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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

do Nepal ao Camboja (parte 12/12)

...continuação
Embarque atrasado e confuso em ônibus noturno, sem espaço suficiente para as pernas. O atendimento beirava à delicadeza de cavalo. Bancoc e boa parte das estradas percorridas formavam imenso e irritante congestionamento. Nem os inúmeros e horrorosos minhocões espalhados pela cidade davam conta do caos. A operadora estendeu propositalmente o café da manhã em Sarathani provocando a perda do barco em Krabi para a ilha. A organização tailandesa obrigou à espera de cinco horas até a próxima embarcação. O sol ardia em meio a nuvens negras e tornava o calor desesperador em Krabi. O responsável por levar os passageiros ao barco não apareceu. Idosos, crianças, tailandeses, muita bagagem, e nós, seguimos a pé ao porto. Ninguém reclamava, nem em voz baixa.
Praticamente não havia vagas na ilha de Ko Pi Pi. Camelamos muito, inclusive por trilhas no meio da mata, até encontrar chalé afastado com paredes e teto de palha, sem banheiro privativo. O caminho era por trilhas estreitas na mata ou através das pedras na beira do mar. À noite, lanternas e muita atenção dependendo do nível da maré.
A ilha possuía beleza, mas bem longe do paraíso “soberbo” tão comentado pelos guias turísticos. Os dias brilharam e valorizaram a paisagem. As praias não lotavam. Dava para relaxar e entrar na água sem pressa. Mas nos restaurantes, atendimento típico tailandês. Serviço excessivamente demorado, desrespeito, erros grosseiros na conta, expressões de contrariedade.
De volta ao continente, os planos eram ônibus a Surathani, barco à ilha de Ko Pangan. Depois de cinco horas na espera pelo ônibus os golpistas tailandeses queriam oferecer apenas bancos improvisados no corredor. Nada disso. Então lotação a Surathani e caminhonete ao ancoradouro. O motorista entregou os bilhetes com direito a lugares numerados. O barco, na verdade enorme balsa de dois pisos, contava com duas longas fileiras de colchonetes ao longo do piso superior, mais travesseiros e a etiqueta com o número correspondente.
Na ilha de Ko Pangan, sobre a carroceria da caminhonete até o acostamento da estrada, próximo à praia escolhida. Ainda não amanhecera. O tempo chuvoso desanimava. A praia não seduzia naquele princípio de luz. Mas o responsável pelos chalés cobrou preço baixo.
A pé pelas praias até a distante e badalada praia de Ko Pangan. Com areia e cascalho grosso de cor parda, as praias percorridas decepcionavam, com riscos de ferimentos nas pedras pontiagudas, nos diversos cacos de vidro, restos de garrafa, metais enferrujados, agulhas e seringas usadas. A tal praia famosa, descaracterizada e ocidentalizada, era reduto de gringos deslumbrados, com aquelas músicas altas, aqueles bares e restaurantes, aquelas comidas, aquelas lojas, aquele comportamento padrão. E ainda aguardavam histericamente a famigerada festa da lua cheia na beira da praia. Desrespeitariam e ignorariam ao máximo a cultura local. E, entupidos de ressaca, retornariam aos países de origem, a milhares de quilômetros, para contar que fizeram exatamente o mesmo que nos próprios países.
A praia escolhida reservava tranquilidade e, nos momentos em que não soava o lixo estadunidense dos chalés vizinhos, dava para relaxar. Durante o jantar no restaurante o dono puxou conversa. Mas, atrás dos sorrisos e cordialidade, escondia a avidez em vender produtos e serviços. Nada compramos. Os sorrisos e a cordialidade desaparecerem por encanto.
Caminhadas ao interior da ilha por trilhas na floresta, morro acima. Nada de interessante. Na costumeira barraca de frutas a tailandesa cobrou quatro vezes mais que no dia anterior. Largamos o saco repleto de frutas na cara dela e fomos embora.
Na praia diante do chalé, cascalho pardo em vez de areia branca. Água parada em vez de mar. Lixo por todos os lados. No cascalho fofo, pontas e cacos de vidro. Mas os turistas vinham e a indústria do turismo ganhava fortunas.
Apareceu um estadunidense ou australiano para conversar no chalé. Nada perguntou. Desatou a falar sem parar, sem intervalos, sem direito a comentários. Quando parou para tomar fôlego, avisei que não falava inglês fluentemente. E que eu não captara praticamente nada do que ele dissera. O tal nem quis saber o meu país de origem. Resmungou e partiu à procura de outras vítimas.
De barco à ilha de Ko Tao, a quarta e última ilha a ser visitada naquele esplendoroso país. Tudo para matar o tempo e adiar o retorno à infernal Bancoc.
Ko Tao não era feia, mas lotava de turistas. As estradas de concreto se apinhavam de caminhonetes, motos, lojas, escolas de mergulho, pertencentes a estrangeiros, assim como a maioria dos bares. Invariavelmente muito caros, os restaurantes se concentravam dentro dos bangalôs. A cor azul esverdeada do mar agradava, mas as areias grossas incomodavam. Praias privadas impediam o acesso ao público. A única padaria do centro comercial da ilha vendia bolos caros e ressecados. Saímos com pães, latas de atum, garrafas de água, para degustar na sacada do chalé.
Os caminhos e estradas pela parte leste da ilha abundavam de cajueiros. Os guias estrangeiros os descreviam como árvore de castanha de caju em vez de árvore de caju. E perdiam a oportunidade de saborear os frutos suculentos. Na parte norte e nordeste da ilha não havia praias, apenas pequenas baías de pedras e o mar límpido, de onde conseguíamos ver peixes coloridos. Por outros trechos, nada de praias, apenas rochas, corais, águas transparentes. Enormes lesmas se acomodavam no fundo das pedras. E mais uma vez na beira das estradas, cajus, mangas, mangabas, até enjoar. Ao sul da ilha, baía curta com praia, sombra, muitos peixinhos. Longe de ser maravilhosa, e com mais cascalho que areia, valeu para refrescar no mar e descansar sobre as sombras dos coqueiros.
Volta a Bancoc via barco e ônibus noturno. O motor do barco pifou em pleno alto mar. Depois de horas, apelaram a outro barco para rebocar até a costa. Desembarque em Chumpon. Ônibus local à agência de onde sairia o ônibus noturno rumo à capital. Após comer e circular pela cidadezinha de Chumpon, o ônibus com serviço tipicamente tailandês. O ambiente gelava até a alma, com direito a jatos polares sobre as cabeças. Tailandeses e turistas desviavam os jatos uns para os outros, enquanto se enrolavam em grossos cobertores fornecidos pela empresa. Ninguém gostava. Mas ninguém reclamava.
Chegada ao terminal rodoviário de Bancoc antes do amanhecer. Mais um dia para a libertação do inferno tailandês. Reencontro com os chilenos do Camboja. Ambos se decepcionaram com o Vietnã muito turístico. Outra futura Tailândia! Coitados dos vietnamitas, de história recheada de heroísmos nas vitoriosas lutas contra os invasores franceses e estadunidenses. Bem que eu sentira os maus ventos dois anos antes.
Último dia na Tailândia, disparado o pior país visitado até então.
Lotação cheia ao aeroporto. O tailandês se dizendo policial interceptou o veículo. Apontou irregularidades e cochichou em tailandês com o motorista. O motorista alegou aos passageiros que o tal policial liberaria o carro apenas mediante propina. A maioria, turistas ocidentais, se curvou ao golpe e deu o dinheiro. Eu e ela, nem pensar. Os turistas dos países imperialistas contribuíam com os golpistas tailandeses.
Embarque em voo rumo à conexão na Malásia. Livres do inferno chamado Tailândia. Para nunca mais!
No trecho entre Kuala Lumpur e Buenos Aires houve escalas interessantes nas cidades sul-africanas de Johanesburgo e Cidade do Cabo. Circulamos pelo aeroporto em meio a pretos gordos e sorridentes. Maravilha! Estávamos perto de casa.
Desembarque em Buenos Aires. Ônibus para o Brasil.
Desembarque em São Paulo em maio do ano seguinte. Orgulho, felicidade e prazer nos meses da longa e desbundante viagem, entre altos e baixos, bem mais altos que baixos.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

do Nepal ao Camboja (parte 11/12)

...continuação
De madrugada, lotação ao lago. E o barco expresso, grande, rápido, desconfortável, inseguro. No meio do trajeto, o piloto do barco não atendeu aos chamados e os policiais dispararam rajadas de metralhadora. Nem reparei se alguma bala atingiu o barco.
A pé o longo trajeto do rio ao hotel em Phnom Penh. E, desaconselhável pela insegurança das ruas à noite, no restaurante do térreo, camarão ao alho e óleo, diversos copos de chá gelado com limão, café com leite gelado. Servido em copo cheio de gelo, o café misturado com leite condensado realmente deliciava. Não dava para parar de tomar. Ganhava disparado daqueles ótimos servidos no Vietnã dois anos antes. Comer e beber bem levanta a moral de qualquer cidadão.
De dia na parte norte de Phnom Penh, por avenidas e ruas planejadas, parecidas entre si. Não havia edifícios altos, mas extensos conjuntos de cinco andares, e casas, a maioria mal conservada. Muitas ruas não contavam com pavimentação e levantavam muita poeira misturada com lixo. Deficientes físicos e mulheres com crianças no colo pediam esmolas pelas calçadas. As imediações do mercado e feiras livres se destacavam pelas cores, povo sorridente, cenário fotogênico.
À tarde, o museu Tual Sleng, nada além de peça de propaganda do governo. Exibia fotos e gráficos ininteligíveis dos crimes do regime dirigido por Pol Pot e o Khmer Vermelho entre os anos de 1975 e 1978. Mas estranhamente suprimia os também hediondos crimes cometidos por quase cem anos de ocupação pela França, e pela invasão dos Estados Unidos por mais de dez anos.

O governo de plantão no Camboja, alinhado aos países imperialistas, desejava que o povo cambojano esquecesse as atrocidades impostas pelos regimes francês e estadunidense. Falsificava a história e não explicava que o governo extremista de Pol Pot tomou o poder graças ao vazio deixado pelas sucessivas guerras de agressão imperialistas. Também não explicava que em 1978 o país foi libertado da tirania de Pol Pot pelo exército do Vietnã. Pol Pot e o Khmer Vermelho se refugiaram nas montanhas, aterrorizaram a população e receberam apoio financeiro e militar dos Estados Unidos. A luta heroica pela independência do país, com tantos mortos, feridos, traumas, envenenamento do solo, águas, plantas, devido ao uso indiscriminado de armas químicas pelo exército estadunidense, jamais poderia ser ignorada, desprezada ou distorcida. Depois do sofrimento do povo por mais de um século, a antiga classe dominante, servil ao imperialismo e colaboradora nos massacres da população, voltara ao poder assim que o exército vietnamita deixou o Camboja. E ainda era chefiada pelo mesmo rei submisso da época das invasões.
Em outro ponto da cidade, nos campos de extermínio do regime de Pol Pot, vidros cheios de crânios e pedaços de roupa, buracos vazios pelo chão, acima dos quais escreveram legendas do tipo “vala comum dos adultos”, “vala comum das mulheres e crianças”, “vala comum dos sem cabeça”. E pensar que nenhum centavo do dinheiro arrecadado nas visitas daquilo fluía para o pobre povo cambojano. Não era de se estranhar os pedintes mutilados que se arrastavam pelas ruas, ignorados pelo rei.
Além dos mochileiros de sempre, o restaurante do hotel contava com suspeitos frequentadores, invariavelmente estadunidenses, apresentando idade superior aos 50 anos e aspecto militar ou paramilitar. Debatiam assuntos geopolíticos. Os doces agentes se deleitavam com a nova conjuntura local e auxiliavam a monarquia de plantão a explorar e oprimir o povo cambojano, a falsificar a história, a ocultar as atrocidades cometidas pela França e pelos Estados Unidos.
No dia anterior à partida do Camboja, dezenove pessoas morreram e cento e cinquenta ficaram feridas depois que uma bomba explodiu durante manifestação em frente ao palácio real. Apenas os manifestantes foram atingidos. Os policiais e agentes de repressão da monarquia nada sofreram.
Depois do voo a Bancoc, ônibus caro à região de Khao San, onde compramos vale-passagens de ônibus até a cidade de Nong Kay, nordeste da Tailândia, fronteira com o Laos.

Lotação pelo insuportavelmente lento trânsito de Bancoc à distante estação rodoviária. O motorista da lotação nos deixou com uma criança que nos conduziu pelas calçadas apinhadas de barracas de ambulantes e entupidas de gente até a rodoviária, ainda mais lotada e confusa. O garoto entregou os bilhetes definitivos, indicou a plataforma e desapareceu. Mas era a plataforma errada. No meio da confusão de milhares de pessoas, ônibus para todos os lados, barulho, fumaça, ninguém queria ajudar. Depois de muita luta, descobrimos o local correto, do outro lado do terminal.
Qualquer estação rodoviária do interior do Brasil, do mais miserável recôndito brasileiro, era mais organizada e civilizada que aquele buraco tailandês. Mas a Tailândia se submetia a todas as imposições da indústria predatória do turismo, se tornando um paraíso sem restrições para as transnacionais do ramo via degradação cultural, turismo sexual, tráfico de drogas, contrabando, lucros fáceis. Daí tantos elogios em guias e folhetos, alardeando a mentira de país “exótico” e “misterioso”.
Entre vários ônibus amontoados e fora das plataformas, multidões de pessoas com malas e sacolas se esmagavam e brigavam para embarcar. Os bilhetes escritos apenas em tailandês levariam somente até Udon Thani, e não a mais distante Nong Kay conforme o valor pago. Os assentos marcados nas passagens de nada valiam. O jeito era empurrar, abrir caminho, entrar em qualquer daquelas dezenas de ônibus e sentar imediatamente. E isso depois de inúmeras tentativas em vários ônibus. Era mais de meia noite, depois de cinco horas pastando no inferno da rodoviária de Bancoc.
Em Udon Thani, desembarque no meio da rua. De tuc-tuc até a estação rodoviária e, de lá, outro ônibus até Nong Kay, na margem direita do rio Mekong. Do outro lado, Vientiane, capital do Laos. Os condutores de tuc-tuc de Nong kay cobravam fortunas até o posto de fronteira tailandês. Nem pensar! O caminho seria feito a pé mesmo. Um francês que viera no mesmo ônibus alegava que da Europa cruzara por terra o Oriente Médio, Ásia Central, Índia. Mas caía em contradição ou não sabia responder às perguntas. Mesmo cansados, suados, famintos, e irritados, não deixamos de rir diante do farsante. E ele seguia com as estórias mirabolantes. Teimava que cruzaria a fronteira da China, iria até a Sibéria e embarcaria no trem transiberiano de volta à Europa e à França.
Pela distância sob o sol apelamos para lotação até a fronteira. Depois de cruzar o rio, entrada no território do Laos. Mais um tuc-tuc até o centro de Vientiane, vinte quilômetros adiante.

Optamos pelo primeiro hotel disponível em cidade sem vagas. E para a primeira refeição em 24 horas havia ambulantes oferecendo sanduíches feitos de baguete recheado com patê e verdura. Detonei dois imensos, mais copos de sucos de frutas frescas. Depois banho demorado e cama.
Após quatorze horas contínuas de sono profundo e merecido, nenhuma vontade de explorações. Então mais comida e mais cama. Despertar e mais desânimo. Entre voltas sob o calor tórrido de Vientiane, nada de fome, somente sucos deliciosos de frutas frescas. E novamente hotel.
Vientiane guardava atmosfera calma e tranquila. Nada de correrias, congestionamentos, gente apressada, poluição sonora. O tal progresso ainda não afetara o bucolismo da capital do Laos. Com exceção de avenidas periféricas, Vientiane mais se assemelhava a cidadezinha do interior. Em poucos minutos de caminhada a partir do centro, apareciam ruas de terra de vilarejo afastado. Casas simples, gente simpática e sorridente. Havia pobreza, mas sem miséria ou indigência. A margem do rio Mekong reservava bares e restaurantes de madeira, simples e despretensiosos. Mais adiante, cafés e restaurantes refinados e voltados para outros bolsos.
Caminhamos horrores sob o sol de rachar mamona e nada de ônibus a Luang Prabang, ponto ou terminal rodoviário, apenas passagens a Vang Vieng, cidade bem antes de Luang Prabang.
De ônibus à pequena Vang Vieng para agarrar o último quarto livre da pousada, simples, com banheiro coletivo, sem chuveiro, sem água corrente. Banho, somente de cuia. Na margem oposta do rio ao lado da cidade erguiam-se montanhas altas e escarpadas formando instigante paisagem no horizonte. Os moradores comentavam sobre cavernas no meio daqueles paredões.
O café da manhã típico da região, sopa com macarrão, verduras, ovos e demais temperos veio servido em enorme tigela. Deliciosa e bem preparada, a sopa levantava até defunto. O estômago agradeceu aquela maravilha.
As tais cavernas comentadas se encontravam em processo acelerado de destruição, com aterros, canalização do córrego de águas azuladas. A fauna e flora, aparentemente, ainda abundavam. Chalés turísticos se espalhavam pelo local ao lado de restaurantes com música ao vivo. Cobravam ingressos para entrar. Nada feito.
O ponto alto da pequena e barulhenta Vang Vieng, em obras por todos os cantos, ficava por conta da feira diária ao ar livre. Ao lado de produtos agrícolas tradicionais, barracas e ambulantes ofereciam iguarias finas do país, como besouros vivos, cobras, ratos secos, unhas, patas. Eram muito procurados pelos moradores e vendidos em poucos minutos.
Pela manhã em caminhonete lotada à cidadezinha de Kasi. A paisagem pela janela encantava com enormes montanhas escarpadas, bocas de cavernas entre vegetação espessa, vilarejos pitorescos de madeira, arrozais da região de Phatang.

Desembarque no acostamento, ao lado de Kasi, onde pararia transporte a Luang Prabang. Passaram somente dois ônibus abarrotados e sem garantias aonde iriam. Foram seis longas horas em vilarejo perdido no meio do nada. Os moradores permaneciam paralisados e com os olhos esbugalhados. Em nada ajudaram. Não moviam um nervo sequer do rosto. Mas não tiravam os olhos.
Do outro lado da estradinha apareceu ônibus em sentido contrário. Retornamos a Vang Vieng. Hospedagem em outra pousada, mais limpa, espaçosa, silenciosa e barata. As chuvas fortes trouxeram goteiras sobre a cama à noite. Mas não atrapalharam o sono.
De volta a Vientiane, concluímos pela enésima vez que o decepcionante sudeste asiático dera o que tinha que dar. Na capital do Laos havia uma imitação do arco do triunfo, construído durante a invasão e ocupação pela França por cem anos. Mesmo sem traços de forte personalidade, Vientiane seduzia pela calma, tranquilidade, apontando para cidade agradável de morar. Até quando?
Após cruzar a fronteira da Tailândia, passagem de trem para a Bancoc, a fim de evitar o pesadelo dos ônibus tailandeses. A boa e farta comida do restaurante em Nong Kay se contrapunha com o lixo estadunidense no último volume que vinha da televisão. E os interiores do trem noturno eram tristes, a frequência triste, o serviço de bordo triste, como regra naquele país triste. Na chegada a Bancoc, passagens conjugadas de ônibus e barco à ilha de Ko Pi Pi, com a intenção de passar o tempo até a data do voo salvador que nos libertaria do sudeste asiático.
continua...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

do Nepal ao Camboja (parte 10/12)

...continuação
Surgiu a ideia de voar Bancoc, Yangon, circulando por Mianmar, Vientiane e retornar por terra pelo Laos e nordeste da Tailândia. Sair de Bancoc e percorrer outras paisagens empolgou os sonhos.
Nada feito. Não havia mais voos entre Yangon e Vientiane. Teríamos que retornar para Bancoc para seguir ao Laos. Outra agência ofereceu melhores preços de voos para Yangon, Mianmar. Novamente ótimas possibilidades.
Eu não entendia uma cidade sem atrativos como Bancoc atrair tantos estrangeiros. Mas se abarrotava de turistas. Era enorme, feia, poluída, com trânsito infernal, descaracterizada culturalmente. O povo antipático destratava a maioria dos estrangeiros, queria tirar vantagens financeiras em tudo. Jamais sorria, mudava os preços conforme a cara do turista. Só mesmo os guias escritos por empresas transnacionais para rotularem a Tailândia de “exótica” e “misteriosa”, e chamarem o tailandês de “povo sorriso”. Pela segunda vez no país, eu constatava exatamente o contrário.
E a viagem a Mianmar também deu errado. A agência tailandesa comunicou que o voo semanal estava lotado. Devolveu o dinheiro das passagens, mas embolsou o valor dos vistos. E isso depois de garantir os lugares no voo dias antes. Jogou o dinheiro das passagens na mesa e se virou para outro lado. Nem sequer ouviu as reclamações. Confiava na impunidade do golpe. Conhecia o país onde morava.

Nada havia a esperar daquele buraco. Compramos passagens no voo mais barato para a América do Sul, somente de ida, para Buenos Aires. Mas somente para um baita tempão depois. Dois meses inteiros se apresentavam à frente antes da libertação definitiva do inferno.
A Tailândia se ocidentalizava em ritmo acelerado. A influência estadunidense se apresentava a todo instante. Músicas, roupas, propagandas, camisetas, carros com bandeiras daquele país. Os Estados Unidos fizeram da Tailândia o quintal durante as invasões das tropas estadunidenses ao Vietnã, Laos e Camboja. Usaram-na como base para atacar os povos dos países vizinhos. Desrespeitaram a cultura local e impuseram costumes ocidentais. Trataram o povo como escravo. Transformaram a Tailândia em mera colônia para atender à máquina de guerra estadunidense. A indústria da prostituição, o tráfico de drogas, o turismo sexual, marcas registradas da Tailândia, nasceram naquela época e ainda sobrevivem graças ao turismo predatório.
De lotação até a cidadezinha de Laen Ngop, ainda no continente, através de estradas monótonas, ao lado de paisagens feias, ocidentalizadas. Depois barco à ilha de Ko Chang ao entardecer. Chalés mal construídos predominavam ao longo da praia, a maioria em palha e madeira fina, a preços altíssimos. A praia medíocre também não empolgava. No chalé simples, com banheiro, cama suspensa do chão, mosquiteiro, as formigas circulavam impunemente.
Pelas praias de Ko Chang não se ia muito longe, pois logo surgiam pedras e corais pontiagudos. Os insuportáveis mosquitos tailandeses combinavam com o país. A estrada atrás dos chalés oferecia trânsito pesado de caminhões, jipes, motos. Compensou pelos cajus arrancados das árvores na beira do asfalto. Na maioria dos lugares da praia onde havia música tratava-se do lixo estadunidense. Os turistas, sobretudo australianos, se deslumbravam. E tudo continuava assim. O restaurante com mesas sobre a areia da praia oferecia boa comida, baseada em ensopados de frutos do mar.
Em todos os dias, na minúscula sacada da frente do chalé, horas sem fim de leituras. Ao olhar a praia sem graça, desânimo, mais leituras e preguiça geral. Tailandesas passavam pela areia oferecendo serviços de massagem. Um ou outro turista caía no papo. Nada havia de massagem, apenas enganação para as pencas de turistas deslumbrados.

Os infindáveis engarrafamentos pelas avenidas e minhocões deram as boas vindas ao pesadelo de Bancoc. Mais dias no inferno do Bancoc sem fazer absolutamente nada, apenas aguardando o voo ao Camboja.
Os tailandeses, sobretudo os de Bancoc, gananciosos, só se aproximavam com intenções de tirar o sangue. E mantinham submissão exagerada diante das figuras do rei e da rainha. Ninguém ousava questionar, criticar, zombar, fazer brincadeiras de qualquer tipo com os monarcas. Chegavam a ponto de jamais lamberem os selos com imagens do casal absolutista. Humilhação semelhante ocorria frente aos monges budistas. As mulheres não podiam tocá-los, nem lhes produzir sombra, obrigando-as a se abaixarem, a se contorcerem. A juventude e a maior parte da população se deslumbravam com o lixo musical e cinematográfico estadunidense. Rostos e corpos ocidentais ditavam padrões de beleza nos cartazes, propagandas em geral. Os tailandeses exibiam bandeiras estadunidenses afixadas nas roupas, carros, adornos pessoais.
Cruzar a fronteira terrestre da Tailândia com o Camboja era perigoso. Desde a invasão dos Estados Unidos ocorriam confrontos armados e poucos eram os lugares seguros. Recentemente tinham morrido turistas ao cruzar a fronteira terrestre. Voo tranquilo e visto rápido no aeroporto da capital do Camboja, Phnom Penh.
A lotação levou ao hotel mais comentado da cidade. A segurança precária desaconselhava andanças pelas ruas da capital depois das 20h.
Bem cedo ao apertado barco para Siem Reap, com teto baixo, janelas pequenas e escuras. A paisagem fluvial guardava sequências de palafitas, barcos, pescadores, habitantes sorridentes.
Em terra, lotação de pousada escolhida a esmo, situada em parte calma e silenciosa da cidade. Muitas pechinchas para adquirir as entradas para os templos de Angkor, o guia e o aluguel da moto durante vários dias. Siem Reap ardia de calor e não parávamos de beber água.

Garupa da moto ainda no escuro a fim de assistir ao nascer do sol no Angkor Wat, surgindo atrás das pontas do complexo de templos. Depois, os templos de Bayon e arredores, numa impressionante sequência de rostos esculpidos na rocha, pequenas áreas ricas em esculturas, entalhes em pedra. À tarde, volta a Angkor Wat, para explorá-lo por inteiro internamente, até o pôr-do-sol. Grupos de turistas se espalhavam pelas inúmeras dependências. A maioria dos templos da civilização Khmer estava em ruínas, em restauração ou se resumia a blocos de pedra amontoados. O tórrido calor desconcentrava e só queríamos beber líquidos.
Apesar de retraído, o motoqueiro, e também guia, conquistava pela simpatia e pontualidade. Eram os três na moto pequena. Não era aconselhável circular livremente em Siem Reap pela falta de segurança nas estradas e caminhos. O contato com o país real, povo, cultura local, inexistia até aquele momento.
Pela manhã, os templos da região de Ta Phron. As ruínas em meio às árvores lhes forneciam atmosfera misteriosa e intrigante. E sempre por caminhos entre blocos desmoronados, passagens estreitas, portais de templos, esculturas perdidas, galerias com pedras trabalhadas. A vegetação crescia nas paredes e rochas. O cenário formado pelos extensos labirintos, a ausência de turistas naquele horário, o verde intenso, as sombras refrescantes, os entalhes surpreendentes com desenhos de divindades e cenas de época, encantavam a cada nova descoberta.
Liberamos o motoqueiro até o começo da tarde. Nada da programação previsível e turística matinal por Angkor. Melhor mergulhar no Camboja real, ao lado dos cambojanos. Ignoramos as advertências sobre a insegurança. Caminhamos aos templos de Roulus, por ruas, a estrada principal, as estradas secundárias fornecendo perfil da vida rural do país. Casas de palha suspensas do solo, lavouras primitivas e pouco aproveitadas, vaivém de bicicletas, motos, caminhões. Os habitantes sorriam espontaneamente, interrompiam os afazeres, procuravam conversar. Mesmo apenas com gestos, olhares, havia a comunicação e as trocas de carinho.  De volta a Siem Reap, o mercado com o colorido e os burburinhos. Todos olhavam e lançavam sorrisos soltos. Comemos nas barraquinhas de rua. Mais saboroso e mais barato, sem falar no contato direto com os cambojanos. Nenhum outro turista se arriscava a conhecer o verdadeiro país, se restringindo em visitar os lugares indicados nas páginas dos famigerados guias.

À tarde, o pneu da moto furou e o guia a levou para a reparação. Enquanto esperávamos na beira da estrada, sozinhos, os cambojanos passavam e sorriam, estranhando dois estrangeiros parados no meio do nada. Um senhor de bicicleta parou, desceu, veio conversar. Três lavradoras também pararam as bicicletas.  Sorriram, gesticularam, falaram espontaneamente, deram batata doce. A mímica funcionou e bem em ambos os casos. O povo cambojano, distante do contato diário com o turismo, revelava-se mais simpático e acolhedor.
Com a moto reparada, repetição do pedaço favorito de Angkor, as ruínas de Ta Phron, durante horas pelos caminhos e restos de templos. Delicioso se perder pelas ruínas em meio às árvores, sentindo a magia daquela atmosfera. Retorno somente ao anoitecer.
Depois das comidas das barracas nas ruas do mercado, nunca mais a comida de hospital da pousada. Barata e boa comida em contato com o simpático povo cambojano. As donas da barraca habitual se sentaram para conversar. E despedidas festivas na certeza de que contatos com povo real valem mil vezes mais que visitas burocráticas a atrações turísticas.
continua...

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

do Nepal ao Camboja (parte 9/12)

...continuação
Até a descida empolgou. E mais samosas, tickias, xícaras de café com leite cremoso. Retorno ao quarto do hotel ao anoitecer.
Subidas em dois outros picos na manhã seguinte, caminhando sobre a neve. Era dia eleitoral e nada funcionou. Relaxar e preguiça. Havia os pequenos lanches e local para comer masala dosa e chowmein. O quarto do hotel agradava. A cidade e os moradores conquistaram logo de cara. As caminhadas maravilhavam. Não havia razões para mudanças ou partida de Nainital.
Já eram mais de três meses na estonteante Índia. O país fascinava e muito. As eventuais frustrações jamais lhe tirariam o brilho. A maioria dos indianos encontrados, no entanto, primava pela chatice. Os adolescentes puxavam a fila. Invariavelmente com visual de astros de cinema indiano, vestidos à moda dos anos de 1930, projetos de bigodes, pentes nos bolsos traseiros das calças para acertar os repartidos dos cabelos, esses indivíduos faziam o sangue subir. Não conversavam nada de interessante, apenas perguntavam. Grudavam e não se afastavam. Mas eles jamais tirariam o brilho dos detalhes e do conjunto da Índia.
Uma barraquinha de rua, na beira do lago, servia pão com omelete pelas manhãs. E havia o café com leite na barraca ao lado. Eu comia dois sanduíches e vários copos, tudo quente, preparado na hora. A fuligem enegrecia as mãos do homem da barraca e ele as usava diretamente nos ovos e pães. E, como toque final, colocava uma das fatias de pão sobre a omelete e a pressionava com a mão escurecida para penetrar o gosto, da omelete e das mãos dele. Nunca fez mal e repeti inúmeras vezes. E, para arrematar a refeição matinal, dois copos de coalhada artesanal no beco mais adiante.

Dia para relaxar e apreciar o movimento dos moradores sob o sol de inverno. Na volta, parada em bar para o chá com leite. O rapaz do balcão ofereceu a mesa na calçada. Então saíram os três funcionários do bar em direções diferentes. Um correu para o lado direito, outro para o lado esquerdo e o terceiro subiu na moto e disparou. Sumiram todos de vista. O bar ficou vazio, sem ninguém para atender. Dez minutos depois voltaram com pacotes nas mãos. Um com chá, outro com leite, o terceiro com o açúcar. Somente aí iniciaram a preparação. E serviram. Era a Índia. O chá temperado com leite empolgou, como sempre, ainda mais naquele friozinho de fim de tarde.
Nova subida ao pico Tiffin. Voltamos ao hotel, estendemos as roupas ao sol, nos sentamos. Permanecemos horas assim. Sentimos suave sensação de calor enquanto líamos e apreciávamos a paisagem.
Após pães com omelete, sucos, café com leite cremoso, durante a manhã na beira do lago, descida de ônibus para Kathgodan. Entre salgadinhos, chá no bar da plataforma, circuladas pelas ruas sem graça da cidade sem graça, o tempo passava lentamente. O relógio não andava. Mas o trem noturno finalmente partiu, pontualmente.
Em Delhi troquei livros e guias em sebo no meio da calçada. E saí com dois exemplares bem gorduchos, ambos em inglês, do escritor russo Leon Tolstoi, Guerra e Paz e Anna Karenina. Teria a viagem toda, e mais um pouco, para lê-los.
E bem cedo, o trem expresso, com comes e bebes incluídos na passagem, vagões com cadeiras reclináveis, contribuíram para o astral do percurso. Na estação ferroviária de Ajmer, ônibus para Pushkar, dessa vez sem a feira de camelos.
Pushkar mantinha-se linda e charmosa, mas o crescimento vertiginoso do turismo deixava marcas profundas. Meninos e meninas perambulavam pelas ruas e becos pedindo ou exigindo dinheiro, agressivamente. Os restaurantes ofereciam pratos ocidentalizados no formato de bufê. A comida com gosto de hospital preparada sem inspiração carecia de tempero. Somente depois de buscas prolongadas, vinham as comidas indianas. Pratos vegetarianos do sul do país, quase impossível. Paradoxal em cidade sagrada, vegetariana e abstêmia como Pushkar.
Café da manhã tardio e farto, longas e soltas caminhadas pela cidade, bastante música clássica indiana nas tendas. Sem a feira de camelos e os preços abusivos de meses antes, quando de nossa primeira visita, Pushkar agradava bem mais.
A mente se sentia leve, sem rumo, sem compromissos, sem roteiros. Os instintos conduziriam para cá, para lá, para lugar nenhum. Do topo de imensa duna de areia, o deserto de Thar sem fim. Um camelo descansava sob a sombra de árvore. Ignorávamos as crianças que continuavam a pedir de tudo. Nada dos bufês ocidentais que infestavam a cidade. Comíamos somente nos raros e escondidos restaurantes de comida indiana.

Pushkar era vegetariana e proibia o consumo de álcool e drogas, de acordo com o código de conduta afixado em todos os cantos da cidade. O comércio de cigarros e do alucinógeno indiano bang, no entanto, se escancarava pelas lojas e ruas. Nada de ovos, mas tudo de laticínios em geral, venda de artigos de couro e demais derivados de animais. Sem falar nos golpes dos ônibus privados que sentíramos na pele meses antes. A cidade sofria nas mãos da casta dos brâmanes, para quem o lucro falava mais alto. A tal cidade sagrada, vegetariana e abstêmia constava apenas nos folhetos e guias turísticos. Os turistas, na esmagadora maioria, consumiam de tudo, sem ressalvas. E contribuíam para a descaracterização de lugar tão especial.
O pôr-do-sol de um lado do horizonte, enquanto a enorme lua cheia nascia do lado oposto, foi de cair o queixo. O alto do morro, como se não bastassem o sol e a lua, proporcionava imagens marcantes das construções brancas e azuladas da cidadezinha refletida nas águas espelhadas do lago. E, pelos becos da cidade, a refeição foi de katchori e gulab jamun.
Entre perambuladas pelas pequenas dunas nos arredores da cidade, cabras se aproximaram e gostaram da companhia. Chamamos o rebanho na volta à cidade. Seguiram bem de perto pelas ruas. Entra e sai de ruas, e elas atrás, firmes e animadas. Conseguimos despistá-las no centro da cidade somente após acelerar o passo e aumentar a distância delas.
De ônibus à cidade não turística de Ajmer. Em restaurante muito simples em frente à estação ferroviária, pedimos masala dosa. E vieram pegando fogo de tanta pimenta. As lágrimas se derramavam caudalosas dos olhos e molhavam as camisetas. A pimenta realmente incendiava por dentro. Mas não dava para parar de comer. Estava delicioso demais. E viramos atração mais uma vez. Os cozinheiros, garçons, frequentadores, não acreditavam no que viam, sobretudo depois de repetirmos os pratos. Os olhos estavam vermelhos, os rostos molhados de lágrimas que não paravam de brotar. Mas que masala dosa divino! O café e chá com leite cortou parcialmente o ardor generalizado.
O trem noturno partiu a Delhi, onde foi difícil conseguir riquixá à outra estação. Mais uma hora e meia para deixar as mochilas no guarda-volumes na estação de Nova Delhi.
Ao entrar no vagão do expresso Rajdhani, muita euforia diante da cabine privativa, exclusiva. A melhor cabine de primeira classe do melhor trem de toda a Índia aguardava ampla e arrumada. Enorme e confortável sofá de couro, carpete, armário, pia, duas pequenas mesas. O sofá virava cama abaixo de outra cama embutida mais acima. O serviço dos funcionários internos primava pela opulência. Trouxeram vasos de flores, jornais, travesseiros, água mineral, sabonetes, toalhas, entre dezenas de itens para tornar a viagem a mais agradável possível.

O expresso Rajdhani partiu à tarde rumo a Calcutá e todas as refeições estariam incluídas no baixo preço das passagens. Serviram chá em xícaras de porcelana pintada, acompanhado de biscoitos e bolachas. A imensa janela exibia as paisagens externas nitidamente. O som ambiente divulgava avisos sobre o funcionamento dos serviços e, para destoar da perfeição, vomitava lixo musical estadunidense, em imperdoável deslize da eficaz empresa estatal ferroviária da Índia. Tantas maravilhas da música clássica indiana e optaram justo por aquilo.
O jantar oferecia opção vegetariana ou não. Para manter a classe, foi servido em quatro etapas. A primeira consistia de sopa, pães, torradas, manteiga. A segunda incluía fatias de carneiro assado com batatas fritas e verdura cozida. A terceira chegou com maçã recheada e legumes. A quarta e última etapa coroou o lauto jantar com sorvete.
Mais à noite o prestativo funcionário trouxe lençóis perfumados e cobertores.
Logo ao amanhecer serviram chá com pães e biscoitos. Mas ainda não era o café da manhã. O verdadeiro surgiu em seguida, incluindo omeletes, peixe frito, batatas, queijo, maçã, mais chá.
As curtíssimas dezessete horas voaram e Calcutá se fazia visível pela enorme periferia. A escolha de viajar pelo expresso Rajdhani não poderia ter sido mais apropriada rumo à última cidade a ser visitada na Índia. Parabéns ao expresso Rajdhani. Parabéns a todo o sistema ferroviário estatal indiano, em constante expansão e modernização. Com muita admiração e inveja de dois viajantes residentes em um Brasil criminosamente rodoviário.
A Índia, os trens, as ferrovias, já deixavam saudades depois dos quatro meses de explorações pelo país. Foram tantas as imagens, internas e externas. As estações, os vendedores ambulantes, as filas imensas, os cagões matinais alinhados nas dormentes, os sacolejos, os assentos, as camas, os banheiros no estilo indiano, os lugares destinados às bagagens, as conversas, os indianos que nunca abriam mão de conforto, levando colchão, lençol, travesseiro, cobertor, gorro, sempre bem alimentados com comida de verdade, nada de lanches ocidentais. Difícil esquecer aqueles momentos ferroviários. Nem se eu quisesse. E eu não queria.
Calcutá contava com personalidade e charme de cidade grande. Diferentemente da industrial Mumbai e da administrativa Delhi, Calcutá era a capital intelectual da Índia. Ali residiam as principais cabeças culturais do país e produziam os filmes de qualidade que frequentavam festivais internacionais. Não parecia ser cidade tão barulhenta como diziam, reservava áreas verdes, árvores nas calçadas, construções antigas, cafés simpáticos. O eficiente metrô primava pela limpeza.
O jantar de despedida da Índia, em grande estilo, veio de apenas masala dosa e idli. Foram vários deles para a felicidade geral da nação.
A minoria de indianos no avião da manhã tornou-se maioria em razão do tumulto criado. Não paravam quietos, incomodavam as comissárias com pedidos insistentes, encaravam as pessoas, fumavam demais. O avião ainda nem aterrissara e se levantaram espalhafatosos. E imediatamente me lembrei das sessões de cinema quando os espectadores se assanhavam e saíam da sala antes do final do filme. Era a Índia que não queria ir embora, mesmo próximo do desembarque na tenebrosa Tailândia.

O avião pousou à noite em Bancoc debaixo de calor forte e abafado. Foi difícil encontrar quarto livre no hotel em que me hospedara dois anos antes. Um pat thay na rua, outras coisinhas para completar o estômago e cama.
Pela famigerada região de Khao San tentamos traçar planos das próximas etapas. Não havia disposição para nada. Rango novamente nas barracas de rua, local mais saboroso, mais fresco e ventilado que os restaurantes. Entre mapas, fotos, guias, agências de viagens, muitos planos, muitas incertezas, nada decidido. O calor beirava o insuportável, fazendo transpirar por todas as partes do corpo, nas ruas, bares, sob o ventilador do quarto do hotel. A região do Grand Palace lotava de turistas como sempre.
À noite, durante andanças pelas ruas previsíveis de Khao San, eu vestia camiseta amarela com frases e propagandas de produtos tipicamente brasileiros. De dentro de um das dezenas de bares entupidos de turistas, saiu um cabeludo de pouco mais de vinte anos. Correu em minha direção, balançando os braços, gritando qualquer coisa. Só quando se aproximou percebi o motivo. Brasileiro e por muito tempo sem contatos com outros brasileiros, ele me reconhecera pela camiseta. Os olhos dele brilhavam de emoção indisfarçável. E convidou à mesa do bar junto a mais brasileiros que também viajavam havia muito tempo. Moraram na Austrália, passaram por vários países e planejavam voltar ao Brasil. Foram horas e copos sem perceber o tempo passar. Brasileiros fazem festa quando encontram brasileiros, sobretudo durante longas viagens restritas a contatos com turistas insípidos dos demais países.
Depois da estonteante Índia, nada despertava entusiasmo. O tremendo equívoco cometido no roteiro da viagem começava a aparecer. Eu já sentira parcialmente a frustração dois anos antes. O sudeste asiático atraía bem menos que o subcontinente indiano. Desta vez o choque negativo fora mais intenso. A decisão correta seria ter tomado rumo oeste, em direção ao Paquistão, Irã, Síria, Turquia. A viagem ganharia contornos mais desafiadores e instigantes.
continua...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

do Nepal ao Vietnã (parte 6/7)

...continuação
No vilarejo de Myinkaba, presenciei intrigante cerimônia de iniciação de dezenas de crianças, prestes a se recolherem por anos dentro dos mosteiros budistas. Desfilavam pintadas, montadas em cavalos, vestindo coroas, usando guarda-chuvas dourados. As expressões não eram de felicidade e várias choravam. Mais tarde raspariam os cabelos, se reuniriam para comer e dançar músicas típicas ao som de xilofones, gongos, tambores e harpas. E não faltavam as cores vivas, muitas cores vivas, em tudo.
O guia mais calado e atrapalhado somente abria a boca para dizer inutilidades e chavões. E não sabia responder às minhas perguntas. O guia principal, budista dogmático, não se livrava dos fedidos charutos. Alegava que no budismo nada é permanente e que, por isso, não se importava com danos aos pulmões. Ambos se esquivavam de qualquer pergunta que saísse do dogmatismo. Abusavam de frases decoradas do budismo até ao discutir horários da programação. Escarravam e assoavam o nariz sem lenço ou papel, com direito a muito barulho, inclusive durante as refeições. A maioria da população se comportava assim, até as atraentes birmanesas, para meu desgosto.
Mesmo fechado, o país vomitava lixo ocidental dos alto-falantes. E importava também refrigerantes, uísques, cigarros. Placas com marcas das famigeradas transnacionais se espalhavam nas cidades. As imagens de Buda eram onipresentes, em estátuas, grandes ou pequenas, pedra ou ouro, pinturas nas paredes e tetos. Apelavam até para as imagens nos televisores nos templos mais modernos.

Ainda nos arredores de Bagan, o centro de treinamento de fabricação de produtos em laca. Usavam tiras de bambu ou crina de cavalo como matérias primas. Em seguida, vários banhos de laca, pinturas, desenhos com estilete e polimento. Trabalho cuidadoso, bem feito, primitivo.
O guia mais jovem e atrapalhado seria meu único guia pelos demais interiores do país. E sem saber quase nada de inglês ou dos locais a serem visitados. Partimos pela manhã, percorrendo estradas tão estreitas que precisava parar quando vinham veículos em sentido contrário. Vários trechos nem eram pavimentados. Iniciamos a subida da serra e logo atingimos os 1.300 metros de altitude. Pequenos ajuntamentos de barracos de bambu nas margens da estrada, invariavelmente suspensos e precários, muitos nem sequer com móveis, abrigavam famílias sobrevivendo aos trancos e barrancos. Os pedágios de religiosos budistas abundavam nas estradas, interrompendo o tráfego, coagindo os passantes a doarem dinheiro para a construção de mais templos. Diversas caminhonetes lotações e ônibus velhos cruzavam pelo caminho. Chamá-los de lotados seria eufemismo. Além dos esmagados da parte interna, havia gente até nos tetos dos veículos. Muita gente misturada com muita bagagem.
Entramos no ramal para Pindaya. Nas margens da estrada, pertencentes ao estado de Shan, circulavam habitantes com trajes típicos da região, predominando os tons avermelhados, com panos nas cabeças. Seguimos direto para as grutas, na verdade templo budista, aproveitando as reentrâncias calcárias para instalar milhares de estátuas de Buda nas paredes, tetos, pisos. Cada ponto servia para determinados temas. Havia estátuas que atendiam até os interessados em ganhar na loteria. Outras eram para pedir sorte. Mas apenas na próxima vida, claro. A despeito da beleza natural, o local se reservava a romaria de budistas fanáticos e alienados. Estávamos no alto da montanha e a vista dali era estupenda. A cidade e o lago se estendiam abaixo.
Pernoite em Pindaya onde jantamos sopa e lamem reforçado com galinha. Comi muito e bem. Os moradores da região dormiam cedo, pois tinham medo de serem recrutados pelas patrulhas do exército como voluntários para obras civis em estradas e demais trabalhos pesados. Esfriou durante a noite e os cobertores não foram suficientes.
Despertar ainda no escuro e descida por estradas estreitas e fascinantes até a margem do lago Inle. O nascer do sol veio em meio à intensa neblina. Na margem do lago fretamos barco para quase todo o dia.

Pescadores e barqueiros remavam com apenas uma perna, se sustentando na outra, as mãos livres para pescar. A cerração na parte mais larga do lago e as montanhas ao redor davam encanto especial à paisagem. Atingimos o trecho onde ocorria o mercado flutuante, nas proximidades de vilarejo lacustre, ao longo do canal e entre fileiras de palafitas. Os barcos, transportando produtos agrícolas, entre outros, negociavam quando se tocavam, vendiam, compravam, trocavam em vaivéns agitados. Apesar da pobreza, as palafitas desenhavam conjuntos harmônicos e vistosos sobre as águas. As construções se adaptavam perfeitamente às condições climáticas. Adiante pelo lago, pelos canais que formavam o vilarejo, cruzados por caprichosas pontes de madeira. Os moradores fabricavam e vendiam artesanato dentro e foras das cabanas. Na extremidade do vilarejo, o pagode com torre parcialmente dourada. Mais adiante, o mosteiro budista em madeira sobre as águas, construído há mais de dois mil anos, guardava diversas estátuas e imagens douradas de Buda. No centro se destacava a cadeira de madeira finamente trabalhada e reservada às pregações. Mesmo depois de visitar dezenas de templos e pagodes, aquele chamou bastante atenção.
Almoço na simpática pousada em Nyaung Shwe, sob o sol agradável, com vista relaxante das águas do lago Inle, bem ao lado.
Subida do relevo em direção a Taunggyi, em cujo alto da serra, outro pagode com vista panorâmica do vale e da cidade. A 1.450 metros de altitude, Taunggyi era moderna e sem atrativos especiais. Os moradores não vestiam sarongues. Dentro de casacos de couro com símbolos ocidentais, os rapazes imitavam atores do cinema estadunidense.
O guia bobão e atrapalhado nada articulava além de estúpidas frases decoradas, tais como:
“este é o hospital da cidade”,
“ali é o exército”,
“os soldados se vestem de verde em Mianmar”,
“esta cidade se chama Taunggyi”,
“Taunggyi é o nome desta cidade”.
E ao entardecer, me levou a lugar vazio e abandonado, com mato alto, lixo, onde o pôr-do-sol foi emoldurado por fios de eletricidade, construções em obras, estradas asfaltadas. Ainda bem que o país era fascinante e me fazia ignorar o sujeito.
Pela manhã, voltas pelo mercado ao ar livre de Taunggyi. Tipos diferentes e coloridos vendiam de tudo, nas barracas, calçadas, ruas.

Descida da serra por estrada sinuosa e estreita. Os motoristas, porém, não dirigiam perigosamente, havendo sempre respeito e solidariedade. A mão de direção em Mianmar fora recentemente transferida para a direita. Mas os volantes dos carros continuavam também do lado direito. Nas ultrapassagens, o motorista precisava avançar bastante na pista contrária para conseguir ver os veículos no outro sentido. Tentava não prestar atenção, mas sentia calafrios nessas tentativas. No toca-fitas do carro rolava a tal de Miss Sweet que, segundo o bobalhão, cantava músicas birmanesas. Apenas a língua era local. As melodias, arranjos, estilos de voz eram cópias ruins do lixo estadunidense.
Durante a espera do trem em Thazi, me instalei em pousada precária. As instalações davam pena. Não havia banheiro nos quartos. Os chuveiros não contavam com vasos sanitários ou latrinas. Senti dor de barriga durante o banho. Descarreguei ali mesmo com o chuveiro aberto. Tentei empurrar o barro até o ralo. Não era ralo e toda a massa marrom escura tomou o caminho de volta. Encontrei finalmente o ralo, arrastei tudo novamente e a coisa se foi. Mas antes disso o banheiro alagou. Fechei o chuveiro até a água suja baixar. Reabri então o registro e voltei ao banho normalmente.
E lá fui eu e o bobão do guia em direção a Yangon. O trem era bem melhor que o da ida. Corredor central, dois bancos largos e espaçados. Apenas um banco do outro lado do corredor. Reclinavam o suficiente e envolviam pelo conforto. Os garçons serviram arroz frito com galinha e ovo. O vagão oferecia música ambiente de mau gosto, do tipo da tal Miss Sweet. Depois ligaram o vídeo, com filme local dramático e triste. A programação seguiu com musicais horrorosos e ocidentalizados. O mais interessante veio com as apresentações folclóricas birmanesas. Comediantes e improvisadores se revezavam. Duplas interpretavam canções típicas. Curiosíssimo.
Despedi-me do guia atrapalhado na chegada em Yangon. Ainda o adverti sobre os incontáveis erros cometidos, aconselhando-o a estudar mais para se tornar guia de verdade. Fez cara de paisagem e não sei se entendeu o recado. Reencontrei o primeiro guia e passeamos mais pela capital. Fomos ao parque, extenso e refrescante, ao mercado local, ao centro da cidade. Depois almoçamos em restaurante típico birmanês na beira do lago. Entre infinidades de assuntos, ele citou que nas universidades estavam proibidas as conversas sobre política e assuntos afins.
Comecei a sentir saudades de Mianmar antes mesmo de partir. As birmanesas substanciosas, bonitas, sorridentes, charmosas, insinuantes. A hospitalidade, o jeito antigo e calmo do povo. As belezas naturais, arquitetônicas, históricas. A comida picante e saborosa.
O avião decolou rumo à Tailândia. Mas eu queria ficar.
Na feia Bancoc tomei táxi até a pousada através de trânsito infernal.
Na manhã seguinte, peguei o trem com destino a Ayutaya, a antiga capital da Tailândia. Localizado no centro da cidade, o sítio histórico cobrava ingresso caro para ver restos de antigos templos e palácios, ruínas abandonadas em meio a favelas e oficinas mecânicas. Não havia qualquer preocupação arqueológica, apenas comercial.
Virada de ano em país chato como a Tailândia, em meio a turistas desinteressantes. Bebi muito do uísque tailandês e o efeito tenebroso veio a seguir. Após acordar tarde e com bruta ressaca, andei aos templos nas margens do rio Chao Phraya, lotados de turistas, exibindo gigantescas imagens de Buda. Bancoc não animava. Cidade feia, sem charme, sem opções sedutoras de passeios. Depois da Índia e Mianmar, tudo parecia sem graça.
Perambulei com novos colegas pelos becos e palafitas até o local onde atracavam os barcos reais, usados apenas em datas comemorativas. Nesses dias o rei e a rainha, dezenas de remadores, mais os barcos da comitiva, desfilavam pelo rio diante dos moradores. À tarde, nova visita ao Grand Palace, o conjunto de templos, palácios, museus, jardins, com muita foliação a ouro, brilho e imponência nas construções diversificadas. Havia mais turistas que formigas. Nas dependências internas, aonde não podia entrar de roupa esporte, bermuda ou sandálias, havia uma estátua de Buda em jade. Circulamos de barco pelos canais do rio Chao Phraya, onde as construções possuíam somente acesso fluvial. Barcos lotações buscavam e entregavam os moradores em horários pré-determinados. Casas simples, favelas, habitações de classe média, de madeira ou alvenaria, templos, lojas, se misturavam nas margens dos canais.

À noite fui arrastado à deprimente região de Patpong, a zona de prostituição da cidade. Tailândia figurava entre os paraísos do turismo sexual, da produção e comercialização de tóxicos, dos crimes organizados. As putas serviam como escravas brancas aos turistas do assim chamado primeiro mundo. Patpong compunha-se de dois quarteirões entupidos de ambulantes que vendiam mercadorias falsificadas. Os puteiros e salas de striptease, geralmente com as portas abertas, exibiam cenas previsíveis de seminuas se balançando ao lado de roliças barras de ferro. Nada diferente dos congêneres pelo mundo afora. De pé, nas portas dos estabelecimentos, os funcionários chamavam trouxas afirmando que aquela casa era a melhor e que não aplicava golpes. Nenhum cliente tailandês. Apenas os espertos cidadãos de evoluídos países tais como Estados Unidos, Canadá, Europa, Japão, Austrália, Nova Zelândia.
Apressei o passo e dormi cedo.
Em espera dos trâmites burocráticos para entrar no Vietnã, mais espetáculos da Bancoc voltada ao turismo estúpido. A fazenda de orquídeas e borboletas não passava de imenso ponto comercial com raras orquídeas e borboletas. Mas o pior ainda estava por vir, o mercado flutuante, mais conhecido por floating market. A expressão em inglês combinava com o lugar. Milhares de lojas, milhares de turistas. Barcos vendiam produtos industrializados para os gringos, como falso artesanato, ou apenas em exibição para fotos. Era a Tailândia ocidentalizada voltada para os turistas ocidentais. Retornamos de tuc-tuc, as motos com carroceria para quatro pessoas. O piloto efetuava manobras arriscadas em alta velocidade. Ziguezagueava por entre os demais veículos e motos. Tirava finas incríveis, cantava pneus. Mas chegamos vivos e inteiros.
Embarcamos com destino ao Vietnã. Ficaria livre, pelo menos até a volta, da deprimente Tailândia.
A exploração do Vietnã começou pela plana cidade de Saigon. Poucos prédios, casas mal conservadas, poucos carros, muitas motos, bicicletas e ciclos, os táxis em bicicletas onde o passageiro sentava na frente do condutor. A primeira impressão agradou. O povo sorria e não assediava. Passeio pelo mercado, rio, centro da cidade. Poucos mendigos e sem teto. Placas de marcas das grandes transnacionais e propaganda de importações se espalhavam pelas ruas. Refeições eram servidas nas calçadas. A fim de atravessar as ruas movimentadas e sem semáforos, bastava caminhar em velocidade normal e constante, pois os veículos, motorizados ou não, desviavam e nunca ameaçavam. Os vietnamitas, mesmo rumo às festas e enfeitados, não quebravam os costumes, se locomovendo de motos, lambretas, bicicletas.
Com cinco mil anos de existência, a língua vietnamita fora convertida para o alfabeto latino no século XVIII. Mas apenas a escrita. A língua se manteve monossilábica e multitônica, onde as sílabas podem apresentar até seis tons. Foi criado complexo sistema de acentuações na intenção de diferenciar esses tons. Há palavras com mais de um sinal na mesma letra, acima ou abaixo dela. Ao tentar dizer uma coisa, o som emitido poderia significar outra completamente diferente, de sentido oposto ou mesmo ofensivo.
Jantar em restaurante de comida regional, com mesas na calçada. Envolvia a maioria dos itens em papel de arroz e depois os mergulhava em molhos temperados. Provei lulas, sapos, diversas qualidades de verduras.
Valeu a pena circular pelos mercados e ruas, tomar contato com os moradores e comerciantes do bairro chinês de Cholon, sempre simpáticos e alegres. Visita ao impressionante Museu de Crimes de Guerra, que expunha os horrores cometidos pela França, Japão e Estados Unidos durante as invasões ao Vietnã. Bem montado e explicado nas diferentes fases, o espaço incluía fotos das atrocidades estadunidenses contra os vietnamitas, em torturas, chacinas, destruições, assassinatos, arrogância imperial. A guilhotina francesa foi utilizada contra o povo vietnamita até fins da década de 1950, quando a França ainda ocupava militarmente o país. Quase 200 anos após a revolução francesa! O museu localizava-se em bairro com ruas arborizadas e parques muito verdes. Famílias de mendigos pediam esmolas, enquanto carros importados circulavam pelas ruas. À saída do museu as ruas lotaram de bicicletas e motos vindas das saídas das escolas.
continua...

domingo, 12 de dezembro de 2010

do Nepal ao Vietnã (parte 5/7)

...continuação
As tailandesas estavam proibidas de frequentar os quartos das pousadas durante a noite. Prevenção hipócrita contra o turismo sexual que se tornou praga na Tailândia. A maioria dos sinais e placas nas ruas estava apenas em tailandês. A fluência na língua inglesa não era comum entre a população. Os tailandeses não se aproximavam para conversar ou mesmo para vender. Eram mais sérios e retraídos que os indianos ou nepaleses.
Passeei pelo mercado de fim de semana na zona norte da cidade. Tailandeses e turistas circulavam pelas barracas. Caminhei sob o sol quente, percorri grandes avenidas, minhocões, vielas, becos estreitos. O aspecto de tudo era moderno e ocidental. Favelas apareciam na margem dos canais fluviais e das ferrovias. Mangas, jacas, melancias eram vendidas nas ruas, cortadas em pedacinhos dentro de sacos plásticos.
A fome bateu. Valia a pena experimentar as comidas tailandesas nas barracas de rua. Quanto mais afastadas de Khao San, mais autênticas. Não havia problemas se os cardápios estavam somente em tailandês. Logo eu decorava os nomes locais. Calculadas para os miúdos tailandeses, as porções pequenas não enchiam a barriga e eu pedia duas para matar a fome. Os principais pratos tinham como base o arroz frito, acompanhado de carnes diversas e legumes, os ensopados de frutos do mar, as frituras de macarrão com legumes e carne. Tudo apimentado na medida certa.
Subi em barco pelo rio Chao Phraia em direção ao centro nervoso da cidade. A região lembrava a avenida Paulista, com vias congestionadas, edifícios altos, executivos apressados, restaurantes com comida rápida ocidental, carrões, lojas chiques.

Não conseguia definir o tipo físico predominante entre os tailandeses. Variavam bastante. Tinha até mulatos e sem olhos amendoados. Os turistas de mais idade, sobretudo oriundos de pacotes, representavam o lado do turismo assumidamente convencional, muitas vezes também sexual.
Passeio sem rumos ao redor de templos budistas e do Grand Palace. Bem distinto dos nepaleses e tibetanos, o complexo expunha torres cobertas de ouro que brilhavam sob a luz do sol. Nos arredores da universidade, próxima das principais atrações da cidade, havia infinidade de ônibus de turismo. Vendedores, nem tão insistentes como na Índia, se aproximavam com conversas sobre vendas, compras, negócios, sociedades, entre outros golpes. Não eram nada simpáticos ou naturais.
Tailandeses e turistas frequentavam os barcos de linha pelo rio. Quando as tailandesas eram bonitas, charmosas, de pele morena, deixavam as turistas loiras ainda mais feias. Não por acaso, estrangeiros acompanhavam putas tailandesas, invariavelmente estereotipadas, vestindo roupas pretas de couro, justas e curtas. Ela morena e com tamanho de bolso, ele loiro e com quase dois metros de altura. A cena patética chamava a atenção de todos. 
O avião decolou de Bancoc rumo ao aeroporto de Yangon, Mianmar. O atendimento na chegada foi simpático e eficiente, apesar da precariedade e simplicidade das instalações. A maioria dos jovens birmaneses vestia sarongues, inclusive o guia que me aguardava no saguão.
Fomos a restaurante dançante e com comidas típicas. Houve apresentação de danças folclóricas birmanesas. Belas mulheres cantavam músicas horríveis, acompanhadas por músicos desafinados. As mulheres, realmente estonteantes, pareciam notar o próprio amadorismo e não escondiam o embaraço no palco. As exibições de mágica beiravam o ridículo e recebiam aplausos frios. Mas a vista dos templos budistas era o brinde especial. Enormes e imponentes cones dourados dos pagodes brilhavam sob a noite estrelada.
Depois do café da manhã, visitei o pagode Shwedagon, o extraordinário templo budista visível de quase toda a cidade. Imenso, cônico, todo dourado, cercado por inúmeros templos menores, dourados, prateados, de madeira, de pedra. A religiosidade era grande e os fiéis lotavam os interiores, rezando, pedindo, agradecendo, trazendo dinheiro, presentes, oferendas.
No lago de Yangon havia festival e corrida de barcos antigos. Circulamos pelas imediações do centro da cidade e ao redor de outro templo de cone dourado. Poucos e velhos veículos ocupavam as ruas largas e arborizadas do centro. Não havia poluição. Nem parecia que a cidade abrigava quatro milhões de habitantes. Nas ruas estreitas abundavam cortiços em prédios de cinco andares com sacada nos apartamentos. O estado de conservação deixava a desejar. Os moradores penduravam roupas e objetos nas sacadas e janelas. Pedintes, sobretudo crianças, imploravam esmolas. Quase não se viam turistas. Então eu virava a atração nas ruas, mercados, praças. Os mais ousados arriscavam saudações curtas.

Os homens usavam camisa social de mangas curtas, sarongue de estampas escuras, chinelos de dedo. Ficavam de cócoras para urinar. Eram mais simpáticos e prestativos que os tailandeses. As mulheres vestiam blusa e sarongues coloridos, normalmente sem estampas. Lembravam as indianas na beleza do rosto e gestos insinuantes. Não deixavam de sorrir quando notadas. Passavam cremes esbranquiçados nas faces, que as protegiam do sol e as deixavam perfumadas.
Andamos pelos mercados e atravessamos o rio Yangon de balsa. Na outra margem apenas barracas de comida, pontos de ônibus, caminhões, trixás para transportar os moradores para vilas mais distantes. Os trixás eram ciclo-riquixás ou riquixás de bicicleta. Levavam dois passageiros, um de costas para outro, ao lado do condutor.
Mianmar era governada com mãos de ferro pelo mesmo militar desde o golpe de Estado em 1989. Mudou o nome do país de Birmânia para Mianmar, em respeito às outras etnias diferentes da birmanesa. Isolou o país do resto do mundo e fechou todas as fronteiras terrestres. A única porta de entrada oficial era a capital, Yangon, somente por avião. O turismo se restringia a menos de um terço da área do país. Entre tantas lendas a respeito do ditador, dizia-se que era muito supersticioso e tinha obsessão pelos números 5 e 9. Daí o kiat, a moeda nacional, possuir notas nos inusitados valores de 9, 15, 45, 90. Excelente ideia para colecionadores. As escolas e a assistência médica eram gratuitas no país. A população pagava apenas os livros e remédios.
Partimos com as bagagens para a estação ferroviária. Sem vagão restaurante no trem noturno, tivemos que comprar bolachas para enganar o estômago. Passava da meia noite quando embarcamos rumo a Mandalay. Confortável e mais lento que os indianos, o trem balançava nas linhas mal conservadas. Não estava lotado e a viagem seguiu tranquila. Ambulantes vendiam comida, frutas, bebidas e doces pelos corredores.
Amanheceu com o trem percorrendo áreas planas. Montanhas se elevavam ao fundo do horizonte. Havia plantações de arroz, girassol, milho. Templos ou pagodes brancos se acumulavam por toda parte. Os vilarejos agrícolas eram pequenos e pobres. As moradias muito simples, com paredes e teto de palha, suspendiam-nas do chão para se protegerem das cobras e enchentes.

Em Mandalay, almoço típico e saboroso que encheu o bucho e levantou o moral.
O parque do Forte e Palácio abundavam de verde, espaço livre, tranquilidade, onde mostraram réplicas do local antes da destruição pelos bombardeios japoneses durante a segunda guerra mundial. Seguimos até o centro da cidade através de avenidas longas, amplas e arborizadas, tudo plano, com centenas de bicicletas pelas ruas. A gostosa confusão se compunha de mercados, feiras, ônibus velhos, trixás.
Vestindo bermudas, em contraste com os sarongues masculinos dos birmaneses, eu me tornei sensação das ruas. Riam de mim, esculachavam, ou apenas se espantavam pela novidade. De traços mais orientais e olhos amendoados, as mulheres sorriam mais que em Yangon, correspondendo abertamente aos olhares, mas somente à distância.
Seguimos de riquixá motorizado, com a carroceria coberta, aos pés da colina de Mandalay. Foram centenas de degraus até o topo da colina, em meio a diversas imagens de Buda. Infinidade de templos na parte alta e baixa. Do alto a visão privilegiada da cidade e arredores. Tempo para contemplar a imensidão e o pôr-do-sol de tonalidades variadas.
Jantar em restaurante de comida simples e saborosa. A maioria das ruas do centro estava sem iluminação pública. Dezenas de barracas espalhadas pelas calçadas, de mesas, bancos, cozinhas singelas, serviam chá e davam toque especial às cenas.
Ao redor de Mandalay, cidadezinhas, antigas capitais que se transformaram em vilarejos pitorescos. Após cruzar a ponte sobre o rio Ayeyarwady, a vila de Sagaing, com a colina ao lado e centenas de templos em cima e nos arredores da montanha. Do alto, vista maravilhosa do rio e vilarejos. Não faltavam as caixas para doações aos templos budistas. Homens, mulheres e pequenos monges pediam dinheiro por toda parte. Parecia que os habitantes trabalhavam e entregavam o dinheiro suado para o comércio da religião. Famílias produziam manualmente potes de barro ou bronze, copos esculpidos de prata, tecidos coloridos para sarongues. Nos atendiam sorridentes, nos ofereciam casa e comida. As moças atacavam com sorrisos insinuantes. Almoçamos comida chinesa, picante e saborosa.
O vilarejo de Amarapura se situava na beira do lago, acolhedor, com casas de bambu e muito verde. Atravessamos o lago pela antiga ponte de madeira até o pitoresco vilarejo de Taungthaman. Não havia eletricidade, apenas cabanas suspensas de bambu cercadas de palmeiras, coqueiros, sombras refrescantes. Os sorridentes e simpáticos moradores teciam artesanato primitivo. Os pagodes brancos não poderiam faltar, inúmeros deles espalhados pela mata. Era delicioso caminhar sob as palmeiras e sorrir para os moradores, que sempre retribuíam. As mulheres, mesmo com o ridículo creme nas bochechas, exibiam muito charme. O guia não passava creme na pele, mas cobria a cabeça e os braços para se proteger do sol. A tez clara era bem-vinda no país, ao contrário da mais escura, provavelmente discriminada.
O local de artesanato em madeira e mármore produzia imagens de Buda. Templos e casas não faltariam para colocá-las. Centenas de imagens de Buda se espalhavam pelo interior dos templos. Desde as minúsculas, com menos de cinco centímetros, até as maiores com mais de trinta metros de altura, geralmente cobertas de outro. Os fiéis se postavam na frente delas, rezando por horas e horas.
As comidas típicas de Mianmar eram galinha, carne de boi, porco ou peixe, mas com o curry separado, para não vir tudo apimentado demais. Também saborosos, a sopa de verduras, espécie de couve ou agrião, os legumes com curry e muito, mas muito mesmo, arroz para acompanhar. Na verdade, o arroz era o principal e os demais itens os acompanhamentos. As sobremesas vinham de doce de tamarindo ou amendoim, frutas da estação.

Exceto a pobre decoração na portaria do hotel, não havia sinais do dia de natal na cidade. Ainda bem.
Fui sozinho à cidade de Bagan, onde dois novos guias me acompanhariam. O caminho até o hotel cruzou extenso sitio arqueológico, com templos e ruínas. A dupla me levou para almoçar em ótimo restaurante.
Bagan era um museu a céu aberto quase a perder de vista. Centenas de pagodes impressionavam pela idade, beleza, imponência, a maioria construída entre os anos 900 e 1200 depois de cristo. Exploramos a área entre inúmeras antiguidades, templos dourados, outros pequenos de madeira ao redor, o com diversas imagens de Buda em arenito, o Ananda, talvez o mais interessante deles, e muitos outros pagodes, mosteiros, ruínas, quase sem pinturas nas paredes e tetos. O terremoto de 1975 e a falta de restaurações comprometiam o estado de conservação da maioria deles. As raras pinturas visíveis mostravam invasores mongóis durante a destruição quase completa da cidade.
Duro de aguentar eram os guias, sobretudo o chefe tagarela. E como falava! Até pedi que fosse mais sucinto. Não teve jeito. Vomitou infinitas estórias de Buda. Discursou um por um os dogmatismos religiosos. Em cada imagem de Buda era meia hora no mínimo de preleções. Repetia, à exaustão, que, segundo o budismo, a vida é um sofrimento, que estamos nessa vida para sofrer. O outro guia era jovem, atrapalhado e inexperiente. Quase não falava.
Mianmar não contava com grande infraestrutura turística e se fechava para o exterior, preservando a pureza cultural, impedindo relações estritamente comerciais com os visitantes. Como em Mandalay, os táxis em Bagan utilizavam charretes puxadas a cavalo.
O pôr-do-sol na margem do rio Ayeyarwady nos presenteou com cores divinamente carregadas. Jantar no mesmo e ótimo restaurante do almoço, com os donos sentados à mesa.
E o sítio arqueológico de Bagan continuava a maravilhar. Diversos e suspeitos buracos no chão apareciam nas redondezas dos templos. O país era tristemente famoso pelas cobras venenosas, figurando entre os primeiros do mundo em acidentes fatais. Os guias batiam os pés antes de entrarmos nos templos para espantá-las. Não vi nenhuma viva, apenas peles ressecadas e rastros recentes. O uso de sandálias, facilitando a retirada para entrar nos templos, aumentava o risco de eventuais acidentes.
continua...