terça-feira, 24 de setembro de 2019

do Acre ao Piauí (parte 7/8)

...continuação
Do lado oeste do farol da Pedra do Sal, a praia Mansa, com barcos pesqueiros, quiosques e bares, frequência mais numerosa devido às aguas calmas ao longo de extensa baía. Para leste, a praia Brava, praticamente deserta, sobretudo após o último dos quiosques, a maioria seriamente danificada nas ressacas violentas de dois meses antes. Separando as duas praias, a ponta de pedras, o farol branco, ruínas de construção em madeira rústica, cobertas de palha, provavelmente antiga pousada, bar ou restaurante, erguida em trecho mais alto, sobre lajedos de rocha. Fora isso, pouquíssimas construções próximas ao mar, restando imensos vazios de areia.
O pescador e também presidente da associação dos moradores reclamava do abandono da Pedra do Sal pela administração pública e do consequente desprezo dos visitantes, que preferiam os municípios de Luís Correia e Cajueiro da Praia. Realmente nada chamativos os bares e barracas desmanteladas. Ambas as praias dali, e a ponta do farol, porém, me agradavam pelas belezas naturais, pelo local não badalado, pela tranquilidade, pela oportunidade de, caminhando pela areia das praias, alcançar pontos sem mais ninguém ao redor.
Jantei em quiosque no canteiro central da avenida São Sebastião. A região se alegrava e se movimentava pelas ruas e calçadas. Exceto pelos celulares, afastando olhares, contatos e conversas, a animação reinava na noite em Parnaíba.
No meio do dia tomei micro-ônibus para a praia do Coqueiro, no município de Luís Correia. Após o centrinho discreto e alongado, a primeira e mais popular das praias locais, Atalaia, com infraestrutura suficiente para atender visitantes, sobretudo dos ônibus de turismo.
Dunas altas a alvas se avistavam ao sul da estrada BR-343, na altura da praia Peito de Moça. Mais adiante, ainda no município de Luís Correia, o vilarejo e praia do Coqueiro, onde desembarquei em frente à igrejinha.
Lutei para encontrar acesso livre à praia em razão das residências, bares e restaurantes terem privatizado o espaço e impedido a entrada ao mar. Andei pela areia. Alguns recifes, à esquerda as praias de Peito de Moça e Atalaia. À direita a ponta da praia do Coqueiro, e depois o farol e praia do Itaqui.
Me refugiei em barraca com frequência variada, muitos jovens, poluição de celulares cutucados esquizofrenicamente, especialmente pelas mulheres. Música ao vivo, alternando voz, violão e percussão, com bate-estaca eletrônico de academia. Encarei duas caipirinhas aguadas, minúsculo e saboroso escondidinho de caranguejo, enorme ensopado de sururu.
No final da tarde a barraca ainda lotava, sem falar nas pessoas que chegavam.
Mas me mandei ao ponto de ônibus. Acabei pegando micro que antes seguiu ao vilarejo e praia de Macapá, mais a leste. Pelo caminho, campos vazios, poucos carnaubais, dunas de areia, criações pastando. Construções esparsas pelas campinas, mais próximas à praia. Por conta do extenso percurso de ida e volta, o micro lotou de verdade. Um dos passageiros ligou o som, na base de Aviões do Forró e afins. Os passageiros se descontraíram, cantando as letras mais familiares.
À noite, durante jantar hidratado pela legítima cajuína piauiense fabricada em Buriti dos Lopes, um desenhista, magro, mais gasto pelo tempo que idoso, decidiu me alugar. Primeiro queria fazer minha caricatura. Depois desandou a falar sobre a própria vida, da qual pouco entendi, e a mostrar caricaturas de personalidades famosas, aquelas que todos os do ramo tentam desenhar. Mas eram péssimas e irreconhecíveis sem as legendas do dito cujo.
Após o café da manhã, circulei bastante pelo Porto das Barcas, pessimamente conservado, na verdade abandonado, esperando tudo ruir e se acabar. Pouca coisa em pé e atraente. Isolados sobrados de antigos e notórios moradores, cujos nomes apareciam em destaque na frente, a maioria do começo do século XX. Agências de viagem com roteiros manjados, todos iguais, girando em torno de passeios aos Lençóis Maranhenses, Jericoacoara e, sobretudo, de barco pelo Delta do Parnaíba.
O melhor do centro de Parnaíba, entretanto, estava na efervescência comercial, gente para lá e para cá, estudantes uniformizados entrando e saindo das escolas, motos, centenas de motos, mercados oferecendo produtos frescos, artesanato em lojinhas discretas, fiéis entrando e rezando na Matriz de Nossa Senhora da Graça.
Tomei ônibus ao distrito de Tatus, pertencente ao município de Ilha Grande, na porção oeste da ilha grande de Santa Isabel. Do porto de Tatus partem as excursões de barco pelo Delta do Parnaíba, e também linhas regulares rumo a comunidades ribeirinhas, como a ilha de Canárias. Infelizmente, a fascinante linha de barco entre Parnaíba e Tutóia, no Maranhão, percorrendo os meandros do Delta, permitindo apreciar cenas naturais e humanas de maneira bem mais atraente do que nos passeios das agências de turismo, não mais existia. Eu a experimentara diversas vezes, em ambos os sentidos.
Em Tatus se concentrava a produção de caranguejo retirado dos manguezais do Delta do Parnaíba. A imensa produção do crustáceo abastecia o Piauí e o litoral do Ceará. Pelas ruas de Parnaíba se via com frequência vendedores oferecendo caranguejo em pencas enormes, com dezenas deles, nos cruzamentos e zonas comerciais.
Nas imediações traseiras do porto avistei dunas, entre vegetação rasteira, atrás de casinhas singelas. A curiosidade falou mais alto. Ao final de ruazinha de areia batida, notei trilha estreita e sinuosa que logo começava a subir. Depois da segunda subida mergulhei num mar de dunas de areia clara, a perder de vista, ocupada aqui e ali, nas zonas mais deprimidas, por lagoas de águas cristalinas. Me senti como se estivesse no parque nacional dos Lençóis Maranhenses. Mas eu estava no Piauí, município de Ilha Grande, distrito de Tatus. Delícia das delícias vagar sem direção pelas dunas, cristas, vales, encostas íngremes. De vez em quando me voltava e conferia o caminho percorrido para poder retornar sem me perder. Me refresquei nas águas frescas das lagoas abastecidas pelas chuvas recentes. Depois de um tempo, avançando, avançando, me vi em meio a areia, somente areia, dunas e mais dunas, lagoas, por todos os lados. Nada além daquele mini, mas nem tão mini assim, lençóis piauienses.
O sol do meio da tarde torrava sem dó nem piedade. Marcas de pés nas areias denunciavam que pessoas passaram por ali. Mas, além de dois jegues, não vi uma alma viva sequer. Quanto mais eu avançava, mais eu me aproximava dos cata-ventos coletores de energia eólica, provavelmente os do extremo oeste da praia Mansa da Pedra do Sal. Seria longa e deslumbrante travessia, de Tatus ao farol da Pedra do Sal.
Mas a sede bateu em cheio. Retornei em estado de graça ao vilarejo de Tatus, refazendo mais ou menos, vias minhas próprias pegadas, o mesmo caminho da ida. Os moradores se reuniam na frente das casinhas para a merenda da tarde. Até me convidaram para tomar café com leite. Conversei com a estudante do quarto período de História, área do conhecimento importantíssima para o país, mas que o regime do presidente que odeia o povo queria eliminar das escolas e universidades.
Dois ônibus me devolveram aonde me hospedara.
Nos ônibus e micro-ônibus de Parnaíba, felizmente sem ar condicionado, não havia dispositivos de parada solicitada ao motorista, nem cordinha, nem botão. E, se houvesse, era solenemente ignorado. Os passageiros é que gritavam:
“Desce em frente ao supermercado tal.”
“Na igreja desce.”
Ou o cobrador perguntava em voz alta:
“Desce alguém na federal?”
“Na esquina da farmácia alguém desce?”
E tudo funcionava perfeitamente bem.
Logo após o café da manhã tomei ônibus ao acesso à lagoa do Portinho. Os três quilômetros de caminhada até que passaram rápidos. O caminho é que em nada atraiu. Asfalto estreito e sem acostamento. Espinheiras margeando ambos os lados. E ainda havia motos, carros, até caminhões.
Dunas altas apareceram antes da chegada. Na lagoa do Portinho, águas azuladas, as dunas bem desenhadas à esquerda e principalmente ao fundo, duas ou três canoas, um hotel, bar e restaurante em funcionamento e aberto ao público. Fora isso o local decadente se encontrava abandonado. Imenso bar e restaurante, construído em sólidas estruturas de aço e cimento, de dois andares, coberto de telhas de cerâmica, em ruínas. Outro térreo, também largado às traças. Dois quiosques fechados e, aparentemente, em definitivo. Pena. Área belíssima para os amantes da natureza. As águas frescas e doces. As dunas se estendendo para nordeste e leste, no sentido das praias de Coqueiro, Peito de Moça e Macapá.
De volta à Parnaíba almocei regado à cajuína fabricada em Jatobá do Piauí. Bebida cristalina, infinitamente melhor que os nocivos refrigerantes químicos.
Peguei ônibus, dessa vez grande, velho, caindo aos pedaços, à praia do Coqueiro, em Luís Correia.
Caminhei bastante pela praia, até a ponta onde havia zona de proteção às tartarugas marinhas. Ali começava a praia do Itaqui, com o farol do mesmo nome erguido sobre formações rochosas estratificadas nos fundos elevados da praia. A maré cheia deixava o mar agitado, mas nada que oferecesse maiores perigos. Entrei e me refresquei sob as ondas. Ninguém no campo de visão, a leste ou a oeste. A praia somente para mim.
Com o corpo refrescado e salgado voltei à praia do Coqueiro a fim de encostar o esqueleto em alguma barraca. Detonei porção de moqueca de arraia com farinha. Nas poucas mesas ocupadas ao lado, famílias de Teresina, uma delas com babá e tudo o mais, bem ao estilo escravocrata. Conversavam frivolidades. Relaxei admirando a areia, as ondas, o mar convidativo. Nada como dia útil da semana para obter tamanha tranquilidade e sossego. Fiquei horas assim, em transe, diante do mar.
No centro de Parnaíba, movimento intenso somente no horário comercial, igualzinho a incontáveis cidades pelo Brasil e mundo afora. A cidade se expandia para longe do rio Igaraçu. Ainda assim se mantinha aconchegante, graças a avenidas arborizadas, dotadas de canteiro central largo que abrigava comes, bebes, pistas de caminhada e corrida, bancos para relaxar, similares a parques lineares. E o povo parnaibano conquistava pela simpatia e educação. Fora das grandes vias de tráfego a cidade contava com o simpático calçamento pé-de-moleque, mais bonito, mais barato, mais fresco, de fácil manutenção e absorção das aguas das chuvas. Somente os oligopólios da indústria automobilística para impor o asfalto quente e impermeável, o oposto em beleza e funcionalidade. Nas ruas de bairro, moradias simples, suficientes, de bom aspecto. Não notei miséria escancarada por onde passei em Parnaíba. Os governos estaduais progressistas, além dos frutos dos bons tempos de Lula e Dilma, fizeram muito bem à grande parte do Piauí.
Nada a ver com perfeição, é claro. O escoamento das águas da chuva continuava um nó sem solução até então. Bastou pancada de chuva de média intensidade para alagar as ruas e avenidas asfaltadas. Dois meses antes, durante a estação das chuvas, Parnaíba sofreu demais com inundações e alagamentos. Tecnicamente as soluções seriam simples. E politicamente? Com a palavra a administração municipal e o tão endeusado setor privado! Não por acaso, na prefeitura de então, sentava figura antológica do coronelismo regional e dissonante do progressismo.
continua...

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