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terça-feira, 11 de outubro de 2011

Portugal e Espanha (parte 3/3)

...continuação
Depois do desembarque na suja e desorganizada estação rodoviária de Granada, em meio a pedintes, caminhei pela avenida principal e me hospedei no albergue da juventude.
A vida noturna da cidade se agitava naquela noite de sábado, nas dezenas de bares, cafés, restaurantes, pubs, em cuja frequência predominava os adolescentes. As meninas se pintavam e se produziam de maneira tão exagerada que mais pareciam vedetes de cabaré, rindo e falando escandalosamente alto.
A cidadela de Alhambra, construída pelos árabes no século IX, complexo de castelos, palácios, igrejas, jardins, fontes, bosques, se erguia próximo às montanhas. Durante séculos, Granada tornou-se a principal cidade árabe da península ibérica. A cidadela encantava pelas salas, pátios, fontes de água, arabescos, detalhes instigantes, colunas, água corrente em canais e valetas, madeira e pedra talhadas com desenhos e escrita árabe. Mais jardins, em formato de labirinto, e muito verde surgiam no caminho ao palácio de Generalife.
Albaicin, o antigo bairro árabe e invariavelmente pintado de branco, com becos e ladeiras sinuosas e estreitas, abrigava as camadas pobres e médias da população. Dali, o Alhambra e a Sierra Nevada coberta de neve mais ao fundo.
Os espanhóis jogavam lixo nas ruas, ignorando as lixeiras disponíveis. O mesmo acontecia nos vagões de trem, onde fumavam mesmo com os avisos de não fumar afixados nas paredes do trem e nos bilhetes de viagem.
Desembarquei debaixo de chuva na estação ferroviária San Bernardo em Sevilha. Diversas pessoas assediavam com propostas de pensões e hospedarias baratas, lembrando a Bolívia e o Peru. Cruzei o bairro antigo de Santa Cruz e me perdi feio. À medida que tentava sair dos labirintos, mais eu me perdia nos becos, vielas. Mas me deliciei com toda aquela história ao meu lado.
As linhas de trem entre Sevilla, Ayamonte e o sul de Portugal tinham sido canceladas. A estação rodoviária de Damas em Sevilha conseguia a triste proeza de ser pior que a de San Bernardo. Ainda mais suja, apertada, desorganizada. Não havia plataformas de indicação, nada. Qualquer terminal rodoviário dos interiores distantes do Brasil poderia ganhar fortunas vendendo consultoria à Espanha de como construir, organizar e administrar uma estação rodoviária decente.
Não havia locais fixos das partidas dos ônibus. Os veículos surgiam do nada e quase atropelavam os passageiros, envenenando-os com os escapamentos desregulados. O setor de informações daquele hospício desinformava. Mal encarados e mal humorados, os balconistas nada informavam, nada sabiam. Mas acabei encontrando a explicação para tanta incompetência. Aquele local fedido, as linhas, os ônibus, motoristas e funcionários em geral, pertenciam a empresas privadas. Se os trens estatais, mais eficientes e mais baratos, estivessem em funcionamento, os passageiros não sofreriam para garantir o lucro fácil às empresas privadas.
O trajeto durou cerca de três horas, e passou por Huelva, cidade espanhola na beira de praia plana, suja e sem atrativos. O relevo aplainado contava com plantações de oliveiras e laranjeiras. A pobreza estava em todos os lugares. Desembarquei na imunda cidade espanhola de Ayamonte. Cruzei de barco a fronteira internacional e botei os pés na cidade portuguesa de Vila Real de Santo Antônio, dando impressão que eu tinha entrado na civilização.
Plana, mais organizada e mais limpa que a rival espanhola do outro lado do rio, Vila Real contava com traçado quadriculado das ruas, quase todas iguais e sem praças ou áreas verdes, somente o longo calçadão na beira do rio. O conjunto arquitetônico, no qual as paredes e as entradas das casas ficavam na beira da calçada, lembrava cidadezinhas dos interiores do Brasil.
Anoiteceu e a cidade fantasma mergulhou em silêncio. Ninguém nas ruas. Todos deitavam os olhos nos televisores, inclusive nos raros bares e restaurantes abertos. Comi algo parecido com enguias ensopadas em restaurante fúnebre, onde os garçons e os poucos clientes se hipnotizavam com olhares fixos voltados para o televisor.
Os espanhóis invadiam a cidade portuguesa diariamente para comprar produtos isentos de impostos. Eram lojas ou ambulantes que expunham produtos dos mais variados tipos, couros legítimos ou não, roupas, bugigangas inúteis, sobre pedaços de pano estendidos no chão. O flexível comércio da fronteira aceitava escudos portugueses e pesetas espanholas.
Porta de entrada para o Algarve, a praia de Monte Gordo, a cinco quilômetros do centro, naquela baixa temporada com frio e céu cinzento, era procurada por turistas do norte da Europa, que, de bermudas e camisetas, se deliciavam com o tórrido calor diurno de 10 graus.
No posto de informações turísticas, entre um e outro atendimento aos turistas estrangeiros, aproveitei para conversar com o português e a assistente. Mas logo me cobriram de perguntas sobre o tema predileto de Portugal, as telenovelas brasileiras. Não lhes interessava saber sobre o Brasil, os brasileiros, a cultura, a geografia. Estavam obcecados pelas telenovelas, apenas pelas telenovelas já exibidas no Brasil. Queriam a todo custo saber o que aconteceria no final de cada uma delas ou, pelo menos, nos próximos capítulos. De nada adiantou eu declarar que nunca assistia às telenovelas. Os olhos de ambos brilhavam na ansiedade das respostas que eu não trazia. Por fim, resignados, desistiram de implorar sobre as telenovelas. E desistiram também da minha presença. Eu não possuía mais nada que lhes interessasse.
A viagem de ônibus a Lisboa foi regada a serviço de bar, música ambiente e filmes do tipo Rambo III, ilustre representante do lixo oficial estadunidense. As janelas permaneciam trancadas e o ambiente abafado. Os passageiros portugueses fumavam apesar da proibição, enevoando de nicotina o ambiente.
Na paisagem do lado de fora, o destaque ficou por conta de pitoresca cidadezinha de Tavira, margeada pelo rio, as pontes de pedra, o casario antigo formando conjunto harmônico e pitoresco. Senti vontade de sair pela janela, ficar na cidade, fugir do ambiente asfixiante e cancerígeno do interior do ônibus da empresa privada.
Grande parte do centro antigo de Lisboa carecia de restauração. Comentários diversos garantiam que grandes empresários da especulação imobiliária apostavam no agravamento do estado das construções, torciam por desmoronamentos “naturais”, criavam fatos consumados. Depois bastava limpar a área e construir novos prédios. E, nos bairros, os mesmos empresários construíam edifícios padronizados e tristes.
Almoço tardio com amigos em restaurante típico português. Pediram Sapateiras, caranguejos imensos dos mares profundos da costa africana. Somente o corpo central do dito cujo ocupava todo um prato normal. Sem falar nas patas grandes e pequenas. O miolo foi servido ricamente temperado e, por mais que eu tentasse esvaziá-lo, a saborosa carne não acabava nunca. Delicioso! Para acompanhar, nada melhor que garrafas de vinho verde branco.
Em sala de cinema em Lisboa, minutos antes do intervalo, uma espectadora começou a esbravejar contra o homem sentado próximo. Alegava, aos gritos que o indivíduo lhe passara a mão na perna. A sala inteira lançou os olhares e os ouvidos naquela direção. O tal tarado se levantou e se retirou.
Permanecemos bastante na Feira Popular, ambiente antigo e agradável, cheio de atrações, brincadeiras, parques de diversão, comes e bebes. Passamos boas horas em barraca simples que servia gigantescas porções de sardinhas assadas e fatias de porco frito.
Nas estradas ao norte de Portugal, passamos pelas já conhecidas Fátima e Boleiros. O diferencial ficou por conta de finas camadas de neve acumulada. O inverno se aproximava oficialmente nas imediações da serra da Eira. Mergulhando novamente na maravilhosa culinária portuguesa, me empanturrei do Leitão à Bairrada, prato típico da região.
Entramos muito tarde na fascinante cidade de Coimbra, quase sem luz natural, para apreciar o centro antigo, repleto de ladeiras. Depois, as bucólicas estâncias de Cúria e Luso, mais voltadas a tratamentos hidrominerais.
O voo me trouxe a São Paulo em meados de dezembro.
Aquela viagem, mais de levantamentos do que de turismo, chegava ao fim. E sem registros fotográficos. Os slides foram inteiramente danificados durante a revelação. As imagens ficariam apenas na mente, o quanto minha memória as conservasse.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Portugal e Espanha (parte 2/3)

...continuação
Ele me confidenciou detalhes apavorantes sobre a família dela. Uma delas denunciava que o pai dela, então proprietário e senhor de escravos de fazendas em Angola, em terras doadas pela ditadura portuguesa, costumava punir os negros escravos jogando-os em águas coalhadas de crocodilos. Após o restante da família ter fugido do país durante a guerra da independência do povo angolano, o mesmo permaneceu em Angola para resgatar o máximo possível das riquezas usurpadas. E, durante a fuga em aeronave particular, correu na pista de pouso para não ser capturado e julgado pelos rebeldes.
Em Peniche, cidade de pescadores aos pés de escarpa íngreme e em frente a conjunto de pequenas enseadas, estava frio, cinzento, ventando forte.
Apesar das grosserias, broncas, maluquices, arrotos altos, gritarias, meus anfitriões se desdobravam para me tratar bem. Não economizavam generosidade e bondade. E embora eu tentasse recusar, fiquei com o quarto principal do casal no apartamento de Caldas da Rainha, enquanto eles dormiram em sofás improvisados na sala. Mas, para não perder o costume, os arrotos escandalosos, as brigas, as gritarias, prosseguiam. E assistiam à televisão em volumes altíssimos, mandando calar a boca de quem sussurrasse.
Obcecado pela ideia de nunca mais pagar impostos, ele tentou duas vezes conversar ao telefone com o primeiro ministro de Portugal. Ninguém atendeu as ligações e a irritação dele ultrapassou os limites.
À tarde, me despedi deles e embarquei em trem ao subúrbio do Cacém.
Subi na composição no Cais do Sodré a Cascais. Em estação intermediária, a Torre de Belém, construída no século XVI, envolvia pela simetria, simplicidade e reduzidas dimensões. Perto dali, o Mosteiro dos Jerônimos, alongado e bem conservado.
Dessa vez aberto, visita ao palácio da Pena em Sintra, pelos interiores da moradia da monarquia até princípios do século XX. Quartos e mais quartos, corredores, atmosfera e mobília pesada, cores sóbrias, falta de gosto. O destaque ficou por conta do banheiro. A latrina imensa sustentada por pesados blocos de madeira, a bacia menor, apontavam para a despreocupação pela higiene. Nenhuma novidade diante das inúmeras doenças transmitidas aos índios brasileiros durante as invasões portuguesas e as doenças entre os próprios invasores.
O tempo sombrio impedia incursões pelas noites lisboetas. Permaneci no apartamento deles me submetendo ao martírio diante da televisão. Volume alto para acompanhar bingos e outras fábricas de ilusões. Os demais programas também não animavam.
Em Malveiras da Serra, próximo a Cascais, em casa decorada à moda do campo, encaramos o cozido a portuguesa, comida saborosa e pesada. Várias pipas guardavam vinhos de diversos tipos. Bastava levar o copo, abrir as torneirinhas e se servir à vontade.
Perambulamos pelas vilas de Anábida e Sesimbra. Localizada em praia junto à escarpa alta, Sesimbra seduzia pelo conjunto pitoresco, a despeito da infraestrutura demasiadamente turística.
Considerados ilegais pelo sistema, os vendedores ambulantes do centro de Lisboa e arredores recolhiam rapidamente as mercadorias e saíam em disparada ao avistarem a polícia. Nada diferente do que acontecia nas grandes cidades brasileiras. Mas, também proibida, a venda de drogas ocorria a céu aberto nas imediações da praça do Comércio.
Na região de Cascais e Estoril, ao longo calçadão na beira da praia, nem o mau tempo impediu o prazer por horas. Os passageiros dos trens de subúrbio de Lisboa raramente liam livros, preferindo deitar os olhos em revistas fúteis e tabloides esportivos.
No cinema em complexo com cinco salas, lanterninhas conduziam os espectadores na esperança de receber gorjetas. Vendedores com bandeja de comes e bebes pendurada no pescoço circulavam enquanto não apagavam as luzes.
No filme estadunidense sobre conflitos na máfia o destaque ficou por conta das legendas em português de Portugal. Originalmente sérios e tensos naquele tipo de filme, os diálogos tornavam-se bizarros e engraçados nas traduções. Enquanto o personagem do submundo do crime mandava o outro calar a boca, usando e abusando de gírias e palavrões em inglês, a legenda exibia a frase “basta de parvoíces!”. Ou quando dois personagens saíam do banheiro e um deles, procurando desqualificar o oponente, debochou afirmando em inglês algo como “você usa o banheiro e nem puxa a descarga”, surgiu legenda “tu usas a casa de banho e não pressionas o autoclismo”. Os presentes na sala se espantaram com meus risos.
E o principal motivo de eu estar em Portugal ia de mal a pior. Tentei por vários caminhos, sugeridos ou não, entrevistas para possíveis empregos na área na qual eu tinha bastante experiência. E durante vários dias, nos mais diversos lugares, sob as mais diferentes formas. A discriminação velada se escancarava em cada visita ou comentário recebido.
Decidi viajar sozinho para me descontrair. Seriam umas férias dentro das férias. Sem muito tempo disponível, optei pela Andaluzia espanhola, retornando pelo sul de Portugal.
À noite embarquei na estação ferroviária de Santa Apolônia. Consultava o mapa para me localizar de acordo com o nome da estação nas paredes da plataforma. Ocupei o penúltimo vagão que parava longe da zona principal de embarque e desembarque. Na primeira parada, a placa bem grande e clara: Retrete. Tentei em vão localizar aquela cidade no mapa. Na parada seguinte, novamente o nome Retrete escrito em placa metálica. E na estação seguinte, o mesmo nome novamente. Dias depois vim saber que a palavra Retrete, em Portugal, era simplesmente o mictório.
Após cruzar a fronteira da Espanha, desembarquei ao amanhecer na cidade de Badajoz. Sob o frio terrível e neblina assustadora, permaneci horas na estação ferroviária vazia, aguardando o segundo trem. Quase congelei no minúsculo saguão.
Na nova composição pude apreciar as terras intensamente cultivadas, com exceção das serras entre Mérida e Sevilha. Antes das montanhas predominavam olivais de diversos tamanhos, frutas cítricas. Mas não se via alma viva.
Em Sevilha no meio da tarde busquei o setor de informações turísticas na rua, pois não havia nada na estação ferroviária. Mas se recusaram a me ajudar alegando que não podiam recomendar nenhuma hospedagem especificamente.
Caminhei até as imediações do centro onde encarei pensão simples, sem banheiro no quarto. Não havia água quente nas torneiras ou nos chuveiros do banheiro coletivo, apesar da recepção garantir que sim. O quarto era gelado e pobremente iluminado.
Os espanhóis fumavam mais que os portugueses. Não havia pessoas negras pelas ruas. Em vários bares e cafés, o aviso em letras enormes: “É proibido cantar”.
No Alcázar conjunto de palácios e jardins construído pelos árabes, a distribuição dos espaços, profusão de detalhes, arabescos, água corrente para todos os lados, seduziam os visitantes, entre inúmeros jardins extremamente bem arranjados.
Cidade grande, Sevilha contava com largas e longas avenidas, amplo centro comercial, calçadões lotados de gente, sem falar na envolvente parte antiga. Imensa e escura, a catedral Giralda impressionou pela imponência, beleza, capelas internas.
As ruas do centro eram arborizadas de laranjeiras, repletas de frutos naquele final de novembro, convidando a entrar nos bares e cafés para tomar o suco natural deliciosamente azedo. Mas a preços salgados para a pouca quantidade oferecida.
O bairro de Santa Cruz, com becos estreitos e sinuosos, bodegas, construções antigas, representava o típico do sul da Espanha que recebeu profundas influências árabes durante a ocupação moura de séculos atrás.
Comia o café da manhã nas proximidades da catedral, em mesas ao ar livre, enquanto observava o vaivém dos espanhóis em direção ao trabalho. Os adultos se vestiam de modo exageradamente produzidos, sobretudo as mulheres. Abusavam tanto da maquiagem, penteados requintados, roupas extravagantes, que chegavam a mudar as feições originais, parecendo que compareceriam a cerimônias da monarquia.
O trânsito de Sevilha era pior e mais desorganizado que o de Portugal. Não respeitavam nem mesmo as faixas de pedestres. Mas, felizmente, assim como os portugueses, os espanhóis estavam livres, até então, das repugnantes redes estadunidenses de comida rápida e sanduíches de carne de minhoca. Predominavam bares, cafés e restaurantes tradicionais, que serviam boas comidas e bebidas.
No final da tarde e começo da noite, os espanhóis entupiam os bares e cafés para beber, petiscar, conversar. Barulhenta e animada, a cena avançava pela noite. E só jantavam bem tarde. Mas minha fome chegava antes. Eu entrava em restaurantes vazios de clientes e cheios de garçons encostados nas paredes. Escolhia a melhor mesa, comia bem, era bem atendido.
O ônibus a Granada era mais apertado que os brasileiros e mais desconfortável que os trens. A partir da cidade de Osuna a vegetação tornou-se escassa. Havia mais areia nos solos. O relevo se acentuou. Pouco a pouco surgiam vilarejos com casas brancas, aos pés de escarpas rochosas.
As duas estadunidenses antipáticas e racistas que viajavam no ônibus fecharam a cara aos demais passageiros, só conversando entre elas. Enquanto o motorista punha músicas flamengas para o deleite da maioria dos passageiros, as duas se isolavam nos fones de ouvido para ouvir o previsível lixo estadunidense.
E, após Loja e a pitoresca Archidona, surgiu Granada, cidade aos pés da Sierra Nevada, a cadeia de altas montanhas com os topos nevados.
continua...

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Portugal e Espanha (parte 1/3)

Diferentemente das demais já realizadas, essa não seria apenas uma viagem de lazer.
O Brasil vivia o primeiro ano do capitalismo neoliberal do governo Collor que confiscara o dinheiro dos correntistas. O patrimônio e os lucros dos ricos da classe dominante, como de praxe nos governos burgueses, permaneceram protegidos. A recessão bateu em cheio no país e o desemprego foi às alturas. Os salários dos que se mantinham empregados foram congelados por baixo, enquanto que os preços foram controlados por cima, para alegria dos capitalistas brasileiros e estrangeiros que sustentavam o governo Collor.
A ideia de viajar a Portugal e depois para lá mudar com ela brotou com força. Recentemente ingressado na comunidade econômica europeia, o país recebia toneladas de investimentos dos países ricos. Investimentos que, obviamente, seriam cobrados com juros e correções mais tarde.
Embarquei sozinho rumo à capital portuguesa no início de novembro.
Me esperavam em Lisboa, de onde seguimos para o Cacém, subúrbio da capital. Nem bem cheguei, comecei a levantar, perguntar e anotar os preços e condições de tudo.
Cacém contava com construções novas e parecidas, não ultrapassando os dez andares. A maioria dos apartamentos não tinha área de serviço, restando aos moradores pendurarem as roupas do lado de fora das janelas. Com comércio autossuficiente, o trânsito local se agitava. Era preciso ter cuidado para não tropeçar ou cair nos buracos das ruas e calçadas. O destaque dos comes e bebes ficava por conta das pastelarias, uma mistura de café, lanchonete e confeitaria, servindo doces, salgados, bebidas, almoços.
Dentro do circuito Oeiras, Cascais, Estoril, praia das Maçãs, Sintra, arredores de Cacém, o trecho entre Oeiras a Cascais lembrou o sofisticado litoral mediterrâneo voltado ao turismo dos ricos. A sinuosa costa contava com praias de mar bravo, dezenas de hotéis, restaurantes, cassinos. Ruas em curva, colinas, becos, palácios, predominavam em Sintra. O palácio da Pena erguia-se no alto da colina, rodeada de bosque muito verde e frio. Mas estava fechado.
Ganhei alforria para passear livremente pelo centro de Lisboa. Peguei o velho, limpo e eficiente trem até a estação ferroviária do Rossio. Ainda se viam pessoas mais velhas vestidas inteiramente de preto. Os homens cobriam as cabeças com boinas, as mulheres usavam panos, invariavelmente pretos. Favelas e barracos de madeira surgiam em terrenos desocupados.
O Bairro Alto guardava becos, ladeiras, vista panorâmica de Lisboa, casas antigas com pequenas sacadas, roupas penduradas ao sol. Idosos muito velhos conversavam nas esquinas. Até os produtos comercializados por ali eram velhos. Bondes circulavam para lá e para cá.
Caminhei pela rua Augusta, cruzei os arcos rumo à praça do Comércio, na margem do rio Tejo, em cujo pequeno cais os barcos levavam passageiros para Almada e arredores. Em número reduzido lá estavam mendigos, bêbados, vagabundos perambulando pelas ruas do centro. Era evidente a pobreza e a carência de recursos de parte da população.
A novela brasileira Tieta reinava absoluta no horário nobre da televisão portuguesa. O país parava para assisti-la e tudo mergulhava em profundo silêncio. Os noticiários pareciam produzidos em série para todos os canais, tamanha era a semelhança entre eles, nos temas abordados, comentários, posições. E apontavam para o rígido controle sobre as mentes e para a ausência de liberdade de imprensa. Não adiantava mudar de canal. As “notícias” se restringiam à rebelião de presos em Alicante, renúncia do presidente do partido conservador inglês, visita de Mário Soares ao Japão, problemas internos no Partido Comunista Português, subornos a juízes de futebol, furacão nas Filipinas. Era o oligopólio dos meios de comunicação em carne viva. Como no Brasil. Os telespectadores mergulhavam em sepulcral silêncio na sala, entre olhares e expressões bovinas. Nada de questionamentos ou comentários críticos.
Erguido na colina do lado oposto ao Bairro Alto, misturada às árvores, o castelo de São Jorge proporcionava vista privilegiada de Lisboa. Entre os muros cobertos de ameias, escondiam-se jardins internos, muito verdes e pitorescos. Além da exploração dos meandros do castelo, os bancos sob a sombra permitiam descansar, ler, observar o movimento dos transeuntes no centro da cidade, lá embaixo.
Segui ao bairro da Alfama, bem mais atraente que o Bairro Alto. Becos mais estreitos, sinuosos e íngremes, casarões antigos distribuídos em ambiente instigante. Como verdadeira viagem no tempo, tudo na Alfama era velho, moradias, pessoas, lojas, adegas, casas de fado, restaurantes.
O número excessivo de carros não encontrava vagas suficientes para estacionar. Sobravam para as calçadas entupidas de veículos e para os coitados dos pedestres, ou peões, como se chamavam em Portugal, que faziam malabarismos para vencer os obstáculos sem serem atropelados nas ruas.
Ao contrário dos demais países europeus que eu tinha visitado em outras oportunidades, em Portugal as pessoas se notavam, se olhavam, conversavam.
Passamos pelo parque Eduardo VII, cujo excesso de simetria e a ausência de verde me deram vontade de sair logo dali. Almoçamos e jantamos no restaurante favorito do casal, nos deliciando com caldeirada de cabrito e arroz de mariscos. Entre as sobremesas, a maçã assada e o pudim de clara, lá batizado de pudim molotov.
Com um colega mais jovem saí pela noite de Lisboa. Percorremos o Bairro Alto, São Bento, Alfama, Chiado, onde ocorrera incêndio criminoso havia poucos anos. A noite fervia no Bairro Alto, valorizado pela fraca iluminação, pela disposição dos bares e restaurantes em becos estreitos e curvos. Poucos olhares, muito desfile e exibição.
O clima quente e seco ameaçava mudar. Seria o fim do veranico, ou do verão de São Martinho como denominavam os portugueses, retornando ao outono propriamente dito. Almoçamos na casa de parentes deles.
Sentado na ponta da mesa lotada, o mais idoso estava em fase adiantada de cegueira decorrente de diabete mal cuidada. Nem por isso deixava de cantar louvores à ditadura de Salazar, que mergulhou o povo português nas trevas da idade média durante várias décadas do século XX. Segundo ele, e com a concordância da maioria dos presentes, foi um erro o fim daquele regime após a revolução dos Cravos em abril de 1974. E também condenou a “entrega”, pelo governo português, das colônias africanas aos “negros selvagens”. Em voz sempre alta e pausada, aquele senhor insistia que os portugueses e africanos viviam na maior felicidade e prosperidade antes daqueles “equívocos políticos”.
Enquanto ele discursava, e a maioria ouvia e concordava, eu aproveitava para mergulhar de cabeça na deliciosa comida portuguesa servida em várias travessas sobre a mesa. E jamais deixava minha taça se esvaziar do primoroso vinho tinto.
Mas as doces opiniões do saudoso da ditadura não duraram para sempre. Alguém ligou a televisão da sala. Pronto, todos se calaram, todos pararam de comer, viraram os rostos, deitaram olhares para a telinha. Pareciam hipnotizados. Não importava o que era transmitido. Ninguém piscava ou balbuciava nada. Os portugueses se calavam e se irritavam quando alguém ousava abrir a boca.
À tarde comparecemos a festa de aniversário em casa situada no bairro de São Francisco. Muitos me cercaram e me encheram de perguntas, a maioria sobre as telenovelas brasileiras, expressões citadas pelos personagens, quem ficaria com quem no final da trama e outras dúvidas vitais para o destino da humanidade.
Acabei por dormir ali mesmo. A dona da casa me indicou quarto coletivo, acessado por escada estreita e íngreme de madeira. Colchões se espalhavam pelo chão. Deitei no que me foi reservado. Os adolescentes continuavam a festa lá embaixo, regados a muita bebida e música alta. Só sossegaram no meio da madrugada e despencaram nos colchões completamente bêbados.
Meus futuros companheiros de viagem me acordaram cedo. Encarei o único banheiro da casa, escuro, sujo, com paredes semiacabadas, fedendo a esgoto. O casal se sentou na frente do carro na viagem. Fiquei atrás ao lado de uma senhora idosa que jamais abriu a boca.
O relevo mantinha-se ondulado, em terreno pedregoso, abrigando esparsas plantações, oliveiras, parreirais, raras árvores frutíferas. Mesmo as localidades próximas de Lisboa apresentavam-se pobres. O local do almoço, na beira da estrada e tão elogiado pelo casal, não passava de espelunca suja, desconfortável, com comida insípida. Até o vinho desagradou.
Embora simpático e hospitaleiro, o casal criava clima pesado no carro, restaurantes, visitações. Para lá de histérica, ela só falava aos gritos e se dirigia a todos como se fosse brigar. Extremamente nervoso e cheio de tiques, ele fingia aceitar as loucuras da esposa. E arrotava alto, em qualquer lugar.
Visitamos o enorme e impressionante mosteiro de Santa Maria da Vitória, datado do século XIV. E passamos pelo deprimente santuário de Fátima. Em amplo local de concreto, inundado de estacionamentos e vendedores ambulantes de bugigangas religiosas, aquele cenário cinza com a estátua moderna da santa no meio do nada doía aos olhos.
Seguimos, então, à casa de campo do casal. Localizada na vila de Boleiros, a construção com rachaduras nas paredes caía aos pedaços de tão velha. Por fora e por dentro acumulava-se sujeira e abandono, somada ao frio cortante. Aquecimento de água, nem pensar.
Para espantar o frio mesmo dentro da casa, ele resolveu acender o fogão à lenha. Verde ou úmida, a madeira queimada provocou muita fumaça cobrindo tudo. Não se via mais nada dentro da casa. Então começaram as tosses. As janelas e portas permaneciam fechadas. Até esquentou ligeiramente. Porém, com os olhos ardidos e dificuldades de respirarmos, eles abriram as janelas e portas, sempre aos gritos, desesperados. O vento dissipou a fumaceira, mas trouxe novamente o frio que tanto queríamos evitar. A casa manteve-se aberta e o fogão à lenha aceso. E, como resultado, o pior dos mundos, vento, frio, fumaça. Sem falar no festival de gritos, agressões verbais, acusações mútuas do casal pela desgraça alcançada.
O casal tinha dois filhos que passavam por dificuldades financeiras. Com as respectivas esposas, ambos vieram jantar. Um calibrava pneus em posto de beira de estrada. O outro se vangloriava de ter comprado um carro velho por uma fortuna. A mulher de um deles ganhava misérias como caixa de supermercado.
Embora de maneira alguma mal tratado ou desrespeitado, o ambiente e o comportamento explosivo de todos, no entanto, me impediam de relaxar.
À noite, ela serviu deliciosa costeleta de porco e purê de batatas, regada a vinho tinto soberbo, adquirido por ele junto a antigos colegas de seminário. O desconforto das gritarias, discussões enfurecidas, fumaça, frio, se evaporaram diante daquele autêntico banquete interiorano.
Não demorou muito a ligarem a televisão. Acabaram-se os gritos e brigas, mas também as conversas. Todos prenderam a respiração. Não pronunciaram nenhuma palavra. Não importava o programa em exibição. Quem cometesse o crime hediondo de falar algo seria logo repreendido com gritos e acenos nervosos.
Os gêmeos e as respectivas se retiraram, as luzes se apagaram, a casa mergulhou no silêncio. A vila não produzia um som sequer. Depois daquele dia repleto de emoções, adormeci instantaneamente. Nem notei se a fumaça ainda persistiu por muito tempo.
Passamos por Alcobaça, sede de imponente monastério construído no século XII. Ele lembrou os tempos de seminarista e, enquanto percorríamos os interiores da maravilhosa construção, discorreu sobre fatos da história de Portugal.
Depois, Nazaré, na beira do mar e de altos paredões rochosos. O tempo cinzento não ofuscava o charme das praias, dos barcos de pescadores ancorados na areia. No cume dos rochedos ainda se viam raras viúvas, inteiramente de preto, insensíveis ao vento frio, de cabeças cobertas, com os olhos esbugalhados voltados para o alto mar. Esperavam os maridos desaparecidos há anos, ou décadas, sob as águas.
O castelo de Óbidos abrigava cidadezinha entre as altas muralhas de proteção erguidas contra invasores de outros tempos. Construída em estilo barroco, a vila parecia de brinquedo, toda certinha, bem conservada, bem cuidada. Escolas, comércio, posto de saúde, bancos, serviços em geral, garantiam a relativa autossuficiência dos moradores. Caminhei por sobre as ameias da fortificação, observando o movimento da população nas casas e ruas estreitas.
continua...