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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

da Inglaterra à Suiça (parte 4/4)

...continuação
O quarto alugado se localizava nos morros residenciais de Buda, lado oeste do rio Danúbio. As ruas curvas e acidentadas se cobriam de árvores. Sobrados e conjuntos de quatro andares predominavam. Peste, a parte plana e mais agitada da cidade, com o comércio instalado em enormes e antigas construções, prédios públicos, pontos de lazer, ficava na margem oposta do rio. A maioria das construções de Peste remetia à virada do século XIX para o XX. Palácios, museus, monumentos, autarquias, grandes e imponentes, forneciam ar antigo e pesado à cidade. Bares e restaurantes com cadeiras ao ar livre se espalhavam pelas calçadas e serviam café, chá, bebidas, comidas, doces. Linhas de bonde corriam paralelas às águas do rio.
Com mais de dois milhões de habitantes, Budapeste era bonita e com personalidade, arborizada, saudável. O transporte público cobria todas as regiões, seja ônibus, bonde ou metrô. Alguns deles eram conduzidos por mulheres. E tudo era muito barato na Hungria.
Os moradores vestiam-se de maneira variada, com roupas jovens, sóbrias ou até ousadas. Apesar da impossibilidade da comunicação, os húngaros mostravam boa vontade em me auxiliar. Muitas mulheres encantavam pela beleza, olhos amendoados, insinuantes. Predominavam as morenas claras, e não as loiras. Olhavam, sorriam, queriam conversar.
O distrito do Castelo, elevado, na parte sul de Buda, reservava visão privilegiada de Peste, em especial do imponente parlamento. O castelo possuía um grande palácio, vários museus, e nada cobravam para entrar. Mais adiante ficava a igreja de Mathias e, ao lado, o Templo do Pescador com muralhas medievais e torres pontiagudas. Todo o conjunto formava complexo em estilo similar ao barroco, cercado por ruas e becos sinuosos.
Entretanto, nas proximidades daquela região histórica, incrustado nas ruínas do antigo castelo, fora construído hotel moderno com dez andares envidraçados, pertencente à rede transnacional de hotelaria. Destoava dos arredores pelo mau gosto e pela agressão à cultura húngara.
Modernas e eficientes, as três linhas do metrô cobriam boa parte de Peste. A sinalização, contudo, deixava a desejar, seja nos trens ou fora deles. Eu nunca sabia o nome e nem qual linha pegar nas estações. Dentro dos vagões a situação não melhorava, pois nas paradas não se via o nome das estações escritas nas paredes da plataforma. Eu apenas ouvia a voz, em húngaro, dos alto-falantes. A saída era contar as paradas e desembarcar.
As pessoas em geral demonstravam felicidade e alegria nas ruas. Riam, falavam e cantavam muito. Presenciei grupos de amigos cantando e dançando canções ciganas até alta madrugada na região central da cidade. Curiosos se aproximavam e os mais atirados se juntavam à cantoria. Tudo livre, descontraído, sem excesso de álcool ou estimulantes afins.

Não existiam cartazes nas ruas com propaganda comercial ou política. Não se percebia sob qual forma de governo se vivia. Muito diferente da caricatura divulgada pelos países capitalistas sobre aquele país rotulado de comunista. Jamais vi a polícia circulando pelas ruas.
Segui por larga, extensa e arborizada avenida. Nos dois lados da avenida se prolongava uma sucessão de conjuntos arquitetônicos históricos que davam ao ambiente a impressão de se caminhar na virada do século XIX. Neles se encontravam cinemas, teatros, museus, embaixadas. A avenida se encerrava no portal do parque da cidade. Os moradores afluíam ao local naquele domingo ensolarado. De vez em quando eu conseguia tirar sorrisos das mulheres, me fazendo bem depois de tanto tempo cercado pelas frias europeias dos outros países.
Segui de metrô a um bairro no extremo leste da cidade. De um lado, conjuntos habitacionais de até dez andares, separados por pátios e jardins. No lado oposto, antigos e grandes sobrados cortados por alamedas sombreadas e charmosas. Árvores de diversos tipos enfeitavam as calçadas cobertas de folhas caídas do outono. Hortas, galinheiros, jardins ou gramados razoavelmente bem cuidados ocupavam os quintais dos sobrados. As alamedas desenhavam um cenário aconchegante de passear e se morar. Tudo parecia bem silencioso e tranquilo, apesar da proximidade da estação do metrô, terminal de ônibus urbano e linhas de bonde.
Eu queria visitar uma cidade pequena do interior da Hungria que não fosse turística ou visitada por estrangeiros. Analisei o mapa e escolhi Békéscsaba, situada no sudeste do país, a vinte quilômetros da fronteira com a Romênia. E nem constava dos guias turísticos.
Escrevi o nome da cidade num pedaço de papel. A funcionária do guichê da estação ferroviária escreveu o preço no mesmo papel. O trem percorreu duzentos quilômetros de infinitas planícies cultivadas de milho e outros grãos, cortadas por vilarejos, e Szolnok, cidade de porte médio. Pequenos bosques e raras ovelhas quebravam a uniformidade do extenso puszta húngaro.
Cidade agrícola, planejada, com avenidas largas, Békéscsaba contava com centro antigo, ocupado por igrejas barrocas e casarões. A maioria das habitações era de conjunto de apartamentos distribuídos em superquadras. Cartazes e convocações indicavam grande variedade de opções culturais nos inúmeros teatros, cinemas e videotecas existentes. Também não faltavam creches e lavanderias públicas para desafogar as tarefas caseiras, sobretudo das mulheres.
Békéscsaba contava com comércio bem desenvolvido, lojas que ofereciam de tudo, restaurantes de boa aparência e convidativos. Obras de canalização de água e esgoto nos conjuntos habitacionais, calçamento de ruas, surgiam nas periferias. Em todas havia calçadas arborizadas na forma de alamedas com árvores que ofereciam frutos avermelhados, semelhantes à cereja. Na periferia sul da cidade, caminho da estrada à Romênia e próximo a fábricas, canais de água corriam a céu aberto entre as casas ao longo das ruas não pavimentadas, geralmente em mal estado e cobertas de poeira.
Crianças das escolas primárias atravessavam as ruas em grupos e sempre acompanhadas pelas professoras. Jovens roqueiros se postavam na frente das videotecas. Não se viam vadios, mendigos ou favelas. Barracas fixas com venda de produtos nas ruas substituíam os incômodos ambulantes.
Como não podia deixar de ser em cidade não visitada por turistas, eu era observado com curiosidade em Békéscsaba. Alguns riam entre si e faziam comentários incompreensíveis. Escolhi restaurante simples para almoçar. Os demais clientes me olharam na hora. O garçom assustado me entregou o cardápio em húngaro. Apontei um prato qualquer da lista. Desconfiado, ele encaminhou o pedido à cozinha. E veio mais uma opção barata e boa da culinária húngara.
Voltei à noite para Budapeste.

À cerca de vinte minutos de trem do centro da capital, a bucólica Szentendre se assentava na margem de braço do rio Danúbio. A cidade erguida em estilo barroco lembrava as similares brasileiras, como Embu das Artes. Tamanho reduzido, cheia de becos e vielas sinuosas, muitas em ladeiras, com calçamento de pedra, por entre casarões pintados e com janelas envernizadas, igrejas antigas, lojas de artesanato. Diversos turistas circulavam pelas ruas da cidadezinha bem conservada. Ali o Danúbio era realmente azul, limpo e bom para a pesca. Havia pequenas praias, mas a baixa temperatura das águas devia humilhar até as cachoeiras dos altos da serra da Mantiqueira no sudeste do Brasil.
De volta a Budapeste, músicos se apresentavam em praças do centro em busca de trocados. Os húngaros consumiam muito sorvete, de todos os tipos, em inúmeras sorveterias espalhadas pela cidade. Dentro das passagens subterrâneas e estações do metrô, ambulantes vendiam correntes, blusas, batons, relógios. Nada de barracas ou esteiras, mas oferecendo os produtos nas próprias mãos e braços.
Mais largo que o Tâmisa em Londres, o Danúbio contava com águas castanhas a acinzentadas, limpas, cheias de peixes. Dezenas de pescadores nas margens não tinham do que reclamar. Nem os pássaros com voos rasantes em busca de alimentos. Poucas embarcações subiam e desciam o rio. Em razão das altas latitudes, o sol nunca ficava a pino, as sombras se alongavam e as cores brilhavam com mais intensidade.
Embarquei no trem para a Áustria, com a cabine ocupada por um casal chinês, uma senhora húngara e um francês que fora visitar parentes, companhias que empolgaram pelas conversas, troca de ideias, bons momentos de interação cultural.
Após conexão fulminante em Viena, o novo trem contava com mais conforto nas cadeiras, mas preços proibitivos nos lanches oferecidos. De volta à Europa ocidental.
A partir de Salzburgo a paisagem começou a dar espetáculos entre altas e escarpadas montanhas, cortadas por riachos encachoeirados, bosques de pinheiros e afins. Infelizmente logo anoiteceu.
Nova troca de trens. Alternavam-se passageiros de língua germânica, me maltratando os ouvidos com sons ásperos. A cabeça latejava de ouvir incessantemente pessoas que mais discursavam, ou anunciavam a próxima invasão bárbara, do que conversavam em volume civilizado. Me sentia aliviado quando desembarcavam e a cabine mergulhava na tranquilidade. Acabou por sobrar eu e uma senhora russa que não entendia nada de inglês. Mas ganhava dos demais pela simpatia e calor humano. Nos comunicamos mais por mímica. Descobrimos as respectivas nacionalidades somente depois de mostrarmos os passaportes. Porém a dificuldade de comunicação logo interrompia a ameaça de diálogo. E ela se recostava no banco de frente ao meu, colava o rosto na janela da cabine, mirava a escuridão, apontava e dizia:
“cosmos”, “cosmos”.
Desembarquei no meio da noite em Innsbruck. O balcão de informações turísticas já se fechara. Pedi informações ao guarda e soube qual ônibus urbano pegar ao albergue da juventude. O albergue estava lotado. A mulher da recepção parecia inflexível. Me sugeriu hotel nas redondezas, mas o preço doía nos bolsos. Com ares de vítima, lhe transferi a responsabilidade de me conseguir hospedagem naquela noite. Talvez por arrependimento, ela reviu a lista dos quartos e “descobriu” que existiam vagas. Lançou-me olhar falso de quem salvara alguém da forca. Mantive a farsa e a agradeci repetidamente. Fiz o menor barulho possível no quarto já com luzes apagadas e com duas pessoas adormecidas.
Típica cidade encravada entre as montanhas, destino de turismo local e internacional, Innsbruck primava pela organização, limpeza e zelo em cada centímetro. O centro histórico não decepcionava, mas o destaque ficou por conta dos picos alpinos que circundam a cidade. Poucos edifícios altos se isolavam em meio a casarões com arquitetura rebuscada e as onipresentes flores nas janelas. Bares, restaurantes, cafés com mesinhas, se estendiam por ruas e becos bloqueados ao trânsito. Passagens em arco apareciam para aumentar o charme do local. Estreito córrego de águas esverdeadas cortava a cidade tirolesa.
A subida até o cume do pico Hafelekar, em três etapas, foi em bondinhos coletivos. Cada uma das paradas contava com bares, restaurantes, de qualidade e preços razoáveis. O visual do alto deslumbrava, apesar de raríssimos pontos de neve. Dezenas de pássaros de penas pretas revoavam por ali. Do alto, Innsbruck não parecia tão pequena como sugeria a primeira impressão.
Vez ou outra eu me deparava com moradores, principalmente os idosos, vestidos à moda tirolesa. Calças de tecido xadrez até a canela, meia soquete, paletó curto, chapéu decorado com pena de pássaro.
Tomei trem para a Suíça. Muitas montanhas, vales profundos cortados por rios de águas esverdeadas, pequenas casas esparsas em plantações ou bosques de pinheiros predominavam naquele pedaço da Áustria. A ferrovia cortava elevados paredões rochosos escarpados ou via extensos túneis. O trem cruzou a fronteira da Suíça, seguida de rápida verificação de passaportes dentro da cabine. Vales amplos guardavam vilarejos. Despontavam lagos de tamanhos variados e com águas esverdeadas.
Em Sargais troquei para trem com corredor central e desconfortável. Desembarquei na estação ferroviária de Zurique, confusa, lotada, suja. Desocupados loiros e de olhos azuis esperavam o cochilo de viajantes para roubá-los. Nem os copos dos bares escapavam. Os garçons bobeavam e objetos sumiam para dentro de bolsas e sacolas. Gente e mais gente se amontoava pelo saguão principal, cafés, bares, restaurantes e plataformas.
Após nova conexão para outro trem desconfortável, desembarquei finalmente em Lucerna. Segui a manada de mochileiros até o ponto de ônibus que nos levaria ao albergue da juventude. Foi o de diária mais cara naquela viagem, além de entupido de crianças e muito barulho pelos corredores.
Lucerna, nas margens do lago de mesmo nome, cercava-se de altas montanhas. Ao lado de colegas australianos do albergue, subi a pé o pico Pilatus. Recusamos, é claro, o caro teleférico que cobrava uma fortuna pela subida. Várias trilhas levavam ao topo em meio a bosques de pinheiros cortados por pequenos córregos gelados. Chalés vendendo comes e bebes, banheiros com água encanada, apareciam periodicamente. Sentamos, comemos o lanche adquirido na cidade, conversamos sobre viagens e destinos. 
Lucerna também contava com centro antigo, marcado por várias torres e ruas estreitas. Patos e cisnes flutuavam nas águas esverdeadas do lago. Não era raro observar pequenos gramados inclinados e ocupados por vacas e bois, formando imagens das embalagens de chocolate. Lojas, bares, restaurantes, cafés com mesinhas ao ar livre, alegravam as margens do lago com frequência variada, principalmente de suíços jovens. Mas não dava para sentar em nenhum deles. Os preços assustavam e afastavam viajantes independentes. Na Suíça tudo era caro, inclusive os chocolates, os queijos, os canivetes vermelhos.
Idosos circulavam sempre lançando olhares de censura aos jovens e estrangeiros. Aliás, os suíços, de qualquer idade, empinavam os narizes, se mostravam arrogantes, racistas, em clara demonstração de ódio e discriminação a estrangeiros. E contrariando a fama de país pacífico e neutro, militares patrulhavam por todos os lados, sempre fardados, em grupos, fortemente armados. Estavam no interior dos trens, estações, praças, ruas, observando tudo e todos.
Os simpáticos colegas australianos, morenos e descendentes de aborígines, me apresentaram a outros australianos, esses anglo-saxões. Mas esses loiros não eram agradáveis ou acolhedores. Adoravam contar lorotas sobre as conquistas sexuais na Tailândia, país famigerado pelo turismo sexual, inclusive de menores. Um deles abusou da ignorância e cometeu o atentado de dizer que nunca estivera na África ao ouvir minhas descrições entusiasmadas de Cuba.
Retornei a Zurique que, com cerca de quatrocentos mil habitantes, tinha movimento de cidade grande, trânsito de cidade grande, comércio de cidade grande. Também possuía centro antigo com becos e vielas, calçamento de pedra e dezenas de lojas, restaurantes e bares com mesinhas na calçada. A maioria dos moradores exagerava na arrogância do andar, olhar, falar. Propaganda de cigarros e bebidas poluía a paisagem nas paredes, muros e prédios. Quase todos os filmes em cartaz eram estadunidenses, legendados em três línguas, alemão, francês e italiano. O terço inferior da tela ficava coberto com as frases das legendas. Pelo menos não eram dublados como acontecia em países europeus vizinhos.
Em Zurique, novamente a presença ostensiva de militares fardados e fortemente armados perturbava os ambientes, parecendo praças de guerra. Assustador e inexplicável.
Depois de enrolar pela cidade, salas de cinema, me dirigi de trem ao aeroporto de Zurique.
Embarquei de volta a São Paulo em voo noturno em meados de outubro.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

da Inglaterra à Suiça (parte 3/4)

...continuação
Exceto nos momentos de embriagues avançada, ninguém notava a presença de ninguém. Frieza total. Praticamente todos liam nos metrôs, livros, revistas, jornais sensacionalistas, bulas de remédio. Era como se cada pessoa estivesse sozinha no vagão. Mesmo nos horários de pico quando os trens lotavam de verdade. Quem não lia, fixava o olhar num ponto neutro nas paredes, teto ou piso. Mesmo nos locais de vida noturna, não se notavam olhares com segundas ou terceiras intenções.
Covent Garden oferecia artesanato fraco e apresentações artísticas livres pelas ruas, entre música, mímica, teatro, mágica. E parecia que todos os moradores saíram para aproveitar o sábado ensolarado nos parques. Locais ideais para relaxar e degustar a tranquilidade no meio de paisagem tão verde e vistosa.
Escolhi o parque Regent para o final da tarde e o pôr-do-sol. O céu não possuía nuvens. O sol radiante iluminava os jardins e gramados. A temperatura agradava. O sol se pôs divinamente às 19h e fechou com chave-de-ouro aquelas semanas passadas na Inglaterra.
E lá fui eu pegar o ônibus noturno para Amsterdã. A estação rodoviária de Victoria oferecia muita sujeira, poluição do ar e sonora, desorganização, ausência de espaço para sentar ou esperar os ônibus. A pior rodoviária do Brasil seria modelo de organização, limpeza e conforto perto daquele horror. Não havia plataformas, tampouco indicações do local da partida dos ônibus. E o tal ônibus surgiu subitamente, do nada, com o motorista berrando o destino da porta de entrada. E embarquei com destino à Europa continental, primeiro parando em Dover para subir na balsa que cruzaria o canal da Mancha.
A verificação apenas visual do passaporte foi rápida e sem problemas. Dover revelava escarpas rochosas, altas e esbranquiçadas, atrás das docas. O ônibus estacionou nos porões e os passageiros seguiram para as áreas sociais da balsa. Bares não faltavam, assim como os europeus bêbados despencando pelas escadarias. Gritavam, mal enxergavam um metro à frente, queriam criar confusões, prontamente impedidas pelos seguranças.
Desembarque ao amanhecer em Ostende, Bélgica. Meu passaporte nem sequer foi verificado, pois o país não exigia visto prévio de entrada para brasileiros. Novo embarque no ônibus para seguir viagem.
O veículo cruzou a fronteira entre Bélgica e Holanda depois de passar rapidamente pela cidade de Antuérpia. Nenhum documento foi verificado na fronteira. Paisagens completamente planas dominavam pela janela do ônibus. Infindáveis planícies esverdeadas, plantadas, com gado e pequenas casas de campo. Grandes indústrias apareciam próximas à rodovia. O ônibus entrou em Roterdã, com o porto, guindastes, pontes gigantescas, bondes em circulação.
O ônibus estacionou e largou os passageiros em uma rua qualquer de Amsterdã, sem estação, sem nada. Peguei a bagagem e comecei a andar. Optei pelo albergue da juventude situado no centro. A localização compensava a má qualidade dos quartos, grandes e cheios, para até vinte hóspedes empoleirados em beliches, dos banheiros mal cuidados, das instalações antigas e caindo aos pedaços. O banheiro comportava até quarenta pessoas, e jamais lotava, já que os europeus nunca foram chegados a banhos ou higienes diárias.
A belíssima Amsterdã era bem diferente das cidades inglesas. Cortada por dezenas de canais, arquitetura antiga, sem edifícios altos, atmosfera mais descontraída. As poucas e escuras folhas das árvores apontavam a chegada antecipada do outono.
O centro da cidade fascinava pela fauna variada. Centenas de jovens perambulavam pelas ruas e bares ao som de rock pesado. Abundavam lojas de artigos eróticos anexas a cubículos exibindo filmes de sexo explícito. Puteiros, ambientes com apresentações de sexo ao vivo, se espalhavam pelos canais, becos e travessas. Tudo funcionava 24 horas por dia. Drogas dos mais variados tipos eram vendidas nas esquinas sob os olhares indiferentes dos policiais. A maioria das prostitutas exibidas nas vitrines como produtos de supermercado era de negras e mulatas. Muitas conversavam em espanhol. A zona de prostituição tornava-se também zona turística à noite, quando as vitrines se iluminavam e as mulheres ou travestis ficavam ainda mais expostas aos olhos dos clientes e turistas. As negociações de preços e características dos programas se faziam pelo interfone localizado do lado de fora das amplas janelas de vidro. E os turistas, em casais, idosos, crianças, se deliciavam com as cenas.
De maneira geral o movimento nas ruas em Amsterdã era pequeno, sobretudo de bicicletas, bondes, e poucos carros. E a pé ou de barco cheguei aos principais pontos de interesse. Barcos dos mais variados tamanhos e formas, atracados nos muros dos canais, serviam de residência a famílias inteiras.
A cidade e moradores ganhavam em descontração e informalidade em comparação aos ingleses. Circulava-se mais à vontade pelas ruas. A região da Leidseplein se agitava à noite com muita gente espalhada nas centenas de bares. Mesmo durante a semana a animação não diminuía. Nas ruas onde se localizavam teatros sofisticados, entravam e saíam holandeses vestidos de modo conservador, a caráter, ostentando expressões carrancudas.

Um mundo de bicicletas inundava o estacionamento da estação ferroviária central de Amsterdã. Todas postadas lado a lado, quase grudadas, do mesmo modelo e da mesma cor cinza escura. Comprei guloseimas para me abastecer durante a viagem e também me livrar do dinheiro holandês. Me atrapalhei com as microscópicas moedas holandesas, onde mal se enxergavam os valores. A balconista da lojinha, loira, magrela, feia e racista, se impacientou com a demora e gritou para os clientes atrás fazerem os pedidos. Continuei a contagem das moedas. Entreguei o valor exato, sem nenhum centavo a mais.
A paisagem em direção à Alemanha, impecavelmente plana, compunha-se de plantações, criações de gado, pequenos vilarejos, bosques.
A vistoria de passaporte fez-se pela polícia alemã dentro do próprio trem perto da fronteira. Apenas deram olhadelas nos documentos e devolveram em seguida. A entrada na Alemanha aconteceu em regiões industriais, mais povoadas. O relevo permanecia aplainado, porém menos plantado. Os ininteligíveis anúncios nos alto-falantes do vagão se restringiam à língua alemã.
A coloração cinza dominava na cidade de Dusseldorf. Poucos prédios altos, construções germânicas de cinco andares e infinidade de chaminés por todos os lados. Mais ao sul, também na margem do Reno, a moderna Colônia ganhava em beleza. Os bombardeios durante a segunda guerra mundial destruíram o que havia de antigo e histórico da cidade. Mas a imponente catedral, apesar de cinza escura, insistia em preservar algo do passado em meio a prédios de traços frios e retos. Capital federal na época, Bonn guardava atmosfera pitoresca, pelo menos vista da estação ferroviária.
Sem abandonar o vale do Reno, começaram a aparecer elevações no terreno em ambos os lados da ferrovia. À medida que o relevo se acentuava, despontavam pequenos castelos em ruínas nos altos dos morros.  O rio corria a leste da ferrovia e cortava região bastante verde, com minúsculas aldeias, parreiras, florestas nos altos. Destaques para os convidativos vilarejos de Bogarh, St Goar, Obbereswell. O vale tornou-se ainda mais profundo e escarpado. Túneis cortavam as montanhas, sobre as quais apontavam castelos e sob as quais vilarejos seduziam pela tranquilidade.
Infelizmente a ferrovia abandonou o vale do Reno e passou pela feia, cinzenta, industrial e entupida de viadutos cidade de Mainz. E o relevo voltou a se aplainar. Troquei de trem na estação de Manheim. Tive que andar bastante para encontrar vaga nas cabines. Finalmente entrei em uma recheada de alemães mal encarados.
Os trens alemães serviam sanduíches, salgados, bebidas, doces em carrinhos que subiam e desciam os corredores. Mas os preços beiravam o absurdo e quase ninguém consumia. Os vendedores nem insistiam.
Desembarquei em Heidelberg no meio do dia sob um céu bastante azul. Peguei ônibus até o albergue da juventude.
O funcionário da recepção do albergue me comunicou laconicamente que o local estava lotado. Insisti. Talvez ele tenha se arrependido da mentira deslavada. Lembrou-se que ainda restava uma vaga, mas apenas para aquela noite. Preenchi o formulário, paguei adiantado e subi ao quarto para deixar a bagagem. Os hóspedes das demais camas me cumprimentaram. Perguntaram de onde eu era e batemos papos descontraídos. A maioria dos outros quartos se ocupava de adolescentes alemães barulhentos. A desorganizada administração local não conseguia manter a ordem nem durante a noite.
O centro de Heidelberg mantinha aspecto de vilarejo de montanha, bastante antigo, com ladeiras e becos de paralelepípedos, imenso castelo no alto, o caudaloso rio Neckar em frente. Diversos prédios históricos bem conservados ocupavam-se de escritórios.
Centenas de degraus encostados no morro levavam à entrada principal do castelo de Heidelberg. De coloração avermelhada e parcialmente em ruínas, o castelo ainda mantinha imponência com galerias, masmorras, torres. Do alto se tinha visão privilegiada da cidade e do vale do rio Neckar. Nas redondezas, um parque bem arborizado dava acesso a bosque fechado no alto do morro. A maioria dos visitantes era de jovens alemães, e loiros.
O atendimento em praticamente todos os lugares primava pela frieza, grosseria e má educação. Os alemães se irritavam em atender estrangeiros e resistiam em se comunicar em outras línguas. A melhor maneira de evitar esses contratempos era perguntar antes se a conversa poderia ser em inglês. E o som da língua alemã agredia aos ouvidos. Muito gutural e fortemente pronunciada, incomodava mais que a língua holandesa.
Graças à palavra Brasil escrita na bolsa que eu carregava, um brasileiro me chamou na rua. Ele cursava pós-graduação em matemática na quase milenar universidade de Heidelberg. Conversamos animadamente ali no meio do movimento antes de entrarmos em restaurante italiano. Obviamente nos tornamos os mais alegres do local. O restante das mesas mergulhava na seriedade e tristeza germânicas. O garçom que nos atendia logo notou e se contagiou. Napolitano, bigodudo e engraçado, se animou quando soube que vínhamos do Brasil. Pena que não entendia quase nada de inglês. Eu e o matemático, nada de italiano, menos ainda de dialeto napolitano. Mas valeu pelos sorrisos, empatia, calor humano latino.
E apesar da má vontade e comportamento racista da recepção, consegui mais uma noite no albergue da juventude. Muitos dos barulhentos adolescentes alemães partiram e não haveria motivos para eu ser barrado.
O sistema ferroviário europeu continuava a me despertar inveja e admiração, enquanto residente em um Brasil criminosamente rodoviário. Rápido e rasteiro peguei meu bilhete para Budapeste, com conexão em Frankfurt.
Grande, barulhenta, moderna, Frankfurt era todo contraste com a pitoresca Heidelberg. As supostas atrações turísticas se resumiam a resquícios minúsculos de construções antigas no centro da cidade. Até as cidades catarinenses do vale do Itajaí guardavam mais riquezas arquitetônicas germânicas do gênero.
O que valia a pena, não só na Alemanha, mas nas cidades européias em geral, era o urbanismo dos rios e margens. Sempre com extensos e belos jardins, bancos de sobra para descansar e apreciar o fluxo das águas com barcos de pequeno e médio porte. De metal, cimento ou tijolinho, as pontes também agradavam.
Passei o resto da tarde em banco na margem do rio em Frankfurt, observando o movimento do público. Gansos e cisnes flutuavam nas águas do rio. O céu azul impecável e o visual superavam o incômodo do vento frio. Antes de anoitecer, os vendedores ambulantes de flores, frutas e doces abaixavam os preços para venderem todo o estoque. Todos berravam e a atmosfera lembrava feira livre. Os doces, as tortas, os bolos vendidos nas ruas, eram irresistíveis. Aos olhos e ao estômago. O frio me obrigou a experimentar de vários tipos, todos para lá de saborosos.
A estação ferroviária de Frankfurt primava pelo desconforto. Muita tecnologia, computadores, mas nenhum banco para sentar e esperar as partidas dos trens. Ou aguardava de pé, no frio, entre os carregadores de malas, ou consumia algo nas lanchonetes para poder sentar. Em quase todas as estações da Alemanha havia locais reservados para as tropas de ocupação do exército estadunidense. E lá estavam os benfeitores da humanidade, uniformizados para a guerra e fortemente armados. Não devia ser nada fácil para a autoestima do povo alemão engolir tais cenas.
Passava da meia noite quando estacionou o trem na plataforma. Havia vagão exclusivo para os passageiros rumo a Budapeste. A composição partiu com a cabine vazia e pude me esticar para tentar dormir na viagem que prometia demorar. Fui acordado próximo à fronteira austríaca para fiscalização do passaporte.
O dia amanheceu quando o trem percorria o interior da Áustria. O relevo levemente ondulado comportava plantações de milho, verduras, pequenos vilarejos isolados. Pouco antes de Viena, morros muito verdes, bosques de pinheiros, casas e cabanas de montanha, lembravam a serra da Mantiqueira.
O trem atingiu a fronteira entre a Áustria e a Hungria, então sob o regime chamado erroneamente de comunista. A fiscalização severa, sem ser ostensiva ou desrespeitosa, conduziu os funcionários húngaros para dentro dos vagões, olhando os passaportes. Outros se postavam na plataforma e fiscalizavam a fiscalização.
Com o trem novamente em movimento, a paisagem húngara revelou-se plana, com imensas plantações que se perdiam de vista, pequenos bosques isolados. Vilarejos espaçados surgiam na planície cultivada. As habitações guardavam aspecto modesto, algumas mal conservadas. As hortas familiares lembravam as brasileiras do interior do sudeste. De longe tudo parecia mais simples que nos vizinhos europeus, mas infinitamente superior aos lares latino-americanos.
Da cidade de Komáron, na margem do rio Danúbio, avistava-se a Tchecoslováquia no outro lado. Casas, dragas, depósitos de areia, argila e guindastes marcavam o cenário. Mais à frente surgiram conjuntos habitacionais padronizados, cercados por infindáveis plantações, sobretudo de milho. Muitas residências, escolas, supermercados, em fase de acabamento.
O trem chegou a Budapeste no começo da tarde. Usuários vestiam roupas simples e não muito novas, mas nada padronizadas e iguais como berravam os meios de comunicações ocidentais. A moda estava presente por ali, sem o doentio consumismo dos países ocidentais. Filas enormes se formavam nos guichês de informações.
A prestativa funcionária da estação esforçou-se em péssimo inglês, mas conseguimos nos comunicar. Acertei hospedagem em casa de família situada em zona residencial. O quarto individual era amplo e confortável. A simpática proprietária, porém, não falava nada de inglês, apenas húngaro e alemão. Me entregou o mapa da cidade, sorriu, sussurrou algo em alemão, me observou de alto a baixo, sorriu novamente e nada mais. Sem possibilidades de qualquer diálogo. Pena.
Depois de café da manhã saboroso na confeitaria, saí para dar uma volta e procurar lavanderia. Era sábado e quase tudo estava fechado. Caminhei muito, segui diversas informações e nada. Mas aprendi que lavanderia em húngaro é patiolat, e fechado zarva. Aliás, zarva era a palavra que mais encontrei afixada nas portas dos estabelecimentos comerciais. Com a sacola de roupas sujas, muito sujas, de vários dias, eu circulava a esmo pelas ruas de Budapeste. Eu teria que esperar a segunda-feira.
Estava mais que evidente que seria difícil, muito difícil, me comunicar na Hungria. Praticamente nenhuma palavra da língua húngara possuía radicais latinos, gregos ou anglo-saxônicos. Nada soava familiar, nem as internacionalmente conhecidas como hotel, hospital, polícia, restaurante. A segunda língua mais falada no país era a alemã, seguida da russa. O inglês se restringia a hotéis de luxo ou em outros pontos exclusivamente turísticos. Pedir informações, ser atendido em restaurantes, lojas, tornava-se uma luta.
Mas as coisas ficaram divertidas. Assim que eu entrava nos restaurantes, logo vinha a garçonete, geralmente atraente, sorridente e de olhos amendoados, me entregando o cardápio, em húngaro. Eu sinalizava que não entendia o que estava escrito. Ela sorria ainda mais e o substituía, quando existia, por outro. Em alemão. Em nada me ajudaria, mas eu agradecia com sorrisos ou em português mesmo. Eu corria os olhos pelo cardápio, verificava os preços e escolhia qualquer coisa sem saber do que se tratava. Chamava a garçonete, apontava no cardápio minha opção e falava em português. Ela anotava, sorria e corria para a cozinha.
Jamais comi algo que não fosse saboroso. No geral, os pratos vinham bem temperados e a contas saíam baratas, mesmo com uma garrafa de vinho. Em diversos restaurantes havia música ao vivo. Quartetos, duetos de cordas ou pequenas orquestras de câmara interpretavam peças eruditas ou do folclore húngaro.
continua...