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segunda-feira, 21 de outubro de 2024

da Bolívia ao Piauí (via Bolívia, Peru, AM, PA, MA, PI) parte (7/7)

 ...continuação

Na parte da manhã tomei carro de aplicativo local, cópia bem copiada de aplicativo estrangeiro, até o porto na beira do Tapajós. O motorista, nissei paranaense, morara no Japão e lá conhecera a esposa, brasileira de Santarém. Retornaram ao Brasil para morar na cidade natal dela. Ele se deu bem com a família dela e o casamento corria às mil maravilhas. Mas câncer fulminante a levou em poucos meses. Ambientado na cidade e em boas relações com a família dela ele permaneceu por ali. Decidiu ser motorista para ganhar algum, se relacionar com gente e afastar a depressão que o assolava após a viuvez precoce. Falava sem parar. Na verdade desabafava com quem o ouvia com paciência. Ao final da corrida me agradeceu por tê-lo ouvido e pela oportunidade de se dirigir a alguém.

A tripulação ainda fazia a limpeza e a arrumação geral da embarcação que, estranhamente, partiria no mesmo dia da chegada. Normalmente os barcos permaneciam dias nos portos das extremidades do percurso para lavagem e organização geral.  Nenhuma suíte ou camarote se encontrava disponível. As expressões cansadas e irritadas dos tripulantes davam os primeiros sinais de navio mal administrado e mal comandado.

Com menos da metade da ocupação dos passageiros nos dois pisos para armação das redes, o navio partiu de um dos portos de Santarém. Permaneci um tempo no piso de Lazer, sob as estrelas e relâmpagos a oeste.

Encerrei O Boto, de Tadeu Sarmento. Era livro de aventura fantástica, embora o autor ameaçasse destrinchar um Brasil dilacerado pelo capitalismo, ONG’s, empresas evangélicas, entre outros fundamentalismos.


Comecei a ler Pagu – Vida e Obra, de Augusto de Campos. No livro o concretista esmiuçava a vida heroica e sofrida da personagem, além de presentear os leitores com as principais obras dela, de ficção e não ficção. Oportunidade de ouro para me familiarizar com Patrícia Galvão, a Pagu, personalidade marcante do Brasil do século XX, muito citada, mas pouquíssimo lida e estudada.

Retirei o lençol do beliche superior para servir de lençol de cima no beliche inferior, onde eu dormiria aquelas noites. Era de elástico e ficou perfeito, me protegendo feito saco de dormir. Nem saí da suíte para assistir a chegada e a partida na cidade de Monte Alegre. Tampouco acompanhei a parada antes do amanhecer em Prainha.

No café da manhã, pago à parte, sanduíche de presunto e queijo, café com leite, canjica ou mungunzá, maçã.

Sob o céu nublado e chuvoso, bandos de andorinhas faziam a festa ao redor do navio, entre acrobacias, voos rasantes, curvas fechadas, às vezes quase parando no ar, entre tantas brincadeiras ao som dos cantos de todas elas. Alegria total e exibição gratuita aos passageiros, pelo menos para aqueles que levantavam o focinho dos celulares para apreciar o espetáculo da natureza.

No meio da manhã os passageiros tiveram que suportar longa parada abaixo da cidade de Almeirim, em porto particular, para carregar itens de interesse do proprietário da embarcação. Aproveitei para comprar queijo coalho dos vendedores locais que subiam nos pisos do navio.

Logo a jusante de Almeirim ocorria a bifurcação, em meio a ilhas gigantescas, entre as rotas das embarcações que se dirigem ao sul da ilha de Marajó e a Belém e aquelas que seguem para o Amapá.

Parada noturna em Gurupá.

O dia clareou num dos inúmeros estreitos pertencentes ao labirinto de ilhas ao sul do arquipélago de Marajó. Chamava a atenção a maior quantidade de açaizeiros e aningas na beira das águas, embelezando ainda mais a paisagem com casinhas de madeira sobre as palafitas. O que sempre estragava as imagens e, sobretudo, a vida dos ribeirinhos, era a praga das empresas comerciais evangélicas, traficando com a fé do povo, o esmagando na miséria e na ignorância, fatores de manutenção do poder das classes dominantes.

Parada em Breves pela manhã.

Encerrei o essencial livro Pagu – Vida e Obra, de Augusto de Campos. Depois de virar a última página me aproximei mais da vida artística, militante e combativa de Patrícia Galvão, nome tão importante, mas injustamente desprezado e ignorado, na história política e cultural do Brasil. Emendei com a leitura de Autobiografia Precoce, de Pagu. Eu acessaria na fonte as ideias e as ações, as certezas e as inseguranças, além de mais obras e criações dela, Patrícia Galvão.

Durante longas horas permaneci sentado do lado da sombra no piso de Lazer. A largura e a amplidão inacreditável do rio espantavam os olhos, ao mesmo tempo em que provocavam sonolência. A modorra, a preguiça e o calor daquele horário da tarde, no entanto, foram quebrados por vendedores de creme de açaí, camarão e outros quitutes. Provenientes das margens, eles se aproximavam do navio em voadeiras. Laçavam os pneus de amortecimento lateral e embarcavam para vender as mercadorias, ou vendiam do barco mesmo, esticando os braços para entregar os produtos e receber o pagamento. Raramente voltavam às moradias ribeirinhas com mercadorias não vendidas.


Mais a jusante, em trecho estreito e curto, mulheres, somente mulheres, se aproximavam a bordo de canoas motorizadas ou a remo esperando doações dos passageiros, da mesma forma que no famigerado estreito de Breves. Do navio poucas doações foram lançadas nas águas dentro de sacos plásticos ou, com muita sorte, dentro das próprias canoas. Nesses trechos havia também casos de prostituição, embora, dessa vez, não notei mulher ou menina embarcar e desembarcar mais tarde. Várias igrejas evangélicas, aquelas empresas que traficam com a fé do povo, erguidas nos vilarejos de onde as mulheres vinham, provavelmente iriam embolsar parte ou tudo do que foi doado pelos bem intencionados passageiros dos navios em circulação. Assim, a alienação fundamentalista religiosa se fundia com a indústria da caridade na maior cara de pau.

Anoiteceu. O navio passou ao lado da iluminada cidade de Barcarena, atraindo os olhares de todos para tanta luz e tanto brilho.

Com muitas horas de atraso deliberado, o navio atracou em Belém tarde da noite.

Pela manhã, caminhei do bairro de Nazaré à beira da baía de Guajará para perambular pela zona do mercado Ver-O-Peso. Obras em andamento por ali, de melhorias e ampliação da Estação das Docas. Tapumes metálicos cobriam áreas consideráveis. Quiosques temporários foram improvisados para que o comércio se mantivesse vivo.

Encurtei a estadia em cidade grande que tanto explorara e que tanto me fascinara em viagens anteriores.

O ônibus saiu lotado ao anoitecer.

O trajeto atravessou de oeste e leste o norte do estado do Maranhão, possibilitando ver das janelas do ônibus as festas juninas a todo vapor nas cidadezinhas, como Santa Luzia do Paruá, Zé Doca, Araguanã. As administrações públicas não se cansavam de mutilar criminosamente as árvores em figuras geométricas ou temáticas, matando a vegetação e a as tão necessárias sombras.

Entre os passageiros do ônibus, a mulata clara, trintona, vinha acompanhada de gringo da mesma faixa etária. Embarcaram em Belém e conversavam em inglês. Ela, brasileira do norte ou nordeste. Ele, de país do hemisfério norte cuja língua nativa não era o inglês. Reparei que outros passageiros repararam neles e comentavam sei lá o quê. Parecendo se sentir culpada de algo, ela evitava o olhar de todos. Minhas suspeitas sem provas para explicar aquilo não eram das melhores.

Do lado de fora, a paisagem aplainada reservava babaçuais, cerrado, carnaubais, e trechos tristes de monocultura extensiva de capim ou algo similar. Nesse último caso, ao lado de silos enormes e de lojas de produtos agropecuários importados daquele regime terrorista ao norte do México.


No meio da tarde o ônibus embicou na estação rodoviária da piauiense Parnaíba, cidade também bastante explorada em viagens passadas.

Jantei no canteiro central da avenida São Sebastião. Mergulhei de cabeça em trezentos gramas de picanha fatiada, baião-de-dois, o cearense por ser mais cremoso, salada, farofa e vinagrete. E coroei o lauto jantar com jarra de suco de limão.

Li mais capítulos de Autobiografia Precoce, de Pagu. A cada linha mais eu me impressionava com a vida e, sobretudo, a qualidade da obra dessa brasileira única.

Caminhei quilômetros por vias entre a avenida São Sebastião e a margem esquerda do rio Igaraçu. Trecho silencioso da cidade que surpreendia pelo urbanismo eficaz e ausência de gente nas ruas e calçadas. Em construção, outra ponte sobre o rio Igaraçu, ligando, como a já existente, o centro de Parnaíba à Ilha Grande de Santa Izabel, à praia da Pedra do Sal, ao município de Ilha Grande, ao vilarejo de Tatus. Aquela grande volta me conduziu ao Porto das Barcas, centro histórico de Parnaíba, vazio, silencioso, tranquilo, na beira do rio.

Pela manhã, tomei o ônibus à praia do Coqueiro, no município de Luís Correia.

Já na praia caminhei bastante, avancei a ponta de pedras e atingi praia completamente vazia, em dia de maré baixa. Delícia das delícias. Eu, a areia, o mar, o farol da marinha mais atrás. E mais ninguém. Entrei no mar de águas límpidas, sob o céu azul e sem nuvens. A maré baixa garantia ondas inofensivas. Mergulhei, flutuei, nadei, fiquei de pé, deitei, sentei. Em varredura de trezentos e sessenta graus não se via mais nenhum ser humano. Aproveitei e fiquei como vim ao mundo, largando a sunga na areia seca. Entrei mais vezes naquelas águas mornas.

De volta à praia do Coqueiro entrei na barraca mais vistosa e relaxei o esqueleto. Tomei duas caipirinhas razoáveis preparada com cachaça piauiense. Para enganar bem o estômago, pedi espeto generosamente servido de camarões grandes, gratinados e empanados. Numa mesa próxima, três gerações se faziam presentes. Até aí nada de anormal. O degradante, inaceitável, repugnante, era a presença da empregada, explicitamente vestida de empregada. A única negra em mesa de branquelos, quase aloirados, cuidava de duas crianças mimadas, animalescas e mal encaradas. As duas gerações de adultos, dos pais e dos avós, desrespeitavam e humilhavam abertamente a empregada e babá. A mãe das crianças, trintona a quarentona, loira natural ou tingida, com o marido ao lado, me olhou interessada mais de uma vez, escancarando a hipocrisia e a falência da família burguesa tradicional. Jamais me envolveria com quem se comportava como senhora de escravas.


Acabei a leitura do ótimo Autobiografia Precoce, de Pagu, a Patrícia Galvão, livro que precisaria ser lido pelos interessados em artes e na história do Brasil.

Comecei a reler contos variados do mestre Lima Barreto e me deslumbrar com a realidade e a análises incrivelmente atuais do autor.

Na manhã seguinte tomei dois ônibus à praia da Pedra do Sal. Pelo trajeto, ao longo da ilha Grande de Santa Izabel, carnaubais belíssimos, sobre alagados, de ambos os lados da estrada. No ponto final, a ponta de pedras com o farol, a baía de águas mansas à esquerda, a baía de águas bravas à direita. Esta, visualmente prejudicada pela profusão de imensos coletores de energia eólica a perder de vista. Como de praxe, pouca gente, raras e esbagaçadas barracas de comes e bebes. E vento, muito vento, vento forte e constante.

Permaneci sentado durante horas sobre ripa de madeira disposta dentro de restos de barraca rústica e parcialmente coberta de folhas de palmeiras. Ninguém por ali. À minha frente, a paisagem da areia e do mar, sem fim. Vez ou outra eu avistava jangadas mar adentro. Os pensamentos vaguearam sem rumos e provocaram deliciosa sensação de liberdade.

Andei bastante pela zona norte de Parnaíba, próximo à margem do rio Igaraçu, à estação ferroviária de bairro. A estação e a ferrovia foram criminosamente desativadas pela ditadura do transporte rodoviário. Triste calamidade em todo o Brasil, porém mais dramática no nordeste do país, região que foi servida por dezenas de linhas férreas atravessando os interiores dos estados. Por toda a região, ao lado dos trilhos soterrados pelo asfalto que multiplica o calor e a impermeabilidade do solo, ainda se encontram antigas estações ferroviárias, muitas delas utilizadas por órgãos públicos, ou simplesmente abandonadas, em ruínas, servindo de abrigo de dependentes químicos.

Continuava mergulhando nas preciosidades literárias de Lima Barreto, relendo a infinidade de contos agrupados em edição caprichada. Destaques, entre tantos, para os contos Um Músico Extraordinário e Como o Homem Chegou.

Embarquei em ônibus leito à noite.

Não desci nas paradas das cidades cearenses de Camocim e Sobral. Desembarquei ao amanhecer no terminal rodoviário de Fortaleza e logo me dirigi ao aeroporto.

Em voo lotado, durante o trajeto aéreo de quase três horas, me salvaram as crônicas de Rubem Braga, me transportando para os fatos e as fantasias do autor capixaba, que merece com folga a fama que a história lhe deu.

Entrei em casa no final da tarde daquele mês de julho, sob o frio suave e o céu nublado e feio, combinando perfeitamente com as características físicas da cidade de São Paulo.

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

da Bolívia ao Piauí (via Bolívia, Peru, AM, PA, MA, PI) parte (6/7)

 ...continuação

Pela manhã desci à estação hidroviária de Manaus. No navio me foi designada a suíte com duas camas de solteiro em beliche, banheiro privativo, ar condicionado.

Almocei os cinco pães de queijo e os dois sanduíches de queijo que preparara no café da manhã do hotel. E tracei também três das seis maçãs fresquinhas que comprei de ambulante em circulação pelo navio.

Três horas e dez minutos após o horário programado, o navio zarpou de Manaus. Uma hora depois atravessou o encontro das águas entre o rio Negro e o rio Amazonas. A ocupação de apenas um terço da capacidade do navio incluía bebuns que jogavam as latinhas de cerveja no piso do navio ou nas águas do rio, ignorando os enormes cestos de lixo por todos os pisos.

Em frente à lanchonete do terceiro piso, enormes caixas de som vomitavam o lixo da indústria cultural em alto volume, compondo trilha sonora para os bêbados e as bêbadas em estados animalescos.

No refeitório jantei o jantar por quilo, mas pago à parte como em todas as embarcações de bandeira paraense.

Insisti e subi novamente ao bar e lanchonete e também ao último piso, descoberto, sob as estrelas e a lua quarto crescente. Mas não deu para permanecer ali. Além do lixo comercial vindo das caixas de som da lanchonete, uns passageiros, não contentes com a poluição sonora logo abaixo, trouxeram e ligaram aquelas monstruosidades portáteis que vomitam luzes e som. Mais lixo descartável da indústria cultural. Mais latas e garrafas pelos pisos, escadas, mesas, cadeiras, em todos os lugares, menos nos cestos de lixo disponíveis por todos os cantos do navio.


Li bastante na suíte e adormeci cedo, bem cedo.

Nem levantei durante a parada em Itacoatiara. Apenas ouvi a movimentação interna e externa, a oscilação do ronco dos motores, o apito, para imediatamente voltar a adormecer.

O café da manhã, também pago à parte, oferecia fatia de melancia, mungunzá quentinho no copo, sanduíche grande de queijo e presunto, pedaço de bolo, copo de café com leite.

E me liberei para apreciar a paisagem fluvial. Li bastante ao lado da cabine de comando, de frente para a imensidão de água do rio Amazonas. Poucas embarcações subindo ou descendo o rio.

No meio da manhã, bem no fundo do horizonte, avistei as antenas e a torre da igreja matriz de Parintins. Mas somente uma hora e vinte minutos depois o navio atracou no porto da cidade. No mesmo instante os microfones internos convocavam os passageiros para o almoço. Se já vinha com poucos passageiros, o navio esvaziou ainda mais após Parintins. E, ufa, todos os bebuns e as caixas de poluição sonora desembarcaram ali. Todos se esbaldariam desenfreadamente no festival de Parintins que começaria em poucos dias.

Pouco depois o navio singrava as águas do rio Amazonas em terras paraenses. E o fuso horário passava a ser o de Brasília.

Encerrei Vida ao Vivo, de Ivan Ângelo. O livro disseca, de maneira envolvente, curiosa e ácida, a vida e as ações de magnata dos meios de comunicação. Qualquer semelhança com pessoas reais e contemporâneas não seria mera coincidência.

A parada em Juruti não ocorreu no porto da cidade, mas a jusante da zona urbana, em barranco improvisado sobre o qual passava estradinha de terra. O navio baixou a rampa da proa e um caminhão desembarcou direto rumo às ruas da cidade. Os vendedores de comes e bebes, normalmente posicionados no porto, na espera das embarcações, se desembestaram para aquele local inusitado para tentar vender as mercadorias. Parada irregular, em barranco irregular, apenas para satisfazer os interesses monetários do proprietário do navio.

Para surpresa de muitos passageiros o navio não parou em Óbidos, cidade incluída em todas as rotas fluviais das embarcações entre Manaus e Belém. O atraso deliberado pela sede de lucros do proprietário do navio, porém, se mantinha o mesmo.

O navio atracou no porto das balsas, e não na estação hidroviária, em Santarém, no começo da madrugada. As carretas, caminhões e veículos começaram a desembarcar pela rampa frontal da embarcação, provocando barulhos incríveis que reverberavam pelas estruturas metálicas. Aquela fora viagem de transporte de cargas, especialmente caminhões e carretas, pouco importando a sorte ou o horário dos passageiros.

Nem me levantei. Continuei na cama de baixo do beliche e, à medida que os ruídos diminuíam, adormeci novamente. Despertei ao amanhecer. Silêncio total do motor, nos pisos internos e nas áreas externas ao navio. Fechei as bagagens e desembarquei. Mais adiante, em frente ao ponto de embarque da balsa que cruzava o rio Amazonas rumo à vila de Tapará, eu consegui quem me levasse ao hotel.


Eu esquecera o quão deserto e silencioso era um domingo santareno. Dava para ouvir o som do silêncio. Ao caminhar para o restaurante do almoço eu me sentia atravessando cidade abandonada depois de uma hecatombe qualquer. Um ou outro veículo circulava de vidros fechados e ar condicionado ligado. Fazia calor ardido no meio do dia. Alcancei restaurante simplório e aconchegante. Ao fundo da paisagem o rio Tapajós fluía lentamente para o norte.

Enfrentei o sol de rachar a cuca do começo da tarde a fim de circular pela orla do rio. Parava vez ou outra em banco sob a sombra das palmeiras, mas que geravam sombras tímidas. Prosseguia para, mais adiante me sentar sob as mangueiras, estas sim de sombras amplas e refrescantes. Raros gatos pingados por ali naquele horário. Paz e tranquilidade para contemplar o Tapajós, o encontro das águas, mais visível na luz da tarde, e o Amazonas mais ao fundo. Detonei duas bolas de sorvete, açaí e cupuaçu, diante das águas esverdeadas a azuladas do rio.

Escureceu em Santarém. Era noite alta e a temperatura batia nos trinta graus. Quente, abafado, úmido. O largo e extenso calçadão da orla do Tapajós fervia de gente de todos os tipos e idades. Animação e alegria em espaço público e democrático. O calçadão fora estendido até praticamente o fim da zona urbana. O porto da praça Tiradentes, de onde embarquei tantas vezes para Macapá anos antes, foi corretamente transferido para a estação hidroviária, mais a jusante. No calçadão ainda havia balsas flutuantes, bem instaladas, limpas e funcionais, mas apenas para embarcações menores com destino às comunidades próximas, rio acima, e para as lanchas rumo a destinos mais afastados como Itaituba, Alenquer, Óbidos, Juruti. Com essas mudanças ganharam tanto os passageiros dos barcos e lanchas, como os moradores e visitantes que desfrutavam do extenso calçadão, dotado de quiosques de comes e bebes, sobretudo dos de batatas fritas, petisco típico das noites dos interiores paraenses, sem falar em aluguel de bicicletas, patins e brinquedos para crianças. Pescadores avulsos, com varas ou apenas utilizando as linhas se espaçavam na murada metálica. Noite tórrida muito bem aproveitada pela população, ao ar livre, socialmente, coletivamente.


Iniciei a leitura de Vasto Mundo, de Maria Valéria Resende.

Pela manhã caminhei por todo o calçadão da orla do Tapajós, bem depois da Feira do Pescado e do Mercadão 2000. O chapéu e o protetor solar amenizaram parcialmente os efeitos do sol implacável. O calçadão largo, extenso, alto para conter eventuais cheias do rio, percorria quase toda a margem fluvial urbana, enfeitando a maior parte de Santarém. As águas do Tapajós, esverdeadas, batiam na murada.

Almocei mistura insólita de maniçoba, arroz de pato, pedaços de filé mignon, banana frita e o invariavelmente soberbo suco de cupuaçu. Encerrei com duas balas de cupuaçu.

À tardinha pude contemplar estupendo por do sol nas águas do Tapajós. As cores evoluíam do alaranjado ao avermelhado, entre outros tantos tons vivos e incandescentes. Barquinhos e navios maiores navegavam no horizonte. Belíssimas imagens para apreciar e registrar.

Para uma ideia do campo político a que pertencem os sujeitos que têm coragem de defender a criação de estado próprio, separado do Pará, com capital em Santarém, e assim mandar e desmandar na população, como em um feudo particular, bastava ler a faixa estendida por tais indivíduos na orla da cidade: “estado do Tapajós, agora vai, em nome de Jesus”. Não precisa ser muito informado ou ter raciocínio privilegiado para saber que aquilo vem das trevas do fundamentalismo, dos traficantes da fé do povo, das empresas evangélicas, do comércio ilegal travestido de religião, que querem a todo custo explorar e oprimir ainda mais os povos do sudoeste do Pará.

Na orla fluvial da cidade não resisti e caí de cabeça em tigela de creme de açaí fresco, centrifugada provavelmente pela manhã, com farinha de tapioca e açúcar.

Encerrei a leitura de Vasto Mundo, de Maria Valéria Resende, excelente livro que narra diversas estórias ocorridas em torno de vilarejo do sertão paraibano.

À noite, o calçadão da orla do Tapajós em Santarém se mantinha prestigiado.

No dia seguinte, na Feira do Pescado, as garças brancas perambulavam ousadamente pelas bancadas cheias de peixes. Parecia que até pediam para serem fotografadas, de pertinho, em planos bem fechados. Botos, dos cinzentos ou dos rosas, davam voltas nas águas bem próximas na esperança de ganhar restos de peixes frescos.

Depois de entrar no Mercadão 2000 parei na balsa das lanchas para Itaituba. Durante a espera da próxima embarcação conversei com itaitubense que voltava pra casa após as sessões de quimioterapia trimestral. O câncer na próstata, já extraída, ainda exigia tratamento intensivo. Segundo o próprio, bem humorado e levando tudo na esportiva, faltava pouco para morrer, pois na família dele poucos ultrapassavam setenta anos de vida. Falante e engraçado alegrava a fila de embarque para o percurso previsto de oito horas ao destino final.

Andei lentamente ao outro lado da cidade, mais precisamente ao restaurante onde costumava almoçar anos antes, muitos anos antes. Abri com caipirinha coada, como regra por ali, caipirinha feia, mas saborosa. Prossegui com caldeirada de tucunaré, pirão engrossado, quase duro, com farinha d’água, arroz branco. Encerrei com jarra de suco de graviola, pois não havia o invariavelmente divino suco de cupuaçu.

E fugi do caldeirão das ruas de Santarém para o fresco quatro do hotel.

À noite, duas caipirinhas honestas, apesar de coadas, e uma generosa porção de calabresa, batatas, farinha e rodelas de cebola frita, no calçadão da orla do Tapajós. Pouca gente. Tranquilidade. Silêncio apenas cortado pelo marulhar das águas na murada de proteção. Delícia das delícias em noite do meio da semana, noite comum, sempre mais agradável que as noites de fins de semana, feriados, períodos festivos. Eu contemplava o vazio, a escuridão das águas, raramente interrompida por voadeiras em deslocamento. A brisa, o frescor do ar noturno, a imensidão e o brilho fugidio das águas do Tapajós, o movimento quase nulo de pessoas, lembrava que valia e muito a pena estar em Santarém.

Subi em ônibus urbano ao distrito de Alter do Chão, dentro do município de Santarém. O percurso de uma hora pela PA-457 atravessou trechos de floresta razoavelmente preservada e partes de povoados como Cucurumã, São Braz, São Pedro, entre tantos outros.


Já na vilazinha embarquei em catraia a remo para a curtíssima travessia à ponta de areia, a imagem símbolo do lugar. Ziguezagueei ao longo da ainda estreita faixa de areia, que cresceria, em extensão e principalmente largura, com a baixa das águas do Tapajós. Avancei bem depois de muitas outras barracas então fechadas, pisando ora numa margem ora na outra da faixa, chapinhando os pés nas águas mornas. Quase ao final, com praias dos dois lados, entre vegetação de pequeno porte, avistei a boca da trilha. Era a mesma trilha que percorrera vinte e um anos antes e que levava ao topo do morro da Piroca, de onde se tinha visão privilegiada do entorno.

E lá fui eu, no impróprio horário das 12:30h, ciente do esforço físico que faria debaixo do sol amazônico brilhando no pico do céu. A maior parte do percurso seguia terreno aplainado e arenoso. Cerca de quinze minutos antes de completar uma hora de caminhada a trilha iniciou a subida em terreno pedregoso, a subir bem, exigindo pernas, pulmões, enquanto o corpo todo se ensopava de suor.

Atingi o topo, vazio de gente, para minha felicidade. Nele, um banco de jardim, um mastro contendo dezenas de flechas com as direções e distâncias de vários pontos do Brasil e do exterior. E me deparei com a visão de trezentos e sessenta graus de toda a região. Avistei a vila de Alter do Chão, a faixa estreita de areia, zonas de floresta nativa, baías ainda submersas e, mais adiante, o curso principal do rio Tapajós. Minha pele e as roupas do corpo estavam encharcadas de suor. Nada de brisa. Somente o sol a pino, o calor, o mormaço. E a visão estupenda ao redor. Relaxei, contemplei, registrei imagens do cume e dos entornos.

De volta à praia, encostei o esqueleto na barraca mais vazia e tranquila. Entrei nas águas da praia de Alter do Chão, braço afastado do leito principal do Tapajós. Mergulhei, me refresquei, nadei, flutuei na água doce. Tracei pirarucu com arroz, baião, farinha e vinagrete e duas garrafas grandes de água. Um lagarto gordo, cinza esverdeado, de um metro de comprimento, apareceu nas areias da praia. Eu já acabara de comer. Não sei o que ele buscava. Não incomodou ninguém. De repente não estava mais lá.

No meio da tarde, atravessei as águas e peguei o ônibus no terminal local.

Em Santarém fui me deliciar com a tigela de creme fresco de açaí, farinha de tapioca e açúcar. Que maravilha o creme de açaí fresco, provavelmente colhido durante a madrugada anterior e centrifugado, ou batido, na manhã daquele mesmo dia! Manjar dos deuses estratosféricos!

Comecei a ler O Boto, de Tadeu Sarmento, livro que me atraiu pelo enredo ambientado em comunidades ribeirinhas do rio Negro, mas com pegada explicitamente sobrenatural.

A noite de domingo em Santarém, como de regra em praticamente todos os interiores onde vivem pessoas que vivem e não apenas vegetam, era a noite mais prestigiada nas ruas, calçadas e praças. Famílias, casais, grupos, todos, desentocavam e saíam para circular e encontrar conhecidos. Alegria em locais públicos, democráticos, a maior parte gratuitos.

continua...

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

do Acre ao Piauí (via AC, RO, AM, PA, AP, MA, PI) (parte 6/8)

...continuação
Foram duas horas de ônibus comum para percorrer setenta quilômetros a Mazagão Velho, pela rodovia AP-010. Após o acesso à Santana, vieram os campos de cerrado. Parecendo cruzamento de gado com hipopótamo, búfalos mergulhavam em alagados repletos de buritis, cujas lâminas das águas refletidas pelo sol davam espetáculos de brilho e esplendor. Ao sul do rio Matapi, atravessado por ponte em arco, o cerrado deu lugar à floresta mais úmida. Mais rios, mais pontes, alguns balneários fluviais com banhistas de fim de semana.
Entrada em Mazagão Novo. Cidadezinha planejada e espalhada. Já se notava o aumento de negros, mulatos, cafuzos. Adiante, a rodovia AP-010 mergulhou de vez na floresta úmida, intercalada de campos verdes.
Desembarquei em Mazagão Velho, fundada em 1770, a partir de transferência, pelos invasores portugueses, da colônia de mesmo nome na costa do Marrocos, onde os cristãos guerreavam contra os muçulmanos.
Banhada por igarapé de águas escuras e cristalinas, repleto de árvores, buritizais, aningas, a vilazinha conquistava pela tranquilidade, bucolismo, sossego, beleza do pequeno casario diante do balneário de Matuapá. As famílias colocavam cadeiras na frente das casas para conversar e observar o movimento.
Também de frente ao igarapé, a igreja de Nossa Senhora da Anunciação, ao redor da qual eram celebradas as festividades de São Tiago no final de julho. Maior presença de negros e mulatos, descendentes diretos dos africanos escravizados pelos europeus durante séculos na América.
O lavrador negro cinquentão, devido a problemas renais, parou de trabalhar na roça e apelou à culinária para sobreviver. Com os dentes estropiados como o primeiro, o outro negro já estivera no Marrocos, justamente na antiga Mazagão, atual El Jadida. Ele conhecia bastante das duas Mazagão, a marroquina e a amapaense, e me pincelou parte daquela intrigante história.
Assisti parte do baile no clube, sem paredes, de frente para o gramado e o balneário. Vocalista e teclado com percussão programada tocavam repertório próprio e novo aos meus ouvidos. Alguns dançavam em frente ao palco. Outros assistiam da calçada ou das varandas das casas.
Peguei ônibus para encarar longa viagem de volta a Macapá.
Embarquei pela manhã em Santana em navio rumo a Belém. A suíte contava com ar condicionado, fixado em 16 graus, temperatura indecente até para siberianos. A camareira afirmou a “impossibilidade” de regular a temperatura. Assim como em outros navios eu providenciaria o controle remoto junto à cabine de comando para ajustar às civilizadas temperaturas de 23 ou 24 graus. Das três refeições apenas o café da manhã estava incluído no valor da passagem.
O navio zarpou com poucos passageiros. À tarde começou a balançar. As águas se revolveram sob a chuva fina.  O navio, como regra nas tardes modorrentas, mergulhou no silêncio.
Mais tarde a embarcação penetrou no labirinto de canais, por entre ilhas do arquipélago de Marajó. Oportunidade para apreciar de perto a floresta amazônica, os açaizeiros, esparsas casinhas de madeira na forma de palafitas, a genial solução cabocla. Após trecho em água grande, entrou no estreito e longo canal do Limão.  Dois barquinhos se aproximaram e descarregaram dezenas de sacos de murmuru, fruto pequeno e acastanhado, utilizado como matéria prima na indústria de cosméticos. Das casinhas precárias de ambos as margens saíam canoas, normalmente conduzidas por crianças, na esperança de receber donativos dos passageiros do navio. Mendicância similar àquela do estreito de Breves, ao sul do arquipélago. Além das palafitas, comércio, serrarias, posto de combustíveis. Tudo básico, simples. Nenhuma escola. Nenhum posto de assistência médica. Nenhum centro ou projeto cultural. Mas lá estavam as empresas do fundamentalismo evangélico, aos montes. As mesmas empresas que apoiam e participam do regime contra o povo do governo federal. As mesmas que sugam os bolsos e as mentes dos ribeirinhos asfixiados entre o nada e aquilo.
Choveu fino durante toda a travessia do canal do Limão. No bar dos fundos do terceiro piso do navio a tripulante e alguns passageiros assistiam com olhar bovino a filme de fantasia estadunidense.
Conversei com paraense que já trabalhara de tudo em São Paulo. Atualmente comprava e vendia roupas. Reclamou do mal que o governo federal de plantão, o antipopular, tem feito ao povo brasileiro e que temia a situação piorar ainda mais com aquele regime de ricos contra pobres. Sentia saudades das políticas sociais e distributivistas dos governos Lula e Dilma.
Dormi bastante. Se houve paradas do navio durante a madrugada, não ouvi um ruído sequer.
Acordei cedo e tomei o café da manhã. Não houve filas entre os cerca de cinquenta passageiros. Exceto o trajeto de Manaus a Nhamundá, quatorze anos antes, no qual havia menos de dez passageiros, aquela era a viagem mais vazia a bordo dentre os percursos fluviais que realizei pela Amazônia.
Lá fora, água grande. Nada de terra firme próxima, somente no horizonte distante. Outras embarcações navegavam a perder de vista. O sol ameaçava furar o bloqueio das nuvens.
Mais tarde as chaminés poluidoras do distrito industrial de Barcarena. Pouco depois, no fundo do horizonte, a linha de edifícios altos da cidade de Belém. Desembarquei no terminal hidroviário da capital paraense no meio da manhã.
Jantei em restaurante lotado em noite de segunda feira. Duas mesas comemoraram aniversário. A tradicional celebração do restaurante incluiu luzes apagadas, chapéu de palhaço nos aniversariantes, fogos, garçons caracterizados, fotografando, dançando, cantando os parabéns. Porém, detalhe bizarro, os garçons cantaram primeiro em inglês e depois em espanhol, somente nessas duas línguas, em ritmo caribenho indefinido. Todos ali, nas mesas, corredores, nas cadeiras, funcionários e clientes, aniversariantes, todos, sem exceção, eram brasileirinhos da silva. Cenas para agradar aqueles indivíduos fanáticos que vestem camisetas da CBF, dançam nas avenidas em volta de um pato e, com pavor dos pobres, imploram por golpes de Estado e por ditadores.
Caminhei bastante pelo centro histórico de Belém. O forte do Castelo, a Casa das Onze Janelas, a praça da catedral, o museu de Arte Sacra, o mercado Ver-O-Peso, as tendas de alimentos, artesanatos, garrafadas, peixes, açaí, polpas. Destaque para os comes e bebes no balcão, especialmente peixe frito ou camarão, acompanhado da cuia de creme fresco de açaí, sem açúcar, à paraense. E a centrífuga bem em frente, produzindo, a todo instante, aquele creme divino assim que a tigelona baixasse de nível.
Encerrei Úrsula, livro de Maria Firmina dos Reis. Escrita rebuscada demais. Enredo romântico e dramático ao extremo. Abordagens ingênuas e religiosas do começo ao fim. Tá, o livro é de 1859. Tá, a autora denuncia a escravidão, ainda que em curto trecho, numa época em que ninguém o fazia, ainda mais uma mulher. Descontos à parte, o livro vale somente para estudiosos da história da literatura. Ou para os que buscam referências, embora breves, aos crimes do comércio de escravos e da própria escravidão. No entanto, longe do tema e enredo central do livro, as reflexões sobre a escravidão se dão em poucas e pequenas passagens.
Em fim da tarde o ônibus praticamente vazio, confortável, com o ar condicionado em temperatura civilizada, partiu rumo ao Piauí.
Pela BR-316, depois de parar em Capanema para o jantar, o ônibus atravessou a ponte sobre o rio Gurupi e alcançou a primeira cidade do Maranhão, Boa Vista do Gurupi. E logo adormeci.
O trecho maranhense da estrada rendeu sacolejos do veículo em razão dos buracos e irregularidades da pista. Após margear várias cidadezinhas, inclusive Zé Doca, entrou na rodoviária de Santa Inês pouco antes do amanhecer. A partir daí, estrada estreita, embora de nome BR-222, se apresentando mais conservada. Valeu por se livrar do tráfego pesado das rodovias principais e tomar contato com o nordeste do Maranhão. Desembarcaram e embarcaram passageiros nas inúmeras paradas, como Vitória do Mearim, Arari, Miranda do Norte.
Os babaçuais reinavam na paisagem aplainada, eventualmente cortada por serrotes também coalhados de babaçus. A maior concentração dessa palmeira ocorreu entre Vargem Grande e Chapadinha, onde placa no acostamento indicava uma das associações de quebradeiras de coco, mão de obra baratíssima que gera matéria prima para a indústria de óleo, cosméticos, farmacêutica, produtos de limpeza. As quebradeiras se defendiam como podiam dos fazendeiros e do agronegócio que ansiavam pelas terras e pela devastação dos babaçuais. Nesse mesmo trecho da estrada abundavam casas de taipa e cobertas de palha da palmeira. A despeito do charme, bucolismo e singeleza dos moradores, refletiam as más condições de habitação do maranhense, povo tão massacrado por séculos de oligarquias medievais. O progressista governo do estado, no começo do segundo mandato, ainda batalharia muito ao lado do povo para superar a miséria catastrófica da população.
Entre as cidades de Anapurus e Brejo, a monocultura extensiva, empregando pouca mão de obra e muitos agrotóxicos. Marcas de fornecedores estrangeiros, presença de transnacionais, ao lado de comércio com nomes e referências gaúchas. O agronegócio em todo o Brasil jamais beneficiou a população. Só trouxe miséria para a maioria e o enriquecimento de poucos.
Meia hora depois de atravessar o rio Parnaíba, e entrar no estado do Piauí, pela BR-343, o ônibus estacionou na rodoviária da cidade de Parnaíba.
À noite andei pela avenida São Sebastião, o destino noturno dos parnaibanos, larga e extensa, com amplo canteiro central, arborizado na forma de duas alamedas de árvores, mais calçadão de ambos os lados. Próximos à rotatória movimentada, quiosques, pontos de espeto, sanduíches, grelhados, tanto no canteiro central como na calçada, um ao lado do outro, ao ar livre, atraindo a população e alegrando a noite do norte piauiense.
Encontrei restaurante de cardápio variado, em ambiente sério, elegante. Quinhentos gramas de maminha ao ponto, suculenta, macaxeira cozida, pão com alho, farofa e vinagrete. Lentamente, prazerosamente, não deixei ciscos sobre pratos e travessas.
Pela manhã, na região central, reconheci pontos onde eu frequentava até minha última visita doze anos antes. A praça Santo Antônio, com casario imponente, construído no início do século XX. Mais adiante a praça da Graça, a principal de Parnaíba. Igrejas pesadas, comércio em volta, pessoas tomando a fresca nas sombras dos bancos. Dali ao rio Igaraçu, braço do rio Parnaíba, o miolo antigo da cidade, mal conservado, muita coisa em ruínas e abandonada. Era a região do Porto das Barcas. Revi a avenida Getúlio Vargas, estreita, outrora minha favorita para as flanadas noturnas, sob as árvores farfalhando ao vento e o silêncio do casario então residencial.
Peguei transversal a fim de atingir a margem do rio Igaraçu, na avenida Beira Rio. Bares e restaurantes isolados, a capitania dos portos do Piauí, dois clubes, deserto de gente naquela hora tórrida do final da manhã. Tomei cajuína cristalina para matar parte da sede.
Subi em ônibus urbano rumo à praia da Pedra do Sal, ainda no município de Parnaíba, mas na outra margem do rio, na ilha grande de Santa Isabel, via a PI-116. Pelo caminho, belíssimos carnaubais em zonas alagadas com aguapés. Impossível não se encantar com essas palmeiras típicas do Piauí e de tantos usos para o ser humano. As carnaúbas cresciam principalmente em zonas alagadas e refletidas pela luz do sol, sempre enfeitando a paisagem. Atraentes dunas de areia se erguiam pelos interiores da ilha. Já nas imediações da praia, dezenas de torres coletoras de energia eólica.
continua...

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

do Acre ao Piauí (via AC, RO, AM, PA, AP, MA, PI) (parte 4/8)

...continuação
Ao entardecer desci à orla para contemplar o por do sol nas escadas diante do rio. Vivas ao urbanismo de Santarém, pelo menos nesse trecho, se abrindo às águas do Tapajós! Compareciam pescadores, atletas e aspirantes, estudantes, casais, grupos, gaúchos agarrados ao chimarrão.
Emendei no bar e restaurante instalado em plataforma de madeira que avançava sobre as águas do Tapajós. Além de duas caipirinhas detonei prato com maniçoba, vatapá, arroz com toques de jambu e camarão. Morcegos sobrevoavam, aos montes, brincando por entre a iluminação pública, sem sugar o sangue de ninguém.
Durante a chuva da manhã me refugiei sob a marquise. Bem na frente, cruzamento sem semáforos, com faixa de pedestres. Tráfego intenso. Os motoristas, de carros, ônibus, motos, caminhões, cediam constantemente passagem aos pedestres. Trânsito educado e não agressivo, na prática.
Em restaurante especializado em peixes abri o apetite com duas caipirinhas pequenas e saborosas e emendei com caldeirada de tucunaré, imensa, de peixe inteiro. Arroz branco e pirão acompanharam a tigela que mais parecia balde, repleta de caldo, legumes, batata, quatro ovos cozidos e todos os pedaços do tucunaré. Saí com dores no abdómen de tão estufado.
À noite, sorvete de açaí com tapioca e nada mais. Volta leve pelo sempre animado e bem frequentado calçadão da orla de Santarém. Vaivém variado e divertido, além das famílias e grupos que se estabeleciam em cadeiras trazidas de casa ou nas escadarias diante das águas do rio Tapajós.
Embarquei em navio ao Amapá no meio da tarde, no flutuante em frente à praça Tiradentes. Comecei a ler Úrsula, livro de Maria Firmina dos Reis.
O amapaense de Laranjal do Jari desembarcaria em Almeirim, de onde pegaria lotação até Monte Dourado, atravessaria de canoa o rio Jari e chegaria, finalmente, ao destino. Segundo ele, o Beiradão, o famigerado Beiradão de Laranjal do Jari, ainda provocava assassinatos eventuais. Nada comparado com décadas antes. Mas, mesmo assim, como bem salientou:
“Se o sujeito vacilar, morre.”
O senhor de Oriximiná iria visitar as filhas em Macapá. Politizado, atuante, brilhou naquele mar de alienação, despolitização, resignação, conformismo e submissão ao fundamentalismo evangélico de muitos passageiros. Pouco antes da partida, surgiu passageiro setentão e encostou por ali. Escolheu o colega de Oriximiná para puxar conversa, em voz baixa. Deu para eu ouvir, entre os sussurros, a ladainha fundamentalista. Autoritário, o setentão não permitia que o oponente se manifestasse, impondo frases mal decoradas e tentando cooptar o senhor de Oriximiná. Mais tarde soube que o evangélico agressivo não se deu bem. Nada como o conhecimento para derrotar os fanatismos.
O navio zarpou à tardinha, deixando para trás a acolhedora Santarém dourada pelas luzes do fim da tarde. Mais adiante, o alaranjado do por do sol sobre as águas da popa.
Antes de escurecer, quando Santarém ainda aparecia no final do horizonte oeste, foi servida a tradicional sopa das primeiras noites de barco. Cada passageiro recebeu a tigela de sopa encorpada com legumes, macaxeira, pedaços de rabada. Acrescentei a farinha grossa para dar mais sustância.
Três horas depois da partida ainda se notava o clarão de Santarém no horizonte da popa. Acima, céu escandalosamente estrelado. No horizonte da proa, a leste, relâmpagos, muitos relâmpagos. Seria naquele trecho perigoso, após a parada em Monte Alegre, o local da pior tempestade fluvial que eu já enfrentara quatorze anos antes?
Parada de meia hora em Prainha enquanto começava a amanhecer. Desembarques mais numerosos que embarques.
Logo em seguida serviram o café da manhã. Nada de boca livre como antes. Cota única por passageiro. Pão com queijo e presunto, maçã, fatia de mamão, fatia de melancia, copo descartável (para contribuir com a poluição) de café com leite adoçado.
Nas redes, ou nos bancos laterais, um ou outro passageiro lia a bíblia. Alguns, sobretudo mulheres, jamais deixavam as redes. Recebiam as refeições trazidas por acompanhantes e comiam ali mesmo. Circular pelos pisos da embarcação seria coisa do diabo para os fundamentalistas?
O navio navegava em água grande. As margens do rio Amazonas se afastavam para bem longe. Ilhas alongadas e alagadas surgiam vez ou outra. Houve desembarque de passageiros, com bagagens e tudo mais, em voadeiras que se aproximavam vindas de dentro de lagoas ou paranás onde se abriam pequenas comunidades. Ao fundo, serras alongadas contavam com escarpas significativas. Nas águas, canaranas boiavam à deriva. Nas margens aningas se destacavam imensas. Pássaros sobrevoavam o navio. Os horizontes, cada vez mais distantes.
O navio atracou no meio do dia em Almeirim. No alto do barranco, no ponto mais visível e destacado, sede de filial de empresa evangélica, roubando bolsos e mentes da população, ainda mais depois que a corporação passou a fazer parte do governo federal, o mesmo que corta investimentos em previdência, educação e saúde para o povo. O crime lhes tirava a máscara e mostrava para quem quer ver o real papel desempenhado pelos fundamentalistas contra a sociedade. Tanto que a letra “d”, usada no nome das empresas do ramo, mais se encaixa com diabo ou demônio, jamais com deus.
Almeirim era mais uma cidade amazônica dependente de quase de tudo de fora. Não criava e nem cultivava praticamente nada. Bastava observar as inúmeras cargas do navio deixadas no porto da cidade: legumes, verduras, frutas, temperos. Os ricaços da cidade, aí incluídos os empresários do fundamentalismo evangélico, deviam lucrar bastante com a penúria alimentícia de Almeirim e de tantas outras cidades ribeirinhas da Amazônia.
Assim que o navio apitou para partir foi servido o almoço. Um prato por pessoa com arroz, macarrão, duas fatias de carne assada. Nas mesas do refeitório, livres em quantidade, feijão, salada com maionese, salada de verduras cruas, farinha, abacaxi fatiado.
Após a foz do rio Jari, na margem esquerda do rio Amazonas, o navio entrava em águas do estado do Amapá.
O senhor de Oriximiná, orgulhoso e ativo na vida, me mostrou, pelo celular, pirogravuras de própria autoria com motivos locais. Garantiu que mais de cem delas jaziam guardadas em casa para futura exposição. Lhe doei o livro O Livro de Ouro da Amazônia, de João Meirelles Filho. Ele agradeceu comovido e me pediu dedicatória. O livro, adquirido em sebo, já possuía uma, de não sei quem para não sei quem. Pus a minha na contracapa.
Durante o jantar cada passageiro recebeu prato com arroz, macarrão, pedaço generoso de frango assado ou de peixe. Da mesa, livre para todos, salada crua, feijão, farinha, fatias de abacaxi.
Do lado de fora chuva forte, mas nada de tempestade ou vendavais. O navio nem sentia o tranco das águas agitadas e crespas do rio Amazonas.
Pouco depois da meia-noite o navio atracou no porto privado do Grego, em Santana, Amapá, cidade vinte quilômetros a sul da capital. Nem saí da suíte. Os ruídos do desembarque, de carga e principalmente de passageiros, reverberando pelas estruturas metálicas da embarcação, me fizeram oscilar entre sono leve, vigília, breves cochilos. Assim foi até o amanhecer. Fechei toda a bagagem e fui verificar o restante do navio. Menos de dez passageiros permaneciam nos pisos das redes. Aguardavam, como eu, clarear de vez e espantar o perigo dos arredores do porto, para irem embora.
Percorri a distância entre as cidades de Santana e Macapá, com direito a cruzar a linha do equador pela zona sul da capital amapaense e entrar no hemisfério norte. Embora o traçado da cidade fosse quadriculado, com ruas longas e normalmente de mão única, os ônibus urbanos ziguezagueavam, em vez de seguir direto ao destino, a fim de pescar mais passageiros e faturar mais. O tempo de percurso, óbvio, aumentava bastante.
Macapá, no geral, apresentava esgotos a céu aberto, canais e igarapés poluídos, mato crescido nas calçadas. Aliás, as calçadas macapaenses eram casos à parte. Cada imóvel construía a própria calçada, do jeito que bem entendia, na altura, inclinação, material do piso, ou simplesmente não construía nada, largando a terra, as pedras, o mato, os buracos se fingirem de calçada. Caminhar por elas ou pela ausência delas era saltar obstáculos, muitas deles instransponíveis. Os pedestres, de todas as condições físicas, eram obrigados a andar pela rua. Ainda bem que o tráfego de Macapá era respeitoso, não agressivo, gentil, parando nas faixas de pedestres ao sinal do braço. Os prédios no centro comercial, baixos na maioria, se apresentavam mal conservados, quase caindo aos pedaços, sem preocupações com a aparência e, provavelmente, com o conteúdo. Por outro lado, o açaí, o camarão, a oferta de alimentos variados, abundavam na cidade. A influência indígena e africana concorria para aperfeiçoar os pratos da culinária regional.
Ao sair para jantar, já noite avançada, conversei com paulista de São Bernardo a trabalho em obras civis no quartel do exército. Estava pessimista em relação ao futuro social do Brasil. Tinha votado na extrema-direita porque ela representava a mudança. Fora eleitor e simpatizante petista durante anos. E considerava todas as medidas do governo da extrema-direita ruim para o Brasil e os brasileiros.
A orla de Macapá, ao longo da avenida e calçadão da margem esquerda do rio Amazonas, por quilômetros e quilômetros, não tinha preço. Gente caminhando, correndo, se exercitando, perambulando, namorando, aproveitando o relativo frescor da noite. E havia o antes e o depois da fortaleza de São José de Macapá. Trechos frequentados, outros vazios, escuros, privativos, silenciosos. Ao norte da fortaleza, quiosques, trailers, comes e bebes, frequência variada e discreta, mas que sempre cumprimentava, bom dia, boa tarde, boa noite.
Jantei caldeirada de tucunaré em restaurante cuja vista do rio pelas imensas e transparentes vidraças fascinava entre mordidas no peixe e goles nas caipirinhas bem preparadas. Frequência triste nas outras mesas, com exceção a de almirantes e afins na enorme mesa reservada ao lado. Saí antes de o álcool fazer efeito e de eles soltarem a franga.
Nos quarteirões contemporâneos de Macapá, ao lado de construções modernas, ainda havia casas de madeira, com estilo, aspecto e conservação de algo velho, antigo, dos primórdios da capital do antigo território federal do Amapá. E nessas casas morava gente, como se o tempo não tivesse passado. Testemunhos de outros tempos, resistindo às engrenagens que elimina o que é considerado obsoleto e ergue o que é supostamente moderno e eficiente.
Longa caminhada pela cidade plana até o museu Sacaca. Aberto gratuitamente ao público, local de eventos voltados à educação e questões socioambientais, ocupando todo o imenso quarteirão, o museu exibia espécies da flora nativa da Amazônia, quelônios, pássaros, em ambiente natural, ao ar livre, junto a inúmeras representações de cenas ribeirinhas, como casa da parteira, casa do castanheiro, casa do seringueiro. Também ali, diversas culturas que compõem o povo amapaense, entre elas os negros da região de Mazagão e Curiaú, emprestando à região a cultura de parte da África, as canções e danças do marabaixo, por exemplo. Um barco, o regatão, se deslocava sobre curso d’água a fim de mostrar como era o comércio nos velhos tempos na floresta. Ligado ao Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá, responsável por fomentar e divulgar a produção científica e tecnológica local, que era vasta e amplamente reconhecida, o museu Sacaca corria sérios riscos de sobrevivência em razão das ações criminosas do regime de plantão no governo federal. Antes dessa calamidade, porém, os visitantes poderiam aprender bastante com os amapaenses.
À noite jantei bem, regado a duas razoáveis caipirinhas. Sentado em mesa ventilada na calçada eu pude ver através do vidro a festa de noivado, como aliança e tudo mais, em longa mesa interna. O garçom que me atendeu, trintão, não registrado em carteira, somando oito filhos de três mulheres diferentes, rodara bastante pelo Brasil. Com a esposa do momento, grávida, planejava se mudar para Londrina. Falava como grande administrador da própria vida, das próprias finanças. Dei corda e ele deitou a contar a vida, passada, atual e futura.
Choveu forte durante a madrugada inteira. Água, muita água. Nada de relâmpagos, raios ou trovões. Só água.
continua...

terça-feira, 10 de setembro de 2019

do Acre ao Piauí (via AC, RO, AM, PA, AP, MA, PI) (parte 3/8)

...continuação
Mas que boa e variada culinária era oferecida nos restaurantes de Porto Velho! À noite transbordei de felicidade em restaurante de comida capixaba. Duas caipirinhas, grandes e fortes, regaram a moqueca de tambaqui acompanhada de arroz, pirão e farofa fenomenal na manteiga. O peixe da moqueca, por motivos óbvios, era fluvial e não marinho.
Tempo de seguir viagem, rumo a Manaus. Durante o voo vislumbrei o vale do rio Madeira, repleto de braços, paranás, furos, ilhas, várzeas alagadas, lagos. Avistei o traçado da BR-230, a rodovia transamazônica, e também trechos da BR-319, intransitável naquela época do ano. Ao se aproximar do pouso, a imagem completa da foz do rio Negro, do rio Solimões, do encontro das águas, o prosseguimento no rio Amazonas, os estuários, as zonas alagadas, as águas escuras e límpidas do rio Negro. E a cidade de concreto e asfalto se exibiu de ponta a ponta, inclusive a extensa ponte atravessando as águas negras e conectando Manaus a Manacapuru, Iranduba, Novo Airão.
À noite encontrei com amigos no miolo do largo de São Sebastião, próximo à entrada do teatro Amazonas. Caipirinhas, bolinhos de pirarucu, isca de pirarucu, pastel de sabores variados, e, sobretudo, muitas e boas conversas sobre os mais diversos assuntos.
Após substancioso café da manhã desci para a beira do rio Negro, no porto da Escadaria, a fim de mergulhar naquela babel fascinante, naquela bagunça organizada, naquele caos irresistível, entre dezenas de navios, barcos, canoas, lanchas, passageiros, carregadores, cargas, vendedores de passagens, de comes e bebes, de serviços.
Ao anoitecer ensaio técnico do boi Caprichoso nos interiores do histórico clube Rio Negro. A ala integrante de Manaus, que iria se apresentar em Parintins, ali estava, mais a marujada dos instrumentistas, a torcida, admiradores, curiosos. O público se distribuía informalmente ao redor das piscinas, iluminadas pela imensa lua cheia da semana santa. O som, as toadas, os ritmos, as coreografias seguidas à risca pelos dançarinos e admiradores, mantinham a batida monótona, as letras de exaltação, os movimentos repetitivos, às vezes quebrados por coreografias indígenas ou negras.
Ao lado dos amigos fui a flutuante à montante da Ponta Negra, quase na boca do igarapé Tarumã no rio Negro. Pelo caminho, verdadeiros caminhos de rato, sem áreas públicas, sem árvores, sem sombra, sem praças, expondo a Manaus do concreto e asfalto, a Manaus que não É quente, mas Está quente, em razão do urbanismo estúpido ou, pior ainda, pela falta dele. No flutuante, o principal, as águas escuras e mornas do rio Negro para desfrutar à vontade. O pouco sol e o vento mantiveram o ar quente, mas não tórrido.
Acordei bem cedo e fui à Balsa Amarela, no porto da Escadaria, bem em frente à feira da Manaus Moderna. Embarquei no ferryboat de três pisos completos, mais o de Lazer com o bar e lanchonete, coberto, e outro acima, descoberto. Conversei com o passageiro da suíte ao lado. Morava sozinho em Manaus, sem trabalhar ou estudar no auge dos vinte e poucos anos. Vivia só nas noitadas sem regras e sem horários para acabar. Iria visitar a mãe em Alenquer.
Partida no meio da manhã. Uma hora depois o barco cruzou o encontro das águas dos rios Negro e Amazonas. A embarcação, como regra nas viagens de baixada, navegava pelo canal do rio, afastada das margens e das vistas mais atraentes. A maioria dos passageiros se mantinha nas redes. No bar, a música alta não poderia faltar, na base de Wesley Safadão e congêneres, a banda 007, aquelas duplas sertanejas, iguaizinhas umas às outras, em que eles imitam voz de menino chorão e elas imitam voz de homem.
Duas voadeiras provenientes das comunidades ribeirinhas do rio Amazonas encostaram para vender comes diversos, entre queijo, bananas chips, doces variados. Os passageiros se esbaldaram.
Ainda no começo da noite, perfilou ao norte a cidade de Itacoatiara, a segunda maior do Amazonas em população.
Acordei antes de clarear. Exceto o som do motor e do deslocamento das águas do rio Amazonas, ambos leves, nenhum ruído na embarcação. Amanheceu nublado, cinzento, com nuvens escuras e espessas, e garoa fraca. As lonas de proteção, contra chuva e vento, estavam arriadas nas laterais dos pisos.
Debaixo de chuva fina o barco atracou na balsa flutuante de Juruti, já no estado do Pará. Poucos passageiros no embarque e desembarque. Descarga de refrigerantes e alumínio laminado.
O rio Amazonas se encontrava bem cheio. Zonas alagadas apareciam nas margens de terra firme e, sobretudo, nas ilhas alongadas.
No meio do dia o barco atracou na acidentada e dotada de construções históricas cidade de Óbidos, na margem esquerda do Amazonas. Era o ponto mais estreito do rio, com “apenas” mil e oitocentos metros de largura. Por ser ponto afunilado, obrigando todas as embarcações a passarem pelo mesmo trecho, a polícia federal e a força nacional montaram base na cidade. A vistoria era em todos os setores, porém superficial.
Permaneci no piso de Lazer, admirando a imensidão da paisagem, entre muita água e distancias quilométricas. Contemplei as margens próximas do paraná por onde o barco seguia. Zonas alagadas de ambos os lados. A sabedoria cabocla driblava as cheias através das palafitas. Criações de animais seriam transferidas para terras mais altas. Meios de transporte naquela estação do ano, somente barcos, canoas, voadeiras, lanchas.
No final da tarde o barco atracou no lotado cais de Alenquer. Após manobras com pouco espaço disponível o navio encostou em outra embarcação, para, através dela, os passageiros atingirem a terra firme.
Pelo menos ali no centro, Alenquer contava com ruas estreitas e extensas, seguindo traçado quadriculado, calçadas altas e valetas profundas e abertas para escoar as águas pluviais e o esgoto. Trailers, lanchonetes e bares funcionavam com poucos clientes próximos ao cais, de onde se preparava para partir o barco rumo a Santarém.
Instalado em sobrado antigo, estreito e alongado, o hotel servia delicioso café da manhã em única mesa retangular. Os hóspedes se sentavam lado a lado, dividindo a farta e variada comida ali disposta.
Subi no morro do cruzeiro, de onde se tinha visão panorâmica da cidade, sobretudo do centro velho, das zonas alagadas, do paraná, dos barcos, do horizonte, e também, do lado oposto, da cidade nova, arborizada, mas sem graça como quase tudo que é novo e construído às pressas.
A frente da cidade sofria com constantes inundações no final do inverno amazônico, obrigando os moradores a se reposicionarem em terras mais altas. Bancos, comércio, os correios, residências, serviços, fugiram para longe das belezas da natureza. A primeira rua paralela ao paraná estava inundada a leste e a oeste do hotel.
Mas era ali onde se encontrava a parte mais interessante da zona urbana de Alenquer. Construções do início do século XX se espalhavam em ruas estreitas, tais como as escolas tradicionais, a igreja Matriz, o prédio da prefeitura, armazéns fechados. E, claro, a própria orla do paraná, em meio a barcos, canoas, flutuantes, comércio simples, bares e restaurantes saborosamente suspeitos, trailers de lanches, o vaivém de passageiros e cargas.
Depois de me deliciar com a caldeirada de tambaqui, sentei na entrada do hotel, de frente para a rua. Logo o marido da proprietária se achegou. A despeito de falar pelos cotovelos, sem pontos ou vírgulas, ele descreveu as atividades pecuárias, em terra firma no inverno, nas várzeas durante o verão, de gado e búfalo, relatando todo o processo de fabricação, da manteiga, queijo, carne. A zona rural do município de Alenquer produzia e vendia para outras regiões do Brasil farinha de mandioca, cacau, limão, castanha, cumaru, carne de boi e de búfalo, laticínios de vaca e búfala.
No meio da madrugada a chuva desabou com vontade. E ainda caía no começo da manhã ao acordar.
Acessei o longo trapiche do porto da cidade, todo em concreto, se projetando cem metros sobre as águas do paraná. A ele se somava construção grande em terra, coberta de telhas, contendo bilheterias, lanchonete, sala de espera, sanitários, e a ponta, sobre as águas, também coberta de telhas, com bancos, rampas laterais, nível abaixo a ser usado na estação seca. Mas, porém, contudo, todavia, todo o porto estava interditado havia anos, e logo após a inauguração. As más línguas afirmavam que caminhões acima do peso, entraram e danificaram as estruturas do trapiche. E foi largado às traças logo em seguida. Enquanto isso Alenquer era obrigada a enfrentar lama e poeira em cais improvisado.
Um membro de facção qualquer do comércio evangélico, repleto de frases decoradas e vazias, típicas de fundamentalistas, me jurou que na empresa deles não se fazia política, porque não devia fazer tais coisas no templo. Alardeava tais mentiras com a maior cara de pau. Como uma corporação do fundamentalismo evangélico, incrustrada no governo federal, além dos estaduais e municipais, nos legislativos e judiciários, mamando e influenciando, alegava que não fazia política?
Embarquei em lancha com destino a Santarém. No televisor da proa, o lixo estadunidense padrão. Melhor admirar a paisagem fluvial pela janela.
O trajeto passou por paranás e furos estreitos, contando com casas isoladas e alagadas. Pássaros de diversas cores e tamanhos voavam rasantes. Garças, pássaros pretos, aguardavam comida sobre as canaranas flutuantes. Nos momentos em que navegou sobre o leito principal do rio Amazonas a lancha enfrentou turbulência típica daquele curso que nunca repousa e sempre se agita.
Pela manhã caminhei lentamente pelo calçadão da orla fluvial de Santarém. Barcos pequenos partiam a comunidades próximas, lotados de passageiros de sábado. O calçadão, embora ainda incompleto, percorria extensa faixa da orla na margem direita do Tapajós. Delícia perambular por ela, de dia ou de noite.
Depois de almoçar e detonar sorvete de açaí com farinha de goma de tapioca, eu permaneci horas no último andar do hotel, sob a sombra, recebendo a brisa refrescante vinda do rio. Vista privilegiada do Tapajós, do encontro das águas, do Amazonas. Li O Livro de Ouro da Amazônia, de João Meirelles Filho, contemplei a paisagem, deixei a mente fluir.
O calçadão da orla do Tapajós ferveu a partir ao final da tarde. Famílias, casais, grupos, gente só, passeando, conversando, caminhando, sentados nos bancos, em cadeiras trazidas de casa, em harmonia, convivendo em paz com as diferenças. Comes e bebes aqui e ali. E de frente para as águas do rio Tapajós, pelas quais, vira e mexe, passavam barcos, navios, lanchas, canoas. Grupo de carimbó animava os que trefegavam pelo calçadão e paravam para ouvir e dançar. Havia trechos do calçadão mais cheios, outros tranquilos ou quase vazios, mas em todos os quilômetros dele havia gente prestigiando o espaço público, gratuito, democrático.
Pela manhã andei próximo ao rio, Tapajós no início, Amazonas depois, embora ainda com águas esverdeadas do primeiro. A área circundava o porto das balsas de carga, além do terminal de passageiros, inacabado e solenemente “inaugurado” pelo regime golpista que assaltou o governo federal em 2016.  Além das goteiras, mofo, excrementos de pássaros, água parada e escura, nada funcionava ali.
Na praça Tiradentes, do outro lado da avenida Tapajós, sob as sombras refrescadas pelo vento constante, conversei com senhora da zona rural da cidade de Prainha. Viera entrar com o processo de aposentadoria. O INSS ainda marcaria perícia para daí a dez dias. Mesmo antes da antipopular reforma da previdência que o governo fascista e ultraliberal ansiava impor ao povo brasileiro, beneficiando as corporações capitalistas, principalmente banqueiros, o regime fazia de tudo para adiar a aposentadoria do povo, um direito humano elementar. A senhora veio a Santarém de balsa desde Prainha, em viagem de vinte quatro horas, dormindo em rede. Somente na manhã seguinte retornaria. Aquela maratona se repetiria tantas vezes quanto necessária para obter a merecida aposentadoria.
Tomei ônibus urbano com destino a Alter do Chão. Os cerca de noventa minutos de percurso atravessou as periferias de Santarém, pequeno trecho da rodovia Cuiabá-Santarém, a BR-163, para logo em seguida entrar na PA-457, estradinha local, asfaltada e bem conservada. Passou ao lado de comunidades rurais de São Braz e Cururumã, pela estrada acidentada ao lado da floresta secundária. Desembarquei em Alter do Chão, pouco antes do ponto final, ao avistar a igrejinha da praça central.
Dei voltas leves pela beira do Tapajós, bastante alto, vez ou outra beijando a calçada ou até invadindo a rua. Praias daquele lado, nenhuma. Na ilha em frente, cartão postal de Alter do Chão, somente nesgas de areia próximas à elevação do morro. Árvores submersas, areias submersas, barracas de comes e bebes submersas até quase a cobertura de palha. Vendedores de passeios, barqueiros, guias, até que ofereciam serviços, mas sem maiores convicções, cientes da baixa temporada e da ausência de praias chamativas.
Turistas ou viajantes, praticamente nenhum. Hotéis e pousadas às moscas. Dentre bares e restaurantes, apenas um aberto e recebendo poucos clientes, entre a pracinha e o rio. Tomei duas caipirinhas e uma porção de bolinhos de piracuí. Andei pelas ruas arborizadas ao norte, entre casas e mansões de ricaços, mais voltadas a aluguel de temporada do que frequentadas pelos proprietários.
Sorvete de açaí e peguei o ônibus de volta a Santarém.
Praticamente todos os prédios altos em construção nos bairros de Aldeia e Prainha se encontravam com as obras paralisadas. Tapumes velhos, manchas de umidade nas lajes, nenhum funcionário. Coincidência ou reflexos da recessão provocada pelo regime iniciado naquele ano?
Subi em ônibus à comunidade de Pajuçara. Antes do destino final, via estrada de areia, entrou na comunidade de Santa Maria, quieta e minúscula. Entre os passageiros, alunos de ensino fundamental, indo ou vindo das escolas públicas dos arredores.
Localizada entre o aeroporto e Alter do Chão, ainda no município de Santarém, a vila de Pajuçara era pacata e silenciosa, pelo menos enquanto não se formavam praias no Tapajós. Desci longa escadaria de acesso ao que seria praia em época de verão. Só havia estreita faixa de areia úmida, espremida entre as águas do Tapajós e o barranco. Ninguém à vista. Barracas vazias e cobertas de palha, barcos de passeio amarrados às árvores parcialmente submersas. Na parte alta, pelas ruazinhas silenciosas, ouvi as professoras ensinando contas de multiplicação e divisão para as crianças em escolas de bom aspecto.
Esperei o ônibus de volta enquanto se ouvia nitidamente o grito dos guaribas vindo das matas ao norte da vila.
Já perto da zona urbana de Santarém, o deplorável conjunto “habitacional” Residencial da Salvação. Nada havia de residencial, habitacional ou de salvação naquelas centenas de cubículos claustrofóbicos, tórridos, com janelas diminutas, todos juntinhos uns aos outros. Um crime enjaular a população necessitada naquele campo de concentração, sem ventilação, sem praças, sem áreas culturais ou de lazer. Certamente as construtoras, as administrações públicas municipais e estaduais, os políticos clientelistas, ganharam fortunas e prestígio em cima do confinamento de famílias naqueles caixotes sufocantes. E, triste ironia, muito dos pobres coitados para ali deslocados se sentiam agradecidos pelo presente da casa própria.
continua...