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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

do Nepal ao Vietnã (parte 7/7)

...continuação
Fomos à cidade de Thai Nin para conhecer o templo Cao Dai, percorrendo extensas áreas cultivadas, sobretudo de arroz. Não faltavam bicicletas e mulheres com chapéus cônicos. Pertencente ao caodaismo, mescla de quatro outras religiões, o templo abusava das cores vivas. As mulheres se postavam separadas dos homens nos infindáveis e sonolentos rituais. Sob uma atmosfera de autoritarismo ostensivo e usando braçadeiras, os membros da seita nos policiavam, nos advertindo sobre o que podíamos ou não fazer. Mas felizmente o número de seguidores estava em queda. Não era para menos. Os dirigentes e principais membros da religião tiveram boas relações com os invasores franceses. E, enquanto a região era devastada pelas armas químicas, a população e a natureza sofriam com as bombas napalm e agente laranja, os invasores estadunidenses não atingiram os templos do caodaismo. A indústria da religião sempre soube escolher os aliados de plantão.
Mulheres vestiam ao dai, roupa formal vietnamita, composta de calça branca e larga de algodão, mais túnica comprida de mesmas características. Complementavam com luvas finas e compridas, sapatos de salto alto, chapéus estilizados com fitas. Pareciam bonequinhas, pedalando bicicletas com elegância e delicadeza nas ruas e estradas.
Seguimos a Cu Chi a fim de visitar os famosos túneis que humilharam o exército dos Estados Unidos. Simpáticos e bem informados, os guias nos deram as necessárias explicações, acompanhadas de mapas, perfis esquemáticos, maquetes e vídeos. Conhecemos as estradas, tanques de guerra, crateras das bombas estadunidenses, trincheiras. Engatinhamos em túneis estreitos e escuros, que se interligavam com a superfície, refeitório, sala de cirurgia, sala de reuniões, depósitos. O complexo de túneis se dividia em três níveis, com até dez metros de profundidade. A extensão atingia 250 quilômetros, de Saigon ao Camboja, com inúmeras ramificações.

As imediações do hotel de Saigon se transformavam em reduto típico de turistas, caminhando a passos largos na imitação de Khao San em Bancoc. Os gringos insistem em construir guetos semelhantes aos países de origem, se distanciando das culturas locais. Perdiam oportunidades únicas e valiosas de aprender e amenizar a intolerância. Mas a vida noturna em Saigon e Cholon se agitava. Os moradores saíam bastante, lotando bares e cafés. Motos, lambretas e bicicletas com casais e amigos enchiam as ruas. Garotos vietnamitas batiam pauzinhos na rua, avisando que havia sopa, e aceitavam pedidos de encomenda.
Descemos ao delta do rio Mekong, área plana, alagadiça, com manguezais, vegetação tropical, canais, população rural, plantações de arroz, frutas. Ainda na estrada, lavradores nos receberam alegremente, nos servindo o saboroso e refrescante café com leite gelado, típico do sudeste asiático. Tomamos barco no mercado local de Mytho que conduziu pelos canais até Vhin Lon. A dificuldade de comunicação não impediu que os ribeirinhos recebessem sempre bem. Tentei me comunicar com sinais com garota vietnamita, também passageira do barco, e ganhei uma toranja de presente. Os ribeirinhos e passageiros de outros barcos acenavam e sorriam.
O guia local afirmou que as terras no Vietnã foram devolvidas aos proprietários anteriores à libertação do país em 1975, isto é, aos latifundiários aliados dos invasores estadunidenses. As escolas e a assistência médica para a maioria da população não eram gratuitas. Os gastos com educação correspondiam à cerca de um terço dos salários. O setor privado estava liberado para quem contasse com capital. Sob a propriedade privada e economia de mercado, o Estado vietnamita ainda controlava muita coisa, mas o socialismo e o comunismo nunca existiram no país. Os resultados disso se evidenciavam nas classes sociais antagônicas, concentração de renda, elitização da educação e da saúde, favelas, mendicância ao lado de carrões e gente bem vestida.
Saída matinal com destino à cidade serrana de Dalat. Antes da serra, extensa ponte fluvial sobre casebres espalhados de vilarejo flutuante e, mais adiante, imensos seringais. Era a região mais cristã do país, com enxame de igrejas horrorosas. A indústria da religião lucrava e se expandia no Vietnã capitalista. A topografia se acidentou, surgiram plantações de chá, café, fumo, verduras diversas, criações de bicho da seda.
Após Bao Loc, parada para visitar cachoeira paga e próxima à rodovia. A entrada e a frequência eram deprimentes. Dois indivíduos vestidos de bonecos cobravam entrada cara, um deles fantasiado de mickey mouse com as cores da bandeira estadunidense. Jovens vietnamitas com roupas sociais desfilavam pelo local. A tentativa de parecerem ocidentais tornava-os ridículos.
Distante dali a costumeira hospitalidade dos agricultores que nos explicaram as fases do processamento de fumo e bicho da seda. A paisagem ao redor era montanhosa e verde. Clareiras quebravam o verde nas encostas e nas cristas das montanhas, escancarando os efeitos dos bombardeios dos Estados Unidos com armas químicas. Além de milhões de mortos e feridos, os pesados e contínuos bombardeios de napalm e agente laranja envenenaram imensas áreas do sul do Vietnã, esterilizando o solo e impedindo o plantio por muitas décadas.

Antiga estância dos invasores franceses, a cidade de Dalat, a mais de 1.600 metros de altitude, revelava temperaturas amenas e casais em lua-de-mel. A temporada de casamentos enfeitava e alegrava a cidade, com festas, carros decorados por todos os lados. O mercado noturno transbordava de gente comendo e bebendo. Quase tudo era ao ar livre, animando a noite da cidade.
Descida da serra com visual privilegiado das montanhas e vales. No caminho, pequeno templo hindu, construído pela etnia Chan entre os séculos XI e XII. Crianças saídas das escolas se aproximaram em grupos. Queriam nos abraçar, conversar, serem fotografadas ao nosso lado. Na parte baixa da serra, à medida que se aproximava a beira do mar, arrozais e salinas. As trabalhadoras rurais vestiam calças pretas e largas, camisetas claras e chapéus cônicos.
Chegada em Nha Trang em hotel cujas mesas de sinuca, tênis de mesa, quadra de tênis e até a piscina eram cobradas à parte. A longa praia era bonita, em concha, coberta de coqueiros. Não havia habitações invadindo as areias, apenas bares simples.
Alugamos bicicletas de manhã e nos dirigimos às torres do século XI. Descemos aos vilarejos de pescadores na beira do mar. Barcos feitos de palha, arredondados, flutuavam nas ondas próximas à praia. Os moradores interrompiam os afazeres a fim de melhor nos observarem, analisarem, tentarem se comunicar por mímicas e sorrisos.  As crianças nos cercavam, pediam fotos, nos cumprimentavam, nos abraçavam. Avançamos à pequena enseada deserta, com águas calmas e azuis, poucas pedras. Não resisti e caí no mar. Retorno pela estrada principal sofrendo com o tráfego intenso e perigoso até o centro da cidade. Almoçamos com o visual relaxante da beira do mar.
Nha Trang marcava pela presença constante de pedintes de comida e esmolas em geral, deficientes físicos, sem partes dos membros. Eram vítimas da guerra promovida pelos Estados Unidos. E o intenso turismo na cidade atraía os miseráveis e abandonados pelo Estado. Cenas chocantes se repetiram no restaurante afastado da praia. Pedintes se aglomeravam nas imediações e imploravam por comida.
Casais iam de lambreta ou bicicleta aos coqueirais na beira da praia e se liberavam. Putas ainda jovens, exageradamente pintadas, acenavam, chamavam.  A maioria das vietnamitas, porém, não correspondia a olhares e paqueras, seja por timidez, necessidade de se diferenciar das prostitutas, preferirem diferentes estilos de abordagem.
Dia longo por estradas estreitas, acidentadas, sinuosas, com tráfego intenso. Mais imagens chocantes de zonas desmatadas pelas armas químicas lançadas pelos Estados Unidos. Extensos arrozais, salinas e cultivo de algas predominavam nas partes baixas, ao lado de pitorescas baías, ilhas, vilarejos de pescadores. Paradas para o café da manhã, almoço e inúmeros cafezinhos gelados na beira do mar. Acrescentavam leite condensado ao café coado e serviam em copos longos e cheios de pedras de gelo. Eu ia de dois copos dessa delícia refrescante. Os arrozais não se cansavam de deslumbrar.
Chegada à noite em Hoi An, cidade aconchegante com sequência de bares na beira do rio.
O dia começou com explorações em construções chinesas nas ruas e ruelas da cidade. Também pela ponte japonesa, bairro europeu, entre outros. Hoi An era calma, pequena, especial. Conheci vendedora na barraca de verduras do mercado que arranhava o inglês. Andei pelos becos estreitos, arborizados e sombreados, cumprimentando as pessoas das casas. Fui convidado a entrar pelo senhor sentado na varanda de uma delas. Os demais moradores se aproximaram. Vizinhos também entraram. Fiquei rodeado de gente sorridente a me observar com curiosidade e carinho. A ausência de palavras ressaltava a magia dos gestos e expressões. Tomei chá, comi laranjas, ouvi melodias em violão. A despedida entristeceu após experiência mágica que faz a diferença nas viagens soltas, com tempo, sem roteiros fixos. Mais tarde passeei de bicicleta pelas bandas da praia afastada.

A dublagem de filmes na televisão era efetuada por apenas uma mulher, para todos os atores, sem qualquer entonação ou emoção.
Percorri longos trechos de bicicleta nos arredores ao norte de Hoi An. Cruzei vilarejos rurais, extensos arrozais, escolas, estaleiros. Centenas de estudantes de ensino fundamental viram das janelas das salas de aula e saíram em disparada, cercando aos gritos, pedindo fotos. Os de trás passavam na frente dos da frente e assim por diante. Foi o acontecimento do dia para eles. As professoras os convenceram a entrar somente quando parti na bicicleta. Mas, de longe, ainda nos acenavam aos gritos.
No dia seguinte, serras esverdeadas por horas, das quais se viam praias ao fundo e mais montanhas. As Montanhas de Mármore, com templos e grutas cobertas de imagens de Buda. Passamos ao lado de Da Nang, antigo ponto de desembarque das tropas invasoras dos Estados Unidos. As plantações sem fim de arroz compunham tapete esverdeado até a linha do mar.
Entrada na cidade de Hue à tarde, por ruas amplas e arborizadas, onde não faltavam as bonequinhas em bicicletas, motos e lambretas. Extensa faixa com embarcações de madeira e cobertas de palha trançada abrigavam população flutuante, a mais numerosa vista até então. O povo adorava conversar nas calçadas, em frente às casas, convidando a entrar. Jantar em restaurante de comida típica vietnamita, cujos donos eram surdos-mudos. O ambiente mais parecia casa de loucos. Diversos garçons atendiam as mesas, abraçavam, se sentavam nas pernas dos fregueses. Adoravam brincar, fazer gozações. Tudo era festa. Nada era sério, exceto a saborosa comida. Caminhada de volta através de ruas cheias de jovens assistindo aos fogos de artifício.
Passeio pelas ruínas da cidadela fortificada e cidade proibida. Em 1968, durante a ofensiva do Tet, os vietcongs expulsaram os invasores estadunidenses, ocupando a cidade por 24 dias. Os Estados Unidos bombardearam tudo, inclusive a cidadela, na tentativa de reaver o controle militar, massacrando os moradores. O barco levou à longa viagem pelo rio, visitando as tumbas de antigo imperador do século XIX, e o pagode ao lado de mais túmulos. Os pedintes e vendedores de bugigangas não se cansavam de assediar.
Embarque rumo a Hanói, a capital vietnamita.
Sob o céu cinzento, caminhada pelas ruas charmosas, cheias de motos e bicicletas. Eu me deliciava com as sopas e ensopados, com tudo dentro, servidas em restaurantes minúsculos. À noite, teatro para assistir ao espetáculo das marionetes aquáticas, tradição vietnamita que surgiu e se popularizou nas épocas das grandes enchentes. Era teatro amplo, confortável e moderno, com apenas turistas na plateia. A apresentação agradou pelo colorido e alegria dos bonecos.
Os vietnamitas de Hanói revelavam semblantes mais sérios, carrancudos, e se vestiam mais sobriamente que os do sul do país. As mulheres, mesmo mais retraídas, primavam pela elegância e, nas motos, transbordavam sensualidade e charme, com os cabelos negros e lisos ao vento. Parte delas, na tentativa desajeitada de se ocidentalizar, tornava-se ridícula e mal vestida. A maioria, no entanto, ainda não caíra na armadilha e se orgulhava dos costumes vietnamitas. O povo raramente abordava nas ruas, valorizando a privacidade e individualidade.
Na estrada no sentido norte, cruzamos a cidade portuária de Haiphong. Com exceção das vistosas plantações de arroz, a paisagem era feia demais. O tempo cinzento e chuvoso contribuía para avaliações negativas. Muita lama e casas velhas em Haiphong, mas os moradores sorriam mais que em Hanói. Almoço bom e farto.
Chegamos em Ha Long, à beira mar. Prédios novos exibiam gosto duvidoso nas decorações e fachadas. Hotéis e restaurantes escandalizavam com acabamentos em rosa e cores vivas. Cortinas verdes de cetim brilhante pendiam das janelas. Doía só de olhar. A incompetência da moderna indústria turística mais depredava que construía. Os diversos karaokês espalhados pela cidade e ao redor do hotel estavam a mil.
Em embarcação confortável avançamos pela baía de Ha Long, percorrendo o labirinto de ilhas calcárias, em diversos tamanhos e formatos, algumas com grutas e cavernas. As raras praias eram pequenas e pedregosas. O mar, mesmo com o tempo cinzento, se destacava pelo verde intenso. As temperaturas não convidavam a mergulhos, mas valia a emoção de circular pelo cenário ímpar. Ancorávamos para explorar as ilhas com cavernas e formações rochosas inusitadas. Valia circular por paisagens tão ímpares e belas.
A comida do barco era saborosa e farta, com predomínio de camarão, lula, peixe, arroz, tudo bem temperado. À noite, as almofadas pelo convés coberto do barco, lado a lado, formando uma grande cama.

Café da manhã cedo. A tripulação deu a partida e, em poucas horas, retornou ao cais da cidade. A névoa espessa não deixava ver quase nada. Novamente o vilarejo cafona e sujo de Ha Long. Subida em direção a Hanói. As rodovias, estreitas e cheias, continuavam a assustar. As trabalhadoras rurais se cobriam, além dos chapéus cônicos, com panos sobre o rosto a fim de não se queimarem, mesmo em dias nublados. O sol fraco ameaçou aparecer no final da tarde ao entrar nas ruas da capital.
Passeio pelas redondezas do museu e mausoléu Ho Chi Min. Pagodes e lagos valorizavam o local. Nas imediações, casas elegantes em ruas arborizadas e sombreadas, praças e parques, mais lagos. As informações históricas no museu estavam organizadas e intercaladas com obras de arte moderna. Os ambientes de luz e sombra davam encanto especial ao conjunto.
Entrei no templo da Literatura, local da primeira universidade do país, datada do século XI. A atmosfera da construção térrea com toques em madeira avermelhada cobria-se de calma e silêncio.
Na parte antiga de Hanói, as ruas se distinguiam pelos produtos vendidos. Rua dos sapatos, rua das roupas, rua da prata, rua do peixe, rua do bambu, rua das lápides. Verdadeiro mar de gente em vaivém de compras e vendas. Cheiros diversos passavam em região que exalava muita vida. Assisti ao intenso pôr-do-sol enquanto conversava à vontade com um vendedor de guias e com um estudante de direito. O fato de nenhum dominar a língua inglesa, não impediu de debatermos assuntos dos mais variados.
Conversei bastante com a recepcionista do hotel sobre perspectivas profissionais e pessoais. Ela guardava ideias difusas e vagas sobre o ocidente. Repeti as andanças e descansos na beira do lago a fim de apreciar a paisagem e os moradores ao redor. Os vendedores insistiam em vender o que eu não queria comprar. As irritantes crianças pediam dinheiro e até tentavam enfiar as mãos em meus bolsos.
Visitei os interiores do mausoléu Ho Chi Min. A longa fila acompanhava e homenageava o corpo iluminado com luz amarelada do presidente, libertador e herói nacional Ho Chi Min. Os diversos seguranças não demonstravam truculência e a atmosfera passava calma e respeito. Próximo, a cabana suspensa e ventilada, a antiga casa e local de trabalho dele. À tarde relaxei em café no meio do jardim do lago.
O tamanho das mesas, cadeiras, bancos dos cafés e restaurantes nas calçadas lembrava brinquedos de crianças. Os bancos não passavam dos dez centímetros de altura. Ao me sentar tinha que flexionar as pernas, ficando os joelhos na altura do rosto. E eu virava a grande atração. Os vietnamitas me observavam e riam. Riam muito. E riam também quando eu tentava pronunciar os pratos durante meus pedidos à cozinheira. Por mais que tentasse não acertava a pronúncia das sílabas com os traiçoeiros sinais em cima e embaixo. A cozinheira, nos restaurantes de rua, ou as garçonetes, nos outros locais, não entendiam e olhavam para os lados. De nada adiantava eu repetir. Começavam a rir às gargalhadas, junto com os clientes que ouviam a cena. Os risos voltavam a todo vapor quando eu pedia outro. Os miúdos vietnamitas jamais repetiam e se espantavam de eu aguentar comer duas enormes tigelas da sopa engrossada com carne de boi, frango ou porco, diversos legumes, verduras e temperos. Um minúsculo local no centro da cidade preparava o melhor Bun Bo de Hanói. Desisti de procurar alternativas e virei freguês dali.
Os funcionários do hotel me convidaram a comer deliciosa sopa matinal. E ainda repeti a dose. O pai da recepcionista apareceu e, sem falar uma palavra de inglês, me convidou a visitar o estúdio de pinturas na casa vizinha. Vi fotos, consultei livro sobre arte vietnamita, tomei chá.
E me dirigi de micro-ônibus da empresa aérea ao aeroporto de Hanói. A turista alemã com cara de nazista não queria que eu me sentasse ao lado dela, alegando que estava reservado para o namorado. Ignorei e permaneci sentado. As ruas estreitas e congestionadas sob o tempo chuvoso tornaram o percurso demorado e desconfortável. As dependências do aeroporto de Hanói gelavam e os passageiros se encolhiam nos bancos. Nem parecia país tropical. Chovia, ventava e fazia menos de 15 graus.
O avião pousou em Bancoc antes do meio-dia, sob o sol escaldante e temperatura na marca de 40 graus. O desembarque demorou horas e enfrentei fila quilométrica.
De volta ao pesadelo de pós-adolescentes que se consideravam alternativos e experientes. E o festival de artilharia pesada assustava com as loiras que me tiravam o apetite. Talvez sofreram graves acidentes na infância e ficaram com sequelas nas estruturas.
O calor me fazia transpirar por todos os poros. Ainda mais depois do frio vietnamita. Retirei o restante da bagagem deixada em hotel da região. Esvaziei ambas as mochilas no tapete da área de estar. Tirei o suor na pia do banheiro e vesti camisa limpa. Arrumei tudo e subi em lotação rumo ao aeroporto.
Durante o voo noturno me emocionei quando o comandante comunicou a passagem sobre a cidade de Yangon em Mianmar. O avião pousou em Londres ainda no escuro. A inglesa da imigração insistia que eu viera procurar trabalho ilegal na Inglaterra. Não adiantou eu mostrar o bilhete e o cartão de embarque para aquela mesma noite com destino a São Paulo. E repetia as mesmas perguntas como papagaio. Eu as respondia como papagaio. Ela me olhava friamente. Eu a olhava friamente. Venci a burocrata loira pelo cansaço e fui liberado.
Amanheceu tarde em Londres, com muito frio, vento, chuva. Era o segundo choque térmico e uma noite sem dormir desde Hanói. Esperei o dia clarear. Caminhar nas ruas nem pensar. Os museus eram a única alternativa. Visitei o Museu Britânico que guardava milhares de peças saqueadas pelo império britânico. Havia de tudo e de todos os lugares após séculos de pilhagens e roubos pelo mundo afora. Os invasores chegaram ao cúmulo de arrancar parte por parte de templos hindus na Índia e montá-los inteirinho novamente na Inglaterra. Assalto puro e simples. A Galeria Nacional oferecia acervo permanente de artes plásticas. Aproveitei para descansar e cochilar nos enormes sofás. O museu de cera de Madame Tussaud abusou do mau gosto. Figuras pouco fiéis tentavam homenagear personalidades nem sempre homenageáveis. Turistas vibravam e fotografavam, sobretudo no espaço reservado aos quatro rapazes de Liverpool.
Caía de sono e cansaço. As opções para passar o tempo chuvoso se acabavam. Retornei ao aeroporto no início da noite. O atendimento nos balcões da empresa aérea inglesa primava pela desorganização e má vontade. Os despreparados funcionários ingleses chegaram atrasados, interrompiam o embarque sem motivo aparente, tagarelavam bobagens entre si. Atrasaram o voo em mais de uma hora. Legítima pontualidade britânica!
Na manhã do fim de janeiro do ano seguinte cheguei a São Paulo, sob o sol e calor. Terceiro choque térmico. Duas noites sem dormir e nove horas e meia de diferença de fuso horário desde Hanói.
Entrei em casa, abri as janelas, tomei banho, saí para matar a fome. Retornei, deitei e adormeci. Acordei somente 23 horas depois.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

do Nepal ao Vietnã (parte 6/7)

...continuação
No vilarejo de Myinkaba, presenciei intrigante cerimônia de iniciação de dezenas de crianças, prestes a se recolherem por anos dentro dos mosteiros budistas. Desfilavam pintadas, montadas em cavalos, vestindo coroas, usando guarda-chuvas dourados. As expressões não eram de felicidade e várias choravam. Mais tarde raspariam os cabelos, se reuniriam para comer e dançar músicas típicas ao som de xilofones, gongos, tambores e harpas. E não faltavam as cores vivas, muitas cores vivas, em tudo.
O guia mais calado e atrapalhado somente abria a boca para dizer inutilidades e chavões. E não sabia responder às minhas perguntas. O guia principal, budista dogmático, não se livrava dos fedidos charutos. Alegava que no budismo nada é permanente e que, por isso, não se importava com danos aos pulmões. Ambos se esquivavam de qualquer pergunta que saísse do dogmatismo. Abusavam de frases decoradas do budismo até ao discutir horários da programação. Escarravam e assoavam o nariz sem lenço ou papel, com direito a muito barulho, inclusive durante as refeições. A maioria da população se comportava assim, até as atraentes birmanesas, para meu desgosto.
Mesmo fechado, o país vomitava lixo ocidental dos alto-falantes. E importava também refrigerantes, uísques, cigarros. Placas com marcas das famigeradas transnacionais se espalhavam nas cidades. As imagens de Buda eram onipresentes, em estátuas, grandes ou pequenas, pedra ou ouro, pinturas nas paredes e tetos. Apelavam até para as imagens nos televisores nos templos mais modernos.

Ainda nos arredores de Bagan, o centro de treinamento de fabricação de produtos em laca. Usavam tiras de bambu ou crina de cavalo como matérias primas. Em seguida, vários banhos de laca, pinturas, desenhos com estilete e polimento. Trabalho cuidadoso, bem feito, primitivo.
O guia mais jovem e atrapalhado seria meu único guia pelos demais interiores do país. E sem saber quase nada de inglês ou dos locais a serem visitados. Partimos pela manhã, percorrendo estradas tão estreitas que precisava parar quando vinham veículos em sentido contrário. Vários trechos nem eram pavimentados. Iniciamos a subida da serra e logo atingimos os 1.300 metros de altitude. Pequenos ajuntamentos de barracos de bambu nas margens da estrada, invariavelmente suspensos e precários, muitos nem sequer com móveis, abrigavam famílias sobrevivendo aos trancos e barrancos. Os pedágios de religiosos budistas abundavam nas estradas, interrompendo o tráfego, coagindo os passantes a doarem dinheiro para a construção de mais templos. Diversas caminhonetes lotações e ônibus velhos cruzavam pelo caminho. Chamá-los de lotados seria eufemismo. Além dos esmagados da parte interna, havia gente até nos tetos dos veículos. Muita gente misturada com muita bagagem.
Entramos no ramal para Pindaya. Nas margens da estrada, pertencentes ao estado de Shan, circulavam habitantes com trajes típicos da região, predominando os tons avermelhados, com panos nas cabeças. Seguimos direto para as grutas, na verdade templo budista, aproveitando as reentrâncias calcárias para instalar milhares de estátuas de Buda nas paredes, tetos, pisos. Cada ponto servia para determinados temas. Havia estátuas que atendiam até os interessados em ganhar na loteria. Outras eram para pedir sorte. Mas apenas na próxima vida, claro. A despeito da beleza natural, o local se reservava a romaria de budistas fanáticos e alienados. Estávamos no alto da montanha e a vista dali era estupenda. A cidade e o lago se estendiam abaixo.
Pernoite em Pindaya onde jantamos sopa e lamem reforçado com galinha. Comi muito e bem. Os moradores da região dormiam cedo, pois tinham medo de serem recrutados pelas patrulhas do exército como voluntários para obras civis em estradas e demais trabalhos pesados. Esfriou durante a noite e os cobertores não foram suficientes.
Despertar ainda no escuro e descida por estradas estreitas e fascinantes até a margem do lago Inle. O nascer do sol veio em meio à intensa neblina. Na margem do lago fretamos barco para quase todo o dia.

Pescadores e barqueiros remavam com apenas uma perna, se sustentando na outra, as mãos livres para pescar. A cerração na parte mais larga do lago e as montanhas ao redor davam encanto especial à paisagem. Atingimos o trecho onde ocorria o mercado flutuante, nas proximidades de vilarejo lacustre, ao longo do canal e entre fileiras de palafitas. Os barcos, transportando produtos agrícolas, entre outros, negociavam quando se tocavam, vendiam, compravam, trocavam em vaivéns agitados. Apesar da pobreza, as palafitas desenhavam conjuntos harmônicos e vistosos sobre as águas. As construções se adaptavam perfeitamente às condições climáticas. Adiante pelo lago, pelos canais que formavam o vilarejo, cruzados por caprichosas pontes de madeira. Os moradores fabricavam e vendiam artesanato dentro e foras das cabanas. Na extremidade do vilarejo, o pagode com torre parcialmente dourada. Mais adiante, o mosteiro budista em madeira sobre as águas, construído há mais de dois mil anos, guardava diversas estátuas e imagens douradas de Buda. No centro se destacava a cadeira de madeira finamente trabalhada e reservada às pregações. Mesmo depois de visitar dezenas de templos e pagodes, aquele chamou bastante atenção.
Almoço na simpática pousada em Nyaung Shwe, sob o sol agradável, com vista relaxante das águas do lago Inle, bem ao lado.
Subida do relevo em direção a Taunggyi, em cujo alto da serra, outro pagode com vista panorâmica do vale e da cidade. A 1.450 metros de altitude, Taunggyi era moderna e sem atrativos especiais. Os moradores não vestiam sarongues. Dentro de casacos de couro com símbolos ocidentais, os rapazes imitavam atores do cinema estadunidense.
O guia bobão e atrapalhado nada articulava além de estúpidas frases decoradas, tais como:
“este é o hospital da cidade”,
“ali é o exército”,
“os soldados se vestem de verde em Mianmar”,
“esta cidade se chama Taunggyi”,
“Taunggyi é o nome desta cidade”.
E ao entardecer, me levou a lugar vazio e abandonado, com mato alto, lixo, onde o pôr-do-sol foi emoldurado por fios de eletricidade, construções em obras, estradas asfaltadas. Ainda bem que o país era fascinante e me fazia ignorar o sujeito.
Pela manhã, voltas pelo mercado ao ar livre de Taunggyi. Tipos diferentes e coloridos vendiam de tudo, nas barracas, calçadas, ruas.

Descida da serra por estrada sinuosa e estreita. Os motoristas, porém, não dirigiam perigosamente, havendo sempre respeito e solidariedade. A mão de direção em Mianmar fora recentemente transferida para a direita. Mas os volantes dos carros continuavam também do lado direito. Nas ultrapassagens, o motorista precisava avançar bastante na pista contrária para conseguir ver os veículos no outro sentido. Tentava não prestar atenção, mas sentia calafrios nessas tentativas. No toca-fitas do carro rolava a tal de Miss Sweet que, segundo o bobalhão, cantava músicas birmanesas. Apenas a língua era local. As melodias, arranjos, estilos de voz eram cópias ruins do lixo estadunidense.
Durante a espera do trem em Thazi, me instalei em pousada precária. As instalações davam pena. Não havia banheiro nos quartos. Os chuveiros não contavam com vasos sanitários ou latrinas. Senti dor de barriga durante o banho. Descarreguei ali mesmo com o chuveiro aberto. Tentei empurrar o barro até o ralo. Não era ralo e toda a massa marrom escura tomou o caminho de volta. Encontrei finalmente o ralo, arrastei tudo novamente e a coisa se foi. Mas antes disso o banheiro alagou. Fechei o chuveiro até a água suja baixar. Reabri então o registro e voltei ao banho normalmente.
E lá fui eu e o bobão do guia em direção a Yangon. O trem era bem melhor que o da ida. Corredor central, dois bancos largos e espaçados. Apenas um banco do outro lado do corredor. Reclinavam o suficiente e envolviam pelo conforto. Os garçons serviram arroz frito com galinha e ovo. O vagão oferecia música ambiente de mau gosto, do tipo da tal Miss Sweet. Depois ligaram o vídeo, com filme local dramático e triste. A programação seguiu com musicais horrorosos e ocidentalizados. O mais interessante veio com as apresentações folclóricas birmanesas. Comediantes e improvisadores se revezavam. Duplas interpretavam canções típicas. Curiosíssimo.
Despedi-me do guia atrapalhado na chegada em Yangon. Ainda o adverti sobre os incontáveis erros cometidos, aconselhando-o a estudar mais para se tornar guia de verdade. Fez cara de paisagem e não sei se entendeu o recado. Reencontrei o primeiro guia e passeamos mais pela capital. Fomos ao parque, extenso e refrescante, ao mercado local, ao centro da cidade. Depois almoçamos em restaurante típico birmanês na beira do lago. Entre infinidades de assuntos, ele citou que nas universidades estavam proibidas as conversas sobre política e assuntos afins.
Comecei a sentir saudades de Mianmar antes mesmo de partir. As birmanesas substanciosas, bonitas, sorridentes, charmosas, insinuantes. A hospitalidade, o jeito antigo e calmo do povo. As belezas naturais, arquitetônicas, históricas. A comida picante e saborosa.
O avião decolou rumo à Tailândia. Mas eu queria ficar.
Na feia Bancoc tomei táxi até a pousada através de trânsito infernal.
Na manhã seguinte, peguei o trem com destino a Ayutaya, a antiga capital da Tailândia. Localizado no centro da cidade, o sítio histórico cobrava ingresso caro para ver restos de antigos templos e palácios, ruínas abandonadas em meio a favelas e oficinas mecânicas. Não havia qualquer preocupação arqueológica, apenas comercial.
Virada de ano em país chato como a Tailândia, em meio a turistas desinteressantes. Bebi muito do uísque tailandês e o efeito tenebroso veio a seguir. Após acordar tarde e com bruta ressaca, andei aos templos nas margens do rio Chao Phraya, lotados de turistas, exibindo gigantescas imagens de Buda. Bancoc não animava. Cidade feia, sem charme, sem opções sedutoras de passeios. Depois da Índia e Mianmar, tudo parecia sem graça.
Perambulei com novos colegas pelos becos e palafitas até o local onde atracavam os barcos reais, usados apenas em datas comemorativas. Nesses dias o rei e a rainha, dezenas de remadores, mais os barcos da comitiva, desfilavam pelo rio diante dos moradores. À tarde, nova visita ao Grand Palace, o conjunto de templos, palácios, museus, jardins, com muita foliação a ouro, brilho e imponência nas construções diversificadas. Havia mais turistas que formigas. Nas dependências internas, aonde não podia entrar de roupa esporte, bermuda ou sandálias, havia uma estátua de Buda em jade. Circulamos de barco pelos canais do rio Chao Phraya, onde as construções possuíam somente acesso fluvial. Barcos lotações buscavam e entregavam os moradores em horários pré-determinados. Casas simples, favelas, habitações de classe média, de madeira ou alvenaria, templos, lojas, se misturavam nas margens dos canais.

À noite fui arrastado à deprimente região de Patpong, a zona de prostituição da cidade. Tailândia figurava entre os paraísos do turismo sexual, da produção e comercialização de tóxicos, dos crimes organizados. As putas serviam como escravas brancas aos turistas do assim chamado primeiro mundo. Patpong compunha-se de dois quarteirões entupidos de ambulantes que vendiam mercadorias falsificadas. Os puteiros e salas de striptease, geralmente com as portas abertas, exibiam cenas previsíveis de seminuas se balançando ao lado de roliças barras de ferro. Nada diferente dos congêneres pelo mundo afora. De pé, nas portas dos estabelecimentos, os funcionários chamavam trouxas afirmando que aquela casa era a melhor e que não aplicava golpes. Nenhum cliente tailandês. Apenas os espertos cidadãos de evoluídos países tais como Estados Unidos, Canadá, Europa, Japão, Austrália, Nova Zelândia.
Apressei o passo e dormi cedo.
Em espera dos trâmites burocráticos para entrar no Vietnã, mais espetáculos da Bancoc voltada ao turismo estúpido. A fazenda de orquídeas e borboletas não passava de imenso ponto comercial com raras orquídeas e borboletas. Mas o pior ainda estava por vir, o mercado flutuante, mais conhecido por floating market. A expressão em inglês combinava com o lugar. Milhares de lojas, milhares de turistas. Barcos vendiam produtos industrializados para os gringos, como falso artesanato, ou apenas em exibição para fotos. Era a Tailândia ocidentalizada voltada para os turistas ocidentais. Retornamos de tuc-tuc, as motos com carroceria para quatro pessoas. O piloto efetuava manobras arriscadas em alta velocidade. Ziguezagueava por entre os demais veículos e motos. Tirava finas incríveis, cantava pneus. Mas chegamos vivos e inteiros.
Embarcamos com destino ao Vietnã. Ficaria livre, pelo menos até a volta, da deprimente Tailândia.
A exploração do Vietnã começou pela plana cidade de Saigon. Poucos prédios, casas mal conservadas, poucos carros, muitas motos, bicicletas e ciclos, os táxis em bicicletas onde o passageiro sentava na frente do condutor. A primeira impressão agradou. O povo sorria e não assediava. Passeio pelo mercado, rio, centro da cidade. Poucos mendigos e sem teto. Placas de marcas das grandes transnacionais e propaganda de importações se espalhavam pelas ruas. Refeições eram servidas nas calçadas. A fim de atravessar as ruas movimentadas e sem semáforos, bastava caminhar em velocidade normal e constante, pois os veículos, motorizados ou não, desviavam e nunca ameaçavam. Os vietnamitas, mesmo rumo às festas e enfeitados, não quebravam os costumes, se locomovendo de motos, lambretas, bicicletas.
Com cinco mil anos de existência, a língua vietnamita fora convertida para o alfabeto latino no século XVIII. Mas apenas a escrita. A língua se manteve monossilábica e multitônica, onde as sílabas podem apresentar até seis tons. Foi criado complexo sistema de acentuações na intenção de diferenciar esses tons. Há palavras com mais de um sinal na mesma letra, acima ou abaixo dela. Ao tentar dizer uma coisa, o som emitido poderia significar outra completamente diferente, de sentido oposto ou mesmo ofensivo.
Jantar em restaurante de comida regional, com mesas na calçada. Envolvia a maioria dos itens em papel de arroz e depois os mergulhava em molhos temperados. Provei lulas, sapos, diversas qualidades de verduras.
Valeu a pena circular pelos mercados e ruas, tomar contato com os moradores e comerciantes do bairro chinês de Cholon, sempre simpáticos e alegres. Visita ao impressionante Museu de Crimes de Guerra, que expunha os horrores cometidos pela França, Japão e Estados Unidos durante as invasões ao Vietnã. Bem montado e explicado nas diferentes fases, o espaço incluía fotos das atrocidades estadunidenses contra os vietnamitas, em torturas, chacinas, destruições, assassinatos, arrogância imperial. A guilhotina francesa foi utilizada contra o povo vietnamita até fins da década de 1950, quando a França ainda ocupava militarmente o país. Quase 200 anos após a revolução francesa! O museu localizava-se em bairro com ruas arborizadas e parques muito verdes. Famílias de mendigos pediam esmolas, enquanto carros importados circulavam pelas ruas. À saída do museu as ruas lotaram de bicicletas e motos vindas das saídas das escolas.
continua...