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domingo, 9 de janeiro de 2011

Equador (parte 2/2)

...continuação
O vulcão Altar erguia-se imponente ao pegar a estrada logo cedo. A paisagem tornava-se menos dramática para o sul, mais abaulada, embora ainda montanhosa e vistosa.
Em Alausi desci de trem a cordilheira ocidental através de ferrovia sinuosa, repleta de abismos e montanhas, descidas acentuadas, curvas fechadas, sobretudo ao redor de Sibambe. Durante os trechos mais íngremes, a composição se desmembrava, não seguindo todos os vagões na mesma linha, descendo em ziguezague, para frente e para trás, sempre trocando de trilhos. Turistas e equatorianos viajavam em cima dos vagões.
Após desembarcar em Huigra, subimos os Andes no veículo quatro por quatro, ziguezagueando por estradas de terra e asfalto. Cenas de plantações, habitações simples, muito verde. Paramos nas ruínas de Ingapirca apreendendo noções de como foram o império Inca e de outras etnias indígenas, como os Cañaris.
Almoçamos em Azougues, em restaurante simples na beira da estrada, onde serviam porcos grelhados ao ar livre. Depois de pendurados em varais para secar ao sol, as tiras eram servidas acompanhadas de milho cozido e bolinhos de batata. A poeira da estrada e a fuligem dos escapamentos dos veículos reforçavam os temperos.
O relevo manteve-se acidentado até Cuenca. Em trecho a cerca de 3.800 metros de altitude, a paisagem guardava vales profundos e nuvens mais baixas que a estrada. Casas e sobrados novos, com telhados vermelhos ou verdes, se estendiam próximos à rodovia. Cruzamos área baixa e densamente habitada que ficara debaixo d’água no ano anterior. O desbarrancamento da garganta à jusante da cidade impediu o fluxo das águas do rio que abastece a região, inundando o vale durante seis meses. Praticamente tudo teve que ser reconstruído e ainda se viam casas soterradas ou submersas na lama.
Chegada em Cuenca. Pechinchei e consegui reduzir os altos preços da diária do hotel em estilo colonial. Dali o guia retornaria a Quito. Com ele conversei muito sobre tudo durante os quilômetros percorridos pela rodovia panamericana, estradas vicinais, pavimentadas, de terra, vilarejos, vulcões, cidades, mercados indígenas. Os assuntos evoluíram de política, futebol, cultura, turismo, ecologia a temas sociais e pessoais. Companhia mais que instrutiva e agradável.

Cuenca pertencia à região muito religiosa do Equador. Os devotos costumavam ir todos os dias às igrejas, até duas vezes ao dia, para assistir a missas ou simplesmente rezar. A catedral nova contava com várias e enormes abóbadas com acabamentos em mármore e colunas grossas e altas em mármore avermelhado se estendendo pelos interiores. Vitrais pequenos e coloridos iluminavam o ambiente com feixes oblíquos de luz natural. O altar, todo dourado, compunha-se de quatro colunas sustentando outra abóbada sob a abóbada principal. As belas ruas coloniais de Cuenca conservavam o barroco, exibiam sacadas e marquises esculpidas e sustentadas por colunas sobre as calçadas. O paralelepípedo do calçamento realçava o charme da cidade. Enormes sobrados, antigos e novos, se estendiam nas margens do rio.
Pichações se espalhavam pelas paredes das casas, sobretudo contra o governo expansionista do Peru. E também contra o terrorismo ecológico das transnacionais de petróleo, principalmente as estadunidenses. Os equatorianos se davam muito bem, no entanto, com a Colômbia e os colombianos, com quem havia tratado de livre comércio e de quem os equatorianos ouviam a maioria das músicas.
As mulheres de Cuenca ganhavam, disparadas, como as mais atraentes do altiplano equatoriano. Mas paqueravam menos, sorriam menos, se incomodavam com olhares. E se superavam as demais equatorianas, as mulheres de Cuenca humilhavam as turistas estadunidenses e europeias, invariavelmente mal encaradas, com rostos e corpos assustadores.
Na manhã seguinte saí com a mochila rumo à estação rodoviária. Logo na chegada, a surpresa. Devido à aprovação de lei federal altamente prejudicial à comunidade, os indígenas bloquearam as principais rodovias do país, inclusive a que me levaria a Guayaquil, sem previsão de liberação. Ninguém poderia sair da cidade por terra.
Imediatamente fui ao aeroporto a fim de comprar passagem aérea para a capital. Não se vendiam bilhetes no aeroporto, apenas na loja do centro da cidade. Voltei ao centro e corri para a empresa aérea. O sistema estava fora do ar. Nada poderia ser feito. As funcionárias me aconselharam a ir diretamente ao aeroporto e aguardar na fila. Parti para o aeroporto. Avistei a fila, curta ainda. Coloquei a mochila para marcar lugar e me sentei em banco lateral. Todo o aeroporto estava às escuras durante o almoço. Longa espera pela frente.
13:40h: Só me restava sentar e esperar as horas passarem. Avisos nas paredes lembravam a proibição do porte de armas.
13:50h: Começou a chover. Um casal de jovens mochileiros europeus sentados do outro lado do saguão trocava olhares nada amistosos entre si. Deviam estar brigados e a reconciliação parecia difícil. Ele lia, ela reclamava. Não brigavam, mas o clima estava visivelmente frio e pesado.
14:50h: Parou de chover. Apenas nove pessoas chegaram depois de mim e guardaram o lugar com mochilas e malas. Uma estrangeira tentou furar a fila com a bagagem. O guarda do aeroporto firmemente a impediu. Com a cara amarrada, ela se postou no final da fila.
16:00h: O saguão do aeroporto começou a encher.
16:45h: Os funcionários do balcão iniciaram a chamada da lista de espera. O suspense prendia as respirações e esbugalhava os olhares. Comunicaram que só chamariam vinte. Eu era o décimo sétimo. De repente surgiu uma senhora residente nos Estados Unidos. Vinda do final da fila e se dirigindo aos demais, a perua reclamava do Equador. Culpava os indígenas por tudo. Arrotava que o país onde vivia era muito melhor e que precisaria viajar naquele dia de qualquer maneira. Ostentava a prepotência estadunidense e o desprezo aos povos da América. Alguns sugeriram que, em vez de discursar para a fila, ela procurasse as autoridades aeroportuárias. Foi. Poucos minutos depois retornou com intenções de subornar as pessoas e furar a fila. Ninguém aceitou e lhe perguntavam por que não chegara mais cedo como a maioria. Os equatorianos davam mostras de boa educação, solidariedade e respeito. Palmas para os equatorianos, vaias para a estadunidense.

17:30h: Fui bem atendido no balcão e peguei o cartão de embarque.
17:55h: Embarquei no avião de tamanho médio.
18:05h: O avião decolou para voo de cerca de meia hora, sem escalas. A perua estadunidense não conseguiu embarcar. Mereceu! As nuvens abaixo impediam de apreciar o visual. Nem o fascinante Chimborazo deu o ar da graça. 
18:40h: Chegada em Quito.
Reservei a manhã para circular pelas ruas becos da cidade velha lotada de gente. Igrejas permaneciam em reforma ou simplesmente fechadas em função do terremoto de 1987. Por dentro, somente a igreja de Santo Domingo e a El Sagrário. As igrejas La Campaña e a Catedral mantinham-se interditadas.
Uma manifestação pacífica perto do palácio do governo protestava contra desaparecimentos e assassinatos pelo regime de mais de vinte equatorianos. Exibiam fotos das vítimas e gritavam duas vezes cada mandamento. A tropa de choque fortemente armada e acompanhada de brucutus ameaçava de perto.
A parte antiga de Quito exibia o Equador real e bem conservado. O principal da capital funcionava ali, escritórios, comércio diversificado, restaurantes, escolas, repartições públicas, ambulantes, hotéis. As praças e ruas do centro possuíam dois nomes. Os antigos, escritos em azulejos, homenageavam as origens locais com termos pitorescos. Os novos, como na maior parte do Brasil, lembravam nomes obscuros da história oficial do país. A praça Independência se destacava como a mais bonita do centro. A catedral, o palácio do governo, a prefeitura em construção moderna, o palácio do arcebispo, dispunham-se ao redor. Bem cuidada e limpa, o lugar tornava-se ponto de passagem e descanso.
As informações recebidas sobre o bloqueio das rodovias não eram animadoras. O movimento se intensificava e se alastrava por todo o país. As comunidades indígenas e trabalhadores rurais protestavam contra a nova lei agrária, aprovada irregularmente no congresso nacional. Considerada inconstitucional, a lei atacava os direitos dos povos originais, as pequenas propriedades, responsáveis por 75% da produção de alimentos do país E favorecia a concentração de terras e os grandes latifundiários, tradicionais parasitas do Estado e detentores de imensas propriedades improdutivas. Como no Brasil.
E, como no Brasil, campanhas dirigidas pelas empresas transnacionais, em aliança com os grandes meios de comunicação, a classe dominante local e os partidos de direita, defendiam as privatizações e a entrega do patrimônio público aos monopólios privados, sobretudo estrangeiros. O sucateamento das empresas estatais e serviços públicos, arquitetado e conduzido por esses mesmos senhores, agora era usado como pretexto para justificar as tais privatizações.
E eu permanecia em Quito, impossibilitado de visitar outras regiões do Equador. Os trechos de estrada que me interessavam, na direção de Baeza, Latacunga, Cayambe, continuavam bloqueados. E os estudantes engrossavam o movimento, protestando contra a alta do custo de vida e as privatizações do patrimônio público. A CONAIE, Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador, conclamava a todos os explorados, estudantes, trabalhadores da cidade e do campo a se juntarem na luta.
Do norte da cidade me encantei com a imagem do vulcão Cotopaxi. E também com a visão do vulcão Cayambe, limpo, sem nuvens, imponente, coberto de neve.
Lia os jornais diários a fim de tentar me informar. Nada noticiavam nada sobre as lutas populares. Apenas insistiam na suposta divisão do comando nacional indígena. Nenhuma referencia à violência constante de policiais e exército. Era nítida a cobertura da mídia a serviço do grande capital. E ninguém sabia o que acontecia nos interiores do país. Como no Brasil.
A movimentação em torno dos preparativos para a copa de mundo de futebol era enorme. Televisores espalhados nos restaurantes, bandeiras hasteadas, gente pelas ruas em euforia. Mesmo fora da copa, um equatoriano fez questão de exaltar a vitória do Equador sobre a Argentina em amistoso recente. Os equatorianos não escondiam que torceriam entusiasticamente pelo Brasil. A publicidade enaltecia a seleção brasileira, elegendo Bebeto e Romário como os salvadores da pátria. Mas a agitação da mídia burguesa visava desviar a atenção da grave crise social que o Equador enfrentava.
Mesmo proibidas pelo regime, pichações políticas se espalhavam pelo país. Dezenas de pichações contra a transnacional estadunidense Texaco apareciam nos muros da cidade, denunciando os crimes ambientais na Amazônia equatoriana.
Finalmente consegui encontrar aberta a igreja de La Merced no centro histórico, interditada desde o terremoto de 1987. Pelos interiores, plásticos e tapumes nas colunas douradas, quadros e altar, rachaduras no teto e estrutura, madeiras do piso soltas e rangentes. Por trás dos plásticos podia se ver ouro nas molduras dos quadros, nas paredes, nas colunas do altar. Os fieis entravam, se entristeciam com o estado lastimável dos interiores, umedeciam os olhos. A situação piorava na igreja de La Compañia. As abóbadas e cúpulas se perderam. Andaimes ocupavam todas as alas. Plásticos cobriam pinturas, colunas, altares. Ouro até dizer chega se escondia atrás das coberturas de proteção.
O justo movimento de bloqueio e paralisação das estradas não cedia. A população organizada ocupara prédios públicos e dois poços de petróleo. Grupos paramilitares de extrema direita assassinaram um indígena em Tungurahua e feriram mais vinte em outras províncias. O movimento demonstrava coesão, confiança.
E teve início a copa do mundo de futebol de 1994. As transmissões pelas redes de televisão equatoriana eram tenebrosas. As irritantes entradas comerciais, a cada trinta segundos, reduziam a tela a fim de exibir textos e figuras. Então nada se via do jogo. Todos os canais faziam praticamente a mesma coisa. Pelo menos não havia o criminoso monopólio de apenas uma rede de televisão como no Brasil.
No sábado à noite, pós-adolescentes desfilavam com carros em ambos os sentidos da avenida Amazonas. Prostitutas perambulavam pelos bares distribuindo panfletos ou cartões de convite para os respectivos puteiros. O frio caía com tudo tarde da noite.
Último dia no Equador. Matei o tempo no parque Ejido, caminhando, sentado, observando o movimento dos frequentadores.
Cheguei ao aeroporto no final da tarde, ainda às moscas, sem voos naquele horário. Somente após a chamada para o despacho das bagagens o saguão se animou de gente em circulação.
Então os funcionários do balcão comunicaram o cancelamento do voo noturno. E seríamos encaminhados a um hotel cinco estrelas, como de direito.
Passei o dia seguinte coçando o saco nas dependências impessoais do hotel. À tarde, junto a cinco brasileiros que trabalhavam nas empresas petrolíferas, assisti à estréia da seleção brasileira na copa. Triste de doer, ainda mais com a pavorosa transmissão da televisão equatoriana. Os garçons do hotel torciam mais que os brasileiros.
Finalmente embarquei no horário previsto. Os Andes, os vulcões nevados, os indígenas conscientes e combativos que se comunicavam em quéchua, a rica cultura equatoriana, tudo ficaria para trás.
Depois de voo noturno tranquilo, desembarquei em São Paulo no final de junho.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Equador (parte 1/2)

Em junho providenciei apenas a passagem aérea de ida e volta ao Equador. Fiquei no hotel em Quito junto com outros brasileiros a trabalho que encontrei no avião. O estabelecimento contava com instalações razoáveis, porém muito afastado do centro da cidade e do movimento. Tive que mudar logo dali.
O principal da vida noturna, bares, restaurantes concentrava-se na avenida Amazonas e transversais, o centro novo de Quito. As mulheres, excessivamente pintadas e produzidas, exibiam simpatia e paqueravam abertamente. Permaneci por ali com o colega potiguar até perto da meia noite. Comemos, bebemos, conversamos, observamos o vaivém das equatorianas. Ritmos caribenhos e colombianos predominavam nos sons dos bares e danceterias.
De manhã visitei o agitado mercado de Ipiales no centro histórico. Entrei na igreja de São Francisco, repleta de ouro pelos interiores. Passei pela catedral, palácio do governo. As construções apresentavam bom estado de conservação. Com muita área livre para o lazer e exposição de artesanato, o parque Ejido reservava frequência de povo simples, invariavelmente de feições indígenas. Jogavam bola, caminhavam, relaxavam, passeavam de bicicleta. A colina da cidade reservava visão panorâmica dos arredores ao sul de Quito e também dos vulcões, parcialmente cobertos pelas nuvens.
A maioria dos preços em museus, parques nacionais, hotéis, eram mais baixos para equatorianos do que para estrangeiros. Muito justo. Ruas e calçadas dos bairros centrais ofereciam barracas de comida, com frituras, carne de porco, frango, espetinhos. A atmosfera geral exalava calma e tranquilidade, parecendo haver menos neurose e mais respeito entre as pessoas. O clima muito seco de Quito, a 2.850 metros de altitude, exigia lubrificação constante dos lábios e pele em geral. Eu adorava me sentar nas calçadas dos restaurantes da avenida Amazonas e apreciar o vaivém dos moradores durante o horário comercial.
Saí às ruas para organizar minha expedição pelos interiores do país. Pretendia me concentrar nos altiplanos, focar a exploração nos vulcões e cultura indígena. A agência cobrava diárias salgadas, somente pelo veículo, combustível, o motorista que acumularia as funções de guia. Rascunhamos um roteiro sem nos ater a detalhes, já que a quilometragem e eventuais modificações de roteiro seriam livres, sem custos adicionais.
Parti eu e o guia no veículo quatro por quatro para o primeiro dia da viagem, via Caldeiron, local de artesanato de pão, lago San Pablo, vulcões Imbaburra e Cayambe. Paramos ainda sobre a linha imaginária do equador, onde se encontravam jardins, monumento e, claro, a faixa no chão. Os indígenas em Otavalo vestiam calças brancas, ponchos azuis, tranças compridas atrás dos chapéus. Eram urbanizados, organizados, donos das próprias terras e com viagens ao exterior para divulgação da cultura. Em uma das casas teciam tapetes, blusas, bolsas. Assistimos ao artesanato em madeira em San Antonio de Ibarra, os trabalhos em couro em Cotacaxi. Subimos à lagoa Cuicocha, a 3.200 metros de altitude.
Segundo o guia, que recebia o equivalente a cento e cinqüenta dólares por mês, o desemprego no Equador beirava 30%. Ao contrário do Brasil, cujos eleitores votavam nos candidatos, o sistema eleitoral equatoriano se baseava em listas partidárias.
Visitamos as ruínas de Cochasqui, onde povos viveram e pereceram muito antes dos Incas. Não se via quase nada ao ar livre, apenas representações e maquetes em museu. A altitude de 3.100 metros proporcionava privilegiada vista dos vulcões e picos nevados da cordilheira dos Andes.
Pegamos o sentindo sul da rodovia panamericana, depois estrada de terra, cruzando a reserva Posochoa. Ao longo de estrada estreita, arenosa, sinuosa, cheia de precipícios assustadores, a região se marcava por plantações de trigo nas encostas das montanhas. O cenário remetia a tapetes coloridos e estendidos nas inclinações. Magnífico. Em Zumbahua havia festa extremamente colorida pelas roupas e ponchos dos habitantes. Embriagados, com garrafas de bebidas nas mãos, perambulavam para lá e para cá. Nunca os encarava ou lhes apontava a câmera fotográfica. A maioria se reunia em cercado arredondado com arquibancadas de madeira, no centro do qual aconteciam danças, corridas com animais, discursos, cantorias. Nada de espanhol, apenas quéchua, a língua oficial dos moradores. 
A paisagem rústica ao redor do vilarejo encantava pelas montanhas recortadas por plantações. Atingimos a lagoa Quilotoa, a 3.800 metros de altitude, antiga e profunda cratera vulcânica, agora preenchida por água verde leitosa. A aridez da paisagem, o ocre das rochas e areia, as escarpas internas da cratera, o colorido das águas, compunham cenário ímpar. Nas proximidades dos imensos paredões que desciam para a lagoa, os indígenas abordaram a fim de vender quadros pintados sobre pele de carneiro. O frio e o vento cortante castigavam. Ainda troquei frases com eles antes de me refugiar no carro.
Voltamos a Zumbahua, circulamos pelos becos e imediações da festa. Naturalmente esquivos a fotos, os indígenas viravam os rostos, se cobriam, xingavam, lançavam olhares de desaprovação. Os homens se embebedavam, despencavam no chão e as resignadas esposas tinham que arrastá-los para longe.

Touros bravos interditaram a estrada na volta. Moradores a cavalo tentavam controlá-los em operação que demorou um bocado. Indígenas eram transportados como gado em caminhões apinhados e sem condições mínimas de segurança. Assistimos a colorido pôr-do-sol nas infindáveis curvas da estrada. Anoiteceu com neblina fechada e não se viu mais nada. Os precipícios nos espreitavam bem de perto. Hospedagem tarde em Latacunga.
Em grande parte construída a partir de lava vulcânica, a pequena Latacunga conquistava pela calma, simpatia e beleza do casario colonial, onde praças e becos se harmonizavam com a arquitetura. A cidade fora destruída várias vezes devido a violentas erupções do vulcão Cotopaxi.
Fomos ao multicolorido mercado ao ar livre de Saquisili, autêntico ponto de compra, venda e troca entre indígenas. As negociações entre eles se faziam invariavelmente em quéchua. A ausência quase total de bugigangas turísticas servia de alívio para quem se interessa pela cultura não desfigurada. Um guarda surgiu do nada a fim de me subornar, alegando que eu deveria lhe pagar antes de fotografar. Nem dei bola e continuei a caminhar. O sujeito apenas continuou me observando com cara de autoridade.
Rumamos ao parque nacional Cotopaxi para subir o vulcão de mesmo nome. Na recepção, ente fotos e dados históricos, painéis explicativos orientavam como se comportar em caso de erupções do vulcão Cotopaxi, ainda ativo e com quase 6 mil metros de altitude. Desenhos mostravam por onde passariam os rios de lava, os locais seguros onde a população deveria se concentrar ou aqueles a evitar. Maquetes e fotografias descreviam e explicavam a origem e comportamento do vulcão.
Subimos pela estrada sobre terreno vulcânico e escuro. Avistamos a lagoa Limoncocha, a 3.673 metros de altitude, nos pés do vulcão Rumiñahui. Ao atravessar a barreira dos 4 mil metros de altitude, começou a nevar e ventar forte sobre a encosta já coberta parcialmente de neve. Passamos por refúgio abandonado com as paredes pichadas. A estrada encerrava aos 4.600 metros de altitude. Acima dali somente por trilha até o último refúgio do Cotopaxi, a cerca de 5 mil metros de altitude. Esperamos o tempo melhorar para podermos subir a pé. Somente musgos minúsculos e esparsos entre as rochas escuras ou acastanhadas. O tempo piorava, a neve e o vento derrubavam a temperatura para abaixo de zero. Desistimos de avançar a pé e retornamos a Latacunga.
Continuamos na rodovia panamericana, sem parar em Ambato, cidade de peso industrial e econômico, Salasaca, Pelileo, destruída mais de uma vez por terremotos, obrigando os moradores a reconstruí-la em outro sítio.
Chegamos em Baños após sair da estrada principal e descer serra impressionante, aos pés dos vulcões. A perda de altitude trouxe vegetação exuberante, quedas d’água, mais abismos, aumento de temperatura. Optamos por hotel de frente para a praça da matriz. Depois do jantar, joguei sinuca com o guia, por horas, entre goles de pisco, conversas soltas sobre o Equador e o Brasil, a vida, sonhos, gostos.
De Baños se tinha visão do vulcão Tungurahua, cujo cone parcialmente nevado se elevava acima das construções urbanas e cuja atividade destruíra partes da cidade mais de uma vez. Assim como na capital, o governo em Baños estreitava as ruas para aumentar as calçadas. Perto da praça central havia rua que só passava um carro por vez. Parabéns pelo urbanismo mais bonito, simpático e humano. Desfilando corpos esguios e insinuantes, as mulheres de Baños ganhavam em beleza e sensualidade das colegas de Quito.
Saímos de Baños serra abaixo por estrada de terra revestida de cascalhos até Rio Verde, a 1.500 metros de altitude. A paisagem reservava abismos, verde exuberante, escarpas abruptas. Quedas d’água e cachoeiras de dimensões diferentes se alternavam pelo caminho, entre elas Pailon del Diablo, Manto de Noiva, Agoyan, algumas cruzando a estrada e enxaguando o carro. Deslizamentos de terra aumentavam à medida que descíamos.
Em Encañonada San Martin erguia-se ponte extremamente alta, apavorante.  Passamos pelo pequeno zoológico de San Martin, somente com animais regionais, cuja disposição nos paredões rochosos envolvia pela magia. Em longa conversa, o criador mostrou-se, pelo menos nas palavras e intenções, verdadeiro ecologista.
Chegamos a Riobamba e pouco se via do vulcão Chimborazo, mais adiante, praticamente coberto pelas nuvens. Compramos frango e bebidas antes de nos dirigirmos à face oposta do vulcão extinto. À medida que nos aproximávamos, o céu limpava, o sol aparecia radiante, o vulcão se elevava sem nuvens, maravilhosamente. Atingimos o primeiro refúgio, a 4.800 metros de altitude, após cruzar com dezenas de indígenas que retornavam de banho nas águas geladas de lagoa próxima.

Peguei a trilha. Finas camadas de neve se espalhavam pelo caminho. A subida tornou-se pesada pelo ar rarefeito e pelas irregularidades do terreno. A imagem deslumbrava e impressionava pelo contraste entre o negro da rocha, o branco da neve e o azul do céu. Ventava pouco, fazia muito frio e o brilho da luz do sol castigava os olhos. Um lobo circulando impunemente deu o ar da graça. Inúmeras placas rochosas no chão traziam talhados nomes de escaladores e a data das conquistas. Acelerei o passo e alcancei o refúgio Whimper, a 5 mil metros de altitude. Escaladores europeus acabavam de voltar do cume, contentes com o sucesso da empreitada. As imagens do cone arredondado, acima, coberto de neve, eram de tirar o fôlego. Troquei ideias com o equatoriano responsável pela administração do refúgio sobre o vulcão, escaladas, altitude, clima. E soube que as placas rochosas com nomes que notara na trilha da subida não homenageavam conquistas e sim reverenciavam escaladores que morreram durante tentativas frustradas de conquistar o Chimborazo. As datas não se referiam aos sucessos, mas aos respectivos óbitos. Os acidentes se concentravam, sobretudo, em novembro e dezembro, meses mais frios, nublados, passíveis de avalanches. Na temporada do ano anterior tinham morrido dez escaladores.
Esperei pelo pôr-do-sol com direito a camadas espessas de nuvens bem mais abaixo que lembravam o mar. Gradação de cores que iam do amarelo, laranja, vermelho, roxo ao azul não me permitiam nem piscar os olhos. Demais!
Riobamba era plana, sem edifícios altos. As ruas centrais incluíam construções barrocas, nem sempre bem conservadas. Em pontos distantes do centro, embora com construções interessantes, os casarões coloniais não apareciam mais. O terremoto de 1942 destruiu muita coisa. A basílica oferecia apenas a frente original e, por dentro, revelava-se moderna, sem adornos.
A festa de primeira comunhão, à noite no salão do hotel, trouxe homens de terno e gravata, mulheres exageradamente produzidas. A neta da proprietária era a atração principal. A barulheira não cessou antes das 3h da madrugada e não deixou ninguém dormir. Mas eu e o guia não fomos convidados.
O mercado de animais de Riobamba era organizado e separado por cavalos, burros, vacas, touros, porcos, ovelhas. Intensamente colorido e vibrante. Indígenas de diversos tipos físicos falavam principalmente em quéchua. Valia à pena assistir às negociações, barganhas, pechinchas. Até poderiam parecer discussões violentas, mas ambos os lados sorriam ao fecharem negócio. E as risadas altas indicavam que, além dos negócios, a diversão não podia faltar. Várias barracas de comida preparada na hora garantiam boa alimentação a todos. Os moradores dali e de Baños tinham pronúncias diferentes do espanhol. Falavam quase gaguejando ou quase prestes a tossir. A feira livre era similar às brasileiras, porém sem quaisquer regras ou orientações. Livre mesmo.
Visitamos Guano, vilarejo próximo, também parcialmente destruído em 1942, centro de produção de tapetes. Do morro acima do vilarejo, com esculturas Incas, via-se o cume do vulcão Tungurahua e parte do vulcão Altar.
continua...