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sexta-feira, 20 de setembro de 2019

do Acre ao Piauí (via AC, RO, AM, PA, AP, MA, PI) (parte 6/8)

...continuação
Foram duas horas de ônibus comum para percorrer setenta quilômetros a Mazagão Velho, pela rodovia AP-010. Após o acesso à Santana, vieram os campos de cerrado. Parecendo cruzamento de gado com hipopótamo, búfalos mergulhavam em alagados repletos de buritis, cujas lâminas das águas refletidas pelo sol davam espetáculos de brilho e esplendor. Ao sul do rio Matapi, atravessado por ponte em arco, o cerrado deu lugar à floresta mais úmida. Mais rios, mais pontes, alguns balneários fluviais com banhistas de fim de semana.
Entrada em Mazagão Novo. Cidadezinha planejada e espalhada. Já se notava o aumento de negros, mulatos, cafuzos. Adiante, a rodovia AP-010 mergulhou de vez na floresta úmida, intercalada de campos verdes.
Desembarquei em Mazagão Velho, fundada em 1770, a partir de transferência, pelos invasores portugueses, da colônia de mesmo nome na costa do Marrocos, onde os cristãos guerreavam contra os muçulmanos.
Banhada por igarapé de águas escuras e cristalinas, repleto de árvores, buritizais, aningas, a vilazinha conquistava pela tranquilidade, bucolismo, sossego, beleza do pequeno casario diante do balneário de Matuapá. As famílias colocavam cadeiras na frente das casas para conversar e observar o movimento.
Também de frente ao igarapé, a igreja de Nossa Senhora da Anunciação, ao redor da qual eram celebradas as festividades de São Tiago no final de julho. Maior presença de negros e mulatos, descendentes diretos dos africanos escravizados pelos europeus durante séculos na América.
O lavrador negro cinquentão, devido a problemas renais, parou de trabalhar na roça e apelou à culinária para sobreviver. Com os dentes estropiados como o primeiro, o outro negro já estivera no Marrocos, justamente na antiga Mazagão, atual El Jadida. Ele conhecia bastante das duas Mazagão, a marroquina e a amapaense, e me pincelou parte daquela intrigante história.
Assisti parte do baile no clube, sem paredes, de frente para o gramado e o balneário. Vocalista e teclado com percussão programada tocavam repertório próprio e novo aos meus ouvidos. Alguns dançavam em frente ao palco. Outros assistiam da calçada ou das varandas das casas.
Peguei ônibus para encarar longa viagem de volta a Macapá.
Embarquei pela manhã em Santana em navio rumo a Belém. A suíte contava com ar condicionado, fixado em 16 graus, temperatura indecente até para siberianos. A camareira afirmou a “impossibilidade” de regular a temperatura. Assim como em outros navios eu providenciaria o controle remoto junto à cabine de comando para ajustar às civilizadas temperaturas de 23 ou 24 graus. Das três refeições apenas o café da manhã estava incluído no valor da passagem.
O navio zarpou com poucos passageiros. À tarde começou a balançar. As águas se revolveram sob a chuva fina.  O navio, como regra nas tardes modorrentas, mergulhou no silêncio.
Mais tarde a embarcação penetrou no labirinto de canais, por entre ilhas do arquipélago de Marajó. Oportunidade para apreciar de perto a floresta amazônica, os açaizeiros, esparsas casinhas de madeira na forma de palafitas, a genial solução cabocla. Após trecho em água grande, entrou no estreito e longo canal do Limão.  Dois barquinhos se aproximaram e descarregaram dezenas de sacos de murmuru, fruto pequeno e acastanhado, utilizado como matéria prima na indústria de cosméticos. Das casinhas precárias de ambos as margens saíam canoas, normalmente conduzidas por crianças, na esperança de receber donativos dos passageiros do navio. Mendicância similar àquela do estreito de Breves, ao sul do arquipélago. Além das palafitas, comércio, serrarias, posto de combustíveis. Tudo básico, simples. Nenhuma escola. Nenhum posto de assistência médica. Nenhum centro ou projeto cultural. Mas lá estavam as empresas do fundamentalismo evangélico, aos montes. As mesmas empresas que apoiam e participam do regime contra o povo do governo federal. As mesmas que sugam os bolsos e as mentes dos ribeirinhos asfixiados entre o nada e aquilo.
Choveu fino durante toda a travessia do canal do Limão. No bar dos fundos do terceiro piso do navio a tripulante e alguns passageiros assistiam com olhar bovino a filme de fantasia estadunidense.
Conversei com paraense que já trabalhara de tudo em São Paulo. Atualmente comprava e vendia roupas. Reclamou do mal que o governo federal de plantão, o antipopular, tem feito ao povo brasileiro e que temia a situação piorar ainda mais com aquele regime de ricos contra pobres. Sentia saudades das políticas sociais e distributivistas dos governos Lula e Dilma.
Dormi bastante. Se houve paradas do navio durante a madrugada, não ouvi um ruído sequer.
Acordei cedo e tomei o café da manhã. Não houve filas entre os cerca de cinquenta passageiros. Exceto o trajeto de Manaus a Nhamundá, quatorze anos antes, no qual havia menos de dez passageiros, aquela era a viagem mais vazia a bordo dentre os percursos fluviais que realizei pela Amazônia.
Lá fora, água grande. Nada de terra firme próxima, somente no horizonte distante. Outras embarcações navegavam a perder de vista. O sol ameaçava furar o bloqueio das nuvens.
Mais tarde as chaminés poluidoras do distrito industrial de Barcarena. Pouco depois, no fundo do horizonte, a linha de edifícios altos da cidade de Belém. Desembarquei no terminal hidroviário da capital paraense no meio da manhã.
Jantei em restaurante lotado em noite de segunda feira. Duas mesas comemoraram aniversário. A tradicional celebração do restaurante incluiu luzes apagadas, chapéu de palhaço nos aniversariantes, fogos, garçons caracterizados, fotografando, dançando, cantando os parabéns. Porém, detalhe bizarro, os garçons cantaram primeiro em inglês e depois em espanhol, somente nessas duas línguas, em ritmo caribenho indefinido. Todos ali, nas mesas, corredores, nas cadeiras, funcionários e clientes, aniversariantes, todos, sem exceção, eram brasileirinhos da silva. Cenas para agradar aqueles indivíduos fanáticos que vestem camisetas da CBF, dançam nas avenidas em volta de um pato e, com pavor dos pobres, imploram por golpes de Estado e por ditadores.
Caminhei bastante pelo centro histórico de Belém. O forte do Castelo, a Casa das Onze Janelas, a praça da catedral, o museu de Arte Sacra, o mercado Ver-O-Peso, as tendas de alimentos, artesanatos, garrafadas, peixes, açaí, polpas. Destaque para os comes e bebes no balcão, especialmente peixe frito ou camarão, acompanhado da cuia de creme fresco de açaí, sem açúcar, à paraense. E a centrífuga bem em frente, produzindo, a todo instante, aquele creme divino assim que a tigelona baixasse de nível.
Encerrei Úrsula, livro de Maria Firmina dos Reis. Escrita rebuscada demais. Enredo romântico e dramático ao extremo. Abordagens ingênuas e religiosas do começo ao fim. Tá, o livro é de 1859. Tá, a autora denuncia a escravidão, ainda que em curto trecho, numa época em que ninguém o fazia, ainda mais uma mulher. Descontos à parte, o livro vale somente para estudiosos da história da literatura. Ou para os que buscam referências, embora breves, aos crimes do comércio de escravos e da própria escravidão. No entanto, longe do tema e enredo central do livro, as reflexões sobre a escravidão se dão em poucas e pequenas passagens.
Em fim da tarde o ônibus praticamente vazio, confortável, com o ar condicionado em temperatura civilizada, partiu rumo ao Piauí.
Pela BR-316, depois de parar em Capanema para o jantar, o ônibus atravessou a ponte sobre o rio Gurupi e alcançou a primeira cidade do Maranhão, Boa Vista do Gurupi. E logo adormeci.
O trecho maranhense da estrada rendeu sacolejos do veículo em razão dos buracos e irregularidades da pista. Após margear várias cidadezinhas, inclusive Zé Doca, entrou na rodoviária de Santa Inês pouco antes do amanhecer. A partir daí, estrada estreita, embora de nome BR-222, se apresentando mais conservada. Valeu por se livrar do tráfego pesado das rodovias principais e tomar contato com o nordeste do Maranhão. Desembarcaram e embarcaram passageiros nas inúmeras paradas, como Vitória do Mearim, Arari, Miranda do Norte.
Os babaçuais reinavam na paisagem aplainada, eventualmente cortada por serrotes também coalhados de babaçus. A maior concentração dessa palmeira ocorreu entre Vargem Grande e Chapadinha, onde placa no acostamento indicava uma das associações de quebradeiras de coco, mão de obra baratíssima que gera matéria prima para a indústria de óleo, cosméticos, farmacêutica, produtos de limpeza. As quebradeiras se defendiam como podiam dos fazendeiros e do agronegócio que ansiavam pelas terras e pela devastação dos babaçuais. Nesse mesmo trecho da estrada abundavam casas de taipa e cobertas de palha da palmeira. A despeito do charme, bucolismo e singeleza dos moradores, refletiam as más condições de habitação do maranhense, povo tão massacrado por séculos de oligarquias medievais. O progressista governo do estado, no começo do segundo mandato, ainda batalharia muito ao lado do povo para superar a miséria catastrófica da população.
Entre as cidades de Anapurus e Brejo, a monocultura extensiva, empregando pouca mão de obra e muitos agrotóxicos. Marcas de fornecedores estrangeiros, presença de transnacionais, ao lado de comércio com nomes e referências gaúchas. O agronegócio em todo o Brasil jamais beneficiou a população. Só trouxe miséria para a maioria e o enriquecimento de poucos.
Meia hora depois de atravessar o rio Parnaíba, e entrar no estado do Piauí, pela BR-343, o ônibus estacionou na rodoviária da cidade de Parnaíba.
À noite andei pela avenida São Sebastião, o destino noturno dos parnaibanos, larga e extensa, com amplo canteiro central, arborizado na forma de duas alamedas de árvores, mais calçadão de ambos os lados. Próximos à rotatória movimentada, quiosques, pontos de espeto, sanduíches, grelhados, tanto no canteiro central como na calçada, um ao lado do outro, ao ar livre, atraindo a população e alegrando a noite do norte piauiense.
Encontrei restaurante de cardápio variado, em ambiente sério, elegante. Quinhentos gramas de maminha ao ponto, suculenta, macaxeira cozida, pão com alho, farofa e vinagrete. Lentamente, prazerosamente, não deixei ciscos sobre pratos e travessas.
Pela manhã, na região central, reconheci pontos onde eu frequentava até minha última visita doze anos antes. A praça Santo Antônio, com casario imponente, construído no início do século XX. Mais adiante a praça da Graça, a principal de Parnaíba. Igrejas pesadas, comércio em volta, pessoas tomando a fresca nas sombras dos bancos. Dali ao rio Igaraçu, braço do rio Parnaíba, o miolo antigo da cidade, mal conservado, muita coisa em ruínas e abandonada. Era a região do Porto das Barcas. Revi a avenida Getúlio Vargas, estreita, outrora minha favorita para as flanadas noturnas, sob as árvores farfalhando ao vento e o silêncio do casario então residencial.
Peguei transversal a fim de atingir a margem do rio Igaraçu, na avenida Beira Rio. Bares e restaurantes isolados, a capitania dos portos do Piauí, dois clubes, deserto de gente naquela hora tórrida do final da manhã. Tomei cajuína cristalina para matar parte da sede.
Subi em ônibus urbano rumo à praia da Pedra do Sal, ainda no município de Parnaíba, mas na outra margem do rio, na ilha grande de Santa Isabel, via a PI-116. Pelo caminho, belíssimos carnaubais em zonas alagadas com aguapés. Impossível não se encantar com essas palmeiras típicas do Piauí e de tantos usos para o ser humano. As carnaúbas cresciam principalmente em zonas alagadas e refletidas pela luz do sol, sempre enfeitando a paisagem. Atraentes dunas de areia se erguiam pelos interiores da ilha. Já nas imediações da praia, dezenas de torres coletoras de energia eólica.
continua...

terça-feira, 17 de setembro de 2019

do Acre ao Piauí (via AC, RO, AM, PA, AP, MA, PI) (parte 5/8)

...continuação
Depois do almoço me dirigi à rodoviária de Macapá, pequena, precária, em obras, sem sanitários. O ônibus velho saiu atrasado, sem banheiro interno, geladíssimo pelo ar condicionado. Abri parcialmente as janelas próximas para contrabalançar. A operação só foi possível devido à velhice do veículo, sem os modernos e famigerados vidros fixos.
E não havia cobrador dentro do ônibus, apenas o motorista. Em ônibus pinga-pinga, para cada passageiro que embarcava no meio do caminho, com o ônibus parado, o motorista cobrava, emitia o bilhete, dava o troco, atrasando demais a viagem.
Saindo de Macapá no rumo norte a estrada penetrou em campos de cerrado, buritizais, matas ciliares de maior porte.
Nas imediações de Porto Grande, o deserto verde das monoculturas de eucalipto, secando igarapés, sugando o lençol freático acima da capacidade de regeneração, afastando a fauna e a flora regional. Crime socioambiental sem máscaras.
Em Ferreira Gomes, a pequena hidrelétrica do rio Araguari, ali largo, caudaloso, o mesmo que em confronto com o mar, em certas épocas do ano, provoca o fenômeno da pororoca, atraindo surfistas e curiosos do Brasil e exterior. Até ali o ônibus trafegava na BR-210, passando então para a BR-156.
Após atravessar o imponente rio Tartarugal, a cidade de Tartarugalzinho, o único ponto de parada para banheiro de todo o percurso. Feia, espalhada, decrépita, a cidadezinha se entupia de empresas evangélicas sequestrando os bolsos e as mentes dos desavisados.
O cerrado reinava absoluto em vastas áreas desertas de seres humanos, de agricultura, de criações de animais. Surgiram serras suaves e a estrada apresentou curvas acentuadas entre ligeiros sobes e desces. Nesse ponto a floresta de maior porte despontava e o verde intenso fascinava os olhos.
Voltou a chover. Sequência de comunidades pequenas e pobres, com embarque e desembarque de muitos passageiros. Em todas elas abundava a praga das facções das empresas evangélicas.
Em cada vila ou cidade, o resgate ou a entrega dos passageiros era praticamente em domicílio, porta a porta. O ônibus rodava uns metros e parava novamente. E assim por diante, com o motorista parando para cobrar, emitir a passagem e dar o troco a cada passageiro que embarcava.
O acesso à cidade de Pracuúba foi ignorado. O ônibus desviou para a rodovia estadual AP-116 a fim de alcançar a cidade de Amapá. Nova série de paradas para embarques e desembarques. Cidade plana, feia, espalhada, Amapá, mantendo a triste sina, estava entupida de facções das empresas evangélicas fundamentalistas. A lavagem cerebral dos ingênuos, e dos bolsos deles também, não tinha limites ou pudores.
Chovia forte em noite avançada ao entrar em Calçoene. Após incontáveis paradas pelas ruas, desembarquei em frente à pousada. Encarei a chuva interminável e jantei bem em restaurante perto do hotel. Fui de arroz, feijão preto, farinha, filé de gurijuba, saboroso peixe local.
Ao lado da pousada, espetáculo de horrores, gritos histéricos, berreiros, choros, música insanamente alta. Era o fim do mundo dentro de uma facção qualquer do fundamentalismo evangélico. Além dos mandachuvas pilantras, ovelhinhas entregavam as consciências e os bolsos para os chefes do crime organizado do comércio da fé.
Tirei toda a roupa molhada e as estendi pelo quarto do hotel. Lá fora, a chuva caía firme e forte, sem parar. Adormeci ao doce ruído da água, despencando dos céus sobre Calçoene, uma das cidades brasileiras de maior índice pluviométrico.
Assim como em Tutóia, cidade do litoral leste do Maranhão, que em minha primeira visita cheguei à noite diante do breu e somente pela manhã descobri que dormira de frente para o mar, em Calçoene também desembarquei à noite, sob a chuva torrencial que tampava a visão e abafava outros sons. Pela manhã, descobri extasiado que o hotel ficava de frente para as águas cristalinas do rio Calçoene, cuja margem oposta se cobria de floresta de grande porte, entre aningas, cipós, árvores bem desenvolvidas. E, a jusante, rochas formavam corredeiras e pequenas quedas d’água, enriquecendo a paisagem, massageando os ouvidos, lavando a alma já lavada pelo visual ao redor.
Barcos de pesca oceânica, de formatos e propostas distintas dos equivalentes pesqueiros fluviais, estavam atracados abaixo das corredeiras. Pescadores reparavam eventuais danos das embarcações, consertando e revisando longas redes de arrasto.
Muitas construções de madeira, com esteios para erguer as casas e protegê-las das águas raivosas durante o inverno amazônico. Ruas de cascalho ou de asfalto esburacado. Bastante barro e lama pelas chuvas constantes. O clima instável vira e mexe trazia garoas ou precipitações mais intensas.
Desenhei a pé grande círculo pelo lado leste da cidade, procurando não me afastar da margem do rio. Em várias paredes das construções, comerciais e residenciais, a frase “compra-se grude”. Grude era a membrana fina e interna de alguns peixes de água salgada. Era retirada, secada e amarrada em sequência de cordões. A China comprava a totalidade da produção a fim de utilizar na alimentação dos chineses, sobretudo em sopas, e na indústria de cosméticos.
Saído ainda criança da cidade de Miguel Alves, agreste piauiense, o funcionário da pousada, acompanhado de toda a família, foi morar no oeste maranhense, região de Zé Doca, Araguanã e Nova Olinda do Maranhão. O pai não se deu bem com as mudanças de clima, da posse e trato da terra, antes própria e depois arrendada. Adoeceu e se invalidou para o trabalho. Se seguiu então a diáspora da família. Ele veio ao norte do Amapá, num programa de transferência de maranhenses esfomeados, considerados sem futuro no Maranhão. Vivia com a mulher e filhos em Cunani, distrito ao norte de Calçoene.
Choveu praticamente a tarde toda e no começo da noite. Estiou mais tarde, permitindo aos moradores saírem da toca no sábado à noite. Movimento pequeno ao redor da grande, descuidada e abandonada praça da igreja Matriz. A lua no alto do céu ameaçava, timidamente, ultrapassar as nuvens e dar o espetáculo prateado.
Enquanto tomava o básico café da manhã da pousada, três policiais rodoviários federais, hóspedes também, saíram para o serviço fortemente armados, nas pernas, quadris, costas, sem mencionar a metralhadora a tiracolo. Entraram em caminhonete cabine-dupla, toda equipada para as devidas funções, partindo estradas afora. Investigavam entrada ilegal de armas no Brasil pela Guiana Francesa. O garimpo de ouro na região do Lourenço era alvo constante de ações policiais, que resultaram na prisão do prefeito de Oiapoque e de um promotor de justiça.
Dei grande volta pela metade oeste de Calçoene, margeando parte do rio, até o asfalto de entrada da cidade. Depois contornei ao início da estrada de chão que levava à praia do Goiabal, a vinte e dois quilômetros e, via outro ramal, prosseguia ao parque arqueológico do Solstício.
Depois de contemplar mais as corredeiras do rio Calçoene, me sentei na frente da pousada. Entre conversas com o piauiense eu apreciava o vaivém dos moradores, em carros, motos e, principalmente, bicicletas.
Não choveu à tarde e sim esquentou. Os mosquitos, carapanãs, piuns e afins, se assanharam. Até ameaçou por do sol naquele poço de umidade. À noite, sim, choveu tudo e mais um pouco. Depois a lua apareceu e despontaram estrelas. Doce e breve ilusão. Em menos de dez minutos mudou tudo novamente. A chuva, fraca ou forte, sempre vinha ajudando a esvaziar as ruas já esvaziadas de Calçoene.
Pela manhã subi na garupa da moto de senhor idoso rumo aos vinte e dois quilômetros de estrada encascalhada e trechos com barro mais mole. Pequeno movimento na estrada, uma ou outra moto, um carro, uma senhora de bicicleta, sentada no chão, esperando por ajuda devido ao pneu traseiro furado. Campos de cerrado, buritizais, cursos d’água com matas ciliares, áreas extensas e completamente alagadas já mais próximas à praia. Nesses trechos alagados, cobertos por aguapés e cortados por igarapés sinuosos, apareciam criações de búfalos.
O motoqueiro era politizado e ciente da exploração e opressão como trabalhador rural. Sempre se referia a contatos proveitosos com a Pastoral da Terra. Acusava paulistas e gaúchos de comprar todas as terras boas a preços ínfimos. E resistia bravamente, tentando convencer do mesmo os colegas restantes.
A praia do Goiabal se abria ao norte da foz do rio Calçoene. A maré baixa afastava da visão as águas do mar. Sequência de casas de aluguel, padronizadas e de madeira, um bar e restaurante fechado, e na ponta a borda de uma fazenda de bois e búfalos.
Assim que apeei da moto, os maruins, piuns minúsculos, atacaram pés e pernas, sem dó nem piedade. A picada era intensa e ardida. Eu somente as notava depois do estrago feito.
Circulei lentamente por região sem acidentes de relevo, avançando pela areia umedecida, e perto do igarapé que trazia água doce para o mar. Na direção leste, o vazio, a imensidão, o nada, em tons cinzentos a esbranquiçados, sem sinal das águas do mar. Nem me sentia em praia marinha.
Conversamos com morador local sob a sombra do alpendre do bar fechado. A maré, lentamente, muito lentamente, começava a encher. As conversas giravam em torno da posse da terra na praia, de eventuais projetos turísticos para atrair visitantes, e não apenas durante as festas regionais do final de julho.
Voltamos a Calçoene para o almoço. A turma do ICMBio, que praticamente lotou o hotel para treinamento regional, trouxe comida e material de cozinha, jantando na própria pousada.
Havia poucos ônibus de Calçoene a Macapá. Os horários eram inconvenientes, pela madrugada, vindo de Oiapoque, sem hora certa para chegar, fato agravado pelos atoleiros ao longo da estrada de chão ao norte de Calçoene. Opções eram os piratas, lotações não oficiais que transportavam esmagados os passageiros à capital. Também não partiam em horários marcados, aguardando encher o veículo, mas se programavam para o triste horário das 5h da madrugada.
Surgiu a carona com o dono da pousada, o sessentão de cabelo curto e tingido de preto, baixo e arredondado, rosto esférico e expressão do tipo la-garantia-soy-yo.
O asfalto com raros buracos e irregularidades da BR-156, e depois BR-210, garantiu viagem tranquila. Durante o trajeto, o la-garantia-soy-yo, aposentado como delegado de polícia e advogado, tagarelou sem parar. Explicava o óbvio como se fosse a novidade do século. Exagerava nos detalhes inúteis. Eu virava o rosto para a paisagem lateral. A moça no banco de trás, ciente da peça indigesta que se encontrava ao volante, entrou muda e saiu calada.
Ao desembarcar, Macapá apresentava temperaturas muito superiores, e ar mais seco, do que as de Calçoene.
O dia seguinte foi de luta pela educação em todo o Brasil., com greves e manifestações de rua. Macapá parecia feriado de tão morta. As lutas contra os cortes arbitrários e criminosos no orçamento da educação no Brasil ocorreram na praça do Governo, centro de Macapá. Reuniram milhares de manifestantes animados a resistir até o fim.
Circulei pelo calçadão da orla do rio Amazonas, na avenida Beira Rio. Cobri da estação de captação de água ao trapiche Elyeser Levy, parando no pequeno porto, com algumas embarcações, e nos arredores da fortaleza de São José de Macapá. Observei a maré baixa, com os barcos encalhados na areia úmida, em seguida a flutuar nas águas do rio à medida que a maré subia rapidamente. No porto, o navio “Doutora” reunia figurões da administração municipal de Macapá. Tinha até tendas para comes, bebes e discursos no cais de cimento.
Imensos navios cargueiros estacionados distantes. Pequeno movimento no calçadão, já quente e abafado, apesar do pouco sol. Ao meu lado a jovem obesa contava longa estória para os colegas, que não lhe tiravam os olhos e os ouvidos. Eram estórias cheias de reviravoltas, ameaças, violências, injustiças, ternuras, arrependimentos. Ela impunha ritmo leve e cadenciado, sem perder o fio da meada, sem deixar perder a atenção da audiência. Incrível como atraem os assuntos que envolvem amor e ódio, violência e paixão, ternura e crueldade. Sempre assuntos privados, e dos outros. Nem sei se os ouvintes se importavam com a veracidade dos fatos. Apenas se deixavam levar, se emocionavam.
A cuia de açaí encerrou o almoço em local ventilado naturalmente, de frente para o rio. A paisagem infinita do rio Amazonas reinava absoluta na visão e nas emoções.
continua...

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

do Acre ao Piauí (via AC, RO, AM, PA, AP, MA, PI) (parte 4/8)

...continuação
Ao entardecer desci à orla para contemplar o por do sol nas escadas diante do rio. Vivas ao urbanismo de Santarém, pelo menos nesse trecho, se abrindo às águas do Tapajós! Compareciam pescadores, atletas e aspirantes, estudantes, casais, grupos, gaúchos agarrados ao chimarrão.
Emendei no bar e restaurante instalado em plataforma de madeira que avançava sobre as águas do Tapajós. Além de duas caipirinhas detonei prato com maniçoba, vatapá, arroz com toques de jambu e camarão. Morcegos sobrevoavam, aos montes, brincando por entre a iluminação pública, sem sugar o sangue de ninguém.
Durante a chuva da manhã me refugiei sob a marquise. Bem na frente, cruzamento sem semáforos, com faixa de pedestres. Tráfego intenso. Os motoristas, de carros, ônibus, motos, caminhões, cediam constantemente passagem aos pedestres. Trânsito educado e não agressivo, na prática.
Em restaurante especializado em peixes abri o apetite com duas caipirinhas pequenas e saborosas e emendei com caldeirada de tucunaré, imensa, de peixe inteiro. Arroz branco e pirão acompanharam a tigela que mais parecia balde, repleta de caldo, legumes, batata, quatro ovos cozidos e todos os pedaços do tucunaré. Saí com dores no abdómen de tão estufado.
À noite, sorvete de açaí com tapioca e nada mais. Volta leve pelo sempre animado e bem frequentado calçadão da orla de Santarém. Vaivém variado e divertido, além das famílias e grupos que se estabeleciam em cadeiras trazidas de casa ou nas escadarias diante das águas do rio Tapajós.
Embarquei em navio ao Amapá no meio da tarde, no flutuante em frente à praça Tiradentes. Comecei a ler Úrsula, livro de Maria Firmina dos Reis.
O amapaense de Laranjal do Jari desembarcaria em Almeirim, de onde pegaria lotação até Monte Dourado, atravessaria de canoa o rio Jari e chegaria, finalmente, ao destino. Segundo ele, o Beiradão, o famigerado Beiradão de Laranjal do Jari, ainda provocava assassinatos eventuais. Nada comparado com décadas antes. Mas, mesmo assim, como bem salientou:
“Se o sujeito vacilar, morre.”
O senhor de Oriximiná iria visitar as filhas em Macapá. Politizado, atuante, brilhou naquele mar de alienação, despolitização, resignação, conformismo e submissão ao fundamentalismo evangélico de muitos passageiros. Pouco antes da partida, surgiu passageiro setentão e encostou por ali. Escolheu o colega de Oriximiná para puxar conversa, em voz baixa. Deu para eu ouvir, entre os sussurros, a ladainha fundamentalista. Autoritário, o setentão não permitia que o oponente se manifestasse, impondo frases mal decoradas e tentando cooptar o senhor de Oriximiná. Mais tarde soube que o evangélico agressivo não se deu bem. Nada como o conhecimento para derrotar os fanatismos.
O navio zarpou à tardinha, deixando para trás a acolhedora Santarém dourada pelas luzes do fim da tarde. Mais adiante, o alaranjado do por do sol sobre as águas da popa.
Antes de escurecer, quando Santarém ainda aparecia no final do horizonte oeste, foi servida a tradicional sopa das primeiras noites de barco. Cada passageiro recebeu a tigela de sopa encorpada com legumes, macaxeira, pedaços de rabada. Acrescentei a farinha grossa para dar mais sustância.
Três horas depois da partida ainda se notava o clarão de Santarém no horizonte da popa. Acima, céu escandalosamente estrelado. No horizonte da proa, a leste, relâmpagos, muitos relâmpagos. Seria naquele trecho perigoso, após a parada em Monte Alegre, o local da pior tempestade fluvial que eu já enfrentara quatorze anos antes?
Parada de meia hora em Prainha enquanto começava a amanhecer. Desembarques mais numerosos que embarques.
Logo em seguida serviram o café da manhã. Nada de boca livre como antes. Cota única por passageiro. Pão com queijo e presunto, maçã, fatia de mamão, fatia de melancia, copo descartável (para contribuir com a poluição) de café com leite adoçado.
Nas redes, ou nos bancos laterais, um ou outro passageiro lia a bíblia. Alguns, sobretudo mulheres, jamais deixavam as redes. Recebiam as refeições trazidas por acompanhantes e comiam ali mesmo. Circular pelos pisos da embarcação seria coisa do diabo para os fundamentalistas?
O navio navegava em água grande. As margens do rio Amazonas se afastavam para bem longe. Ilhas alongadas e alagadas surgiam vez ou outra. Houve desembarque de passageiros, com bagagens e tudo mais, em voadeiras que se aproximavam vindas de dentro de lagoas ou paranás onde se abriam pequenas comunidades. Ao fundo, serras alongadas contavam com escarpas significativas. Nas águas, canaranas boiavam à deriva. Nas margens aningas se destacavam imensas. Pássaros sobrevoavam o navio. Os horizontes, cada vez mais distantes.
O navio atracou no meio do dia em Almeirim. No alto do barranco, no ponto mais visível e destacado, sede de filial de empresa evangélica, roubando bolsos e mentes da população, ainda mais depois que a corporação passou a fazer parte do governo federal, o mesmo que corta investimentos em previdência, educação e saúde para o povo. O crime lhes tirava a máscara e mostrava para quem quer ver o real papel desempenhado pelos fundamentalistas contra a sociedade. Tanto que a letra “d”, usada no nome das empresas do ramo, mais se encaixa com diabo ou demônio, jamais com deus.
Almeirim era mais uma cidade amazônica dependente de quase de tudo de fora. Não criava e nem cultivava praticamente nada. Bastava observar as inúmeras cargas do navio deixadas no porto da cidade: legumes, verduras, frutas, temperos. Os ricaços da cidade, aí incluídos os empresários do fundamentalismo evangélico, deviam lucrar bastante com a penúria alimentícia de Almeirim e de tantas outras cidades ribeirinhas da Amazônia.
Assim que o navio apitou para partir foi servido o almoço. Um prato por pessoa com arroz, macarrão, duas fatias de carne assada. Nas mesas do refeitório, livres em quantidade, feijão, salada com maionese, salada de verduras cruas, farinha, abacaxi fatiado.
Após a foz do rio Jari, na margem esquerda do rio Amazonas, o navio entrava em águas do estado do Amapá.
O senhor de Oriximiná, orgulhoso e ativo na vida, me mostrou, pelo celular, pirogravuras de própria autoria com motivos locais. Garantiu que mais de cem delas jaziam guardadas em casa para futura exposição. Lhe doei o livro O Livro de Ouro da Amazônia, de João Meirelles Filho. Ele agradeceu comovido e me pediu dedicatória. O livro, adquirido em sebo, já possuía uma, de não sei quem para não sei quem. Pus a minha na contracapa.
Durante o jantar cada passageiro recebeu prato com arroz, macarrão, pedaço generoso de frango assado ou de peixe. Da mesa, livre para todos, salada crua, feijão, farinha, fatias de abacaxi.
Do lado de fora chuva forte, mas nada de tempestade ou vendavais. O navio nem sentia o tranco das águas agitadas e crespas do rio Amazonas.
Pouco depois da meia-noite o navio atracou no porto privado do Grego, em Santana, Amapá, cidade vinte quilômetros a sul da capital. Nem saí da suíte. Os ruídos do desembarque, de carga e principalmente de passageiros, reverberando pelas estruturas metálicas da embarcação, me fizeram oscilar entre sono leve, vigília, breves cochilos. Assim foi até o amanhecer. Fechei toda a bagagem e fui verificar o restante do navio. Menos de dez passageiros permaneciam nos pisos das redes. Aguardavam, como eu, clarear de vez e espantar o perigo dos arredores do porto, para irem embora.
Percorri a distância entre as cidades de Santana e Macapá, com direito a cruzar a linha do equador pela zona sul da capital amapaense e entrar no hemisfério norte. Embora o traçado da cidade fosse quadriculado, com ruas longas e normalmente de mão única, os ônibus urbanos ziguezagueavam, em vez de seguir direto ao destino, a fim de pescar mais passageiros e faturar mais. O tempo de percurso, óbvio, aumentava bastante.
Macapá, no geral, apresentava esgotos a céu aberto, canais e igarapés poluídos, mato crescido nas calçadas. Aliás, as calçadas macapaenses eram casos à parte. Cada imóvel construía a própria calçada, do jeito que bem entendia, na altura, inclinação, material do piso, ou simplesmente não construía nada, largando a terra, as pedras, o mato, os buracos se fingirem de calçada. Caminhar por elas ou pela ausência delas era saltar obstáculos, muitas deles instransponíveis. Os pedestres, de todas as condições físicas, eram obrigados a andar pela rua. Ainda bem que o tráfego de Macapá era respeitoso, não agressivo, gentil, parando nas faixas de pedestres ao sinal do braço. Os prédios no centro comercial, baixos na maioria, se apresentavam mal conservados, quase caindo aos pedaços, sem preocupações com a aparência e, provavelmente, com o conteúdo. Por outro lado, o açaí, o camarão, a oferta de alimentos variados, abundavam na cidade. A influência indígena e africana concorria para aperfeiçoar os pratos da culinária regional.
Ao sair para jantar, já noite avançada, conversei com paulista de São Bernardo a trabalho em obras civis no quartel do exército. Estava pessimista em relação ao futuro social do Brasil. Tinha votado na extrema-direita porque ela representava a mudança. Fora eleitor e simpatizante petista durante anos. E considerava todas as medidas do governo da extrema-direita ruim para o Brasil e os brasileiros.
A orla de Macapá, ao longo da avenida e calçadão da margem esquerda do rio Amazonas, por quilômetros e quilômetros, não tinha preço. Gente caminhando, correndo, se exercitando, perambulando, namorando, aproveitando o relativo frescor da noite. E havia o antes e o depois da fortaleza de São José de Macapá. Trechos frequentados, outros vazios, escuros, privativos, silenciosos. Ao norte da fortaleza, quiosques, trailers, comes e bebes, frequência variada e discreta, mas que sempre cumprimentava, bom dia, boa tarde, boa noite.
Jantei caldeirada de tucunaré em restaurante cuja vista do rio pelas imensas e transparentes vidraças fascinava entre mordidas no peixe e goles nas caipirinhas bem preparadas. Frequência triste nas outras mesas, com exceção a de almirantes e afins na enorme mesa reservada ao lado. Saí antes de o álcool fazer efeito e de eles soltarem a franga.
Nos quarteirões contemporâneos de Macapá, ao lado de construções modernas, ainda havia casas de madeira, com estilo, aspecto e conservação de algo velho, antigo, dos primórdios da capital do antigo território federal do Amapá. E nessas casas morava gente, como se o tempo não tivesse passado. Testemunhos de outros tempos, resistindo às engrenagens que elimina o que é considerado obsoleto e ergue o que é supostamente moderno e eficiente.
Longa caminhada pela cidade plana até o museu Sacaca. Aberto gratuitamente ao público, local de eventos voltados à educação e questões socioambientais, ocupando todo o imenso quarteirão, o museu exibia espécies da flora nativa da Amazônia, quelônios, pássaros, em ambiente natural, ao ar livre, junto a inúmeras representações de cenas ribeirinhas, como casa da parteira, casa do castanheiro, casa do seringueiro. Também ali, diversas culturas que compõem o povo amapaense, entre elas os negros da região de Mazagão e Curiaú, emprestando à região a cultura de parte da África, as canções e danças do marabaixo, por exemplo. Um barco, o regatão, se deslocava sobre curso d’água a fim de mostrar como era o comércio nos velhos tempos na floresta. Ligado ao Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá, responsável por fomentar e divulgar a produção científica e tecnológica local, que era vasta e amplamente reconhecida, o museu Sacaca corria sérios riscos de sobrevivência em razão das ações criminosas do regime de plantão no governo federal. Antes dessa calamidade, porém, os visitantes poderiam aprender bastante com os amapaenses.
À noite jantei bem, regado a duas razoáveis caipirinhas. Sentado em mesa ventilada na calçada eu pude ver através do vidro a festa de noivado, como aliança e tudo mais, em longa mesa interna. O garçom que me atendeu, trintão, não registrado em carteira, somando oito filhos de três mulheres diferentes, rodara bastante pelo Brasil. Com a esposa do momento, grávida, planejava se mudar para Londrina. Falava como grande administrador da própria vida, das próprias finanças. Dei corda e ele deitou a contar a vida, passada, atual e futura.
Choveu forte durante a madrugada inteira. Água, muita água. Nada de relâmpagos, raios ou trovões. Só água.
continua...

sábado, 31 de março de 2018

O Vale do Amazonas e Solimões (parte 9/9)

...continuação
Tomei o ônibus que, após cruzar a linha do equador e entrar no hemisfério norte, me deixou no centro de Macapá. Mas bem longe do hotel. Andei bastante, saltando os obstáculos das calçadas ou da falta delas.
Faminto e sedento coloquei o chapéu e, besuntado de protetor, caminhei na direção do rio Amazonas. Duro eram as calçadas, a descontinuidade delas, a ausência pura e simples delas. A caminhada se tornou verdadeiro salto de obstáculos. No trajeto, imóveis baixos, raríssimos edifícios altos, árvores e sombras eventuais. Me intrigaram as coberturas contra o sol sobre os túmulos do cemitério. Para os vivos, porém, a sombra era artigo raro.
Avistei ao fundo as águas barrentas do rio Amazonas, distantes da murada naquele horário. A maré baixa expunha extensa faixa de areia, indo além do longo e estreito trapiche e da estátua de São José, padroeiro da capital amapaense. Erguida na beira do rio, em formato pentagonal, impondo respeito pelas extensas dimensões horizontais, o forte de São José de Macapá se postava no trecho mais avançado nas águas, rodeado de gramados, árvores esparsas, ciclovias.
Mais ao sul, o cais de algumas linhas menores de barcos e lanchas, inclusive com destino à cidade suspensa de Afuá, situada no noroeste da ilha do Marajó, onde permaneci anos antes. Pelo ancoradouro, tudo seco, somente um barco estacionado sobre a areia. O final da tarde, horário em que a maré encheria, permitiria novamente a circulação fluvial e marítima. O restaurante onde tanto me esbaldei naqueles anos, em caldeiradas divinas, do outro lado da avenida do cais, não existia mais, substituído por dois hotéis envidraçados.
Após o almoço comprei um litro de açaí fresco, que matei em minutos dentro do quarto do hotel, sem açúcar mesmo, direto do furo no saco plástico que fiz com o canivete.
Jantei entre caipirinhas bem temperadas, picanha alta e ao ponto, acompanhamentos saborosos, porém, redundantes. Serviram arroz e baião-de-dois. Serviram farofa e farofa de ovo. Música ao vivo com os padrões da MPB, no formato voz e violão, em volume civilizado. Saí feliz e estufado, tanto que circulei pelas redondezas para facilitar a digestão e reduzir o inchaço.
O ônibus cruzou bairros e mais bairros de Santana e Macapá. Não notei miséria evidente, apenas a tradicional pobreza da maioria que contava com o mínimo para sobreviver. E valeu também para apreciar as atraentes macapaenses e santanenses.
Encarei a caminhada de volta ao hotel debaixo de sol absurdamente, escandalosamente, indecentemente, quente. Às vezes pensava que minha cabeça iria rachar ou que desmaiaria a qualquer momento. O sol da linha do equador era de impor respeito e temor.
No jantar experimentei bistrô em bairro que, a despeito do festival de horrores das calçadas, concentrava as camadas altas da sociedade macapaense. O pequeno estabelecimento lotou de galera branca, clara, de olhos verdes, vindo em carrões. Ninguém, absolutamente ninguém, indígena, mestiço, cafuzo, mulato, mameluco, caboclo. Descolei mesinha do lado de fora para evitar me contagiar daquilo.
Dei voltas pela região da avenida FAB, repleta de escolas. Estudantes lotavam calçadas e pontos de ônibus. No mais, bairro vazio, com comércio e vários bares fechados. Tudo estava na penumbra naquela noite do meio da semana. A avenida FAB leva esse nome por ter sido pista de pouso de aeronaves durante os primórdios da ocupação do homem branco, em que o Amapá era ainda território federal.
Visitei o marco Zero, a linha do equador, situado no bairro macapaense de Zerão. A atração oferecia o monumento suspenso, assinalando a linha do equador, marcos de concreto, e finalmente o obelisco bem alto, com listas verticais em verde e amarelo, mais o orifício circular no topo. Do lado oeste, o estádio Olímpico Zerão. A leste, a avenida Equatorial que levaria, bem adiante, à margem do Amazonas.
O trânsito de ambas as cidades amapaenses não era agressivo. Pedestres levantavam o braço e logo os veículos paravam para eles atravessarem. O gerente mineiro do hotel lamentava os altos preços praticados no Amapá, de imóveis, alimentos, combustíveis, serviços. Por outro lado estava gostando da terra e das pessoas, tanto que a esposa viria se instalar em breve.
No início da manhã eu já embarcava no navio, no porto do Grego, em Santana. Antes circulei pela região do porto, interessante ponto de comércio, bares, hotéis barra-pesada, puteiros.
Depois de apitar muito, e aguardar calmamente os retardatários, que corriam para embarcar cheios de bagagens, o navio partiu em meio às águas levemente agitadas do rio Amazonas, passando ao lado de navios cargueiros, tendo em terra, à esquerda, a praia da Fazendinha.
Conversei com o soldador, morador de Altamira, que se aventurara em garimpar pelo Amapá. Chegou a acumular oito gramas de ouro. Acabou por se desencantar. Partia para tentar nova vida em Imperatriz, no Maranhão. Descreveu a criminalidade insana na paraense Altamira após a invasão de todo o tipo de gente durante a construção da hidrelétrica de Belo Monte.
Ignorei a refeição paga à parte do preço da passagem. Comi o sanduíche de salame e queijo, mais duas bananas, trazidos do bufe do café da manhã do hotel em Macapá.
À medida que o navio se afastava do litoral amapaense, a cidade de Macapá surgia ao fundo, com a linha dos edifícios em destaque. Mais adiante, o estreito composto pela comunidade do Limão, ao longo do qual, da mesma forma que no também marajoara estreito de Breves, crianças, acompanhadas ou não das mães, se aproximavam em canoas. Aos gritos e abanando as mãos, pediam doações dos passageiros, alimentos, roupas, o que fosse. Alguns a bordo lançavam sacos plásticos recheados. Não por acaso, nas margens do estreito, empresas evangélicas escravizavam a mente dos moradores usando e abusando de balelas como “deus proverá”, “só cristo salva”. Mas quem provia mesmo, quem salvava mesmo, eram os passageiros dos navios e balsas que por ali trafegavam. O fundamentalismo servia para sequestrar mentes e bolsos dos pobres coitados.
Aproveitei as nuvens e me abandonei no piso de cima, dotado de mesas e cadeiras fixas, entre conversas com o soldador, enquanto apreciava a paisagem e as voadeiras que atracavam para vender camarão e açaí. De uma das voadeiras, pulou no navio uma adolescente de longos cabelos pretos e shortinho milimétrico, cheia de amor para dar aos eventuais interessados. Aningas abundavam nas margens dos canais indicando nos caules afinados o nível da maré alta. As nuvens engrossaram e escureceram. Ventou forte. A pancada de chuva expulsou todos dali. Cada um se refugiou na respectiva rede, suíte, ou na área coberta da lanchonete.
E o navio seguia em meio ao labirinto de águas e ilhas pertencentes ao arquipélago do Marajó. Local facílimo para se perder pelos canais, estreitos, água grande, curvas, retas. Nova pancada de chuva ao anoitecer, dessa vez precedida de raios e trovões, compondo visual impressionante de nuvens cor de chumbo, cobrindo as copas das árvores da floresta, se aproximando aos poucos do navio.
Algum movimento ali na lanchonete da popa. Na mesa do canto, as latinhas vazias de cerveja lotavam o espaço. Noutra, um casal em que ela me olhava de vez em quando. Em pé, três adolescentes sussurravam com expressões adultas. Duas mulheres do outro lado se mostravam disponíveis.
Entre ligeiras acordadas, dormi profundamente durante a noite. Nem ouvi as paradas previstas, em Curralinho e São Sebastião da Boa Vista, vilarejos do Marajó. O café da manhã, única refeição gratuita daquele trajeto, veio de melão, melancia, cuscuz, pão com queijo, café com leite, mingau. O navio percorria água grande, as margens muito distantes.
Estava demorando pra começar a tortura! Antes das 8h as caixas de som da lanchonete começaram a vomitar o lixo fundamentalista evangélico. Buscavam cooptar mais ovelhinhas para engordar o faturamento das empresas do ramo. Fornecer alimentação incluída no preço da passagem, como praxe na maioria das linhas fluviais de passageiros da Amazônia, nem pensar. O negócio era faturar para o comércio da fé.
O navio voltou a percorrer canais estreitos após visões das unidades de beneficiamento de bauxita. Passou ao lado de toda a cidade de Barcarena. E novamente trechos largos, cujas margens se afastavam a leste e a oeste.
E a linha dos edifícios altos de Belém apareceu no horizonte. Em seguida a embarcação perfilou o centro velho, a casa das Onze Janelas, o forte do Castelo, as igrejas, o mercado Ver-O-Peso, os casarões. Após me despedir dos passageiros chegados, desembarquei na Doca da capital paraense.
Depois de beliscar no entorno do mercado Ver-O-Peso, à noite deu vontade de comer bem. Escolhi a dedo o restaurante. Conversei com o garçom, com a recepcionista, ambos simples e, como eu, contrastando com a formalidade artificial do ambiente. Nas demais mesas ocupadas, a fina flor da elite belenense. Aniversariantes com direito a bolo, garçons mascarados e fantasiados coreografando e cantando o feliz aniversário, em ritmo de salsa. E cantando em inglês e espanhol, nadinha em português, a língua falada em Belém, inclusive pelos da mesa festeira. Os clientes próximos sorriam acanhados, não sabendo se era de bom tom se imiscuírem. As mesas livres se ocupavam aos poucos. As belenenses aterrissavam vestidas para matar, nem sempre com bom gosto ou discrição. A ideia era chamar a atenção, para o bem ou para o mal. Rostos entupidos de maquiagem, vestidos estrambólicos, provocantes, chamativos. Entre garfadas e goles, ouvi os garçons comunicarem que de outubro ao natal a casa e os garçons se decoravam para os festejos, envolvendo os clientes na atmosfera tocante. Saí de lá embriagado, com o estômago forrado, feliz da vida e com direito a contemplar a nata da cidade botando para quebrar.
Almocei em restaurante especializado em comidas paraenses. A comida vinha emoldurada com suposto refinamento, atendimento atencioso e, sobretudo, preços bem salgados, ainda mais se comparadas com a mesma comida servida na simpática região do mercado Ver-O-Peso. Mas valeu o filé de filhote grelhado, acompanhado de arroz com cenoura, farinha d’água, vinagrete e meio litro de açaí cremoso. Mesmo sem fome, comi tudo, principalmente o açaí, ingerido à paraense, sem açúcar, na base de colheradas entre as garfadas ao peixe.
No avião de volta para casa, mais leituras e cochilos.
O avião pousou no aeroporto internacional de Guarulhos. Ônibus comum, numa marginal Tietê surpreendentemente sem congestionamento, ao metrô Tatuapé. Entrei em casa em meados de agosto. O frio e a garoa me recepcionaram depois de dois meses afastado de São Paulo.

terça-feira, 27 de março de 2018

O Vale do Amazonas e Solimões (parte 8/9)

...continuação
Qualidade de Oriximiná era a extensa orla com calçadão ao longo da margem do rio Trombetas, permitindo à população observar, contemplar, venerar as águas escuras do rio que lhe dava vida. Pela calçada da orla era possível caminhar, passando ao lado de oficinas de barcos, da zona do mercado municipal, do comércio variado, da área de embarque e desembarque de passageiros e cargas nas lanchas, barcos, navios, dos bares barra-pesada, dos discretos puteiros, de barrancos cobertos de vegetação. O povo, educado e sorridente, embora retraído, sempre se dispunha a ajudar.
À noite, a praça da Matriz contava com frequência numerosa. Indígenas relaxavam naquela noite cálida, entre goles de sorvete e conversas nas línguas originais. Reconfortante circular pelas ruas vazias e silenciosas de Oriximiná, sobretudo na beira do rio em trechos afastados do porto. O céu estrelado, a lua crescente, o astral da cidade pequena, o contexto, enriqueciam as sensações. Pena as ruas, tão longas, tão parecidas, tão retas, tão planas, tão asfaltadas.
Durante mais um jantar, os televisores do restaurante exibiam o espetáculo grotesco do Congresso Nacional, o mesmo que legitimou o golpe de Estado de 2016, votar pelo arquivamento dos processos contra o ditador de plantão. Cenas macabras do regime contra o povo.
Aterrissei bem cedo no cais da lancha, com direito à sombra e vento constante que soprava do rio Trombetas. O embarque foi rápido e rasteiro. Mais larga, mais confortável, mais estável que as amazonenses, a lancha contava com fileiras de oitos assentos, separadas por dois corredores. A capacidade total atingia cerca de cem passageiros. A proa lembrava pequena aeronave, com duas entradas, uma de cada lado da cabine de comando. Os assentos se assemelhavam aos dos ônibus intermunicipais, garantindo o conforto. Exceto pela velocidade, a lancha humilhava os aviões em tudo.
Ao anoitecer a lancha atracou no calçadão da orla de Santarém. Era noite, mas o calor sufocava, mesmo para os padrões amazônicos.
Pela manhã tomei ônibus a Alter do Chão. A vila se apresentava mais urbanizada que da última visita anos antes, com mais hotéis e pousadas, calçadão na orla do rio Tapajós, mais barcos e iates, mais turistas e grupos perambulando. O conjunto, porém, se mantinha vistoso e pitoresco.
A ponta de areia no meio das águas esverdeadas do Tapajós ainda se encontrava parcialmente submersa. O verde escuro das águas do rio, a areia branca das praias, o verde da vegetação acima ou sob as águas, formavam cenário belíssimo. Fugi do calor em restaurante de frente para as belezas. Tomei caipirinha e suco de taperebá para hidratar o tucunaré ensopado com arroz e macaxeira, servido em porção generosa.
Em Santarém, caminhei além da praça São Sebastião, por ruas internas, pela orla do Tapajós, na tarde luminosa, ensolarada, terrivelmente quente, com as águas verde azuladas do Tapajós se encontrando mais adiante com as barrentas do Amazonas. No calçadão da orla descolei sombra refrescante e contemplei a paisagem e o pouco movimento do meio da tarde. Até parecia vilarejo ribeirinho e não cidade de mais de trezentos mil habitantes. Comprei a revista Caros Amigos e li um pouco por ali mesmo.
À noite saí para admirar a orla do rio Tapajós e o prestígio que os mocorongos, nativos ou não, prestavam à cidade. Ao longo dos quilômetros do calçadão, as cenas me trouxeram imagens de outra orla, a das praias de Tambaú e Cabo Branco, em João Pessoa. Lá como cá a população comparecia em peso e interagia com solução urbanística tão simples, barata e envolvente. Aqui como lá moradores levavam cadeiras de praia, isopor com comes e bebes, conjunto de brinquedos para filhos e netos, formando diversos grupos de família, amigos, casais. Muita gente desfrutava do que a cidade tem de melhor, o rio Tapajós. Em espaço público, democrático, gratuito.
A maioria dos canais na TV do hotel era de compras ou religiosos, o que no fundo é a mesma coisa, comércio de produtos ou da fé alheia.
Pela manhã o céu azul exibia o sol desprovido de barreiras, iluminando e torrando tudo e todos. As águas esverdeadas do Tapajós estavam mais lindas do que nunca.
Depois de churrasco com amigos fomos tentar um mergulho na praia de Maracanã. Impossível. Frequência barra-pesada, bebedores profissionais e amadores, solitários de expressões raivosas, mulheres portando olhares avermelhados e pedintes. O cheiro de perigo no ar lembrava cidades do naipe da paraense Itaituba e da amapaense Oiapoque. Melhor não. Seguimos à praia de Carapanari. A floresta mostrava todo o esplendor e ao fundo as águas esverdeadas do Tapajós roçando de leve as areias brancas. Paradisíaca. A natureza reinava absoluta. Ficamos apenas com as cabeças fora d´água, conversando amenidades, nadando, flutuando, absorvendo aquela maravilha ao cair da tarde dourada pelo sol. Demais!
Eu e colegas fomos comer peixe no restaurante ao sul da avenida Cuiabá. Tucunaré e surubim saborosos, caipirinhas bem temperadas, em ambiente animado e prestigiado pelos moradores. Comemos bem, bebemos bem, conversamos e nos descontraímos bem.
Embarquei no navio no cais em frente à praça Tiradentes. A bordo, pai e filho de Nova Santa Helena, norte do Mato Grosso. O pai, quarenta anos na região, gaúcho desbravador, típico linha de frente na devastação social e ambiental da frente agrícola da Amazônia. Pretendia se transferir para o interior do Amapá. Sinal amarelo para o povo e a natureza amapaense. Eu torcia para não se adaptarem e retornarem o mais rápido possível ao Mato Grosso, lá no meio de gaúchos e paranaenses, entre explorados e exploradores do agronegócio, das monoculturas extensivas esgotadoras de solo, dos agrotóxicos, dos massacres das populações indígenas, da exportação de matéria prima bruta, da bancada ruralista, dos tumores da economia e política brasileira, dos engajados em golpes de Estado, como o de 2016. Uma caminhonete cabine dupla, com a carroceria abarrotada entrou no piso principal. De dentro dela, mais gaúchos, pai, mãe, dois filhos, kit chimarrão e tudo. Placa do veículo de Nova Guarita, Mato Grosso. Mais alertas de perigo ao povo e à natureza do Amapá.
Ao entardecer, o navio desatracou da balsa flutuante, desceu o restinho do Tapajós, com Santarém perfilando de ponta à ponta, e logo atingiu as águas barrentas do Amazonas. Ficaram para trás as luzes daquela cidade atraente e as cores sanguinolentas do por do sol. E de volta ao que eu realmente amo, viagens lentas nos barcos e navios amazônicos. Nada de lanchas tipo isso ou tipo aquilo, mas sim a tradicional embarcação de cargas e passageiros.
A tradicional sopa das primeiras noites dos percursos fluviais foi servida em enormes tigelas. Podíamos nos servir à vontade do caldo com macarrão, batatas, carne, legumes. Ao meu lado, todos os tipos possíveis de passageiros, e nenhum outro turista. As pessoas se olhavam, analisavam, avaliavam.
À noite o navio atracou no moderno porto de Monte Alegre, de frente ao canal paralelo ao curso principal do rio Amazonas. Houve embarque e desembarque de passageiros, além de carga de cebola, melancia e farinha.
Após a partida o navio pegou de frente o rio Amazonas, nervoso, cheio de ondas, banzeiros e rebojos. Oscilou terrivelmente, gerando receios e apreensões. Entrei na suíte. Começava a adormecer. Os balanços continuavam. E me lembrei da tempestade nessa mesma rota anos antes. Naquela oportunidade era barco menor, de casco de madeira, a caminho de Laranjal do Jari, sul do Amapá. O terror durante a tempestade durou horas. Só acalmou quando a embarcação abandonou o agito do rio Amazonas e entrou nas águas espelhadas e escuras do rio Jari. Até o prático e o comandante se sentiram então aliviados. De volta ao presente voltei a adormecer somente perto da segunda parada, em Prainha, quando as águas se acalmaram.
Acordei para o café da manhã na base de três fatias de frutas, um sanduíche, café com leite à vontade. Melhor foram as conversas que brotaram entre os passageiros da mesa, entre assuntos dos mais variados.
Parada curta em Almeirim no meio da manhã. Almoço na base de carne assada, arroz, fava, salada de maionese. E saí para conversar com os passageiros, entre paraenses, amapaenses, gaúchos, mato-grossenses.
Depois do surubim ensopado com arroz, farinha de Uarini e salada, durante o jantar, o tempo encrespou e o navio pegou a tempestade de lado. Os tripulantes baixaram a lona de proteção. Mesmo assim entrou água no setor aberto das redes, forçando passageiros a mudarem de local e a levantarem as bagagens do chão. O temporal logo passou, ficando apenas o banzeiro nas águas do rio Amazonas. À esquerda, a tempestade seguia o rumo, chovendo e ventando forte.
Antes da madrugada o navio atracou no porto da cidade de Santana, já no estado do Amapá. Permaneci deitado, mesmo com a barulheira do desembarque. Os ruídos foram diminuindo pouco a pouco. Acabei adormecendo.
O porto de Santana acordou cedo. Me despedi da tripulação. O navio agradou pela limpeza, pelos cestos de lixo espalhados por todos os pisos, pelo bom aspecto em geral.
continua...