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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

do Amazonas a Sergipe (parte 7/7)

...continuação
Após a cidade de Alagoa Grande, terra de Jackson do Pandeiro e Margarida Maria Alves, o ônibus começou a subida da serra, percorrendo estrada estreita, cheia de curvas perigosas, sem acostamento. Nos altos do relevo apareceram as primeiras casas e ruas de Areia, berço do pintor Pedro Américo. A cidadezinha guardava casario do final do século XIX e início do século XX. Moradias, sobrados, escolas, prédios públicos se distribuíam por ruas estreitas, ladeiras, rampas bem acentuadas, calçadas de paralelepípedos. Havia também um teatro de meados do século XIX, infelizmente fechado e sem programação. Instalado em casarão de pé direito alto, o Bar do Chifre, entupido de chifres nas paredes e teto, exibia diversas mensagens alusivas aos cornos. “Se você não for chifrudo seja bem-vindo e toque o sino”, “chifre ficou para homem, boi usa de enxerido”, “O cavalo não tem chifre porque a mulher é uma besta”. O estabelecimento vendia garrafas e doses de cachaças produzidas nos engenhos da região. Tomei duas doses generosas de cachaça branca, não envelhecida, não perfumada, não aromatizada, pura, muito saborosa.
Retornei à capital paraibana somente à noite. O calçadão de Tambaú se alegrava com público variado, famílias, casais, grupos de amigos, aproveitando a noite ao ar livre, em espaço público e democrático. Nada de desfile em frente a vitrines luminosas e entupidas de supérfluos. Embora houvesse gente nos bares e restaurantes, a maioria circulava pelos calçadões e praças, se sentava em roda ou nos extensos bancos de cimento da praia. Gente de todas as idades, sexos, níveis sociais. Cada um da maneira que mais lhe aprouvesse, em enorme reunião de cidadãos na plenitude do lazer saudável e comunitário.
Entre cochilos breves, observei pela janela do ônibus a paisagem paraibana e pernambucana de relevo acidentado, ocupada quase que completamente por canaviais e engenhos antigos. Raros trechos de mata atlântica, em frangalhos. No trecho alagoano, os casebres de taipa, a miséria e o abandono me lembraram do interior maranhense.

O segundo ônibus partiu cedo com metade da lotação, mas logo, ainda em Maceió, transbordou de passageiros, enchendo o corredor de pobres diabos, de pé, tratados como gado. As paradas continuavam e o percurso evoluía lentamente. A partir da parada em Palmeira dos Índios a estrada penetrou de vez no sertão alagoano, com buracos, miséria, seca, abandono. O ônibus cruzou a cidadezinha de Olho D’Água do Casado na qual, após conselhos do motorista, desembarquei. Ali peguei carona colina abaixo, até o pé do morro em Piranhas.
Na beira do rio São Francisco comi peixe frito diante das águas esverdeadas e convidativas, dos barcos atracados, das encostas desabitadas do lado sergipano. Retornei à pousada, escadaria acima, a fim de cochilar e tentar me recuperar do cansaço dos últimos dias.
Piranhas estava mais limpa, organizada e preservada que seis anos antes. Casas pintadas com cores vivas, pracinhas revitalizadas, orla urbanizada com quiosques, bares, restaurantes de alvenaria, pequeno porto flutuante.
Me sentei no terraço da pousada. Já anoitecera e as luzes da cidade se acenderam. Sob os ventos refrescantes, a lua cheia apontou bem em frente, atrás da colina do cruzeiro, amarelada, brilhante, compondo espetáculo único sobre a cidade. As ruas embaixo logo mergulharam no silêncio. Só se ouvia o barulho suave do vento. A arquitetura fracamente iluminada fazia bem aos olhos.
Subi as escadarias rumo ao cruzeiro, erguido no alto do morro oposto à pousada. A irregularidade na altura e extensão dos degraus dificultava o ritmo dos passos, mais que a subida propriamente dita. Com bar e restaurante no topo, o local oferecia vista privilegiada da cidade, do vale do São Francisco, das encostas secas da caatinga. As águas transparentes do rio faziam os barcos parecerem flutuar.
Tomei a trilha da beira do rio, leito da antiga ferrovia. Caminhei para valer debaixo de sol abrasador, calor sufocante, mormaço tórrido. Sentia dificuldades até para respirar o ar quente. Mas valeu a pena avançar próximo à margem esquerda do Velho Chico. Ninguém por ali, somente os cactos, vegetação ressecada, pássaros, lagartos, as águas verde azuladas, transparentes mais abaixo. Mergulhei em seguida. A temperatura da água refrescava a alma. Me alojei em restaurante na beira da praia a fim de degustar caipirinhas e almoçar. O calor insuportável da tarde expulsava os moradores das ruas, lançando-os nas sombras dos interiores das casas. Piranhas dormia em silêncio profundo. Imitei os moradores e me recolhi também.

Caminhei rio abaixo pela estradinha calçada. No caminho, igreja pequena e bem conservada no meio de praça singela, casas e casebres muito simples, mas pintadas recentemente de cores vivas, algumas de taipa expondo a miséria local. Os moradores daquele trecho se ligavam direta ou indiretamente à pesca, sobretudo de surubins e pitus.
Mais mergulhos nas águas refrescantes do Velho Chico, enquanto o relógio avançava lentamente. Preguiça à tarde. O sol e o calor pareciam fundir tudo e todos. Andava apenas de sunga, e de chinelos para não fritar os pés. E sempre retornava à sacada da pousada para apreciar a vista da cidade e do rio, lá embaixo.
Tomei novamente o rumo sobre o leito da antiga ferrovia e avancei o mais que pude. Em dado momento a trilha se afastou da margem do rio e adentrou em outro vale estreito. Logo ouvia sons relaxantes de quedas d’água. E não era alucinação. No meio da caatinga ressecada havia olho d’água formando riacho estreito com algumas quedas nos trechos mais acidentados. O gado se deliciava com a preciosidade e não abandonava o vale. A pequena propriedade cultivava milho, coco, banana, outras frutas. No meio da plantação se destacava antigo pontilhão da ferrovia, as rochas de sustentação, os trilhos de aço corroídos pelo tempo e abandono. Torrado pelo sol, ensopado de suor, com pés e pernas cobertas de poeira seca, garganta sedenta, as águas refrescantes do São Francisco me esperavam para os mergulhos reanimadores.
Não havia linhas de barcos pelo São Francisco, ferrovia ou rodovia pelas margens, entre Piranhas e Pão de Açúcar. O transporte coletivo no interior de Alagoas forçava o longo e demorado trajeto por Xingó, Olho D’Água do Casado, Olho D’Água das Flores e finalmente Pão de Açúcar. Cada trecho teria que ser feito separadamente, em transportes diferentes, ônibus, moto-táxi, lotação, caminhonete.
Consegui carona até Olho D’Água das Flores, no trevo para Pão de Açúcar. Larguei a mochila sob a árvore da beira da estrada e aguardei o transporte. Duas peruas passaram caindo aos pedaços, lotadas de cargas e passageiros. Apareceu uma sergipana acompanhada do filho, ambos a espera do catastrófico transporte coletivo alagoano. Contou que acabara de pagar quatro reais à senhora passageira do ônibus anterior em troca de rezas pela felicidade dela e da família. Mas, ao descer do ônibus, a reza ainda não havia terminado e, por isso, ela temia que os votos da benzedeira se alterassem para serviços do mal. Um caminhão basculante da prefeitura de Pão de Açúcar parou e subimos os três na cabine. Não era uma carona e o motorista cobrou quatro reais.

Também na margem esquerda do São Francisco, Pão de Açúcar, cidade plana e alongada paralelamente ao rio, não atraía, na arquitetura e na praia. Barracas de comida, improvisadas e de mau aspecto, se estendiam entre a rua e a areia da praia, em meio ao mato rasteiro. O pedaço do canteiro central da avenida encontrava-se sem jardim, com calçadas arrebentadas, bancos quebrados e sujos. Tirando as casas dos ricos, as moradias assustavam pelos interiores miseráveis. Em sujos depósitos de gente, pobres, muito pobres, panos encardidos ou tijolos improvisados separavam os cômodos. Esgoto a céu aberto, nenhum saneamento básico, lixo e mau cheiro.
No topo do morro se erguia estátua do cristo redentor. O calor ia às alturas, não havia sombra pelo caminho, o chapéu pouco amenizava os raios solares. No alto da colina, com vista para as águas do rio, encostei o corpo sob a sombra da estátua do homem de braços abertos, que de tão quente nem me permitia sentar.
Durante as noites, em típica cidadezinha do interior, os moradores de Pão de Açúcar sentavam-se em cadeiras nas calçadas e praças, as crianças brincavam ao ar livre, os jovens andavam de bicicleta, os casais recatados escolhiam os pontos menos iluminados nos jardins ou dos pedaços mais aceitáveis no canteiro da avenida principal.
Pela estrada de terra que acompanhava a descida do rio, pastos, caatingas, casas antigas de fazenda com alpendre e tudo, vaqueiros de gibão e chapéu de couro. No final, no pé da serra, a estrada se afastava do vale e iniciava subidas sinuosas pelos morros. Leito acidentado, pedregoso, vegetação ressecada e espinhosa. E circulei pela praia naquele domingo ensolarado. Muita gente se empanturrava de bebidas alcoólicas de quinta categoria, litros e litros de refrigerante, carros com som no último volume, bêbados, famílias, casais. Mas era lazer real em um Brasil sertanejo real.
Presenteei a funcionária do hotel com o único livro lido que eu ainda guardava na mochila. Trabalhando seis dias por semana, das 5h às 18h, ela recebia apenas R$ 120 por mês. Menos de um terço do salário mínimo nacional, por uma semana de 72 horas. Sem registro em carteira profissional, não contava com direitos trabalhistas, como férias, décimo terceiro salário, fundo de garantia, saúde pública. Porém, a dona do hotel, tocada pela generosidade inerente aos patrões, deixava-a sair de vez em quando para resolver problemas urgentes. Por pouco tempo, obviamente. No terceiro ano do ensino médio, a funcionária pretendia seguir enfermagem, mas as mensalidades de R$ 180 da escola privada estavam além das possibilidades. A tia idosa, com quem morava, não podia ajudar. O pai abandonara a família. A mãe alcoólatra vivia no interior de Sergipe, no limite da miséria. E, noiva de aliança, ainda reclamava da gastrite e de dores de cabeça devido à vista fraca.

Acordei com os ruídos da feira semanal, típica de sertão onde se vendia de tudo. Bodes, cabras, bois eram comprados, vendidos, trocados na rua da orla do rio.
O barco na margem do rio São Francisco partiu lotado rumo ao lado sergipano. Os passageiros reclamaram com razão do excesso de passageiros e temiam acidentes.
O ônibus antigo partiu da vila de Niterói em direção a Aracaju. A primeira hora da viagem, até a cidade de Monte Alegre, percorreu quarenta quilômetros de estrada de terra do semiárido sergipano. A partir do início do asfalto a paisagem mudou radicalmente. Tornou-se mais verde e úmida, entre diversas propriedades, grandes e pequenas. O nível social evoluiu da miséria da caatinga para a pobreza dos trechos mais úmidos. A rodovia cruzou cidades pequenas, a maioria chamada Nossa Senhora de alguma coisa, até atingir a infernal BR-101, com tráfego pesado de carretas, caminhões, ônibus, veículos em geral. A tarde avançava quando o ônibus estacionou no moderno terminal rodoviário de Aracaju.
Aracaju parecia bem organizada, urbanizada, limpa, com muito verde e espaços públicos. Contava com urbanismo planejado, praças públicas, avenidas arborizadas, faixas exclusivas de ciclistas e pedestres. A população retribuía aproveitando a cidade. A região da praia de Atalaia, irreconhecível desde minha visita anterior, oferecia calçadões, quadras, lagos, chafariz, parques, pistas de skate e kart, bares, restaurantes, distribuídos na ampla área entre a areia e a avenida de pista dupla. A larga e extensa faixa de areia dava de cara com mar bravo, com as plataformas da Petrobrás no horizonte. Nada de edifícios altos, para a felicidade geral da nação. Poucas moradias, espaços vazios, sobretudo nas ruas paralelas e transversais à avenida da praia. Mas a intervenção urbanística exagerada ofuscou a natureza, independente das qualidades e defeitos de cada uma delas.
De ônibus para São Cristóvão, a antiga capital de Sergipe e a quarta cidade mais antiga do Brasil. Localizado no alto da colina, o local reservava rico patrimônio histórico e arquitetônico, entre igrejas, conventos, mosteiros, residências, museus, prédios públicos. Mas quase tudo passava por lento processo de reformas e restaurações. Exceto o museu de Arte Sacra e do complexo da igreja franciscana, apreciei as demais atrações apenas do lado de fora.
Os sergipanos aproveitaram o feriado e foram à praia. Larga e sem fim, jamais lotou, nem nos trechos mais procurados. O mar batido atraía poucos banhistas. Os surfistas quase não arriscavam.
O ônibus para São Paulo não lotou.
Amanheceu em Jequié. O sertão baiano exibia verde intenso pelas últimas chuvas. A miséria, no entanto, com ou sem água, permanecia assustadora.
Em Vitória da Conquista, a empresa Gontijo trocou de ônibus sempre com atendimento grosseiro, desumano, se recusando a maiores satisfações. Em Governador Valadares, nova troca, para ônibus de qualidade inferior. Eu e mais dois passageiros exigimos explicações e ônibus de qualidade similar ou superior. A maioria dos passageiros, porém, feito gado no curral, se calou e abaixou a cabeça. Muitos eram evangélicos, fundamentalistas, conformados, idiotizados pela indústria lucrativa do fanatismo. A empresa não cedeu e as ovelhas de rebanho entraram no terceiro e pior ônibus da viagem. Afinal, “foi o que Je$u$ quis”. Anotei tudo a fim de formalizar as reclamações junto à Agência Nacional de Transportes Terrestres.
As paradas impostas pela Gontijo continuavam caras e sujas. Cobravam até pelo uso dos banheiros imundos.
Em novembro, o ônibus estacionou no terminal rodoviário do Tietê, em São Paulo. 

terça-feira, 21 de setembro de 2010

do Mato Grosso à Bahia, via Amazônia (parte 6/7)

...continuação
Senhor do Bonfim estava irreconhecível quase vinte anos depois que encerrei minha temporada na cidade em 1981. A pensão onde morei ainda estava lá, mas as duas irmãs gêmeas que tocavam o estabelecimento faleceram havia tempos. Engoli três acarajés no bar da praça e tracei as próximas etapas da viagem.
O uso do moto-táxi pegara mesmo na região. Diversos pontos espalhavam-se pela cidade, todos ao preço de um real, para qualquer parte. Era o mesmo preço em todo o nordeste. Prático, ágil, seguro, barato.
Irritante e infindável a frequência em que muitos locais públicos da Bahia levavam o nome de Luís Eduardo Magalhães, o filhinho morto de Antônio Carlos Magalhães. Além do nome do pai, presente em dezenas de lugares, o do filho aparecia em escolas, hospitais, aeroporto internacional de Salvador, até em uma cidade do interior. E era justamente essa a cidade infestada de latifúndios de estrangeiros, da monocultura, de lojas de equipamentos agrícolas estadunidenses, de plantios da famigerada soja transgênica. A maioria da população local sobrevivia em meio à enorme miséria.
O ônibus para Euclides da Cunha saiu à tarde e cruzou por dentro a caatinga, esverdeada nessa época, com muitos sobes e desces de passageiros. Muitos dos que entravam alegavam estar sem dinheiro para a passagem. O motorista reclamava, esbravejava, mas tudo ficava por isso mesmo. Ao lado de Monte Santo erguia a serra com o longo e sinuoso caminho calçado de pedras pintadas de branco, pequenas capelas e oratórios ao longo da subida até o local tradicional de peregrinação desde os tempos de Antonio Conselheiro. O sol começava a se esconder atrás da montanha, no instante em que a enorme e brilhante lua cheia surgia no lado oposto.
Amanheceu dia de feira em Euclides da Cunha. Dezenas de ônibus e caminhões traziam o povo dos vilarejos ao redor. Toda a cena era marcada por fortes contrastes. Barraca singela vendendo fumo de corda em frente à loja de telefonia celular, cuja parede dividia com pequeno armazém comprador de farinha dos sertanejos, usando enormes e antigas balanças. Senhores sisudos vestidos de gibão e chapéu de couro ao lado de adolescentes de tênis e penduricalhos eletrônicos nas mãos e ouvidos. 
No percurso até Jeremoabo, passando por Bendegó, Nova Canudos, Candé e Água Branca, vi o açude de Cocorobó e partes da antiga igreja, acima do nível da água, construída pelos seguidores de Antonio Conselheiro antes do massacre de Canudos. Mais à frente, e na parte elevada da área reservada ao parque estadual de Canudos, havia o monumento ao Conselheiro, com a estátua branca, ele em pé, com a túnica e o cajado. Mais da metade da viagem transcorreu em estreitas estradas de chão. Era o sertão autêntico do Raso da Catarina, cortado de oeste para leste, ao longo do vale do rio Vaza Barris. Pequenas serras de cor ocre, formações rochosas avermelhadas, vilarejos e aldeias típicas, vaqueiros de gibão e chapéu de couro. Plantações de milho e mandioca, coqueiros, mangueiras e bananeiras nos oásis.

Um casal iniciou discussão acalorada dentro do ônibus. Ele a acusava de aprontar e ameaçava deixá-la. Ela, em prantos e com o recém-nascido no colo, oferecia-lhe a criança, mas ele recusava bruscamente. Em determinado momento, ele desembarcou, seguido por ela ainda chorando intensamente.
Em Jeremoabo embarquei em outro ônibus quase vazio. A estrada, teoricamente asfaltada, era um pesadelo. O ônibus balançava de ponta a ponta em meio a festival de buracos com pedaços de asfalto. Encontrei hotel confortável e caro em Paulo Afonso. Era noite, estava bem cansado.
Acordei cheio de expectativas de explorar a famosa estação ecológica do Raso da Catarina e me dirigi ao centro cultural de onde saíam os roteiros. O preço para o dia de passeio ao Raso da Catarina, incluindo serviços de guia e transporte, ultrapassava os limites aceitáveis. E o atendente simplesmente saiu da sala no meio da conversa para fumar e conversar no lado de fora. Dei o fora.
Comprei passagem para a cidade sergipana de Canindé, onde peguei caminhonete até Piranhas nova. Apertado e curvado pela lona baixa do teto da carroceria da caminhonete, vi a ponte sobre o rio São Francisco, divisa com o estado de Alagoas e, mais à esquerda, a hidroelétrica de Xingó, um monstrengo cinzento de concreto. Em Piranhas Nova subi em moto-táxi para descer a estrada sinuosa até a Piranhas Velha, nas margens do rio São Francisco. Logo na entrada, o impacto da beleza e do charme da cidadezinha, ruas estreitas, ladeiras, casas antigas. Ao lado, as águas esverdeadas do rio correndo entre as encostas secas da caatinga. Encontrei pousada no alto da escadaria com vista indescritível da cidade, morros, o vale profundo, o rio. O entardecer com aquela paisagem maravilhosa à frente me indicava que ali era o lugar para ficar. Em Paulo Afonso me juraram que a antiga cidade de Piranhas estava submersa pelas águas da hidrelétrica e em Canindé afirmaram que a cidade nova, por mais absurdo que parecesse, era mais bonita.
Antes do anoitecer, banhei-me nas águas do velho Chico ao lado da simpática praia de areias finas. Saboreei a peixada, degustei caipirinhas. Contemplei a lua cheia, enorme e prateada, subindo bem em frente.
As águas esverdeadas do rio São Francisco correm por dentro do vale profundo. Nos trechos mais estreitos e sinuosos apareciam corredeiras. Em ambas as encostas, o clima semiárido e a caatinga, pedras, diversos tipos de cactos. Na parte baixa da cidade o prédio da antiga estação ferroviária, desativada no fatídico ano de 1964, o do golpe. Até então ligava as cidades de Penedo em Alagoas e Jatobá em Pernambuco. O local abrigava o singelo Museu do Sertão. A seção dos objetos era pobre, porém a de fotografias exibia imagens interessantes. Eram detalhes dos cangaceiros de Lampião e Corisco, dos policiais ou volantes, antes e depois do assassinato de Lampião. A foto que mais chamou atenção foi tirada em 1998. O ex-volante e o ex-cangaceiro, ambos muito idosos, pousam apertando as mãos, sorridentes para a câmera.

Em poucos dias me sentia intimo dos moradores de Piranhas, os cumprimentava pelas ruas, conversava sem pressa. Um garoto me pediu um caderno, pois a família não tinha como comprá-lo. Não era esmola e sequer houve pressão ou chantagem emocional. Era apenas a necessidade imediata para frequentar a escola. À noite sentei na barraquinha na beira do rio e saboreei delicioso pitu fervido acompanhado de muitas caipirinhas. A calma e a brisa suave vinda do rio deixava tudo leve e agradável.
Não muito longe de Piranhas está o sítio de Angicos, local onde foram assassinados vários cangaceiros, inclusive Lampião e Maria Bonita. Desci de barco o rio São Francisco e avancei na curta picada pela caatinga até o local exato, em território sergipano. O sítio de Angicos era composto por um pequeno abrigo sob um bloco rochoso às margens de córrego temporário. Ali dormiam os cangaceiros quando foram surpreendidos durante a madrugada pelos volantes. Alguns conseguiram fugir, mas Lampião, Maria Bonita e outros companheiros não tiveram a mesma sorte. Foram imediatamente executados e degolados, tendo as cabeças exibidas nas cidades como troféus. Segundo o barqueiro e o garoto que me acompanharam na trilha, encontrou-se ali na época dinheiro e ouro, saqueados e usados pelos volantes para comprar imóveis e enriquecer da noite para o dia. Em 1998, cem anos do nascimento e sessenta do assassinato de Lampião, foi colocada placa comemorativa e a cruz ao lado de outra mais antiga. Periodicamente, nas datas importantes, são realizadas missas no local.
Encontrei vários alagoanos que costumavam fazer o trajeto de barco entre Penedo e Piranhas. Vestiam camisetas com frases de protesto contra os planos de transposição do rio São Francisco. As mangas frescas e maduras, colhidas nos pés ao redor do local, temperaram o ambiente de conversas e reflexões. 
Na parte da tarde, em Piranhas, fiquei na beira do rio bebendo umas, beliscando tira-gostos e dando mergulhos para me refrescar. De repente um forte vendaval levantou tudo e foi areia para todos os lados, olhos, nariz e boca. Mais mergulhos e estava limpo e refrescado novamente. Como por encanto a cidade adormeceu completamente no começo da noite. Os barzinhos da praia, as escolas e todos os cantos da cidade mergulharam em gostoso silêncio. Demais caminhar pelas ruas desertas, ao som apenas do vento e das folhagens.

Reservei o dia para não fazer absolutamente nada e agir conforme o vento. Caminhei preguiçosamente pelas ruas da cidade. Conversei com um aqui e outro ali, amarrei meu burro no barzinho na beira do rio e lá fiquei entre bebidas, comidas e mergulhos nas águas.
Ouviam-se repetidamente os grupos Mastruz com Leite, Caviar com Rapadura, Calcinha Preta e tantos outros. As melodias seguiam padrão primário e dançante, com letras sofríveis. Pegavam sucessos internacionais, colocavam qualquer letra, acrescentavam batidinhas programadas e estavam prontas para o consumo. Nas gravações ao vivo não se cansavam de frases do tipo “que lindo!”, “está demais!”, “jamais esqueceremos de vocês!”. Como os grupos são incontáveis e parecidíssimos, entre as músicas ou mesmo durante elas, sempre martelavam com o nome da banda e o do disco: “É o Calcinha Preta, Ao Vivo, Volume 5, O melhor do forró pra você...” e outras preciosidades.
Não havia transporte direto para a capital Maceió. Peguei ônibus até Delmiro Gouveia, em cuja praça motoristas e ajudantes de várias caminhonetes gritavam os próximos destinos, mas nada de Maceió. Acertei o preço para a cidade de Arapiraca, mas ainda esperei o veículo lotar. Nas rodinhas masculinas formadas na praça se ouvia a realidade regional. Embora entrecortada por ruídos, ouvi o homem dizer:
“aí o cara matou a mulher grávida com uma faca...”.
E o outro arrematar:
“mas ela merecia, desrespeitou o homem”.
Cruzar o sertão escancarou a Alagoas miserável, seca e desolada. A caatinga, embora ligeiramente esverdeada pelas chuvas, mostrava-se rala e pobre. Pequenas serras cobertas de pedras cercavam os vales e baixadas com esparsas plantações de palma para alimentar o gado nas épocas secas. As cidades e vilas eram invariavelmente feias, cinzentas, tristes. Olho d’Água do Casado, São José da Tapera, Olho d’Água das Flores, Batalha, Jacaré dos Homens. As estradas apresentavam trechos em péssimo estado, cheias de buracos. Crianças recolhiam com pás a terra da beira da estrada e a depositavam nos buracos do asfalto. E estendiam as mãos, pedindo esmolas pelo trabalho realizado. Não vi ninguém dar nada. Miséria e indigência pura e simples. Em São José da Tapera notei várias frases escritas na parede de uma casa, oferecendo serviços de costura, eletricista, encanador e reformas em geral. Demorei a entender, pois não havia uma palavra sequer escrita segundo as regras gramaticais do português oficial. Na cabine da caminhonete o senhor de cinqüenta e poucos anos bradava que traçava até quatro mulheres por dia. Sentia-se preocupado por não conseguir gozar na quarta mulher, e indignado pelo fato dela, a quarta, gozar três vezes.   
O micro-ônibus em Arapiraca, a terceira etapa do trajeto desde Piranhas, deu grande volta pelo litoral até estacionar em Maceió.

Apesar da intensa urbanização das praias, edifícios altos, da horda de turistas, a orla de Maceió continuava bonita e agradável. Os usuários desfilavam roupinhas novas, camisetas e tênis da moda, o uso incansável dos telefones celulares e assim por diante.
Estava em transição a mudança da entrada de passageiros, da porta traseira para a porta dianteira, nos ônibus urbanos da cidade. Parte da frota funcionava da maneira nova, outros ainda seguiam o processo antigo. Somente as pessoas já embarcadas sabiam o segredo, daí a gritaria para os de fora quando corriam para a porta traseira:
“é pela frente!”, “não é aí não!”.
Colocavam os braços para fora da janela e batiam na lataria do ônibus. Os passageiros ocupavam, mas sem sentar imediatamente, o assento recém-liberado. Ainda de pé, esperavam esfriar, ou ao menos passar a quentura do usuário anterior.
Caminhei preguiçosamente entre as praias de Ponta Verde e Jatiúca, alternando com rápidos mergulhos para me refrescar. Revi a distante praia da Sereia. Durante o percurso, passando por Jacarecica, Guaxuma, Garça Torta e Riacho Doce, as construções e urbanizações não afetaram demasiadamente as praias, os coqueirais, o azul do mar.
Embarquei em ônibus sem o desnecessário ar condicionado. A paisagem tornou-se mais acidentada, perigosa, e interessante, no meio da Bahia, a partir de Itaberaba. As centenas de crateras e a lamentável conservação da via obrigavam os veículos a acrobacias e desvios. Mais grupos de miseráveis tapavam os buracos com areia ou terra e depois pediam dinheiro. Desci no trevo de Lençóis para, logo depois, subir em lotação proveniente de Seabra.
Lençóis se enchia de turistas, na maioria estrangeiros, que se concentravam à noite nos bares e cafés para ouvir rock e reggae, como em qualquer ponto de concentração deles ao redor do mundo. E somente entre eles, ignoravam as demais pessoas ao redor. Mas a cidadezinha ainda encantava, com os baianos simpáticos e hospitaleiros.
Peguei trilha curta e fácil às cachoeiras e corredeiras do ribeirão do Meio, vazia e bastante agradável para se refrescar ou mesmo não fazer nada, apenas contemplar a natureza ao som gostoso das águas.
A proximidade do feriado de carnaval preocupava, pois deixaria a cidade lotada e nada atraente. Acertei longa travessia de oito dias com acampamento, saindo de Lençóis, passando por baixo da Cachoeira da Fumaça, vale do Capão, vale do Pati, até a cidade de Andaraí.
       O guia apareceu bem cedo, acompanhado da canadense e do iraniano. O casal se conhecera durante passagem pela Bolívia. Dividimos a comida nas mochilas cargueiras. Peguei o saco de dormir e o isolante, ambos alugados. A trilha começou a subir bastante em meio à vegetação agreste e a antigas tocas usadas por garimpeiros. O visual no alto da chapada oferecia escarpas íngremes, pedras, gargantas, cachoeiras, vales profundos. Subimos no mirante sobre grande pedra para lancharmos e apreciarmos a paisagem. O caminho seguia por trechos com obstáculos de fácil superação. Paradas providenciais e refrescantes nas cachoeiras do Palmital e Capivara reanimaram os corpos. Acompanhamos o rio sobre as pedras escorregadias das margens até encontrar o riacho da Fumaça, por onde subimos pelas lajes de pedra e, mais acima, encontramos o local das próximas duas noites. Ao lado, duchas refrescantes e piscinas naturais para qualquer hora. Não trazíamos barracas e dormiríamos dentro das tocas de pedra em caso de chuva.
continua...