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quinta-feira, 17 de outubro de 2024

da Bolívia ao Piauí (via Bolívia, Peru, AM, PA, MA, PI) parte (6/7)

 ...continuação

Pela manhã desci à estação hidroviária de Manaus. No navio me foi designada a suíte com duas camas de solteiro em beliche, banheiro privativo, ar condicionado.

Almocei os cinco pães de queijo e os dois sanduíches de queijo que preparara no café da manhã do hotel. E tracei também três das seis maçãs fresquinhas que comprei de ambulante em circulação pelo navio.

Três horas e dez minutos após o horário programado, o navio zarpou de Manaus. Uma hora depois atravessou o encontro das águas entre o rio Negro e o rio Amazonas. A ocupação de apenas um terço da capacidade do navio incluía bebuns que jogavam as latinhas de cerveja no piso do navio ou nas águas do rio, ignorando os enormes cestos de lixo por todos os pisos.

Em frente à lanchonete do terceiro piso, enormes caixas de som vomitavam o lixo da indústria cultural em alto volume, compondo trilha sonora para os bêbados e as bêbadas em estados animalescos.

No refeitório jantei o jantar por quilo, mas pago à parte como em todas as embarcações de bandeira paraense.

Insisti e subi novamente ao bar e lanchonete e também ao último piso, descoberto, sob as estrelas e a lua quarto crescente. Mas não deu para permanecer ali. Além do lixo comercial vindo das caixas de som da lanchonete, uns passageiros, não contentes com a poluição sonora logo abaixo, trouxeram e ligaram aquelas monstruosidades portáteis que vomitam luzes e som. Mais lixo descartável da indústria cultural. Mais latas e garrafas pelos pisos, escadas, mesas, cadeiras, em todos os lugares, menos nos cestos de lixo disponíveis por todos os cantos do navio.


Li bastante na suíte e adormeci cedo, bem cedo.

Nem levantei durante a parada em Itacoatiara. Apenas ouvi a movimentação interna e externa, a oscilação do ronco dos motores, o apito, para imediatamente voltar a adormecer.

O café da manhã, também pago à parte, oferecia fatia de melancia, mungunzá quentinho no copo, sanduíche grande de queijo e presunto, pedaço de bolo, copo de café com leite.

E me liberei para apreciar a paisagem fluvial. Li bastante ao lado da cabine de comando, de frente para a imensidão de água do rio Amazonas. Poucas embarcações subindo ou descendo o rio.

No meio da manhã, bem no fundo do horizonte, avistei as antenas e a torre da igreja matriz de Parintins. Mas somente uma hora e vinte minutos depois o navio atracou no porto da cidade. No mesmo instante os microfones internos convocavam os passageiros para o almoço. Se já vinha com poucos passageiros, o navio esvaziou ainda mais após Parintins. E, ufa, todos os bebuns e as caixas de poluição sonora desembarcaram ali. Todos se esbaldariam desenfreadamente no festival de Parintins que começaria em poucos dias.

Pouco depois o navio singrava as águas do rio Amazonas em terras paraenses. E o fuso horário passava a ser o de Brasília.

Encerrei Vida ao Vivo, de Ivan Ângelo. O livro disseca, de maneira envolvente, curiosa e ácida, a vida e as ações de magnata dos meios de comunicação. Qualquer semelhança com pessoas reais e contemporâneas não seria mera coincidência.

A parada em Juruti não ocorreu no porto da cidade, mas a jusante da zona urbana, em barranco improvisado sobre o qual passava estradinha de terra. O navio baixou a rampa da proa e um caminhão desembarcou direto rumo às ruas da cidade. Os vendedores de comes e bebes, normalmente posicionados no porto, na espera das embarcações, se desembestaram para aquele local inusitado para tentar vender as mercadorias. Parada irregular, em barranco irregular, apenas para satisfazer os interesses monetários do proprietário do navio.

Para surpresa de muitos passageiros o navio não parou em Óbidos, cidade incluída em todas as rotas fluviais das embarcações entre Manaus e Belém. O atraso deliberado pela sede de lucros do proprietário do navio, porém, se mantinha o mesmo.

O navio atracou no porto das balsas, e não na estação hidroviária, em Santarém, no começo da madrugada. As carretas, caminhões e veículos começaram a desembarcar pela rampa frontal da embarcação, provocando barulhos incríveis que reverberavam pelas estruturas metálicas. Aquela fora viagem de transporte de cargas, especialmente caminhões e carretas, pouco importando a sorte ou o horário dos passageiros.

Nem me levantei. Continuei na cama de baixo do beliche e, à medida que os ruídos diminuíam, adormeci novamente. Despertei ao amanhecer. Silêncio total do motor, nos pisos internos e nas áreas externas ao navio. Fechei as bagagens e desembarquei. Mais adiante, em frente ao ponto de embarque da balsa que cruzava o rio Amazonas rumo à vila de Tapará, eu consegui quem me levasse ao hotel.


Eu esquecera o quão deserto e silencioso era um domingo santareno. Dava para ouvir o som do silêncio. Ao caminhar para o restaurante do almoço eu me sentia atravessando cidade abandonada depois de uma hecatombe qualquer. Um ou outro veículo circulava de vidros fechados e ar condicionado ligado. Fazia calor ardido no meio do dia. Alcancei restaurante simplório e aconchegante. Ao fundo da paisagem o rio Tapajós fluía lentamente para o norte.

Enfrentei o sol de rachar a cuca do começo da tarde a fim de circular pela orla do rio. Parava vez ou outra em banco sob a sombra das palmeiras, mas que geravam sombras tímidas. Prosseguia para, mais adiante me sentar sob as mangueiras, estas sim de sombras amplas e refrescantes. Raros gatos pingados por ali naquele horário. Paz e tranquilidade para contemplar o Tapajós, o encontro das águas, mais visível na luz da tarde, e o Amazonas mais ao fundo. Detonei duas bolas de sorvete, açaí e cupuaçu, diante das águas esverdeadas a azuladas do rio.

Escureceu em Santarém. Era noite alta e a temperatura batia nos trinta graus. Quente, abafado, úmido. O largo e extenso calçadão da orla do Tapajós fervia de gente de todos os tipos e idades. Animação e alegria em espaço público e democrático. O calçadão fora estendido até praticamente o fim da zona urbana. O porto da praça Tiradentes, de onde embarquei tantas vezes para Macapá anos antes, foi corretamente transferido para a estação hidroviária, mais a jusante. No calçadão ainda havia balsas flutuantes, bem instaladas, limpas e funcionais, mas apenas para embarcações menores com destino às comunidades próximas, rio acima, e para as lanchas rumo a destinos mais afastados como Itaituba, Alenquer, Óbidos, Juruti. Com essas mudanças ganharam tanto os passageiros dos barcos e lanchas, como os moradores e visitantes que desfrutavam do extenso calçadão, dotado de quiosques de comes e bebes, sobretudo dos de batatas fritas, petisco típico das noites dos interiores paraenses, sem falar em aluguel de bicicletas, patins e brinquedos para crianças. Pescadores avulsos, com varas ou apenas utilizando as linhas se espaçavam na murada metálica. Noite tórrida muito bem aproveitada pela população, ao ar livre, socialmente, coletivamente.


Iniciei a leitura de Vasto Mundo, de Maria Valéria Resende.

Pela manhã caminhei por todo o calçadão da orla do Tapajós, bem depois da Feira do Pescado e do Mercadão 2000. O chapéu e o protetor solar amenizaram parcialmente os efeitos do sol implacável. O calçadão largo, extenso, alto para conter eventuais cheias do rio, percorria quase toda a margem fluvial urbana, enfeitando a maior parte de Santarém. As águas do Tapajós, esverdeadas, batiam na murada.

Almocei mistura insólita de maniçoba, arroz de pato, pedaços de filé mignon, banana frita e o invariavelmente soberbo suco de cupuaçu. Encerrei com duas balas de cupuaçu.

À tardinha pude contemplar estupendo por do sol nas águas do Tapajós. As cores evoluíam do alaranjado ao avermelhado, entre outros tantos tons vivos e incandescentes. Barquinhos e navios maiores navegavam no horizonte. Belíssimas imagens para apreciar e registrar.

Para uma ideia do campo político a que pertencem os sujeitos que têm coragem de defender a criação de estado próprio, separado do Pará, com capital em Santarém, e assim mandar e desmandar na população, como em um feudo particular, bastava ler a faixa estendida por tais indivíduos na orla da cidade: “estado do Tapajós, agora vai, em nome de Jesus”. Não precisa ser muito informado ou ter raciocínio privilegiado para saber que aquilo vem das trevas do fundamentalismo, dos traficantes da fé do povo, das empresas evangélicas, do comércio ilegal travestido de religião, que querem a todo custo explorar e oprimir ainda mais os povos do sudoeste do Pará.

Na orla fluvial da cidade não resisti e caí de cabeça em tigela de creme de açaí fresco, centrifugada provavelmente pela manhã, com farinha de tapioca e açúcar.

Encerrei a leitura de Vasto Mundo, de Maria Valéria Resende, excelente livro que narra diversas estórias ocorridas em torno de vilarejo do sertão paraibano.

À noite, o calçadão da orla do Tapajós em Santarém se mantinha prestigiado.

No dia seguinte, na Feira do Pescado, as garças brancas perambulavam ousadamente pelas bancadas cheias de peixes. Parecia que até pediam para serem fotografadas, de pertinho, em planos bem fechados. Botos, dos cinzentos ou dos rosas, davam voltas nas águas bem próximas na esperança de ganhar restos de peixes frescos.

Depois de entrar no Mercadão 2000 parei na balsa das lanchas para Itaituba. Durante a espera da próxima embarcação conversei com itaitubense que voltava pra casa após as sessões de quimioterapia trimestral. O câncer na próstata, já extraída, ainda exigia tratamento intensivo. Segundo o próprio, bem humorado e levando tudo na esportiva, faltava pouco para morrer, pois na família dele poucos ultrapassavam setenta anos de vida. Falante e engraçado alegrava a fila de embarque para o percurso previsto de oito horas ao destino final.

Andei lentamente ao outro lado da cidade, mais precisamente ao restaurante onde costumava almoçar anos antes, muitos anos antes. Abri com caipirinha coada, como regra por ali, caipirinha feia, mas saborosa. Prossegui com caldeirada de tucunaré, pirão engrossado, quase duro, com farinha d’água, arroz branco. Encerrei com jarra de suco de graviola, pois não havia o invariavelmente divino suco de cupuaçu.

E fugi do caldeirão das ruas de Santarém para o fresco quatro do hotel.

À noite, duas caipirinhas honestas, apesar de coadas, e uma generosa porção de calabresa, batatas, farinha e rodelas de cebola frita, no calçadão da orla do Tapajós. Pouca gente. Tranquilidade. Silêncio apenas cortado pelo marulhar das águas na murada de proteção. Delícia das delícias em noite do meio da semana, noite comum, sempre mais agradável que as noites de fins de semana, feriados, períodos festivos. Eu contemplava o vazio, a escuridão das águas, raramente interrompida por voadeiras em deslocamento. A brisa, o frescor do ar noturno, a imensidão e o brilho fugidio das águas do Tapajós, o movimento quase nulo de pessoas, lembrava que valia e muito a pena estar em Santarém.

Subi em ônibus urbano ao distrito de Alter do Chão, dentro do município de Santarém. O percurso de uma hora pela PA-457 atravessou trechos de floresta razoavelmente preservada e partes de povoados como Cucurumã, São Braz, São Pedro, entre tantos outros.


Já na vilazinha embarquei em catraia a remo para a curtíssima travessia à ponta de areia, a imagem símbolo do lugar. Ziguezagueei ao longo da ainda estreita faixa de areia, que cresceria, em extensão e principalmente largura, com a baixa das águas do Tapajós. Avancei bem depois de muitas outras barracas então fechadas, pisando ora numa margem ora na outra da faixa, chapinhando os pés nas águas mornas. Quase ao final, com praias dos dois lados, entre vegetação de pequeno porte, avistei a boca da trilha. Era a mesma trilha que percorrera vinte e um anos antes e que levava ao topo do morro da Piroca, de onde se tinha visão privilegiada do entorno.

E lá fui eu, no impróprio horário das 12:30h, ciente do esforço físico que faria debaixo do sol amazônico brilhando no pico do céu. A maior parte do percurso seguia terreno aplainado e arenoso. Cerca de quinze minutos antes de completar uma hora de caminhada a trilha iniciou a subida em terreno pedregoso, a subir bem, exigindo pernas, pulmões, enquanto o corpo todo se ensopava de suor.

Atingi o topo, vazio de gente, para minha felicidade. Nele, um banco de jardim, um mastro contendo dezenas de flechas com as direções e distâncias de vários pontos do Brasil e do exterior. E me deparei com a visão de trezentos e sessenta graus de toda a região. Avistei a vila de Alter do Chão, a faixa estreita de areia, zonas de floresta nativa, baías ainda submersas e, mais adiante, o curso principal do rio Tapajós. Minha pele e as roupas do corpo estavam encharcadas de suor. Nada de brisa. Somente o sol a pino, o calor, o mormaço. E a visão estupenda ao redor. Relaxei, contemplei, registrei imagens do cume e dos entornos.

De volta à praia, encostei o esqueleto na barraca mais vazia e tranquila. Entrei nas águas da praia de Alter do Chão, braço afastado do leito principal do Tapajós. Mergulhei, me refresquei, nadei, flutuei na água doce. Tracei pirarucu com arroz, baião, farinha e vinagrete e duas garrafas grandes de água. Um lagarto gordo, cinza esverdeado, de um metro de comprimento, apareceu nas areias da praia. Eu já acabara de comer. Não sei o que ele buscava. Não incomodou ninguém. De repente não estava mais lá.

No meio da tarde, atravessei as águas e peguei o ônibus no terminal local.

Em Santarém fui me deliciar com a tigela de creme fresco de açaí, farinha de tapioca e açúcar. Que maravilha o creme de açaí fresco, provavelmente colhido durante a madrugada anterior e centrifugado, ou batido, na manhã daquele mesmo dia! Manjar dos deuses estratosféricos!

Comecei a ler O Boto, de Tadeu Sarmento, livro que me atraiu pelo enredo ambientado em comunidades ribeirinhas do rio Negro, mas com pegada explicitamente sobrenatural.

A noite de domingo em Santarém, como de regra em praticamente todos os interiores onde vivem pessoas que vivem e não apenas vegetam, era a noite mais prestigiada nas ruas, calçadas e praças. Famílias, casais, grupos, todos, desentocavam e saíam para circular e encontrar conhecidos. Alegria em locais públicos, democráticos, a maior parte gratuitos.

continua...

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

da Bolívia ao Piauí (via Bolívia, Peru, AM, PA, MA, PI) parte (5/7)

 ...continuação

Na parada em Santo Antônio do Içá, os passageiros foram recebidos com gritarias histéricas do fundamentalismo evangélico, vindas dos alto-falantes do porto flutuante. Em local público, aos berros, o energúmeno vomitava textos mal decorados da bíblia, livro de ficção, escrito por seres humanos, portanto falível e de verdades questionáveis como qualquer outro livro. Dentro do navio, membros daquele grupo de missionários jovens embarcados em Tabatinga se maquiaram de palhaço e se dirigiam aos passageiros das redes para convertê-los ao fundamentalismo. Os traficantes da fé do povo, os comerciantes evangélicos, atuavam intensamente, sem freios ou legislação que garantisse o sossego e a liberdade de pensar e agir da população. Onde estavam os setores da sociedade que discordavam dessas práticas criminosas e defendiam o país laico e socialmente justo?

O bufê do almoço cedo veio de arroz, macarrão, frango assado, carne no molho, farinha, salada variada, goiabada com creme de leite, servida em copinhos minúsculos, suco artificial. Era paradoxal, mas servir peixes nas embarcações amazônicas virou raridade, para não dizer impossibilidade, na maioria dos percursos por mim realizados.

Parada na pequena Tonantins. Repetindo as paradas anteriores, soldados da polícia militar amazonense entraram e circularam por toda a embarcação, olhando tudo e todos, mas sem revistar bagagens pessoais.

Ao anoitecer pude ver indícios do encontro das águas escuras do rio Jutaí com as águas barrentas do Solimões. Em seguida o navio atracou na cidade de Jutaí, numa manobra apertada, sem espaço suficiente para o desembarque e o embarque.


Durante a madrugada a última parada prevista naquele trajeto fluvial, a cidade de Fonte Boa.

Amanheceu com belos efeitos arroxeados, avermelhados, alaranjados, amarelados, para o lado leste.

Durante o serviço de café da manhã, a copeira cinquentona acompanhava as canções evangélicas vindas dos alto-falantes do refeitório, programadas por ela mesma, provavelmente. Desrespeito total aos passageiros e a outros tripulantes que não compactuavam com o fundamentalismo religioso da distinta senhora. No entanto, menos mal, não notei alusões a fundamentalismos religiosos nas partes internas e externas do navio, diferentemente da quase regra revoltante em embarcações na Amazônia, inclusive nos próprios nomes de registro delas.

Devorava com avidez Literatura da Floresta: textos amazônicos e cultura latino-americana, de Lúcia Sá. A autora tratava da cosmogonia de quatro grandes grupos indígenas brasileiros e do aproveitamento dela na literatura e teatro latino-americanos. Destacou e analisou Macunaíma, de Mário de Andrade, I Juca Pirama, de Gonçalves Dias, Maíra, de Darcy Ribeiro e Meu Tio o Iauaretê, de Guimarães Rosa, Quarup, de Antônio Callado e Cobra Norato, de Raul Bopp, os espetáculos teatrais em Manaus nos anos 1970, pelo grupo liderado por Márcio Souza, o questionável O Falador, de Mario Vargas Llosa. Além de empolgante e instrutivo, o livro de Lucia Sá caía como luva naquele percurso pelo rio Solimões abaixo. Na sacada da suíte, de frente para o rio, lia o livro entre contempladas naquela paisagem tantas vezes percorrida em anos anteriores.

O navio atravessou furo ou canal estreito, entre ilhas no meio do rio. As margens muito próximas, a vegetação exuberante, aves cantando sinfonias estridentes, a natureza abraçando a embarcação e os passageiros, extasiaram a todos. Mesmo tendo presenciado cenas semelhantes tantas vezes, não pude deixar de me emocionar com aquele deslumbrante flagrante amazônico.

A embarcação passou ao lado de comunidade de cerca de trinta moradias, de madeira e sem acabamento. Ao redor de dez canoas a remo, pilotadas por crianças, se soltaram das casinhas e se aproximaram do navio na esperança de receber esmolas, comidas, presentes, lançadas pelos passageiros. Era versão resumida das cenas comuns no estreito de Breves, Pará.


Comecei a ler Na Corda Bamba – Memórias Ficcionais, de Daniel Aarão Reis. Ao longo da autobiografia, o texto mostra a importância de relembrar sempre os males causados pela ditadura militar implantada no Brasil a partir do golpe de Estado de 1964, sobretudo contra o povo brasileiro que se insurgiu contra ela.

Avistei, subindo o Solimões, a lancha Soberana, que deveria perfazer o trecho entre Manaus e Tabatinga em cerca de trinta e seis horas. Muito menos tempo que as embarcações lentas, como a em que eu navegava. Porém, muito, mas muito mesmo, mais desconfortável permanecer sentado em assentos nada anatômicos, sem a liberdade de circular à vontade, apreciar a paisagem com calma e de vários ângulos, dormir em cama ou rede, contar com refeitório em vez de comer naquelas minúsculas mesinhas de frente aos assentos, entre tantas desvantagens da lancha em comparação aos navios e barcos convencionais e lentos.

No começo da noite, parada no posto de fiscalização da polícia federal. Expectativas e suspense geral. As redes foram levantadas e assim amarradas. Os passageiros, encostados na grade de proteção, longe das bagagens. Os das suítes permaneceram de pé, ao lado das respectivas portas de entrada. Seis policiais, mais um mascarado e fortemente armado, circularam pelos quatro pisos da embarcação. Olharam, abriram bagagens aleatoriamente. No meu caso, um entrou, verificou a sacada e o banheiro e, em menos de um minuto, se deu por satisfeito. Três policiais, entretanto, entraram e saíram várias vezes na suíte ao lado da minha. Perguntaram coisas para os ocupantes, inspecionaram novamente e seguiram em frente. Quarenta minutos depois do início das operações agradeceram a todos, desejaram boa viagem e desembarcaram de volta ao posto policial flutuante.

Levantei cedo para o último café da manhã a bordo. Dois pães com margarina, fatias secas de banana, banana frita seca, macaxeira seca. Era a raspa do tacho no estoque de alimentos para os passageiros. O café com leite hidratou e, principalmente, ajudou a empurrar tanta secura para o estômago.

Acabei Na Corda Bamba – Memórias Ficcionais, de Daniel Aarão Reis, comovente libelo contra os horrores da ditadura militar brasileira.

Tive longa conversa no piso de Lazer com o passageiro tagarela embarcado em Benjamin Constant. Na verdade só ele falou sobre tudo o que lhe vinha à mente, como, por exemplo, planos de criar gado ou construir novas casas para herdar aos quatro filhos. A despeito da tagarelice, o trintão era laico, lúcido e sabia o que estava falando e fazendo, e por quê. Acusou a maioria do comércio em Benjamin Constant de lavagem de dinheiro obtido pelo tráfico de drogas, situação que, segundo ele, se repetia em Tabatinga. Questionava os fundamentalismos religiosos, em especial a facção que atuava principalmente no Peru, cujos membros vestiam roupas supostamente da época de Jesus Cristo, não tomavam banho, sonhando ser e viver, nas roupas e comportamentos, como os fundadores do cristianismo. Mesmo assim, os membros dessa seita, ainda segundo meu interlocutor, se imiscuíam no tráfico de drogas e lucravam com isso. E ele trocava de tema e não parava de falar. Astronomia, estilo de vida, trabalho, família, lazer, ciências, geografia, vulcões, terremotos, contato com etnias indígenas do vale do Javari, onde, como engenheiro, ele construiu posto de saúde e outras benfeitorias públicas, caça de animais silvestres, estórias de onças, antas, queixadas, sobre cultura de açaí, pupunha. E falava, falava, falava. Não era desagradável, mas meus ouvidos e minha capacidade de captação tinham limites.


A chamada para o último almoço daquele trajeto fluvial me salvou. No bufê do refeitório, além dos itens de sempre, pedaços empanados de pirarucu, bem comíveis. Milagre dos milagres servirem peixe nas refeições. E justamente na última daquele trajeto.

Nem bem o almoço terminara e o navio passava perto da cidade de Manacapuru.

No começo da tarde, o famoso encontro das águas barrentas do rio Solimões com as escuras do rio Negro. Ao fundo, a cinzenta cidade de Manaus. Nos pisos, passageiros fotografando ou filmando as cenas, na ansiosa expectativa da chegada.

Logo depois o navio atracou na estação hidroviária de Manaus. Retirei as bagagens da suíte, desci as escadas ao piso principal e desembarquei. Atravessei o longo percurso dentro da estação até a calçada da rua.

Me hospedei no hotel onde ficara inúmeras vezes.

O ar noturno do largo de São Sebastião queimava de tão quente. Dei voltas por ali. Apreciei o movimento dos bares antigos, boêmios, inclusive o mais afastado e frequentado por coroas e bebuns em geral, além de putas que trabalham na rua transversal.

Iniciei a comilança do café da manhã do hotel com duas tigelas cheias de granola, salada de frutas e iogurte. Intercalei com três copos de creme fresco de açaí. Segui com meia bengala recheada de manteiga e queijo. Finalizei com xícara de café preto, puro, sem leite, sem açúcar. Saí do salão em estado de graça, estufado, estupidamente feliz. Nas demais mesas, hóspedes principalmente a trabalho na cidade.

Caminhei o longo e familiar trajeto pela rua Joaquim Nabuco até a margem do rio Negro, na faixa entre o porto da Escadaria, ou Manaus Moderna e a estação hidroviária. Era, de longe, a região mais interessante e a mais amazônica da Manaus de concreto e asfalto. E saí de lá com o bilhete confirmado da passagem antecipada de navio para Santarém.

O sol no meio da manhã já massacrava a cabeça e o corpo.

Subi as escadas do centro da cidade para almoçar. Era restaurante simples, no segundo andar de construção velha e mal conservada, quase em frente ao prédio histórico da Alfândega e perto dos diversos portos fluviais. Me sentei em mesa alta, diante da vista parcial do rio Negro.

A caipirinha veio batida e coada, mas saborosa, bem temperada. Optei por caldeirada de tucunaré, acompanhada de arroz e pirão. Encerrei o almoço com o infalível suco de cupuaçu, impecavelmente delicioso.

Depois de circular para lá e para cá, por quase todo o centro velho de Manaus, percorrendo por dentro os infinitos corredores de comidas frescas e processadas do mercado da Manaus Moderna, o mercado da Banana, o mercado turístico Adolpho Lisboa, ainda encontrei forças para explorar a última balsa flutuante do porto da Escadaria, na beira do rio Negro, onde atracavam as embarcações que faziam a linha do rio Juruá, e satisfazer curiosidades.


À noite, os restaurantes do largo de São Sebastião, com mesinhas ao ar livre, próximos entre si, ofereciam música, e até danças, ao vivo, todos ao mesmo tempo, provocando geleia sonora incômoda. Como na noite anterior, verifiquei o movimento nos antológicos bares do próprio largo e da esquina com a rua das putas.

No dia seguinte desci lentamente a rua Lobo D’Almada, a que ferve de putas e puteiros à noite, mas que dormia profundamente naquela hora da manhã. Lá embaixo dobrei à direita, até o inicio da avenida 7 de Setembro, rumo ao mirante São Vicente, inaugurado havia dois meses. Antes, atravessei praça e ruazinhas estreitas, tranquilas e bucólicas, levemente arborizadas, ladeadas por casario e edifícios públicos da virada do século XIX para o XX. O mirante era construção de três andares, contendo bares, restaurantes, cafés, sorveterias, lanchonetes, bancos, plataforma para sentar, relaxar e apreciar a vista das águas escuras do rio Negro e de ambas as margens. Permaneci horas ali contemplando as águas negras do rio, parte da estação hidroviária à esquerda, a extensa ponte sobre o rio que liga Manaus às estradas rumo a Manacapuru, Iranduba e Novo Airão, as colinas do bairro de São Raimundo à direita.

Lentamente, buscando as calçadas sombreadas e menos tórridas, retornei ao largo de São Sebastião para almoçar. Passei em frente ao teatro Amazonas e me sentei em mesa externa do restaurante tão frequentado em viagens anteriores. Saboreei duas caipirinhas pequenas e bem temperadas, costela de tambaqui assado com baião, farofa e vinagrete. Encerrei mantendo o nível com o inatacável suco de cupuaçu.

À noite, seria extremamente difícil arranjar mesa em restaurantes por conta da data comercial, nada mais que comercial, do dia dos namorados. Sem fome fui de sorvete perto do centro comercial, região da cidade vazia de almas naquele começo de noite. Nem putas eu notei circulando por ali. A sorveteria estava aberta e funcionando, mas também às moscas. Tristeza total.

Almocei com casal amigo em restaurante típico amazonense no bairro de São Raimundo, nos altos e de frente para o rio Negro. Duas caipirinhas abriram o apetite para costela assada de tambaqui, sardinha frita, baião, vinagrete, farinha, banana seca, banana em calda. Coroei a lauta refeição com doce de abacaxi com queijo.

Comecei a ler o instigante Vida ao Vivo, livro mais recente de Ivan Ângelo.

continua...

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

da Bolívia ao Piauí (via Bolívia, Peru, AM, PA, MA, PI) parte (4/7)

 ...continuação

Andei horrores pelo traçado quadriculado da cidade de Iquitos, sempre atento aos moto-táxis cobertos e naturalmente ventilados, mas também aos chamativos ônibus de Iquitos, construídos a partir de chassis de velhos caminhões e cobertos por carroceria de madeira, a fim de evitar o calor excessivo que os metais provocariam.

Alguns jovens me abordavam em inglês para vender pacotes turísticos na selva, daqueles pacotes xoxos e previsíveis aos turistas do hemisfério norte. Ao informá-los que eu era brasileiro e que já tinha explorado os meandros da floresta amazônica no Brasil eles retiravam a fantasia de vendedor e passavam a conversar despreocupadamente em castelhano, como se eu fosse amigo e não cliente em potencial.

Longe da orla turística, e principalmente dos turistas que sempre repetem os mesmos lugares recomendados na internet, almocei em cevicheria típica peruana, frequentado por casais, amigos e famílias locais. No cardápio reduzido e bem específico fui de ceviche de peixes com arroz de mariscos. Muito bom, na quantidade e na qualidade, além do serviço eficiente e simpático.

Nos ambientes autenticamente peruanos de Iquitos, e frequentados basicamente por peruanos, predominava música mestiça, com forte influência caribenha. Era fruto provavelmente da herança africana presente no Peru, de modo não tão marcante como no Brasil, mas evidente pela alegria, ritmo contagiante e dançante. Bem diferente das canções andinas ouvidas no altiplano, caracterizadas pelos dramalhões e tragédias amorosas.

Domingo à noite, ainda mais gente pelas ruas e praças que na noite de sábado. Gente andando, comendo, beliscando, conversando, usando e abusando dos espaços públicos e gratuitos, se relacionando com outros moradores e visitantes.


Não me cansava de observar o trânsito de Iquitos. Mesmo à noite, impressionante a ciranda de centenas de moto-táxis cobertos e para dois passageiros circulando pelas ruas. Eram batalhões deles, uns atrás e ao lado dos outros, causando ruídos insanos.

Pela manhã, caminhei no sentido do bairro de Belén, na zona sul de Iquitos, região erguida, na maior parte, sobre a várzea fluvial. Antes, o imenso mercado, ou feira livre, a céu aberto e em lojas e mercados, abrangendo várias quadras, em todas as direções. Nas barracas, tendas, armazéns, se vendiam de tudo, inclusive milho preto, cigarros enrolados na frente dos fregueses a partir de fumo fresco, garrafadas e demais produtos para saúde, simpatias, oferendas, rituais. E, claro, produtos frescos, como frutas, verduras, legumes, grãos, carnes de peixe, de boi, de porco, de frango, entre outros tantos animais.

Avançando nos setores da feira, ou quebrando a leste, entrei no bairro propriamente dito de Belén, guardando moradias modestas, pobres, miseráveis, muitas sobre palafitas e interligadas por passarelas suspensas, a fim de conviver com as oscilações das águas fluviais. Muitas caindo aos pedaços, entre muita sujeira, moscas, mosquitos, lixo, esgotos fétidos a céu aberto. Na beira da água saíam embarcações de diferentes formas e tamanhos para as moradias flutuantes ou que contavam com acesso exclusivo pelas águas do lago em frente a Iquitos. Por ali, muito lixo e mau cheiro, em terra e nas águas, embora se afirmasse que a situação sanitária do município tenha melhorado muito nas últimas décadas.

Belén se tornava bairro perigoso fora dos horários das feiras. Policiais marcavam presença, em rondas, em postos fixos ou circulando a pé. Nas paredes e muros, clamores pela diminuição da violência, da criminalidade, da gravidez precoce. Enfim, bairro típico de país capitalista dependente, nada muito diferente das grandes, e algumas médias, cidades da América. No caso das palafitas e das passarelas suspensas que as interligam, eram similares às demais cidades nas margens fluviais da Amazônia brasileira, cujos níveis das águas oscilam intensamente conforme as estações do ano.

Ao retornar ao centro de Iquitos, repeti o bom restaurante do dia anterior. Dessa vez escolhi arroz temperado com pedaços de pato. Saborosíssimo. A travessa na qual vinha servida a refeição era oval e apertada. Foi uma luta para me equilibrar naquele espaço reduzido e não esparramar o arroz e o pato na mesa.

Principal cidade da Amazônia peruana, acessada somente por barcos ou aviões, apesar de contar com mais de quinhentos mil habitantes, Iquitos não tinha edifícios altos, espigões ou outras aberrações. Os seres humanos, moradores e visitantes, com cérebro e sangue nas veias, agradeciam de coração.

Entre os estrangeiros presentes na cidade, predominavam de maneira absoluta os estadunidenses. A maioria deles, vintões ou trintões. Seriam inocentes turistas ou teriam relação com as bases militares em território peruano? Ao pousar no aeroporto de Iquitos, reparei em aeronaves militares vindos daquele regime.


Voltei a ler O Século das Luzes, de Alejo Carpentier, livro deixado de lado na maior parte do tempo durante a intensa e fascinante viagem à Bolívia e ao Peru.

Naquela manhã, os estudantes das universidades próximas ao hotel desfilavam, marchavam, cantavam, gritavam. A movimentação fazia parte dos sessenta e dois anos da Universidade Nacional da Amazônia Peruana. Cada turma, cada departamento, caracterizado de acordo com a área de estudos, desfilava nas ruas. Durante uma semana as festas prosseguiriam, nas ruas e nos interiores da universidade.

Iquitos, pelo menos no centro e arredores, contava com calçadas ininterruptas, conservadas e seguras para andar. Era tremenda humilhação para as cidades amazônicas brasileiras. As raras calçadas existentes no Brasil apresentavam buracos fétidos, remendos, descontinuidades, tralhas mil, todas as dificuldades e perigos para seres humanos circularem. Por outro lado, em Iquitos abundavam cassinos e máquinas caça-níqueis. Não eram duas ou três casas, mas dezenas delas em cidade de porte médio. Casas ávidas pelos trouxas e estúpidos a jogarem o dinheiro e a vida fora.

Era dia de deixar a cidade. Tomei um daqueles interessantes, curiosos e eficazes moto-táxis, cobertos e para dois passageiros, ao porto da Enapu. Em ambiente limpo e funcional revistaram por alto minhas bagagens. Aguardei o embarque na lancha de dois andares. O de cima, mais caro e mais gelado, era reservado a estrangeiros.

A lancha partiu à tardinha. Na fileira de assentos à minha frente sentou casal de setentões amazonenses residente em São Paulo. A conversa engrenou e perdemos a noção do tempo em troca de informações de viagens pelos interiores do Brasil e o mundo afora.

No início da noite desci ao piso inferior para comprar o jantar, na base de arroz, feijão, perna de frango assado, água mineral e picolé de sobremesa.

Anoiteceu de vez e o ar condicionado agiu para gelar os ambientes, sobretudo o piso superior. Vesti a camiseta térmica de mangas longas e a jaqueta justa e impermeável. Me sentei no assento para relaxar e tentar dormir durante o trajeto que ocuparia toda a noite e a madrugada. O corpo ainda sentia frio. Apelei ao gorro, meu derradeiro item contra baixas temperaturas trazido na mochila de ataque. Enfiei na cabeça e cobri as orelhas. Meu corpo estava gelado pela estupidez do ar condicionado regulado de maneira despropositada.

O frio durante a noite e a madrugada foi indecente. A estupidez da temperatura do ar condicionado atingiu a insanidade. Outros passageiros apelaram a sacos plásticos, nas pernas, braços, cabeça.


Dormi, acordei, cochilei, troquei mil vezes de posição no assento com encosto reclinável.

Acordei de vez ao amanhecer, antes da penúltima parada da lancha, em Caballococha. Tomei chá gratuito bem quente para relaxar a musculatura contraída pelos efeitos do frio vindo do ar condicionado criminoso. À medida que clareava do lado do fora a situação trágica do frio interno se amenizava, mas muito lentamente. Foi servido diretamente nos assentos o café da manhã gratuito, na base de sanduíche de queijo e presunto e copo grande de café preto.

No meio da manhã a lancha atracou no porto da ilha de Santa Rosa. Eu e o casal amazonense nos esprememos no banco traseiro do moto-táxi coberto rumo ao centrinho da cidade a fim de dar baixa no passaporte no escritório da migração peruana. A chuva que começou fina pela manhã aumentou de volume. Embarcamos em canoa alongada e coberta, com motor de popa, para atravessar o rio Amazonas, como chamado no Peru, ou Solimões, como chamado no Brasil, com destino à cidade brasileira de Tabatinga. Chovia forte durante a travessia fluvial e ao desembarcar no porto do mercado.

Permanecemos um tempão no pequeno flutuante na espera de estiar. Mas eu estava em território brasileiro. Viva!

A chuva enfraqueceu levemente. Caminhei pelas passarelas de madeira ensopada e escorregadia em direção à terra firme, e finalmente ao hotel. Estendi no quarto os itens molhados pela chuva e fui ao porto da cidade para comprar a passagem do navio para Manaus.

O tempo estiara e pude caminhar pela cidade. Poucas mudanças desde minha última visita sete anos antes. Tabatinga continuava feia, largada às traças pelas sucessivas administrações municipais e estaduais. As calçadas, onde existiam, se encontravam arrebentadas, com buracos fundos às dezenas, mato crescido em toda parte, bares podres cheios de bêbados ameaçadores. Perambulando pelo centro da cidade almocei em restaurante por quilo de qualidade medíocre e frequência entristecida.

Mas que contraste abissal no atendimento entre os simpáticos, educados e prestativos bolivianos e peruanos, de um lado, e os frios, desinteressados e até bruscos brasileiros de outro! O país parecia em ruínas e o povo indiferente e apático em relação ao presente e com o que estava por vir no curto prazo.

Encerrei o interessante O Século das Luzes, de Alejo Carpentier. E comecei Literatura da Floresta: textos amazônicos e cultura latino-americana, livro de Lúcia Sá.

Saí cedo para jantar. Impressionante a poluição sonora em Tabatinga vinda dos bares, dezenas deles, ao longo das principais ruas, mas principalmente na longa e larga avenida da Amizade que leva, mais adiante, à cidade de Letícia, já na Colômbia. Parecia concurso de quem tinha o som mais alto e de repertório mais repugnante. Mas não era somente isso. A frequência decrépita, em grau etílico avançado, com vozes empapadas, no início de noite em dia útil de semana, berrava para as meninas que passavam na rua, na base de “vem cá”, “vamos se divertir”, “ei isso, ei aquilo”. Desanimador. Essa era Tabatinga, no Brasil, tão diferente das cidades bolivianas e peruanas visitadas, com praças cheias de gente diversificada e orgulhosa da própria cultura. Nem havia praça decente em Tabatinga. A que fora construída em frente à igreja matriz estava em ruínas, com mato crescido, bancos estraçalhados, lixo por toda parte, vazia de seres humanos. Horror dos horrores. Tabatinga era administrada por animais irracionais que, na maioria dos casos, nem sequer moravam na cidade, péssimo exemplo de descaso urbano que se refletia na imensa maioria dos moradores.

Levantei e me empanturrei no saboroso, variado e abundante café da manhã do simplório hotel brasileiro. Fui ao porto de Tabatinga caminhando sobre os restos de calçadas.

Pouca gente na fila do navio. Lentamente os passageiros foram cumprindo as etapas para o embarque. Cadastramento na polícia federal, etiquetagem das bagagens e dos passageiros na base de pulseira impermeável, vistoria praticamente nula das bagagens, apenas da passagem e do documento e, finalmente, o embarque no meio da manhã.


Fui designado à suíte ampla, com cama de casal, ar condicionado, televisor que se manteve desligado durante todo o trajeto fluvial, banheiro privativo espaçoso e sacada coberta, com janelona de vidro de correr, de frente para a paisagem em evolução e para o vento refrescante.

No mesmo piso os passageiros escolhiam os melhores pontos para armar as redes. No piso superior, também reservado às redes, e à cabine de comando, mais espaço e menos procura entre os passageiros embarcados em Tabatinga.

Entre os passageiros brasileiros, grupo de jovens pertencentes à organização de missionários religiosos, não ligados oficialmente, segundo o integrante carioca, a nenhuma denominação específica, ou seja, a nenhuma corporação evangélica em particular, mas todos representantes do cristianismo. Ele garantiu que no trabalho do grupo nada tinha de forçado ou impositivo. Sei. Me engana que eu gosto. Na prática mais uma frente de ataque das empresas do fundamentalismo religioso a traficar com a fé do povo, urbano, rural, indígena.

No começo da tarde o navio zarpou com cerca de um terço da capacidade de passageiros. Inicialmente deixou o rio Solimões para subir parte do rio Javari, rumo à cidade de Benjamin Constant, a primeira parada para desembarque e embarque, de mercadorias e passageiros.

No jantar servido antes de escurecer tomei bastante sopa de macarrão, carne, batata, acrescida na mesa com farinha de mandioca para engrossar. Suco artificial à vontade para hidratar e lavar o organismo.

O navio já deixara para trás o rio Javari e retomara o curso no Solimões, de baixada, a favor da correnteza. Parada em São Paulo de Olivença à meia noite.

Levantei com chuva antes de clarear. Amaturá, a cidade bonitinha da visita anterior, se aproximava. Três apitos da buzina foram acionados pelo comando da embarcação. Observando a altura da escadaria da orla da cidadezinha, o Solimões se encontrava mais cheio que sete anos antes.

O bufê do café da manhã ofereceu mamão, macaxeira cozida, copinho com salsicha picada e temperada, suco artificial, pão com margarina, que peguei dois, café com leite. Empurrei tudo goela abaixo, com dificuldades na macaxeira seca e na salsicha.

Em viagens de baixada como aquela, a favor da corrente fluvial, as embarcações buscam a correnteza, o canal principal do rio, para economizar motores e combustível, se posicionando, na maior parte do tempo, distante das margens. Daí pouco ou nada para ver em rio tão largo como o Solimões, a não ser nas paradas intermediárias.

continua...

terça-feira, 10 de setembro de 2019

do Acre ao Piauí (via AC, RO, AM, PA, AP, MA, PI) (parte 3/8)

...continuação
Mas que boa e variada culinária era oferecida nos restaurantes de Porto Velho! À noite transbordei de felicidade em restaurante de comida capixaba. Duas caipirinhas, grandes e fortes, regaram a moqueca de tambaqui acompanhada de arroz, pirão e farofa fenomenal na manteiga. O peixe da moqueca, por motivos óbvios, era fluvial e não marinho.
Tempo de seguir viagem, rumo a Manaus. Durante o voo vislumbrei o vale do rio Madeira, repleto de braços, paranás, furos, ilhas, várzeas alagadas, lagos. Avistei o traçado da BR-230, a rodovia transamazônica, e também trechos da BR-319, intransitável naquela época do ano. Ao se aproximar do pouso, a imagem completa da foz do rio Negro, do rio Solimões, do encontro das águas, o prosseguimento no rio Amazonas, os estuários, as zonas alagadas, as águas escuras e límpidas do rio Negro. E a cidade de concreto e asfalto se exibiu de ponta a ponta, inclusive a extensa ponte atravessando as águas negras e conectando Manaus a Manacapuru, Iranduba, Novo Airão.
À noite encontrei com amigos no miolo do largo de São Sebastião, próximo à entrada do teatro Amazonas. Caipirinhas, bolinhos de pirarucu, isca de pirarucu, pastel de sabores variados, e, sobretudo, muitas e boas conversas sobre os mais diversos assuntos.
Após substancioso café da manhã desci para a beira do rio Negro, no porto da Escadaria, a fim de mergulhar naquela babel fascinante, naquela bagunça organizada, naquele caos irresistível, entre dezenas de navios, barcos, canoas, lanchas, passageiros, carregadores, cargas, vendedores de passagens, de comes e bebes, de serviços.
Ao anoitecer ensaio técnico do boi Caprichoso nos interiores do histórico clube Rio Negro. A ala integrante de Manaus, que iria se apresentar em Parintins, ali estava, mais a marujada dos instrumentistas, a torcida, admiradores, curiosos. O público se distribuía informalmente ao redor das piscinas, iluminadas pela imensa lua cheia da semana santa. O som, as toadas, os ritmos, as coreografias seguidas à risca pelos dançarinos e admiradores, mantinham a batida monótona, as letras de exaltação, os movimentos repetitivos, às vezes quebrados por coreografias indígenas ou negras.
Ao lado dos amigos fui a flutuante à montante da Ponta Negra, quase na boca do igarapé Tarumã no rio Negro. Pelo caminho, verdadeiros caminhos de rato, sem áreas públicas, sem árvores, sem sombra, sem praças, expondo a Manaus do concreto e asfalto, a Manaus que não É quente, mas Está quente, em razão do urbanismo estúpido ou, pior ainda, pela falta dele. No flutuante, o principal, as águas escuras e mornas do rio Negro para desfrutar à vontade. O pouco sol e o vento mantiveram o ar quente, mas não tórrido.
Acordei bem cedo e fui à Balsa Amarela, no porto da Escadaria, bem em frente à feira da Manaus Moderna. Embarquei no ferryboat de três pisos completos, mais o de Lazer com o bar e lanchonete, coberto, e outro acima, descoberto. Conversei com o passageiro da suíte ao lado. Morava sozinho em Manaus, sem trabalhar ou estudar no auge dos vinte e poucos anos. Vivia só nas noitadas sem regras e sem horários para acabar. Iria visitar a mãe em Alenquer.
Partida no meio da manhã. Uma hora depois o barco cruzou o encontro das águas dos rios Negro e Amazonas. A embarcação, como regra nas viagens de baixada, navegava pelo canal do rio, afastada das margens e das vistas mais atraentes. A maioria dos passageiros se mantinha nas redes. No bar, a música alta não poderia faltar, na base de Wesley Safadão e congêneres, a banda 007, aquelas duplas sertanejas, iguaizinhas umas às outras, em que eles imitam voz de menino chorão e elas imitam voz de homem.
Duas voadeiras provenientes das comunidades ribeirinhas do rio Amazonas encostaram para vender comes diversos, entre queijo, bananas chips, doces variados. Os passageiros se esbaldaram.
Ainda no começo da noite, perfilou ao norte a cidade de Itacoatiara, a segunda maior do Amazonas em população.
Acordei antes de clarear. Exceto o som do motor e do deslocamento das águas do rio Amazonas, ambos leves, nenhum ruído na embarcação. Amanheceu nublado, cinzento, com nuvens escuras e espessas, e garoa fraca. As lonas de proteção, contra chuva e vento, estavam arriadas nas laterais dos pisos.
Debaixo de chuva fina o barco atracou na balsa flutuante de Juruti, já no estado do Pará. Poucos passageiros no embarque e desembarque. Descarga de refrigerantes e alumínio laminado.
O rio Amazonas se encontrava bem cheio. Zonas alagadas apareciam nas margens de terra firme e, sobretudo, nas ilhas alongadas.
No meio do dia o barco atracou na acidentada e dotada de construções históricas cidade de Óbidos, na margem esquerda do Amazonas. Era o ponto mais estreito do rio, com “apenas” mil e oitocentos metros de largura. Por ser ponto afunilado, obrigando todas as embarcações a passarem pelo mesmo trecho, a polícia federal e a força nacional montaram base na cidade. A vistoria era em todos os setores, porém superficial.
Permaneci no piso de Lazer, admirando a imensidão da paisagem, entre muita água e distancias quilométricas. Contemplei as margens próximas do paraná por onde o barco seguia. Zonas alagadas de ambos os lados. A sabedoria cabocla driblava as cheias através das palafitas. Criações de animais seriam transferidas para terras mais altas. Meios de transporte naquela estação do ano, somente barcos, canoas, voadeiras, lanchas.
No final da tarde o barco atracou no lotado cais de Alenquer. Após manobras com pouco espaço disponível o navio encostou em outra embarcação, para, através dela, os passageiros atingirem a terra firme.
Pelo menos ali no centro, Alenquer contava com ruas estreitas e extensas, seguindo traçado quadriculado, calçadas altas e valetas profundas e abertas para escoar as águas pluviais e o esgoto. Trailers, lanchonetes e bares funcionavam com poucos clientes próximos ao cais, de onde se preparava para partir o barco rumo a Santarém.
Instalado em sobrado antigo, estreito e alongado, o hotel servia delicioso café da manhã em única mesa retangular. Os hóspedes se sentavam lado a lado, dividindo a farta e variada comida ali disposta.
Subi no morro do cruzeiro, de onde se tinha visão panorâmica da cidade, sobretudo do centro velho, das zonas alagadas, do paraná, dos barcos, do horizonte, e também, do lado oposto, da cidade nova, arborizada, mas sem graça como quase tudo que é novo e construído às pressas.
A frente da cidade sofria com constantes inundações no final do inverno amazônico, obrigando os moradores a se reposicionarem em terras mais altas. Bancos, comércio, os correios, residências, serviços, fugiram para longe das belezas da natureza. A primeira rua paralela ao paraná estava inundada a leste e a oeste do hotel.
Mas era ali onde se encontrava a parte mais interessante da zona urbana de Alenquer. Construções do início do século XX se espalhavam em ruas estreitas, tais como as escolas tradicionais, a igreja Matriz, o prédio da prefeitura, armazéns fechados. E, claro, a própria orla do paraná, em meio a barcos, canoas, flutuantes, comércio simples, bares e restaurantes saborosamente suspeitos, trailers de lanches, o vaivém de passageiros e cargas.
Depois de me deliciar com a caldeirada de tambaqui, sentei na entrada do hotel, de frente para a rua. Logo o marido da proprietária se achegou. A despeito de falar pelos cotovelos, sem pontos ou vírgulas, ele descreveu as atividades pecuárias, em terra firma no inverno, nas várzeas durante o verão, de gado e búfalo, relatando todo o processo de fabricação, da manteiga, queijo, carne. A zona rural do município de Alenquer produzia e vendia para outras regiões do Brasil farinha de mandioca, cacau, limão, castanha, cumaru, carne de boi e de búfalo, laticínios de vaca e búfala.
No meio da madrugada a chuva desabou com vontade. E ainda caía no começo da manhã ao acordar.
Acessei o longo trapiche do porto da cidade, todo em concreto, se projetando cem metros sobre as águas do paraná. A ele se somava construção grande em terra, coberta de telhas, contendo bilheterias, lanchonete, sala de espera, sanitários, e a ponta, sobre as águas, também coberta de telhas, com bancos, rampas laterais, nível abaixo a ser usado na estação seca. Mas, porém, contudo, todavia, todo o porto estava interditado havia anos, e logo após a inauguração. As más línguas afirmavam que caminhões acima do peso, entraram e danificaram as estruturas do trapiche. E foi largado às traças logo em seguida. Enquanto isso Alenquer era obrigada a enfrentar lama e poeira em cais improvisado.
Um membro de facção qualquer do comércio evangélico, repleto de frases decoradas e vazias, típicas de fundamentalistas, me jurou que na empresa deles não se fazia política, porque não devia fazer tais coisas no templo. Alardeava tais mentiras com a maior cara de pau. Como uma corporação do fundamentalismo evangélico, incrustrada no governo federal, além dos estaduais e municipais, nos legislativos e judiciários, mamando e influenciando, alegava que não fazia política?
Embarquei em lancha com destino a Santarém. No televisor da proa, o lixo estadunidense padrão. Melhor admirar a paisagem fluvial pela janela.
O trajeto passou por paranás e furos estreitos, contando com casas isoladas e alagadas. Pássaros de diversas cores e tamanhos voavam rasantes. Garças, pássaros pretos, aguardavam comida sobre as canaranas flutuantes. Nos momentos em que navegou sobre o leito principal do rio Amazonas a lancha enfrentou turbulência típica daquele curso que nunca repousa e sempre se agita.
Pela manhã caminhei lentamente pelo calçadão da orla fluvial de Santarém. Barcos pequenos partiam a comunidades próximas, lotados de passageiros de sábado. O calçadão, embora ainda incompleto, percorria extensa faixa da orla na margem direita do Tapajós. Delícia perambular por ela, de dia ou de noite.
Depois de almoçar e detonar sorvete de açaí com farinha de goma de tapioca, eu permaneci horas no último andar do hotel, sob a sombra, recebendo a brisa refrescante vinda do rio. Vista privilegiada do Tapajós, do encontro das águas, do Amazonas. Li O Livro de Ouro da Amazônia, de João Meirelles Filho, contemplei a paisagem, deixei a mente fluir.
O calçadão da orla do Tapajós ferveu a partir ao final da tarde. Famílias, casais, grupos, gente só, passeando, conversando, caminhando, sentados nos bancos, em cadeiras trazidas de casa, em harmonia, convivendo em paz com as diferenças. Comes e bebes aqui e ali. E de frente para as águas do rio Tapajós, pelas quais, vira e mexe, passavam barcos, navios, lanchas, canoas. Grupo de carimbó animava os que trefegavam pelo calçadão e paravam para ouvir e dançar. Havia trechos do calçadão mais cheios, outros tranquilos ou quase vazios, mas em todos os quilômetros dele havia gente prestigiando o espaço público, gratuito, democrático.
Pela manhã andei próximo ao rio, Tapajós no início, Amazonas depois, embora ainda com águas esverdeadas do primeiro. A área circundava o porto das balsas de carga, além do terminal de passageiros, inacabado e solenemente “inaugurado” pelo regime golpista que assaltou o governo federal em 2016.  Além das goteiras, mofo, excrementos de pássaros, água parada e escura, nada funcionava ali.
Na praça Tiradentes, do outro lado da avenida Tapajós, sob as sombras refrescadas pelo vento constante, conversei com senhora da zona rural da cidade de Prainha. Viera entrar com o processo de aposentadoria. O INSS ainda marcaria perícia para daí a dez dias. Mesmo antes da antipopular reforma da previdência que o governo fascista e ultraliberal ansiava impor ao povo brasileiro, beneficiando as corporações capitalistas, principalmente banqueiros, o regime fazia de tudo para adiar a aposentadoria do povo, um direito humano elementar. A senhora veio a Santarém de balsa desde Prainha, em viagem de vinte quatro horas, dormindo em rede. Somente na manhã seguinte retornaria. Aquela maratona se repetiria tantas vezes quanto necessária para obter a merecida aposentadoria.
Tomei ônibus urbano com destino a Alter do Chão. Os cerca de noventa minutos de percurso atravessou as periferias de Santarém, pequeno trecho da rodovia Cuiabá-Santarém, a BR-163, para logo em seguida entrar na PA-457, estradinha local, asfaltada e bem conservada. Passou ao lado de comunidades rurais de São Braz e Cururumã, pela estrada acidentada ao lado da floresta secundária. Desembarquei em Alter do Chão, pouco antes do ponto final, ao avistar a igrejinha da praça central.
Dei voltas leves pela beira do Tapajós, bastante alto, vez ou outra beijando a calçada ou até invadindo a rua. Praias daquele lado, nenhuma. Na ilha em frente, cartão postal de Alter do Chão, somente nesgas de areia próximas à elevação do morro. Árvores submersas, areias submersas, barracas de comes e bebes submersas até quase a cobertura de palha. Vendedores de passeios, barqueiros, guias, até que ofereciam serviços, mas sem maiores convicções, cientes da baixa temporada e da ausência de praias chamativas.
Turistas ou viajantes, praticamente nenhum. Hotéis e pousadas às moscas. Dentre bares e restaurantes, apenas um aberto e recebendo poucos clientes, entre a pracinha e o rio. Tomei duas caipirinhas e uma porção de bolinhos de piracuí. Andei pelas ruas arborizadas ao norte, entre casas e mansões de ricaços, mais voltadas a aluguel de temporada do que frequentadas pelos proprietários.
Sorvete de açaí e peguei o ônibus de volta a Santarém.
Praticamente todos os prédios altos em construção nos bairros de Aldeia e Prainha se encontravam com as obras paralisadas. Tapumes velhos, manchas de umidade nas lajes, nenhum funcionário. Coincidência ou reflexos da recessão provocada pelo regime iniciado naquele ano?
Subi em ônibus à comunidade de Pajuçara. Antes do destino final, via estrada de areia, entrou na comunidade de Santa Maria, quieta e minúscula. Entre os passageiros, alunos de ensino fundamental, indo ou vindo das escolas públicas dos arredores.
Localizada entre o aeroporto e Alter do Chão, ainda no município de Santarém, a vila de Pajuçara era pacata e silenciosa, pelo menos enquanto não se formavam praias no Tapajós. Desci longa escadaria de acesso ao que seria praia em época de verão. Só havia estreita faixa de areia úmida, espremida entre as águas do Tapajós e o barranco. Ninguém à vista. Barracas vazias e cobertas de palha, barcos de passeio amarrados às árvores parcialmente submersas. Na parte alta, pelas ruazinhas silenciosas, ouvi as professoras ensinando contas de multiplicação e divisão para as crianças em escolas de bom aspecto.
Esperei o ônibus de volta enquanto se ouvia nitidamente o grito dos guaribas vindo das matas ao norte da vila.
Já perto da zona urbana de Santarém, o deplorável conjunto “habitacional” Residencial da Salvação. Nada havia de residencial, habitacional ou de salvação naquelas centenas de cubículos claustrofóbicos, tórridos, com janelas diminutas, todos juntinhos uns aos outros. Um crime enjaular a população necessitada naquele campo de concentração, sem ventilação, sem praças, sem áreas culturais ou de lazer. Certamente as construtoras, as administrações públicas municipais e estaduais, os políticos clientelistas, ganharam fortunas e prestígio em cima do confinamento de famílias naqueles caixotes sufocantes. E, triste ironia, muito dos pobres coitados para ali deslocados se sentiam agradecidos pelo presente da casa própria.
continua...