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terça-feira, 14 de junho de 2016

Guatemala e Honduras (parte 3/6)

...continuação
Os hondurenhos e as hondurenhas da região mostravam peles mais claras, miscigenadas, menos indígenas. Da mesma forma, as roupas seguiam o padrão ocidental. Os sorrisos, a timidez, a submissão a estrangeiros, no entanto, se mantinham a mesma desde a Guatemala.
Não demorou a entrada ao parque das ruínas de Copán. Junto com Tikal na Guatemala e Palenque no México, compunham as três principais cidades da antiga civilização maia, antes e depois da era cristã.
O estado de conservação variava desde blocos rochosos desmoronados, construções parcialmente soterradas por terra e vegetação, a pirâmides e muros restaurados ou reconstruídos. As peças valiosas se encontravam protegidas no museu arqueológico da cidade de Copán.
Envolto pela floresta tropical, dotada de fauna variada, entre araras e cotias, as construções maias permitiam a visitação por baixo ou por cima, subindo as escadarias das pirâmides, templos, etc. Estelas, os monolitos verticais e intensamente trabalhados, revelavam detalhes da vida da época, contando com inscrições e hieróglifos que funcionavam como crônicas e relatos históricos.
O tempo claro e ensolarado, o frescor do final da tarde, sobretudo a ausência de turistas, permitiram a observação e apreciação de todo o conjunto, no geral e no particular, com calma e tranquilidade.
No finalzinho da tarde, a pequena Copán, cidade hondurenha colonial com calçamento de pedra, casario antigo, atmosfera de cidadezinha do interior. Grupos e famílias na praça da Matriz, missa programada para o começo da noite, restaurantes, barraquinhas de comes e bebes, os habitantes vestindo roupas de domingo.
Mais à noite, a praça da Matriz se animou em frequência diversificada e alegre. Em restaurante despojado, com muita madeira rústica e decoração entupida de objetos de todos os estilos imagináveis, chamou atenção a placa que proibia a entrada portando armas de fogo. Já avistara essa intrigante placa na portaria do hotel no centro de Panajachel, Guatemala.
Embora fosse proibida a venda e consumo de bebidas alcoólicas aos domingos depois das 17h, o restaurante liberava alguns coquetéis. E a proibição não era sem motivo. Ao entardecer, dezenas de bêbados, alguns de boa aparência e bem vestidos, cambaleavam pelas ruas e calçadas. Dois borrachos cismaram com duas turistas, tentando desajeitadamente ajudá-las naquilo que elas nem precisavam. Mais babavam e tropeçavam nos próprios beiços do que falavam ou explicavam. Apesar de tudo, os inofensivos bebuns com os chapelões na cabeça mais divertiam do que assustavam.
Detonei dois mojitos permitidos e bem preparados antes de cair de cabeça em carne grelhada com batatas, picles de legumes, nachos, pasta de feijão preto.
A praça da Matriz era prestigiada pelos simpáticos cidadãos. As ruas das imediações, estreitas, escuras e vazias, mas sem amedrontar em local onde parecia reinar a paz e a segurança. Atmosfera diferente e instigante.
Não muito depois da partida matinal da acolhedora Copán, a fronteira de volta à Guatemala, pegando o rumo nordeste, passando ao lado de Chiquimula, Zacapa, Rio Hondo, Los Amates.
As estradas de pistas simples e em asfalto irregular percorriam vale margeado pela muralha do altiplano guatemalteco a oeste. Cruzavam terrenos aplainados, tropicais, exibindo paisagens familiares do sudeste brasileiro. A pobreza se mantinha escancarada. Casas, casebres, barracos, em péssimas condições. Pontos de educação e saúde caindo aos pedaços, semiabandonados. Transportes coletivos que tratavam a população como gado, amontoando gente nas carrocerias. Vestimentas no estilo ocidental, puídas. Nada de trajes tradicionais indígenas. Mestiçagem acentuada em que homens e mulheres não apresentavam traços característicos marcantes de nenhuma origem. Algumas terras cultivadas de frutas. Algum rebanho de animais. Rios encascalhados com pouco volume de água em razão do inverno costumeiramente seco. Rostos sofridos e precocemente envelhecidos, deles e delas. Gente explorada, oprimida, largada à própria sorte.
Parada no sítio arqueológico de Quiriguá. Em meio à floresta tropical, com árvores seculares de grande porte, evidenciando clima quente e úmido, o pequeno e atraente conjunto de ruínas maias, guardava estelas finamente trabalhadas e informativas, altares em alto relevo, pirâmides cobertas de terra e vegetação ou reconstruídas, praças, campos de jogos de bola.
Ainda restavam pela frente as cidades de La Ruidosa e Entre Rios. Depois, a estrada desembocou na cidade portuária de Puerto Barrios, feia, decrépita, suja, desleixada, bagunçada. Caminhões, cargas, construções de péssimo aspecto, poluição, congestionamentos, poeira.
Embarquei em lancha simples, à beira das águas do mar do Caribe, oceano Atlântico. Negros e negras, inexistentes em outras regiões da Guatemala, começavam a se fazer notar. Travessia agradável até a foz do rio Dulce, passando por discretas praias ao norte da baía marítima. Milhares de pelicanos acinzentados pousavam nos trapiches de madeira.
Após acessar a boca do rio Dulce, a lancha ancorou no trapiche de Livingston. A vila abrigava população negra, indígenas da etnia garifuna, mestiços, brancos, turistas convencionais, neomochileiros, todos comprimidos em pequeno triângulo de terra entre a margem esquerda da foz do rio Dulce, o mar do Caribe no oceano Atlântico, e a não muito distante fronteira internacional com Belize.
Na ruazinha principal da vila, transversal ao rio e ao mar, repleta de comércio simples e variado, onde pedestres disputavam espaço com produtos à venda, bicicletas, motos e raros carros, um sujeito que se dizia panamenho me abordou em inglês e, carregado daquela falsa simpatia profissional, queria me guiar sei lá aonde. Primeiro adverti que ele se comunicasse em espanhol, a língua oficial da Guatemala. Ao saber de onde eu era, soltou as balelas decoradas que adorava o país, que tinha parentes lá, que se encantava com os brasileiros. E solicitou que o acompanhasse pela vila para que pudesse me indicar “o melhor restaurante da cidade”. Ignorei, sorri e fui andando. Ele ainda teve tempo de me oferecer maconha, haxixe e sei lá mais o quê, garantindo ser “a melhor mercadoria da cidade”.
Ao final da rua cheguei ao mar do Caribe. Praia de mar aberto, em que as ondas ameaçavam invadir o concreto do passeio. Mal se via a areia. Bares e restaurantes, velhos e abandonados, casas velhas e abandonadas, lixo, muito lixo em todos os cantos, desolação, abandono. Apesar do dia claro, ensolarado, com céu azul e livre de nuvens, praticamente ninguém por ali. No mar, sobre um recife, imagem de santa pintada de branco.
Circulei pelas ruas paralelas e transversais à rua principal. Muito reggae vibrando nas casas de madeira ou alvenaria e habitadas por população negra. Atmosfera geral de desmazelo, indolência, indiferença ao presente e ao futuro, mas também de descontração, tranquilidade, paz, segurança, ausência de riscos.
Desci ao porto da cidade, justamente onde começava a rua principal, e do qual saíam linhas regulares de barco para Puerto Barrios. Movimento de porto, comércio de beira de porto, sujeira de porto, frequência de arredores de porto.
Era uma Guatemala impressionantemente distinta da do altiplano indígena, da capital e de outras regiões, com paisagem, clima, ocupação humana, cultura em geral, tão oposta.
Encostei o esqueleto em bar bem de frente ao movimento da rua principal naquele fim de tarde. Um cheiro delicioso de pão quentinho vinha da padaria do outro lado da rua. De posse do diário, bebericando o daiquiri aguado e insosso, escrevi minhas impressões e reflexões do dia. Eu parecia um escritor maldito diante do papel, caneta, o copo, a bebida, frases inspiradas.
Depois de dormir maravilhosamente bem, ouvindo o barulho do rio sob os efeitos da maré batendo nas muradas do trapiche e os primeiros motores de barcos cruzando as águas do rio ao amanhecer, saltei da cama para mais um dia na incrível e diversificada Guatemala.
A lancha partiu cedo, rio Dulce acima. Após margear a vila de Livingston, na margem esquerda do rio, com casinhas, palafitas, trapiches, ancoradouros, hotéis, restaurantes, oficinas de embarcações, a lancha entrou pela garganta estreita e profunda do rio, cercada de altos paredões rochosos esbranquiçados, lindamente cobertos pela vegetação espessa da floresta tropical. Era um verde vivo, intenso, proporcionando um bem danado aos olhos, à alma. Nenhuma construção, lavoura, animais, ao longo das escarpas íngremes e da garganta. As águas esverdeavam pelo reflexo da floresta desenvolvida nos paredões.
Mais à frente, em cujas margens havia condições topográficas para construções, se erguiam casas e cabanas esparsas, cobertas de palha, muitas sem as paredes externas. Canoas levavam pescadores, de anzol, rede ou tarrafa.
Em seguida à curva acentuada, a lancha encostou à plataforma onde funcionava escola de ensino fundamental, ao lado de pequena concentração de cabanas de madeira. Precariedade total, nas carteiras, paredes, instalações sanitárias, condições de trabalho e materiais à disposição dos professores. As crianças de uma das duas salas de aula saudaram os visitantes. A aula foi interrompida. Todos levantaram e cumprimentarem efusivamente. Sorridentes, os alunos e alunas olhavam curiosos e assustados. A professora pediu às crianças para cantar uma conhecida canção infantil. Cantaram em várias línguas, regionais e internacionais. Tanto descaso na qualidade do ensino e as crianças decoravam canções em línguas diferentes!
Uns turistas da lancha doaram canetas para os alunos mais próximos. E, intencionalmente ou não, atiçavam a mendicância. Tanto que três das crianças, pré-adolescentes talvez, abordaram pedindo dinheiro, “one dólar”, ou simplesmente “dinheiro”. Outra turista, realimentando a mendicância, entregou dinheiro ao mais ousado deles, junto à recomendação para que dividissem entre si. Ingenuidade, má fé, alienação, não sei. Mas tais atos, na Guatemala ou em qualquer lugar do mundo, sempre incentivarão e alimentarão a mendicância. A passageira sensação de consciência tranquila, de “ajudar de alguma forma”, impedia que percebessem o mal que cometiam. Mesmo porque, próximo ao ponto final da travessia fluvial, bateríamos de frente com as causas e os responsáveis pelo descalabro da educação e pela penúria em que vivia tanta gente pelos interiores do país.
Nova parada à montante em canal da margem do rio Dulce, ao lado de piscina de águas naturalmente termais, quentes e sulfurosas. Morro acima, as bocas de duas cavernas com centenas de metros de profundidade no sentido das nascentes das águas termais. Avistei na trilha dois escorpiões marrons fugindo em disparada dos meus passos.
Mais acima, em afluente, casas e cabanas de madeira. Entre as construções, hotel no estilo rústico e sofisticado, voltado para clientes estrangeiros, endinheirados e bem nutridos, em busca do “verdadeiro contato com a natureza”.
Ainda no rio Dulce, o início do lago Izabal, em cujas águas esverdeadas brotavam pequenas e graciosas flores aquáticas de pétalas brancas, ao lado de vegetação flutuante circular e verde, remetendo à vitória-régia da Amazônia. Canoas a remo logo se aproximaram, vindas das cabanas das margens, trazendo mulheres e crianças, vendendo bugigangas de sementes, conchas, madeira, adornos, colares, brincos, pulseiras.
continua...

terça-feira, 7 de junho de 2016

Guatemala e Honduras (parte 2/6)

...continuação
Em carroceria de caminhonete, meio de transporte muito comum no país, cruzei toda a vila de Santiago Atitlán, passando acima de dezenas de lavadeiras esfregando e estendendo roupas sobre pedras na beira das águas.
Desci para conhecer local de culto sincrético entre o cristianismo e as tradições da cultura maia-quiché, em torno da divindade chamada Maximón. Nos fundos de casa simples, com muito lixo na entrada e no acesso à precária construção, uma estátua ou figura humana masculina coberta de oferendas e panos, ao lado da imagem do Cristo morto. Na penumbra apenas iluminada por velas esparsas ou filetes de luz natural, os fieis ofereciam dinheiro, tabaco, álcool, orando para pedir sorte, felicidade, cura de doenças, isso e aquilo.
A caminhonete me deixou nas imediações do mercado central. Mais autêntico que o de Chichicastenango, e também ao ar livre, voltado para a população local, o mercado de Santiago Atitlán vendia produtos espalhados principalmente sobre tecidos estendidos no chão. Perambulei pelas estreitas e lotadas vias entre as centenas de barracas, comidas sobre esteiras no meio das ruas e becos, lojinhas nas calçadas.
Novamente a lancha para cruzar as águas do lago Atitlán, no sentido da cidade de Panajachel. Depois, as já familiares estradas pelas montanhas que rodeiam o lago Atitlán. Passou novamente por Sololá e o trevo de Los Encuentros, de onde pegou a rodovia pan-americana, via com tráfego intenso de automóveis, ônibus, caminhões.
Parada para almoçar em restaurante de beira de estrada. Nenhum turista, apenas guatemaltecos em trânsito. Fui de pimentão recheado, arroz com legumes, salada mista e, é claro, não poderia faltar, tortillas, muitas tortillas, para dar sustância. E ainda acrescentei torta de frutas variadas.
E mais rodovia pan-americana antes do ramal rumo à cidadezinha de San Andrés Xecul, em cujo centro se erguia igreja pitoresca e destino de peregrinações. A construção, pesada como todas as de herança do barroco espanhol, comportava frente pintada de amarelo vivo e chamativo, repleta de imagens de santos católicos e divindades maias, expondo, novamente, o sincretismo religioso tão comum na América. Os interiores da igreja guardavam rachaduras significativas decorrentes dos diversos terremotos da história da Guatemala.
Retomada da rodovia pan-americana, de pista simples após o trevo de Quetzaltenango. Não faltaram buracos e trechos sem asfalto nas imediações de Quatro Caminos e San Francisco El Alto, fatores agravados pelo tráfego intenso, pelas curvas acentuadas, pelo sobes e desces do altiplano guatemalteco. Impossível superar a velocidade média de 50 km/h.
E surgiam placas nas margens da rodovia, especialmente junto a zonas residenciais, alertando que a vizinhança se encontrava treinada e preparada contra a delinquência. Combater as causas sociais e primeiras da delinquência, porém, não parecia ser a prioridade de ninguém por ali.
O relevo subia sem parar. Cruzamos a barreira dos três mil metros de altitude. A neblina e as nuvens baixas cobriram tudo e complicaram a visibilidade. E escureceu sob a chuva fina e intermitente.
No começo da noite, a feia cidade de Huehuetenango. Depois de largar as tralhas no quarto, desci ao salão de jantar do hotel, demasiadamente formal. No momento em que eu tocava no guardanapo, artisticamente dobrado sobre o prato, o garçom apareceu voando, retirou o guardanapo da minha mão, executou trejeitos no ar, soltando o nó do tecido, e o colocou feito dançarino clássico sobre meu colo, como se fosse véu único e valioso.
Escolhi sopa típica daquela região, recheada de legumes, queijo, frango, milho, temperos marcantes. As tortillas, sempre elas, não faltaram e me ajudaram a forrar o estômago. O atendimento, exageradamente afetado dos garçons descendentes diretos dos antigos maias, mas simpático, acolhedor, sorridente, perdurou por todo o lauto jantar.
Nada do bom e velho bufê livre no café da manhã. Escolhi a opção chapin, ou guatemalteca, contando com ovos mexidos com tomate e cebola, pasta de feijão preto, queijo branco, banana assada, manteiga, tortillas, café com leite. Certamente me abasteceria mais e melhor do que as familiares e mais leves.
Huehuetenango, cidade de importância econômica e logística, mas sem belezas arquitetônicas, era base conveniente para explorar os arredores. Nem bem acabaram as ruas da cidade, e passando por Chiantla, as estradinhas asfaltadas, mas estreitas e extremamente íngremes, começaram a serpentear a serra dos Cuchumatanes, subindo acentuadamente, em meio a cruéis sinuosidades. Nos ziguezagues fechados, os veículos maiores precisavam invadir a pista contrária a fim de conseguir completar o movimento. As lotações com passageiros locais transitavam como loucos, ultrapassando nas curvas, em trechos sem suficiente visibilidade, arriscando a vida de todos. Não por acaso se viam cruzes afixadas nas beiradas da pista indicando vidas perdidas pela imprudência deliberada. Precipícios se multiplicavam à medida que a estrada subia.
O tempo que amanhecera encoberto e ameaçador abriu, liberando o sol para brilhar no céu incrivelmente azul. E o frio veio com tudo.
Comunidades esparsas cultivavam o mínimo essencial naquelas altitudes. Solos rochosos com evidências vulcânicas. Espécies de sisal de grande porte, pequenas hortas, rebanhos de ovelhas. População inteiramente indígena.
O veículo alcançou o topo da serra dos Cuchumatanes, a 3.500 metros de altitude. Dali a vista estupenda, acima das nuvens, do vale a oeste, dos ziguezagues da estrada, dos precipícios, encostas, vilarejos, partes da cidade de Huehuetenango, vulcões distantes, inclusive o Tajumulco, o mais alto da Guatemala, já extinto, com mais de 4.200 metros de altitude.
Crianças e uma senhora idosa logo rodearam implorando ajuda pra enfrentar as carências da vida miserável. Pedintes e indigência seriam regra naquela viagem. A situação de miséria e pobreza que vivia a maior parte do povo da Guatemala decorria de sucessivas ditaduras, civis ou militares, com ou sem eleições, a serviço das corporações estadunidenses. E esse longo ciclo de opressão e exploração teve início com o golpe de Estado de 1954, organizado, financiado e posto em prática pelo regime terrorista ao norte do México, através de bombardeios aéreos, de apoios logísticos e de armas, de recrutamento e treinamento de exércitos de mercenários junto a miseráveis dos países vizinhos, de propaganda na mídia para semear o pânico, de apoio total e escancarado à elite local e às corporações estadunidenses, em especial à infame United Fruit, La Frutera. Os contos do livro Week-End Na Guatemala, de Miguel Ángel Asturias, tratam com rara lucidez e brilho literário aqueles eventos criminosos.
Mais adiante dos altos da serra, o veículo percorreu o altiplano das Cuchumatanes, pouco povoado e raramente cultivado. O frio e o vento constante fustigavam a paisagem.
Entre mais ziguezagues e relevo acidentado, iniciamos a descida do outro lado da serra, rumo ao vale onde se localiza a cidadezinha de Todos Santos Cuchumatán. A descida por estradas estreitas cruzava pequenas propriedades, construções recentes de dois ou mais pavimentos. Algumas delas exibiam a bandeira do regime estadunidense, em razão do dinheiro ali empregado vir das remessas dos guatemaltecos que eram obrigados a se sujeitar a subempregos naquele país. País cujo regime, não por acaso, era o responsável pela miséria dos guatemaltecos.
E continuou a descer cada vez mais, até a entrada da pequena vila de Todos Santos Cuchumatán, encravada na encosta montanhosa. A estrada principal prosseguia no sentido noroeste, rumo a uma das fronteiras com o México.
Era o dia da feira semanal dos sábados, ao ar livre. Destaque para os trajes tradicionais dos descendentes dos maias. Eles, crianças, jovens e adultos, vestiam roupas impecavelmente novas, limpas, passadas. Calças longas e largas, vermelhas com listas verticais brancas, camisões brancos com detalhes e listas finas e verticais azuis, bolsa de tecido estampado e colorido, chapéu de abas curtas com círculo decorado em tons azulados. Compunham festival de cores vivas e alegres. Elas naquele festival de cores e bordados, predominando os azuis, levando o filho enrolado às costas.
Embora de pequena extensão, o mercado a céu aberto vibrava pelos produtos oferecidos, circulação do povo vestido a caráter para ocasião tão nobre, sorrisos sempre presentes, pela transparência da manhã ensolarada, pelo otimismo, ainda que passageiro, dos que se deslocaram de tantos vilarejos das redondezas.
O veículo refez todo o trajeto da manhã, subindo e descendo as encostas sinuosas e íngremes da serra dos Cuchumatanes. Passou batido ao lado de Chiantla e Huehuetenango. Retomou a rodovia pan-americana, ali ainda de pista simples e trânsito infernal.
Parada para experimentar os chicharrones, o popular torresmo de porco. Era barraca de beira de estrada caindo aos pedaços, velha e encardida, atendida por casal idoso vestindo roupas velhas e encardidas. Água corrente ou demais serviços sanitários por ali, nem pensar. E provei aquela iguaria tão comum nos interiores guatemaltecos, acompanhada de tortillas, é claro, e rabanete picado. Tudo na beira da rodovia, estreita, entupida de ônibus, lotações, caminhões e mais caminhões, com direito a poeira, fumaça de escapamentos, poluição sonora.
A rodovia pan-americana retomou a pista dupla e melhores condições do asfalto a partir do trevo de Quetzaltenango, em Quatro Caminos. O tempo voltou a fechar com nuvens baixas e escuras. A temperatura que voltara a subir caiu levemente.
Perto de Tecpán, almocei carne de porco e guacamole, acompanhada de, adivinhem, é claro, tortillas, muitas delas, claras e escuras.
Recomeçou a chover fino nas proximidades de Chimaltenango e Mixco, acompanhado de congestionamento respeitável. Entrei na capital da Guatemala antes de anoitecer.
Levantei com tempo suficiente para detonar no café da manhã que consistia de farto e variado bufê, livre, à vontade. Ataquei sem dó nem piedade.
O veículo cruzou avenidas planejadas e bem arborizadas do centro expandido da Cidade da Guatemala. Margeou a periferia, assustadoramente pobre, com barracos em vias de despencar dos altos paredões verticais. E pegou a rodovia de pista dupla no sentido do vale do Motagua.
O sudeste da Guatemala era mais seco, de clima semiárido. Vegetação rala, solo pedregoso, eventuais leitos de riachos sem um pingo de água na superfície, pouca terra cultivada, esparsos rebanhos bovinos e ovinos. E não havia o colorido das culturas indígenas do altiplano. Os tipos físicos mantinham ainda traços dos descendentes dos maias, porém mais claros, mestiços, vestindo roupas padrões do mundo ocidental. Em terrenos isolados das margens da estrada, culturas irrigadas de melões, melancias, mamões. Banquinhas junto ao asfalto ofereciam os produtos frescos aos viajantes. A pobreza, regra geral em toda a Guatemala, ali se escancarava com mais evidência, nas moradias, vestimentas, aspecto de tudo.
Veículos decorados com guirlandas coloridas, inclusive os alegres e charmosíssimos ônibus antigos, as camionetas, faziam o caminho de volta de romaria ao local onde se venerava um Cristo negro.
O veículo avançava pelas estradas. Passou ao lado de Sanarate, Guastatoya, Teculután, Rio Hondo, Estanzuela, Zacapa, Chiquimula, Jocotán, El Florido. Pertenciam geograficamente ao vale do Motagua, o que fez lembrar o delirante conto Americanos, Todos!, incluído no livro Week-End Na Guatemala, de Miguel Ángel Asturias.
À medida que a fronteira hondurenha se aproximava, mais miséria e desolação do povo guatemalteco. Numa parada nas imediações de El Florido, os moradores, sobreviventes na verdade, das casas de taipa cobertas de palha, apareceram e, assustados, me observaram entre sorrisos tímidos. Eletricidade, água e esgotos, nem pensar. O Estado não existia por ali, talvez somente com a costumeira repressão contra os pobres.
E surgiu a fronteira internacional. Os chapéus gigantescos, de abas largas e curvadas para cima, invariavelmente brancos ou de cores claras, na cabeça de praticamente todos os homens adultos, deram as boas-vindas a Honduras. Automaticamente me lembrei da figura do ex-presidente hondurenho Manoel Zelaya, deposto por golpe de Estado em 2009, financiado e apoiado pelo regime terrorista daquele país ao norte do México, pelo simples fato do governo dele ter se preocupado com os pobres.
continua...