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segunda-feira, 21 de outubro de 2024

da Bolívia ao Piauí (via Bolívia, Peru, AM, PA, MA, PI) parte (7/7)

 ...continuação

Na parte da manhã tomei carro de aplicativo local, cópia bem copiada de aplicativo estrangeiro, até o porto na beira do Tapajós. O motorista, nissei paranaense, morara no Japão e lá conhecera a esposa, brasileira de Santarém. Retornaram ao Brasil para morar na cidade natal dela. Ele se deu bem com a família dela e o casamento corria às mil maravilhas. Mas câncer fulminante a levou em poucos meses. Ambientado na cidade e em boas relações com a família dela ele permaneceu por ali. Decidiu ser motorista para ganhar algum, se relacionar com gente e afastar a depressão que o assolava após a viuvez precoce. Falava sem parar. Na verdade desabafava com quem o ouvia com paciência. Ao final da corrida me agradeceu por tê-lo ouvido e pela oportunidade de se dirigir a alguém.

A tripulação ainda fazia a limpeza e a arrumação geral da embarcação que, estranhamente, partiria no mesmo dia da chegada. Normalmente os barcos permaneciam dias nos portos das extremidades do percurso para lavagem e organização geral.  Nenhuma suíte ou camarote se encontrava disponível. As expressões cansadas e irritadas dos tripulantes davam os primeiros sinais de navio mal administrado e mal comandado.

Com menos da metade da ocupação dos passageiros nos dois pisos para armação das redes, o navio partiu de um dos portos de Santarém. Permaneci um tempo no piso de Lazer, sob as estrelas e relâmpagos a oeste.

Encerrei O Boto, de Tadeu Sarmento. Era livro de aventura fantástica, embora o autor ameaçasse destrinchar um Brasil dilacerado pelo capitalismo, ONG’s, empresas evangélicas, entre outros fundamentalismos.


Comecei a ler Pagu – Vida e Obra, de Augusto de Campos. No livro o concretista esmiuçava a vida heroica e sofrida da personagem, além de presentear os leitores com as principais obras dela, de ficção e não ficção. Oportunidade de ouro para me familiarizar com Patrícia Galvão, a Pagu, personalidade marcante do Brasil do século XX, muito citada, mas pouquíssimo lida e estudada.

Retirei o lençol do beliche superior para servir de lençol de cima no beliche inferior, onde eu dormiria aquelas noites. Era de elástico e ficou perfeito, me protegendo feito saco de dormir. Nem saí da suíte para assistir a chegada e a partida na cidade de Monte Alegre. Tampouco acompanhei a parada antes do amanhecer em Prainha.

No café da manhã, pago à parte, sanduíche de presunto e queijo, café com leite, canjica ou mungunzá, maçã.

Sob o céu nublado e chuvoso, bandos de andorinhas faziam a festa ao redor do navio, entre acrobacias, voos rasantes, curvas fechadas, às vezes quase parando no ar, entre tantas brincadeiras ao som dos cantos de todas elas. Alegria total e exibição gratuita aos passageiros, pelo menos para aqueles que levantavam o focinho dos celulares para apreciar o espetáculo da natureza.

No meio da manhã os passageiros tiveram que suportar longa parada abaixo da cidade de Almeirim, em porto particular, para carregar itens de interesse do proprietário da embarcação. Aproveitei para comprar queijo coalho dos vendedores locais que subiam nos pisos do navio.

Logo a jusante de Almeirim ocorria a bifurcação, em meio a ilhas gigantescas, entre as rotas das embarcações que se dirigem ao sul da ilha de Marajó e a Belém e aquelas que seguem para o Amapá.

Parada noturna em Gurupá.

O dia clareou num dos inúmeros estreitos pertencentes ao labirinto de ilhas ao sul do arquipélago de Marajó. Chamava a atenção a maior quantidade de açaizeiros e aningas na beira das águas, embelezando ainda mais a paisagem com casinhas de madeira sobre as palafitas. O que sempre estragava as imagens e, sobretudo, a vida dos ribeirinhos, era a praga das empresas comerciais evangélicas, traficando com a fé do povo, o esmagando na miséria e na ignorância, fatores de manutenção do poder das classes dominantes.

Parada em Breves pela manhã.

Encerrei o essencial livro Pagu – Vida e Obra, de Augusto de Campos. Depois de virar a última página me aproximei mais da vida artística, militante e combativa de Patrícia Galvão, nome tão importante, mas injustamente desprezado e ignorado, na história política e cultural do Brasil. Emendei com a leitura de Autobiografia Precoce, de Pagu. Eu acessaria na fonte as ideias e as ações, as certezas e as inseguranças, além de mais obras e criações dela, Patrícia Galvão.

Durante longas horas permaneci sentado do lado da sombra no piso de Lazer. A largura e a amplidão inacreditável do rio espantavam os olhos, ao mesmo tempo em que provocavam sonolência. A modorra, a preguiça e o calor daquele horário da tarde, no entanto, foram quebrados por vendedores de creme de açaí, camarão e outros quitutes. Provenientes das margens, eles se aproximavam do navio em voadeiras. Laçavam os pneus de amortecimento lateral e embarcavam para vender as mercadorias, ou vendiam do barco mesmo, esticando os braços para entregar os produtos e receber o pagamento. Raramente voltavam às moradias ribeirinhas com mercadorias não vendidas.


Mais a jusante, em trecho estreito e curto, mulheres, somente mulheres, se aproximavam a bordo de canoas motorizadas ou a remo esperando doações dos passageiros, da mesma forma que no famigerado estreito de Breves. Do navio poucas doações foram lançadas nas águas dentro de sacos plásticos ou, com muita sorte, dentro das próprias canoas. Nesses trechos havia também casos de prostituição, embora, dessa vez, não notei mulher ou menina embarcar e desembarcar mais tarde. Várias igrejas evangélicas, aquelas empresas que traficam com a fé do povo, erguidas nos vilarejos de onde as mulheres vinham, provavelmente iriam embolsar parte ou tudo do que foi doado pelos bem intencionados passageiros dos navios em circulação. Assim, a alienação fundamentalista religiosa se fundia com a indústria da caridade na maior cara de pau.

Anoiteceu. O navio passou ao lado da iluminada cidade de Barcarena, atraindo os olhares de todos para tanta luz e tanto brilho.

Com muitas horas de atraso deliberado, o navio atracou em Belém tarde da noite.

Pela manhã, caminhei do bairro de Nazaré à beira da baía de Guajará para perambular pela zona do mercado Ver-O-Peso. Obras em andamento por ali, de melhorias e ampliação da Estação das Docas. Tapumes metálicos cobriam áreas consideráveis. Quiosques temporários foram improvisados para que o comércio se mantivesse vivo.

Encurtei a estadia em cidade grande que tanto explorara e que tanto me fascinara em viagens anteriores.

O ônibus saiu lotado ao anoitecer.

O trajeto atravessou de oeste e leste o norte do estado do Maranhão, possibilitando ver das janelas do ônibus as festas juninas a todo vapor nas cidadezinhas, como Santa Luzia do Paruá, Zé Doca, Araguanã. As administrações públicas não se cansavam de mutilar criminosamente as árvores em figuras geométricas ou temáticas, matando a vegetação e a as tão necessárias sombras.

Entre os passageiros do ônibus, a mulata clara, trintona, vinha acompanhada de gringo da mesma faixa etária. Embarcaram em Belém e conversavam em inglês. Ela, brasileira do norte ou nordeste. Ele, de país do hemisfério norte cuja língua nativa não era o inglês. Reparei que outros passageiros repararam neles e comentavam sei lá o quê. Parecendo se sentir culpada de algo, ela evitava o olhar de todos. Minhas suspeitas sem provas para explicar aquilo não eram das melhores.

Do lado de fora, a paisagem aplainada reservava babaçuais, cerrado, carnaubais, e trechos tristes de monocultura extensiva de capim ou algo similar. Nesse último caso, ao lado de silos enormes e de lojas de produtos agropecuários importados daquele regime terrorista ao norte do México.


No meio da tarde o ônibus embicou na estação rodoviária da piauiense Parnaíba, cidade também bastante explorada em viagens passadas.

Jantei no canteiro central da avenida São Sebastião. Mergulhei de cabeça em trezentos gramas de picanha fatiada, baião-de-dois, o cearense por ser mais cremoso, salada, farofa e vinagrete. E coroei o lauto jantar com jarra de suco de limão.

Li mais capítulos de Autobiografia Precoce, de Pagu. A cada linha mais eu me impressionava com a vida e, sobretudo, a qualidade da obra dessa brasileira única.

Caminhei quilômetros por vias entre a avenida São Sebastião e a margem esquerda do rio Igaraçu. Trecho silencioso da cidade que surpreendia pelo urbanismo eficaz e ausência de gente nas ruas e calçadas. Em construção, outra ponte sobre o rio Igaraçu, ligando, como a já existente, o centro de Parnaíba à Ilha Grande de Santa Izabel, à praia da Pedra do Sal, ao município de Ilha Grande, ao vilarejo de Tatus. Aquela grande volta me conduziu ao Porto das Barcas, centro histórico de Parnaíba, vazio, silencioso, tranquilo, na beira do rio.

Pela manhã, tomei o ônibus à praia do Coqueiro, no município de Luís Correia.

Já na praia caminhei bastante, avancei a ponta de pedras e atingi praia completamente vazia, em dia de maré baixa. Delícia das delícias. Eu, a areia, o mar, o farol da marinha mais atrás. E mais ninguém. Entrei no mar de águas límpidas, sob o céu azul e sem nuvens. A maré baixa garantia ondas inofensivas. Mergulhei, flutuei, nadei, fiquei de pé, deitei, sentei. Em varredura de trezentos e sessenta graus não se via mais nenhum ser humano. Aproveitei e fiquei como vim ao mundo, largando a sunga na areia seca. Entrei mais vezes naquelas águas mornas.

De volta à praia do Coqueiro entrei na barraca mais vistosa e relaxei o esqueleto. Tomei duas caipirinhas razoáveis preparada com cachaça piauiense. Para enganar bem o estômago, pedi espeto generosamente servido de camarões grandes, gratinados e empanados. Numa mesa próxima, três gerações se faziam presentes. Até aí nada de anormal. O degradante, inaceitável, repugnante, era a presença da empregada, explicitamente vestida de empregada. A única negra em mesa de branquelos, quase aloirados, cuidava de duas crianças mimadas, animalescas e mal encaradas. As duas gerações de adultos, dos pais e dos avós, desrespeitavam e humilhavam abertamente a empregada e babá. A mãe das crianças, trintona a quarentona, loira natural ou tingida, com o marido ao lado, me olhou interessada mais de uma vez, escancarando a hipocrisia e a falência da família burguesa tradicional. Jamais me envolveria com quem se comportava como senhora de escravas.


Acabei a leitura do ótimo Autobiografia Precoce, de Pagu, a Patrícia Galvão, livro que precisaria ser lido pelos interessados em artes e na história do Brasil.

Comecei a reler contos variados do mestre Lima Barreto e me deslumbrar com a realidade e a análises incrivelmente atuais do autor.

Na manhã seguinte tomei dois ônibus à praia da Pedra do Sal. Pelo trajeto, ao longo da ilha Grande de Santa Izabel, carnaubais belíssimos, sobre alagados, de ambos os lados da estrada. No ponto final, a ponta de pedras com o farol, a baía de águas mansas à esquerda, a baía de águas bravas à direita. Esta, visualmente prejudicada pela profusão de imensos coletores de energia eólica a perder de vista. Como de praxe, pouca gente, raras e esbagaçadas barracas de comes e bebes. E vento, muito vento, vento forte e constante.

Permaneci sentado durante horas sobre ripa de madeira disposta dentro de restos de barraca rústica e parcialmente coberta de folhas de palmeiras. Ninguém por ali. À minha frente, a paisagem da areia e do mar, sem fim. Vez ou outra eu avistava jangadas mar adentro. Os pensamentos vaguearam sem rumos e provocaram deliciosa sensação de liberdade.

Andei bastante pela zona norte de Parnaíba, próximo à margem do rio Igaraçu, à estação ferroviária de bairro. A estação e a ferrovia foram criminosamente desativadas pela ditadura do transporte rodoviário. Triste calamidade em todo o Brasil, porém mais dramática no nordeste do país, região que foi servida por dezenas de linhas férreas atravessando os interiores dos estados. Por toda a região, ao lado dos trilhos soterrados pelo asfalto que multiplica o calor e a impermeabilidade do solo, ainda se encontram antigas estações ferroviárias, muitas delas utilizadas por órgãos públicos, ou simplesmente abandonadas, em ruínas, servindo de abrigo de dependentes químicos.

Continuava mergulhando nas preciosidades literárias de Lima Barreto, relendo a infinidade de contos agrupados em edição caprichada. Destaques, entre tantos, para os contos Um Músico Extraordinário e Como o Homem Chegou.

Embarquei em ônibus leito à noite.

Não desci nas paradas das cidades cearenses de Camocim e Sobral. Desembarquei ao amanhecer no terminal rodoviário de Fortaleza e logo me dirigi ao aeroporto.

Em voo lotado, durante o trajeto aéreo de quase três horas, me salvaram as crônicas de Rubem Braga, me transportando para os fatos e as fantasias do autor capixaba, que merece com folga a fama que a história lhe deu.

Entrei em casa no final da tarde daquele mês de julho, sob o frio suave e o céu nublado e feio, combinando perfeitamente com as características físicas da cidade de São Paulo.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

de Goiás ao Piauí (via GO, MT, TO, BA, PE, CE, PI) (parte 7/7)

 ...continuação

Doces versos ouvidos pelas ruas dos interiores brasileiros, vindos daquelas duplas que vivem à custa do dinheiro público como garotos-propaganda do capital agrário:

Essa mulher merece um tiro...

Mas ela não vale o preço da bala...

Ou então:

A gente briga muito...

Mas se dá bem pelado...pelado...peladuuuuu...

Após café da manhã reforçado subi em micro até o ponto final, na pracinha do vilarejo de Coqueiro, município de Luís Correia, na beira do mar, de frente à igreja e ao bucolismo local.

Andei bastante pela praia. Passei por concentrações de bares, alguns simples, outros nem tanto, mas todos com frequência maciça de domingo. Ao final da praia, nas imediações da ponta cheia de pedras, se encontravam chalés convidativos de pousada isolada e cara. Avancei depois da ponta e atingi a praia do Itaqui, reservando ao fundo da areia o farol de mesmo nome.



Nem precisei avançar tanto mais. Já não havia sinal de seres humanos de quaisquer lados. Tirei tudo e fiquei peladinho da silva, do jeito que vim ao mundo. Entrei naquele mar de ondas fracas e águas cristalinas. Delícia das delícias. Voltava à areia, fazia flexões de braço, tomava sol. Meia hora depois, já saciado da nudez, dentro e fora da água, apareceram dois pescadores que se postaram na ponta da praia, junto às pedras. Me viram sem esboçar qualquer reação. Por via das dúvidas pus a sunga e prossegui meus banhos de mar, as flexões, a exposição ao sol, agora vestido como banhista padrão.

Saciado, peguei o caminho e descansei o esqueleto em bar e restaurante de bom aspecto no meio da praia do Coqueiro.

Encontrei mesa livre e bem posicionada, da qual eu podia ver os frequentadores. Maioria de grupos e famílias, raros casais isolados. Tomei duas caipirinhas. Comi camarão ensopado no abacaxi e porção de farofa. Apreciei o vaivém das banhistas. O céu azul, o calor bem-vindo, o vento suave, o bom humor geral, mais a música ao vivo, em volume e repertório aceitáveis, me faziam sentir bem, muito bem.

De volta à cidade, jantei bem, proteínas e vitaminas, em frente à estupenda lua cheia, à brisa refrescante, ao vaivém discreto e agradável das parnaibanas.

A zona urbana de Parnaíba e dos arredores contavam com espaços vazios, no centro, nos bairros, nas praias, nas partes intermediárias. E também havia as regiões abandonadas, em ruínas, ou simplesmente decrépitas, embora ainda em funcionamento. Os exemplos vinham do Porto das Barcas, Pedra do Sal, Lagoa do Portinho, praia de Atalaia. Eu também não notava construções em andamento. A região estava com estabilidade populacional ou com decréscimo e êxodo de moradores?

Tomei os dois tradicionais ônibus à praia da Pedra do Sal. Desembarquei a tempo de acessar a baía mansa ao sul do farol.

Caminhei pelas areias no sentido da foz do rio Parnaíba. A maré baixa permitia escolher em qual faixa da areia eu andaria. Caminhei muito. Caminhei demais. Esparsos pescadores de rede na linha da água, em especial nos trechos de areia escura. Esse tom era da madeira decomposta, escurecida e enegrecida pela ação do tempo, da água salgada e doce. Os peixes para ali afluíam a fim de se alimentarem. Vindos de moto pela areia da praia, os pescadores estendiam nessas zonas as redes de arrasto. Rebanhos de jegues pastavam na parte traseira da praia, onde crescia vegetação rasteira. Avistei conjunto de cabanas cobertas de palha, afastadas da praia, indecifráveis. Dunas ao fundo, bem ao fundo, provavelmente a borda leste das dunas atrás do porto de Tatus. Pela areia, concentrado, o lixo vindo do mar, sobretudo os plastificados e mais resistentes ao tempo. Por cerca de duas horas e meia caminhei pelas areia da praia, a fim de atingir o trecho do encontro do rio com o mar, mesmo sabendo que não pisaria no vértice, no ponto exato daquele acidente geográfico. Aterrissei em extensa faixa de areia, guardando troncos de árvores ressecados, vegetação rasteira logo atrás, a água do mar mais escura, acastanhada em alguns locais, quase negra em outros. Eu alcançara ponto muito próximo da foz do rio. Era cerca de meio-dia e eu estava um bagaço de tão cansado.



Lentamente o movimento da maré anunciava o começo da cheia. E eu teria que enfrentar as mesmas duas horas e meia, para caminhar de volta, a favor da luz do sol e contra o vento nordeste.

Entrei no mar e me refresquei, recuperando pequena parte da energia dispendida. As solas dos pés ardiam ao pisar na areia. As pernas bambeavam. A ponta do farol da Pedra do Sal parecia cada vez mais distante. Sonhava acordado com bebida e comida. E nada de chegar.

A tarde avançava ao entrar na única barraca em funcionamento naquele dia na baía mansa. Na parte coberta, sobre a areia, mesa ocupada por dois casais bêbados acompanhando porcamente a música alta das caixas de som do estabelecimento. Suguei um litro de refrigerante, bem doce, bem líquido. Não me animei a pedir nada sólido. O local, como os demais que ainda sobreviviam na Pedra do Sal, era sujo, semiabandonado, quase em ruínas. E diante daquela natureza tão linda. Bem ali em frente. Limpa e vazia. Inadmissível!

Mais dois ônibus ao hotel.

Eu me precavera e à minha disposição no frigobar havia pão, queijo, salame, chocolate, espumante seco diretamente do vale do São Francisco. Comi e bebi tudo e muito bem. E água, muita água.

Na manhã seguinte repeti a ida à praia do Coqueiro, em Luís Correia. Desci no ponto final, no larguinho do Coqueiro.

Havia menos banhistas que no domingo anterior. Na praia do Coqueiro a maré muito baixa expunha pedras, sargaço aos montes, barcos sobre a areia, as águas distantes e rasas. Pela areia alcancei a praia do Itaqui, vazia, e me instalei em frente ao farol. Somente eu e a natureza preservada. Fiquei peladão e entrei deliciosamente no mar. Saía apenas para as costumeiras flexões de braço. Uma hora depois de nadar, flutuar, me refrescar, me exercitar, duas mulheres apareceram nas pedras da ponta que separava a praia do Itaqui da do Coqueiro. Permaneceram por ali. Obviamente notaram que eu não vestia sunga ou roupa alguma. Mesmo se apurassem os olhares por curiosidade, valeria a máxima “quem nunca viu não sabe o que é, quem já viu está acostumada”. E entrei novamente no mar. Nadei, flutuei. Contemplei o entorno de todas as maneiras.

Me considerei saciado com a praia, a água do mar, a tranquilidade, a privacidade, o nudismo extemporâneo. Me vesti e andei na direção das barracas de comes e bebes da praia do Coqueiro.

Suguei duas caipirinhas bem preparadas com a cachaça piauiense. Devorei dois espetos de camarão, suculentos e saborosos.

O sol começava a baixar ao pegar o micro de volta à Parnaíba.

Amanheceu mais um dia. Peguei dois ônibus ao porto de Tatus, no município de Ilha Grande, na margem direita do braço do Parnaíba.

De frente às águas observei a pequena movimentação de turistas no embarque aos passeios de barco, ao Delta do Parnaíba, à revoada dos guarás, entre outros roteiros fluviais. Um barqueiro me abordou educadamente oferecendo passeios de barco e educadamente aceitou minhas negativas.

Eu desejava repetir a exploração às dunas de areia de Tatus que realizara três anos antes. Me dei com entrada diferente e avancei pela trilha. Eu tinha que obter fortes pontos de referência para me orientar no sentido contrário. Antes de entrar nas dunas propriamente ditas contornei touceira alta, verde e cerrada. Ali seria o marco que eu não deveria perder de vista a fim de voltar pela mesma trilha.



Circulei pelas belíssimas, imensas e extensas dunas, contando com lagoas de águas cristalinas e azuladas. Escalei rampas de quarenta e cinco graus de inclinação, ao longo da qual era preciso dar três passos para render um. Avancei pelas cristas sinuosas das dunas. Me voltava de vez em quando para conferir a posição da touceira de referência. O céu azul liberava o sol quente para massacrar. O mormaço repetia o efeito de baixo para cima. E virava o pescoço para rever a tal touceira alta, verde e cerrada. Estava sempre lá, mais distante, mas impassível. Pelas areias, de vez em quando, rastos de patas e fezes ressecadas de equinos. Nenhum sinal de ser humano. A única coisa que destoava de tanta beleza eram as gigantescas hélices dos coletores de energia eólica, postadas mais a leste.

Em meio às maravilhas da natureza a mente devaneava. Perambulei com imenso prazer por horas sobre as dunas de Tatus, entre cristas sinuosas, sobe e desces em rampas de areia, margeando e me refrescando em lagoas azuladas. Dei meia volta e tomei o rumo da estática e salvadora touceira de referência.

Ao atingir a dita touceira, percebi decepcionado que não era a touceira original, mas outra, parecidíssima e em local semelhante. Girei trezentos e sessenta graus na procura da minha salvadora e nada de encontrá-la. Andei feito camelo para lá e para cá na tentativa de corrigir o rumo. Finalmente encontrei o meio da trilha original da ida, mas não a touceira de referencia que ficou distante, mais perto das grandes dunas.

Pelas ruas do vilarejo de Tatus, ignorei o ônibus que manobrava para partir de volta à Parnaíba. A sede estratosférica me obrigava a matá-la antes de qualquer coisa.

No mercadinho mergulhei de cabeça em meio litro de cajuína. Não bastou. Saquei da geladeira garrafa de um litro e meio de água mineral. Em minutos eu a secava completando a ingestão de dois litros de líquidos para repor o que perdera nas dunas.

Entre os goles conversei animadamente com a dona do comércio e com turista maranhense a caminho de passeio de barco com familiares à revoada dos guarás.

Jantei no canteiro central da acolhedora avenida São Sebastião, em Parnaíba. Não era a minha primeira e nem a última vez naquele bar e restaurante. Comida ótima. Atendimento eficiente e descontraído. O responsável pela grelha me presenteou com cebola inteira grelhada. Além de ser ao ar livre, diante do movimento do calçadão e da avenida, entre poucos pedestres e espaçados veículos, as mesas recebiam frequência variada de moradores de Parnaíba.

Em meio a reflexões aleatórias e espontâneas, do nada, sem mais, chegava a determinadas conclusões. Por exemplo, para além dos clichês turísticos, o nordeste sempre iria me lembrar de duas coisas. As árvores mutiladas geometricamente nas ruas e praças, eliminando as tão desejadas sombras. E a obsessão pela música, alta, altíssima, em todos os lugares, em todos os momentos, vinda de várias caixas de som, ao mesmo tempo.



Li capítulos de Romance d’A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, volume extenso que eu demoraria a atingir o final.

Almocei no centro da cidade e voltei de micro ao hotel. O veículo deu baita volta urbana, verdadeiro giro turístico pelas zonas oeste e sul de Parnaíba. Trafegou por ruas calçadas de pedras irregulares, quase regra na cidade, aliás, regra sustentável e muito bem-vinda, à exceção daquelas vias desgraçadamente impermeabilizadas e aquecidas pelo asfalto negro. Nos bairros, casario discreto, de bom aspecto, nada de miséria aparente. Espaços vazios aos montes, como não poderia deixar de existir em Parnaíba, e pouco movimento.

Eram raríssimos os debates políticos ouvidos pelas ruas da cidade. Mais sobre a realidade local e raros os sobre o país. Nas poucas menções ao presidente proto-fascista, críticas, deboches, indignações.

À noite, na rodoviária de Parnaíba, vesti a camiseta de mangas longas já prevendo a temperatura glacial costumeira naquela empresa de ônibus.

Desembarquei na rodoviária de Fortaleza de manhãzinha. Imediatamente segui ao aeroporto.

No voo lotado, tendo ao lado rapaz agitado e nervoso, ignorei o sono e li bastante Ariano Suassuna.

A tarde começava ao desembarcar no aeroporto de Cumbica, em São Paulo.

E, naquele final de junho, encerrava mais uma livre, descontraída e pedagógica viagem.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

de Goiás ao Piauí (via GO, MT, TO, BA, PE, CE, PI) (parte 6/7)

 ...continuação

Pela manhã, atravessei mais uma vez a pé a ponte sobre o rio São Francisco. Circulei pelo centro velho de Juazeiro, mortinho da silva naquela manhã de domingo. E retornei a Petrolina de barco.

Almocei novamente no restaurante ao lado do hotel, aquele frequentado pelos mais entre os mais de Petrolina. E lá estavam eles marcando presença. Ao final, adquiri na lojinha ao lado meio quilo do estonteante bolo-de-rolo, recheado de goiabada, produto tipicamente pernambucano.

E voltei ao quarto de hotel para fugir da modorra da tarde. Comecei a ler os contos de O Macaco Que Se Fez Homem, de Monteiro Lobato.

O ônibus partiu cedinho da rodoviária de Petrolina. Seguiu pela BR-428 até Lagoa Grande. Atravessou caatinga brava, espinhenta, fechada, sobre solo pedregoso. Nas zonas irrigadas, porém, intensa fruticultura, comercializada nas próprias cidades ou levadas para cidades distantes. Dobrou na BR-122, ainda atravessando a mesma caatinga fechada, pouco habitada, exceto por minúsculos e isolados vilarejos.

Parada para almoço ao lado de Santa Cruz, cidadezinha também chamada de Santa Cruz da Venerada e de Cruz de Malta. No posto de combustíveis ao lado do restaurante, carretas gigantescas estacionadas carregavam imensas peças dos coletores de energia eólica. Aguardavam o horário noturno permitido para tráfego de tais veículos nas rodovias. Embora considerada limpa, a energia eólica, imposta sem debates públicos, causava tremenda poluição visual em toda a região instalada, assim como ruídos perturbadores aos moradores próximos.

Pequenos e médios serrotes despontavam no relevo aplainado da caatinga.



Na plana, feia, suja e desorganizada cidade de Ouricuri o ônibus despejou e recolheu passageiros nas beiras das calçadas, em paradas muito próximas entre si, às vezes quarteirão a quarteirão.

Esse estranho comportamento fez lembrar as escolas em São Paulo, frequentadas pelos filhos dos ricos. Os pais formavam imensas filas de carrões, congestionando o trânsito, para deixar e buscar os respectivos nas portas das escolas. Exatamente na porta das escolas. Nem mais um metro, antes ou depois. O que me levava a chamá-las de escolas de “aleijados” porque o aluno não “conseguia” andar se o carro o deixasse ou o resgatasse a uma quadra ou mais de distância.

Já nos interiores brasileiros, ali em Ouricuri por exemplo, como resultado dessa prática, a rodoviária da cidade, nova, ampla, cheia de espaços disponíveis para o comércio local, órgãos públicos e outros interessados, todos vazios e fechados, apresentava pouco ou nenhum movimento nas plataformas.

A partir de Ouricuri o relevo se tornou mais acidentado e a vegetação mais desenvolvida e menos árida. O não aproveitamento das terras, contudo, permanecia o mesmo.

Bodocó, cidade pequena e simpática, tipicamente sertaneja, com a feira semanal a todo vapor, também contribuiu para manter o ônibus lotado desde Ouricuri.

Estátuas, esculturas, pinturas, cartazes, faixas, frases de Luiz Gonzaga, nas margens da estrada, pracinhas, muros, paredes, anunciavam Exu, terra natal do rei do baião. A cidade revelava urbanismo bagunçado, disforme, acidentado, mas de legítima cidade sertaneja pé-de-serra, no caso a serra do Araripe.

Nas cercanias ao norte de Exu a rodovia ziguezagueou em aclives, chapada acima, ao lado de vegetação agreste, quase tropical, bem mais desenvolvida que nas baixadas. No altiplano, a natureza se encontrava preservada nas imediações da unidade de conservação ambiental da Serra do Araripe. Não demorou a divisa interestadual entre Pernambuco e Ceará. Daí a estrada entrou em declive, rumo ao vale do Cariri, ao longo do qual Crato e Juazeiro do Norte reinavam absolutas.

Desembarquei no meio da tarde na rodoviária de Juazeiro do Norte. Me instalei em quarto de hotel, como os demais quartos do estabelecimento, sem janelas, sem tapetes no banheiro, fora ou dentro do box, sem lençol de cima. Retirei da cama de solteiro o lençol de baixo e o usei como o de cima na cama de casal.

Saí cedo para jantar. A fome exigia comida farta e nutritiva. Acabei caindo nos arredores da praça de nome, adivinhem qual, Padre Cícero, justamente na esquina da rua, adivinhem qual, Padre Cícero. Comi bem e bastante ao lado de mesas ocupadas com clientes bebericando sem pressa. Fui de carne-de-sol, baião-de-dois com queijo coalho, macaxeira cozida, vinagrete, farofa. Enchi divinamente o bucho em mesa ao ar livre.

E ali, na calçada onde se instalavam as mesas ao ar livre, me deparei com fenômeno que marcava como selo os destinos religiosos e de peregrinação. A mendicância. Pedintes. Aos montes. De vários aspectos e estratégias de atuação. Um deles, vestido de missionário, com roupa longa de algodão cru e tudo o mais, rodeava as mesas de hora em hora, sempre com o olhar sofrido de mau ator. Mas eram muitos, muitos mesmo.



Na volta ao hotel encontrei enorme barata viva sob a cama de casal. A primeira barata vista em quarto de hotel em quase dois meses de viagem pelos interiores de seis estados brasileiros.

Pela manhã saí para subir a colina do Horto, sobre a qual se encontrava a estátua de Padre Cícero e outras construções religiosas. Era local de peregrinação intensa de brasileiros, sobretudo em quatro datas anuais. Descrevi em detalhes essa exploração nos relatos de minha viagem anterior, realizada vinte anos antes.

Era subida árdua e constante, durante mais de uma hora, por rua estreita e sinuosa, calçada de paralelepípedos, com esgoto a céu aberto fétido escorrendo por ambas as sarjetas. No topo, sob a estátua, nenhum guia ou pedinte, e poucos vendedores de bugigangas religiosas, ao contrário de minha primeira visita.

Além da vista panorâmica de Juazeiro do Norte, se destacaram os nomes e frases de milhares de devotos gravados a caneta, umas sobre as outras, na base da estátua do Padre Cícero.

Ao voltar, notei que, além de não terem limpado o quarto do hotel, os corredores de acesso não viam faxina havia dias. A mosca morta que encontrara na soleira da porta dias antes ainda estava lá, intocada.

Repeti o jantar da noite anterior. Circulei levemente pela praça Padre Cícero. Os pedintes, sempre os mesmos, caracterizados de igual maneira, incluindo o falso missionário e péssimo ator, pediam repetidamente, insistentemente.

E voltei ao quarto do hotel onde não havia limpeza, troca de itens sujos ou arrumação. Mas havia, sim, baratas vivas e moscas mortas.

O ônibus partiu cedo com poucos passageiros, metade dos quais, eu inclusive, usando máscara facial contra a covid-19.

O veículo parou em Crato, Farias Brito, Várzea Alegre, por entre serras, serrotes, colinas, vales, muito verde, umidade, água, fertilidade. Eram cidades de bom aspecto, mas as mutilações geométricas das árvores das ruas e praças estavam lá, desgraçadamente. Na margem de uma das rodovias, me chamou atenção igreja ou capela, isolada, no meio do nada, de fachada e portão alto, datada de 1762.

A relevo se suavizou ao chegar em Iguatu, cidade média cujo centro comercial fervilhava de movimento. Estação ferroviária, linhas de trilhos, simples e duplas, pontilhões metálicos, apontavam, assim como em toda a região nordeste, que a ferrovia, de cargas e passageiros, reinou com eficácia e eficiência durante décadas. A ditadura do transporte rodoviário, no entanto, se impôs pela força dos monopólios capitalistas, sucateando e abandonando o transporte ferroviário.

Nos arredores urbanos apareciam, esparsas casas de taipa ou de pau-a-pique, em péssimo estado. Algumas abandonadas, outras com seres humanos sobrevivendo amontoados.



A vegetação passou a agreste. A serra de Acopiara e a cidade de mesmo nome despontaram na paisagem. Parada para almoço em Catolé da Pista, distrito entre serras no município de Piquet Carneiro.

A rodovia seguia no rumo norte. Cidadezinhas surgiam e ficavam para trás, mas o ônibus parava em todas elas para desembarque e embarque de passageiros. Entre elas, Mombaça, Mineirolândia, Senador Pompeu.

Ainda na CE-060 brotaram lajedos cobertos de xique-xiques, rochedos imensos. Mas ao entrar em Quixeramobim os rochedos se afastaram e a cidade plana nada oferecia de atraente aos olhos.

Na BR-122, aí sim, mais monólitos, maiores, próximos da rodovia, escarpados, anunciando Quixadá, cidade rodeada deles e tão bem relatada na viagem anterior. Pertencente à região do Sertão Central, típica do semiárido cearense, exibindo vegetação de caatinga, Quixadá costumava sofrer com secas periódicas e devastadoras.

Anoiteceu.

Ao entrar na BR-116 o ônibus se deparou com buraqueira, lama, poças d’água, causados pelas chuvas recentes e pelo descaso do governo federal de então, a serviço de projeto capitalista de destruição da infraestrutura nacional e da entrega das riquezas brasileiras aos monopólios privados, sobretudo estrangeiros.

O frio se tornou intenso internamente. Vesti a blusa guardada providencialmente na mochila de ataque e logo adormeci. A maioria dos passageiros usava máscara facial de proteção conta a covid-19.

 Ouvi durante a madrugada o motorista anunciar aos dorminhocos a cidade de Camocim, no litoral oeste do Ceará. Amanheceu no Piauí, nas imediações de Cajueiro da Praia. Em seguida, bem próximo ao mar, o ônibus cruzou o município de Luís Correia, ao lado das praias do Coqueiro, Peito de Moça, Atalaia, antes de se dirigir à Parnaíba, passando não muito afastado da lagoa do Portinho. E vivas ao mar que aparecia pela primeira vez aos meus olhos em quase dois meses de viagem!

Desembarquei na rodoviária de Parnaíba no começo da manhã.

O funcionário do banheiro do terminal, que colocava bem altas as gravações de Roberto Carlos, talvez porque adorava o repertório, talvez para ajudar a encobrir os ruídos orgânicos dos usuários, pedia contribuições espontâneas ao final das necessidades fisiológicas de cada um.

Permanecei nos sofás da recepção do hotel, aguardando a liberação do quarto, apenas trocando de lugar para fugir dos raios de sol. Sim, porque em Parnaíba fazia calor de verdade. Aproveitei para registrar no diário as emoções e sensações vividas desde a saída de Juazeiro do Norte no dia anterior.

Almocei bem comida saborosa e temperada em restaurante simples. E hidratei a refeição com a divina cajuína cristalina da região. Parnaíba mantinha a qualidade dos serviços urbanos, entre garçons, balconistas, recepcionistas, caixas.

Comecei Romance d’ A Pedra do Reino, calhamaço de Ariano Suassuna. Acreditava que jamais iria encontrar monotonia naquelas mais de mil páginas.



Após o farto café da manhã tomei micro ao centro da cidade, zona conhecida como Porto das Barcas, na margem direita de um dos braços do rio Parnaíba, borda leste do Delta do Parnaíba. De lá subi em outro ônibus à praia da Pedra do Sal, ao norte da ilha Grande de Santa Isabel. Sentada ao meu lado, piauiense cinquentona de feição mameluca, envelhecida e gasta pela vida. Passara a noite em claro e exalava odor de álcool. Tinha filhos espalhados pelos estados do país. Morava num clã familiar, pouco ao sul do mar, sozinha em casa, mas ao lado de casas de filhos e outros parentes. Ali desembarcou, carregada de tralhas compradas na cidade e amontoadas no fundo do ônibus.

Desci no ponto final, em frente ao mar. As duas baías da praia da Pedra do Sal, a mansa e a brava, seguiam firme na situação de abandono. Pouca gente, barracas decrépitas de comes e bebes, a maioria fechada ou abandonada, dezenas em ruínas. Triste quadro em local repleto de belezas naturais. Os raros hotéis e pousadas, na mesma, caindo aos pedaços. Muito espaço vazio. Ruas e calçadas levando a lugar nenhum. Areia cobrindo pisos e calçadas. Coletores de energia eólica ocupavam extensas áreas em ambas as baías, compondo efeito visual questionável.

O vento fustigava com violência. E o sol não dava tréguas.

Acabei optando por bar, obviamente de mau aspecto, mas com meia dúzia de fregueses. Duas águas de coco, doze bolinhos de peixe até que razoáveis, me abasteceram parcialmente enquanto eu observava o mar agitado da maré subindo ao longo da baía brava. Visual bonito e relaxante de praias pouco frequentadas, águas limpas e natureza preservada. Apesar de tudo.

Durante o trajeto do ônibus na volta apreciei os carnaubais preservados em zonas alagadas ou alagáveis. Lindo demais! Nada construído ou cultivado por ali. Parecia unidade de conservação.

Em vez de descer ao pé da ponte sobre o braço do rio, fui até o ponto inicial daquela linha urbana de ônibus, até a zona do mercado 40. Naquele momento, fim da tarde de sábado, tudo fechado. Apenas alguns bares sórdidos acolhiam bêbados inveterados. Ao redor, moradores de rua, pichações do PCC nas paredes, ambiente para lá de suspeito. Apertei o passo para sair dali antes de escurecer e partir para longa caminhada ao hotel.

Jantei peixada atraente e fresquinha em bar e restaurante no canteiro central da avenida São Sebastião. Era local tranquilo, sem música ao vivo, silencioso, com a lua quarto-crescente subindo acima das copas das árvores.

continua...

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

do Acre ao Piauí (via AC, RO, AM, PA, AP, MA PI) (parte 8/8)

...continuação
Dois ônibus à praia da Pedra do Sal. Desembarquei na praia Mansa.
Caminhei no sentido oeste, por quilômetros a fio. Atravessei inúmeros riachos com tocos de madeira, conchas, vegetação, areia escura e grossa. Não alcancei a foz do rio que passa no porto de Tatus. O farol da Pedra do Sal, no entanto, ficou distante e minúsculo no horizonte leste. A maré enchia lentamente, fornecendo beleza ainda mais arrebatadora naquele trecho de praia completamente deserta de seres humanos e de construções. Praia selvagem! Jegues pastavam nas imediações dos cursos de água doce. Gaviões altivos se postavam em pontos estratégicos na busca de presas. Raros urubus se deleitavam nas areias com restos apodrecidos de peixes e siris. Parei para entrar e me refrescar nas águas do mar.
Jantei novamente no destino dos mais entre os mais de Parnaíba. Duas caipirinhas acima da média regaram o filé aperitivo acebolado, acompanhado de fritas e pão de alho. O ambiente, cheio e ruidoso, mal ouvia a voz e o violão interpretando os sucessos de sempre da MPB.
Circulei pelas imediações da antiga estação ferroviária da cidade. Desgraçadamente, como tem ocorrido em todo o Brasil, e em inúmeros países sob a ditadura do transporte rodoviário, lá estava o prédio da estação, do almoxarifado, do posto médico, da administração, entre outras construções da ferrovia, em ruínas, abandonados, deliberadamente abandonados. Na estação propriamente dita, um senhor idoso, idealista, cuidava dos objetos que restaram dos vários saques e roubos aos prédios da EFCP, Estrada De Ferro Central Do Piauí. Uma locomotiva maria-fumaça era exibida como relíquia, no acesso vindo da avenida. Os trilhos, enterrados pelo asfalto, mato, areia, barro.
Os oligopólios das corporações automobilísticas, de automóveis, caminhões, ônibus, impuseram aos governos fantoches a destruição da malha ferroviária brasileira, e no nordeste do Brasil ela foi imensa, forçando ao esquecimento e abandono deliberado de tudo que remetesse às ferrovias. O transporte ferroviário sempre foi mais barato, para o Estado e para a população, mais confortável, mais eficiente, mais seguro, mais romântico. E certamente mais rápido se houvessem as modernizações rotineiras do sistema.
O transporte rodoviário mata ao redor de cinquenta mil pessoas todos os anos no Brasil, fora os feridos, leves e graves, com ou sem sequelas. No entanto, graças à publicidade sufocante, direta ou subliminar, muita gente ainda sonha em ter o “carro próprio”.
Entusiasmado com as belezas e as vantagens das ferrovias sobre as rodovias, e indignado com a opção rodoviária forçada do Brasil, me dirigi a Luís Correia, cidade que já foi chamada Amarração, para conferir a última estação ferroviária da EFCP, também desativada e abandonada havia cinquenta anos. Criminosamente largada às traças, a construção se tornou banheiro público e refúgio de párias da sociedade.
Circulei pela região do porto de Luís Correia, próximo à foz do rio Igaraçu e a extensos manguezais. Armazéns de pesca, fábricas de gelo, barcos atracados, trapiches apodrecidos, feições com olhares de poucos amigos, eles e elas, atmosfera portuária típica. O manguezal, amplo e exposto, atraía pela beleza e calmaria.
À tarde li páginas de Geraldo Vandré, Uma Canção Interrompida, de Vitor Nuzzi, uma das três biografias lançadas quatro anos antes sobre o genial compositor e intérprete da música brasileira. Nos intervalos eu refletia e divagava ao som de Imyra, Tayra, Ipy, álbum de Taiguara censurado pela ditadura civil/militar.
Embarquei no meio da manhã no confortável ônibus intermunicipal na rodoviária de Parnaíba. Pela BR-343 o veículo recolhia e despejava passageiros pelas cidades intermediárias, Buriti dos Lopes, Piracuruca, Brasileira e, finalmente, Piripiri, onde desembarquei.
Imediatamente comprei passagem para Pedro II, em outro ônibus que partiu quase vazio. Percorreu a BR-404, subindo leve e continuamente o relevo, por estrada arborizada e estreita. Serrotes despontavam ao norte e a leste.
Em Pedro II me hospedei em hotel na própria avenida/estrada que corta a cidade. A pia do banheiro do quarto era uma graça. Dava na altura dos meus joelhos. E o espelho refletia o meu umbigo. A cidade cresceu ao longo da rodovia BR-404. Tudo de importante se encontrava nas margens dela, inclusive a pousada e outros hotéis, cujo quarto em que fiquei, de frente para o movimento, recebia a sonoplastia rodoviária.
O ar fresco dos setecentos metros de altitude de Pedro II, cidade erguida na região da serra dos Matos, se fazia sentir à noite e ao amanhecer. Nada da fornalha de Parnaíba ou das cidades amazônicas. A cachaça artesanal piauiense caía como luva nessas temperaturas.
Pedro II acordava cedo e de maneira escancaradamente barulhenta. O tráfego pesado de veículos na estrada/avenida da frente da pousada, com destaque para as motos estridentes, vibrava logo após o clarear do dia. As obras na pousada, e as da padaria ao lado, começavam ao amanhecer.
Circulei pela zona urbana que guardava casario do início do século XX, bonito e em ótimo estado de conservação. Parecia que a cidade inteira se preparava para o festival de inverno. Paredes, portas, janelas, pintadas. Praças e ruas, limpas e arrumadas. Enfeites dos moradores nas calçadas e paredes, festejando as flores, a limpeza, a necessidade de não poluir as vias públicas. Tendas começavam a ser montadas nas imediações da praça de Nossa Senhora da Conceição, ao redor da qual se erguia a prefeitura, a rádio local, a igreja Matriz, o principal do casario antigo, antes residências da elite dominante de Pedro II. O centro comercial fervia entre lojas e barracas de ambulantes. Carros de som esbravejavam as tais “promoções”, agravando a poluição sonora ao longo da estrada/avenida que atravessa toda a extensão da cidade. Lojas de joias, muitas delas utilizando a matéria prima símbolo local, a opala, se espalhavam próximas à Matriz.
Arrisquei local simples, pequeno e tradicional de Pedro II, para almoçar panelada, prato típico regional. O restaurante se situava a dez ou mais quarteirões de caminhada. Fui e voltei sob o sol a pino, me esgueirando pelas paredes onde havia calçada. Preparado com miúdos do estômago de boi, mais nacos de mocotó, tudo imerso no molho da própria carne, acompanhado de arroz, farinha e vinagrete, o prato da panelada empolgou pelo sabor pronunciado. O estabelecimento, situado em bifurcação, contava apenas com duas mesas externas e duas internas.
Me refugiei na sombra da sacada coletiva em frente ao quarto da pousada. Cadeiras livres, vento refrescante, preguiça bem-vinda. O sol abrasador, somente lá fora. Eu tentava, com muita força de vontade, me abstrair da poluição sonora, da avenida/estrada, das marteladas na padaria ao lado, das obras na pousada, das gritarias e ruídos da barulhenta Pedro II.
Depois de caminhar quarteirões da zona urbana finalmente alcancei estradinha de chão avermelhado. Pelo caminho, buritis, árvores frondosas, chacrinhas, formações rochosas com vegetação de caatinga, olho d’água em trecho sombreado e fresco, córregos a serem atravessados pulando as pedras, casinhas novas, cercas de paus, morros, a serra mais ao longe. Entre os moradores, saudações efusivas de uns, rosto fechado de outros.
Atingi patamar alto, o povoado de Terra Dura, no mesmo município de Pedro II. Casas espalhadas, a capelinha com pequeno adro, campo de futebol, escola, cisternas instaladas nos tempos progressistas de Lula e Dilma. E porcos, muitos porcos, dezenas ou centenas deles, soltos, ciscando, comendo o que viam pela frente, famílias inteiras, porcão, porcona, porquinhos, porquinhas. Uma infinidade de suínos perambulando pelo vilarejo.
Na cidade almocei saborosíssimo sarapatel no mesmo local do dia anterior. Valeu, e muito, repetir aquele minúsculo restaurante.
No meio do dia seguinte embarquei em ônibus a Teresina.
A região em torno do hotel no centro da capital piauiense se apresentava organizada, limpa, de bom aspecto, abrigando hospitais, clínicas, laboratórios, consultórios médicos, gente de branco circulando para lá e para cá. A avenida Frei Serafim, marco da cidade, começava na igreja de São Benedito, perto da margem direita do rio Parnaíba, e avançava rumo o rio Poty. Contava com amplo canteiro central, dotado de duas alamedas de árvores e bancos para descansar e tomar à fresca. As piauienses e os piauienses cumprimentavam sorrindo, tomando sempre a iniciativa, hábito para lá de generoso e gentil.
Avistei de longe o rio Parnaíba. Na margem oposta, a cidade de Timon, já no estado do Maranhão.
Teresina oferecia linha ferroviária urbana, com onze estações e trens de três vagões. A população usufruía daquele serviço público essencial entre os bairros. A estação de Frei Serafim foi outrora a estação central da cidade, em tempos em que a ferrovia, por todo o nordeste e interiores brasileiros, mais confortável e mais segura do que as estradas, ainda não havia sido destruída pela ditadura do transporte rodoviário, o mesmo que mata cinquenta mil pessoas por ano no Brasil.
Em minha última noite daquela deliciosa viagem de dois meses e meio, desde o Acre até o Piauí, encerrei o livro Geraldo Vandré, Uma Canção Interrompida, de Vitor Nuzzi. Bom conteúdo em edição mal cuidada. Me pareceu que não houve revisões para eliminar ou corrigir as repetições, as redundâncias, as descontinuidades, as lacunas.
Embarquei na tarde seguinte em voo para São Paulo.
Entrei em casa no mês de junho, em estado de graça pela viagem, longa e fascinante.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

do Acre ao Piauí (via AC, RO, AM, PA, AP, MA, PI) (parte 7/8)

...continuação
Do lado oeste do farol da Pedra do Sal, a praia Mansa, com barcos pesqueiros, quiosques e bares, frequência mais numerosa devido às aguas calmas ao longo de extensa baía. Para leste, a praia Brava, praticamente deserta, sobretudo após o último dos quiosques, a maioria seriamente danificada nas ressacas violentas de dois meses antes. Separando as duas praias, a ponta de pedras, o farol branco, ruínas de construção em madeira rústica, cobertas de palha, provavelmente antiga pousada, bar ou restaurante, erguida em trecho mais alto, sobre lajedos de rocha. Fora isso, pouquíssimas construções próximas ao mar, restando imensos vazios de areia.
O pescador e também presidente da associação dos moradores reclamava do abandono da Pedra do Sal pela administração pública e do consequente desprezo dos visitantes, que preferiam os municípios de Luís Correia e Cajueiro da Praia. Realmente nada chamativos os bares e barracas desmanteladas. Ambas as praias dali, e a ponta do farol, porém, me agradavam pelas belezas naturais, pelo local não badalado, pela tranquilidade, pela oportunidade de, caminhando pela areia das praias, alcançar pontos sem mais ninguém ao redor.
Jantei em quiosque no canteiro central da avenida São Sebastião. A região se alegrava e se movimentava pelas ruas e calçadas. Exceto pelos celulares, afastando olhares, contatos e conversas, a animação reinava na noite em Parnaíba.
No meio do dia tomei micro-ônibus para a praia do Coqueiro, no município de Luís Correia. Após o centrinho discreto e alongado, a primeira e mais popular das praias locais, Atalaia, com infraestrutura suficiente para atender visitantes, sobretudo dos ônibus de turismo.
Dunas altas a alvas se avistavam ao sul da estrada BR-343, na altura da praia Peito de Moça. Mais adiante, ainda no município de Luís Correia, o vilarejo e praia do Coqueiro, onde desembarquei em frente à igrejinha.
Lutei para encontrar acesso livre à praia em razão das residências, bares e restaurantes terem privatizado o espaço e impedido a entrada ao mar. Andei pela areia. Alguns recifes, à esquerda as praias de Peito de Moça e Atalaia. À direita a ponta da praia do Coqueiro, e depois o farol e praia do Itaqui.
Me refugiei em barraca com frequência variada, muitos jovens, poluição de celulares cutucados esquizofrenicamente, especialmente pelas mulheres. Música ao vivo, alternando voz, violão e percussão, com bate-estaca eletrônico de academia. Encarei duas caipirinhas aguadas, minúsculo e saboroso escondidinho de caranguejo, enorme ensopado de sururu.
No final da tarde a barraca ainda lotava, sem falar nas pessoas que chegavam.
Mas me mandei ao ponto de ônibus. Acabei pegando micro que antes seguiu ao vilarejo e praia de Macapá, mais a leste. Pelo caminho, campos vazios, poucos carnaubais, dunas de areia, criações pastando. Construções esparsas pelas campinas, mais próximas à praia. Por conta do extenso percurso de ida e volta, o micro lotou de verdade. Um dos passageiros ligou o som, na base de Aviões do Forró e afins. Os passageiros se descontraíram, cantando as letras mais familiares.
À noite, durante jantar hidratado pela legítima cajuína piauiense fabricada em Buriti dos Lopes, um desenhista, magro, mais gasto pelo tempo que idoso, decidiu me alugar. Primeiro queria fazer minha caricatura. Depois desandou a falar sobre a própria vida, da qual pouco entendi, e a mostrar caricaturas de personalidades famosas, aquelas que todos os do ramo tentam desenhar. Mas eram péssimas e irreconhecíveis sem as legendas do dito cujo.
Após o café da manhã, circulei bastante pelo Porto das Barcas, pessimamente conservado, na verdade abandonado, esperando tudo ruir e se acabar. Pouca coisa em pé e atraente. Isolados sobrados de antigos e notórios moradores, cujos nomes apareciam em destaque na frente, a maioria do começo do século XX. Agências de viagem com roteiros manjados, todos iguais, girando em torno de passeios aos Lençóis Maranhenses, Jericoacoara e, sobretudo, de barco pelo Delta do Parnaíba.
O melhor do centro de Parnaíba, entretanto, estava na efervescência comercial, gente para lá e para cá, estudantes uniformizados entrando e saindo das escolas, motos, centenas de motos, mercados oferecendo produtos frescos, artesanato em lojinhas discretas, fiéis entrando e rezando na Matriz de Nossa Senhora da Graça.
Tomei ônibus ao distrito de Tatus, pertencente ao município de Ilha Grande, na porção oeste da ilha grande de Santa Isabel. Do porto de Tatus partem as excursões de barco pelo Delta do Parnaíba, e também linhas regulares rumo a comunidades ribeirinhas, como a ilha de Canárias. Infelizmente, a fascinante linha de barco entre Parnaíba e Tutóia, no Maranhão, percorrendo os meandros do Delta, permitindo apreciar cenas naturais e humanas de maneira bem mais atraente do que nos passeios das agências de turismo, não mais existia. Eu a experimentara diversas vezes, em ambos os sentidos.
Em Tatus se concentrava a produção de caranguejo retirado dos manguezais do Delta do Parnaíba. A imensa produção do crustáceo abastecia o Piauí e o litoral do Ceará. Pelas ruas de Parnaíba se via com frequência vendedores oferecendo caranguejo em pencas enormes, com dezenas deles, nos cruzamentos e zonas comerciais.
Nas imediações traseiras do porto avistei dunas, entre vegetação rasteira, atrás de casinhas singelas. A curiosidade falou mais alto. Ao final de ruazinha de areia batida, notei trilha estreita e sinuosa que logo começava a subir. Depois da segunda subida mergulhei num mar de dunas de areia clara, a perder de vista, ocupada aqui e ali, nas zonas mais deprimidas, por lagoas de águas cristalinas. Me senti como se estivesse no parque nacional dos Lençóis Maranhenses. Mas eu estava no Piauí, município de Ilha Grande, distrito de Tatus. Delícia das delícias vagar sem direção pelas dunas, cristas, vales, encostas íngremes. De vez em quando me voltava e conferia o caminho percorrido para poder retornar sem me perder. Me refresquei nas águas frescas das lagoas abastecidas pelas chuvas recentes. Depois de um tempo, avançando, avançando, me vi em meio a areia, somente areia, dunas e mais dunas, lagoas, por todos os lados. Nada além daquele mini, mas nem tão mini assim, lençóis piauienses.
O sol do meio da tarde torrava sem dó nem piedade. Marcas de pés nas areias denunciavam que pessoas passaram por ali. Mas, além de dois jegues, não vi uma alma viva sequer. Quanto mais eu avançava, mais eu me aproximava dos cata-ventos coletores de energia eólica, provavelmente os do extremo oeste da praia Mansa da Pedra do Sal. Seria longa e deslumbrante travessia, de Tatus ao farol da Pedra do Sal.
Mas a sede bateu em cheio. Retornei em estado de graça ao vilarejo de Tatus, refazendo mais ou menos, vias minhas próprias pegadas, o mesmo caminho da ida. Os moradores se reuniam na frente das casinhas para a merenda da tarde. Até me convidaram para tomar café com leite. Conversei com a estudante do quarto período de História, área do conhecimento importantíssima para o país, mas que o regime do presidente que odeia o povo queria eliminar das escolas e universidades.
Dois ônibus me devolveram aonde me hospedara.
Nos ônibus e micro-ônibus de Parnaíba, felizmente sem ar condicionado, não havia dispositivos de parada solicitada ao motorista, nem cordinha, nem botão. E, se houvesse, era solenemente ignorado. Os passageiros é que gritavam:
“Desce em frente ao supermercado tal.”
“Na igreja desce.”
Ou o cobrador perguntava em voz alta:
“Desce alguém na federal?”
“Na esquina da farmácia alguém desce?”
E tudo funcionava perfeitamente bem.
Logo após o café da manhã tomei ônibus ao acesso à lagoa do Portinho. Os três quilômetros de caminhada até que passaram rápidos. O caminho é que em nada atraiu. Asfalto estreito e sem acostamento. Espinheiras margeando ambos os lados. E ainda havia motos, carros, até caminhões.
Dunas altas apareceram antes da chegada. Na lagoa do Portinho, águas azuladas, as dunas bem desenhadas à esquerda e principalmente ao fundo, duas ou três canoas, um hotel, bar e restaurante em funcionamento e aberto ao público. Fora isso o local decadente se encontrava abandonado. Imenso bar e restaurante, construído em sólidas estruturas de aço e cimento, de dois andares, coberto de telhas de cerâmica, em ruínas. Outro térreo, também largado às traças. Dois quiosques fechados e, aparentemente, em definitivo. Pena. Área belíssima para os amantes da natureza. As águas frescas e doces. As dunas se estendendo para nordeste e leste, no sentido das praias de Coqueiro, Peito de Moça e Macapá.
De volta à Parnaíba almocei regado à cajuína fabricada em Jatobá do Piauí. Bebida cristalina, infinitamente melhor que os nocivos refrigerantes químicos.
Peguei ônibus, dessa vez grande, velho, caindo aos pedaços, à praia do Coqueiro, em Luís Correia.
Caminhei bastante pela praia, até a ponta onde havia zona de proteção às tartarugas marinhas. Ali começava a praia do Itaqui, com o farol do mesmo nome erguido sobre formações rochosas estratificadas nos fundos elevados da praia. A maré cheia deixava o mar agitado, mas nada que oferecesse maiores perigos. Entrei e me refresquei sob as ondas. Ninguém no campo de visão, a leste ou a oeste. A praia somente para mim.
Com o corpo refrescado e salgado voltei à praia do Coqueiro a fim de encostar o esqueleto em alguma barraca. Detonei porção de moqueca de arraia com farinha. Nas poucas mesas ocupadas ao lado, famílias de Teresina, uma delas com babá e tudo o mais, bem ao estilo escravocrata. Conversavam frivolidades. Relaxei admirando a areia, as ondas, o mar convidativo. Nada como dia útil da semana para obter tamanha tranquilidade e sossego. Fiquei horas assim, em transe, diante do mar.
No centro de Parnaíba, movimento intenso somente no horário comercial, igualzinho a incontáveis cidades pelo Brasil e mundo afora. A cidade se expandia para longe do rio Igaraçu. Ainda assim se mantinha aconchegante, graças a avenidas arborizadas, dotadas de canteiro central largo que abrigava comes, bebes, pistas de caminhada e corrida, bancos para relaxar, similares a parques lineares. E o povo parnaibano conquistava pela simpatia e educação. Fora das grandes vias de tráfego a cidade contava com o simpático calçamento pé-de-moleque, mais bonito, mais barato, mais fresco, de fácil manutenção e absorção das aguas das chuvas. Somente os oligopólios da indústria automobilística para impor o asfalto quente e impermeável, o oposto em beleza e funcionalidade. Nas ruas de bairro, moradias simples, suficientes, de bom aspecto. Não notei miséria escancarada por onde passei em Parnaíba. Os governos estaduais progressistas, além dos frutos dos tempos de Lula e Dilma, fizeram muito bem à grande parte do Piauí.
Nada a ver com perfeição, é claro. O escoamento das águas da chuva continuava um nó sem solução até então. Bastou pancada de chuva de média intensidade para alagar as ruas e avenidas asfaltadas. Dois meses antes, durante a estação das chuvas, Parnaíba sofreu demais com inundações e alagamentos. Tecnicamente as soluções seriam simples. E politicamente? Com a palavra a administração municipal e o tão endeusado setor privado! Não por acaso, na prefeitura de então, sentava figura antológica do coronelismo regional e dissonante do progressismo.
continua...