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quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Tunísia e Marrocos (parte 4/7)

...continuação
Na estação ferroviária, comprei passagem para Bizerta (Bizerte). Completamente perdida e chutando qualquer resposta para me despachar, a garota do balcão de informações interpretou os dados do bilhete, numa mistura de inglês, francês e árabe, da maneira mais estapafúrdia possível. Confundiu o número do assento com a plataforma, o número do vagão com a classe. Repeti as mesmas perguntas ao funcionário das plataformas e tudo se esclareceu. Trens de linhas suburbanas desovavam passageiros de tantos em tantos minutos.
E veio o trem velho e mal cuidado para Bizerta (Bizerte). A numeração dos vagões e dos assentos não era respeitada e me sentei em banco rasgado de um vagão qualquer e envelhecido. Papei o sanduíche de salame, queijo, salada e, é claro, a picante harissa para incendiar tudo. O cobrador verificava os bilhetes e brigava com os que queriam viajar de graça. O bate-boca esquentou com um deles parecendo que chegariam às vias-de-fato. Mas se entenderam na conversa.
De início, a periferia da capital, feia, empoeirada, inacabada. Depois das ruínas do aqueduto, a zona rural, cultivada com grãos e frutas, ou com capim e alfafa para alimentar os rebanhos de ovelhas, cabras, eventualmente gado. O norte da Tunísia se mostrava mais úmido, verde, fértil.
Passageiros embarcavam e desembarcavam no meio do nada ou em cidadezinhas acinzentadas. Pequenos vilarejos brotavam no meio das plantações sem fim. Serrotes se erguiam e desapareciam. O extenso lago salgado, entre Mateur e Tinja, cristalizava sal nas bordas.
Após cruzar a extensa zona militar e fortemente protegida, o trem parou na estação final de Bizerta (Bizerte), construção velha, caindo aos pedaços, em obras intermináveis. Em frente à estação, lotações, as louages, trazendo e levando passageiros.
Um recém-formado em marketing, desempregado da mesma maneira que quarenta por cento dos jovens tunisianos, que eu conhecera na zona dos engates dos vagões durante o percurso, me acompanhou pelas primeiras ruas da cidade. Ele falava e entendia pouco o inglês. Eu falava e entendia pouquíssimo o francês. Era ateu e com visão progressista sobre a Tunísia e o resto do mundo. Seguia a caminho de entrevistas de emprego.
Andei sem rumo pelas ruas, sabendo que no outro extremo havia o mar. De repente, dei de frente a charmoso canal do mar, ladeado por casario árabe de um lado, pela fortaleza murada de outro, dentro da qual se emaranhava a medina da cidade. Nas beiras do canal, dezenas de barcos de pesca e de passeio. Nas calçadas, bares e restaurantes informais serviam peixes, mariscos, ostras, camarões. O sol brilhante do meio da tarde valorizava as cores, contornos, relevos, contrastes.
Dei volta rápida pelos becos e sinuosidades da medina, pequena e residencial. Contornei a sólida murada e avistei as águas azuladas e convidativas. Me assustei com a construção alta, imensa, cinzenta, horrenda, agressiva e inacabada à direita. Pisei a areia fina e clara da praia. O azul profundo do Mediterrâneo não poderia ser mais emblemático do que aquele à minha frente. Azul de encantar os olhos do mais indiferente dos mortais. Nem o vento frio, nem o lixo acumulado em trechos da areia, nem o bando de cachorros antissociais que topei pelo caminho me tirariam dali.
Mas eu não tinha todo o tempo até a partida do último trem para Túnis. Retornei pelo calçadão da beira do canal, agora contra a luz do sol, que fornecia efeito ainda mais espetacular ao conjunto casas, água, barcos, muralha. O casario caiado de branco com as janelas e portas azuis tinha o minarete da mesquita de base quadrada ao fundo.
Atingi o centro comercial de Bizerta (Bizerte) com o estômago roncando de fome. Encontrei restaurante que servia pratos-feitos tunisianos. O chawarma, salada, batatas, arroz com açafrão, pasta condimentada de berinjela e, obviamente, a onipresente, a saborosíssima, a incendiária harissa, veio acompanhado da cesta de pães, muitos pães. Me empanturrei de tanto comer, em mesa solitária na calçada, para deleite dos transeuntes que me olhavam curiosamente. Completei o almoço tardio, ou o jantar antecipado, com doces de tâmaras, os chifres-de-gazela, a fim de adoçar o sangue e afastar os últimos vestígios apimentados da harissa.
Embarquei em trem elétrico de apenas dois vagões, mais moderno e em melhor estado do que o da ida. O sol se pôs durante o percurso.
Embora não afeitos a regras de trânsito, para veículos ou para pedestres, os tunisianos não agiam agressivamente. Trocavam gentilezas naturalmente. Usavam da boa e velha convivência humana contra as regras quadradas e impostas pelo ocidente invasor e colonizador. E geralmente funcionava. Mas não estavam nem aí para os avisos sobre o uso preferencial de assentos, em trens, ônibus, bondes. Todos se sentavam impunemente, independente se houvesse pessoas mais necessitadas. Se alguém preferencial se aproximava, e não havia assentos disponíveis, ninguém se mexia. E o passageiro preferencial permanecia de pé.
O TGM, trem de subúrbio, de vagões velhos e descuidados, partiu bem cheio da estação Túnis Marina. Após parar em diversas estações intermediárias, La Goulette, Cartagho, a graciosa Sid Bou Said, desembarquei no final da linha.
La Marsa era cidade de veraneio, repleta de casas suntuosas erguidas sobre a colina que desce para a praia no Mediterrâneo. O azul profundo das águas agitadas do mar convidava a mergulhos refrescantes em dias mais quentes. O comércio sofisticado, ou metido a isso, inferia os frequentadores habituais, as elites árabes e europeias. Construções faraônicas e irregulares afrontavam o bom gosto e, sobretudo, o ecossistema marinho. As ruas e becos do bairro dos ricos, pela consciência pesada, mantinham exagerado esquema de segurança armada.
Peguei o trem de novo e desembarquei em Sid Bou Said, vilazinha transbordando em beleza, bucolismo, bom gosto, serenidade. Convidava a andar preguiçosamente pelas ladeiras, becos, escadarias em curva, sobrados avarandados do casario, invariavelmente caiado de branco com portas e janelas azuis. As portas tunisianas eram um caso à parte, pesadas, sólidas, desenhadas com pontas de metal fundido, protegidas acima por arcos de pedra. Do alto da colina, o Mediterrâneo de um lado, recebendo o vento frio da Europa, os lagos e mares internos do oposto, com marinas, montanhas ao fundo, águas mais calmas. Moradia de artistas e descolados, a vila remetia à paulista Embu das Artes. Me instalei em restaurante com vista privilegiada e sem o vento. Valeu pelo mar escandalosamente azul, o chawarma bem acompanhado de legumes, arroz, batatas, legumes, mais a harissa e a pasta de berinjela, picantes até dizer chega.
Desci a colina para tomar o trem de volta a Túnis. O sol brilhava mais do que os dias anteriores.
Os hóspedes do hotel iam trocando de rostos. Falantes de árabe cujas mulheres se cobriam de véus e mantos, falantes de línguas monossilábicas e multitônicas do sudeste asiático, falantes de francês. Uma branca jovem, ao escolher no bufê matinal, colocou no prato isso e aquilo, além de colherada de pasta avermelhada, supondo tipo de geleia tunisiana. Ao mandar à língua uma boa porção de harissa, junto a um naco de pão, veio o pulo na cadeira. Desesperada e olhando para todos os lados, não sabia se cuspia tudo no prato, se engolia, se bebia água, café, chá, suco, se chamava os bombeiros, se gritava ou o quê. Por fim, engolindo os demais itens, líquidos e sólidos, o incêndio interno amenizou, o vermelho do rosto clareou, os olhos ficaram menos esbugalhados, o corpo relaxou na cadeira.
E lá fui à estação ferroviária comprar passagem de trem para Sousse, visando mais o trajeto de trem em si do que propriamente revisitar a cidade dos resorts.
O trem velho e confortável partiu lotado. Parou somente nas estações de Hamana Lif e Bir Bou Regba antes de eu desembarcar em Sousse. Os passageiros ainda seguiriam para diversas estações intermediárias, além de Sfax e da parada final em Tozeur, prevista para o anoitecer.
Pouca gente na popular praia do centro, Boujaafar. Perambulei sem rumo pelas ruelas da medina de Sousse.
Almocei peixe grelhado com legumes e batatas, acompanhado de feijão branco nadando em harissa. O restaurante era simples, desajeitado, despreocupado com a aparência. Uma senhora por duas vezes passou ao meu lado, carregando o balde encardido cheio de batatas descascadas e cortadas. Gatos me rondavam a fim das sobras do peixe. A frequência de moradores da cidade ou a trabalho nas redondezas, familiarizados com a cozinha, me tranquilizaram quanta a possíveis consequências estomacais.
Relaxei nos bancos sob as sombras das árvores da praça, observando o movimento do centro nervoso. Um tunisiano se sentou ao meu lado e puxou assunto. Não decolou e ambos desistiram. Fui abordado por malandro que insistia em me passar moedas sei lá de que países. Falei umas bobagens em português e ele se mandou.
O moderno trem elétrico de apenas dois vagões lotou imediatamente. Consegui assento privilegiado na primeira fileira, bem em frente à cabine de comando. Fumante inveterado, o maquinista atingia a velocidade máxima permitida nas retas de cento e trinta quilômetros por hora. Balançava para cima, para baixo e para os lados, feito um boneco, enquanto sentado no banco de molas exageradamente flexíveis da cabine.
No topo dos postes de metal e das torres de transmissão de eletricidade, as cegonhas construíam ninhos grandes e confortáveis. Ninhos completos. Permaneciam com o pescoço esticado para fora, chocando, se prevenindo de possíveis predadores. Cenas que se repetiam por toda a Tunísia, de norte a sul, tal qual marcas registradas na paisagem.
Desembarquei em Túnis ao anoitecer. Papei salame e queijo com harissa no pão chapatti. Os cafés da avenida Habib Bourguiba lotavam de tunisianos tomando café, chá, água, jogando conversa fora, olhando o vaivém dos pedestres a caminho de casa. Consumo de bebidas alcoólicas somente em bares mais discretos, e do lado de dentro, com a porta meio aberta. Nada de exibição ou ostentação ao ar livre.
Lixo e entulhos acumulados nos terrenos baldios, ruas e becos, áreas desocupadas, ferrovias, estações de trem. Sacos plásticos presos aos galhos de árvores, soltos nos interiores e periferias urbanas. Córregos canalizados, imundos, entupidos de lixo fedorento. Alguns pedintes idosos em trens de subúrbio, calçadas, praças, próximos a mesquitas. Apenas parte do que vi do lado menos admirado da Tunísia.
E parece que o calor aportou de vez no norte da África. Ainda não era o típico de verão, quando as temperaturas beirariam os 50 graus, mas as temperaturas subiam significativamente. Não por acaso, chapéus passavam a ser vendidos em lojas e ambulantes, imediatamente usados pelas primeiras tunisianas, sobre os véus e mantos. Também os óculos de sol se tornavam itens essenciais.
Dei giro pela medina, a residencial e menos desfigurada, situada ao lado da medina comercial. Becos, ruelas em arco, casario caiado de branco, caminhos estreitos, portas espetacularmente antigas, minúsculas oficinas, marcenarias, alfaiatarias, barbearias, trabalhos em tecidos, metais, madeira, pedras, moradias simples, lado a lado, frente a frente. Tudo muito próximo. Impossível não praticar a convivência pacífica.
Um sujeito idoso e muito comunicativo insistiu para me desvendar tesouros escondidos pelos labirintos da medina. Eu estava solto mesmo e o acompanhei. Me mostrou coisas pelas quais eu já tinha passado e outras nem tanto ou das quais não me lembrava. E ele falava, contava, explicava, narrava, enaltecia, ressaltava, valorizava a experiência única adquirida em décadas circulando por ali. Andamos muito. Ele falou muito. Eu ouvi muito. Ao final, me pediu gorjeta pelo trabalho. A cobrança e o valor tinham sido expostos antes? Então nada feito. Nem um centavo, mesmo após os implorados pedidos, mencionando netos sem condições de pagar o uniforme e o material escolar.
O feriado do dia internacional do trabalho concentrava militantes de roupas e bandeiras vermelhas ao longo da avenida Habib Bourguiba. Torcedores argelinos circulavam em grupos, de uniforme do time, agitando bandeirolas e flâmulas, gritando versos de torcida organizada. O policiamento, para lá de numeroso e ostensivo desde o atentado do mês anterior, se ouriçou com as novidades e retraiu os músculos nas armas pesadas a tiracolo. Palavras de ordem eram entoadas pelos grupos organizados para as manifestações. As rondas policiais armadas até os dentes cercavam os pontos estratégicos. Preferi não me arriscar em país estrangeiro com passado recente turbulento. A tensão crescia e se tornava incompatível com um viajante curioso com câmera fotográfica à mão.
Acordei bem antes do despertador e esperei o início do café da manhã. Subi no táxi reservado para me levar ao aeroporto não interligado por transporte coletivo. O taxista ignorou o valor marcado no taxímetro, garantindo que combinara na recepção do hotel um valor três vezes maior. Golpe descarado e escancarado. Eu não queria discutir, pois tinha dinares de sobra que, de qualquer maneira, morreriam inúteis na minha mão. E nem assim acabou o dinheiro tunisiano, não conversível em outros países.
Peregrinos muçulmanos vestidos a caráter, com túnicas brancas ou de cores bem claras, eles e elas, embarcavam para a Arábia Saudita, provavelmente rumo a Meca, uma das cinco metas de todos os muçulmanos sadios e com condições financeiras.
Da mesma forma de Roma, ali no aeroporto de Túnis também havia a estapafúrdia área reservada aos fumantes. Pequena, apertada, envidraçada, expondo os desejosos de câncer, todos de pé, inalando e baforando fumaça, tornando o ar nebuloso, contaminado, patético feito aquário esfumaçado. E ainda assim se sujeitavam ao vício, e pagando por ele.
Voo de Túnis a Casablanca tranquilo na empresa aérea do Marrocos, com refeição comível à base de cuscuz marroquino. A paisagem se tornou árida próxima à fronteira com a Argélia. Exibia montanhas com cristas e as encostas altas nevadas, sobretudo nas imediações da cidade argelina de Constantine. Ainda mais desértica na porção ocidental da Argélia. O cenário voltou ao semiárido depois de entrar em território marroquino, com algum verde pálido, plantações, vales mais ou menos férteis. Cristas e encostas nevadas das altas montanhas da cordilheira do Atlas. O solo secou nos arredores de Casablanca, expondo terreno ocre, monocromático.
continua...

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Tunísia e Marrocos (parte 3/7)

...continuação
Levantei ainda no escuro. Na porta de vidro do salão do café da manhã estava afixada a programação para o grupo de motoqueiros belgas, hospedado naquele hotel. E tudo escrito em duas línguas, flamengo e francês. Incrível a Bélgica, país cuja área é pouco maior que a do estado de Alagoas, possuir duas línguas faladas por duas partes fisicamente separadas, divididas, que não se bicam, que uma se recusa a falar a língua da outra, que não raramente se estranham e entram em confronto. E havia ainda o alemão, língua falada por uma terceira parte daquele país.
Partimos via o litoral leste tunisiano. Margeamos a economicamente dinâmica cidade de Gabes, repleta de refinarias lançando efluentes químicos nos córregos, solo, praias. Então pegamos rodovia com tráfego pesado, passando ao lado de pequenos vilarejos empoeirados e sujos. Ambulantes na beira da estrada vendiam frutas, verduras, gasolina contrabandeada da Líbia, eletroeletrônicos, cerâmica, inutilidades, carne de carneiro grelhada, cujos estabelecimentos penduravam a pele do animal abatido para atrair os clientes. Também senhores ferviam água em chaleiras escurecidas para venda de chá, entre outras dezenas de itens expostos à poeira e aos escapamentos de automóveis, motos, caminhões, ônibus. Veículos com placas da Líbia ultrapassavam feito loucos, pela esquerda, pela direita, trafegando na contramão, pedindo para morrer e matar.
E assim foi, passando pelas cidades de Skira e Mahres, até Sfax, a segunda cidade mais populosa da Tunísia. Um baita engarrafamento nos recebeu pelas avenidas de entrada da zona urbana, entre muita poeira, fumaça dos escapamentos, obras nas vias e calçadas, pedestres aos montes disputando espaço com os veículos aos montes.
Era sexta-feira, o dia mais sagrado para o islamismo, cujos praticantes deveriam orar pelo menos uma das cinco orações diárias na própria mesquita. Homens barbudos vestiam túnicas cinzas-clara ou brancas, limpíssimas, impecavelmente passadas. Mulheres se cobriam de burca negra ou azul. Mas todos esses religiosos, homens e mulheres, eram minoritários em comparação aos não praticantes ou praticantes moderados, vestidos à maneira ocidental.
  Desembarquei em frente ao portão principal da medina de Sfax, cercada em todo o perímetro por muralha alta, espessa, pesada, com direito a ameias e orifícios para observação ou defesa armada nos séculos passados. Dentro da medina, intensamente procurada pela população para comprar ou consertar todos os produtos que se podia imaginar. Os diversos souks concentravam, de maneira organizada, ramos de itens ou atividades afins. Mulheres, homens, crianças, idosos, circulavam, literalmente fervendo os becos e ruelas internas. Como nas demais zonas comerciais do país, destaque para os morangos, frescos, enormes, vermelhos-escuros, convidativos, perfumados, suculentos, apetitosos. E também laranjas deliciosamente azedas, ali chamadas simplesmente de portugal.
De volta à estrada carregada de caminhões e automóveis antes de desviar para rodovia nova de pista dupla. A paisagem semiárida guardava, desde antes de Sfax, olivais sem fim, de ambos os lados, a perderem de vista, geometricamente plantados. Nos pedágios, vendedores ofereciam pães redondos assados nas redondezas.
O veículo entrou nas ruas empoeiradas da cidade de El Jem, em cujo centro se erguia o coliseu romano construído no século III. A construção ovalada, com capacidade para trinta mil espectadores, possuía arquibancadas distintas para imperadores e cônsules, galerias para escravos, animais ferozes, gladiadores.
Subi e desci as escadarias. Caminhei por galerias superiores, inferiores, a arena, os portões. Novamente, pouquíssimos turistas perambulando pela imensidão do coliseu. Do lado de fora, ao redor, ambulantes sonolentos e sem compradores, dromedários sonolentos e sem montadores, cafés com garçons sonolentos e sem clientes.
Almoçamos em restaurante frequentado por trabalhadores locais engravatados. Servia comida picante, com a onipresente harissa, usada na preparação dos pratos e disposta nas entradas junto à generosa cesta de pães. A sequência veio de sopa de grãos, coelho assado com macarrão ao molho apimentado, regada a refresco de tamarindo.
As ruas das proximidades do restaurante, situado em esquina nervosa, se coalhavam de muçulmanos vestidos a caráter saindo das mesquitas após a mais importante oração do dia. O trânsito, que já não era dos mais fluentes, parou de vez, entre carros, ônibus, motos, bicicletas, pedestres, a poeira das obras viárias.
De volta à rodovia nova. No meio da tarde já percorríamos as avenidas de Sousse, cidade litorânea e moderna, contando com dezenas de resorts que abrigavam europeus desembarcados no aeroporto local vindos de voos fretados.
E foi num desses resorts, na região de Port Kantaoui, que me hospedei. O gigantesco quarto, atulhado de móveis, precisaria de mapa para não me perder.
Desci para o jantar. Os diversos bares já estavam tomados pela profusão de turistas. As lojas do andar térreo, vazias, só contavam com os tristes vendedores mirando o nada. Figuras fantasiadas de personagens de estórias infantis recebiam os hóspedes na entrada do salão de jantar. Em ambiente imenso, lembrando as churrascarias do ABC paulista, os turistas disputavam as comidas insossas, insípidas, hospitalares, dispostas em bufês. As bebidas, entre sucos, refrigerantes, cervejas, vinhos, se obtinham a partir de torneiras automáticas. Tudo, absolutamente tudo, sem gosto, sem tempero, sem personalidade, sem carinho. Somente quantidade, nada de qualidade.
Em outro salão, cartazes convidavam para apresentação de variedades daí a duas horas. Máquinas automáticas tiravam fotografias dos presentes. O conjunto das áreas comuns internas do hotel, bares, restaurantes, salão de eventos, lojas, compunham a sucursal do inferno. Um cruzeiro marítimo em terra, mal frequentado, mal servido, mal decorado, mal animado.
Verdadeiro enclave em território tunisiano, o hotel isolava os hóspedes do povo e culturas locais. E parece que era exatamente o que aqueles seres vomitados de voos fretados europeus desejavam. Não vieram à Tunísia, mas sim ao resort, que, por acaso, fora construído por uma dessas redes internacionais de hotelaria em frente ao mar da Tunísia.
Durante o café da manhã a circulação de personagens fellinianos prosseguiu. Em vez de sucos, chá, café, leite, muitos se empanturravam de refrigerantes químicos, abrindo as torneirinhas a todo instante.
No térreo, entre o prédio principal e o mar, o complexo de piscinas do hotel, mais bares, palcos de animação, salão de ginástica, salão de massagem, quadras de jogos estranhos e venerados pelos britânicos. Mas para chegar até ali era necessário ultrapassar o corredor polonês de ambulantes cadastrados, vendendo inutilidades e quinquilharias de péssima qualidade.
Depois do último bar do hotel, e eram muitos os bares, a areia da praia e o mar, com mais garçons circulando com os pedidos nas bandejas. Os demais hotéis, à esquerda e à direita, tinham as mesmas coisas, da mesma maneira, frequentados pelos mesmos tipos, todos em série, lado a lado.
Não fazia calor, principalmente pelo constante vento frio da primavera. Provenientes de países distantes da linha do equador, contudo, os turistas vestiam somente sungas e biquínis, se derretendo de calor naquela manhã de 19 graus. Liam livros de autoajuda, revistas com a última novidade para emagrecer sem esforço, fofocas das celebridades ou das decadentes monarquias europeias, crônicas esportivas, best-sellers da temporada. Cutucavam esquizofrenicamente celulares, tablets, notebooks. Bebiam todas e largavam latinhas e garrafas ao lado. Era para isso que pagaram e vieram.
Ali a atração turística não era a Tunísia, o povo tunisiano, a cultura árabe, o mar Mediterrâneo. A atração era os próprios turistas.
O trajeto rodoviário de Sousse a Túnis, à beira mar, valeu pela cidadezinha de Hergla, procurada durante o verão para alugueis de imóveis. Fora da estação, no entanto, transbordava charme, silêncio, tranquilidade, ocupada apenas por tunisianos sem pressa, nos cafés, praças, porta das casas, invariavelmente caiadas de branco com portas e janelas pintadas de azul, costume do Mediterrâneo. O brilho da luz do sol lhe fornecia autêntico ar de vila árabe e litorânea. O mar azul, os pescadores matinais, tudo convidava a ficar, a relaxar.
Antes do almoço eu já estava hospedado no hotel em transversal da avenida Habib Bourguiba, centro novo de Túnis. Almocei bem e barato cuscuz com carne de coelho em restaurante pequeno e familiar.
Dei volta pelo calçadão da avenida, fortemente policiada com homens armados até os dentes, bloqueios com arame farpado e barricadas de sacos de areia, rondas ostensivas de segurança. O atentado do mês anterior ainda rendia reflexos. Os cafés de ambas as calçadas afrancesadas da avenida enchiam de tunisianos e de visitantes regionais, tomando chá, café, água, doces, sorvetes, ou simplesmente conversando e admirando o vaivém daquela tarde de domingo ensolarado.
Na manhã seguinte, cruzei a Porta do Mar que os invasores franceses rebatizaram com outro nome, e optei por uma das ruelas de entrada da medina, sem pressa, sem roteiro. Vez ou outra arriscava vielas mais estreitas e transversais. Dobrei aqui, virei ali, para esquerda, para direita e, de uma hora para outra, já não sabia onde estava e nem como sair. Pacientemente retornava, sabe-se lá como, a algum trecho visualmente familiar e retomava as incursões.
Cada souk da medina concentrava um tipo ou grupo de produtos ou serviços, abrigando lojas e mais lojas, uma ao lado da outra. Nenhum espaço, por menor que fosse, era desperdiçado. Motos e carrinhos de carga eventualmente atrapalhavam o fluxo de pedestres. Casas de chá e café, algumas charmosíssimas e ornadas de almofadas e tapetes coloridos, mosaicos nas paredes, recebiam os fregueses para conversar, ver o tempo passar, fazer negócios, fumar narguilé. O calçamento de pedra das ruazinhas contava com depressão central e longitudinal para facilitar o escoamento da água e de sujeiras em geral. Mesquitas, incluindo a principal de Túnis, a Zaytouna, fechavam as salas de oração aos não muçulmanos. Becos e ruelas se cobriam de arcos de tijolos, sobre os quais janelas trabalhadas abrigavam moradias ou depósitos comerciais. Em trecho mais aberto e degradado, ambulantes vendiam roupas baratas amontoadas em esteiras no chão ou penduradas em toscos cabides. Ali as tunisianas de mantos, véus, roupas largas e longas, se esbaldavam, regateavam, levando uma ou mais peças. Do lado ocidental da medina, órgãos governamentais fortemente protegidos pela polícia e pelo exército. E mais além, avenidas congestionadas durante o horário matinal de pico.
Devido a questões de segurança, após o atentado no museu Bardo, faixas da avenida Habib Bourguiba foram bloqueadas ao tráfego de veículos. O trânsito então vivia engarrafado, sobretudo no acesso das transversais. De vez em quando, uma batidinha de para-choques, um amassadinho. Os motoristas saíam dos veículos, verificavam os danos, resmungavam, ameaçavam discutir, mas acabavam desistindo e seguindo em frente. Nessas horas as buzinas geravam sinfonia de estourar os tímpanos.
Andei pelas transversais da avenida Habib Bourguiba, entre ruas e construções europeizadas de até cinco andares, comércio monótono, tráfego intenso de pedestres e veículos. Desviei ziguezagueando na busca do que me chamasse atenção. Virei para lá, dobrei para cá, acabei caindo em becos irregulares de outra medina, residencial, com raras lojas de produtos essenciais. E me descobri perdido naquele magnífico labirinto tunisiano.
Eu não tinha a mínima ideia de como sair dali. Optei por me manter no rumo sul. Mais becos, mais curvas, mais medina. Nada de ruas ou avenidas retas. De repente caí numa região de construções suntuosas, ao lado de escritórios de advogados, cartórios, locais para cópias de documentos, escritórios de tradutores juramentados. Homens vestiam terno e gravata, outros carregavam pastas com documentos. Conversavam entre si, explicando pacientemente isso e aquilo. De uma construção grande e pesada, centenas de pessoas subiam e desciam as escadarias. Intuí estar em área de tribunais ou algo parecido. Mais á frente, eis que surge o conjunto de prédios públicos avistados no dia anterior. E logo vi a torre da mesquita Zaytouna. Eu me localizara.
Mulheres vestidas de roupas longas, folgadas e cobrindo as cabeças com véus e mantos, levantavam cartazes e gritavam palavras de ordem. Uma delas esbravejava com o soldado da guarda nacional. A polícia aumentava a segurança e bloqueava mais ruas e acessos do que o normal. Senti tensão no ar. Contornei o movimento nervoso e entrei na parte comercial da medina para cruzá-la de ponta a ponta, até a Porta do Mar, entrando na área afrancesada de Túnis.
continua...

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Tunísia e Marrocos (parte 2/7)

...continuação
Nas imediações da vila de Mides, nos deparamos com garganta chocante, profunda, íngreme, estreita, em curva. O acidente geográfico dividia a Tunísia e a Argélia, embora a fronteira oficial ficasse poucos quilômetros acima. Nada de água no fundo da garganta, apenas vestígios vegetais de eventuais fios de águas pluviais.
Voltamos à cidadezinha de Tamerza para almoçar comida caseira. Verduras cozidas e temperos sobre pão árabe, sopa de abóbora com harissa, salada com brik e dedos-de-fátima, cordeiro ensopado e assado no forno acompanhado de pimentão, legumes, batatas e cuscuz de trigo. Suco de limão com hortelã e muita água regaram o almoço monumental que teve como mesa, claro, mais pães, o creme da harissa, a pasta de berinjela, azeitonas.
Retornamos montanha abaixo. Já na planície, abandonamos o asfalto, cruzando as areias salinizadas do imenso lago ressecado, entre sobes e desces das dunas. Ao redor, o deserto arenoso e as montanhas de cor ocre. Nada mais.
Havia um bar tosco no meio do nada. No topo da colina ao lado contemplei o deserto sem fim numa visão de trezentos e sessenta graus. Paisagem monocromática, clara, infinita, com direito a miragens na linha do horizonte que simulavam ilhas flutuando sobre o oceano inexistente. Não adiantava esfregar os olhos, relaxar e olhar novamente. As ilhas e o mar estavam lá. Enlouquecedor se, em caso de estar perdido, eu necessitasse dessas referências para me orientar.
Quilômetros adiante, o deserto mais clássico, com dunas de areia a se perderem no horizonte. Pai e filho se aproximaram de moto para pedir dinheiro em troca de foto com uma espécie de raposa no colo do menino de menos de dez anos de idade. O motorista esbravejou contra o comportamento do pai que, em vez de levar o garoto à escola, o sujeitava a mendigar. O pai fingiu que não ouviu e logo se deitou para cochilar. O filho assustado se afastou sem entender nada. Provavelmente fariam o mesmo assim que passasse outro visitante por ali.
Ao final do trecho desértico, a cidadezinha de Nafta, onde paramos para recompor os líquidos do corpo.
A música ambiente do hotel de Tozeur, reproduzidas nas áreas comuns, primavam pelo arrojo, pela vanguarda, pelo experimental. A seleção era a mesma tocada nos hotéis das estações de águas medicinais do Brasil, como Águas de Lindoia, durante a década de 1960. O mesmo repertório previsível, os mesmos arranjos sonolentos, a mesma ausência de vibração. E a Tunísia conta com música árabe de primeiríssima qualidade, rica em melodias, arranjos, instrumentos, intérpretes únicos.
O grupo de estrangeiros que se comunicavam com ya, ya lá estava durante o jantar, trocando um festival de ya, ya entre si.
De manhã a charrete nos levou ao oásis de Tozeur, contendo centenas de milhares de tamareiras. No museu das tâmaras, painéis explicavam a origem, tipos, cultivos, usos, processos de beneficiamento da fruta. Do lado de fora, as tamareiras, a macho que poliniza, a fêmea que fornece os frutos em cachos no alto das palmeiras. Sob a sombra delas, árvores frutíferas, entre outras, compunham três níveis principais de vegetação do ecossistema.
Experimentei diversas geleias, xaropes e cremes, fabricados a partir dos inúmeros tipos de tâmara na pequena fábrica ao lado. E todos continuavam reclamando do movimento quase inexistente de turistas em plena primavera tunisiana, ensolarada e florida.
Saímos caminhando rumo à medina de Tozeur a qual, ao contrário das outras visitadas, mantinha o bucolismo e o uso quase exclusivamente residencial havia mais de setecentos anos. Comércio, somente nas entradas e saídas. Ruelas, passagens em arco preenchidas de tronco de tamareira. Casas e muros revestidos de tijolos de cor ocre e dispostos inventiva e artisticamente. Famílias, mulheres árabes vestidas a rigor, cobertas da cabeça aos pés, bicicletas, motos e, felizmente, nada de carros ou afins. Silêncio e tranquilidade pelos becos. Os moradores de Tozeur se cumprimentavam nas ruas, para uma prosa rápida, se sentar para um café, entabular conversas mais longas e substanciosas.
Como não poderia faltar em país de comerciantes, um dono de loja me convidou a entrar para conferir os tipos de tapetes, fabricados a partir de lã de carneiro, de dromedário, de cashmere, de seda. Enquanto os modelos iam sendo estendidos sem dó nem piedade pelo piso, os vendedores soltavam a lábia para tentar me convencer da qualidade, da exclusividade, da garantia do produto pelo Estado, dos melhores preços, especialmente para mim, que me tornava amigo íntimo e, portanto, receberia tratamento e preços diferenciados. Eu não cabia de tanta lisonja. Vi, apreciei, conversei, sorri, ri, tomei chá, perguntei preços desse e daquele tapete, agradeci entusiasticamente meus novos e chegados amigos. E saí da loja sem gastar um tostão. Mas que os absurdamente caros tapetes de seda, que mudavam de cores e tons ao movimento, belíssimos e incrivelmente macios, me fizeram babar de vontade, isso é verdade.
Escolhemos local simples e barato para comer brik de ovos e atum, grelhado de peru com salada, batatas e macarrão ao molho, acompanhados das onipresentes pastas apimentadas com o condimento harissa e a montanha de pães.
Saímos pela manhã cruzando toda a extensão do oásis de Tozeur, em direção ao gigantesco lago salgado de El Jerid, cortado ao meio pela rodovia e tendo as montanhas ao fundo.
Da mesma maneira que os ambientes lacustres existentes nas fronteiras da Bolívia com o Chile e com a Argentina havia ali alga avermelhada que tingia a cor das águas do lago, e as penas dos flamingos que dela se alimentavam, de coloração rosada a avermelhada. Pouquíssima água corria ao lado de cristalizações esparsas e irregulares de grãos de sal.
Cafés e bares isolados surgiam na beira da estrada. Num deles, indiferentes à nossa presença, quatro homens de turbantes claros bebiam chá e jogavam dominó. Para o banheiro afastado precisei caminhar sobre as camadas salgadas e enfrentar o cubículo de cimento em condições de higiene, digamos, preocupantes.
Mais adiante o lago evoluía para deserto de areia com tufos de vegetação rasteira reminiscentes do inverno úmido.
Cruzamos as cidadezinhas de Kriz, Fatnassa, Souk Lahad, Tombar, Kebili, antes de alcançarmos Douz, cidade cuja denominação em francês sepultou o nome original em árabe.
Circulei pela feira-livre da cidade, cada vez mais fascinado pelo tamanho e pela beleza dos morangos vermelho-escuros. Homens e mulheres vestidos a caráter caminhavam ou se sentavam para conversar e tomar café com os amigos. Notei europeus que para ali se mudaram em busca de qualidade de vida e menos impostos. Viviam de rendas ignoradas. E, vale salientar, nenhum deles era discriminado, perseguido, preso ou deportado como acontece com os tunisianos na Europa.
Almoçamos em local deliciosamente decorado e integrado ao oásis vizinho. Escolhemos mesa sob as tamareiras e perto de pavão coloridíssimo e exibido que desfilava por ali. A sequência de pratos começou com pequena salada com creme de, adivinhem, harissa. Seguiu com carne de dromedário com legumes e batatas, prato previamente encomendado. O demorado processo introduzia a carne do dromedário, os legumes e os temperos, todos acondicionados em vasilhas de cerâmica, em forno cilíndrico, vertical, profundo, sob o solo. Eram fechados e lacrados com argila. Depois assados durante mais de quatro horas. Tudo aquecido a carvão. Nada de gás ou eletricidade. E assistimos ao ritual da abertura do forno, de onde brotou o prato ensopado e perfumado. Ajudado pela cesta de pães, devorei tudo e não deixei pedra sobre pedra. Hidratei com a boa e velha água, muita água. Chifre-de-gazela, um dos milhares de doces de tâmara, adoçou a refeição às portas do deserto do Saara. Para encerrar com chave-de-ouro, chá com tomilho.
Retomamos a estrada, entrando de vez no Saara, cruzando vastidões infinitas de areia, rochas, gramíneas de primavera que desapareceriam antes do verão. Rebanhos esparsos de ovelhas, cabras, dromedários. Acampamentos de nômades no meio do nada. Uma refinaria de gás e outra de petróleo, ambas pequenas, mas cercadas de segurança completa, apareceram em entroncamentos rodoviários.
Um carroceiro nômade pediu ajuda para ajeitar o pneu furado da carroça. Até paramos, mas nada poderíamos fazer. Desconsolado, se despediu e nos viu desaparecer no horizonte.
Antes de escurecer entramos no acampamento situado ao lado do oásis. A imensa área se compunha de restaurante, bar, sala de banhos e massagens turcas, piscina, entre outros itens. As tendas cobertas de lona plástica, dispostas sob as tamareiras, ofereciam banheiro privativo, água encanada e quente, ar condicionado, luz elétrica durante as vinte e quatro horas, camas de casal, saleta com mesa e cadeiras. O barulhento gerador a diesel poluía o ar e os ouvidos.
Mergulhamos de cabeça nas dunas do Saara sob o sol do fim da tarde. Entre subidas e descidas, através de caminhos marcados ou de outros feitos na hora, atingimos as ruínas da fortaleza romana erguida havia milhares de anos. Ninguém por ali. Silêncio total. No portal, vestígios de frases romanas relembravam a história.
O jantar se compôs de sopa de grãos com tomates e a harissa, salada de folhas, brik, carneiro assado com legumes, batatas e pimenta violentíssima. Para neutralizar o incêndio dentro da boca, tâmaras frescas e tâmaras conservadas na manteiga.
O frio do deserto baixou com tudo durante a madrugada. A colcha grossa espantou o ar gelado que entrava pelos orifícios da lona e pelos nós da “porta”. Um jumento nervoso relinchava a todo instante.
Depois do café da manhã circulei fora e dei de frente com o amontoado de “acampamentos turísticos”, lado a lado, mais de dez deles, transformando o oásis num ponto de concentração alienígena. Não fossem as circunstâncias desfavoráveis ao turismo da Tunísia ali estaria entupido de visitantes. E junto com a horda de estrangeiros, a indústria do turismo oferecia, ao redor dos acampamentos, bares badalados, artistas de ocasião, o comércio ambulante vendendo de tudo e de qualidade duvidosa, as frotas de quadriciclos, os dromedários para passeio, eventuais aproveitadores.
Deixamos aquilo que não se decidiu entre hotel e acampamento. O ziguezaguear da estradinha marcou a passagem do deserto arenoso e aplainado para deserto rochoso e montanhoso, cortado por vales menos inférteis e parcamente cultivados, nas imediações de Bir Soltane.
Chegamos a Tamezret, cidadezinha de maioria berbere, encantadora, encravada no alto da colina rochosa, erguida inicialmente no século XI.
Primeiramente a contemplei de longe, enquanto saboreava café aromatizado com hortelã e observava a paisagem árida e acidentada do entorno. Depois, perambulei a pé, sem pressa, pelos becos, escadarias, ruelas sinuosas, ladeiras, em meio ao silêncio absoluto da manhã. A maioria dos moradores se deslocara ao campo para obter o pouco para comer ou comercializar. Apreciar calmamente o casario de pedra não poderia ter sido melhor naquele momento da viagem. Me revigorou. Portas em arco, muito baixas, de madeira grossa pintada de azul, contrastando com o branco caiado das paredes e muros. A mesquita também branca com o minarete de base quadrada. Subidas, descidas, um ou outro morador vestido à moda tradicional berbere. A vista panorâmica dos vales e colinas ao redor sobre o solo rochoso, árido, ocre.
Seguimos adiante cortando relevo acidentado do deserto rochoso. Próximas à rodovia, moradias encravadas nas encostas, cavadas montanha adentro, compondo o conjunto das famosas casas dos trogloditas de Matmata. E ali, ao contrário da Capadócia turca, ainda era habitada por famílias que viviam o dia a dia da Tunísia rural de maneira simples, sem ambições maiores.
Entramos em uma delas. O portal em arco, estreito e baixo, escavado na rocha, nos levava ao pátio central, do qual portas abriam para a cozinha, quartos, dispensa para mantimentos, tudo em ambiente naturalmente resfriado no verão e morno no inverno. Dentro dos cômodos, o mínimo necessário para a sobrevivência, sem supérfluos, sem sujeira aparente. A moradora interrompeu a moagem de cevada usando pedras pequenas e antigas, em processo totalmente manual, para nos preparar e servir chá com hortelã em minúsculos copos de vidro transparente.
O sol, quando não neutralizado pelas raras nuvens finas ou pela névoa seca, queimava e massacrava. Na sombra, a sensação térmica era fresca e agradável, pelo menos no meio da primavera. O ar extremamente seco incomodava levemente as vias respiratórias e vez ou outra entupia uma das narinas.
O trajeto rodoviário entre Matmata e Toujene empolgou pelos sobes e desces, curvas fechadas, precipícios, a vista espetacular do alto das montanhas, os vales abaixo, os pequenos vilarejos, as montanhas mais ao longe, as encostas pedregosas e áridas, a rara vegetação e, mais ao fundo, as planícies da Líbia, país em fase de destruição social, saques e pilhagens pelas corporações capitalistas da Europa e daquele regime terrorista ao norte do México.
A luz do fim da tarde valorizava o ocre das rochas e areia das encostas, as irregularidades do relevo, as construções encravadas na montanha. E, serpenteando pela estradinha, chegamos ao vilarejo berbere de Toujene, erguido inicialmente no século XI. Dotada de inúmeras construções de pedra, em ruínas, abandonadas, becos e vielas inclinadas, ladeiras e escadarias, Toujene me conquistou logo de cara. Os berberes desenvolveram relações com a natureza, muitas das quais mantidas até os dias de hoje, entre elas buscar água no poço comunitário, único para toda a cidadezinha, em enormes galões sustentados nas costas ou carregados por jumentos.
O guia se impressionou ao ouvir a anciã local se espantar com estrangeiros vindos de longe, ou, nas palavras dela, vindo de trás da Líbia, visitarem e gostarem daquele vilarejo velho, feio, sem graça. Ele não cansava de repetir a história, sempre se indignando com a ignorância da idosa. Certamente ele não captara a singeleza daquelas impressões. Ao sairmos de nossas culturas e paisagens, buscamos as diferenças, nos surpreendemos com as diferenças, admiramos as diferenças. E, se essas distintas culturas nos visitassem, também se surpreenderiam e admirariam. A curiosidade, a perplexidade, o fascínio diante do outro, diante da diferença, faz parte dos seres humanos. Daí o encanto que as viagens profundas exercem sobre os viajantes. E daí a preocupação diante da padronização cultural do mundo, cada vez mais acelerada e imposta pelas corporações dos países dominantes.
Entre conversas preguiçosas, o chá de hortelã natural sobre a laje de casa de família carente, mas com vista magnífica de Toujene, dos vales abaixo e das montanhas acima, encerrou a exploração daquela adorável cidadezinha berbere do sul da Tunísia, próxima à fronteira da Líbia.
Na volta, percorremos as montanhas pelas mesmas estradas da ida, lentamente, permitindo a visão de despedida de Toujene, antes da última curva fechada. E, ao anoitecer, nos dirigimos ao hotel nos arredores de Matmata, onde também ali, os moradores, antes escondidos nas sombras internas das casas, mostravam as caras em espaços externos e coletivos ao cair do sol.
continua...

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Tunísia e Marrocos (parte 1/7)

O voo da empresa aérea italiana saiu atrasado de São Paulo naqueles meados de abril.
Desembarquei em Roma no início da manhã e me deparei com desorganização e burocracia nas alas do aeroporto. Filas desalinhadas e furadas por estrangeiros e italianos. Lentidão e confusão na verificação de passaportes, raios-x das bagagens, roupas, corpos. O comportamento racista se evidenciava com passageiros de pele não branca ou de trajes típicos africanos ou árabes. E ali se tratava apenas do setor de trânsito para outros voos e não de entrada na Itália.
Ultrapassados tantos obstáculos, me dirigi ao portão para o segundo voo. Ao lado, embarques para cidades do leste europeu, norte da África, oriente médio. Eu notava rostos familiares rumo a destinos estranhos. Impressionante como a bem-vinda diversidade racial brasileira, com ou sem miscigenação, dispensava a surpresa diante de tipos dos mais díspares países do planeta.
A área reservada aos passageiros fumantes no aeroporto de Roma, por outro lado, me deixou perplexo. Disposta ao longo do corredor entre os portões de embarque, inteiramente envidraçada, a caixa aprisionava os candidatos a câncer feito sardinhas. O aquário esfumaçado mais parecia o apocalipse do que cena cotidiana de aeroporto. Os fumantes, todos de pé, com caras de paisagem, espremidos, quase se tocando, inalavam e baforavam fumaça, para cima, para baixo, para os lados. E aquilo não funcionava para os usuários não fumantes. A porta automática, abrindo e fechando constantemente, permitia que a nicotina circulasse impunemente fora do aquário da morte.
O avião pequeno, da mesma empresa italiana, pousou em Túnis, em pouco mais de uma hora de voo.
No centro novo da cidade, almocei em restaurante simples, barato, frequentado por tunisianos, vestidos ou não à maneira árabe. Comi brik, espécie de folhado frito de legumes, verduras e ovo, seguido de cuscuz com peixe e batatas. Veio também cesta de pães e pires com azeitonas, pasta de berinjela e pasta avermelhada de condimento apimentado, a famosa harissa, onipresente nas mesas tunisianas. E sem eu pedir, veio o café aromatizado ao final de tudo. Tunisianos e tunisianas das outras mesas me lançavam olhares curiosos.
As ruas de Túnis, transversais e paralelas à avenida Habib Bourguiba, exibiam de tudo um pouco nas roupas masculinas e femininas. Desde as de jeans ou vestidas ao estilo ocidental, até as cobertas por véus ou mantos pretos da cabeça aos pés, passando por mantos e roupas compridas, leves e coloridas. Sons distantes apontavam para a convocação para mais uma das cinco orações diárias do islamismo. Nada intenso ou em volume alto como escutado em cidades da Turquia.
Assisti a início de manifestação em defesa do povo palestino que sofre há quase setenta anos o holocausto promovido pelo regime de Israel.
Na manhã, a medina da capital, depois de passar sob a Porta do Mar, em arco, deixando para trás a cidade nova construída pelos invasores franceses. Entramos em becos labirínticos, por entre lojinhas, cafés, casas de chá charmosíssimas. Do outro lado, após a mesquita principal, prédios públicos fortemente protegidos com arame farpado, bloqueios, soldados armados até os dentes, barricadas com sacos de areia. Era a situação de Túnis depois do atentado a museu no mês anterior.
Pegamos o veículo tracionado, dirigido pelo impecável motorista sempre vestido à moda do sul da Tunísia, com túnica e turbante colorido. Rumamos ao museu Bardo, justamente onde ocorrera o atentado mencionado. Distribuídos por diversas salas, mosaicos dos tempos da ocupação do país pelo Império Romano, além de peças e vestígios dos púnicos que viveram antes na região, até os primeiros séculos depois de Cristo.
Impressionou as imagens de vidros perfurados a balas durante o atentado do mês anterior, disparados tanto pelos encapuzados como pelos integrantes da polícia e do exército tunisiano.
Almoçamos em La Goulette, perto de um dos lagos de Túnis, dentro de área residencial, novinha em folha, ocupada por milionários tunisianos e estrangeiros. Nada da cultura árabe pelas ruas e avenidas padronizadas, inundadas de lojas pretensiosas, bares e restaurantes metidos à besta, rigidamente protegidos contra invasões de populares.
Exploramos as ruínas de Carthago, então restos de lápides e altares púnicos, datados de mais de três mil anos, no exato local onde se ergueu a Carthago púnica e depois, sobre esta, a Carthago romana. O pouco que restou da Carthago romana, mais especificamente as ruínas dos banhos de Antonina, reservava pedaços de paredes e construções, colunas altas em rocha entalhada, em pé ou tombadas, nos estilos dóricos, jônicos e coríntios. Carthago, no entanto, tinha mais história e fama do que evidências físicas, ainda menos que no caso de Troia na Turquia. A Carthago moderna se transformou em mais uma zona residencial para as elites internas e externas, repleta de mansões, marinas com iates, segurança reforçada pelo medo da ira do povo.
Pegamos a rodovia na direção central da Tunísia. Terreno plano, serrotes esparsos e montanhas ao fundo do horizonte. Plantações sem fim de oliveiras, alguma cevada, frutas, rebanhos de carneiros e cabras. Pequenas concentrações de indústrias estrangeiras.
O final da tarde de aproximava quando entramos na cidade de Kairouan. Visitamos uma fábrica e loja de tapetes, cujos vendedores comunicativos garantiam que eu adquiriria produtos artesanais, preparados a partir de lã de carneiro e cashmere, de qualidade, únicos, exclusivos, por preços baixos, estipulados especialmente para mim, que era do Brasil, país ao qual particularmente se afeiçoavam. Diziam isso para todos e nem ficavam vermelhos. Comprar algo, nem pensar. Descansei em assentos confortáveis. Assisti ao espetáculo teatral dos vendedores que desenrolavam tapetes e mais tapetes na minha frente. Tomei saborosos chás verdes com hortelã. Caprichei nos sorrisos e agradecimentos, em árabe, durante as despedidas. Eu aprendia com eles.
O dinheiro da Tunísia dividia estranhamente a unidade por mil e não por cem. Tínhamos milésimos e não centavos. Os valores eram escritos com três casas decimais, e não duas, depois da vírgula, no caso depois do ponto.
O muezim da mesquita em frente ao quarto do hotel me acordou antes do amanhecer convocando para a primeira oração do dia. Assim jamais me esqueceria de que viajava por país muçulmano e que estava em Kairouan, a quarta cidade mais sagrada do islamismo em todo o mundo.
Fomos a pé até a grande mesquita do século IX, a mais antiga do norte da África. Pesada, imponente, simples e despojada de adornos e detalhes desnecessários. Dentro da sala de orações, ampla e coberta de tapetes coloridos, inacessível a não muçulmanos, mas contemplável do lado de fora, além dos espaços de orações, estantes de livros e revistas abordando assuntos diversos, religiosos ou não, livremente usados pelos fieis durante todo o dia.
Percorremos a pé as ruelas da medina de Kairouan, fascinante, pela diversidade da população moradora e usuária do comércio variado, artesãos, artistas plásticos, ao longo de becos estreitos e irregulares. Em poço antigo e movido à tração de dromedário, a água era retirada de mais de vinte metros de profundidade. Vendedores me abordavam com a insistência de praxe, me convidando a entrar nas lojas. Eu, como de praxe, sorria e recusava educadamente, em árabe, os surpreendendo.
Mesas entupidas de tunisianos bebendo copos e mais copos de café, raramente chá, em bares e cafés fora da medina, cercados por uma infinidade de bicicletas e motos.
Pegamos a estrada e logo a paisagem se tornou mais ressecada, embora contivesse oliveiras, figos-da-índia, trigo, entre extensos vazios agrícolas, vegetação rasteira ainda esverdeada pela primavera, cobrindo terreno arenoso e aplainado, cercado a leste e a oeste por cadeias montanhosas. Nos acostamentos, marreteiros vendiam combustível contrabandeado da Argélia a preços bem abaixo dos postos da Tunísia.
Paramos para almoçar na beira da estrada, em local especializado em carneiro grelhado na brasa, acompanhados de saladas apimentadas e precedidos de sopa também picante. E muito pão que compráramos de ambulante instalado no acostamento da rodovia que os assava diretamente em forno cilíndrico.
Entramos em Gafsa, cidade feia, grande, economicamente forte devido às vizinhas minerações de fosfato, riqueza natural da Tunísia exportada pelo porto da cidade de Sfax. Relaxamos em bar onde os frequentadores assistiam atentos à partida de futebol entre times tunisianos.
Notei placas indicativas à cidade de Redeyef, onde rodou o documentário Maldito o Fosfato, exibido durante o festival internacional de documentários de São Paulo. O filme denunciava os malefícios sociais da indústria mineral estrangeira, desrespeitando direitos humanos e trabalhistas e em nada beneficiando as populações locais com as rendas exorbitantes obtidas da riqueza natural tunisiana. Perseguições, prisões arbitrárias, demissões por razões políticas, terrorismo policial, falta de assistência médica aos contaminados direta ou indiretamente por produtos químicos, entre outras maravilhas impostas pela aliança entre a corporação estrangeira e os governos local e nacional.
A partir de Gafsa a paisagem ficou ainda mais árida. Nada de agricultura, apenas esparsos rebanhos de ovelhas e cabras, que se adaptavam perfeitamente ao clima seco. Placas no acostamento alertavam para a presença de dromedários. Entre os tufos de gramíneas, minúsculas dunas de areia, prenúncios do Saara mais ao sul.
À medida que nos afastávamos dos centros urbanos, mais mulheres cobertas de véus e mantos, roupas longas e largas, mas de cores alegres ou claras, jamais preto ou de tons escuros. Homens vestiam à maneira ocidental, alguns cobriam as cabeças com barretes ou chechias.
De maneira geral, os tunisianos sorriam, eram simpáticos, educados e prestativos, apesar de me abordarem sempre em francês, infelizmente. Pena que eu não conseguia avançar além de meia dúzia de expressões em árabe.
Entramos em Tozeur, cidade erguida ao lado de imenso oásis composto de centenas de milhares de tamareiras. O oásis estava comprometido pela falta d’água em razão do consumo excessivo dos hotéis turísticos que irregularmente cavavam poços de captação subterrânea. E tamanho crime ambiental permanecia impune até então.
Jantei em restaurante no qual gringos da mesa ao lado repetiam a cada segundo a palavra ya. Era ya para cá, ya para lá. Nada além desse vasto vocabulário. A noite estava quente e o céu estrelado. A temperatura alta e os raios vindos dos lados da Argélia abafavam a escuridão. Tunisianos, em grupos, fumavam e tomavam café nos bares. Alguns desfilavam discretamente de moto.
Pela manhã saímos via o deserto com musgos ainda verdes pela primavera em meio à areia, lagos ressecados e salinizados. Rebanhos esparsos de dromedários, ovelhas, cabras pastavam nas imediações.
A cidadezinha de Chebika ficava ao lado de oásis e aos pés de montanha rochosa de coloração ocre. A nascente de água das alturas garantia a vida, animal e vegetal. As ruínas da primeira Chebika ainda se erguiam encosta acima, entre casas de adobe, quadrangulares, distribuídas pelos becos e ladeiras irregulares. Lá estava também o pequeno mausoléu para guardar os restos mortais do fundador da vila. No mais, colinas áridas, ocres, monocromáticas, cortadas pelo vale por onde corria o fio de água, líquido precioso que atraiu antigos nômades a se fixarem. As tamareiras dos oásis do norte da África indicavam a presença de água da mesma maneira que os buritizais no cerrado brasileiro.
De volta à estradinha, agora montanha acima, cortadas por gargantas e caminhos sinuosos, partimos rumo a Tamerza. Visual impressionante do asfalto ziguezagueando por entre escarpas rochosas e vales ressecados bem abaixo. Paramos para o chá em vendinha rústica onde se pendurava e se negociava de tudo, inclusive lagartos mortos e presos a longos barbantes. Me sentia longe de casa em companhia de legítimos habitantes do deserto, herdeiros dos berberes, os povos tradicionais da região, anteriores aos romanos, aos árabes, aos otomanos.
        Mais adiante, vendedores das barracas expondo inutilidades turísticas lamentavam o minúsculo movimento, de locais ou estrangeiros. E as explicações eram sempre as mesmas, a crise na Europa, a instabilidade política do país, o recente atentado ao museu em Túnis.
continua...