despencava na água, obrigando as crianças a mergulharem na disputa para pegá-las. Fotografavam como famintos e, para os melhores ângulos, não se importavam em pisar ou empurrar quem estivesse pela frente. E continuavam a atirar objetos, aliviando culpas seculares. Eis os legítimos cidadãos dos regimes que ainda dominam o mundo, possuindo a história recheada de invasões e atrocidades contra outros povos.
O barco percorreu paisagens bucólicas e tropicais. A vida nos canais que corriam paralelos à costa se ativava pela agricultura, pesca, artesanato, pequenas manufaturas de fibras de coco. Coqueirais se estendiam próximos às águas calmas. Habitantes serenos e sorridentes davam muita vida aos pequenos vilarejos.
Do ancoradouro do desembarque, ônibus até Kollan. Em hotel imenso, o bom quarto conquistou pela amplidão e iluminação natural que entrava pelas grandes janelas. O chuveiro frio do banheiro contava com água forte e refrescante. Parecia tranquilo e calmo. A descoberta que havia uma mesquita na parede ao lado do quarto ocorreu antes do amanhecer ao convocarem os fiéis para os cultos e orações. Os alto-falantes começaram a detonar os chamados no último volume. Quase despencamos da cama de susto. E as cenas se repetiam em outros horários do dia.
Dia para ir e voltar de trem à praia de Varkala. A extensa praia apresentava altas falésias de terra e areia em estado avançado de erosão, incluindo numerosos deslizamentos. Águas claras e calmas convidavam a vários mergulhos. Não estava cheia e poucos estrangeiros se distribuíam esparsamente. Os selvagens do barco dos canais provavelmente se dirigiram a locais mais convencionais. A maioria dos bares, restaurantes e pousadas se concentrava na parte superior da falésia. Para não destoar das demais cidades de Kerala, a comida decepcionou. O restaurante simples e pitoresco na beira do mar ofereceu insípidos pratos com frutos do mar. A gororoba só serviu para encher o estômago.
Volta em trem lotado e de pé na ponta do vagão. Adolescentes se movimentavam para cá e para lá a fim de impressioná-la, se penteando diante dos espelhos do fundo do vagão. Faziam poses e expressões de artistas do cinema indiano, lançando olhares canastrões. Os galãs vestiam camisas sociais, por dentro de calças também sociais, com cinto, sapato e tudo o mais.
Detonamos dois convidativos abacaxis da feira de Kollan na mesa do quarto do hotel, ao lado da porta de entrada. O líquido das frutas escorreu pela mesa e chão do quarto. A água trazida do banheiro disfarçou a limpeza, mas passou por baixo da porta, chamando a atenção dos funcionários, sempre aos montes nos corredores. Bateram na porta sem entrar. As gargalhadas só foram quebradas pelo som ensurdecedor dos alto-falantes da mesquita vizinha. As convocações para os fiéis mais uma vez ocupavam o quarto. E não deixava de ser divertido também.
continua...