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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Escandinávia (parte 4/4)

...continuação
Subimos no barco rumo a Svolver, ao norte. O tempo nublado e chuvoso mais a proximidade da costa fez a embarcação balançar. Após a chegada, enquanto aguardávamos o próximo barco, entramos em pub a fim de nos protegermos do mau tempo. Sentamos com três garotas alemãs divertidas, pedimos apenas uma bebida para não gastar muito. Enrolamos como pudemos. Contamos histórias, piadas, debochamos. O inglês mais tímido e recatado se escandalizava com nossas falas e ações, alegando que o deixávamos embaraçado. Todos riam ainda mais, inclusive o outro inglês, falante e descontraído.     
Nova partida em barco quase à meia noite. O tempo ruim continuava e a rota se aproximava à linha da costa, provocando fortes oscilações em meio às ondas altas formadas no mar. O pior trecho, até a conhecida Stamsund, causou ataques de mal estar na maioria dos passageiros. Muitos corriam aos banheiros para vomitar o que tinham e o que não tinham no estômago. Exibiam expressões de pânico, faces pálidas e esverdeadas. Nem as instruções de se manterem deitados nos pisos acarpetados amenizava a situação. A todo instante alguém se levantava e, com as mãos na boca, cambaleante, se dirigia rapidamente ao banheiro mais próximo. Eu me estendia no carpete, tentava conversar, respirava fundo. Enjoei também, mas sem vomitar. O inglês recatado era, disparado, o que mais sofria. Mas nunca se esquecia de pedir desculpa e licença antes de fugir para o vaso sanitário, de quem se tornou o maior companheiro na viagem.
Embora tentássemos adormecer, nada do sono envolver e afastar momentaneamente daquela tortura. O barco levantava a proa, voava sobre as ondas, depois despencava novamente, batendo violentamente contra as águas. Logo em seguida começava tudo novamente. Mesas e cadeiras das áreas sociais do barco prendiam-se ao piso por molas de aço, o que as impedia de sumirem pelos ares.
Após a escala em Stamsund, no meio da madrugada, o barco tomou rota afastada da terra, enfrentou águas mais calmas e a paz voltou a reinar. Usei a bagagem como travesseiro e consegui dormir. Os demais passageiros também desmaiaram de cansaço.

Desembarque pela manhã, sob o céu escuro e ameaçador, na cidade litorânea de Bodo, grafada com o segundo “o” cortado em diagonal. Ventava e chuviscava de maneira intermitente. Sem descansar dos dois desgastantes percursos de barco, do arquipélago das ilhas Lofoten ao continente, nós embarcamos em trem com destino a cidade de Trondheim. 
A diversificada paisagem evoluía entre montanhas, vales profundos, rios, lagos, fiordes esverdeados. Vales separavam vilas, bosques de pinheiros, trechos pedregosos e cobertos de vegetação rala amarelada ou alaranjada. Os rios alternavam entre caudalosos, verdes, cobertos de espessa neblina, e acinzentados e cheios de cascalhos.
Conversei bastante com os ingleses, sobretudo com o mais comunicativo. Desprendido e desapegado de posses materiais, ele planejava diversas viagens à Europa, África e Ásia. As norueguesas dos vagões do trem eram demasiadamente loiras, quase transparentes, de rostos e corpos arredondados, estaturas baixas, troncudas. E jamais sorriam ou se interessavam em conversar com estrangeiros.
Após quase vinte e quatro horas de viagens em dois barcos e um trem, desembarcamos em Trondheim à noite. A compensação veio com o excelente albergue da juventude, grande, impecavelmente limpo, tranquilo. Poucos hóspedes ocupavam as dependências, dando para escolher a cama nos quartos coletivos. Os dois ingleses preferiram seguir adiante.
E o café da manhã fez jus ao todo, servindo diversos tipos de iogurtes, pães, tortas, frutas, queijos, cereais, sucos. Os ovos cozidos eram separados pelo tempo de cozimento, 1 minuto, 3 minutos, 5 minutos, 7 minutos. E o banquete estava incluído na salgada diária, bem norueguesa.
Trondheim alegrava-se naquela manhã de sábado com muita gente circulando nas ruas e praças. Diversos trechos contavam com moradias exclusivamente de madeira, recém-pintadas, com vasos de flores nas entradas. A colina a oeste proporcionava visão ampla e privilegiada da cidade. As residências construídas nos altos eram brancas, de madeira, em sobrados, exibindo janelas com cortinas e pequenas floreiras debruçadas na calçada. O dia nublado e com pouca luz ofuscava a beleza do fiorde situado entre a cidade e o mar. Datada do século XI, a imponente catedral impressionava mesmo com a falta de luz nos interiores, evidenciando a atmosfera medieval e as pedras expostas.
Encontrei chilenos exilados durante manifestação de rua contra a ditadura militar do Chile, que massacrava o povo graças ao apoio direto do regime dos Estados Unidos. Informações esclarecedoras denunciavam a presença de dezenas de milhares de chilenos obrigados a morar fora do país em virtude de perseguições, torturas, assassinatos cometidos pela ditadura.
Cansado de comer sanduíches de itens dos supermercados, encarei pizza rápida no almoço e sanduíche com fritas em lanchonete no jantar. Gastei muito, sem por isso ficar satisfeito e bem alimentado. E a proximidade de Oslo, a capital norueguesa, fazia os preços subirem ainda mais.
À noite, como nas demais cidades pequenas, médias e até algumas grandes, da Escandinávia, tudo ficava deserto. Ninguém nas ruas, praças, restaurantes e lanchonetes em pleno verão norueguês. A fim de fugirem da atmosfera triste e pesada, espantar a solidão, os noruegueses de Trondheim lotavam as inúmeras máquinas de caça-níqueis, espalhadas nos quatro cantos da cidade. E, é claro, não faltavam os bêbados solitários, perambulando com garrafas nas mãos. Às vezes cantavam, às vezes pediam dinheiro, às vezes perturbavam os raros transeuntes.
A caminhada sob a chuva fina do albergue à estação ferroviária me deixou arrepiado de frio. E, com as roupas molhadas, embarquei pela manhã rumo à capital norueguesa.
O serviço a bordo do trem vendia salgadinhos, sanduíches, refrescos, a preços absurdos, regra nos trens europeus. Reparei em diversos noruegueses, homens e mulheres, novos e velhos, o movimento repetido e nervoso de, subitamente, abrir a boca, inspirar e expirar rápida e intensamente. Nas primeiras oportunidades, distraído, me assustava, pois parecia que fariam, logo em seguida, algo brusco e violento.
E a paisagem continuava a dar espetáculos. Altas montanhas, muitas cobertas de neve, vales profundos com cascatas e pequenas cachoeiras, planaltos, velhas cabanas de madeira. A vegetação escassa e amarelada rareava nas alturas junto à neve permanente. Nas regiões mais baixas predominavam bosques, pequenas plantações, chácaras. Dava vontade de desembarcar e seguir a pé, a fim de apreciar tudo lentamente, sem pressa, degustando, sobretudo entre Oppdal e Dombas. Após Lillehammer, o relevo aplainou-se e um lago grande e alongado surgiu a oeste.
No meio da tarde desembarquei na estação ferroviária de Oslo. De bonde cheguei ao albergue da juventude. Reencontrei os dois ingleses e o casal alemão que se recusara a embarcar no porto de Narvik. A boa recepção dos colegas aliviou o atendimento rude e grosseiro da recepção do albergue. O funcionário odiava responder perguntas, exibindo expressão enojada, não fazendo questão de esconder o racismo guardado. A diária em quarto coletivo era a mais cara já vista na Europa.
Sobretudo na zona central, Oslo mostrava-se confusa, poluída, barulhenta. O tráfego incomodava, obras dificultavam a circulação de pedestres. Motoristas infringiam as leis estacionando os veículos nas calçadas. Bêbados abundavam pelas ruas e estação ferroviária. Jovens vestindo roupas rasgadas e sujas juntavam-se em bandos pelas esquinas. E o tempo, invariavelmente cinzento, não ajudava em nada. Destino de asilados em geral, a capital exibia rostos de refugiados do Paquistão, Sri Lanka, de países africanos e americanos.
O extenso parque Frogner destoava do cenário desolador da cidade. Gramados sem fim, árvores simetricamente plantadas, bancos estrategicamente posicionados. Muita paz e tranquilidade em meio ao verde intenso. Em obeliscos ou estátuas, as obras de artista plástico norueguês se destacavam na parte central do parque. Apesar do frio cortante e úmido, eu adorava perambular pelos vazios daquele oásis de sossego. Outros parques menores mostravam que, pelo menos nisso, Oslo estava de parabéns.

A cinco quilômetros do centro, em meio a bucólico parque, o museu Viking guardava navios naufragados e resgatados no final do século XIX. Eram embarcações datadas do ano 900 antes de cristo. Valia a visita apesar de apenas dois navios inteiros e peças mal conservadas nos interiores.
Última noite na cidade mais cara do país mais caro da Escandinávia. Decidi me esbaldar e comer bem. Optei por restaurante de comida italiana. Nada de lanchonete ou comida rápida. Restaurante italiano legítimo, com cheiro de comida de verdade. Escolhi talharim ao sugo com fatias de calabresa, mais travessa de pães italianos para acompanhar e reforçar. Molho de tomate de verdade, nada de creme ou concentrados insípidos. Saboroso. Lambi os beiços, esfreguei as fatias de pão no prato até ele ficar bem limpinho. Gastei a fortuna mais bem gasta da viagem. Despedida perfeita da hostil e sombria Oslo, mas também da bela e cara Noruega.
Embarquei cedo em trem à cidade sueca de Gotemburgo. O relevo do sul da Noruega apresentava-se ondulado, com pequenas chácaras, plantações, poucas fábricas. Em áreas não povoadas, extensos bosques de pinheiros. O tempo claro e ensolarado finalmente voltara. Já em território da Suécia, a nova cobradora do trem, agora sueca e trabalhando em companhia da filha, exibia expressões mais leves e alegres.
Desembarquei no meio do dia em Gotemburgo. Atravessei correndo a rua em frente à estação para pegar o bonde até o porto. O horário extremamente apertado me deixava apreensivo. A condutora me orientou onde eu deveria descer, sempre sorrindo e me tranquilizando que eu chegaria a tempo. Desembarquei na boca do porto. A balsa já apitava. A sueca da bilheteria me aconselhou a correr e pagar a passagem a bordo. Atravessei a ponte de embarque no exato momento que o marujo se preparava para retirá-la. Se perdesse aquela, eu teria que esperar horas, complicando as conexões seguintes.
Em meia hora de retorno à Suécia, comprovei a solicitude e educação dos suecos. Definitivamente não sentiria saudades dos noruegueses. Menos ainda dos finlandeses.
Depois que a balsa atracou no meio da tarde, eu já andava em solo dinamarquês, na cidade de Frederikshavn. Caminhei à estação ferroviária, com tempo suficiente de pegar o trem para Aalborg. A paisagem plana cortada pela ferrovia agradava pelas pequenas casas esparsas nas plantações e chácaras. Grandes hélices metálicas coletavam energia eólica. A tênue luz do entardecer realçava os contornos.
Já em Aalborg, peguei ônibus urbano ao albergue da juventude. Tomei banho reconfortante, guardei as coisas no armário individual do quarto e me dirigi ao centro da cidade para saciar minha fome daquele dia sem almoço.
Dividida em duas pelas águas do fiorde, Aalborg contava com movimento agitado de pessoas e veículos, conquistando pela harmonia do urbanismo, construções antigas, ruas estreitas e sinuosas, tudo enfeitado e bem conservado. Não faltavam no centro bares, restaurantes e pubs, ao longo de calçadão exclusivo para lazer noturno, colorido, aventando grandes noitadas.
As dinamarquesas agradavam aos olhos, sobretudo se comparadas com as troncudas norueguesas. Porém eu ainda não estava diante de beldades irresistíveis. De qualquer maneira, a atmosfera geral passava mais descontração e leveza que a Noruega.
Os vagões do trem com destino a Copenhague lotaram e oscilaram bastante sobre os trilhos. E fez-se a luz! Não mais que de repente, para a felicidade geral da nação, a porta da cabine abriu. E entrou a condutora para conferir os bilhetes. Vinte e poucos anos, cabelos lisos e dourados, olhos claros, traços delicados, expressão jovem e alegre, sorriso natural, olhar oblíquo. Mesmo vestindo terrível uniforme azul escuro, ela me fez esquecer a lotação, os balanços fortes do trem, a frieza generalizada dos escandinavos. Loira com o charme e a sensualidade de morena, simplesmente era a mulher mais bonita e atraente de toda a viagem. Não me esqueceria dela tão cedo.
A monótona paisagem rural mantinha-se aplainada, com plantações, chácaras, vilarejos minúsculos. O trajeto cansou pelas quase vinte paradas até a capital, pela cabine cheia, abafada e carente de boas conversas. Fazendo frio ou calor, os dinamarqueses vestiam longos casacos ou jaquetas. E, tão logo entravam na cabine do vagão, fechavam janelas e portas, ligavam o então desnecessário aquecedor. O mesmo valia para os ônibus.
Depois da parada na cinzenta Arhus, a densidade populacional cresceu com mais vilarejos e plantações na ilha de Funen, unida por ponte à porção norte do país, chamada de Jutland. Os bosques já não eram comuns. Escala na cidade de Odense, com melhor aspecto que a anterior Arhus. Em travessia demorada, o trem subiu em balsa a fim de ser transportado até a ilha de Zealand. Antes, a composição se dividiu em várias partes que se juntariam do outro do lado do mar. Os passageiros aproveitaram e desembarcaram rumo ao bar, restaurante, áreas de lazer.
E a cabine permanecia lotada, majoritariamente de idosos mal humorados.
Depois de horas de percurso cansativo, desembarquei na estação ferroviária de Copenhague. Na plataforma procurei pela estonteante cobradora vestida de azul escuro. Em vão.
Desta vez optei pelo albergue mais distante, porém superior em tudo ao desorganizado do centro. Até o atendimento na recepção indicava um estabelecimento decente. Sem falar dos quartos bem conservados, banheiros limpos, hóspedes sociáveis. E mais barato.
Reencontrei a colega, dinamarquesa legítima, junto da qual fiquei até altas horas da madrugada, entre conversas e impressões. Embora exageradamente inquieta e carente, se tornou companhia agradável naquele final de viagem. À noite, o numero de bêbados crescia vertiginosamente, cambaleando pelas ruas e calçadas, gritando alto contra tudo e todos.
No dia seguinte ela e eu fomos a Roskilde, cidade com o fiorde e a catedral onde estavam enterrados os antigos reis da Dinamarca. Permanecemos apreciando o verde e a paz em parque próximo.
As escandinavas ocupavam diversas funções de trabalho, antes consideradas exclusivamente masculinas. Adiante da maioria dos países do mundo, elas dirigiam ônibus, metrôs, bondes, trens, máquinas perfuratrizes, tratores, motores de embarcações de diversos tamanhos, veículo de carga.
Revimos pontos já conhecidos de Copenhague. Entramos no interessantíssimo museu de holografia, e também no museu de Artes.
Me despedi da coleguinha ciente de que jamais nos veríamos novamente.
Desembarquei em São Paulo em fins de setembro, depois de um mês de viagem gratificante, mais pelos momentos e contatos humanos vividos do que pelos lugares visitados.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Escandinávia (parte 1/4)

Embarquei para a Escandinávia, norte da Europa, em meados de agosto.
Antes disso, o diretor da empresa onde eu trabalhava me perguntou onde eu passaria as férias. Ao ouvir a palavra Escandinávia, pensou, hesitou, pensou novamente. Depois sorriu e, em voz alta e clara, com tapinhas nas minhas costas, soltou a pérola:
“Muito bem, vai visitar a terra do Drácula, eim?”.
Depois de voo longo entre raros cochilos, desembarquei na Dinamarca, no aeroporto de Copenhague.
O atendimento no balcão de informações do aeroporto foi deplorável. Recusavam-se a informar algo que estivesse fora da lista dos hotéis caríssimos. A única coisa que arranquei foi sugestão de me dirigir à estação ferroviária central e lá tentar novamente. Do lado de fora do aeroporto, perguntei ao policial e descobri quais ônibus pegar. Foram dois até a estação ferroviária, onde o atendimento também não era dos mais amigáveis.  
O albergue da juventude central era ruim e sujo. Possuía quartos imensos e lotados, camas desconfortáveis, banheiro distante e mal cuidado. As camas suspensas por cabos de aço rangiam até dizer chega. Alguns hóspedes não respeitaram o silêncio exigido e perturbaram o sono dos demais à noite. E a direção do albergue nada fez para impedi-los.
Circulei pelo centro antigo, o Stroget. Cruzei o canal e subi na torre espiral da igreja. Copenhague passava atmosfera leve e descontraída, apesar das construções muito iguais, monótonas, cinzentas. A zona norte da cidade, após o castelo de Amaliamborg, oferecia mais beleza e tranquilidade. Delicioso parque, ainda que pequeno, estendia-se na margem do mar báltico.
A maioria da população revelava pele clara, cabelos loiros, olhos azuis. Muitas mulheres bonitas, sobretudo de rosto. O corpo incógnito escondia-se atrás de roupas largas. Moradores de rua vasculhavam alimentos e outros objetos nos lixos das ruas. Mas não só eles. Outros razoavelmente vestidos, sobretudo idosos, olhavam e cutucavam tudo pelas esquinas.

Peguei trem à exageradamente turística cidade de Helsinore. Na vila de Kronborg, visitei o imponente castelo na beira do mar, celebrizado pela estória de Hamlet. Destaque para as fúnebres e impressionantes casamatas. O tempo cinzento e chuvoso, com nuvens escuras e carregadas, acentuava a atmosfera pesada. Mas nada de excepcional ou imperdível.
Conversei com o chinês de Hong Kong e o japonês de Kioto no amplo saguão do albergue. Ambos enalteceram as qualidades de Estocolmo e o frio cortante da Lapônia.
Novos hóspedes chegavam de madrugada ao albergue, normalmente de países e continentes distantes. Devido às diferenças de fuso horário e à fadiga da longa viagem, sem se importarem com os demais que tentavam dormir, entravam como cavalos no quarto, jogavam as bagagens no chão, trocavam frases aos berros e despencavam na cama barulhenta. Nem se banhavam ou se trocavam. Dormiam com a própria roupa e as botas de bico fino.
A manhã brilhante daquele dia de semana alegrava a Radsus Pladsen, praça central, sem vegetação, mas com muitos bancos, repleta de gente para se aquecer sob o sol do verão escandinavo. Ao contrário de outras cidades europeias, Copenhague não contava com o eficiente serviço de bondes.
Reservei a tarde para passear no parque Tivoli. A área bem menor que o parque do Ibirapuera de São Paulo incluía parques de diversão com brinquedos tradicionais e eletrônicos, lojas, restaurantes, bares, teatros, cinemas, vários palcos ao ar livre, onde se apresentavam artistas e músicos de diversos estilos. A frequência variava nas idades. Os idosos participavam ativamente dos jogos e eventos culturais. Mas também abundavam os cassinos, com roletas, máquinas caça-níqueis, fliperamas e outras arapucas.
Após o horário comercial o parque lotou, multiplicando-se as atividades. Música, acrobacias, peças ligeiras de teatro, improvisações. O público assistia e aplaudia com entusiasmo, principalmente os mais idosos. A impressão era de que quase toda a cidade afluía ao local.
Embarquei à noite em trem a Estocolmo. Os vagões lotaram e ficou difícil adormecer nos bancos desconfortáveis. Ao cruzar o mar Báltico, os vagões subiram na balsa, sem a necessidade de desembarque dos passageiros. Na cabine se encontrava grupo animado com idades na faixa dos vinte e poucos anos. Entre eles uma jovem, morena, de olhos e cabelos negros, sorridente, rosto cativante, jeito de paulistana, mas legítima italiana, calabresa morando em Roma.  Fizemos companhia um ao outro para passar, da maneira mais agradável possível, a longa noite.
O trem atingiu a estação ferroviária de Estocolmo no começo da manhã.
A italiana me acompanhou nas andanças pela cidade. Almoçamos juntos, trocamos olhares, abrimos possibilidades. Retornamos ao albergue no final da tarde.
Situado em uma das ilhas de Estocolmo, o albergue da juventude ficava de frente à cidade velha, a Gamla Stan. E, como se isso não bastasse, o entardecer nos presenteou com um pôr-do-sol onde as luzes amarelas e alaranjadas tingiram os prédios antigos refletidos nas águas do mar.
Eu, a italiana e outros colegas de albergue saímos pela noite. Notei que ela vestia a mesma roupa que saíra de Copenhague, não tomara banho e nem sequer deixara a recepção enquanto eu me banhava e me trocava. Escolhemos bar ao ar livre, alegre, mas com preços absurdamente caros. Enrolei o mais que pude com um coquetel aguado.
A cidade de Estocolmo realmente encantava. Distribuía-se em ilhas ligadas por pontes apenas nos trechos mais estreitos e centrais. De cada uma delas se tinha visão privilegiada das demais. A ilha onde ficava Gamla Stan, guardava construções históricas e preservadas, palácios, ruas estreitas e medievais. Outra ilha incluía o centro comercial e moderno. A ilha mais ao sul e pouco ocupada reservava imensa área verde com parques, bosques, museus, muita área livre para relaxar.
No centro comercial e financeiro, vendedores ambulantes espalhavam-se pelas calçadas, oferecendo de tudo ao microfone. Artistas mambembes se esforçavam para chamar a atenção dos passantes. As barracas da feira central ofereciam frutas e verduras. Por outro lado, muita música estadunidense e o excesso de propagandas comerciais tornavam as lanchonetes e afins locais insuportáveis.

Visitamos o bairro residencial de Ostermalm com apartamentos de até sete andares distribuídos em ruas arborizadas e tranquilas. Apesar de pequenos, não faltavam ao redor parques e praças, sempre bem cuidados.
A população vestia-se bem, mas sem luxo ou sofisticação. Havia os que se soltavam e caíam na descontração total. Praticamente não se viam mendigos nem tampouco pessoas vasculhando lixo. A polícia raramente dava o ar da graça. A miscigenação racial era notada, ao contrário da Dinamarca. Exilados ou imigrados adotaram, temporária ou definitivamente, a Suécia como novo país. Cinco mil chilenos se exilavam no país fugindo dos horrores da ditadura militar no Chile, comandada por Pinochet, mas criminosamente apoiada e financiada pelo regime estadunidense.
Novamente, no final da tarde, voltamos ao albergue. Novamente a italiana não tomou banho e nem se trocou. A mesma camiseta, a mesma calça, a mesma roupa desde a Dinamarca. Eu nem desconfiava desde quando ela se mantinha assim. Sob a unhas das mãos dela se formavam linhas escuras. O cabelo ensebado se empapava. Manchas suspeitas despontavam sobre os braços e odores desagradáveis exalavam do corpo dela. Minha atração inicial evoluiu para a desconfiança, suspeitas graves, e finalmente a repulsa.
Subi em barco que me transportou ao lago Malaren, onde ficava o palácio real, residência oficial da monarquia sueca. Imensos e vistosos jardins tornavam-no ideal para descanso. Mas valeu principalmente pelo trajeto de barco.
O tempo mantinha-se excelente, com céu azul, sol, temperaturas amenas. Escurecia tarde. Enorme e alaranjada lua cheia surgiu com as luzes refletidas nas águas do mar. Do albergue, com a cidade antiga bem à frente, o acender das primeiras luzes realçou todo o charme da cidade. O luar, a iluminação pública, a disposição das ilhas, o urbanismo humano e de bom gosto, a água do mar, compunham cenário de cair o queixo.
Tomei trem e ônibus até a Sigtuma, datada do século XI e considerada a cidade mais antiga da Suécia. Casas de madeira ocupavam a rua principal e as transversais. Espécie de Embu das Artes sueca, Sigtuma era frequentada principalmente por suecos da capital, em meio a lojas de antiguidades, apresentações de danças folclóricas, corais e brincadeiras com os artistas vestidos à moda antiga.  
Mais um ônibus a Marsta e mais um trem me levaram a Uppsala. A antiga capital sueca guardava bela catedral, sede do arcebispado nacional. Ninguém nas ruas naquele domingo à tarde. A fama da antiga universidade e principalmente as cenas inesquecíveis em preto e branco do filme Morangos Silvestres me despertaram a curiosidade de visitar Uppsala. Porém, em cores e sem a presença da estonteante Ingrid Thulin, a terra natal do diretor Ingmar Bergman perdia todo brilho.
Um alemão praticamente morava no albergue em Estocolmo. Estudante de línguas escandinavas, fez do quarto a residência e o escritório de estudos. Simpático e falante, o estudante tornou-se companheiro de discussões sobre a Escandinávia, Alemanha, Europa, Brasil, o mundo, geralmente no final da tarde, quando eu voltava das caminhadas para tomar banho e descansar. Curioso e bom ouvinte, ele me questionou sobre a destruição da Amazônia brasileira. Certo de que ele ignorava que aquela questão não se restringia ao Brasil e aos brasileiros, expliquei-lhe que as grandes empresas transnacionais, incluídas as alemãs, lucravam com a devastação da floresta. E que o mundo consumia a madeira nobre e demais matérias primas arrancadas do Brasil a preços mínimos, graças aos baixos salários e às condições desumanas impostas aos trabalhadores brasileiros. O alemão ouvia com atenção e parecia captar a realidade até então bloqueada pela ditadura dos meios de comunicação da burguesia.
Fui a Djurgarden, ilha imensa e pouco habitada, coberta de bosques e parques. Na beira do mar báltico, estava o Vasa, velho navio datado do século XVII. O parque Skansen concentrava o principal do verde da ilha. No amplo e bem cuidado espaço, as diversas trilhas permitiam melhor exploração do interior dos bosques e maior contato com a natureza. Destino ideal para relaxar, refletir, namorar.  
Ao entardecer, barcos promoviam festas e jantares dançantes sobre as águas do mar. Iluminados e alegres, levavam passageiros navegando próximos ou entre as ilhas que compunham Estocolmo, emitindo sons ao vivo de jazz, blues e outros gêneros musicais, todos ao mesmo tempo. À noite os sinos das igrejas badalavam melodicamente por longo tempo e a acústica das ilhas separadas pelas águas causavam efeito acústico para lá de instigante.
Repeti a caminhada à cidade velha, agora mais lenta e detalhadamente, sem a companhia da simpática, mas suja e fedida italiana. Me deixei levar pela atmosfera medieval e bem preservada das vielas, ladeiras, casarões, passarelas superiores, harmonia arquitetônica, cafés, pequenos e caros restaurantes.
Eu evitava comer em restaurantes, os caríssimos restaurantes suecos e escandinavos em geral. Forçosamente apelava a supermercados, onde adquiria pães, frios, queijos, cremes de queijo, água ou sucos industrializados, frutas, chocolates e demais itens para garantir a melhor alimentação possível. Comia em parques ou em áreas comuns do próprio albergue. Era pura questão de sobrevivência financeira.
continua...