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sábado, 31 de março de 2012

Paraíba e Pernambuco (parte 5/5)

...continuação
Pulamos da cama para nosso último café da manhã na Baía da Traição, guardar tudo, fechar a conta e botar novamente o pé na estrada.
Quem calculou, emitiu a nota com as despesas e providenciou a cobrança via cartão de crédito foi o próprio estadunidense. Só que a máquina não funcionava, o rolo de papel se prendia, não liberava as vias, bloqueando o encerramento da operação. O estadunidense tentou assim, tentou assado, puxou daqui, empurrou dali. Nada. A transpiração crônica que já lhe era costumeira, se multiplicou, empapando de suor o rosto, braços, costas, mãos. Entrou em pânico e chamou aos berros o marido brasileiro. Este, sempre mais calado e contido, surgiu impaciente, irritado pela interrupção. E se enervou ainda mais ao descobrir o motivo. Arrancou a máquina de cartões das mãos do estadunidense, reposicionou o papel na impressora, reativou a operação. Pronto, estava tudo resolvido. Em menos de um minuto. Se voltou para o marido gringo, bravo, em voz alta, o acusando de incapaz e gritando: “Eu consigo mexer nessa máquina. Fulana também consegue. Até sicrano consegue. Só TU é que não consegue! Tinha que ser gringo mesmo!”. O gringo, humilhado em público pelo marido, tentava disfarçar, entre sorrisos amarelos, trejeitos com os braços, mãos e, claro, mais suor pelo corpo.
Depois de quase quatro dias sem por a mão no carro alugado, pegamos a estrada novamente, desta vez rumo ao interior da Paraíba.
Em rodovias estreitas, mas razoavelmente conservadas, passamos pelas cidades de Mamanguape, Itapororoca, Araçagi, Guarabira, Cuitegi. Serrotes, morros e colinas se erguiam de todos os lados. O traçado sinuoso e acidentado das rodovias exigia atenção redobrada, principalmente diante de carroças, ciclistas, animais, crianças, circulando pelo asfalto.
Baixamos em Areia no final da manhã e nos hospedamos em pousada nova, confortável, caríssima, fornecendo vista privilegiada dos vales e montanhas.
Matamos a sede e tomei cachaça artesanal no famoso bar do Chifre, um tanto desfigurado em comparação às outras visitas que eu fizera a Areia. Retiraram vários chifres das paredes e teto, assim como pinturas coloridas e humorísticas referentes ao tema. As paredes da frente e dos interiores do bar, outrora bizarras e interessantes, se tornaram mais palatáveis a quem prefere a pasteurização e padronização de ambientes. Talvez por interferência de setores conservadores e fundamentalistas de todos os matizes, escandalizados com as manifestações culturais espontâneas da população. Mas as cachaças permaneciam saborosas e caíam como luva para abrir o apetite e elevar os espíritos.
A alta cidade de Areia continuava bonita e atraente, exibindo casario da virada do século XIX para o XX, bem conservado e pintado com cores vivas, disposto em ruazinhas e ladeiras que permitiam entrever as montanhas ao redor. Construções históricas abrigavam museus e centros de cultura. Visitamos a casa do pintor Pedro Américo, natural de Areia e autor, entre tantos desenhos e pinturas, do quadro do Grito do Ipiranga. Em espaço pequeno e modesto, pouco ou nada havia do artista em exibição. A maioria das obras, cópia ou original, vista nas vezes anteriores, foi retirada não sei para onde, deixando a casa desolada e desprovida de interesse.
Após tarde na preguiça, com direito a completo arco-íris surgido depois de chuviscos e garoas vespertinas, jantamos bem no restaurante da pousada. Doses generosas das cachaças artesanais, branquinhas, purinhas, não contaminadas pelo modismo do envelhecimento, abriram o apetite e ajudaram a espantar a sensação de frio trazida pelos ventos que entravam pelos janelões. E um suculento doce de jaca em calda coroou a refeição.
Fechamos a conta dolorosa da pousada depois do café da manhã. Descemos a serra de Areia, reencontrando o calor abafado das planícies cobertas por vegetação agreste e seca. Cruzamos a cidade de Alagoa Grande, terra de Jackson do Pandeiro e da líder camponesa Margarida Maria Alves, assassinada em 1983 pelos latifundiários invasores de terra. Ninguém tinha sido preso pelo crime. Pobre e discreta, Alagoa Grande se acidentava em ladeiras abrigando casario e comércio precários. Escadarias nos morros levavam aos cruzeiros no topo das alturas.
Entramos em João Pessoa pelas praias ao norte da capital, como Bessa e Intermares, mais badaladas e frequentadas pela galera da moda. Deixamos a bagagem no hotel reservado, na praia de Tambaú, novíssimo e caro. Devolvemos o carro na locadora, satisfeitos pelo bom aproveitamento nos onze dias de explorações.
E de volta ao deliciosíssimo, ventilado e aconchegante calçadão das praias de Tambaú e Cabo Branco.
Apesar de variado e saboroso, o café da manhã do hotel novo era servido em salão claustrofóbico no andar térreo do prédio, com o desagradável ar condicionado e a insuportável televisão ligada na rede monopolista de sempre. A decoração de refeitório, a disposição alinhada das mesas, as copeiras circulando de uniforme terrível e botas de borracha branca, conduzindo o carrinho largo e alto para recolher pratos e talheres sujos, forneciam ao local clima de penitenciária ou, no mínimo, salão de fábrica. E para piorar teve um energúmeno que exigiu que aumentasse o volume da televisão a fim de ele ouvir sei lá qual baboseira que a tal rede vomitava pela manhã. O indivíduo despejou o olhar bovino na direção do televisor a fim de ganhar a dose diária de embrutecimento.
Subimos em ônibus urbano. Aproveitamos o dia com pouco sol para circular pelo distante centro histórico de João Pessoa, com casario esparso e construções antigas dignas de nota como igrejas seculares e o mosteiro de São Francisco. No coração administrativo da capital paraibana, entre prédios do executivo, legislativo, judiciário, autarquias, reinava absoluta a estátua de João Pessoa, figura emblemática na história da Paraíba e do Brasil, dando o nome à capital do estado após ter sido assassinado durante as conspirações do que se convencionou chamar de revolução de 1930.
Após nos entregarmos à preguiça merecida da tarde, jantamos espetinhos e carnes em quiosque arrumadinho no calçadão de Tambaú. Precedi o banquete com uma dose de cachaça artesanal branquinha e o acompanhei com caipirinhas bem temperadas. E entre mordidas e goles, contemplávamos o sempre delicioso burburinho e vaivém no calçadão, entre famílias inteiras, casais, grupo de amigos, pessoas sozinhas, de todos os tipos, idades, aparências, comportamentos. Movimento vivo em espaço público e democrático.
Após a tortura no refeitório do café da manhã, nos deparamos com o único dia cinzento e chuvoso daquela viagem. Nada para fazer. Quando o tempo abria, nem que por pouco tempo, andávamos na orla da praia, desenferrujávamos as articulações, respirávamos o ar marinho, observávamos o minúsculo movimento de banhistas nas imediações. Ainda assim, a beira do mar de João Pessoa nos envolvia e nos encantava. E a ligeira queda na temperatura, aliada ao vento onipresente, aumentou nosso apetite, nos levando a refeições mais fartas e substanciosas.
Muita praia, muito sol, muita água do mar, no nosso último dia na Paraíba. Caminhamos bastante pelas areias e pelo calçadão. Mergulhamos no mar, nos espreguiçamos na areia apreciando o movimento dos frequentadores, matamos a sede, nos aquecemos, nos refrescamos.
Fizemos nosso intervalo em quiosque bem simples da praia de Tambaú, entre caldos, espetinhos, cachaças artesanais branquinhas e caipirinhas bem preparadas. Vendedores de chapéus, de óculos, de roupas de praia, de músicas, de artesanatos, duplas de violeiros, circulavam por entre as mesas dos clientes. Ao menor sinal de calor, o chuveiro de água doce, improvisado na areia, logo ao lado de cada quiosque, era acionado para deleite dos calorentos, especialmente das crianças.
Mais preguiça à tarde, aguardando o sol baixar um pouco, antes de mais areia e mergulhos no mar de Tambaú, ao entardecer, como despedida daquela praia aconchegante, bem em frente ao hotel.
No dia seguinte, fugimos da facada dos taxistas e pegamos os mesmo dois ônibus da ida até o aeroporto de João Pessoa. Nada de lotações ou tumultos. Sentamos tranquilamente nos dois veículos em meio a muito espaço para as bagagens.
Encaramos voo direto de quase quatro horas de duração. Contornei a monotonia do percurso com muitas leituras de Oswald de Andrade.
Aterrissamos em São Paulo à noite, sob uma chuva intensa, naquele final de janeiro.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Paraíba e Pernambuco (parte 4/5)

...continuação
Consultamos as duas únicas pousadas instaladas nos tabuleiros de Tambaba. Uma estava lotada. A segunda opção, sem nenhum hóspede. Mas, porém, contudo, todavia, naqueles preços proibitivos, nem pensar.
No fim da tarde, na divisa entre Carapebus e Jacumã, acabamos por acertar pousada nem tão perto da praia, mas com preços honestos e conforto acima do esperado. Suados, esgotados de tanta estrada, calor, procura infindável por hospedagem, largamos tudo no quarto e voamos para a praia.
Deixamos o carro na beira do tabuleiro, descemos a falésia por escada estreita de madeira até faixa minúscula de areia. A maré bem alta batia nos paredões e apenas baías restritas e apertadas ainda expunham porções de areia seca. Os banhistas se concentravam nesses pontos ou mergulhavam nas águas do mar. Foi o que fiz de imediato. Meu corpo pegava fogo e precisava se refrescar urgentemente. Mesmo com o sol se pondo, as águas deliciosas do mar da Paraíba me devolveram a disposição perdida em dia desgastante de procuras. A visão das escarpas diretamente em contato com as águas do mar, restando somente resquícios de praias em miniatura, forneciam ao conjunto imagem atípica e envolvente.
À noite fomos comer tapioca na triste cidade de Jacumã. O principal do comércio, bares, restaurantes, sorveterias, se distribuía ao longo da própria rodovia estadual. Automóveis, motos, ônibus, caminhões, trefegavam a poucos metros das mesas dos fregueses, realçando o tempero dos comes e bebes com fumaça dos escapamentos. Um misto de descuido, indiferença, imediatismo, ganância, faziam com que moradores, turistas de temporada, comerciantes, administração pública, empurrassem com a barriga aquela situação de abandono. As levas de visitantes baixavam aos turbilhões na temporada, gastavam o que não tinham, aproveitavam como podiam, voltavam para as cidades de origem deixando para trás o lixo e os desserviços do balneário de Jacumã.
Aproveitamos a manhã seguinte, quente e ensolarada, para relaxar na praia do Coqueirinho. Em formato de baía, com as falésias atrás, encantava logo de cara. Porém o turismo de um dia das agências de João Pessoa, os condomínios e pousadas construídas como epidemia, bares e barracas na areia, lotavam a praia tirando-lhe parte da beleza natural. O grosso dos turistas se aglomerava ao redor dos bares e barracas de comes e bebes, como regra na maioria das praias do mundo. Curtas caminhadas, para norte ou para sul, nos livravam daquele tumulto, nos deleitando com praias vazias, limpas, tranquilas.
Atravessamos a cidade do Conde e retornamos à BR-101, na direção norte, abandonando-a para enganar o estômago em Mamanguape, cidade não distante da fronteira do Rio Grande do Norte. Acessamos ramal de estrada estadual, cruzando Rio Tinto, cidade marcada por construções que evidenciavam a influência sueca do colonizador.
Não muito depois entrávamos na cidadezinha de Baía da Traição, de frente para o mar do litoral norte da Paraíba. E acertamos pousada de frente para a praia, com quartos amplos e decorados com simplicidade e bom gosto. Nem pensávamos em repetir a tortura da busca sem fim por hotéis e pousadas do dia anterior.
Os fundos da pousada davam diretamente na larga faixa de areia da praia extensa, belíssima, com mar bravo. Os frequentadores se concentravam no ponto onde havia quatro barracas de comes e bebes, no sentido do centrinho da cidade. Fora disso, praia praticamente deserta, limpa, preservada, exuberante, convidativa.
Andamos despretensiosamente, passamos ao lado do ajuntamento de barcos de pescadores ancorados na praia. A maré cheia batia nos paredões do centro da cidade. Parte de praça já danificada apontava o avanço mal humorado do mar. Nesse ponto as construções atingiam o ponto limite da praia, entre paredões de cimento das casas, raras pousadas, bares e restaurantes, todos simples e precários. Em alguns trechos foi preciso esperar o mar recuar para passar. Mais adiante a praia voltava a se esvaziar, se estendendo ao norte. Pouco antes da linha do horizonte, já em terras do Rio Grande do Norte, centenas de coletores de energia eólica compunham a paisagem próxima ao mar.
Ainda entregues à bem-vinda preguiça depois de dias de estrada, fizemos o caminho de volta, pela areia da praia, chapinhando nas águas e espumas brancas do mar. Encostamos o esqueleto em barraca simples, matamos a sede com águas de coco. Almoçamos na própria pousada comida apenas comível.
Mais preguiça à tarde. Pelo menos enquanto o sol do lado de fora torrava os miolos. Depois, me reanimei com mergulhos merecidos no mar de ondas fortes, recuperando as energias, refrescando o corpo.
Comemos na pousada novamente no jantar. A comida, para variar, não empolgou. E um hóspede troglodita ainda trouxe um equipamento de som portátil para a mesa do restaurante, vomitando aquilo que ele queria ouvir e que nos obrigava a ouvir também. A esposa e os filhos do indivíduo chegaram mudos e saíram calados, de cabeças baixas, engolindo a comida que o dito cujo escolheu. O ambiente valeu, porém, pelo vento forte e constante que soprava do mar, revolvendo toalhas de mesa, cabelos, tudo.
A pousada era suavemente dirigida pelo casal proprietário, um estadunidense e o companheiro brasileiro. E a equipe decepcionava na cozinha. Cardápio desequilibrado, sem as necessárias variações, falta de carinho no preparo dos pratos, desarmonia dos temperos, sabores que não empolgavam. Como uma compensação, o casal costumava decorar os cantos dos pratos com uma florzinha aqui, um arranjo com legumes ou verduras ali. O estadunidense se desdobrava em sorrisos e trejeitos do corpo invariavelmente molhado de suor.
O gringo diariamente nos oferecia ovos durante o café da manhã. E perguntava se queríamos mexidos, dobrados ou fritos, com a clara dura e gema mole. Registrado o pedido, ele corria esbaforido para a cozinha. E trazia os ovos acompanhados de alguma meiguice decorativa no canto do prato.
Saímos a caminhar para o lado mais deserto da praia. Esta longa porção da baía se estendia para sul, decrescendo o número de habitações no alto da areia, até não ter mais nada, apenas o mar e a areia. Depois de uma ponta, outra vasta baía ainda mais deserta. Nos fundos da praia, sobre o barranco, placas da FUNAI indicavam início de território indígena demarcado, proibindo a entrada de estranhos.
Nas praias, natureza bruta, somente ameaçada pelos eventuais triciclos motorizados trafegando pelas areias. Aquelas coisas, alugadas no centrinho de Baía da Traição, conduziam clientes que desrespeitavam os limites dos trechos permitidos para circulação. E passavam a toda velocidade pelas areias mais frequentadas, ameaçando banhistas, sobretudo crianças.
Entre conversas esclarecedoras com uma espécie de faz tudo na pousada, aprendemos um pouquinho da cultura potiguar, etnia à qual pertencia e em cujas terras demarcadas ele vivia com a esposa e os filhos. Somente os potiguares legítimos ou os que se casavam com um deles tinham o direito a morar no território indígena e gozar dos parcos direitos dos povos originários, garantidos pela constituição federal e pelo estatuto do índio. Ele se mostrou bastante consciente dos direitos conquistados, embora reconhecesse a insuficiência deles a fim da comunidade viver decentemente em tão poucas terras, cercadas por todos os lados pela devastação socioambiental dos brancos. Lamentou que o Brasil tivesse reparado tão pouco os crimes cometidos contra os povos indígenas nesses quinhentos e tantos anos de ocupação.
Retornamos ao centrinho de Baía da Traição pretendendo encontrar algo substancioso para almoçar que não fosse peixe, frutos do mar ou derivados. O bar e restaurante escolhido ocupava construção ampla e velha, se projetando sobre a praia central e ameaçada pelos avanços do mar. Arriscamos carne de boi grelhada e nos demos bem. Já a caipirinha que ousei pedir veio com cara e gosto de tudo, menos de caipirinha. Nem com imaginação aditivada eu conseguiria sentir lembranças do sabor da cachaça, do limão, do açúcar. Ela chegou num copo alto, cheio de gelo, preenchido de líquido de coloração cinza esverdeada, canudinho, mais de meia hora depois do pedido. Provavelmente ligaram ou chamaram alguém distante para auxiliar no preparo de algo tão exótico para o bar. Até dei uns goles, mas o gosto de cabo de guarda-chuva não me animou a insistir. Relaxei e aproveitamos a vista maravilhosa da praia da cidade, o mar calmo de ondas pequenas, o pequeno movimento de vaivém dos frequentadores, os barcos de pescadores encalhados na maré baixa, a extensa linha do recife com o farol na ponta, os coletores de energia eólica no fundo do horizonte ao norte.
O entardecer encantou com a luminosidade do sol se pondo, da paisagem tingida pelos tons amarelados e alaranjados, da lentidão e preguiça da maioria. Ainda deu tempo de, no caminho de volta, mergulhar no mar bravo nas imediações da pousada, reanimando e repondo as energias gastas no dia quente.
Lanchamos no próprio quarto da pousada os comes e bebes adquiridos em supermercado. E, claro, para não perder o costume, adormecemos cedo, muito cedo.
Instalamos repelente de tomada. Acendemos a espiral a fim de gerar fumaça para espantar mosquitos. Até apelei em borrifar repelente líquido nos braços e orelhas. Tudo para evitar o massacre dos pernilongos das noites anteriores. Nada feito. A situação até piorou com toda essa parafernália química. E a noite pareceu mais quente e abafada que as demais. Perdemos de goleada aquela guerra noturna.
continua...
                            

quinta-feira, 29 de março de 2012

Paraíba e Pernambuco (parte 3/5)

...continuação
O café da manhã do dia seguinte veio mais familiar, mas, claro, sem faltar as peculiaridades regionais. Desta vez foi tigela de salsichas mergulhadas em molho de tomate. Apenas a afastamos de lado e comemos os demais itens.
Bem que tentamos nos informar de rotas alternativas para a Olinda. Tudo para evitar a tenebrosa BR-101 duplicada. Não tinha jeito. A possibilidade de atravessar a Ilha de Itamaracá e o povoado de Nova Cruz para atingir a praia de Maria Farinha esbarrava na irregularidade do serviço de ambas as balsas.
Sem saídas, adentramos novamente na pavorosa e duplicada BR-101. E mais congestionamentos e trânsito pesado na altura do município de Abreu e Lima. Na cidade de Paulista, acessamos estrada diagonal no sentido do mar, mais precisamente rumo à praia de Maria Farinha. Percorremos toda a extensão da praia pela avenida paralela ao mar, abrigando apartamentos e casas de temporada, infraestrutura para visitantes, o conforto necessário, mas carecendo de beleza.
Olinda estava calma, sem guardadores e, surpreendentemente, sem o sufoco dos famigerados guias turísticos. Aliás, ao contrário de minhas outras visitas à cidade, os guias, adultos e mirins, não incomodaram, apenas ofereceram serviços discretamente, sem insistirem.
Caminhamos, exploramos, visitamos, contemplamos, apreciamos, com calma, sem tumultos, sem assédios, as extraordinárias igrejas, mosteiros, ateliês de arte, ruas, ladeiras e becos, construções, casas antigas e bem conservadas. Os destaques ficaram por conta da igreja de São Bento, da vista panorâmica da cidade, das praias e do Recife, obtida do alto da Sé, dos centros culturais, da simpatia dos pernambucanos. Repetíamos as visitas, parávamos, voltávamos, observávamos em detalhes, mais uma e outra vez.
A fome bateu em cheio. Apesar das inúmeras opções oferecidas no bufê do restaurante instalado em quintal arborizado, me concentrei na divina, estupenda, estonteante, saborosíssima galinha à cabidela. Apenas um pouco de arroz branco e angu para realçar a iguaria. E uma generosa jarra de suco de graviola. Preparei dois pratos cheios totalizando um quilo e duzentos gramas de galinha à cabidela. Saí engordado, preenchido, estufado. Nem podia andar e me movimentar direito. Mas saí em estado de graça, pleno de felicidade, satisfeitíssimo, pelo almoço dez estrelas. E o excesso não causou nenhum mal. Nadinha de nada. Prazer puro!
 À tarde pegamos de volta a mesma avenida da praia de Maria Farinha. Avançamos um pouco mais e arriscamos a primeira balsa para o vilarejo de Nova Cruz. Nada feito. Estava quebrada. Manobrei e retomamos a passagem pela cidade de Paulista, o terror da BR-101, o cruzamento pelo deprimente município de Abreu e Lima, o acesso a Igarassu e a pousada em Itapissuma.
Assisti parte dos prosseguimentos da festa de São Gonçalo do Amarante, em procissão de velas, acompanhadas de cantoria puxada por senhora bem idosa, a caminho da igreja matriz. Rojões estouravam convocando os fiéis para a missa em seguida. As águas do canal, vazias e calmas naquela noite, refletiam as luzes urbanas. Solitários e casais de namorados encostados na murada aproveitavam o silêncio da noite. As barracas que ofereciam as pesadas caldeiradas se encontravam fechadas. Um ou outro bêbado cambaleava por ali.
Ao percorrermos as ruas de Itapissuma, a pé ou de carro, éramos minuciosamente observados e analisados pelos moradores, das janelas das casas, sentados em cadeiras em frente às casas ou nas guias das calçadas, de dentro do comércio, de outros veículos. De todos os pontos. Não nos olhavam com censura, mas com curiosidade e espanto.
Atravessamos a extensa ponte a partir do centrinho de Itapissuma e entramos na Ilha de Itamaracá. Iniciamos pela parte sul, mais especificamente pelo Forte Orange, ao lado da praia. Vista da própria areia, a ilha da Coroa do Avião surgia imponente no meio do mar.
O Forte Orange construído pelos holandeses durante a ocupação encontrava-se fechado para visitação interna. Nos contentamos em circundá-lo e apreciar a alta e espessa murada, as ameias, as torres de observação, o manguezal em uma das laterais.
A praia não nos seduziu. Ainda era cedo para descansar a carcaça em alguma barraca na areia. E não estávamos a fim de nos entupir de bebidas. Embarcamos rumo a outros pontos da ilha. Percorremos o centrinho singelo com ruas e comércio pacatos, e mais praias.
O Caminho dos Holandeses, longa estradinha calçada de pedras, nos conduziu ao vilarejo de Vila Velha, situado no alto de uma colina. Compunha-se de casinhas ao redor de um retângulo, igreja secular, produção de artesanato, vista panorâmica do mar e da charmosa ilha da Coroa do Avião. Toda a vila transpirava calma, silêncio, tranquilidade.
Pegamos a estrada de terra no rumo norte na intenção de conhecer as praias oceânicas mais afastadas da agitação do centro e sul da ilha. No caminho nos deparamos com os muros altos de enorme penitenciária, com direito a filas de familiares, amigos e amantes carregando sacos com comida e demais pedidos dos presos. Peruas de lotação e comércio básico se aproveitavam da situação para encher o bolso. Nada diferente das cenas de penitenciárias pelo Brasil afora.
E acessamos as praias mais ao norte, dispostas na chamada Baía dos Golfinhos, a mesma acessada por canoas a partir dos pontos centrais da ilha. Loteamentos sem fim, ainda com vastas áreas vazias, sem construções, casas simples de temporada, comércio suficiente para atender a demanda, ruas sem calçamento. Praia longa, praticamente vazia naquele momento de muitas nuvens e pouco sol. Quiosques esparsos de alvenaria recebiam mais o vento constante que fregueses.
Caminhei pela praia na intenção de chegar à extremidade norte da ilha, bem distante dali. Nada de sol e muito vento cortante. Casas e partes de casas destruídas indicavam o avanço violento do mar. Impressionavam os pedaços de concreto projetados no ar ou despencados sobre a areia da praia. Placas de imóveis à venda mostravam o desespero e o último recurso para não se perder tudo. O vento aumentava de intensidade, acompanhado de chuvisco gelado. Quase uma hora depois atingi a ponta norte da Ilha de Itamaracá sob um clima para lá de inóspito. Um bar de madeira em condições precárias era a única construção por ali. O proprietário e provavelmente morador solitário no mesmo local varria não sei o quê, deslocando areia de um ponto a outro, debaixo de ventania dos diabos e garoa intermitente. As rajadas deslocavam a areia solta da praia e formavam véus esbranquiçados que me chicoteavam violentamente. Ficava quase impossível observar a paisagem da ilha e o continente mais a oeste e a norte, tal a força do vento e da chuva fina. Dei meia volta e caminhei apressado, com o rosto inclinado, tentando me proteger, sei lá como, daquela momentânea sensação de frio.
Pegamos a estrada de terra, passamos novamente ao lado do lúgubre presídio, acessamos o asfalto e cruzamos a ponte para o continente.
De volta ao nosso “lar” na cidade base de Itapissuma, mais rojões avisavam sobre as continuações das festividades de São Gonçalo do Amarante. Chuvas esparsas não impediram que saíssemos para forrar o bucho em restaurante para lá de simples, talvez o único em funcionamento naquela noite.
Mas ainda faltava a vizinha Igarassu. Apesar de termos atravessado a cidade diversas vezes, não nos permitíramos o tempo necessário para explorá-la como merece. E definitivamente o centro histórico de Igarassu merece uma visita detalhada, calmamente, saboreando, sem pressa.
Uma das cidades mais antigas do Brasil, Igarassu oferece conjunto arquitetônico ímpar, entre casarões, igrejas, mosteiros, calçamento pé de moleque, ladeiras, museus, prédios públicos, dispostos em área central do que restou daquela concentração urbana dos séculos XVI, XVII, XVIII. E o destaque ficou por conta da igreja de Cosme e Damião, erguida em 1535, guardando a imagem dos santos gêmeos no altar e demais divisões internas. Construído no mesmo século XVI, o convento de São Francisco reservava rica coleção em obras de arte, pinturas e esculturas, expostas em vasto salão vetado a fotografias. Enquanto perambulávamos pelas ruas de Igarassu, uma banda musical mirim toda paramentada se preparava para ensaiar ao ar livre.
  Saciados de tanto contemplar os testemunhos da história do Brasil colonial, pegamos novamente a BR-101, agora no sentido norte, surpreendentemente vazia. Assim que deixamos Pernambuco e entramos em território paraibano, dobramos à direita, sentido litoral. Passamos por Caaporã, ainda em meio a canaviais a perder de vista, minúsculos e precários vilarejos, caminhões e treminhões trafegando pela estrada estreita, usinas soltando baforadas de fumaça escura.
Tentamos nos hospedar em Pitimbu. Mas a cidade, feia e suja, as opções de hospedagem, caras, ruins e barulhentas, a praia em frente, poluída e nada convidativa, nos expulsaram dali em pouco tempo. Prosseguimos em estrada estadual litorânea no sentido norte.
Pesquisamos inúmeras pousadas e hotéis pelo caminho, nas imediações dessa ou daquela praia do litoral sul da Paraíba. Ou eram absurdamente caras pelo pouco que ofereciam, ou estavam lotadas. Em uma pousada nova, mas extremamente básica e na beira da rodovia, com direito à poluição sonora e do ar, o proprietário com sotaque de língua inglesa ousou cobrar preços estratosféricos. Mesmo com o estabelecimento quase vazio, o gringo se recusou a pechinchar. Se dependesse de nós, o tal lugar permaneceria sem hóspedes.
Paramos em Tambaba, praia famosa pelas famosas falésias e pelo trecho exclusivo para praticantes do naturismo. Hordas de turistas de um dia, conduzidos ou não pelas agências de João Pessoa, chegavam e partiam em minutos. Aterrissamos no único bar e restaurante do trecho sem nudistas. Enchemos a pança com peixe frito e matamos a sede. Relaxamos e apreciamos o visual da pequena praia em frente, no formato de baía com pedras. Mas o que realmente encantou foi o visual do alto do morro na direção norte, com as extensas falésias de frente para praias quase desertas, espumas brancas despejando as águas azuladas do mar nas areias acastanhadas.
continua...
                              

quarta-feira, 28 de março de 2012

Paraíba e Pernambuco (parte 2/5)

...continuação
          Cruzamos cidadezinhas paraibanas adormecidas naquela manhã de domingo, como Mogeiro, Itabaiana, Juripiranga. Pela rodovia, crianças e adolescentes tapavam mais ou menos os buracos do asfalto com areia e terra vindas das margens. E estendiam as mãos aos motoristas que por ali trafegavam na esperança de pingar algum como recompensa. Tais cenas se repetiam a cada maior depressão da estrada onde eram mais comuns os buracos surgidos durante as chuvas.
Bastou cruzarmos a divisa com o estado de Pernambuco para o bucólico do agreste paraibano, pouco cultivado, dar lugar a canaviais sem fim, usinas soltando fumaça pelas chaminés, caminhões e treminhões pela rodovia, restos de cana no leito e margem da estrada, trânsito intenso, poluição, natureza degradada. Era a economia capitalista em movimento. Entrávamos em cheio no miolo da zona da mata pernambucana, com cidadezinhas agitadas, feias, pobres, sujas, entre Ferreiros, Timbaúba, Aliança, Nazaré da Mata. O dinamismo e a injustiça social se escancaravam. Nem precisava muito esforço para notar a pujança econômica aliada à ausência de serviços públicos elementares.
Pouco antes de Carpina apareceu Tracunhaém. Ali entramos e fomos circular do jeito que se deve, ou seja, a pé. O local se notabilizava pelas manifestações de arte popular, sobretudo nas esculturas em madeira, barro, cerâmica. Lojinhas, centros cultuais, ateliês dos próprios artistas, exibiam objetos de diversos tamanhos, formas, cores, estilos, preços. Éramos recebidos com simpatia e sem pressões para vender isso ou aquilo. Faziam questão de explicar as origens, os estilos e motivações que marcavam cada artista.
Retornamos à rodovia. E mais caminhões e treminhões, vazios ou carregados de cana, infinitas monoculturas de cana, chaminés fumacentas das usinas, tráfego intenso, transporte de trabalhadores em condições sofríveis, vilarejos paupérrimos. Igrejas e capelas antigas se erguiam esparsas no meio de tudo. Após a cidadezinha de Araçoiaba, surgiu do nada, na margem de curva acentuada, próximo à usina imensa e ainda mais poluidora, obelisco daqueles da época da invasão do Brasil pelos portugueses. Nele havia o brasão, inscrições, tudo que tinha direito para marcar a posse do estrangeiro.
E batemos de frente com o trânsito infernal da famigerada BR-101. Mas por pouco tempo, felizmente. Entramos no acesso à cidade histórica de Igarassu. Seguimos à cidade de Itapissuma, erguida na margem do canal sobre o qual a ponte liga o continente à Ilha de Itamaracá.
Partimos para arriscar o que parecia ser a única opção de hospedagem por ali. Fechamos negócio. Assim transformaríamos Itapissuma em base para visitarmos Recife, Olinda, Ilha de Itamaracá, Igarassu.
Itapissuma vivia a festa de São Gonçalo do Amarante. Naquela tarde haveria a procissão marítima trazendo a imagem do santo de volta para a igreja da cidade. Era a “buscada” conforme expressão afixada nas faixas espalhadas pela cidade. E a programação da festa ainda duraria mais de uma semana, incluindo procissões, missas, barracas de comes e bebes pelas ruas, brinquedos infantis, sem falar nas apresentações musicais em palco especialmente montado, atividade esta onipresente em qualquer desses eventos, seja religioso, comercial, cívico, industrial, político, militar, etc.
Só com o café da manhã tomado em Ingá, saímos a pé na procura de algo substancioso para encher a pança. Na margem do canal havia comedores improvisados, um ao lado do outro, repletos de mesas e cadeiras com vista para as águas. O cardápio se restringia a caldeiradas de peixes e frutos do mar. Tudo já estava preparado de antemão. Pediu, chegou. Adoro e sempre busquei caldeiradas em viagens pelos interiores e litoral do Brasil. Mas aquela frustrou do início ao fim. Maçuda, enjoativa, excesso de sabores e temperos se disputando num só prato. A fome, a falta de perspectivas nas redondezas, a vista reconfortante das águas do canal, a alegria contagiante dos frequentadores, de certa forma, nos ajudaram a empurrar aquela gororoba. Mas não foi fácil. Enchemos a barriga, somente isto.
E lá fomos nós perambular pelas imediações da igreja matriz e beira da água do canal no aguardo da buscada da imagem de São Gonçalo do Amarante. Os fiéis, turistas regionais, curiosos, aos poucos se aglomeravam nos melhores lugares. Andamos, sentamos, levantamos, paramos aqui e ali, sentamos novamente, circulamos mais, e nada da procissão aparecer no horizonte. Mais gente se postava nas muradas da margem do canal, dirigindo os olhares para sul, na esperança de notar uma concentração de barcos a caminho. Rojões estouravam. Aumentava a movimentação, em terra e nas águas.
Enquanto isso, pudemos notar propagandas políticas a reboque da festa. Faixas na cidade e na ponte, bandeirolas, cartazes, em terra, nos barcos, nas muradas, nos ancoradouros, em toda a parte. Apareciam mais nomes e dizeres dos coronéis locais, prefeitos, vices, vereadores, deputados, aspirantes a cargos variados, do que frases referentes ao santo homenageado. O nome do prefeito entupia a visão de qualquer direção que se olhasse. Verdadeiro massacre visual. Tanto que fiquei em dúvidas de, entre os políticos e a hierarquia religiosa, quem se aproveitava de quem.
O sol já se inclinava no horizonte, o entardecer avançava, quando, bem a sul e ao fundo do canal, a concentração de barcos tomou vulto, navegando em nossa direção. Rojões estouravam, vindos de terra, dos barcos, daqueles próximos aos ancoradouros e daqueles no entorno da procissão. O povo se espremia nas muradas perto das águas, não se cabendo de emoção. A imagem do santo vinha em destaque no convés de embarcação ao estilo dos invasores portugueses. Dezenas de barcos a acompanhavam. Barcos pequenos, grandes, simples, sofisticados, iates, canoas, os maiores com passageiros fantasiados e dançando ao som de músicas carnavalescas. E muitos rojões.
O barco aportuguesado atracou num dos ancoradouros, sendo recepcionado por coroinhas e religiosos em geral vestidos impecavelmente de branco e vermelho. Mas a imagem não seguiu para a igreja, nas imediações da qual nos postamos para a chegada triunfal. Ela ainda partiria em procissão pelas ruas de Itapissuma antes de retornar aos interiores da matriz, na frente da qual as senhoras e os senhores esperavam sentados em cadeiras no topo das escadas.
Bem mais à noite, as cenas de Itapissuma que antecediam às famigeradas apresentações musicais desencorajavam. Bêbados aos montes, homens e mulheres, de idades variadas, uns caindo pelas tabelas, outros se oferecendo e atacando como presas e predadores. Tudo feio, sujo, fedido. Desanimador. E os produtos comerciais da temporada ainda nem haviam subido no palco.
Depois de noite bem dormida em quarto confortável, nos sentamos à mesa do café da manhã. Não havia esquema de bufê e a copeira foi trazendo os itens, um a um. Carne moída ao molho, moela de galinha ao molho, macaxeira, cuscuz de milho, ovos fritos, pão, manteiga, queijo, presunto, café ralo, leite. Ao recusarmos educadamente os três primeiros, ela estranhou e ofereceu carne de charque. Nova recusa. Sugeri frutas e sucos e a moça perguntou espantada, “vocês comem isso?”. Mas trouxe a jarra de suco natural de frutas da terra, mais melancia e mamão. Após o susto, todos se salvaram.
Pegamos a BR-101 rumo sul e batemos de frente a longo e irritante congestionamento logo nas imediações da cidade de Abreu e Lima. Algum acidente, bloqueio, obras na pista, chuvas, outra eventualidade? Nada disso. Apenas excesso de veículos acarretando congestionamento rotineiro naquela rodovia duplicada que nos levaria a Recife. Inferno total. Consequências desse Brasil estupidamente rodoviário e de joelhos diante da indústria automobilística. Dinheiro do povo, tempo e mão de obra foram gastos na construção e depois na duplicação da dita cuja para servir aos interesses das transnacionais do transporte rodoviário. Nem sinal de ferrovias, seja para cargas ou passageiros. Nada diferente da situação calamitosa pelo Brasil afora. Tudo para as rodovias, automóveis, caminhões. Nada para o transporte coletivo de qualidade para o povo, preferencialmente sobre trilhos.
Demoramos duas horas para percorrer quarenta quilômetros. Deixamos o carro no estacionamento da rodoviária de Recife e percorremos de trem a longa distância até o centro da cidade. Aí sim, transporte eficiente, rápido, seguro, confortável. Simples e fácil.
Percorremos a pé as ruas e becos da ilha de Santo Antônio e São José, pelas diversas pontes ligando essa à ilha do Recife Antigo. Nos deslumbramos com a Capela Dourada e o mosteiro de São Francisco, com as inúmeras igrejas que se acumulam no centro velho de Recife. Andamos nos labirintos em meio às bugigangas oferecidas nos corredores estreitos do mercado de São José. Observamos o movimento nervoso das avenidas, dos recifenses a trabalho, nas compras, apenas perambulando. O sol se impunha e torrava nossas cabeças, mesmo protegidas pelos providenciais chapéus.
Reservamos mais tempo pelas ruas da ilha do Recife Antigo, as construções históricas nas imediações do marco zero da cidade, o mar, as esculturas e torres de Francisco Brennand em frente, os restaurantes, bares, botecos, centros culturais. Famintos, entramos em restaurante por quilo bem frequentado pelos funcionários das redondezas. Estranhamente não havia saladas no bufê. De nenhum tipo. Nem uma rodela de tomate, uma folha de alface, uma fatia de cenoura, um anel de cebola. Pelo menos me esbaldei na jarra de suco de caju.
Fizemos passeio de barco pelos rios Capiberibe e Beberibe, mais especificamente ao longo dos trechos que margeiam as ilhas do centro histórico de Recife. Visão que realçou o charme e beleza da capital pernambucana, ainda mais sob a luz do entardecer. Antes do embarque, descendo de outro barco atracado depois de filmar um documentário, assistimos a figura pitoresca de Reginaldo Rossi, ostentando cabelos cobreados, em eterno sorriso, saudando todos, sendo fotografado pelos fãs que faziam fila para abraçá-lo. No final acenou e se despediu com o sonoro “ateé luooogo”.
Mas tínhamos que tomar o trem de subúrbio, pegar o carro e encarar novamente os horrores da BR-101 duplicada de volta a Itapissuma. Já era noite quando tentávamos sair de Recife. O congestionamento massacrava de qualquer direção. Chamar aquilo de inferno seria um eufemismo. A rodovia BR-101 torturava. O tráfego de automóveis e caminhões pouco avançava. Cruzar o munícipio de Abreu e Lima, pertencente à região metropolitana de Recife, novamente beirou à insanidade, tal à desorganização e engarrafamento do trânsito. E novamente os quarenta quilômetros de Recife a Itapissuma pareceram quatrocentos.
continua...
                        

terça-feira, 27 de março de 2012

Paraíba e Pernambuco (parte 1/5)

Saltamos da cama às 5h, ainda completamente escuro do lado de fora. Pegamos as bagagens e logo partimos para a carona ao aeroporto. O aeroporto de Cumbica já lotava naquele início da manhã. Mas sem tumultos ou maiores obstáculos.
O avião decolou cedo de São Paulo nos primeiros dias de janeiro.
Matamos nossa fome matinal durante a conexão no aeroporto do Rio de Janeiro com os itens adquiridos antecipadamente. As migalhas servidas nos aviões não dariam nem para o começo para encher a pança. O segundo trecho aéreo, bem mais longo e cansativo, compensou parcialmente em razão do visual panorâmico do litoral nordestino. O lanchinho frio e minguado servido no voo só fez cócegas.
Encaramos dois ônibus urbanos após o desembarque em João Pessoa no começo da tarde. O segundo nos deixou na avenida da praia do Cabo Branco, a poucos metros do hotel reservado previamente devido à alta temporada.
Bem instalados em quarto arejado, amplo e confortável, antecipamos o jantar pela fome em acelerado crescimento. E mergulhamos de cabeça em porção bem servida de peixada de dourado em quiosque do calçadão da praia. Duas caipirinhas regaram o lauto banquete. Ao perguntarmos sobre as comemorações da virada do ano, o garçom respondeu “assisti um pouco da festa perto do bústchu”, referindo-se ao local tradicional de eventos da cidade, fim da avenida Epitácio Pessoa, divisa entre as praias de Tambaú e Cabo Branco, e onde se ergue o busto do almirante Tamandaré.
Acordamos cedo para nos deliciarmos no farto, variado e saboroso café da manhã do hotel. Servido na cobertura do prédio de três andares, em local naturalmente ventilado, sem o desnecessário e incômodo ar condicionado, e sem o televisor para idiotizar hóspedes e funcionários. Além da deliciosa brisa constante soprada do mar, tínhamos a vista estupenda da praia do Cabo Branco e Tambaú.
Forramos bem o bucho antes de botarmos os pés no calçadão e caminharmos até o farol do Cabo Branco, debaixo de sol nordestino. Passeio longo, mas sempre prazeroso, com direito a águas de coco pelo caminho, a brisa, o visual das praias. Apenas margeamos a Estação Ciência instalada em obra recente do incansável Oscar Niemeyer. Nas imediações do farol, detonamos um litro e meio de água observados pelos macaquinhos saltitando sobre os galhos das árvores e as cadeiras plásticas desocupadas.
Retornamos pela areia da praia, bem próximos à linha das águas do mar, parando para mergulhos refrescantes. Relaxamos na areia antes de arriscarmos quiosque barato ao lado do calçadão, com vista permanente do mar, entre caipirinhas, caldos de camarão e caranguejo, espetinhos de carne. Vendedores ambulantes, sem serem insistentes, perambulando por entre as mesas, vendiam de tudo um pouco.
Partimos para a procura de aluguel de carro pelas dezenas de locadoras da cidade. As maiores e mais tradicionais, além do atendimento robotizado, ofereciam preços exorbitantes, mesmo para os veículos básicos. Fechamos negócio em locadora local, pequena, sem badalação, mas com preços e condições honestas.
No começo da noite, experimentamos o para lá de famoso restaurante especializado em bufê de comidas regionais sertanejas, no bairro da Manaíra. E, em minha terceira tentativa, em anos de visita a João Pessoa, o local novamente não me agradou. As dezenas de opções oferecidas variavam em torno de um mesmo tema, passando má impressão da saborosa culinária do sertão nordestino.
Após mais um delicioso café da manhã na cobertura, naturalmente ventilada e sem a embrutecedora televisão, relaxamos nas areias da praia do Cabo Branco, sem ambições de andanças para cá ou para lá. A praia não lotava. Não faltou o sol paraibano para nos aquecer e nem os mergulhos no mar para nos refrescar.
Depois dos comes e bebes em quiosque, complementamos o apetite com estupenda tapioca recheada de queijo, coco e banana no tapiocódromo de Tambaú.
E nos entregamos à merecida preguiça no restante da tarde. Nos sentamos na mureta do calçadão da praia do Cabo Branco, observando o movimento dos caminhantes, sentindo a refrescante e constante brisa do mar. A frequência, diurna e noturna, era bem familiar, entre várias gerações, de idosos a crianças de colo, passando por adolescentes e adultos, de todas as classes sociais, tipos físicos, intenções. Espaço público e democrático muito bem aproveitado pelos pessoenses e visitantes.
Vendedores de CD e DVD circulavam com os impagáveis carrinhos, pesados, verticais, recheados de ofertas, sempre tocando esse ou aquele sucesso do momento. Um senhor idoso, vestido inteiramente de preto, inclusive o chapéu de feltro e de abas largas, desfilava com um carrinho similar, também preto, ao som de textos bíblicos narrados por um pastor qualquer dessas empresas chamadas de igrejas que comercializam a fé dos outros.
Na tarde seguinte, depois de horas na areia da praia pela manhã, fechamos a conta no hotel, aguardamos a liberação do carro na locadora, enchemos o tanque e pegamos a estrada. Percorremos parcialmente a BR-230 que se dirigia às principais cidades do sertão paraibano.
Pegamos o ramal para a cidadezinha de Ingá. Após perguntarmos sobre hospedagem, encontramos a única opção em atividade. Básica, simples e mal cuidada, a pousada oferecia quarto apertado, com janelões de madeira e sem tela contra os mosquitos, cama de casal sobre base de cimento grudada na parede, meia parede separando o banheiro minúsculo, temperatura interna de forno.
A maioria dos moradores de Ingá ainda sentia os reflexos das enchentes de sete meses antes quando o nível das águas do estreito rio que margeia a cidade atingiu até a metade das paredes das casas, arrastando móveis e pessoas. A população sofreu bastante e aparentemente ainda não se recuperara, material e mentalmente, da tragédia. Naquele janeiro, porém, o rio quase seco exibia fio de água fino e sinuoso, permitindo a formação de campos de futebol na zona de várzea.
Precedi o jantar na própria pousada com duas doses generosas de cachaça alambicada em Areia, entre conversas despretensiosas com o cozinheiro que assou pizza deliciosa. De barriga cheia, averiguamos o movimento da rua, das calçadas. Praticamente nenhum àquela hora da noite.
O café da manhã no dia seguinte veio meio sertanejo meio urbano. Cuscuz, ovos fritos, queijo de coalho frito, fatias de pão já quentes com delgada camada de manteiga ou margarina, café fraco e leite.
Circulamos pela feira semanal nos altos de Ingá, ao redor do mercado municipal, onde se vendia de tudo. As zonas rurais das redondezas baixavam na cidade, ofereciam mil coisas, arrecadavam algum que seria gasto, na maioria das vezes, na própria cidade, no mesmo dia. Produtos agrícolas, carnes expostas para os fregueses e para as moscas, roupas e acessórios, artigos para o lar, redes, CD e DVD carregados pelos infalíveis carrinhos verticais, entre outras centenas de itens.
Em seguida nos dirigimos às itaquatiaras nas cercanias da cidade, onde se localizava a famosa pedra do Ingá. O ingresso nos dava direito a dois guias que nos acompanhavam e descreviam as características das inscrições na pedra, ao ar livre e, depois, no singelo museu exibindo algumas amostras. Inúmeras teorias tentavam decifrar as inscrições cavadas na pedra, em vários formatos e tipos, descritivos, abstratos, geométricos.
Matamos a sede entre conversas sobre a política e os estragos das enchentes aos moradores com os guias, vendedores e visitantes na porta da lojinha logo na entrada. Desceram a lenha nos políticos locais que volta e meia se elegiam para isso ou para aquilo, raramente largando as tetas do poder.
Depois saímos pelas estradinhas locais de terra que cortam o município, nos aproximando da Serra Velha, após inúmeras porteiras entre propriedades particulares, e do povoado de Chã dos Pereiras, ponto de artesanato em tecidos.
Retornamos a Ingá, compramos lanchinhos e improvisamos um almoço tardio sentados no coreto da praça em frente à igreja matriz, enquanto observávamos o fraco movimento da tarde de sábado do interior paraibano. O discreto vaivém pela porta da igreja indicava cerimônia de casamento para mais tarde. Os moradores continuavam a nos olhar como se fôssemos extraterrestres. Mesmo os que passavam de carro viravam exageradamente os pescoços para analisar aqueles dois tipos estranhos perambulando pela cidade.
No dia seguinte, tomamos café da manhã, pagamos a conta em dinheiro vivo e botamos o pé na estrada.
continua...

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

do Maranhão à Paraíba (parte 6/6)

...continuação
A avenida da praia ficava interditada para o tráfego de veículos das 5h às 8h da manhã. Muita gente aproveitava para caminhar, correr, exercitar-se, na avenida, calçadão, na praia. Dia para fazer nada, apenas contemplar o visual, esticar na rede, ler, escrever, trocar ideias com os funcionários da pousada. A proibição de construir prédios de mais de quatro andares na praia de Tambaú mantinha de pé casas antigas e preservava a paisagem como um todo. No final da tarde, os pessoenses retornavam às caminhadas e corridas pelo calçadão da praia.
Alguns moradores se ressentiam da cidade não ser tão turística como Natal ou Fortaleza. Argumentei que, com o crescimento do turismo desorganizado, viriam mais turistas, mais putas, mais menores de rua, mais pedintes, mais concentração de renda, mais riqueza para poucos, mais miséria para muitos. E João Pessoa iria perder a atmosfera calma, as praias limpas, a natureza. O turismo jamais deveria ser prioridade, mas sim os investimentos sociais para a maioria.
O dia amanheceu brilhante. Percorri a praia de Tambaú, a praia de Cabo Branco. Subi as encostas da falésia do farol do Cabo Branco, Pontal do Seixas, o ponto mais oriental do Brasil e da América e, finalmente, baixei na praia do Seixas. Antes do farol, calçadões na praia, casas, edifícios poucos e baixos, muito verde, calmaria. Em seguida, caminhei pela areia da praia ou por ruas atrás das raras barracas ou casas. A praia do Seixas estava vazia e tranquila.
Parei em barraca de comes e bebes frequentada pelos vizinhos que faziam breves paradas e jogavam conversa fora. Entre eles estava o policial civil do turno da noite, o sargento aposentado, a garota bastante “rodada” e mãe de menina de quinze anos, o paulista motorista de táxi. O dono da barraca sabia como tirar as novidades e confissões dos frequentadores.

O taxista conheceu em São Paulo a paraibana onze anos mais velha. Decidiram se juntar e morar em João Pessoa. Nem bem ele acabara de contar a história, a dita cuja apareceu na barraca. Lançou-lhe broncas, xingou, gritou, acusou-o de só querer beber e de não voltar para casa. Ameaçou telefonar para a mãe do paulista e contar tudo sobre o “traste” do filho. Os demais da barraca permaneciam calados e atentos. Muito irritado, o paulista respondia no mesmo tom. O clima esquentou e faltou pouco para saírem no tapa. Mas bastou ela ir embora para ele desabafar. Não suportava mais tanta tirania e até pensava em largar tudo e voltar para São Paulo. Era o segundo casamento para ambos e com filhos em todos eles.
O dono da barraca lançou a teoria, logo endossada pelos demais, que não se devia casar com mulher já “feita” por outro homem. E declarava:
“O cabra tem que “fazer” a mulher para a relação dar certo”.
E todos ficaram à vontade para proclamar que “mulher é louca para dar”, “não existe mulher difícil, apenas mulher mal cantada” e outras frases tocantes. O sargento aposentado se lembrou de um pescador abandonado pela mulher que adorava se perfumar todos os dias antes de trabalhar na casa do patrão. E a conclusão de todos na barraca foi imediata: “só podia estar dando para o patrão”.
Jantei no famoso restaurante de comida regional no bairro da Manaíra. Antes de sair da pousada, a senhora idosa, doente e sedentária, que apenas dormia e se estirava no sofá da sala da recepção para assistir televisão, me declarou em voz alta e clara, carregando no sotaque nordestino, em tom bombástico, que aquele restaurante era muito bom e, o mais importante, era “Selv Selv”. O restaurante, com decoração rústica e preços altos, tinha atendimento simpático, às vezes pegajoso, com as garçonetes exagerando nos agrados e dificultando a escolha dos pratos com calma. Não serviam bebidas alcoólicas. As dezenas de opções no bufê vinham nadando no óleo. Os sabores não empolgavam. Matei a fome e foi só.
As noites de João Pessoa ganhavam mais movimento com a proximidade do final de semana. Mas a calma ainda era a marca e tudo se encerrava cedo. Os pessoenses arrumavam-se antes de sair, vestindo calças, sapato e meia, camisa de manga comprida. Raros os que usavam bermudas.
Peguei o ônibus para o centro da cidade. O centro de João Pessoa contém construções antigas e barrocas de grande valor arquitetônico e histórico, como a catedral, igreja do Carmo, Casa da Pólvora, teatro Santa Rosa e, especialmente, o convento de São Francisco. Datado do século XVII, o amplo convento guarda imagens, afrescos no teto, altares, púlpitos folhados a ouro. A administração atual, em atitude louvável, utilizava o espaço do convento como centro cultural da cidade, abrigando exposições de obras contemporâneas, objetos do folclore paraibano e de outras regiões do Brasil. O guia interno se mostrou bem informado e politizado. Além dos conhecimentos a respeito da história, características artísticas e religiosas do convento, abriu debate sobre a situação da igreja brasileira, o bispo Dom Pelé, o MST, movimentos populares, cultura regional entre outros temas.

Almocei em restaurante perto dali frequentado pelos trabalhadores da região e oferecendo pratos da culinária regional, como bode, galinha matriz de carne dura, arroz de leite e outras iguarias. Serviam comida paraibana na Paraíba. Certíssimo!
As praias não enchiam aos sábados. Mas em toda a extensão havia pessoas aqui e ali, sem multidão, com muito espaço e tranquilidade.
Os pessoenses saíram da toca no sábado à noite. As ruas ficaram cheias, leves congestionamentos, os bares lotados, olhares de busca e contatos, gente produzida. As famílias também se faziam presentes pelas calçadas e bancos da beira da praia. Praticamente todos de pele clara.
Dia longo e agradável pelas praias de Cabedelo e João Pessoa, ente elas Camboinha, Poço, Bessa e Intermares. O mar estava calmo, bonito e colorido, mesmo em domingo nada lotado. Foram comes e bebes nas barracas das praias, mergulhos, em companhia da família da colega piauiense. No final do dia, o pôr-do-sol no Jacaré, situado próximo à foz do rio de mesmo nome. Todos os bares, marinas, restaurantes, tocavam o Bolero de Ravel, sincronizando o final com o exato momento que o sol desaparece no horizonte. A maioria dos bares abusava e cobrava entrada. Nada especial e até pretensioso.
As aglomerações humanas nas calçadas, esquinas, praças, bares, sorveterias e restaurantes em João Pessoa, nos finais de semana, lembravam cidades de interior. Muitos reunidos, conversando ou apenas olhando o movimento, pequeno consumo, dispersão e volta cedo para casa. Os espaços públicos, felizmente, ainda predominavam no lazer de todas as idades. Que os templos do consumo, praga em outras capitais, não destruíssem o jeito pessoense de viver a vida.
Embarquei em passeio diurno pelo litoral sul da Paraíba. Passagem pelas praias de Barra do Gramame, do Amor, do Coqueirinho, Tabatinga, Jacumã, Carapibus. Paramos bastante, inclusive na de Tambaba que contava com área para nudistas. No meio da estrada, havia trecho ilegalmente interrompido com galhos espinhosos para o acesso à praia. Descemos e desimpedimos o caminho, barrando aquela tentativa de privatização da natureza. Era quarta-feira e as praias estavam perfeitas, vazias, tranquilas. Ficou a torcida para que esse paraíso não seja estragado pela indústria do turismo.
Moradora de João Pessoa, a colega piauiense se ressentia do comportamento da maioria dos pessoenses. Apesar de simpáticos e prestativos, orgulho ou arrogância os impedia de procurar, telefonar, retribuir gentilezas. E me contou que o irmão se formara em administração de empresas e ficou sem conseguir emprego por meses. Tentou daqui, dali e nada. Muito comunicativo, aceitou a bizarra sugestão de fazer curso para pastor neopentecostal, mesmo não sendo evangélico ou religioso de qualquer facção. Concluiu o curso com louvor. Passou a atuar como pastor nos templos do comércio da fé. Ganhou fortunas, em dinheiro e afins. Ficou rico com a indústria do fundamentalismo sem nunca ter sido religioso ou crer naquelas baboseiras que tanto repetia aos otários que o sustentavam nos chamados cultos das empresas evangélicas.

Acordei no meio da madrugada com os sons da sacada ao lado. O hóspede dinamarquês, que se considerava escritor, dois paraibanos e uma garota morena com longos cabelos negros, tomavam todas, falavam e riam alto. Os dois paraibanos saíram e logo retornaram com mais bebidas. Então foram embora e o dinamarquês ficou sozinho com a morena que não passava dos dezoito anos. Começaram a sussurrar, ele em inglês com raras palavras em português e ela em português com raras palavras em inglês. O tom das vozes ficava cada vez mais melado. Ela se oferecia dizendo que o namorado não era de confiança e ele se empolgava. Entravam e saíam do quarto dele. Depois desceram as escadas e foram mergulhar nus no mar. Voltaram. Ela insinuava que ele lhe presenteasse com jóias. A partir de agora era love, eram friends. Ele fingia não entender e desconversava. Ela insistia de todas as maneiras. Entraram juntos no quarto do dinamarquês e o silêncio, enfim, reinou na pousada.
Terminei o fraco livro Pedra Viva, de Josué Montello. Doei ao funcionário da pousada que agradeceu comovido. E me contou que a mulher, ainda nova, apanhara demais do ex-marido. Nem o filho tinha escapado. Ela ainda exibia marcas da violência pelo rosto e corpo. Com o novo casamento, ela e o filho tentavam superar o trauma.
Depois de muito procurar, em sebo da cidade encontrei o livro O Círio Perfeito, de Pedro Nava.
Pela manhã o calor estava demais. Foi só preguiça. Li, cochilei, almocei, voltei a ler e a cochilar. Caminhei sob as luzes alaranjadas do pôr-do-sol, tomei banho e estava novo para seguir adiante.
Pensava em encerrar a viagem e retornar a São Paulo. Mas bastou anoitecer, refrescar, as calçadas encherem de gente, de alegria, para eu esquecer momentaneamente da volta. Eu e a piauiense circulamos pelos bares da Manaíra. Enrolamos antes de irmos à casa especializada em forró ao vivo, baseado nos estilos tradicionais como baião, xote e xaxado. Por proibirem a entrada de bermudas e chinelos, desenterrei a única calça que estava esquecida e amassada no fundo da mochila. A animação foi até de madrugada.
O domingo amanheceu indeciso antes de abrir o sol. Os pessoenses invadiram as praias. Caminhei até o farol do Cabo Branco. Mergulhei no mar em frente à pousada. Sentei na areia para contemplar o visual.
O hóspede dinamarquês, em quem pouco ou nada se podia confiar, contou que era navegador, separado com filhos, morava no interior da Dinamarca. Tinha várias namoradas em João Pessoa, todas elas bem jovens. Na pousada desconfiavam que ele era fugitivo da polícia internacional. Havia outro hóspede canadense de meia idade. Não conversava com ninguém. Comprava quilos de frutas tropicais e as consumia aos poucos no quarto. Vivia solitário no frio canadense e se presenteava com esses momentos um mês ao ano.
Almocei no restaurante próximo à pousada, especializado em comida sertaneja. Os saborosos pratos estavam dispostos em tigelas fumegantes. Era outro no estilo “Selv Selv”, mas sem comida nadando no óleo ou atendimento pegajoso. À noite aportei em bar para degustar excelentes cachaças paraibanas. Todas as cachaças brancas, nada de envelhecimento que estragam o odor e o sabor de cana destilada.
Os televisores infestavam todos os cantos da cidade. Nem carrinho de cachorro quente escapava da tirania. O proprietário trazia o aparelho de rodinhas para os fregueses comerem e se idiotizarem ao mesmo tempo.

A praia de Tambaú era bastante frequentada pelos casais durante a noite e madrugada. Alguns transavam, se lavavam nas águas do mar e voltavam ao calçadão tranquilamente.
Renovei meu estoque de livros em ótimo sebo do centro da cidade. Saí satisfeito com a aquisição dos dois volumes de Marco Zero, de Oswald de Andrade, Revolução Melancólica e Chão, além de Baú de Ossos, de Pedro Nava.
O nascimento da enorme lua cheia, no fundo do horizonte do mar e defronte à pousada foi de arrepiar. A bola avermelhada nascendo acima das águas fazia com que todos parassem para contemplar. Eventualmente as nuvens a cobriam para depois a exibirem ainda com mais brilho.
João Pessoa lotou durante o feriado da semana santa. E se perdeu com a mania do som no último volume vomitado dos porta-malas dos carros. A pousada recebeu casais pernambucanos e potiguares, invariavelmente fechados. Os machistas vigiavam as mulheres submissas. As praias estavam mais cheias que de costume. Mesmo assim não lotou e havia espaço para todos. Caminhei até o Cabo Branco entre mergulhos.
A encenação mais concorrida da paixão de Cristo na noite daquele sábado de aleluia ocorreu no centro de João Pessoa. Artistas de televisão foram contratados para atrair um público, claro, de televisão. As fãs compareceram em grande número para assistir ao espetáculo sob as árvores da praça central da cidade. Eram cinco palcos onde cerca de cinquenta atores e figurantes se revezavam. Um daqueles galãs de novelas interpretava o Cristo na cruz. Ao abrir a boca, as fãs gritavam histericamente, sequer ouvindo as palavras dele ou de outros atores.
Meu último dia na cidade foi o mais feio de toda a viagem. A chuva não deu descanso. As raras pessoas que arriscaram a praia logo se retiraram. As barracas ficaram vazias, as areias desertas, o mar crespo e acinzentado, a paisagem triste e silenciosa.
O plano original de passar três dias em João Pessoa se transformou em três semanas. Era sempre um dia a mais, outro dia a mais, mais um dia. E eu fui ficando, ficando, conhecendo pessoas interessantes, me envolvendo, gostando, ficando mais. E aqueles vinte e um dias de permanência refletiram fielmente a minha relação com a cidade.
O ônibus para São Paulo partiu com assentos vagos. Choveu muito na BR-101. Menores se prostituíam nas paradas de caminhoneiros em Pernambuco e Alagoas. Barracos de lona preta dos trabalhadores rurais sem terra se estendiam nos acostamentos. Imponentes formações rochosas chamaram a atenção nas imediações do vale do Jequitinhonha.
Entrei em casa no meio da manhã de abril. Fedido, cansado, faminto, mas indecentemente feliz pela longa viagem, livre e no meu ritmo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

do Maranhão à Paraíba (parte 5/6)

...continuação
Atingi os pés da estátua branca do Padre Cícero com vinte e cinco metros de altura. E logo fui cercado por guias, vendedores de pulseiras, correntes, anéis, lembranças, imagens religiosas, miniaturas relacionadas ao tema, a maioria crianças com menos de dez anos de idade. Quem não tentava vender, pedia esmola. Tudo com muita insistência. Não desgrudavam. A base da estátua estava coberta de plástico e tapumes aguardando verbas para a restauração e contenção da estrutura abalada pelas chuvas. Romeiros escreviam mensagens e nomes na tinta branca da estátua onde já não havia espaço livre. Escreviam sobre os textos antigos e ninguém conseguiria ler nada. Do topo do Horto, ampla visão da cidade de Juazeiro.
Perto dali o museu, reproduzindo cenas da vida do Padre Cícero, mais a exposição dos objetos e fotos dos devotos em agradecimento às graças alcançadas. Imagens fortes e tristes. Também estava sendo construído o novo santuário de estilo exageradamente moderno e de gosto duvidoso. Do lado do museu saía longa trilha até o Santo Sepulcro. Já trilhava os primeiros passos quando as senhoras do casebre ao lado me advertiram para não prosseguir desacompanhado, em virtude do risco de assaltos. Comentaram que naquela mesma semana uma senhora havia sido assaltada à faca.  
Parado ali na praça, um ônibus escolar muito velho, amarelado, frases em inglês na carroceria, em péssimo estado, aparentando mais de quarenta anos. O país original se livrou daquela sucata e ainda recebeu por isso.
Retornei à cidade pelo mesmo caminho, agora com sol e intenso mormaço. Não me apressei, a fim de observar melhor as casas e moradores.
Comovia o comportamento dos fieis diante das imagens do Padre Cícero, espalhadas pela cidade, estátuas e oratórios, admirando-as, tocando-as com as mãos antes de se persignarem e rogarem pela salvação. Alguns se ajoelhavam, lamuriavam, rezavam, veneravam as imagens, em atitudes cotidianas dos moradores, romeiros, visitantes.

As ruas da cidade viviam cheias de gente e com esgoto correndo a céu aberto. Menores de rua ofereciam insistentemente serviços de engraxate, vendas de bugigangas. Se nada funcionasse, pediam esmolas, qualquer quantia. Se não tinha trocado, respondiam que podia ser graúdo também. Pareciam gravadores, pior que mosca antes de chuva, não desistiam facilmente. A rua Padre Cícero concentrava as clínicas, os consultórios médicos e odontológicos, atendendo as cidades e vilas da região. Com esse nome de rua, devia ser grande a garantia de bom atendimento e, principalmente, da cura dos pacientes.
Visitei o memorial de Padre Cícero no centro, com fotos e pinturas relatando a história do santo. Próximo dali o oratório com a imagem em frente à igreja do Socorro, onde foi enterrado. Muitos paravam em frente ao oratório, ajoelhavam-se, pediam, choravam, imploravam, tocavam, se esfregavam nos panos da imagem. Uma idosa derrubou a pequena estátua do alto do oratório, que não se quebrou ao bater no chão. Pronto! Todos os demais se emocionaram e atribuíram a resistência ao Padre Cícero. Ao redor, lojinhas e barracas vendendo lembranças religiosas, além de muitos dormitórios simples para abrigar romeiros. No piso do altar da igreja de Socorro, local pequeno, simples e despretensioso, encontra-se a lápide da tumba com as últimas palavras dele antes de morrer e, é claro, a lista de parasitas da elite regional que exigiram a inclusão dos nomes ao lado.
Incalculável o número de pousadas, hotéis, dormitórios, abrigos, voltados aos romeiros, espalhadas pela cidade e principalmente nas imediações dos locais sagrados. Recebiam, na maioria dos casos, o nome de Padre Cícero, alterando apenas o antes, isto é, pousada, hotel, dormitório, hotel e pousada, pousada e restaurante, dormitório e refeitório e assim por diante. O mesmo acontecia com os demais pontos comerciais, sobretudo os mais simples.
O tempo abriu na parte da tarde e finalmente a noite foi limpa e estrelada. Aproveitei para andar bastante, sentar em barzinho da praça, Padre Cícero obviamente, para observar o vaivém dos moradores. No centro da praça arborizada e agradável, a estátua de cor dourada do padroeiro, bastante venerada e tocada pelos devotos.
Acordei cedo para ir a Santana do Cariri, aos pés da chapada do Araripe e sede de um dos principais museus de paleontologia do país. Peguei o ônibus urbano ao Crato onde subi na primeira caminhonete lotação da fila. O percurso subiu toda a chapada do Araripe, cruzou já no topo a floresta nacional do Araripe, efetuou rápida parada na cidade de Nova Olinda, desceu novamente a encosta da chapada, atingindo a cidadezinha de Santana do Cariri, incrustada no vale entre as escarpas da serra. Desconfortável foi manter a posição curvada enquanto sentado na carroceria coberta da caminhonete, ao lado de outros passageiros. Mesmo assim debati com o comerciante ilegal de fósseis da região, que coletava e vendia as preciosidades, clandestinamente e a preço de banana, aos grandes traficantes. Alertei sobre os malefícios da atividade predatória que, além de agredir a natureza, em pouco tempo esgotaria essa fonte de renda regional.
De Santana do Cariri se avistavam as imponentes montanhas da chapada, o Pontal da Cruz, localizado no topo da serra, composto da igreja e da cruz branca. A Chapada do Araripe é uma das maiores concentrações de fósseis do mundo, guardando espécies de peixes, plantas, insetos, ptetossauros de grandes de dimensões. E a maioria em ótimo estado de conservação. O museu de paleontologia, embora pequeno e básico, mostrou a história geológica da região em mais de cem milhões de anos.
Crato, Juazeiro e inúmeras cidades nordestinas exibiam linhas de trem e estações ferroviárias ainda intactas, grandes, bonitas, mas, infelizmente, desativadas. As linhas estavam abandonadas e cobertas pelo mato. Triste desperdício para o Brasil e os brasileiros na desativação premeditada para beneficiar as transnacionais do transporte rodoviário.

Embarquei em ônibus para Sousa na Paraíba. O trajeto cruzou campos e caatingas esverdeadas, serrotes, buritizais rodeados de aguapés coloridos, açudes quase cheios, cidadezinhas. Praticamente nada de plantações ou uso da terra. Na cidadezinha na beira da estrada, a faixa em frente ao bar e restaurante alertava “é proibido o uso de som do carro”. Perfeito! Se todos agissem assim, a paz voltaria a reinar nos espaços públicos e ficaríamos livres da ensurdecedora poluição sonora dos veículos.
Saía da pobreza do Ceará e entrava na miséria da Paraíba. Desolava o aspecto das vilas e cidades paraibanas. Ruas esburacadas, casas ou barracos em péssimo estado, semblante desesperador dos moradores na beira da estrada, escancaravam cenas reais do sertão nordestino devastado pelo latifúndio, autoritarismo, indústria da seca. Os paraibanos são ainda mais claros que os cearenses, alguns aloirados, e o sotaque mais carregado e rústico.
Em Sousa me hospedei em hotel velho e decadente, de propriedade de família tradicional da cidade, cujos funcionários pareciam fantasmas. O quarto era amplo e com cama de casal. Mas o hotel dava espetáculos de abandono e má gestão. A iluminação do quarto mal iluminava, sem falar na lâmpada queimada do banheiro. A janela do quarto tinha menos de meio metro de largura e a persiana estava emperrada, impedindo a entrada de luz. Os imundos tacos do piso se soltavam por nada. O chuveiro, mal instalado e direcionado para a torneira, vazava, ao lado do registro danificado. O telefone ainda era de disco e estava mudo. O supérfluo ar condicionado apresentava todos os seletores quebrados, tornando impossível regular temperatura, direção dos jatos, etc. O teto mofado denunciava vazamentos em outros andares. As formigas tomaram o poder no quarto, ocupando a maioria dos lugares, subindo e descendo da cama sem pedir autorização. E o paradoxo de tudo isso, o televisor, novíssimo, último tipo.
A área central de Sousa era organizada, com a praça principal rodeada de residências, sombreada pelo verde das árvores frondosas, a nova e imponente catedral ao lado da antiga igreja, pequena e charmosa. Os moradores saíam para caminhadas vespertinas pelas ruas e praças, usando uniformes esportivos, sobretudo as mulheres. Uiraúna, cidade natal de Luiza Erundina, ex-prefeita de São Paulo, fica a cinquenta quilômetros ao norte.
Descobri restaurante familiar muito simples, com serviço informal e atencioso, no quintal coberto de uma casa. As carnes desejadas, nas quantidades desejadas, no ponto desejado, vinham diretamente da grelha. Também serviam caldo de ovas de curimatã. O ambiente estava repleto de universitários da classe dominante local, de peles claras, bem vestidos, gordinhos, bem alimentados, com celular na cintura, rindo alto.
Caminhei quatro quilômetros em estrada asfaltada sem acostamento e mais um quilômetro na estrada de terra. Além do centro de visitação, logo na entrada, o parque dos Dinossauros reservava museu com fotos, amostras, gráficos explicativos sobre os dinossauros e as pegadas de mais de 120 milhões de anos, encontradas em vários municípios da região e figurando entre as mais importantes do mundo. Passarelas facilitavam a observação dos cerca de cinquenta metros de enormes pegadas dos dinossauros no leito seco do rio ao lado.
À noite, o salão coberto e ventilado do clube de Sousa, onde ocorria o festival de violeiros e repentistas, lotava com centenas de pessoas, da cidade e regiões vizinhas. Ninguém estava ali para se exibir, e sim para se encontrar e principalmente ouvir os artistas mostrarem as qualidades de poeta e cantador. A idade era variada, tanto dos repentistas como da plateia. A maioria das orgulhosas mulheres presentes estava acompanhada.
O festival consistia do concurso de improvisação para duplas de violeiros, provenientes da Paraíba, Pernambuco, Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte. O corpo de jurados sentado em frente ao palco avaliava o desempenho das duplas em quatro categorias distintas. No intervalo do desempenho dos concorrentes, havia apresentações da dupla de emboladores Beija Flor e Vem Vem, com cocos ao som dos pandeiros, e também de poetas que recitavam versos engraçados. Barraquinhas vendiam fitas cassete e CD’s.

A primeira categoria do concurso era a estrofe com seis versos, com tema sorteado na hora para cada dupla, as quais tinham um minuto de preparação e seis minutos de apresentação. Entre os temas sorteados, política, futebol, mulher, amizade, negócios. A segunda categoria sorteou o mote de sete sílabas, a ser repetido no último verso de cada estrofe improvisada. A terceira categoria, análoga à anterior, exigiu o mote com doze sílabas. A quarta categoria pedia tema livre, mas em cima de estilos sorteados, entre embolada, coco, galope à beira mar, reino da canoa.
Durante as apresentações, a plateia se manifestava conforme o efeito produzido pelos versos. Mas todos ouviam com atenção e ovacionavam os prediletos. Nos temas improvisados que remetiam a temas políticos, de segurança, pobreza, saúde, o calor dos versos contagiava e recebia apupos, gritos, palmas. Não havia truques, era improviso puro. Algumas duplas se sobressaíram, mas todas tinham valor.
Na parte externa do salão, o bar do clube vendia o trivial. Mas um ambulante oferecia espetinho de queijo ou carne com coberturas de creme de farinha de mandioca e outros ingredientes, por preço irrisório. O processo de preparo demorava, abrindo e fechando a chapa quente, jogando repetidas camadas de creme enquanto girava os espetos. Entrei duas vezes na fila para variar o sabor.
O hotel em que me hospedei possuía piscina no primeiro piso. Mas, considerando o desleixo em tudo, não estranhei a água suja, amarelada, coberta de uma variedade de bichos. Na última vez que foi limpa e tratada, provavelmente os dinossauros ainda circulavam na região. Entrei em acordo com as formigas, as legítimas proprietárias do quarto, e consegui dormir.
Embarquei em lotação rumo ao distrito de São Gonçalo, onde se encontrava açude de mesmo nome, cercado de colinas. Na primeira delas, havia gruta com oratório e oferendas, além de restaurantes e bares. Permaneci horas por ali, sentado, contemplando o visual do açude, as ilhas, barcos, casas, tomando caipirinhas, detonando tucunaré frito com baião-de-dois.
O percurso de ônibus se Sousa a João Pessoa cruzou a caatinga, verde pelas chuvas recentes, mas caatinga, com árvores espinhentas, galhos retorcidos, serras pedregosas com vegetação rala, nas proximidades de Santa Luzia. Após Campina Grande, a vegetação passou à agreste com trechos de mata atlântica. Poucas áreas plantadas, geralmente de milho e palma. O banheiro do ônibus logo apodreceu, exalando odor impraticável. Passageiros passaram mal e vomitaram devido ao mau cheiro. Exigimos que o motorista parasse no primeiro posto e providenciasse a limpeza interna, no que fomos prontamente atendidos. Tudo ficou limpo e cheiroso. A viagem prosseguiu em paz.
Cheguei na capital no horário de pico. O trânsito não fluía.
Ao descer do ônibus urbano vindo da rodoviária, avistei uma pousada de frente para o mar. Foi o achado da viagem. O quarto no pavimento superior era amplo, claro, com três camas, duas grandes janelas de vidro basculantes, propiciando ventilação natural e vista deslumbrante da praia de Tambaú. Ao lado do quarto, varanda com mesa, cadeiras e redes. O preço era razoável, a localização ideal, o aspecto satisfatório. Arriei a mochila e fiquei.
Dei volta rápida de reconhecimento pela praia. Pequeno movimento de pedestres, poucos bares abertos, lojinhas para turistas, raros prédios altos. A chuva desabou. Abri as janelas basculantes e entrou a brisa fresca. O supérfluo ar condicionado permaneceu desligado durante toda a minha estadia. Segunda-feira à noite, chuva, e a avenida da praia de Tambaú ficou completamente deserta, num silêncio total.
continua...