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terça-feira, 10 de setembro de 2019

do Acre ao Piauí (via AC, RO, AM, PA, AP, MA, PI) (parte 3/8)

...continuação
Mas que boa e variada culinária era oferecida nos restaurantes de Porto Velho! À noite transbordei de felicidade em restaurante de comida capixaba. Duas caipirinhas, grandes e fortes, regaram a moqueca de tambaqui acompanhada de arroz, pirão e farofa fenomenal na manteiga. O peixe da moqueca, por motivos óbvios, era fluvial e não marinho.
Tempo de seguir viagem, rumo a Manaus. Durante o voo vislumbrei o vale do rio Madeira, repleto de braços, paranás, furos, ilhas, várzeas alagadas, lagos. Avistei o traçado da BR-230, a rodovia transamazônica, e também trechos da BR-319, intransitável naquela época do ano. Ao se aproximar do pouso, a imagem completa da foz do rio Negro, do rio Solimões, do encontro das águas, o prosseguimento no rio Amazonas, os estuários, as zonas alagadas, as águas escuras e límpidas do rio Negro. E a cidade de concreto e asfalto se exibiu de ponta a ponta, inclusive a extensa ponte atravessando as águas negras e conectando Manaus a Manacapuru, Iranduba, Novo Airão.
À noite encontrei com amigos no miolo do largo de São Sebastião, próximo à entrada do teatro Amazonas. Caipirinhas, bolinhos de pirarucu, isca de pirarucu, pastel de sabores variados, e, sobretudo, muitas e boas conversas sobre os mais diversos assuntos.
Após substancioso café da manhã desci para a beira do rio Negro, no porto da Escadaria, a fim de mergulhar naquela babel fascinante, naquela bagunça organizada, naquele caos irresistível, entre dezenas de navios, barcos, canoas, lanchas, passageiros, carregadores, cargas, vendedores de passagens, de comes e bebes, de serviços.
Ao anoitecer ensaio técnico do boi Caprichoso nos interiores do histórico clube Rio Negro. A ala integrante de Manaus, que iria se apresentar em Parintins, ali estava, mais a marujada dos instrumentistas, a torcida, admiradores, curiosos. O público se distribuía informalmente ao redor das piscinas, iluminadas pela imensa lua cheia da semana santa. O som, as toadas, os ritmos, as coreografias seguidas à risca pelos dançarinos e admiradores, mantinham a batida monótona, as letras de exaltação, os movimentos repetitivos, às vezes quebrados por coreografias indígenas ou negras.
Ao lado dos amigos fui a flutuante à montante da Ponta Negra, quase na boca do igarapé Tarumã no rio Negro. Pelo caminho, verdadeiros caminhos de rato, sem áreas públicas, sem árvores, sem sombra, sem praças, expondo a Manaus do concreto e asfalto, a Manaus que não É quente, mas Está quente, em razão do urbanismo estúpido ou, pior ainda, pela falta dele. No flutuante, o principal, as águas escuras e mornas do rio Negro para desfrutar à vontade. O pouco sol e o vento mantiveram o ar quente, mas não tórrido.
Acordei bem cedo e fui à Balsa Amarela, no porto da Escadaria, bem em frente à feira da Manaus Moderna. Embarquei no ferryboat de três pisos completos, mais o de Lazer com o bar e lanchonete, coberto, e outro acima, descoberto. Conversei com o passageiro da suíte ao lado. Morava sozinho em Manaus, sem trabalhar ou estudar no auge dos vinte e poucos anos. Vivia só nas noitadas sem regras e sem horários para acabar. Iria visitar a mãe em Alenquer.
Partida no meio da manhã. Uma hora depois o barco cruzou o encontro das águas dos rios Negro e Amazonas. A embarcação, como regra nas viagens de baixada, navegava pelo canal do rio, afastada das margens e das vistas mais atraentes. A maioria dos passageiros se mantinha nas redes. No bar, a música alta não poderia faltar, na base de Wesley Safadão e congêneres, a banda 007, aquelas duplas sertanejas, iguaizinhas umas às outras, em que eles imitam voz de menino chorão e elas imitam voz de homem.
Duas voadeiras provenientes das comunidades ribeirinhas do rio Amazonas encostaram para vender comes diversos, entre queijo, bananas chips, doces variados. Os passageiros se esbaldaram.
Ainda no começo da noite, perfilou ao norte a cidade de Itacoatiara, a segunda maior do Amazonas em população.
Acordei antes de clarear. Exceto o som do motor e do deslocamento das águas do rio Amazonas, ambos leves, nenhum ruído na embarcação. Amanheceu nublado, cinzento, com nuvens escuras e espessas, e garoa fraca. As lonas de proteção, contra chuva e vento, estavam arriadas nas laterais dos pisos.
Debaixo de chuva fina o barco atracou na balsa flutuante de Juruti, já no estado do Pará. Poucos passageiros no embarque e desembarque. Descarga de refrigerantes e alumínio laminado.
O rio Amazonas se encontrava bem cheio. Zonas alagadas apareciam nas margens de terra firme e, sobretudo, nas ilhas alongadas.
No meio do dia o barco atracou na acidentada e dotada de construções históricas cidade de Óbidos, na margem esquerda do Amazonas. Era o ponto mais estreito do rio, com “apenas” mil e oitocentos metros de largura. Por ser ponto afunilado, obrigando todas as embarcações a passarem pelo mesmo trecho, a polícia federal e a força nacional montaram base na cidade. A vistoria era em todos os setores, porém superficial.
Permaneci no piso de Lazer, admirando a imensidão da paisagem, entre muita água e distancias quilométricas. Contemplei as margens próximas do paraná por onde o barco seguia. Zonas alagadas de ambos os lados. A sabedoria cabocla driblava as cheias através das palafitas. Criações de animais seriam transferidas para terras mais altas. Meios de transporte naquela estação do ano, somente barcos, canoas, voadeiras, lanchas.
No final da tarde o barco atracou no lotado cais de Alenquer. Após manobras com pouco espaço disponível o navio encostou em outra embarcação, para, através dela, os passageiros atingirem a terra firme.
Pelo menos ali no centro, Alenquer contava com ruas estreitas e extensas, seguindo traçado quadriculado, calçadas altas e valetas profundas e abertas para escoar as águas pluviais e o esgoto. Trailers, lanchonetes e bares funcionavam com poucos clientes próximos ao cais, de onde se preparava para partir o barco rumo a Santarém.
Instalado em sobrado antigo, estreito e alongado, o hotel servia delicioso café da manhã em única mesa retangular. Os hóspedes se sentavam lado a lado, dividindo a farta e variada comida ali disposta.
Subi no morro do cruzeiro, de onde se tinha visão panorâmica da cidade, sobretudo do centro velho, das zonas alagadas, do paraná, dos barcos, do horizonte, e também, do lado oposto, da cidade nova, arborizada, mas sem graça como quase tudo que é novo e construído às pressas.
A frente da cidade sofria com constantes inundações no final do inverno amazônico, obrigando os moradores a se reposicionarem em terras mais altas. Bancos, comércio, os correios, residências, serviços, fugiram para longe das belezas da natureza. A primeira rua paralela ao paraná estava inundada a leste e a oeste do hotel.
Mas era ali onde se encontrava a parte mais interessante da zona urbana de Alenquer. Construções do início do século XX se espalhavam em ruas estreitas, tais como as escolas tradicionais, a igreja Matriz, o prédio da prefeitura, armazéns fechados. E, claro, a própria orla do paraná, em meio a barcos, canoas, flutuantes, comércio simples, bares e restaurantes saborosamente suspeitos, trailers de lanches, o vaivém de passageiros e cargas.
Depois de me deliciar com a caldeirada de tambaqui, sentei na entrada do hotel, de frente para a rua. Logo o marido da proprietária se achegou. A despeito de falar pelos cotovelos, sem pontos ou vírgulas, ele descreveu as atividades pecuárias, em terra firma no inverno, nas várzeas durante o verão, de gado e búfalo, relatando todo o processo de fabricação, da manteiga, queijo, carne. A zona rural do município de Alenquer produzia e vendia para outras regiões do Brasil farinha de mandioca, cacau, limão, castanha, cumaru, carne de boi e de búfalo, laticínios de vaca e búfala.
No meio da madrugada a chuva desabou com vontade. E ainda caía no começo da manhã ao acordar.
Acessei o longo trapiche do porto da cidade, todo em concreto, se projetando cem metros sobre as águas do paraná. A ele se somava construção grande em terra, coberta de telhas, contendo bilheterias, lanchonete, sala de espera, sanitários, e a ponta, sobre as águas, também coberta de telhas, com bancos, rampas laterais, nível abaixo a ser usado na estação seca. Mas, porém, contudo, todavia, todo o porto estava interditado havia anos, e logo após a inauguração. As más línguas afirmavam que caminhões acima do peso, entraram e danificaram as estruturas do trapiche. E foi largado às traças logo em seguida. Enquanto isso Alenquer era obrigada a enfrentar lama e poeira em cais improvisado.
Um membro de facção qualquer do comércio evangélico, repleto de frases decoradas e vazias, típicas de fundamentalistas, me jurou que na empresa deles não se fazia política, porque não devia fazer tais coisas no templo. Alardeava tais mentiras com a maior cara de pau. Como uma corporação do fundamentalismo evangélico, incrustrada no governo federal, além dos estaduais e municipais, nos legislativos e judiciários, mamando e influenciando, alegava que não fazia política?
Embarquei em lancha com destino a Santarém. No televisor da proa, o lixo estadunidense padrão. Melhor admirar a paisagem fluvial pela janela.
O trajeto passou por paranás e furos estreitos, contando com casas isoladas e alagadas. Pássaros de diversas cores e tamanhos voavam rasantes. Garças, pássaros pretos, aguardavam comida sobre as canaranas flutuantes. Nos momentos em que navegou sobre o leito principal do rio Amazonas a lancha enfrentou turbulência típica daquele curso que nunca repousa e sempre se agita.
Pela manhã caminhei lentamente pelo calçadão da orla fluvial de Santarém. Barcos pequenos partiam a comunidades próximas, lotados de passageiros de sábado. O calçadão, embora ainda incompleto, percorria extensa faixa da orla na margem direita do Tapajós. Delícia perambular por ela, de dia ou de noite.
Depois de almoçar e detonar sorvete de açaí com farinha de goma de tapioca, eu permaneci horas no último andar do hotel, sob a sombra, recebendo a brisa refrescante vinda do rio. Vista privilegiada do Tapajós, do encontro das águas, do Amazonas. Li O Livro de Ouro da Amazônia, de João Meirelles Filho, contemplei a paisagem, deixei a mente fluir.
O calçadão da orla do Tapajós ferveu a partir ao final da tarde. Famílias, casais, grupos, gente só, passeando, conversando, caminhando, sentados nos bancos, em cadeiras trazidas de casa, em harmonia, convivendo em paz com as diferenças. Comes e bebes aqui e ali. E de frente para as águas do rio Tapajós, pelas quais, vira e mexe, passavam barcos, navios, lanchas, canoas. Grupo de carimbó animava os que trefegavam pelo calçadão e paravam para ouvir e dançar. Havia trechos do calçadão mais cheios, outros tranquilos ou quase vazios, mas em todos os quilômetros dele havia gente prestigiando o espaço público, gratuito, democrático.
Pela manhã andei próximo ao rio, Tapajós no início, Amazonas depois, embora ainda com águas esverdeadas do primeiro. A área circundava o porto das balsas de carga, além do terminal de passageiros, inacabado e solenemente “inaugurado” pelo regime golpista que assaltou o governo federal em 2016.  Além das goteiras, mofo, excrementos de pássaros, água parada e escura, nada funcionava ali.
Na praça Tiradentes, do outro lado da avenida Tapajós, sob as sombras refrescadas pelo vento constante, conversei com senhora da zona rural da cidade de Prainha. Viera entrar com o processo de aposentadoria. O INSS ainda marcaria perícia para daí a dez dias. Mesmo antes da antipopular reforma da previdência que o governo fascista e ultraliberal ansiava impor ao povo brasileiro, beneficiando as corporações capitalistas, principalmente banqueiros, o regime fazia de tudo para adiar a aposentadoria do povo, um direito humano elementar. A senhora veio a Santarém de balsa desde Prainha, em viagem de vinte quatro horas, dormindo em rede. Somente na manhã seguinte retornaria. Aquela maratona se repetiria tantas vezes quanto necessária para obter a merecida aposentadoria.
Tomei ônibus urbano com destino a Alter do Chão. Os cerca de noventa minutos de percurso atravessou as periferias de Santarém, pequeno trecho da rodovia Cuiabá-Santarém, a BR-163, para logo em seguida entrar na PA-457, estradinha local, asfaltada e bem conservada. Passou ao lado de comunidades rurais de São Braz e Cururumã, pela estrada acidentada ao lado da floresta secundária. Desembarquei em Alter do Chão, pouco antes do ponto final, ao avistar a igrejinha da praça central.
Dei voltas leves pela beira do Tapajós, bastante alto, vez ou outra beijando a calçada ou até invadindo a rua. Praias daquele lado, nenhuma. Na ilha em frente, cartão postal de Alter do Chão, somente nesgas de areia próximas à elevação do morro. Árvores submersas, areias submersas, barracas de comes e bebes submersas até quase a cobertura de palha. Vendedores de passeios, barqueiros, guias, até que ofereciam serviços, mas sem maiores convicções, cientes da baixa temporada e da ausência de praias chamativas.
Turistas ou viajantes, praticamente nenhum. Hotéis e pousadas às moscas. Dentre bares e restaurantes, apenas um aberto e recebendo poucos clientes, entre a pracinha e o rio. Tomei duas caipirinhas e uma porção de bolinhos de piracuí. Andei pelas ruas arborizadas ao norte, entre casas e mansões de ricaços, mais voltadas a aluguel de temporada do que frequentadas pelos proprietários.
Sorvete de açaí e peguei o ônibus de volta a Santarém.
Praticamente todos os prédios altos em construção nos bairros de Aldeia e Prainha se encontravam com as obras paralisadas. Tapumes velhos, manchas de umidade nas lajes, nenhum funcionário. Coincidência ou reflexos da recessão provocada pelo regime iniciado naquele ano?
Subi em ônibus à comunidade de Pajuçara. Antes do destino final, via estrada de areia, entrou na comunidade de Santa Maria, quieta e minúscula. Entre os passageiros, alunos de ensino fundamental, indo ou vindo das escolas públicas dos arredores.
Localizada entre o aeroporto e Alter do Chão, ainda no município de Santarém, a vila de Pajuçara era pacata e silenciosa, pelo menos enquanto não se formavam praias no Tapajós. Desci longa escadaria de acesso ao que seria praia em época de verão. Só havia estreita faixa de areia úmida, espremida entre as águas do Tapajós e o barranco. Ninguém à vista. Barracas vazias e cobertas de palha, barcos de passeio amarrados às árvores parcialmente submersas. Na parte alta, pelas ruazinhas silenciosas, ouvi as professoras ensinando contas de multiplicação e divisão para as crianças em escolas de bom aspecto.
Esperei o ônibus de volta enquanto se ouvia nitidamente o grito dos guaribas vindo das matas ao norte da vila.
Já perto da zona urbana de Santarém, o deplorável conjunto “habitacional” Residencial da Salvação. Nada havia de residencial, habitacional ou de salvação naquelas centenas de cubículos claustrofóbicos, tórridos, com janelas diminutas, todos juntinhos uns aos outros. Um crime enjaular a população necessitada naquele campo de concentração, sem ventilação, sem praças, sem áreas culturais ou de lazer. Certamente as construtoras, as administrações públicas municipais e estaduais, os políticos clientelistas, ganharam fortunas e prestígio em cima do confinamento de famílias naqueles caixotes sufocantes. E, triste ironia, muito dos pobres coitados para ali deslocados se sentiam agradecidos pelo presente da casa própria.
continua...

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

do Acre ao Piauí (via AC, RO, AM, PA, AP, MA, PI) (parte 2/8)

...continuação
O aeroporto municipal de Jordão se encheu de Kashinawá. Mantendo a tradição, bastava um Kashinawá viajar ou voltar à terra natal para a festa ser grandiosa e prestigiada.
O voo no mesmo bandeirante da ida correu tranquilo até o pouso em Tarauacá. Esperei o ônibus, procedente de Cruzeiro do Sul. Logo desembarquei em Feijó, cidade feia, sem rodoviária, com buraqueira nas ruas, sem calçadas, o mesmo descaso de Tarauacá com a população.
A chuva teimosa desabou na cidade à tardinha, em seguida a raios e trovões. O espeto de carne de porco do jantar veio acompanhado de baião, macaxeira e suco de cupuaçu. O cardápio, a grelha na calçada, o dono, claro e de óculos, não podiam ser mais cearenses, como praticamente todo o Acre não indígena.
Dei volta leve pelas ruas escuras, molhadas e esvaziadas de Feijó.

Baixei cedo pela manhã no pequeno, simpático e naturalmente ventilado aeroporto municipal de Feijó, construído no estilo de cabana de floresta, com toras resistentes de madeira e coberto com duas águas de telha de verdade, de cerâmica. Muitos voos dali, depois de parar em Envira, seguiriam a Eirunepé, cidade onde, quinze anos antes, esperei oito dias a embarcação para baixar o rio Juruá, o sinuosíssimo Juruá.
Antes do embarque na aeronave, as bagagens, e também os passageiros, foram pesados e checados no saguão.
Em monomotor do modelo minuano, para seis passageiros, mais o piloto e o copiloto, o voo partiu lotado, com direito à vista impressionante da floresta e das curvas dos rios. O avião pousou em Envira, já no estado do Amazonas, cidade da margem direita do rio Tarauacá.
Envira, assim como Guajará, Ipixuna, Boca do Acre, e parcialmente Eirunepé, todas elas cidades do Amazonas, se abasteciam e recorriam ao estado do Acre. Pela mesma distância absurda da capital Manaus, as amazonenses Lábrea, Humaitá, Apuí, se voltavam para o estado de Rondônia.
No meio da tarde, violento vendaval atingiu a cidade. Portas e janelas tremeram. Areia e poeira penetraram pelas frestas e cobriram os interiores do hotel. O céu escureceu, as nuvens engrossaram, mas caiu pouca chuva. O que caiu, ligeiramente, foi a temperatura. Chamado de friagem, o fenômeno anunciava o fim do inverno amazônico, a estação das chuvas, e o começo do verão amazônico, a estação seca.
Dei voltas pela cidade ao cair da tarde. As obras do porto fluvial, atrás do hotel, andavam a passos de tartaruga havia anos. A orla de Envira, toda arrebentada, estava interditada com cerca de madeira apodrecida caindo aos pedaços. Os moradores a ignoravam e a ultrapassavam impunemente. A prefeitura de Envira abandonava completamente as responsabilidades sociais. Pelas ruas, muitas construções abandonadas, vazias, inacabadas, em ruínas. Típico de cidades do interior do Amazonas, cujos prefeitos e secretários nem residiam nas cidades, preferindo torrar o dinheiro público na capital ou no exterior. A situação só pioraria com o governo federal tomado por forças ultraliberais e antipopulares.
Quatro passageiros de voo vespertino se hospedaram no hotel, exibindo olhares esbugalhados. Devido ao vendaval da tarde, o voo foi terrível, assustador, turbulento, nervoso. Ventou, choveu, descarregou eletricidade em meio às nuvens negras e espessas.
Não encontrei restaurantes para jantar. Os sons, gritos e apupos vindos do ginásio municipal de esportes me atraíram. Parece que metade da população de Envira lotava a parte interna do ginásio e os entornos. Campeonato de futebol de salão empolgava torcedores e curiosos. Lanchonetes e ambulantes dos arredores abasteciam os frequentadores. A polícia militar comparecia com o veículo de pisca-pisca aceso e seis policiais armados de cassetetes longos e armas de fogo. A frequência raramente superava os dezoito anos de idade. Os jogos eram bem jogados, bem disputados, entre times uniformizados e batizados com nomes de equipes famosas, brasileiras e estrangeiras.

Abriram a torneira do céu e a esqueceram aberta por toda a madrugada. Choveu demais e assim amanheceu. Mas que som aconchegante batendo na cobertura de alumínio do hotel!
Durante o café da manhã, os passageiros do voo dos horrores da tarde anterior aguardavam a liberação do aeroporto para a continuação até Itamarati, com escala em Eirunepé. Em breve estiagem eles foram chamados para embarcar. Menos de uma hora depois ouvi o ronco do motor e avistei o avião a caminho do vale do Juruá.
A chuva engrossou para valer, firme e forte, mais tarde. A televisão do quarto, como regra nos demais hotéis, continha noventa por cento dos canais voltados a comerciais, sobretudo propagando o fanatismo religioso. Pelas ruas, dos templos de empresas evangélicas, se ouviam os gritos histéricos dos pastores e das ovelhinhas mais exaltadas, tomadas pelo transe fundamentalista.
À noite, repeti as imediações do ginásio de esportes, aonde todo mundo ia. Meninas, crianças ainda, andavam de mãos dados com o namorado, noivo, marido, e já carregavam filhos no colo. O futebol de salão prosseguia bem jogado e disputado na quadra.
Acompanhando o costume dos interiores brasileiros, Envira acordava cedo, bem cedo, de maneira ruidosa, transbordando vida para todos os lados. Andei bastante, por quase toda a cidade. Arrisquei o fim de muitas ruas, mas a lama acumulada impedia e me forçava à outra opção. O sol e as picadas dos piuns arderam sem dó nem piedade.
Deliberadamente abandonada, Envira se apresentava suja, em obras inacabadas ou interrompidas, largada, indiferente à população sofrida que pagava impostos e era convocada somente em períodos eleitorais. Barro, lama, poeira, mato alto, construções fechadas, deixadas para trás, em ruínas, praças que viraram matagais, parques transformados em depósitos de lixo. A população se mantinha resignada, desanimada, amortecida, sem ninguém para lhe abrir os olhos e levantar o ânimo com novas políticas, novos projetos urbanos, utopias necessárias. Nesse caldo de cultura fedorento os oportunistas das empresas do comércio da fé, sobretudo as evangélicas, usavam e abusavam da desesperança generalizada, mergulhando o povo em buraco ainda mais fundo e pegajoso.
Poucos indígenas circulavam pelas ruas de cidade mestiça. Eram da etnia Kulina. Caminhavam em grupos fechados, molambentos, maltrapilhos, em condições físicas preocupantes.
Após o café da manhã, sempre bem servido e com ovos fritos na hora, saí decidido a caminhar bastante. Inicialmente o curto trecho ao aeroporto municipal. Margeei a pista do aeroporto até a cabeceira, por estrada de chão, larga, desprovida de beleza e ocupada por caminhões em trânsito. Dobrei à direita, por caminho estreito, entre cabanas isoladas de madeira. Nada plantado ou criado. Peguei estradinha próxima ao outro lado da área do aeroporto. Atoleiros, água empoçada, argila pegajosa e plástica, a famosa tabatinga. Uma atolada aqui, uma afundada de pé ali, e rapidamente os pés, tornozelos, papetes, partes das canelas, se cobriram de lama e água barrenta.

Ao retornar à zona urbana, o conjunto de casas populares, pré-fabricadas, eufemismo para cubículos claustrofóbicos que os opressores da elite empurravam aos pobres, se encontrava abandonado, sem moradores, com o mato alto. “Casas” novas, jamais usadas, jaziam largadas pelos governos municipais.
No trecho urbano e calçado de tijolos entrei na extensa área do elefante branco batizado de Parque de Exposições do Produtor. Inúmeras construções de alvenaria, arena para rodeios, salas de esportes e jogos, espaços para apresentações musicais, espaços vazios e urbanizados, água encanada, energia elétrica. Construções com o dinheiro público para funcionar uma ou duas vezes ao ano, ocupando espaço imenso no meio da cidade.
Aproveitei o banheiro abandonado e aberto do tal parque. Usei a abusei da água encanada do monstrengo vazio para lavar os pés, tornozelos, papetes, pernas, respingos de barro na bermuda. Mais à frente, mas ainda nas dependências internas, desertas e sem fim do elefante branco, arrematei o restante da sujeira numa das várias torneiras de tanques espalhados e sem uso pela população cuja maioria nem possuía água encanada em casa.
À tarde o céu limpou e o sol brilhou desimpedido. A poeira que já incomodava se tornou preocupante. As ruas se cobriam de terra e areia, pelas obras na margem do rio, pelos caminhões transportando cascalho e terra, pelos veículos em geral revolvendo e mantendo tudo em suspensão. Os moradores tampavam bocas e narizes com as mãos, com a camiseta erguida até os olhos, com pedaços de pano solto.
Durante o café da manhã, em conversas com piloto de táxi aéreo, lamentamos que cidades ribeirinhas, antes autossuficientes em produtos agropecuários para alimentar os moradores, passaram a depender em tudo de fora depois dos êxodos populacionais rumo aos grandes centros. A população pagava bem mais caro por produtos piores, e isso quando os produtos chegavam.
No saguão do pequeno aeroporto municipal de Envira, mais críticas ao prefeito que se elegeu e fugiu da cidade, gastando o dinheiro dos envirenses, largando a população às moscas, ao barro, à poeira. Não se aperceberam, porém, da catástrofe social do governo federal que pretendia arrancar o pouco do que o povo conquistara nos tempos progressistas de Lula e Dilma para entregar aos grandes capitalistas, sobretudo estrangeiros.
Depois de pesar as bagagens e os passageiros embarquei em monomotor, do modelo corisco, com capacidade para somente três passageiros, mais o piloto. Comigo, moço rústico e o “doutor” de origem peruana. Já na pista, com ambas as portas dianteiras abertas, para ventilar, e fechadas somente depois da decolagem, o piloto grandalhão se virou e comunicou:
“Será mais ou menos meia hora de voo. Vai balançar um pouco porque já é tarde e o ar esquentou.”
E se virou para acionar os motores no máximo e decolar. O voo e o pouso em Feijó, porém, foram sem turbulências, possibilitando visão privilegiada da floresta amazônica, do rio Tarauacá, da boca do Envira a montante da cidade de Envira. Sequências belíssimas de curvas sinuosas dos rios por entre a mata fechada.
Na beira do rio Envira, centro de Feijó, os Ashaninka e os Kashinawá perambulavam maltrapilhos, bem diferentes dos orgulhosos de Jordão. Ali em Feijó se comportavam mais como párias do que como legítimos e originais moradores daquelas terras.

Jantei novamente no espetinho cearense próximo ao hotel. Depois, atravessei a rua para me deliciar com uma bola de sorvete de açaí e outra de cupuaçu. Mais adiante, a praça ocupada por famílias. No quarteirão seguinte, outro espetinho, também cearense. No final da calçada, a entrada do parque urbanizado, repleto de quadras, trilhas, pistas para bicicleta, fazendo lembrar o Parque da Maternidade em Rio Branco.
De manhãzinha embarquei no ônibus com destino a Rio Branco.
Pelo caminho a extensa ponte, de mais de duzentos metros, sobre o caudaloso rio Purus. Almoço de meia hora no centro de Sena Madureira. Pancada de chuva intensa e rápida nas imediações de Bujari. Nova pancada de chuva na entrada de Rio Branco.
Caminhando pelo centro de Rio Branco, me sentei na margem esquerda do rio Acre, sob a sombra providencial das palmeiras. Vez ou outra a brisa leve amenizava o calor abafado. Vendedores, grupos de recuperação de dependências químicas, pedintes, pediam ajuda, sem insistir ou grudar. Me sentia satisfeito de rever aquele pedaço tão aconchegante da capital acreana. As pontes para veículos motorizados, a passarela para pedestres, ambas as margens do rio Acre, o comércio bem organizado dos arredores, o vaivém dos moradores, visitantes, curiosos.
Pela manhã embarquei em ônibus para Porto Velho. Durante a travessia da balsa sobre o rio Madeira, ao lado da construção quase finalizada da ponte, eu não avistei à montante, como em viagens anteriores, as dezenas de balsas flutuantes de garimpo de ouro, de triste fama e de muitas mortes “acidentais”.
No Acre o ônibus passou pelas cidades de Senador Guiomar e Acrelândia. Em Rondônia, Califórnia, Extrema, Vista Alegre do Abunã, Jaci Paraná, o distrito de Teotônio, ao longo do qual, por dezenas de quilômetros, a BR-364 atravessou o lago formado pelas novas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio.
Desembarquei na apertada rodoviária de Porto Velho no começo da noite.
Pela manhã caminhei pelo traçado quadriculado o longo trecho até o porto do Cai N’Água, na margem direita do rio Madeira. Ao lado, totalmente cercado e fechado para visitação, o espaço da antiga estação da ferrovia Madeira Mamoré. Triste fim de meio de transporte que tantas vidas e dinheiro público foram consumidos na construção mais de cem anos antes.
No porto, ferryboat programado para partir daí a dois dias a Manaus. Camarotes e suítes, todos lotados.  Nova embarcação, do mesmo tipo, sem o charme e a beleza dos navios e barcos convencionais, por ser mais voltada a carga de veículos do que de passageiros, somente daí a cinco dias.
Definitivamente Porto Velho deixara de ser amazônica. Nem o rio Madeira ali ao lado lhe assegurava o ar de cidade ribeirinha, ainda que média a grande. Pelos imigrantes que deram o tom no estado de Rondônia, a cidade adquiriu jeitão de cidades do centro-oeste brasileiro, do oeste paulista, do triângulo mineiro. Vez ou outra eu esbarrava em lojas de venda de creme fresco de açaí ou de cupuaçu, lembrando que eu estava na Amazônia. O imponente rio Madeira se escondia atrás das construções da margem das águas. Não havia orla fluvial a fim de aproximar os moradores do rio. O crescimento da cidade afastou os habitantes da maior riqueza natural ali disponível. Mais uma cidade amazônica a dar as costas à fonte de água, de peixes, de lazer, de transportes.
continua...

terça-feira, 26 de março de 2013

Um Ano em Rondônia (parte 5/5)

...continuação
O TEMPO LIVRE

Nem só de trabalho se vivia por aquelas bandas de Rondônia. Na vila da empresa, cumpríamos o horário comercial, mas as opções de lazer eram mínimas. Mesmo no setor dos funcionários de nível superior das duas vilas artificiais da empresa.
Jogávamos vôlei ou futebol nas quadras de areia, aproveitávamos as piscinas, frequentávamos o clube social, comparecíamos aos monótonos e repetitivos churrascos, invariavelmente com os mesmos rostos de sempre, conversando os mesmos assuntos de sempre, bebendo bastante como sempre. O assanhamento brotava quando alguém de fora, parente ou não, aparecia para oxigenar o ambiente, sobretudo se mulher disponível e um pouquinho atraente. Sim, pois, naquela colônia penal, o nível de exigências caía com o passar do tempo.

Quando juntavam vários geólogos, bebíamos todas e mais um pouco, enquanto debatíamos as origens da cassiterita e as mais apropriadas técnicas de prospecção mineral. O álcool e o assunto nos enlevavam. Discutíamos de maneira tão exaltada que assustávamos os das mesas vizinhas. Ou então jogávamos sinuca, tênis de mesa, víamos filmes pelo videocassete, então uma novidade, sobretudo no interior de Rondônia.

Num dado dia livre eu e mais três colegas decidimos sumir das vilas artificiais. Subimos na caminhonete e pegamos a estrada de saída rumo a BR-364. Não havia grandes opções. Ou parávamos nos bares de beira de estrada para encher a cara de bebida ruim na companhia de putas feias, sujas e banguelas ou seguíamos até a cidade de Ariquemes, algumas horas dali por estradas de terra. Por exclusão escolhemos a segunda opção.

Embora sede de município, nada se podia esperar de Ariquemes além de miséria, poeira, construções de madeira, aspecto de terra sem lei, olhares e comportamentos suspeitos. Os cinco anos de emancipação não foram suficientes para lhe dar aparência de cidade. O local estava mais para clareira na floresta, parca e desordenadamente ocupada. Mas, surpreendentemente, foi lá que pela primeira vez comi em restaurante de comida japonesa.

Assessorado pelo técnico de mineração paraense, um nissei, resolvemos enfrentar a parada em instalações precárias e pouco confiáveis, de madeira obviamente. Porém a comida compensou. Enchemos a barriga de variedades em grande quantidade e de boa qualidade.

Saímos à tarde do restaurante meio sem rumo. Decidimos dar a última volta pelo emaranhado de ruas empoeiradas de Ariquemes. Eu estava no volante e na ruazinha esburacada, caminhando pelo rascunho de calçada, uma morena, cabelos pretos e longos, roupas compatíveis com o calor que massacrava. Fui notado por olhares insinuantes. Sinalizei que queria algo mais concreto. Não senti recusas. Larguei meus colegas no primeiro bar que apareceu e voltei para resgatá-la do sol forte.

Subiu na cabine e nos refugiamos nos arredores da cidadezinha, em local sem alma humana por perto. Não houve tempo para preâmbulos e apresentações. Usamos e abusamos na cabine e na carroceria, mesmo debaixo daquele sol de rachar mamona. E nos lambuzamos até dizer chega.

Apesar da facilidade e falta de resistência, não me pareceu puta, não no sentido profissional da palavra. Pau para toda obra na região provavelmente, mas não puta. Não me pediu nada em troca e nem lhe oferecia nada.

Só sei que o fato rendeu histórias nas duas vilas da empresa por muito tempo. Meus colegas de aventuras jamais iriam deixar por menos. Ainda mais que os odores característicos, decorrentes dos acasalamentos na caminhonete, marcaram toda a viagem de volta.


ELAS

Muitas mulheres moravam na segunda vila artificial. Além das esposas e filhas dos funcionários, de quem mantínhamos a distância regulamentar, havia as que também trabalhavam na empresa. Eram professoras, médicas, enfermeiras, trabalhadoras de escritório. Paranaenses, paraenses e maranhenses compunham a maioria das professoras, a função em maior número por ali. Como todo o respeito a elas e, principalmente, ao estado de perigo que a maioria dos homens vivia, se juntássemos todas não montaríamos uma sequer. Conservadoras, carolas, reprimidas, restritas intelectualmente, as colegas em nada amenizavam a dramática a situação dos solteiros. E, paradoxalmente, loucas para casar.

Ocorria que, acidentalmente, permanecesse apenas uma delas na sala de jogos do clube entre um ou mais homens. Assim que a dita cuja se apercebia, se levantava subitamente, se apressando no caminho da porta. À minha pergunta do motivo daquele pânico, respondeu: “uma mulher não pode ficar sozinha com outro homem”. Eu não sabia se ria ou chorava. Não entendíamos como uma mulher de vinte e poucos anos, saída do interior e disposta a ensinar em escola no meio da floresta amazônica, a milhares de quilômetros de casa, obcecada por casamento, pudesse se comportar de maneira tão medieval. Ao não ficarem sozinhas entre homens, porém, gostavam de se aproximar e conversar assuntos insípidos e sonolentos.

O consumo contínuo e excessivo de álcool, o afastamento da vida urbana, a solidão, a carência afetiva, entre outros problemas, atingiam de maneira intensa e diversa cada um dali. O engenheiro civil, carioca, além de beber bastante, vivia com frequentes dores no estômago e no intestino. Uma das professoras, maranhense, oportunista, confortava-o nas horas mais delicadas. Em pouco tempo começaram a namorar. Ela não largava do pé dele, envolvendo-o nas próprias teias. Em pouco tempo, o coitado já não respirava sem a autorização dela. Todos percebiam que o que os unia era a profunda carência decorrente do confinamento forçado naquela vila da transnacional. Logo surgiram alianças nas mãos direitas do casal. E começaram a planejar casamento.

Notei a arrumadeira dos quartos. Baixinha, substanciosa, morena, olhar perigoso. Em condições normais de temperatura e pressão, provavelmente não a consideraria. A situação, porém, estava grave. Insinuei minhas intenções. Ela não disse nem sim nem não. Peguei-a no final do expediente e fomos a uma estradinha local, estreita, com movimento zero, ainda mais ao anoitecer. Deixamos as burocracias de lado e partimos direto ao ponto. Saímos outras vezes. Optávamos ora pela cabine da caminhonete ora pela carroceria, mais ventilada e espaçosa.

E havia a famosa enfermeira do ambulatório. Magra, alta, tipo indígena, rosto gasto e sem beleza, jeito para lá de oferecido, corria fama entre os funcionários. Pelos indícios, jamais negara carinhos a quem solicitasse. Nunca descobri o motivo do número 2000 após o nome dela. Muitos garantiam que derivava da quantidade de clientes atendidos intimamente.

Num final de projeto, enquanto elaborávamos relatórios, cresceu a demanda por desenhistas para a confecção de mapas e perfis. A equipe fixa da vila principal não dava conta do recado e a empresa recrutou mais recursos na sede do Rio de Janeiro.

Entre os desenhistas estava uma balzaquiana, de estatura média, corpo suculento, sorriso sempre presente, charme à flor da pele. Não sei se pelo isolamento na colônia penal ou pela carência incurável da idade, mas logo começamos a babar pela desenhista. Dizia ser separada, com filhos, independente e mostrava olhares para lá de insinuantes. Virou o assunto e o desejo da maioria dos solteiros. E talvez dos casados também.

Minhas visitas ao departamento de desenhos aumentaram e algo sinalizava que ela tinha ido com minha cara. Sorrisos, olhares, movimentos de corpo, balançar dos cabelos volumosos me deixavam ainda mais empolgado. Devia dar o bote antes que alguém o fizesse.

Num sábado à noite, a empresa organizou a festa do Havaí. Ninguém podia perder e lá estava eu no clube da vila principal. E a desenhista também. Trocamos olhares e logo tratei de marcar presença e terreno. A atração transbordava pelos poros de ambos.

Em pouco tempo nos agarrávamos no canto do salão. A festa ficou pequena e muitos eram os olhares curiosos. Levei a donzela à minha suíte na segunda vila, quase uma hora por estrada de chão, ainda mais à noite e com umas na cabeça.

A empresa não permitia que funcionários solteiros do sexo oposto dormissem ou permanecerem no mesmo quarto sob quaisquer circunstâncias. Ainda mais naquelas condições de pura excitação e terceiras intenções. Mandei às favas o regulamento hipócrita dos estrangeiros. E a noite foi curta. Antes do café da manhã do domingo, ela saiu e tentamos disfarçar o indisfarçável. Ainda ficamos juntos em outras noites.

Mas tive que ficar fora por duas semanas, no acampamento do projeto de campo. Quando voltei, a carioca já havia retornado ao Rio de Janeiro. Fizeram fila para se aninhar com ela. Poucos os que não conseguiram. A desenhista serviu a quase todos. Na verdade, não se sabe quem serviu a quem. Ambos os lados aproveitaram e se deliciaram.

Certa noite, alguns amigos do gerente administrativo estavam em visita pela segunda vila. Entre eles, uma falsa loira, trintona, atraente, simpática, comunicativa. Era candidata à vereadora em Ariquemes pelo partido oficial da ditadura. Apesar de casada, não trouxera o marido a tiracolo e parecia disposta a agradar os eleitores da melhor maneira. Trocamos olhares e começamos a conversar animadamente. Ambos se interessaram pelos temas políticos, mas logo percebi que deveria evitá-los. A nobre candidata recitava lemas fascistas sobre o Brasil e os brasileiros, sobretudo no que se refere à situação do campo, na qual demonstrava ser herdeira de teses escravistas. Além de minhas opiniões se situarem a cento e oitenta graus daquilo, me atraí mais por outras posições dela, que não as políticas. Em meio ao discurso para lá de reacionário, a aspirante à política exalava charme enquanto abria os lábios, movimentava o corpo, mexia nos cabelos, me lançava olhares cheios de segundas intenções. Até rolou clima para, quem sabe, mais tarde, esquentar a noite em local mais discreto.

Não me permiti, porém, tirar os pés do chão, temendo aonde me meteria. Como latifundiária, ligada à pior corja de invasores de terras, grileiros, pistoleiros, policiais e juízes corruptos, criminosos em geral, aquelas atitudes fascistas não se restringiam ao discurso eleitoral. A beldade à minha frente pertencia literalmente à classe que usava e abusava da violência para manter e ampliar o poderio econômico. Quanto mais ela se abria, mais me conscientizava que, caso prosseguisse, me enroscaria em teias podres, das quais não sairia ileso. Decidi recuar, esfriar a quentura, inventar qualquer desculpa e pular fora. Ela nem percebeu, ou fingiu não perceber.

Claro que depois me bateu arrependimento ou, no mínimo, dúvidas. Ainda mais vivendo naquela estiagem crônica de mulheres. Porém, como um amigo costumava afirmar: “Nessas horas, é melhor não”. Foi uma pena, mas saí vivo e sem escoriações.


O FINAL

Ainda não completara um ano de atuação nos projetos de prospecção mineral da transnacional em Rondônia e a chapa já esquentara. O péssimo relacionamento com o gerente ameba, o isolamento social, a vida vazia e sem perspectivas, que não fossem me alcoolizar e me amarrar àquelas mulheres pavorosas, tornaram minha permanência insustentável.

Troquei ideias com outro geólogo também descontente e não vimos luz no fim do túnel. De qualquer maneira, decidimos tentar a última cartada. Frente às incontáveis barbaridades cometidas pelo gerente, unanimemente repudiadas, dos peões aos geólogos, escrevemos longa carta ao diretor de mineração da empresa, então lotado no Rio de Janeiro. Expusemos detalhadamente, item por item, cada ato de incompetência técnica e administrativa cometida pelo sujeito, seguidas das providenciais propostas de solução. Escolhemos uma noite tranquila para datilografá-las nas máquinas de escrever do escritório da vila principal. Não esquecemos o papel-carbono a fim de ficarmos com a cópia fiel dos textos. Lemos e relemos dezenas de vezes. Ponderamos isso e aquilo. Além dos riscos que corríamos com a contundência das afirmações, não queríamos passar por levianos ou mentirosos. Tudo que escrevíamos ali deveria ser passível de imediata comprovação. Enviamos finalmente ambas as denúncias no primeiro malote. E só aguardando o estouro.

E a reação veio em poucos dias. Fui sumariamente demitido sem maiores explicações. Meu colega ainda teve semanas para respirar antes da bordoada. Em ambos os casos, a transnacional nem sequer expôs os motivos ou comentários a respeito do conteúdo das denuncias que escrevêramos. Jamais tive notícias do tal diretor. Não nos surpreendeu o fato do gerente ameba estar muito solidamente atado à cúpula estrangeira. Sabíamos que não teríamos força. As cartas serviram mais para desabafar e tirar o peso da consciência. Ninguém poderia nos acusar de indiferença ou ausência de iniciativa diante do caos pelo qual passavam os projetos e da insatisfação da maioria dos funcionários.

Me despedi de todos. A maioria me elogiou pela ousadia. Outros enfiaram a cabeça no buraco e me evitaram, temendo se contagiar pelo profissionalismo. Me senti aliviado pela melhor decisão tomada. E sairia da colônia penal da transnacional. Nada contra as maravilhas da floresta amazônica e os povos originais que nela habitam, mas sim pelos crimes que os estrangeiros cometiam impunemente à natureza e aos seres humanos que lá viviam e trabalhavam.

Assinei o que tinha que assinar e voei dali o mais rápido possível. Nem precisei ir ao Rio para sacar meus direitos. Em São Paulo mesmo consegui tudo o que precisava.

Reconquistara minha vida no final de 1982 depois de quase um ano confinado.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Um Ano em Rondônia (parte 4/5)

...continuação
O GARIMPO

A maioria dos peões que trabalhavam na empresa não tinha maiores raízes ou compromissos. Normalmente de outros estados, sobretudo Maranhão e Piauí, possuíam mulheres e filhos a milhares de quilômetros de distância. Agiam conforme o vento. Na baixa dos rios, muitos costumavam pedir demissão para tentar a sorte nos garimpos de ouro no rio Madeira. Retornavam a procurar emprego nas mineradoras assim que o rio começava a encher.

O rio Madeira contava com garimpo mecanizado em função do ouro se encontrar nos cascalhos do fundo do leito. Postadas sobre as águas, balsas cobertas abrigavam bombas de sucção, bateias, equipamento completo. Longas tubulações de borracha eram levadas da balsa até o fundo do rio e, através das máquinas a diesel, o cascalho era sugado para cima. Um garimpeiro comandava tudo na superfície enquanto outro permanecia no fundo dirigindo a sucção, respirando através de um segundo cano que trazia o ar puro de cima.

O garimpeiro de cima concentrava o cascalho na bateia e fazia análises prévias da qualidade do material coletado. Acontecia de o garimpeiro de cima encontrar muito ouro na bateia e não desejar dividir com o sócio de baixo. Ou ambos possuírem mágoas passadas mal resolvidas. Permanecendo submerso durante horas, o garimpeiro de baixo se encontrava em situação para lá de frágil, inteiramente nas mãos do sócio da superfície. E eis que esse indivíduo, o de cima da balsa, decidia resolver as pendências na base do curto e grosso. Bastava conectar o tudo de entrada de ar do sócio de baixo no escapamento da bomba de sucção. O garimpeiro submerso inalaria combustível queimado em vez de ar puro. Antes que pudesse se defender ou subir à superfície, a fumaça lhe encheria os pulmões e o apagaria em segundos.

Em atividade recheada de casos fatais devido às precárias condições de trabalho, a versão oficial de mais um “acidente” não surpreenderia ninguém. E a maioria acreditava. Ou fingia acreditar. Segundo os peões com quem conversei, tornavam-se frequentes ocorrências desse tipo e nada acontecia. Tudo se mantinha na mesma. Afinal, era um a menos para dividir o ouro dos fundos do rio Madeira.

Meu primeiro parceiro de exploração nas trilhas pediu as contas no meio do ano. “Eu vou garimpar ouro no Madeira e resolver minha vida”, me comunicou antes de ir embora. Não voltou mais. Segundo ouvi mais tarde, o tal sócio da superfície da balsa, com quem tinha pendengas abertas, o largou no fundo das águas. Os corpos, dele e dos demais descartados do garimpo, jamais foram encontrados.

 
O GARIMPEIRO

O segundo e mais duradouro parceiro de caminhadas pelas trilhas me enriqueceu com histórias de vida ainda mais escabrosas que o falecido primeiro. Branco, baixo, atarracado, com cabelos pretos e lisos, feições indígenas, o maranhense raramente desfazia a expressão enfezada, exibindo o cenho constantemente franzido. Sempre calado, só falava se eu tomasse a iniciativa. Mesmo assim, nos primeiros dias, foi difícil lhe arrancar frases. Levou tempo para que se soltasse.

Valeu a pena esperar.

Muitos anos antes, ele atuara no garimpo de ouro no alto rio Tapajós, sudoeste do estado do Pará. Verdadeira terra sem lei, a região dividia-se em feudos, comandados a ferro e fogo pelos chamados “donos” dos garimpos. Trabalhando como escravos para o dito cujo, embora oficialmente livres para irem embora quando quisessem, os garimpeiros eram obrigados a vender toda a eventual produção de ouro ao tal “dono”, por preços arbitrados por este, assim como comprar apenas dele os gêneros de primeira necessidade e ferramentas de trabalho, também por preços impostos ao bel prazer. Os garimpeiros entravam em dívidas intermináveis, a não ser que, num ato de ousadia extrema, tentassem fugir sem pagar e, mais importante, de posse do ouro garimpado.

E foi o que o maranhense fez.

Escolheu o momento conveniente, escondeu o plano o mais que pode dos companheiros de sofrimento, mais ainda do “dono” do pedaço, e sumiu da área do garimpo se embrenhando pela floresta. Levara quase nada de pessoal consigo. O ouro, coletado e bateado às duras penas dos barrancos, ele enfiara entre as meias e o calçado. Com aquela quantidade, tinha a certeza, lhe daria folga suficiente para recomeçar a vida em local distante e menos opressivo. Evitou caminhos conhecidos, deu grande volta para despistar possíveis perseguidores, antes de desembocar na rodovia BR-163, a famigerada Cuiabá-Santarém, de onde pegaria transporte que o levaria para bem longe do inferno do garimpo do alto Tapajós.

Sei lá como, por delação ou pura suspeita prévia do senhor feudal do garimpo, mas ele foi descoberto. Tocaiaram-no na beira da rodovia BR-163. Estavam em cinco indivíduos. Começaram a bater imediatamente, sem dó nem piedade. Arrancaram toda a roupa dele, procuraram o ouro e dinheiro em todos os lugares possíveis, enquanto não paravam com a agressão nem um minuto sequer. Mesmo depois de terem recolhido o que pretendiam, prosseguiram o espancamento com as mãos, pés, pedaços de pau, correntes, cintos. Os tipos carregaram o corpo, desacordado e todo coberto do próprio sangue, jogando-o numa grota próxima, certos que apagaria em minutos e apodreceria sem ser descoberto a tempo.

O colega maranhense, contudo, sobreviveu àquela infinidade de golpes, hematomas, sangue perdido, fraturas em geral. Não lembro o que ele me contou, se foi encontrado ou se cambaleou rumo ao lugar que o salvaria da morte certa. Só sei que tempos depois se recuperou dos ferimentos profundos, impedindo a morte. Não mais tinha o ouro, as economias guardadas, as roupas que vestia quando deixara o garimpo. Nem os planos de recomeçar a vida. Ele os substituíra pela mais simples e pura vingança. Não queria perdoar ninguém, os cinco que o espancaram, o “dono” do garimpo, os delatores prováveis e possíveis, mais alguém que pudesse estar envolvido direta ou indiretamente.

Contabilizou dezesseis elementos que de alguma forma eram responsáveis pela tragédia pela qual passara. Não tinha tempo a perder. Determinado e munido do que mais precisava para a missão, ele partiu à caça. Descobriu onde estava cada um deles. Muitos se espalharam por outros estados. Mas a paciência e a obsessão o ajudaram a encontrá-los.

Ele me contava aquela história de maneira calma e resoluta enquanto enganávamos o estômago com bolachas e duas latas de “arara”. Relatava sem grandes emoções e fixava o olhar perdido em algum ponto da floresta. Só me olhava se eu lhe dirigisse a palavra. E eu não desejava falar nada, apenas queria ouvir mais. Estávamos sentados na margem de um dos inúmeros igarapés que cruzávamos pelas trilhas. Não sei se mastiguei o lanche ou mesmo pisquei os olhos durante aquela fala. Talvez eu até tenha suspendido a respiração. Não sentia medo por estar sozinho com ele no meio da floresta amazônica, nem tampouco da inseparável cartucheira que ele encostara junto à árvore. Apenas o levei bastante a sério e o respeitei ainda mais.

Conforme salientou no relato, ele pouco disse ao se deparar com cada um daqueles dezesseis homens. Assim que se apresentava e explicava as razões, simplesmente executava o sujeito sem mais delongas. Confirmada a morte do inimigo, deixava o recinto e partia para a etapa seguinte. Durante anos, a vida do colega maranhense se resumiu a isso. Não descansaria enquanto um deles ainda estivesse vivo. E foi assim, um por um. Cada um deles, morto friamente, de maneira deliberada, planejada, calculada.

Até aquele ano, declarou que já se vingara de quinze dos dezesseis procurados. Perguntei por perguntar, mais por tique nervoso, se aqueles quinze estavam mesmo mortos. Apenas assentiu com a cabeça, antes de elevar a voz e garantir, mais para si mesmo, que ainda faltava UM. E que esse UM não ia escapar não. Balançava o braço esquerdo com o dedo apontado para o nada e repetia que o último desgraçado não ia escapar não.

Não sei se pelo jeito natural de me relacionar com os funcionários ou se pelo jeito submisso de ele me obedecer, mas jamais me senti ameaçado. Ao contrário, ele sempre se mostrou educado e prestativo. Jamais alguém poderia imaginar que aquela pessoa de comportamento tão inofensivo guardasse dentro de si história de vida tão trágica.
continua...

terça-feira, 19 de março de 2013

Um Ano em Rondônia (parte 3/5)

...continuação
A FLORESTA

Ao contrário da caatinga, não sentia a mínima dificuldade de caminhar pela floresta fora das trilhas. Quase não havia espinhos, as folhas eram largas e macias, não faltava espaço por entre a vegetação. Constantemente fofo, o solo não oferecia grandes obstáculos rochosos ou pontudos. Raízes úmidas e escorregadias, buracos tapados por folhas, troncos de árvores caídas, rios e igarapés para atravessar, a pé ou a nado, o perigo latente de se perder, no entanto, requeriam maiores atenções.
 
Também diferente da caatinga, a floresta amazônica, nos trechos por onde andei, era mais silenciosa. Havia menos cantos de pássaros. Vi menos cobras, aranhas, escorpiões. Sempre fechada nas copas altas, a mais de cinquenta metros de altura, o solo da floresta raramente recebia os raios do sol. Daí eu estar constantemente com a pele branca de tanta sombra e semiescuridão.

Da mesma maneira, o vento praticamente não penetrava nas partes baixas da mata. Bem acima de mim, as copas balançavam, mas nada de brisa embaixo. O calor abafado e sem ventilação provocava transpiração constante. As roupas facilmente encharcavam de suor. Ao surgirem igarapés, eu não pensava duas vezes e entrava de roupa e tudo. E parava no meio do canal, me posicionando com o rosto contra a corrente, nivelando a boca com a superfície da água, e engolia farta quantidade de água limpa e fresca.

A comida salgada do jantar do acampamento me provocava sede durante a noite. E era sede de água fresquinha, não aquela morna do cantil ao alcance da mão. Deixava a rede e, de lanterna, me dirigia ao igarapé a poucos metros do acampamento. A melhor água corria no meio do canal, afastada da margem, tendo que molhar os pés e me esticar para alcançá-la. Notei algo escuro e alongado no fundo das águas. Não se movia e concluí ser um tronco de madeira arrastado pela correnteza. Como o tal tronco estava bem abaixo do trecho da água mais fresca, me aproximei tanto que quase o toquei. Ainda bem. O tal tronco não era tronco e sim um jacaré adormecido. E vivo, muito vivo. O danado abriu a bocarra, se agitando exageradamente, espirrando água para todos os lados. Se o jacaré se assustou com a minha proximidade, imagine eu. Automaticamente saltei para trás, me atrapalhando com a água, desesperado para sair logo dali, sem falar dos gritos que me saíram involuntariamente. Os peões acordaram, saltaram das redes e saíram em disparada na minha direção. Ninguém via nada devido à escuridão da noite. Não sabiam exatamente o que acontecera.

O jacaré não me fez nenhum mal. Os peões, porém, decidiram abotoar o paletó do pobre réptil. Choveram pancadas de pau na cabeça do coitado. E me animei com a possibilidade de o cozinheiro prepará-lo no dia seguinte. Dormi salivando com essa esperança. Mas me frustrei redondamente quando amanheceu. Me surpreenderam ao afirmarem que ninguém comia carne de jacaré por aquelas bandas. O cozinheiro nem saberia por onde começar. Nada de banquete à vista. O jacaré morrera por nada. Inconformado, ainda o observei antes de jogarem o cadáver em ponto distante do acampamento.

Em outro projeto, um geólogo paraense pisou acidentalmente numa surucucu. Em legítima defesa, a cobra o picou na batata da perna. A sorte é que ele vestia calça grossa e larga de brim, prejudicando o acesso de ambas as presas da cobra. Apenas uma delas o atingiu, inoculando pequena quantidade do veneno.

Demorou certo tempo para ele chegar ao posto médico da segunda vila e ser medicado. A transnacional estrangeira contava apenas com soro contra outros tipos de veneno, e ainda por cima com a data de validade vencida. Os irresponsáveis nem programaram a aquisição do soro anti-laquésico, aplicável às surucucus, típicas da região.

O geólogo paraense permaneceu hospitalizado no pequeno hospital enquanto a ferida cicatrizasse e o veneno inoculado não oferecesse maiores perigos. Exibindo o ferimento como um troféu, recebeu visitas de vários de nós para conversar e passar o tempo entre muitas risadas.

Eu me protegia com minhas inseparáveis perneiras de couro duplo que providenciara em Tatuí, interior de São Paulo. Após o acidente com a surucucu, encomendei soro antiofídico junto ao Instituto Butantã, também em São Paulo, porém me disponibilizaram pequena quantidade, e apenas do tipo polivalente, voltado contra os venenos de jararacas e cascavéis.

Pouco ouvi sobre onças. Os peões descreviam cenas de antigos funcionários dilacerados, ou de ossos perdidos na floresta de certo sujeito desaparecido havia meses. Sempre alertavam sobre as cabeceiras de igarapés, principalmente durante as fases de cio e partos recentes, momentos nos quais as onças se tornavam pouco amigáveis. Nada vi ou ouvi além de rastros grandes e recentes nas proximidades dos acampamentos. Certamente elas nos rondavam. A extensão de mais de vinte centímetros das marcas de cada pata impunha respeito.

O cozinheiro me contou que uma onça se aproximara da cozinha do acampamento numa manhã. Notou ao assustá-la com os chiados do rádio ao mudar de estação. Acontece que o cozinheiro, o tal que adorava berrar cantorias do fundamentalismo religioso, vivia acompanhado de dois cachorros. Imediatamente percebi o que atraía as onças. Embarquei os cachorros na primeira viagem do barqueiro, o mesmo que nos transportava e nos abastecia de insumos.
 
Nem os jacarés, inofensivos, encontrados em grupos nas praias fluviais no final da tarde. Nem as cobras, pouco avistadas nas trilhas ou proximidades do acampamento. Nem as onças, virtuais ou não. Nem as piranhas, com as quais nadei, lado a lado, várias vezes, nos igarapés maiores, e que apenas me analisavam ou me tocavam com a boca fechada, sem jamais me morderem. Nem as raras aranhas ou os escondidos escorpiões. Nem os espessos e extensos cortejos de incansáveis formigas, me obrigando a pegar impulso para saltar correndo sem atingi-las.
 
Nenhum desses bichos, que atacam somente quando se sentem atacados, chegariam perto das torturas praticadas pelos insetos voadores. Viviam em nuvens e existiam em praticamente todos os lugares onde estive, nos acampamentos, nas trilhas, nas imediações das vilas. Não deixavam ninguém em paz, atazanando sempre e em todo lugar. E de todos os tipos e tamanhos imagináveis. Havia os que picavam e os que não picavam. E mesmo os que não picavam, estouravam os limites da paciência. Vinham aos milhares. Pousavam nos braços, mãos, pernas, rosto. Entravam nos cabelos, mergulhando rumo ao couro cabeludo. Em determinado acampamento não conseguia comer fora do mosquiteiro, pois milhares de mosquitos entrariam na boca assim que eu a abrisse para colocar a comida.
 
O tempo e a falta de alternativas me ensinaram a não resistir, a me entregar, a desistir de lutar. Vez ou outra, eu me via coberto deles pelo corpo todo e, impassível, fingia que não era comigo.
 
Nunca, porém, peguei malária, seja da falciparum ou da vivax. Ao contrário dos peões que adoeceram em mais de uma oportunidade, criando esquema de emergência para transportá-los a um atendimento mais ou menos decente na vila da empresa. Me protegia preferindo calças e camisetas de mangas compridas, me recolhendo à rede, dentro do mosquiteiro, ao amanhecer e ao entardecer.
 
Sobretudo nos acampamentos recém-montados, as abelhas, longas e rajadas em preto e branco, infernizavam. Eu era picado duas a três vezes por dia, nos dedos ou na palma das mãos, ardendo e inchando imediatamente. Então distribuíamos latas de compotas, cheias do caldo açucarado restante, em cantos afastados do acampamento. As coitadas faziam fila para mergulharem e se prenderem no líquido viscoso. No dia seguinte, centenas delas estavam atoladas e mortas, dentro da calda da lata.
 
Estava eu numa trilha situada não muito distante da vila da empresa, permitindo ir e voltar no mesmo dia, sem precisar acampar. Eu deixara a caminhonete estacionada na margem da estrada larga que seguia em direção a uma das principais minas ativas da empresa. Eu ia à frente conduzindo os demais ao ponto para coletar amostras de solo com o trado. Caminhávamos cada um mantendo boa distância do outro.
 
Árvore de grande porte, chegando a cinquenta metros de altura, mas com raízes pouco profundas, a castanheira comumente caía com as intensas ventanias que se antecipavam às tempestades amazônicas. E foi com uma dessas imensidões que me deparei, caída e atravessada na trilha. A fim de evitar contorná-la, preferi pulá-la. Mesmo deitada, a árvore atingia a altura do meu peito. Não daria para simplesmente saltar. Tive que escalá-la, quase me sentar sobre ela, para depois pular do outro lado. Os musgos que a cobriam me fizeram escorregar e tentar mais de uma vez. Ao alcançar a parte superior, antes de poder saltar, senti o estalo seco e o tombo. A castanheira estava podre, me fazendo despencar dentro do tronco. Bem no meio da árvore, senti queimações pelo corpo. Parecia que eu tocara em algo corrosivo. Mas bastaram segundos para concluir que eram marimbondos, dezenas, centenas, milhares deles, a me envolver e a me picar sem dó nem piedade. Eu despencara no oco da castanheira, justamente onde havia um enxame de marimbondos.
 
Comecei a me debater alucinadamente, tentando de todas as maneiras sair de dentro do oco. Voei dali enlouquecido, aos berros, nas carreiras, enquanto esfregava desesperadamente o corpo, arrancando as centenas de marimbondos que se fixaram sobre mim. Picavam furiosamente as mãos, braços, rosto, couro cabeludo, até por cima da camiseta de algodão. Não parava de correr e retirar os marimbondos do corpo. Sentia toda pele ardendo que nem fogo. Sonhava com um igarapé no qual eu pudesse mergulhar, afogar os marimbondos, me livrar daquele ardor. Mas nada de água, pequena ou grande.
 
Corri centenas de metros, aos tropeços. Caí diversas vezes, me levantava e continuava a correr. Nem sentia dor pelos golpes da queda ou dos arranhões na terra e galhos. A queimação insuportável, me infernizando cada milímetro da pele, da cabeça ao cós da calça, não me deixava pensar em outra coisa que não fosse correr e arrancar os marimbondos do corpo.
 
Algo como um quilômetro depois eu finalmente parei, esgotado, com sede, sem ar ou resistência para prosseguir. Vi apenas ferrões e restos mortais de marimbondos espalhados sobre a pele, a camiseta, o rosto, dentro dos cabelos, na superfície do couro cabeludo. E como tudo queimava! O que mais queria era serrar a parte superior do corpo e me livrar daquele ardor. E me sentia febril, com tonturas, mal parava em pé. Acabei por cambalear e cair novamente no chão úmido da floresta.
 
O técnico de mineração e os peões que me acompanhavam, assim que desandei a correr aos gritos, também saíram em disparada sem saber por que. Acharam que, pelos berros, eu tinha me deparado com uma onça pintada. Passou um tempão até nos juntarmos novamente no local onde eu ruíra no chão. Se aproximaram lentamente, com os olhos arregalados, me fitando como quem observa um desenganado. Eu não falava coisa com coisa, reclamava muito da queimação na pele, não conseguia me firmar em pé. A sede aumentava a sensação de ardor interno.
 
Tomamos o caminho de volta, rumo à estrada, à caminhonete. Os colegas me conduziram à enfermaria do pequeno hospital da segunda vila. A enfermeira me deitou e aplicou soro para combater a febre e a desidratação já em estado avançado. Permaneci hospitalizado por mais de 48 horas.
 
A enfermeira contou mais de cento e cinquenta ferrões de marimbondo na minha pele. Sem contar os que eu arranquei durante a fuga. Eram marimbondos pequenos e avermelhados e, para minha sorte, de veneno fraco. Se fossem as abelhas rajadas que me picavam diariamente nos acampamentos, eu não teria sobrevivido para contar a história.
continua...