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segunda-feira, 24 de outubro de 2022

de Goiás ao Piauí (via GO, MT, TO, BA, PE, CE, PI) (parte 6/7)

 ...continuação

Pela manhã, atravessei mais uma vez a pé a ponte sobre o rio São Francisco. Circulei pelo centro velho de Juazeiro, mortinho da silva naquela manhã de domingo. E retornei a Petrolina de barco.

Almocei novamente no restaurante ao lado do hotel, aquele frequentado pelos mais entre os mais de Petrolina. E lá estavam eles marcando presença. Ao final, adquiri na lojinha ao lado meio quilo do estonteante bolo-de-rolo, recheado de goiabada, produto tipicamente pernambucano.

E voltei ao quarto de hotel para fugir da modorra da tarde. Comecei a ler os contos de O Macaco Que Se Fez Homem, de Monteiro Lobato.

O ônibus partiu cedinho da rodoviária de Petrolina. Seguiu pela BR-428 até Lagoa Grande. Atravessou caatinga brava, espinhenta, fechada, sobre solo pedregoso. Nas zonas irrigadas, porém, intensa fruticultura, comercializada nas próprias cidades ou levadas para cidades distantes. Dobrou na BR-122, ainda atravessando a mesma caatinga fechada, pouco habitada, exceto por minúsculos e isolados vilarejos.

Parada para almoço ao lado de Santa Cruz, cidadezinha também chamada de Santa Cruz da Venerada e de Cruz de Malta. No posto de combustíveis ao lado do restaurante, carretas gigantescas estacionadas carregavam imensas peças dos coletores de energia eólica. Aguardavam o horário noturno permitido para tráfego de tais veículos nas rodovias. Embora considerada limpa, a energia eólica, imposta sem debates públicos, causava tremenda poluição visual em toda a região instalada, assim como ruídos perturbadores aos moradores próximos.

Pequenos e médios serrotes despontavam no relevo aplainado da caatinga.



Na plana, feia, suja e desorganizada cidade de Ouricuri o ônibus despejou e recolheu passageiros nas beiras das calçadas, em paradas muito próximas entre si, às vezes quarteirão a quarteirão.

Esse estranho comportamento fez lembrar as escolas em São Paulo, frequentadas pelos filhos dos ricos. Os pais formavam imensas filas de carrões, congestionando o trânsito, para deixar e buscar os respectivos nas portas das escolas. Exatamente na porta das escolas. Nem mais um metro, antes ou depois. O que me levava a chamá-las de escolas de “aleijados” porque o aluno não “conseguia” andar se o carro o deixasse ou o resgatasse a uma quadra ou mais de distância.

Já nos interiores brasileiros, ali em Ouricuri por exemplo, como resultado dessa prática, a rodoviária da cidade, nova, ampla, cheia de espaços disponíveis para o comércio local, órgãos públicos e outros interessados, todos vazios e fechados, apresentava pouco ou nenhum movimento nas plataformas.

A partir de Ouricuri o relevo se tornou mais acidentado e a vegetação mais desenvolvida e menos árida. O não aproveitamento das terras, contudo, permanecia o mesmo.

Bodocó, cidade pequena e simpática, tipicamente sertaneja, com a feira semanal a todo vapor, também contribuiu para manter o ônibus lotado desde Ouricuri.

Estátuas, esculturas, pinturas, cartazes, faixas, frases de Luiz Gonzaga, nas margens da estrada, pracinhas, muros, paredes, anunciavam Exu, terra natal do rei do baião. A cidade revelava urbanismo bagunçado, disforme, acidentado, mas de legítima cidade sertaneja pé-de-serra, no caso a serra do Araripe.

Nas cercanias ao norte de Exu a rodovia ziguezagueou em aclives, chapada acima, ao lado de vegetação agreste, quase tropical, bem mais desenvolvida que nas baixadas. No altiplano, a natureza se encontrava preservada nas imediações da unidade de conservação ambiental da Serra do Araripe. Não demorou a divisa interestadual entre Pernambuco e Ceará. Daí a estrada entrou em declive, rumo ao vale do Cariri, ao longo do qual Crato e Juazeiro do Norte reinavam absolutas.

Desembarquei no meio da tarde na rodoviária de Juazeiro do Norte. Me instalei em quarto de hotel, como os demais quartos do estabelecimento, sem janelas, sem tapetes no banheiro, fora ou dentro do box, sem lençol de cima. Retirei da cama de solteiro o lençol de baixo e o usei como o de cima na cama de casal.

Saí cedo para jantar. A fome exigia comida farta e nutritiva. Acabei caindo nos arredores da praça de nome, adivinhem qual, Padre Cícero, justamente na esquina da rua, adivinhem qual, Padre Cícero. Comi bem e bastante ao lado de mesas ocupadas com clientes bebericando sem pressa. Fui de carne-de-sol, baião-de-dois com queijo coalho, macaxeira cozida, vinagrete, farofa. Enchi divinamente o bucho em mesa ao ar livre.

E ali, na calçada onde se instalavam as mesas ao ar livre, me deparei com fenômeno que marcava como selo os destinos religiosos e de peregrinação. A mendicância. Pedintes. Aos montes. De vários aspectos e estratégias de atuação. Um deles, vestido de missionário, com roupa longa de algodão cru e tudo o mais, rodeava as mesas de hora em hora, sempre com o olhar sofrido de mau ator. Mas eram muitos, muitos mesmo.



Na volta ao hotel encontrei enorme barata viva sob a cama de casal. A primeira barata vista em quarto de hotel em quase dois meses de viagem pelos interiores de seis estados brasileiros.

Pela manhã saí para subir a colina do Horto, sobre a qual se encontrava a estátua de Padre Cícero e outras construções religiosas. Era local de peregrinação intensa de brasileiros, sobretudo em quatro datas anuais. Descrevi em detalhes essa exploração nos relatos de minha viagem anterior, realizada vinte anos antes.

Era subida árdua e constante, durante mais de uma hora, por rua estreita e sinuosa, calçada de paralelepípedos, com esgoto a céu aberto fétido escorrendo por ambas as sarjetas. No topo, sob a estátua, nenhum guia ou pedinte, e poucos vendedores de bugigangas religiosas, ao contrário de minha primeira visita.

Além da vista panorâmica de Juazeiro do Norte, se destacaram os nomes e frases de milhares de devotos gravados a caneta, umas sobre as outras, na base da estátua do Padre Cícero.

Ao voltar, notei que, além de não terem limpado o quarto do hotel, os corredores de acesso não viam faxina havia dias. A mosca morta que encontrara na soleira da porta dias antes ainda estava lá, intocada.

Repeti o jantar da noite anterior. Circulei levemente pela praça Padre Cícero. Os pedintes, sempre os mesmos, caracterizados de igual maneira, incluindo o falso missionário e péssimo ator, pediam repetidamente, insistentemente.

E voltei ao quarto do hotel onde não havia limpeza, troca de itens sujos ou arrumação. Mas havia, sim, baratas vivas e moscas mortas.

O ônibus partiu cedo com poucos passageiros, metade dos quais, eu inclusive, usando máscara facial contra a covid-19.

O veículo parou em Crato, Farias Brito, Várzea Alegre, por entre serras, serrotes, colinas, vales, muito verde, umidade, água, fertilidade. Eram cidades de bom aspecto, mas as mutilações geométricas das árvores das ruas e praças estavam lá, desgraçadamente. Na margem de uma das rodovias, me chamou atenção igreja ou capela, isolada, no meio do nada, de fachada e portão alto, datada de 1762.

A relevo se suavizou ao chegar em Iguatu, cidade média cujo centro comercial fervilhava de movimento. Estação ferroviária, linhas de trilhos, simples e duplas, pontilhões metálicos, apontavam, assim como em toda a região nordeste, que a ferrovia, de cargas e passageiros, reinou com eficácia e eficiência durante décadas. A ditadura do transporte rodoviário, no entanto, se impôs pela força dos monopólios capitalistas, sucateando e abandonando o transporte ferroviário.

Nos arredores urbanos apareciam, esparsas casas de taipa ou de pau-a-pique, em péssimo estado. Algumas abandonadas, outras com seres humanos sobrevivendo amontoados.



A vegetação passou a agreste. A serra de Acopiara e a cidade de mesmo nome despontaram na paisagem. Parada para almoço em Catolé da Pista, distrito entre serras no município de Piquet Carneiro.

A rodovia seguia no rumo norte. Cidadezinhas surgiam e ficavam para trás, mas o ônibus parava em todas elas para desembarque e embarque de passageiros. Entre elas, Mombaça, Mineirolândia, Senador Pompeu.

Ainda na CE-060 brotaram lajedos cobertos de xique-xiques, rochedos imensos. Mas ao entrar em Quixeramobim os rochedos se afastaram e a cidade plana nada oferecia de atraente aos olhos.

Na BR-122, aí sim, mais monólitos, maiores, próximos da rodovia, escarpados, anunciando Quixadá, cidade rodeada deles e tão bem relatada na viagem anterior. Pertencente à região do Sertão Central, típica do semiárido cearense, exibindo vegetação de caatinga, Quixadá costumava sofrer com secas periódicas e devastadoras.

Anoiteceu.

Ao entrar na BR-116 o ônibus se deparou com buraqueira, lama, poças d’água, causados pelas chuvas recentes e pelo descaso do governo federal de então, a serviço de projeto capitalista de destruição da infraestrutura nacional e da entrega das riquezas brasileiras aos monopólios privados, sobretudo estrangeiros.

O frio se tornou intenso internamente. Vesti a blusa guardada providencialmente na mochila de ataque e logo adormeci. A maioria dos passageiros usava máscara facial de proteção conta a covid-19.

 Ouvi durante a madrugada o motorista anunciar aos dorminhocos a cidade de Camocim, no litoral oeste do Ceará. Amanheceu no Piauí, nas imediações de Cajueiro da Praia. Em seguida, bem próximo ao mar, o ônibus cruzou o município de Luís Correia, ao lado das praias do Coqueiro, Peito de Moça, Atalaia, antes de se dirigir à Parnaíba, passando não muito afastado da lagoa do Portinho. E vivas ao mar que aparecia pela primeira vez aos meus olhos em quase dois meses de viagem!

Desembarquei na rodoviária de Parnaíba no começo da manhã.

O funcionário do banheiro do terminal, que colocava bem altas as gravações de Roberto Carlos, talvez porque adorava o repertório, talvez para ajudar a encobrir os ruídos orgânicos dos usuários, pedia contribuições espontâneas ao final das necessidades fisiológicas de cada um.

Permanecei nos sofás da recepção do hotel, aguardando a liberação do quarto, apenas trocando de lugar para fugir dos raios de sol. Sim, porque em Parnaíba fazia calor de verdade. Aproveitei para registrar no diário as emoções e sensações vividas desde a saída de Juazeiro do Norte no dia anterior.

Almocei bem comida saborosa e temperada em restaurante simples. E hidratei a refeição com a divina cajuína cristalina da região. Parnaíba mantinha a qualidade dos serviços urbanos, entre garçons, balconistas, recepcionistas, caixas.

Comecei Romance d’ A Pedra do Reino, calhamaço de Ariano Suassuna. Acreditava que jamais iria encontrar monotonia naquelas mais de mil páginas.



Após o farto café da manhã tomei micro ao centro da cidade, zona conhecida como Porto das Barcas, na margem direita de um dos braços do rio Parnaíba, borda leste do Delta do Parnaíba. De lá subi em outro ônibus à praia da Pedra do Sal, ao norte da ilha Grande de Santa Isabel. Sentada ao meu lado, piauiense cinquentona de feição mameluca, envelhecida e gasta pela vida. Passara a noite em claro e exalava odor de álcool. Tinha filhos espalhados pelos estados do país. Morava num clã familiar, pouco ao sul do mar, sozinha em casa, mas ao lado de casas de filhos e outros parentes. Ali desembarcou, carregada de tralhas compradas na cidade e amontoadas no fundo do ônibus.

Desci no ponto final, em frente ao mar. As duas baías da praia da Pedra do Sal, a mansa e a brava, seguiam firme na situação de abandono. Pouca gente, barracas decrépitas de comes e bebes, a maioria fechada ou abandonada, dezenas em ruínas. Triste quadro em local repleto de belezas naturais. Os raros hotéis e pousadas, na mesma, caindo aos pedaços. Muito espaço vazio. Ruas e calçadas levando a lugar nenhum. Areia cobrindo pisos e calçadas. Coletores de energia eólica ocupavam extensas áreas em ambas as baías, compondo efeito visual questionável.

O vento fustigava com violência. E o sol não dava tréguas.

Acabei optando por bar, obviamente de mau aspecto, mas com meia dúzia de fregueses. Duas águas de coco, doze bolinhos de peixe até que razoáveis, me abasteceram parcialmente enquanto eu observava o mar agitado da maré subindo ao longo da baía brava. Visual bonito e relaxante de praias pouco frequentadas, águas limpas e natureza preservada. Apesar de tudo.

Durante o trajeto do ônibus na volta apreciei os carnaubais preservados em zonas alagadas ou alagáveis. Lindo demais! Nada construído ou cultivado por ali. Parecia unidade de conservação.

Em vez de descer ao pé da ponte sobre o braço do rio, fui até o ponto inicial daquela linha urbana de ônibus, até a zona do mercado 40. Naquele momento, fim da tarde de sábado, tudo fechado. Apenas alguns bares sórdidos acolhiam bêbados inveterados. Ao redor, moradores de rua, pichações do PCC nas paredes, ambiente para lá de suspeito. Apertei o passo para sair dali antes de escurecer e partir para longa caminhada ao hotel.

Jantei peixada atraente e fresquinha em bar e restaurante no canteiro central da avenida São Sebastião. Era local tranquilo, sem música ao vivo, silencioso, com a lua quarto-crescente subindo acima das copas das árvores.

continua...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

do Maranhão à Paraíba (parte 5/6)

...continuação
Atingi os pés da estátua branca do Padre Cícero com vinte e cinco metros de altura. E logo fui cercado por guias, vendedores de pulseiras, correntes, anéis, lembranças, imagens religiosas, miniaturas relacionadas ao tema, a maioria crianças com menos de dez anos de idade. Quem não tentava vender, pedia esmola. Tudo com muita insistência. Não desgrudavam. A base da estátua estava coberta de plástico e tapumes aguardando verbas para a restauração e contenção da estrutura abalada pelas chuvas. Romeiros escreviam mensagens e nomes na tinta branca da estátua onde já não havia espaço livre. Escreviam sobre os textos antigos e ninguém conseguiria ler nada. Do topo do Horto, ampla visão da cidade de Juazeiro.
Perto dali o museu, reproduzindo cenas da vida do Padre Cícero, mais a exposição dos objetos e fotos dos devotos em agradecimento às graças alcançadas. Imagens fortes e tristes. Também estava sendo construído o novo santuário de estilo exageradamente moderno e de gosto duvidoso. Do lado do museu saía longa trilha até o Santo Sepulcro. Já trilhava os primeiros passos quando as senhoras do casebre ao lado me advertiram para não prosseguir desacompanhado, em virtude do risco de assaltos. Comentaram que naquela mesma semana uma senhora havia sido assaltada à faca.  
Parado ali na praça, um ônibus escolar muito velho, amarelado, frases em inglês na carroceria, em péssimo estado, aparentando mais de quarenta anos. O país original se livrou daquela sucata e ainda recebeu por isso.
Retornei à cidade pelo mesmo caminho, agora com sol e intenso mormaço. Não me apressei, a fim de observar melhor as casas e moradores.
Comovia o comportamento dos fieis diante das imagens do Padre Cícero, espalhadas pela cidade, estátuas e oratórios, admirando-as, tocando-as com as mãos antes de se persignarem e rogarem pela salvação. Alguns se ajoelhavam, lamuriavam, rezavam, veneravam as imagens, em atitudes cotidianas dos moradores, romeiros, visitantes.

As ruas da cidade viviam cheias de gente e com esgoto correndo a céu aberto. Menores de rua ofereciam insistentemente serviços de engraxate, vendas de bugigangas. Se nada funcionasse, pediam esmolas, qualquer quantia. Se não tinha trocado, respondiam que podia ser graúdo também. Pareciam gravadores, pior que mosca antes de chuva, não desistiam facilmente. A rua Padre Cícero concentrava as clínicas, os consultórios médicos e odontológicos, atendendo as cidades e vilas da região. Com esse nome de rua, devia ser grande a garantia de bom atendimento e, principalmente, da cura dos pacientes.
Visitei o memorial de Padre Cícero no centro, com fotos e pinturas relatando a história do santo. Próximo dali o oratório com a imagem em frente à igreja do Socorro, onde foi enterrado. Muitos paravam em frente ao oratório, ajoelhavam-se, pediam, choravam, imploravam, tocavam, se esfregavam nos panos da imagem. Uma idosa derrubou a pequena estátua do alto do oratório, que não se quebrou ao bater no chão. Pronto! Todos os demais se emocionaram e atribuíram a resistência ao Padre Cícero. Ao redor, lojinhas e barracas vendendo lembranças religiosas, além de muitos dormitórios simples para abrigar romeiros. No piso do altar da igreja de Socorro, local pequeno, simples e despretensioso, encontra-se a lápide da tumba com as últimas palavras dele antes de morrer e, é claro, a lista de parasitas da elite regional que exigiram a inclusão dos nomes ao lado.
Incalculável o número de pousadas, hotéis, dormitórios, abrigos, voltados aos romeiros, espalhadas pela cidade e principalmente nas imediações dos locais sagrados. Recebiam, na maioria dos casos, o nome de Padre Cícero, alterando apenas o antes, isto é, pousada, hotel, dormitório, hotel e pousada, pousada e restaurante, dormitório e refeitório e assim por diante. O mesmo acontecia com os demais pontos comerciais, sobretudo os mais simples.
O tempo abriu na parte da tarde e finalmente a noite foi limpa e estrelada. Aproveitei para andar bastante, sentar em barzinho da praça, Padre Cícero obviamente, para observar o vaivém dos moradores. No centro da praça arborizada e agradável, a estátua de cor dourada do padroeiro, bastante venerada e tocada pelos devotos.
Acordei cedo para ir a Santana do Cariri, aos pés da chapada do Araripe e sede de um dos principais museus de paleontologia do país. Peguei o ônibus urbano ao Crato onde subi na primeira caminhonete lotação da fila. O percurso subiu toda a chapada do Araripe, cruzou já no topo a floresta nacional do Araripe, efetuou rápida parada na cidade de Nova Olinda, desceu novamente a encosta da chapada, atingindo a cidadezinha de Santana do Cariri, incrustada no vale entre as escarpas da serra. Desconfortável foi manter a posição curvada enquanto sentado na carroceria coberta da caminhonete, ao lado de outros passageiros. Mesmo assim debati com o comerciante ilegal de fósseis da região, que coletava e vendia as preciosidades, clandestinamente e a preço de banana, aos grandes traficantes. Alertei sobre os malefícios da atividade predatória que, além de agredir a natureza, em pouco tempo esgotaria essa fonte de renda regional.
De Santana do Cariri se avistavam as imponentes montanhas da chapada, o Pontal da Cruz, localizado no topo da serra, composto da igreja e da cruz branca. A Chapada do Araripe é uma das maiores concentrações de fósseis do mundo, guardando espécies de peixes, plantas, insetos, ptetossauros de grandes de dimensões. E a maioria em ótimo estado de conservação. O museu de paleontologia, embora pequeno e básico, mostrou a história geológica da região em mais de cem milhões de anos.
Crato, Juazeiro e inúmeras cidades nordestinas exibiam linhas de trem e estações ferroviárias ainda intactas, grandes, bonitas, mas, infelizmente, desativadas. As linhas estavam abandonadas e cobertas pelo mato. Triste desperdício para o Brasil e os brasileiros na desativação premeditada para beneficiar as transnacionais do transporte rodoviário.

Embarquei em ônibus para Sousa na Paraíba. O trajeto cruzou campos e caatingas esverdeadas, serrotes, buritizais rodeados de aguapés coloridos, açudes quase cheios, cidadezinhas. Praticamente nada de plantações ou uso da terra. Na cidadezinha na beira da estrada, a faixa em frente ao bar e restaurante alertava “é proibido o uso de som do carro”. Perfeito! Se todos agissem assim, a paz voltaria a reinar nos espaços públicos e ficaríamos livres da ensurdecedora poluição sonora dos veículos.
Saía da pobreza do Ceará e entrava na miséria da Paraíba. Desolava o aspecto das vilas e cidades paraibanas. Ruas esburacadas, casas ou barracos em péssimo estado, semblante desesperador dos moradores na beira da estrada, escancaravam cenas reais do sertão nordestino devastado pelo latifúndio, autoritarismo, indústria da seca. Os paraibanos são ainda mais claros que os cearenses, alguns aloirados, e o sotaque mais carregado e rústico.
Em Sousa me hospedei em hotel velho e decadente, de propriedade de família tradicional da cidade, cujos funcionários pareciam fantasmas. O quarto era amplo e com cama de casal. Mas o hotel dava espetáculos de abandono e má gestão. A iluminação do quarto mal iluminava, sem falar na lâmpada queimada do banheiro. A janela do quarto tinha menos de meio metro de largura e a persiana estava emperrada, impedindo a entrada de luz. Os imundos tacos do piso se soltavam por nada. O chuveiro, mal instalado e direcionado para a torneira, vazava, ao lado do registro danificado. O telefone ainda era de disco e estava mudo. O supérfluo ar condicionado apresentava todos os seletores quebrados, tornando impossível regular temperatura, direção dos jatos, etc. O teto mofado denunciava vazamentos em outros andares. As formigas tomaram o poder no quarto, ocupando a maioria dos lugares, subindo e descendo da cama sem pedir autorização. E o paradoxo de tudo isso, o televisor, novíssimo, último tipo.
A área central de Sousa era organizada, com a praça principal rodeada de residências, sombreada pelo verde das árvores frondosas, a nova e imponente catedral ao lado da antiga igreja, pequena e charmosa. Os moradores saíam para caminhadas vespertinas pelas ruas e praças, usando uniformes esportivos, sobretudo as mulheres. Uiraúna, cidade natal de Luiza Erundina, ex-prefeita de São Paulo, fica a cinquenta quilômetros ao norte.
Descobri restaurante familiar muito simples, com serviço informal e atencioso, no quintal coberto de uma casa. As carnes desejadas, nas quantidades desejadas, no ponto desejado, vinham diretamente da grelha. Também serviam caldo de ovas de curimatã. O ambiente estava repleto de universitários da classe dominante local, de peles claras, bem vestidos, gordinhos, bem alimentados, com celular na cintura, rindo alto.
Caminhei quatro quilômetros em estrada asfaltada sem acostamento e mais um quilômetro na estrada de terra. Além do centro de visitação, logo na entrada, o parque dos Dinossauros reservava museu com fotos, amostras, gráficos explicativos sobre os dinossauros e as pegadas de mais de 120 milhões de anos, encontradas em vários municípios da região e figurando entre as mais importantes do mundo. Passarelas facilitavam a observação dos cerca de cinquenta metros de enormes pegadas dos dinossauros no leito seco do rio ao lado.
À noite, o salão coberto e ventilado do clube de Sousa, onde ocorria o festival de violeiros e repentistas, lotava com centenas de pessoas, da cidade e regiões vizinhas. Ninguém estava ali para se exibir, e sim para se encontrar e principalmente ouvir os artistas mostrarem as qualidades de poeta e cantador. A idade era variada, tanto dos repentistas como da plateia. A maioria das orgulhosas mulheres presentes estava acompanhada.
O festival consistia do concurso de improvisação para duplas de violeiros, provenientes da Paraíba, Pernambuco, Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte. O corpo de jurados sentado em frente ao palco avaliava o desempenho das duplas em quatro categorias distintas. No intervalo do desempenho dos concorrentes, havia apresentações da dupla de emboladores Beija Flor e Vem Vem, com cocos ao som dos pandeiros, e também de poetas que recitavam versos engraçados. Barraquinhas vendiam fitas cassete e CD’s.

A primeira categoria do concurso era a estrofe com seis versos, com tema sorteado na hora para cada dupla, as quais tinham um minuto de preparação e seis minutos de apresentação. Entre os temas sorteados, política, futebol, mulher, amizade, negócios. A segunda categoria sorteou o mote de sete sílabas, a ser repetido no último verso de cada estrofe improvisada. A terceira categoria, análoga à anterior, exigiu o mote com doze sílabas. A quarta categoria pedia tema livre, mas em cima de estilos sorteados, entre embolada, coco, galope à beira mar, reino da canoa.
Durante as apresentações, a plateia se manifestava conforme o efeito produzido pelos versos. Mas todos ouviam com atenção e ovacionavam os prediletos. Nos temas improvisados que remetiam a temas políticos, de segurança, pobreza, saúde, o calor dos versos contagiava e recebia apupos, gritos, palmas. Não havia truques, era improviso puro. Algumas duplas se sobressaíram, mas todas tinham valor.
Na parte externa do salão, o bar do clube vendia o trivial. Mas um ambulante oferecia espetinho de queijo ou carne com coberturas de creme de farinha de mandioca e outros ingredientes, por preço irrisório. O processo de preparo demorava, abrindo e fechando a chapa quente, jogando repetidas camadas de creme enquanto girava os espetos. Entrei duas vezes na fila para variar o sabor.
O hotel em que me hospedei possuía piscina no primeiro piso. Mas, considerando o desleixo em tudo, não estranhei a água suja, amarelada, coberta de uma variedade de bichos. Na última vez que foi limpa e tratada, provavelmente os dinossauros ainda circulavam na região. Entrei em acordo com as formigas, as legítimas proprietárias do quarto, e consegui dormir.
Embarquei em lotação rumo ao distrito de São Gonçalo, onde se encontrava açude de mesmo nome, cercado de colinas. Na primeira delas, havia gruta com oratório e oferendas, além de restaurantes e bares. Permaneci horas por ali, sentado, contemplando o visual do açude, as ilhas, barcos, casas, tomando caipirinhas, detonando tucunaré frito com baião-de-dois.
O percurso de ônibus se Sousa a João Pessoa cruzou a caatinga, verde pelas chuvas recentes, mas caatinga, com árvores espinhentas, galhos retorcidos, serras pedregosas com vegetação rala, nas proximidades de Santa Luzia. Após Campina Grande, a vegetação passou à agreste com trechos de mata atlântica. Poucas áreas plantadas, geralmente de milho e palma. O banheiro do ônibus logo apodreceu, exalando odor impraticável. Passageiros passaram mal e vomitaram devido ao mau cheiro. Exigimos que o motorista parasse no primeiro posto e providenciasse a limpeza interna, no que fomos prontamente atendidos. Tudo ficou limpo e cheiroso. A viagem prosseguiu em paz.
Cheguei na capital no horário de pico. O trânsito não fluía.
Ao descer do ônibus urbano vindo da rodoviária, avistei uma pousada de frente para o mar. Foi o achado da viagem. O quarto no pavimento superior era amplo, claro, com três camas, duas grandes janelas de vidro basculantes, propiciando ventilação natural e vista deslumbrante da praia de Tambaú. Ao lado do quarto, varanda com mesa, cadeiras e redes. O preço era razoável, a localização ideal, o aspecto satisfatório. Arriei a mochila e fiquei.
Dei volta rápida de reconhecimento pela praia. Pequeno movimento de pedestres, poucos bares abertos, lojinhas para turistas, raros prédios altos. A chuva desabou. Abri as janelas basculantes e entrou a brisa fresca. O supérfluo ar condicionado permaneceu desligado durante toda a minha estadia. Segunda-feira à noite, chuva, e a avenida da praia de Tambaú ficou completamente deserta, num silêncio total.
continua...

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

do Maranhão à Paraíba (parte 4/6)

...continuação
Estava na hora de seguir viagem depois de demorados dias em Jericoacoara.
No verso do bilhete da passagem de ônibus, a frase recomendando o uso de agasalhos devido ao ar condicionado exagerado. Fazia sentido com os demais absurdos impostos à cultura da vila. Novamente me lembrei da Tailândia, com os mesmos ônibus frigoríficos, os mesmos gringos deslumbrados e indiferentes à população local, os mesmos bares com músicas estadunidenses, a mesma destruição cultural. E a mesma vontade de ir embora.
Mochila nas costas e subida na jardineira até Jijoca de onde partiria o frigorífico noturno a Fortaleza. As cenas dos gringos abrindo as mochilas e retirando pesados agasalhos, em pleno litoral do nordeste do Brasil, eram surrealistas, insólitas. E também instrutivas naquela vila invadida e descaracterizada. Pobre Jericoacoara! O frio dentro do ônibus era indescritível. As janelas eram parafusadas ou substituídas por vidros fixos. O espaço para as pernas reduzido.
O ônibus frigorífico estacionou antes de clarear no terminal rodoviário de Fortaleza. Eu, a paulista e o colega de Niterói, resolvemos dividir o quarto em hotel na praia de Iracema.
Demos voltas pelo centro da cidade ainda guardando construções antigas, comércio agitado, centros culturais, o respeitável teatro José de Alencar, no qual percorremos os interiores, pátios, galerias, plateia. O moderno centro cultural da cidade anunciava a apresentação gratuita da Adriana Calcanhoto para o meio-dia. Estranhamos. Mas entramos na fila, pegamos o ingresso, aguardamos a abertura da plateia, sentamos em boa localização. O palco estava vazio e sem qualquer instrumento ou microfone. Apagaram-se as luzes, fez-se o silêncio e a tela grande e branca desceu sobre o palco. A apresentação, ou melhor, a exibição do vídeo gravado, teve início. Esperamos cinco minutos. Levantamos, pedimos licença e fomos embora bem quietinhos.

A orla de Iracema a Meireles, apesar do mar bonito, revelava praias feias, sujas, fedidas, poluídas pelo esgoto lançado diretamente na areia. Os calçadões fervilhavam. Feirinha com pseudo-artesanato, turistas brasileiros e estrangeiros, sempre bem vestidos com bermudas e camisetas novinhas. Travestis e putas perambulavam, paravam nas esquinas ou sentavam nos bares de turistas, às vezes agarradas aos gringos, várias delas menores de idade. Menores abandonados erravam ou dormiam pelas calçadas.
Os amigos do colega fluminense nos convidaram para passar o dia na praia de Cumbuco. Antes, saciamos nossa fome no vasto e diversificado café da manhã do hotel que, além do trivial, servia iogurte, ovos à vontade, tapioca, banana frita, sucos, entre outras delícias.
A beleza da praia de Cumbuco estava comprometida pela infraestrutura para receber os visitantes. As dezenas de restaurantes, com guarda-volumes e piscinas, eram a única maneira de entrar ou estacionar. Parecia praia privada. Chegamos à areia e logo encontramos os amigos em meio a impressionante número de vendedores ambulantes, oferecendo comida, passeios, roupas, redes, pinturas, pedindo esmolas. Eram insistentes e grudavam como moscas.
A cunhada de um dos cearenses apareceu e, muito prestativa, convidou-nos à praia Barra do Cauípe, mais adiante, mais selvagem, entre dunas, coqueirais, lagoas e riacho de águas claras. Do alto das dunas escorregávamos ou pulávamos diretamente nas águas do braço de mar. A barraca de palha, pequena, improvisada e rústica, nos serviu para os comes e bebes. Ninguém queria sair daquele paraíso. Novamente ela nos convidou a casa dela, onde comeríamos caranguejo, usaríamos a piscina, conheceríamos o restante da família. Compramos complementos no supermercado e permanecemos na casa até de noite.
Já de volta à capital, a paulista partiu para Natal. Eu o fluminense andamos pelos calçadões da praia de Iracema, em meio a putas, travestis, estrangeiros em busca de aventuras fáceis e abraçados com adolescentes nativas, turistas comprando lembranças inúteis, menores de rua largados pelos cantos. Estávamos de volta à civilização. O fluminense ainda queria jantar e saímos na busca. Ele tirou a camiseta, se recusando a vesti-la mesmo por exigência dos estabelecimentos. Fomos convidados a nos retirar em dois lugares. Em frente ao restaurante com o nome sugestivo de “O Rei do Camarão”, da calçada e sem entrar para olhar o cardápio, o niteroiense gritava ao garçom:
“tem pizza aí?”.
Acabamos em um bar qualquer e comemos bolinhos de peixe.
O fluminense partiu bem cedo.

A elite de Fortaleza, residente nos bairros próximos à Iracema e Meireles, calçava tênis pela manhã, caminhava pelo calçadão, jogava vôlei nas quadras, fazia massagem, bebia água de coco ou suco com pó de guaraná. Poucos nas areias da praia e menos ainda nas águas do mar. O calor continua implacável e sem sinais de chuva.
Visitei a exposição “Vaqueiros” no centro cultural Dragão do Mar. O pavimento superior expunha objetos usados pelos vaqueiros em diversas ocasiões. No pavimento inferior havia imagens e cenas do cotidiano, com sons da caatinga, pássaros, aboios, gado. Nas ruas ao redor do centro cultural encontravam-se casarões antigos e bem preservados. Alguns funcionavam à noite como bares, com mesas nas calçadas, música popular ao vivo e boa frequência local. E em outras ruas os casarões transformaram-se em oficinas de pintura, onde artistas locais exibiam, vendiam, ensinavam.
A Ponte Metálica se projetava sobre o mar com bares e bancos para sentar. Muito procurada para contemplar o pôr-do-sol, nascer da lua, namorar, conversar, meditar, relaxar. Dali chegava-se ao calçadão na beira do mar de Iracema, sem praia, com muitos bares e música ao vivo. A frequência predominante de gringos atraía putas. Muitas delas esfregavam-se satisfeitas aos clientes.
Segui à extensa praia do Futuro, com mar agitado e a infinidade de barracas, quase todas vazias naquele dia útil. Estrangeiros velhos e gordos agarravam-se com meninas adolescentes. Os garçons do bar ajudavam no contato, a quebrar o gelo. Mas muitos daqueles estrangeiros vieram com o uso e abuso das meninas já incluído no pacote de viagem, em puro turismo sexual.
Fortaleza era simpática, o povo acolhedor, as cearenses bonitas e sensuais. Mas a imagem que ficaria era das adolescentes se entregando a estrangeiros grotescos, putas e travestis pelos calçadões da praia, menores de rua abandonados, turistas de pacote, vendedores insistentes, edifícios altos na orla urbana.
Comprei passagem para Quixadá em ônibus gelado, confortável, espaçoso. A vegetação de caatinga predominava da janela. Da estação rodoviária local, caminhei poucos metros até o hotel, simples, barato, limpo, mas infestado de muriçocas no quarto e na sala do café da manhã.
Rochedos de diversos formatos e tamanhos rodeiam a Quixadá das muitas praças. Algumas ruas ou casas eram construídas coladas às paredes rochosas. As praças, como regra nas cidades quentes, ficavam vazias e desinteressantes durante o dia, devido ao sol e pouca sombra. À noite exibem o charme pela amplidão e iluminação, atraindo os moradores para passear, conversar, namorar, sentar, olhar o movimento.
Jantei espetinhos de carne com baião-de-dois e farofa, servidos na calçada do bar.
Inúmeros grupos cearenses se reivindicavam do forró, mas todos apavoravam de tão ruins. Alguns gravavam versões do lixo estadunidense em ritmos que passavam longe do que se acostumou chamar de forró ou outra música de qualidade. Eram tantos grupos e tão parecidos que, para se diferenciarem, tinham que gritar os próprios nomes no meio das músicas.
O café da manhã do hotel, servido na copa, era bom e farto. Mas quem estava com muita fome eram as muriçocas, insaciáveis, atacando pernas, pés, calcanhares.
Caminhei em direção ao açude do Cedro. Durante o percurso, mais formações rochosas interessantes de ambos os lados da estrada, entre elas a pedra da Galinha Choca, fazendo jus ao nome. Pequenas propriedades rurais com áreas plantadas davam sinal de vida. Carroças transportando barris com água potável indicavam a gravidade da seca. Após a entrada oficial na área pertencente ao açude, a estrada tornou-se alameda de mangueiras e a sombra aliviou.

O imponente açude, construído no final do século XIX, exibia o eixo todo em granito, sobre o qual se caminhava de uma extremidade à outra. As poucas e fracas chuvas da época refletiam na marca abaixo de um metro no paredão do açude, que sangrou pela última vez em 1984. Nos bons tempos havia canais de irrigação para as plantações e pequenos vagões sobre trilhos para o transporte das colheitas. Espalhados pelas imediações, agora bares propiciavam a vista panorâmica com as onipresentes formações rochosas. A música ao vivo animava os poucos frequentadores. Estacionei por ali, entre goles e contemplações dos arredores.
O sol forte durante a caminhada da volta não deu tréguas. Estava abafado e sem vento. A rápida pancada de chuva refrescou no meio da tarde. E animou os pequenos agricultores na possibilidade de salvarem as plantações. As funcionárias do hotel ficaram surpresas com a extensão da minha caminhada de ida e volta. Mas logo se retiraram para os fundos com receio do patrão, que as proibia de conversar com os hóspedes.
A praça da matriz fervia durante a noite com gente bem arrumada, olhares insinuantes, vaivém de mulheres bonitas, aliás, adolescentes. Lançavam olhares assustados e curiosos, na tentativa de adivinhar de qual planeta eu viera.
Tomei ônibus para Juazeiro do Norte. A rodovia tornou-se sinuosa logo após a saída de Quixadá. A paisagem reservava serras, rochosas ou com cristas cobertas de vegetação. Mais ao sul o relevo rebaixado estava verde e úmido. Nas proximidades de Crato, no fértil vale do Cariri, as nuvens anteciparam a tempestade que desabou em seguida.
Juazeiro do Norte possuía centro comercial alongado, movimentado. As imagens e referências ao padre Cícero proliferavam pelas lojas e nas lembranças vendidas pelos ambulantes. Crianças pediam esmola com insistência irritante nas ruas do centro e nos interiores da estação rodoviária.
Fiz a minha romaria solitária ao Horto, local da estátua e museu do padre Cícero. Como não era nenhuma das quatro grandes datas de romarias, quando a cidade transborda de visitantes, pude percorrer o caminho com calma. Iniciei na parte plana e baixa da cidade em rua calçada de paralelepípedos. No final da rua surgiram as primeiras imagens da via sacra. No começo da subida as ruas se estreitam, o traçado se torna sinuoso, o calçamento de pedras irregular. Casas e casebres ladeiam todo o caminho. Algumas minúsculas, com portas de até um metro e meio de altura, parecendo miniaturas, muito pobres, algumas de taipa, com cômodos entupidos de imagens religiosas, cobrindo cada milímetro das paredes. O esgoto corria impunemente pelas guias. Crianças nuas se aproximavam pedindo esmolas. Imagens da via sacra em pequenas capelas e oratórios se alternavam entre as moradias. Ninguém me acompanhava na subida, mas muitos apareciam nas janelas para me observar, cumprimentar, puxar prosa. Mulheres e crianças nos interiores das casas trançavam palha para cestos e outros objetos artesanais.
continua...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

do Maranhão à Paraíba (parte 3/6)

...continuação
A vila de Alcântara permanecia bela e calma. Pouco me lembrava da última visita vinte e cinco anos antes. Apreciamos a atmosfera local no nosso ritmo. Várias construções de alto valor histórico e arquitetônico, algumas em ruínas com apenas as colunas e fundações, outras restauradas e bem preservadas, usadas como residência ou escritórios públicos. Muitas as praças e a localização, no alto da colina, propiciavam belo visual da cidade e do mar. As poucas pousadas e restaurantes mantinham o estilo e o bom gosto da decoração local. O restaurante escolhido reservava mesas ao ar livre com coberturas de palha, em local situado no alto da escarpa com vistas para o mar. A cachaça artesanal, curtida no cravo, ajudou a escancarar o apetite. Optamos pela peixada com arroz de cuxá e farofa, servidas em vasilhas de madeira feitas a mão. Comemos a sobremesa na vendinha mais adiante, o chamado doce-de-espécie, bolinho à base de muito coco, ovos e açúcar.
Regressamos a São Luís no último barco. Ficamos do lado de fora, na beirada do convés, para evitar os enjoos dos passageiros sentados nas dependências internas. A maré estava subindo e o mar bastante agitado. Seguramos firme nas hastes verticais, nos embalando no forte balançar do barco, em cujas embicadas recebíamos banhos de água, ficando ensopados da cabeça aos pés. Na parte interna, especialmente na sala reservada aos mais sensíveis, os seguidos vômitos formaram a atração principal. Apesar do horário avançado, a maré ainda não subira o suficiente e o barco não chegou ao porto da Praia Grande. Ônibus gratuitos da prefeitura nos esperavam na praia da Ponta da Areia. Preferimos retornar a pé, em longa e agradável caminhada.
À noite os bares do projeto Reviver estavam cheios e animados, ao som de música popular brasileira na voz e violão. Os bons intérpretes imitavam ou tentavam imitar o intérprete original, inclusive nos gestos e trejeitos. Perdiam a espontaneidade e a possibilidade de fazerem leitura própria, mais criativa.
Era hora de partir. Comprei passagem em ônibus noturno para o Ceará. Encontrei a revista Caros Amigos. Enrolei durante o dia, assisti a filme no cineclube do centro histórico, comi alguma coisa e rumei para o terminal rodoviário.

O ônibus saiu lotado. Dormi bem antes de desembarcar em Tianguá no começo da manhã. Esperei o segundo ônibus no meio das lojinhas de artesanato, comidas típicas, queijos e doces. Aproveitei o tempo comendo queijo de cabra. O ônibus me transportou por rodovia estreita e acidentada. A vegetação, desde o Piauí na base de caatinga esverdeada pelas chuvas, tornou-se mais verde e de maior porte, com palmeiras e florestas.
A pequena Ubajara se movimentava pela feira de domingo, típico comércio do interior do nordeste, vendendo de tudo e informalmente. Só paravam para me ver passar abaixado por entre cobertas das barracas. A pousada cobrava a fortuna de seis reais pela diária. Entrei no quarto amplo, limpo, de frente para a praça, com banheiro espaçoso. Ao acordar do cochilo, a feira se encerrara e a cidade dormiu no domingo à tarde.
À noite praticamente não havia pessoas com mais de dezoito anos pelas ruas. E a maioria dos moradores ainda me considerava bicho estranho. Olhavam assustados como se nunca tivessem visto coisa parecida. Nos altos da serra de Ibiapaba, Ubajara esfriava durante a noite e início da manhã. Desconfortável se permanecesse muito tempo nas mesinhas de bar ao ar livre.
A cidade tinha ritmo sonolento. Parece que nada acontecia. O jeitão de cemitério se acentuava na hora da sesta e sob o sol a pino. E me impressionava a quantidade de moscas. Chegavam em nuvens, em todos os lugares. Eram tantas que até trombavam comigo. Pousavam cinco ou seis juntas, quase grudadas.
Caminhei até a portaria do parque nacional de Ubajara. Os guias obrigatórios aguardavam na portaria. A trilha, em declive e calçada com pedras, atingia desnível de quatrocentos metros da serra de Ibiapaba, em meio à vegetação de grande porte, muitos pássaros, quedas d’água, macacos, mangueiras, babaçus, jatobás, escarpas rochosas. No fim da caminhada, a boca da gruta com pequeno circuito à visitação com iluminação artificial.

Pegamos o bondinho para a parte alta do parque, com outra portaria, revelando visão completa da serra, para além dos limites do parque. Paredões de calcário cinza, diversas quedas d’água, vales verdes, formações rochosas sobressaindo acima das copas das árvores e, ao fundo e à direita, vilas esparsas. Manchas de chuva, rodeadas de trechos ensolarados alternavam-se em constante movimento por toda a planície. Pouco abaixo, procurando comida, o casal de mocós, o lagarto e a lenta caninana.
A trilha do parque nacional, ainda utilizada pelos moradores dos vilarejos vizinhos, depois de acordo com o IBAMA, garantia assim a preservação da natureza e a manutenção do caminho anterior à criação do parque.
        Ao partir de Ubajara, passei o dia subindo e descendo em transportes coletivos, três ônibus e uma jardineira. Cedo embarquei a Sobral ao lado da cearense que trabalhava com a irmã no comércio de confecções. Após Tianguá a rodovia sinuosa cortou várias montanhas. A abafada Sobral, situada no pé da serra, fervia como caldeirão. Esperei na rodoviária velha, cheia e suja. Forrei o estômago antes de embarcar para Cruz. A rodovia passou por campos de caatinga esverdeados e extensos buritizais. As cidades, pequenas, sonolentas e tórridas, apresentavam aspecto melhor que as do interior maranhense. Logo após descer em Cruz, estacionou o ônibus vindo de Fortaleza. Me sentei ao lado de uma idosa cearense. Os demais bancos eram ocupados por turistas, sobretudo estrangeiros. No outro lado do corredor, uma mineira e uma norueguesa que arranhava o português. Desembarquei em Jijoca e joguei a mochila na cobertura da jardineira que levaria até Jericoacoara, a quarta é última etapa do itinerário do dia. A jardineira, na verdade veículo potente e adaptado a terrenos arenosos, com longo reboque, parecia vagão de bonde. Sentei-me ao lado da mineira e da norueguesa. As dunas surgiram apenas no final, pouco antes da chegada.
Em Jericoacoara os funcionários das pousadas abordaram oferecendo quartos “bons, baratos e bem localizados”. Era baixa estação. Pechinchamos com insistência e fechamos o quarto por preço baixo para três pessoas, eu, a mineira e a norueguesa.
A turística Jericoacoara reunia uma infinidade de pousadas, bares, restaurantes, lojas, lojas e lojas, por onde desfilavam casais bem vestidos, famílias, grupinhos. Os estabelecimentos contavam com energia elétrica, exceto ruas e praias.

Embora desejasse ficar na preguiça ou em leves reconhecimentos da vila, aceitei, junto com as colegas de quarto, o passeio pelas praias e lagoas próximas a Jijoca. A mãe e o filho gaúchos, a família cearense residente no Acre e o paulista estudante de psicologia nos acompanharam na caminhonete. A primeira parada foi na praia do Preá, vila de pescadores com a construção das primeiras pousadas, espécie de Jericoacoara de ontem. Passamos pela praia do Riacho Doce. Paramos para relaxar, observar, beber, comer, nas barracas da lagoa Azul e da lagoa Paraíso, bucólicas, bonitas, refrescantes.
Peregrinações diárias aconteciam na grande duna de Jericoacoara para assistir ao pôr-do-sol. Moradores e forasteiros aproveitavam para exibir os dotes naqueles esportes denominados de radicais, deslizando duna abaixo sobre pequenas pranchas de madeira amarrada aos pés. Repetiam isso dezenas de vezes. E quando executavam completamente as manobras, a plateia aplaudia aos gritos de yeah, yeah. Era o custo para apreciar o belíssimo pôr-do-sol, exatamente em frente ao mar.
O estudante de psicologia e eu concordamos na avaliação negativa da situação do turismo em Jericoacoara e no pessimismo quanto às perspectivas futuras. A vila não exibia vida ou cultura própria. Dominava música, comida e estilos de vida estrangeiros. Involuntariamente me lembrei daquelas nefastas ilhas tailandesas, invadidas por gringos que pouco se lixavam para a cultura local. Os forasteiros ocuparam a vila de Jericoacoara e botaram os nativos para trabalharem para eles, implantando o trabalho infantil e a prostituição de menores. Os habitantes originais sobreviviam morando em favelas nos fundos, longe do mar e da natureza, com quem antes se relacionavam em harmonia. Segundo moradores antigos, o estrangeiro e também prefeito do município, dono da maior pousada da época, controlava o tráfico de meninas para os turistas. E pretendia liberar completamente a especulação imobiliária, inclusive sobre as dunas. O parque nacional de Jericoacoara, recém-criado, aliado à conscientização e organização dos moradores, poderia iniciar o processo de salvação da região.
Depois de dar uma olhada no salão de forró para turistas, às moscas naquela noite, eu e o paulista fomos ao aniversário do proprietário de bar na vila, cearense de Fortaleza que morava em mansão com muros altos. Para transpor os grandes portões, somente com convite. Além dos turistas, os convidados pertenciam à classe dominante local, donos e gerentes de hotéis, pousadas, restaurantes, bares, agências de turismo. Ninguém natural de Jericoacoara ou dos arredores. Cenário emblemático para entender Jericoacoara.
O sol esteve implacável e quente durante todo o dia, sobretudo durante a curta caminhada até a praia da Pedra Furada.
As comidas típicas do litoral cearense eram cada vez mais raras nos restaurantes de Jericoacoara. O mesmo poderia ser dito da música e demais manifestações culturais da região. A culinária predominante era internacional, servida em espaços moderninhos, ao som de música estrangeira. A impressão era que eu não estava no Ceará, nem no nordeste, nem no Brasil.
Num bar na beira do mar um senhor nativo da região, completamente bêbado e de aspecto miserável, gritava desnorteado para o dono ou gerente do estabelecimento:
“quero a minha parte”,
“eu tenho uma parte nisso”.
Imediatamente, dois policiais o algemaram e o retiraram do local. Afinal, ele estava constrangendo e perturbando a paz dos turistas.

Os locais com forró permaneciam com frequência pequena, a maioria de meninas cearenses da região, todas bem pintadas e arrumadas, chamando os turistas, sobretudo estrangeiros, para dançar. As mais bem sucedidas saíam abraçadas com os gringos e desapareciam nos becos escuros sem iluminação pública. A polícia, ágil para reprimir o senhor que reclamou em frente ao bar de turistas, nada fazia para combater os flagrantes de prostituição infantil. Na sorveteria na beira da praia, um senhor bem vestido e de aspecto estrangeiro comprava sorvetes para quatro garotas menores e sorridentes com tamanha generosidade.
Mas nem tudo estava perdido. Durante a noite e madrugada, aconteciam apresentações de música popular brasileira em local próximo à praia. Todos ficavam à vontade, se sentando ao ar livre, na areia, bancos, muradas.
Em cinco decidimos por passeio à cidade de Tatajuba, pela beira do mar. Passamos pelo vilarejo de Guriú, na margem de extenso braço de mar, atravessado por balsa manual. O veículo atolou na subida da balsa. Todos desceram e ajudaram a desencalhar. As praias, extensas, planas, não contavam com sombras ou morros. Pequena e calma, a nova Tatajuba tinha energia elétrica, duas pousadas, poucas ruas. A vila pioneira fora coberta pelas dunas que, longas e altas, não faltavam nas imediações, algumas com encostas bem íngremes, como a duna do Funil. Paramos na lagoa da Torta, ao lado da barraquinha de comes e bebes, rodeada de dunas e carnaubais. Mas as águas leitosas desanimaram.
Os moradores de Tatajuba levavam vida simples, desprovidos de serviços sociais, completamente abandonados pelos órgãos púbicos. As crianças, para irem à única escola, precisavam caminhar cerca de dez quilômetros. E, acompanhadas de pessoas mais velhas, vendiam cocadas e bolos nos pontos turísticos, com muita insistência, alegando que a renda pagaria o uniforme escolar.
A paisagem monótona da volta pela praia foi maravilhosamente quebrada pelos pastos esverdeados e cobertos de pequenas flores brancas, onde pastavam cabras e bodes. A maré começou a subir, obrigando o veículo a acelerar e a inclinar exageradamente nas areias. O bugueiro, natural da região, reclamava bastante do comportamento dos empresários forasteiros que monopolizavam os passeios, expulsando os nativos do ramo.
Acordei tarde e me entreguei à preguiça. Depois caminhei pelas praias a oeste, sem vegetação, sem sombra, poucas dunas. O vento rasteiro, forte e constante carregava fina camada de areia e açoitava violentamente o corpo. Era entrar no mar ou ir embora.
Almocei em lugar ventilado, simples e barato. Enrolei até o sol baixar e o calor amenizar. Conversei com uma paulista sentada em outra mesa. Depois de muito papo descobrimos amigos comuns e até que comparecêramos às mesmas festas em São Paulo.
continua...

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

do Amazonas a Sergipe (parte 4/7)

...continuação
Milhares de periquitos me presentearam com espetáculo único na praça defronte à basílica de Nazaré. Os trinados simultâneos provocavam som estridente enquanto pousavam nas samaúmas e mangueiras. Migravam de uma para outra enquanto aquela sinfonia não parava. O pôr-do-sol se aproximava e, subitamente, a partir de sinal do líder, eles deixavam os galhos das árvores e sobrevoavam a praça em blocos de centenas ou milhares. A sincronia dos voos era tanta, os movimentos e curvas tão acentuados, que os frequentadores da praça ficavam paralisados para apreciar. Moradores dos prédios vizinhos saíam às janelas e sacadas a fim de não perder nenhum detalhe.
Dei uma passada na feira pan-amazônica de livros. Assim como em tantos outros eventos do gênero, tratava-se de mais uma exposição de editoras e livrarias, estritamente comercial, nada educativa. A maioria dos expositores colocava em destaque nas prateleiras justamente aquilo que mais lhes dava lucro, o lixo esotérico e de autoajuda, descartáveis e alienantes em geral. Se a feira visasse menos o lucro fácil, fosse mais popular e educativa, com preços acessíveis, o resultado cultural, e até comercial, seria mais positivo.  
Decidi seguir viagem ao Maranhão. À noite, durante o embarque dos passageiros no ônibus velho para Pinheiro, ficava óbvio que eu estava a caminho de outro estado, mais pobre, bem mais pobre. Muitos negros de rostos sofridos e cansados, muita bagagem em malas, sacolas, sacos precários. O ônibus partiu sob o céu estrelado, rodou por estradas surpreendentemente conservadas e sem buracos, em contraste com os anos anteriores. Em Pinheiro embarquei em ônibus grande e, para a alegria da maioria dos passageiros, sem ar condicionado, ao contrário dos apertados e gelados micro-ônibus, comuns naquela linha. Os próprios passageiros poderiam controlar a ventilação natural do ônibus pela abertura das janelas. Atravessei de balsa a baía de São Marcos e no meio da manhã já estava bem hospedado no centro histórico de São Luís.

Saí à noite para beber e petiscar no centro histórico, ao som de suave música ao vivo. Escolhi mesa na rua de paralelepípedos, sob as árvores, com vista para os sobrados barrocos da Praia Grande. São Luís à noite continuava inigualável, com iluminação amarelada tingindo levemente as pedras do calçamento e os casarões antigos e azulejados. Após duas substanciosas caipirinhas, bolinhos de aipim com carne seca, caldo de mariscos, ouvir música popular brasileira, resolvi retornar ao hotel sem pressa. Subi a ladeira até o início da rua da Estrela, dando de cara com o largo da catedral e do palácio dos Leões. A visão do conjunto arquitetônico, elegantemente iluminado, deslumbrava completamente vazio naquela hora da noite. Soprava vento fresco do mar. Retardei os passos a fim de absorver a atmosfera local. Atravessei lentamente a praça, avancei pelo beco em curva. Mais à frente cruzei pontos de travestis e prostitutas, desemboquei na rua do Egito, dobrei à direita rumo ao largo do Carmo. Não era a primeira e nem a última vez que percorria as ruas silenciosas do centro histórico de São Luís, mas sempre me emocionava.
De manhã peguei a rua da Palma até o fim, por entres sobrados barrocos mal conservados. Desemboquei no largo do Desterro, pequeno e simpático com casas pobres ao redor e a singela e antiga igreja do Desterro. Do outro lado, o barranco e a vista da baía de São Marcos. O calçamento combinava com o estilo arquitetônico local e com os casarões azulejados. Como o largo se situava no final da rua, que depois virava beco sinuoso e em ladeira, não havia movimento. A tranquilidade e o silêncio estavam garantidos. Sentei-me no banco sob a sombra da árvore com direito à brisa refrescante da baía que não parava um minuto sequer. A moradora da casa do canto me pediu ajuda para armar o varal de roupas. Ela e o senhor idoso reclamaram das más condições de vida, do abandono pelos órgãos públicos, da falta de perspectivas. O tom das vozes continha forte amargura e sensação de impotência. As habitações do largo marcavam pela precariedade, sobretudo nos interiores miseráveis, mais parecendo cortiços, depósitos de seres humanos, do que moradias dignas. Mas os moradores conquistavam pela simpatia e pelo prazer em trocar dedos de prosa.
Garimpei livros em sebo da Praia Grande. Encontrei verdadeira raridade por apenas um real, Apelo à Razão, coletânea de editoriais do extinto jornal Planeta Diário. Antes gargalhei feito um maluco enquanto lia, no corredor do sebo, o primeiro editorial, hilariante, como sempre.
O ônibus atravessou a ponte sobre a baía de São Marcos, me transportando a outro mundo, a São Luís moderna, moradia das elites e emergentes, das lojas pretensiosas, restaurantes e bares, lagoas, hotéis caros. Mais adiante começavam as praias de Ponta da Areia, São Marcos, Calhau, na qual desembarquei na avenida à beira mar. Dunas protegiam as mansões da classe dominante maranhense. Faixas de corrida e caminhada, quiosques padronizados de madeira no calçadão, a areia plana e extensa da praia, sem charme e quase sem sombra, mas limpa e vazia.

Retornei ao centro histórico, o local mais vivo e sedutor de São Luis. A Praia Grande estava mais agitada naquela noite de quinta-feira. Perto da meia noite a animação era intensa e ninguém pensava em ir para casa. A tranquilidade e o silêncio reinavam nas demais ruas parcamente iluminadas. Nesses trechos ouviam-se o som dos passos e do vento.
Embarquei em furgão rumo a São José do Ribamar. Como já conhecia a cidade e o sol torrava, circulei pouco e entrei em restaurante com vista panorâmica do mar, praia, parte baixa da cidade, da estátua de São José do Ribamar na ponta da ilha. Deixei o tempo passar. Detonei três caipirinhas, petisquei sururu ao leite de coco. Permaneci horas naquela preguiça contemplativa, observando o mar, os raros banhistas naquele sol implacável.
O Maranhão não diferia dos demais estados quanto à cobertura pela mídia burguesa das eleições. Os meios de comunicação não passavam de panfletos de má qualidade, histericamente a favor dos interesses da classe dominante, representada por esses e aqueles políticos. As manchetes e textos enojavam tamanha a manipulação, distorção, omissão de informações. E todos os velhos ditadores, sempre os mesmos, se candidataram a governador, senador, deputado. Os mesmos nomes que batizavam ruas, praças, bairros, prédios públicos, centros culturais e esportivos.
Voltei à cidade de Raposa no noroeste da ilha. Fiquei nas imediações dos barcos e bares dos pescadores, ambiente barra pesada onde perambulavam bêbados, prostitutas decadentes, olhares desconfiados. Mas era trecho autenticamente marginal, sem máscaras. À frente do cais, improvisado com pedras, após a estreita faixa de água, extensa barreira de areia incluía dunas que escondiam praias mais adiante.
O ônibus partiu no meio da tarde rumo ao Ceará. São Luís se agitava com o processo eleitoral. Da janela do ônibus pude testemunhar, mais uma vez, a miséria dos interiores maranhenses. Vilas e cidadezinhas, inteiras ou quase, de casebres de taipa, cobertas de palha, ocupadas por famílias aglomeradas, vegetando em condições subumanas, como animais, muito abaixo da linha da pobreza. Na porta das escolas quebradas, caindo aos pedaços, localizadas na beira das estradas, os miseráveis se acumulavam, se apertavam, fixavam os olhares desesperados para dentro dos ambientes, na vã expectativa de que, a partir daquela farsa eleitoral, surgisse a luz no fim do túnel e os retirasse da indigência.
Desembarquei ao amanhecer em Ubajara nos altos da serra de Ibiapaba, noroeste do Ceará. Desabei na cama do hotel básico. Alguma coisa me picava sob o lençol, sem me impedir, contudo, de adormecer imediatamente.
Repeti a visita ao parque nacional de Ubajara. A área total da unidade fora ampliada em mais de dez vezes. A trilha que cortava o parque, da parte alta até a parte baixa, aumentara e eu percorreria novos caminhos. Bem cuidada e na sombra, a trilha valeu pela vegetação exuberante, quedas d’água, paredões rochosos, desnível de 430 metros até a boca da gruta de Ubajara. Percorri os trechos abertos à visitação da gruta, contemplando os espeleotemas cobertos com óxido de ferro. Cortinas calcárias muito finas e onduladas pendiam do teto e formavam desenhos inusitados. A rápida volta de bondinho até o alto do parque nacional encerrou o leve passeio.

O inverso do que ocorrera na passagem do Pará ao Maranhão, aconteceu do Maranhão ao Ceará. Subira o nível social dos moradores, melhorara a aparência das zonas urbanas, das construções, comércio. E como o Pará e o Ceará jamais foram paraísos da justiça social, a situação do Maranhão, abandonado no fundo do poço, beirava a catástrofe. Ubajara apresentava ruas e casas bem conservadas, comércio movimentado, moradores pobres, mas não miseráveis, praças, calçadas inteiras, ainda que estreitas. E a mania doentia de podar as árvores das ruas e jardins em figuras geométricas e pequenas. Além de mutilar a vegetação e estragar a paisagem, o crime diminuía as sombras tão procuradas durante os dias quentes.
À noite optei por mesa externa de bar de esquina, enquanto as internas lotavam pela transmissão pela televisão da segunda divisão do campeonato brasileiro. O cearense produtor de maracujás dividiu a mesa comigo. Bem casado, como fazia questão de repetir, possuía três amantes fixas. Aquela noite passaria com a de 16 anos, apesar dos recados insistentes e apaixonados da esposa no celular. Contou proezas dos empreendimentos agrícolas e principalmente dos amorosos. Acabei por me juntar às outras mesas. O bar de esvaziava, os frequentadores se dirigiam às festas nas cidades vizinhas de Tianguá e São Benedito.
Embarquei bem cedo em ônibus para Fortaleza. As estradas estavam razoavelmente conservadas. Após a encantadora descida da serra de Ibiapaba, coberta de mata nativa de médio porte, a paisagem mudou radicalmente. A caatinga rala, seca, cinza, cortada eventualmente por riachos sem água ou com apenas poços úmidos e isolados, se impôs até as primeiras ruas de Fortaleza. A rodovia cruzou pequenos serrotes áridos e pedregosos. Sentada no outro lado do corredor do ônibus, acompanhada de criança pequena, uma senhora não parava de falar, alto, rouca, o tempo todo, sobre tudo. Os passageiros próximos davam corda e ela se animava mais e mais. A menina ao lado da matraca urinava sempre que cochilava. Assim que ela se levantou para desembarcar na periferia da capital, o assento e o vestido estavam úmidos.
Do terminal rodoviário de Fortaleza fui à pousada pequena e de bom aspecto na decadente praia de Iracema, com quarto claro e ventilado pelo vento do mar que, de tão forte e constante, riscava os vidros da janela.
Jantei em restaurante naturalmente ventilado, com música ao vivo suave, na base de violão, percussão leve, voz, repertório bem escolhido. Nas avenidas de Meireles, e principalmente em Iracema, de todos os lados, meninas se prostituíam com sorrisos enormes e roupas mínimas. Estrangeiros e coroas locais predominavam entre os clientes. Travestis drogados dançavam como desvairados pelas calçadas da avenida da beira do mar. O vento não parava nunca e a noite jamais abafava.

Pela manhã, peguei o calçadão da praia e segui rumo a Mucuripe, onde se concentravam barracas de vendas de peixes e frutos do mar, jangadas estacionadas na areia da praia. Pescadores de folga jogavam baralho sob a sombra. Tudo se comportava como há décadas. Nem parecia que do outro lado da avenida erguiam-se arranha-céus envidraçados abrigando hotéis e residências de alto padrão.
À medida que eu retornava, rumo a Iracema, o aspecto de tudo caía de qualidade, o calçadão tornava-se mais estreito e quebrado. Após o fim da praia, surgia outro calçadão em contato direto com as ondas do mar, entre trechos quebrados ou em ruínas, pela violência das marés, pelo abandono geral. Era por ali, nas paralelas e transversais, que se concentravam os bares, restaurantes e casas noturnas frequentadas quase que exclusivamente por putas, travestis, estrangeiros, turistas deslumbrados.
Avancei em direção ao centro cultural Dragão do Mar, área de bares, restaurantes, salas de cinema, teatros, galerias de arte, concha acústica. Espaços democráticos acolhiam público diversificado.
Nunca vi tantas formigas circulando livremente em um quarto de hotel. Pequenas e grandes, elas se movimentavam como loucas, desorientadas, às centenas, pelo quarto todo. Talvez viessem da batente podre do banheiro, talvez das janelas ou porta de entrada do quarto. Brotavam dos quatro cantos e aos montes.
Ao entardecer, o azul do mar e as ondas bravas valorizavam a paisagem no calçadão da praia do Mucuripe. Na lagoa do Banana me sentei na beira da água, apreciando o silêncio do anoitecer, enquanto enormes sapos pulavam rumo à lagoa. Na volta, a lua cheia e brilhante dava espetáculos de imponência sobre o mar.
Praia longa, com dunas baixas, pouca vegetação, mar agitado e correnteza forte, a Prainha estava praticamente vazia em pleno domingo de sol. O vento forte e constante retirava a sensação de calor. O senão ficou por conta dos triciclos motorizados e peruas dos ricaços correndo impunemente pelas areias da praia, ignorando os pedestres.
Fortaleza se mostrava cidade cheia de atrações não turísticas. Boa comida servida nos incontáveis restaurantes, cultura em evidência, vento constante e refrescante, povo simpático e prestativo, calçadão agradável para caminhadas na beira da praia. Defeitos, claro, não poderiam faltar em cidade que inchou sem planejamento ou investimentos sociais, graças ao êxodo rural gerado pela concentração da terra e a ausência de reforma agrária. Mas Fortaleza, apesar dos pesares, agradava e muito.
O ônibus para Pernambuco, gelado pelo ar condicionado supérfluo, partiu à noite em linha que passaria pelo Rio Grande do Norte, Paraíba, seguiria para Alagoas e terminaria em Aracaju, incluindo paradas em Aracati, Mossoró, Catolé do Rocha, São José do Egito, Sertânia. Dois assentos atrás do meu, instalou-se alagoano com destino a Palmeira dos Índios que tagarelava e adorava cantar. E cantava não aos sussurros, mas em volume normal de voz, até agradável, imitando Zé Ramalho. O repertório infindável se compunha das canções marcantes da música popular brasileira. E incompletas, com letras alteradas pelas falhas de memória. Bebia no mínimo uma lata de cerveja em cada parada do ônibus, se soltando cada vez mais. Os passageiros querendo dormir começaram a se irritar, chegando a ameaçá-lo. O cantor, impassível, respondia frases nem sempre inteligíveis. Somente perto da meia noite se calou e a paz voltou a reinar no interior do ônibus.
continua...