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segunda-feira, 21 de outubro de 2024

da Bolívia ao Piauí (via Bolívia, Peru, AM, PA, MA, PI) parte (7/7)

 ...continuação

Na parte da manhã tomei carro de aplicativo local, cópia bem copiada de aplicativo estrangeiro, até o porto na beira do Tapajós. O motorista, nissei paranaense, morara no Japão e lá conhecera a esposa, brasileira de Santarém. Retornaram ao Brasil para morar na cidade natal dela. Ele se deu bem com a família dela e o casamento corria às mil maravilhas. Mas câncer fulminante a levou em poucos meses. Ambientado na cidade e em boas relações com a família dela ele permaneceu por ali. Decidiu ser motorista para ganhar algum, se relacionar com gente e afastar a depressão que o assolava após a viuvez precoce. Falava sem parar. Na verdade desabafava com quem o ouvia com paciência. Ao final da corrida me agradeceu por tê-lo ouvido e pela oportunidade de se dirigir a alguém.

A tripulação ainda fazia a limpeza e a arrumação geral da embarcação que, estranhamente, partiria no mesmo dia da chegada. Normalmente os barcos permaneciam dias nos portos das extremidades do percurso para lavagem e organização geral.  Nenhuma suíte ou camarote se encontrava disponível. As expressões cansadas e irritadas dos tripulantes davam os primeiros sinais de navio mal administrado e mal comandado.

Com menos da metade da ocupação dos passageiros nos dois pisos para armação das redes, o navio partiu de um dos portos de Santarém. Permaneci um tempo no piso de Lazer, sob as estrelas e relâmpagos a oeste.

Encerrei O Boto, de Tadeu Sarmento. Era livro de aventura fantástica, embora o autor ameaçasse destrinchar um Brasil dilacerado pelo capitalismo, ONG’s, empresas evangélicas, entre outros fundamentalismos.


Comecei a ler Pagu – Vida e Obra, de Augusto de Campos. No livro o concretista esmiuçava a vida heroica e sofrida da personagem, além de presentear os leitores com as principais obras dela, de ficção e não ficção. Oportunidade de ouro para me familiarizar com Patrícia Galvão, a Pagu, personalidade marcante do Brasil do século XX, muito citada, mas pouquíssimo lida e estudada.

Retirei o lençol do beliche superior para servir de lençol de cima no beliche inferior, onde eu dormiria aquelas noites. Era de elástico e ficou perfeito, me protegendo feito saco de dormir. Nem saí da suíte para assistir a chegada e a partida na cidade de Monte Alegre. Tampouco acompanhei a parada antes do amanhecer em Prainha.

No café da manhã, pago à parte, sanduíche de presunto e queijo, café com leite, canjica ou mungunzá, maçã.

Sob o céu nublado e chuvoso, bandos de andorinhas faziam a festa ao redor do navio, entre acrobacias, voos rasantes, curvas fechadas, às vezes quase parando no ar, entre tantas brincadeiras ao som dos cantos de todas elas. Alegria total e exibição gratuita aos passageiros, pelo menos para aqueles que levantavam o focinho dos celulares para apreciar o espetáculo da natureza.

No meio da manhã os passageiros tiveram que suportar longa parada abaixo da cidade de Almeirim, em porto particular, para carregar itens de interesse do proprietário da embarcação. Aproveitei para comprar queijo coalho dos vendedores locais que subiam nos pisos do navio.

Logo a jusante de Almeirim ocorria a bifurcação, em meio a ilhas gigantescas, entre as rotas das embarcações que se dirigem ao sul da ilha de Marajó e a Belém e aquelas que seguem para o Amapá.

Parada noturna em Gurupá.

O dia clareou num dos inúmeros estreitos pertencentes ao labirinto de ilhas ao sul do arquipélago de Marajó. Chamava a atenção a maior quantidade de açaizeiros e aningas na beira das águas, embelezando ainda mais a paisagem com casinhas de madeira sobre as palafitas. O que sempre estragava as imagens e, sobretudo, a vida dos ribeirinhos, era a praga das empresas comerciais evangélicas, traficando com a fé do povo, o esmagando na miséria e na ignorância, fatores de manutenção do poder das classes dominantes.

Parada em Breves pela manhã.

Encerrei o essencial livro Pagu – Vida e Obra, de Augusto de Campos. Depois de virar a última página me aproximei mais da vida artística, militante e combativa de Patrícia Galvão, nome tão importante, mas injustamente desprezado e ignorado, na história política e cultural do Brasil. Emendei com a leitura de Autobiografia Precoce, de Pagu. Eu acessaria na fonte as ideias e as ações, as certezas e as inseguranças, além de mais obras e criações dela, Patrícia Galvão.

Durante longas horas permaneci sentado do lado da sombra no piso de Lazer. A largura e a amplidão inacreditável do rio espantavam os olhos, ao mesmo tempo em que provocavam sonolência. A modorra, a preguiça e o calor daquele horário da tarde, no entanto, foram quebrados por vendedores de creme de açaí, camarão e outros quitutes. Provenientes das margens, eles se aproximavam do navio em voadeiras. Laçavam os pneus de amortecimento lateral e embarcavam para vender as mercadorias, ou vendiam do barco mesmo, esticando os braços para entregar os produtos e receber o pagamento. Raramente voltavam às moradias ribeirinhas com mercadorias não vendidas.


Mais a jusante, em trecho estreito e curto, mulheres, somente mulheres, se aproximavam a bordo de canoas motorizadas ou a remo esperando doações dos passageiros, da mesma forma que no famigerado estreito de Breves. Do navio poucas doações foram lançadas nas águas dentro de sacos plásticos ou, com muita sorte, dentro das próprias canoas. Nesses trechos havia também casos de prostituição, embora, dessa vez, não notei mulher ou menina embarcar e desembarcar mais tarde. Várias igrejas evangélicas, aquelas empresas que traficam com a fé do povo, erguidas nos vilarejos de onde as mulheres vinham, provavelmente iriam embolsar parte ou tudo do que foi doado pelos bem intencionados passageiros dos navios em circulação. Assim, a alienação fundamentalista religiosa se fundia com a indústria da caridade na maior cara de pau.

Anoiteceu. O navio passou ao lado da iluminada cidade de Barcarena, atraindo os olhares de todos para tanta luz e tanto brilho.

Com muitas horas de atraso deliberado, o navio atracou em Belém tarde da noite.

Pela manhã, caminhei do bairro de Nazaré à beira da baía de Guajará para perambular pela zona do mercado Ver-O-Peso. Obras em andamento por ali, de melhorias e ampliação da Estação das Docas. Tapumes metálicos cobriam áreas consideráveis. Quiosques temporários foram improvisados para que o comércio se mantivesse vivo.

Encurtei a estadia em cidade grande que tanto explorara e que tanto me fascinara em viagens anteriores.

O ônibus saiu lotado ao anoitecer.

O trajeto atravessou de oeste e leste o norte do estado do Maranhão, possibilitando ver das janelas do ônibus as festas juninas a todo vapor nas cidadezinhas, como Santa Luzia do Paruá, Zé Doca, Araguanã. As administrações públicas não se cansavam de mutilar criminosamente as árvores em figuras geométricas ou temáticas, matando a vegetação e a as tão necessárias sombras.

Entre os passageiros do ônibus, a mulata clara, trintona, vinha acompanhada de gringo da mesma faixa etária. Embarcaram em Belém e conversavam em inglês. Ela, brasileira do norte ou nordeste. Ele, de país do hemisfério norte cuja língua nativa não era o inglês. Reparei que outros passageiros repararam neles e comentavam sei lá o quê. Parecendo se sentir culpada de algo, ela evitava o olhar de todos. Minhas suspeitas sem provas para explicar aquilo não eram das melhores.

Do lado de fora, a paisagem aplainada reservava babaçuais, cerrado, carnaubais, e trechos tristes de monocultura extensiva de capim ou algo similar. Nesse último caso, ao lado de silos enormes e de lojas de produtos agropecuários importados daquele regime terrorista ao norte do México.


No meio da tarde o ônibus embicou na estação rodoviária da piauiense Parnaíba, cidade também bastante explorada em viagens passadas.

Jantei no canteiro central da avenida São Sebastião. Mergulhei de cabeça em trezentos gramas de picanha fatiada, baião-de-dois, o cearense por ser mais cremoso, salada, farofa e vinagrete. E coroei o lauto jantar com jarra de suco de limão.

Li mais capítulos de Autobiografia Precoce, de Pagu. A cada linha mais eu me impressionava com a vida e, sobretudo, a qualidade da obra dessa brasileira única.

Caminhei quilômetros por vias entre a avenida São Sebastião e a margem esquerda do rio Igaraçu. Trecho silencioso da cidade que surpreendia pelo urbanismo eficaz e ausência de gente nas ruas e calçadas. Em construção, outra ponte sobre o rio Igaraçu, ligando, como a já existente, o centro de Parnaíba à Ilha Grande de Santa Izabel, à praia da Pedra do Sal, ao município de Ilha Grande, ao vilarejo de Tatus. Aquela grande volta me conduziu ao Porto das Barcas, centro histórico de Parnaíba, vazio, silencioso, tranquilo, na beira do rio.

Pela manhã, tomei o ônibus à praia do Coqueiro, no município de Luís Correia.

Já na praia caminhei bastante, avancei a ponta de pedras e atingi praia completamente vazia, em dia de maré baixa. Delícia das delícias. Eu, a areia, o mar, o farol da marinha mais atrás. E mais ninguém. Entrei no mar de águas límpidas, sob o céu azul e sem nuvens. A maré baixa garantia ondas inofensivas. Mergulhei, flutuei, nadei, fiquei de pé, deitei, sentei. Em varredura de trezentos e sessenta graus não se via mais nenhum ser humano. Aproveitei e fiquei como vim ao mundo, largando a sunga na areia seca. Entrei mais vezes naquelas águas mornas.

De volta à praia do Coqueiro entrei na barraca mais vistosa e relaxei o esqueleto. Tomei duas caipirinhas razoáveis preparada com cachaça piauiense. Para enganar bem o estômago, pedi espeto generosamente servido de camarões grandes, gratinados e empanados. Numa mesa próxima, três gerações se faziam presentes. Até aí nada de anormal. O degradante, inaceitável, repugnante, era a presença da empregada, explicitamente vestida de empregada. A única negra em mesa de branquelos, quase aloirados, cuidava de duas crianças mimadas, animalescas e mal encaradas. As duas gerações de adultos, dos pais e dos avós, desrespeitavam e humilhavam abertamente a empregada e babá. A mãe das crianças, trintona a quarentona, loira natural ou tingida, com o marido ao lado, me olhou interessada mais de uma vez, escancarando a hipocrisia e a falência da família burguesa tradicional. Jamais me envolveria com quem se comportava como senhora de escravas.


Acabei a leitura do ótimo Autobiografia Precoce, de Pagu, a Patrícia Galvão, livro que precisaria ser lido pelos interessados em artes e na história do Brasil.

Comecei a reler contos variados do mestre Lima Barreto e me deslumbrar com a realidade e a análises incrivelmente atuais do autor.

Na manhã seguinte tomei dois ônibus à praia da Pedra do Sal. Pelo trajeto, ao longo da ilha Grande de Santa Izabel, carnaubais belíssimos, sobre alagados, de ambos os lados da estrada. No ponto final, a ponta de pedras com o farol, a baía de águas mansas à esquerda, a baía de águas bravas à direita. Esta, visualmente prejudicada pela profusão de imensos coletores de energia eólica a perder de vista. Como de praxe, pouca gente, raras e esbagaçadas barracas de comes e bebes. E vento, muito vento, vento forte e constante.

Permaneci sentado durante horas sobre ripa de madeira disposta dentro de restos de barraca rústica e parcialmente coberta de folhas de palmeiras. Ninguém por ali. À minha frente, a paisagem da areia e do mar, sem fim. Vez ou outra eu avistava jangadas mar adentro. Os pensamentos vaguearam sem rumos e provocaram deliciosa sensação de liberdade.

Andei bastante pela zona norte de Parnaíba, próximo à margem do rio Igaraçu, à estação ferroviária de bairro. A estação e a ferrovia foram criminosamente desativadas pela ditadura do transporte rodoviário. Triste calamidade em todo o Brasil, porém mais dramática no nordeste do país, região que foi servida por dezenas de linhas férreas atravessando os interiores dos estados. Por toda a região, ao lado dos trilhos soterrados pelo asfalto que multiplica o calor e a impermeabilidade do solo, ainda se encontram antigas estações ferroviárias, muitas delas utilizadas por órgãos públicos, ou simplesmente abandonadas, em ruínas, servindo de abrigo de dependentes químicos.

Continuava mergulhando nas preciosidades literárias de Lima Barreto, relendo a infinidade de contos agrupados em edição caprichada. Destaques, entre tantos, para os contos Um Músico Extraordinário e Como o Homem Chegou.

Embarquei em ônibus leito à noite.

Não desci nas paradas das cidades cearenses de Camocim e Sobral. Desembarquei ao amanhecer no terminal rodoviário de Fortaleza e logo me dirigi ao aeroporto.

Em voo lotado, durante o trajeto aéreo de quase três horas, me salvaram as crônicas de Rubem Braga, me transportando para os fatos e as fantasias do autor capixaba, que merece com folga a fama que a história lhe deu.

Entrei em casa no final da tarde daquele mês de julho, sob o frio suave e o céu nublado e feio, combinando perfeitamente com as características físicas da cidade de São Paulo.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

do Acre ao Piauí (via AC, RO, AM, PA, AP, MA, PI) (parte 6/8)

...continuação
Foram duas horas de ônibus comum para percorrer setenta quilômetros a Mazagão Velho, pela rodovia AP-010. Após o acesso à Santana, vieram os campos de cerrado. Parecendo cruzamento de gado com hipopótamo, búfalos mergulhavam em alagados repletos de buritis, cujas lâminas das águas refletidas pelo sol davam espetáculos de brilho e esplendor. Ao sul do rio Matapi, atravessado por ponte em arco, o cerrado deu lugar à floresta mais úmida. Mais rios, mais pontes, alguns balneários fluviais com banhistas de fim de semana.
Entrada em Mazagão Novo. Cidadezinha planejada e espalhada. Já se notava o aumento de negros, mulatos, cafuzos. Adiante, a rodovia AP-010 mergulhou de vez na floresta úmida, intercalada de campos verdes.
Desembarquei em Mazagão Velho, fundada em 1770, a partir de transferência, pelos invasores portugueses, da colônia de mesmo nome na costa do Marrocos, onde os cristãos guerreavam contra os muçulmanos.
Banhada por igarapé de águas escuras e cristalinas, repleto de árvores, buritizais, aningas, a vilazinha conquistava pela tranquilidade, bucolismo, sossego, beleza do pequeno casario diante do balneário de Matuapá. As famílias colocavam cadeiras na frente das casas para conversar e observar o movimento.
Também de frente ao igarapé, a igreja de Nossa Senhora da Anunciação, ao redor da qual eram celebradas as festividades de São Tiago no final de julho. Maior presença de negros e mulatos, descendentes diretos dos africanos escravizados pelos europeus durante séculos na América.
O lavrador negro cinquentão, devido a problemas renais, parou de trabalhar na roça e apelou à culinária para sobreviver. Com os dentes estropiados como o primeiro, o outro negro já estivera no Marrocos, justamente na antiga Mazagão, atual El Jadida. Ele conhecia bastante das duas Mazagão, a marroquina e a amapaense, e me pincelou parte daquela intrigante história.
Assisti parte do baile no clube, sem paredes, de frente para o gramado e o balneário. Vocalista e teclado com percussão programada tocavam repertório próprio e novo aos meus ouvidos. Alguns dançavam em frente ao palco. Outros assistiam da calçada ou das varandas das casas.
Peguei ônibus para encarar longa viagem de volta a Macapá.
Embarquei pela manhã em Santana em navio rumo a Belém. A suíte contava com ar condicionado, fixado em 16 graus, temperatura indecente até para siberianos. A camareira afirmou a “impossibilidade” de regular a temperatura. Assim como em outros navios eu providenciaria o controle remoto junto à cabine de comando para ajustar às civilizadas temperaturas de 23 ou 24 graus. Das três refeições apenas o café da manhã estava incluído no valor da passagem.
O navio zarpou com poucos passageiros. À tarde começou a balançar. As águas se revolveram sob a chuva fina.  O navio, como regra nas tardes modorrentas, mergulhou no silêncio.
Mais tarde a embarcação penetrou no labirinto de canais, por entre ilhas do arquipélago de Marajó. Oportunidade para apreciar de perto a floresta amazônica, os açaizeiros, esparsas casinhas de madeira na forma de palafitas, a genial solução cabocla. Após trecho em água grande, entrou no estreito e longo canal do Limão.  Dois barquinhos se aproximaram e descarregaram dezenas de sacos de murmuru, fruto pequeno e acastanhado, utilizado como matéria prima na indústria de cosméticos. Das casinhas precárias de ambos as margens saíam canoas, normalmente conduzidas por crianças, na esperança de receber donativos dos passageiros do navio. Mendicância similar àquela do estreito de Breves, ao sul do arquipélago. Além das palafitas, comércio, serrarias, posto de combustíveis. Tudo básico, simples. Nenhuma escola. Nenhum posto de assistência médica. Nenhum centro ou projeto cultural. Mas lá estavam as empresas do fundamentalismo evangélico, aos montes. As mesmas empresas que apoiam e participam do regime contra o povo do governo federal. As mesmas que sugam os bolsos e as mentes dos ribeirinhos asfixiados entre o nada e aquilo.
Choveu fino durante toda a travessia do canal do Limão. No bar dos fundos do terceiro piso do navio a tripulante e alguns passageiros assistiam com olhar bovino a filme de fantasia estadunidense.
Conversei com paraense que já trabalhara de tudo em São Paulo. Atualmente comprava e vendia roupas. Reclamou do mal que o governo federal de plantão, o antipopular, tem feito ao povo brasileiro e que temia a situação piorar ainda mais com aquele regime de ricos contra pobres. Sentia saudades das políticas sociais e distributivistas dos governos Lula e Dilma.
Dormi bastante. Se houve paradas do navio durante a madrugada, não ouvi um ruído sequer.
Acordei cedo e tomei o café da manhã. Não houve filas entre os cerca de cinquenta passageiros. Exceto o trajeto de Manaus a Nhamundá, quatorze anos antes, no qual havia menos de dez passageiros, aquela era a viagem mais vazia a bordo dentre os percursos fluviais que realizei pela Amazônia.
Lá fora, água grande. Nada de terra firme próxima, somente no horizonte distante. Outras embarcações navegavam a perder de vista. O sol ameaçava furar o bloqueio das nuvens.
Mais tarde as chaminés poluidoras do distrito industrial de Barcarena. Pouco depois, no fundo do horizonte, a linha de edifícios altos da cidade de Belém. Desembarquei no terminal hidroviário da capital paraense no meio da manhã.
Jantei em restaurante lotado em noite de segunda feira. Duas mesas comemoraram aniversário. A tradicional celebração do restaurante incluiu luzes apagadas, chapéu de palhaço nos aniversariantes, fogos, garçons caracterizados, fotografando, dançando, cantando os parabéns. Porém, detalhe bizarro, os garçons cantaram primeiro em inglês e depois em espanhol, somente nessas duas línguas, em ritmo caribenho indefinido. Todos ali, nas mesas, corredores, nas cadeiras, funcionários e clientes, aniversariantes, todos, sem exceção, eram brasileirinhos da silva. Cenas para agradar aqueles indivíduos fanáticos que vestem camisetas da CBF, dançam nas avenidas em volta de um pato e, com pavor dos pobres, imploram por golpes de Estado e por ditadores.
Caminhei bastante pelo centro histórico de Belém. O forte do Castelo, a Casa das Onze Janelas, a praça da catedral, o museu de Arte Sacra, o mercado Ver-O-Peso, as tendas de alimentos, artesanatos, garrafadas, peixes, açaí, polpas. Destaque para os comes e bebes no balcão, especialmente peixe frito ou camarão, acompanhado da cuia de creme fresco de açaí, sem açúcar, à paraense. E a centrífuga bem em frente, produzindo, a todo instante, aquele creme divino assim que a tigelona baixasse de nível.
Encerrei Úrsula, livro de Maria Firmina dos Reis. Escrita rebuscada demais. Enredo romântico e dramático ao extremo. Abordagens ingênuas e religiosas do começo ao fim. Tá, o livro é de 1859. Tá, a autora denuncia a escravidão, ainda que em curto trecho, numa época em que ninguém o fazia, ainda mais uma mulher. Descontos à parte, o livro vale somente para estudiosos da história da literatura. Ou para os que buscam referências, embora breves, aos crimes do comércio de escravos e da própria escravidão. No entanto, longe do tema e enredo central do livro, as reflexões sobre a escravidão se dão em poucas e pequenas passagens.
Em fim da tarde o ônibus praticamente vazio, confortável, com o ar condicionado em temperatura civilizada, partiu rumo ao Piauí.
Pela BR-316, depois de parar em Capanema para o jantar, o ônibus atravessou a ponte sobre o rio Gurupi e alcançou a primeira cidade do Maranhão, Boa Vista do Gurupi. E logo adormeci.
O trecho maranhense da estrada rendeu sacolejos do veículo em razão dos buracos e irregularidades da pista. Após margear várias cidadezinhas, inclusive Zé Doca, entrou na rodoviária de Santa Inês pouco antes do amanhecer. A partir daí, estrada estreita, embora de nome BR-222, se apresentando mais conservada. Valeu por se livrar do tráfego pesado das rodovias principais e tomar contato com o nordeste do Maranhão. Desembarcaram e embarcaram passageiros nas inúmeras paradas, como Vitória do Mearim, Arari, Miranda do Norte.
Os babaçuais reinavam na paisagem aplainada, eventualmente cortada por serrotes também coalhados de babaçus. A maior concentração dessa palmeira ocorreu entre Vargem Grande e Chapadinha, onde placa no acostamento indicava uma das associações de quebradeiras de coco, mão de obra baratíssima que gera matéria prima para a indústria de óleo, cosméticos, farmacêutica, produtos de limpeza. As quebradeiras se defendiam como podiam dos fazendeiros e do agronegócio que ansiavam pelas terras e pela devastação dos babaçuais. Nesse mesmo trecho da estrada abundavam casas de taipa e cobertas de palha da palmeira. A despeito do charme, bucolismo e singeleza dos moradores, refletiam as más condições de habitação do maranhense, povo tão massacrado por séculos de oligarquias medievais. O progressista governo do estado, no começo do segundo mandato, ainda batalharia muito ao lado do povo para superar a miséria catastrófica da população.
Entre as cidades de Anapurus e Brejo, a monocultura extensiva, empregando pouca mão de obra e muitos agrotóxicos. Marcas de fornecedores estrangeiros, presença de transnacionais, ao lado de comércio com nomes e referências gaúchas. O agronegócio em todo o Brasil jamais beneficiou a população. Só trouxe miséria para a maioria e o enriquecimento de poucos.
Meia hora depois de atravessar o rio Parnaíba, e entrar no estado do Piauí, pela BR-343, o ônibus estacionou na rodoviária da cidade de Parnaíba.
À noite andei pela avenida São Sebastião, o destino noturno dos parnaibanos, larga e extensa, com amplo canteiro central, arborizado na forma de duas alamedas de árvores, mais calçadão de ambos os lados. Próximos à rotatória movimentada, quiosques, pontos de espeto, sanduíches, grelhados, tanto no canteiro central como na calçada, um ao lado do outro, ao ar livre, atraindo a população e alegrando a noite do norte piauiense.
Encontrei restaurante de cardápio variado, em ambiente sério, elegante. Quinhentos gramas de maminha ao ponto, suculenta, macaxeira cozida, pão com alho, farofa e vinagrete. Lentamente, prazerosamente, não deixei ciscos sobre pratos e travessas.
Pela manhã, na região central, reconheci pontos onde eu frequentava até minha última visita doze anos antes. A praça Santo Antônio, com casario imponente, construído no início do século XX. Mais adiante a praça da Graça, a principal de Parnaíba. Igrejas pesadas, comércio em volta, pessoas tomando a fresca nas sombras dos bancos. Dali ao rio Igaraçu, braço do rio Parnaíba, o miolo antigo da cidade, mal conservado, muita coisa em ruínas e abandonada. Era a região do Porto das Barcas. Revi a avenida Getúlio Vargas, estreita, outrora minha favorita para as flanadas noturnas, sob as árvores farfalhando ao vento e o silêncio do casario então residencial.
Peguei transversal a fim de atingir a margem do rio Igaraçu, na avenida Beira Rio. Bares e restaurantes isolados, a capitania dos portos do Piauí, dois clubes, deserto de gente naquela hora tórrida do final da manhã. Tomei cajuína cristalina para matar parte da sede.
Subi em ônibus urbano rumo à praia da Pedra do Sal, ainda no município de Parnaíba, mas na outra margem do rio, na ilha grande de Santa Isabel, via a PI-116. Pelo caminho, belíssimos carnaubais em zonas alagadas com aguapés. Impossível não se encantar com essas palmeiras típicas do Piauí e de tantos usos para o ser humano. As carnaúbas cresciam principalmente em zonas alagadas e refletidas pela luz do sol, sempre enfeitando a paisagem. Atraentes dunas de areia se erguiam pelos interiores da ilha. Já nas imediações da praia, dezenas de torres coletoras de energia eólica.
continua...

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

do Pará ao Piauí (parte 3/4)

...continuação
A voadeira pelas águas e vilas do rio Preguiças partiu no início da manhã com passageiros de várias partes do Brasil. Paramos no povoado de Vassouras, onde caminhamos pelas dunas do chamado Pequenos Lençóis. Descemos mais à frente na vila de Mandacaru, local do farol da Marinha e do qual se tem visão de 360 graus de toda a região após subir os cento e sessenta degraus em espiral. Ventava fresco no topo e ninguém queria deixar aquela vista refrescante e privilegiada.
Seguimos rio abaixo e em poucos minutos desembarcamos no povoado de Caburé, onde eu me hospedara cinco anos antes. Permanecemos ali mais de três horas, tempo suficiente para beber umas e outras, almoçar bem, apreciar a vista do rio e das dunas, conversar bastante com um casal, ela maranhense, ele mineiro. Doutorados, bem formados e informados, exibiam pontos de vista progressistas sobre diversos assuntos nacionais.
A volta foi brindada com céu completamente azul e sol forte na cabeça. O manguezal das margens do rio guardava vegetação variada, inclusive árvores de grande porte cujas raízes se lançavam feito tentáculos ao solo.
A caminhonete me pegou na tarde seguinte rumo ao passeio na região da Lagoa Bonita, em meio às dunas do parque nacional dos Lençóis Maranhenses. Era caminho mais distante, e bem mais vazio também, que a rota usual da Lagoa Azul. Perfeito.
Foi mais de uma hora na carroceria coberta da caminhonete por trilhas de areia fofa. Não faltaram chacoalhadas, solavancos, buracos, curvas acentuadas, passagens de rios e lagoas. Tremendamente empolgante, a despeito do desgaste físico, dor nos braços, costas e bunda.
O veículo nos deixou no limite da duna de vinte e cinco metros de altura, por onde subimos e começamos a explorar livremente os Lençóis. A paisagem revelava um deserto sem fim, enriquecido com lagoas esverdeadas nas maiores depressões, fruto de acumulação de água das chuvas do primeiro semestre. O impacto visual imediatamente deslumbrou a todos. Plena sensação de liberdade diante daquela imensidão de areias e água doce.
Paramos primeiro na Lagoa do Clone, antes de seguir até Lagoa Bonita, uma das maiores da região. Reconfortante nadar nas águas límpidas e transparentes, recepcionados por peixes minúsculos, depois subir a duna, descer acelerado e mergulhar novamente. Ventava constantemente e a sensação térmica não podia ser mais agradável.
Andei livremente pelo entorno da lagoa, subi e desci outras dunas, mergulhei em mais lagoas, flutuei, nadei. Repetia tudo em diversos pontos daquele infinito, um mais encantador que o outro. Conversei, contemplei, relaxei.
Então nos dirigimos a mais alta das dunas a fim de contemplar o pôr-do-sol. O céu estava azul, quase sem nuvens. O sol se pôs avermelhado, enquanto a cor da areia evoluía de creme a cinza claro. O vento deslocava finas camadas de areia junto ao chão e desenhava véus esbranquiçados que acariciavam as dunas.
Encaramos novamente as trilhas de areia esburacada na carroceria da caminhonete, desta vez no escuro, mais lentamente.
À noite, me sentei na cadeira da calçada, jogando conversa fora com o dono da pousada. Logo aterrissaram dois espertinhos que transportavam turistas desavisados de Barreirinhas a Jericoacoara, cobrando uma fortuna. Alegavam isso e aquilo contra os veículos de linha e a favor das maravilhas do esquema deles. Eu, que não nascera ontem e sabia dos preços e condições, inclusive já percorrera o caminho anteriormente, questionei-os e recusei aquela generosa oferta. Nem pensar. Que fossem esfolar os gringos!
Eu me entristecia em ver a população local de Barreirinhas, ou de outros pontos do Maranhão, alijada pelos turistas. Os visitantes não viam com bons olhos os moradores locais frequentando os mesmos bares, restaurantes, os trechos por onde andavam na orla do rio Preguiças. Discriminação aceita com naturalidade pela maioria dos turistas. Repugnante. Revoltante.
Preferi seguir o caminho inverso do rebanho geral e comi em quiosque utilizado apenas pelos maranhenses, que servia espetinho misto, acompanhado de salada, baião-de-dois e farinha. Os turistas, claro, preferiam se amontoar junto a outros turistas. Comi bem, bastante, barato, sem falar no atendimento descontraído.
Logo cedo eu estava de prontidão na caminhonete de linha. Ao se aproximar o horário da saída, a caminhonete lotou e tratei de ocupar um assento. Era curto para as pernas, me obrigando a abri-las e pressioná-las contra a pessoa do lado e contra a madeira da frente da carroceria. Precisei me afastar um pouco e me sustentar sobre as coxas.  Pelo menos não faltavam locais para me segurar com as mãos, sobretudo nas alças do bagageiro sobre a cabine bem à minha frente, durante os buracos, curvas, solavancos.
E lá fomos nós, sempre entrando mais um e esmagando os passageiros um pouquinho mais. Mais três passageiros subiram após o posto da fiscalização e sentaram sobre a própria cabine da caminhonete, em frente das bagagens. Apreciei a paisagem e o movimento dos passageiros. Atravessamos o final dos Pequenos Lençóis, cruzamos dunas e lagoas.
Antes do meio-dia eu desembarcava em Rio Novo (Paulino Neves), em frente à casa do proprietário da segunda caminhonete que me levaria até Tutóia. Era casebre sem as mínimas condições de vida humana, banheiro sem descarga, sem água corrente. Achei uma sombra com cadeira e me sentei na varanda da casa. Minutos depois a moradora me comunicou que a caminhonete não iria mais a Tutóia naquela tarde. Sugeriu que eu aguardasse outra que passaria na esquina acima, no mesmo horário. Permaneci naquela esquina deserta, tórrida, sem sombra e com rajadas de areia. Tudo fechado na cidade, sol abrasador. Embarquei e me sentei numa das ripas de madeira da carroceria coberta de pedaços de papelão.
No meio da tarde desci em Tutóia e me hospedei no hotel de sempre. Optei pelo quarto sem ar condicionado, sem forro, facilitando a ventilação natural.
Comi alguma coisa ali mesmo e me dirigi ao porto da cidade. Más notícias. O barco que percorria o trecho até Parnaíba, via o Delta, já não navegava mais. Ninguém informava com precisão o que realmente acontecera. Restava a opção de seguir de ônibus.
Caminhei pela longa rua até a praia da cidade. O hotel que me salvou durante o carnaval de cinco anos antes, o único com vagas naquela ocasião, ainda estava lá, assim como o navio encalhado e enferrujado no mar em frente. Sentei-me na mesinha sob o guarda-sol de palha de buriti e tomei uma. Som, apenas do vento, das ondas do mar e do farfalhar das palhas acima da minha cabeça. Sensação de paz em contato direto com a natureza. Não durou muito. Um mentecapto estacionou o carro ao lado das mesas e ligou a poluição sonora. Abafava os sons suaves e naturais da praia com o lixo estrangeiro dos bailes de mela-cueca da década de 1970. Foram quinze eternos minutos de tortura até a múmia paralítica perceber que não agradava e se mandar sabe lá para onde. A natureza voltou a reinar e os seres humanos agradeceram.
Tutóia melhorou na região central com calçadões, jardins, praças e bancos para descansar. Os adolescentes prestigiavam os novos locais. A cidade, livre das festas chatas e poluídas, se revelava tranquila e ideal para não fazer nada.
Segundo a dona do hotel, o barco da linha Tutóia/Parnaíba afundara no porto da cidade piauiense durante a noite, sem ninguém a bordo. Ainda conforme a descrição dela, o vigia noturno notou a entrada de água, nada fez e assistiu passivamente o dito cujo ir a pique. Versão para lá de obscura.
O trajeto rodoviário de três horas correu tranquilo em ônibus praticamente vazio. Saí do Maranhão e desembarquei no ponto final, centro de Parnaíba, Piauí. Peguei a mochila e em vinte minutos de caminhada pelo centro comercial da cidade eu entrava na pousada.
Encontrei restaurante na ponta da bela e tranquila praça de Santo Antônio. Instalado em antigo casarão, o estabelecimento oferecia pratos da culinária regional. Comi peixe ensopado com muitas espinhas, após arrombar o apetite já aberto com duas caipirinhas preparadas com cachaça piauiense, e antes de encerrar com a famosa e saborosa cajuína do Piauí.
A área central da cidade de Parnaíba, mais precisamente nas imediações da avenida Getúlio Vargas e da praça de Santo Antonio, permanecia limpa, bem urbanizada e aconchegante. O vento soprava sempre e garantia temperaturas agradáveis no final da tarde e à noite.
Depois de jantarmos, emendamos na avenida Beira Rio, ponto tradicional da noite parnaibana. Poucos bares e restaurantes animados, músicas ao vivo no estilo voz e violão, repertório padrão. Poucos metros adiante, adolescentes endinheirados disputavam qual o som do carro mais potente. Exageravam no volume com aquele lixo comercial de sempre. O chão chegava a tremer pela poluição sonora, interferindo agressivamente na música suave dos restaurantes. Encerramos a noite pela madrugada.
Me incluí no passeio de barco pelo Delta do Parnaíba. Me pegaram na porta do hotel e seguimos ao porto dos Tatus, margem direita do rio Parnaíba e de onde partiria o barco. Cerca de cinquenta passageiros, cearenses na maioria, preenchiam as cadeiras do piso inferior e superior.
Percorremos canais do rio Parnaíba até a foz propriamente dita. Frutas variadas foram servidas para alegria geral. O barco atracou na ilha dos Poldros, pertencente a empresários espanhóis que a utilizavam para extração de produto primário local a ser transportado integralmente para a Espanha. Horror! A conquista e a pilhagem dos invasores europeus mantinham-se inalterada desde 1500.
Desembarcamos em praia fluvial da ilha invadida pelos espanhóis e caminhamos até a praia de mar aberto mais à frente. Desatracamos, contornamos, acessamos o igarapé dos Periquitos. O barco desligou o motor e a tripulação serviu o almoço.
Seguimos às dunas. Desembarcamos e circulamos pelas dunas do local, nos banhando nas águas do rio, nos empanturrando de caranguejo servido em mesinhas de plástico dispostas especialmente sobre a areia da praia fluvial.
Defeito catastrófico do barco eram as caixas de som que vomitavam o lixo comercial. Meu colega de conversas tomou a iniciativa de desconectar os cabos das caixas e, imediatamente, foi apoiado por outros passageiros. O mundo tem salvação!
No fim da tarde encerrávamos o passeio e voltávamos à região do Porto das Barcas. O sorvete no beco antigo daquele bairro, berço de fundação de Parnaíba, encerrou o dia.
Aproveitei a noite numa lenta caminhada pela avenida Getúlio Vargas, pelas paralelas, pelas transversais. Tudo vazio, silencioso, arborizado, limpo, bonito. Na volta, sentei na calçada da pousada e me refresquei ao vento sempre presente, diante da lua cheia.
Pela manhã caminhei mais pelas ruas da região central da cidade e arredores. Andava colado às paredes e muros das calçadas na busca desesperada por sombra. O sol literalmente torrava a cabeça, embora o ar seco impedisse a sensação de desconforto extremo do calor. Desemboquei na avenida Beira Rio, entrando em restaurante ainda vazio e silencioso. Não por muito tempo, infelizmente. Um casal estacionou em frente ao restaurante a caminhonete absurdamente grande. Manteve a porta aberta, da qual borbulhava a barulheira costumeira. E se instalou com o filho pequeno em mesa próxima à minha. Fim da tranquila contemplação à bucólica margem do rio Igaraçu. A poluição sonora dos carros particulares voltava a atacar sem pedir licença. Terminei o que já estava no final e fugi a fim de preservar meus ouvidos.
Parecia impossível encontrar paz na tarde de domingo. Me sentia cercado e acuado pela barulheira dos carros. Muitos brasileiros, desgraçadamente, sentiam pavor do silêncio, dos sons suaves da natureza, de ouvir música em volume humano. A cada ano eu sentia o fundo do poço afundar mais e mais, muito abaixo do limite inferior da mediocridade.
Não saí naquela noite. Resolvi me entregar à preguiça que me envolveu. Li bastante. Consultei mapas, cochilei, belisquei as castanhas. Adormeci cedo e nada mais. 
continua...

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

do Pará ao Piauí (parte 2/4)

...continuação
Desisti de ir a Breves. Ficaria para outras oportunidades. Seguiria direto a São Luís e de lá pensaria nos próximos passos.
Embarquei em ônibus lotado, ao lado de família paranaense de Maringá. Os três viajavam de férias e por conta própria.
O ônibus estacionou na rodoviária de São Luís ao amanhecer. Fiz cera em conversas com os paranaenses, fornecendo-lhes dicas sobre a região, antes de seguir ao centro da cidade.
Saí para almoçar e depois cochilei o resto da tarde.
Encontrei com amigos em bar sob as árvores e a iluminação amarelada que tingia suavemente os casarões barrocos do Projeto Reviver. As mesas logo se entupiram de gente animada em plena quinta-feira útil de julho.
Acordei cedo com a movimentação do café da manhã, conversas dos funcionários, ruído dos pratos, xícaras, copos, talheres, gritaria dos hóspedes enquanto comiam.
Finalmente café da manhã completo, em sistema de bufê. Eu poderia tomá-lo quando, como e o quanto desejasse. Nada de bandejas de motel!
Foi um sacrifício chegar à loja de passagens da empresa aérea no bairro da Renascença. De posse das informações obtidas na recepção do hotel, peguei ônibus que deu a maior volta pelos bairros novos da cidade. Acontece que, depois da via sacra dentro do ônibus, jamais vi uma avenida com o nome de Colares Moreira, justamente a do endereço da loja. O ônibus cruzou todo o bairro da Renascença, atravessou a ponte e retornou ao terminal da Praia Grande, de onde eu tinha partido. Desembarquei, perguntei novamente sobre ônibus para aquela avenida e voltei a embarcar em ônibus de outra linha. Redobrei a atenção quando o ônibus passava pelo bairro da Renascença. Ao achar que poderia estar perto do local, perguntei ao cobrador onde se localizava a avenida Colares Moreira. Ele respondeu firmemente “Aqui!”. Ainda confuso, pois não lera esse nome nas placas, desembarquei. Aquela avenida, porém, chamava-se Luís Pires Saboia Filho, conforme escrito nas placas. Caminhei pela calçada vazia até o ponto de táxi. Nova pergunta sobre a avenida Colares Moreira e nova resposta taxativa: “É esta!”. Mas em todas as placas, eu lia avenida Luís Pires Saboia Filho. Fingi que entendi. Perguntei então onde ficava a loja daquela empresa aérea. Ele pensou, pensou, e respondeu que bastava seguir três quarteirões e encontrar o local. O número procurado era 23. Como poderia ficar três quadras à frente? Agradeci ao taxista e caminhei. Nada encontrei no terceiro quarteirão. Entrei em loja qualquer e refiz a pergunta. A balconista me informou que era meio longe, mas daria para ir a pé. Segui a direção indicada. No caminho, mais e mais placas com o nome de avenida Luís Pires Saboia Filho. Nenhuma das espaçadas construções possuía o número na frente. Quinze minutos de caminhada depois da informação da balconista, encontrei a loja da empresa aérea. Com o número 23 na porta. Atendimento rápido e eficiente. Ninguém na fila. Também pudera! Dois dias antes ocorrera o acidente com avião da empresa no aeroporto de Congonhas em São Paulo. Todos morreram.
Mas como pode o número 23 se situar a mais de dez quarteirões de ambas as extremidades daquela avenida? E como pode a avenida Colares Moreira, conforme endereço obtido na lista telefônica e confirmado pela recepção do hotel, ficar na avenida Luís Pires Saboia Filho? Mistérios maranhenses que nenhum maranhense conseguiu explicar.
O calor abafado e ardido após o almoço me impediu de caminhar livremente a fim de auxiliar na digestão. Mais me sentava nas sombras que propriamente andava. Adiei o passeio às praias para outros dias.
Já à noite, com fome, saí para forrar o bucho em restaurante simpático instalado em casarão barroco de pé direito bem alto.
E parti para uma festa folclórica com os representantes da música, dança e rimos do estado, destacando o Bumba-Meu-Boi. O evento corria nos interiores do Convento das Mercês, centro histórico de São Luís. Reunia milhares de ludovicences, do interior, turistas, que se contagiavam com os ritmos e participavam livremente das danças, dentro do palco, ao lado dos membros dos Bois. Barracas de comes e bebes, roupas, brincadeiras típicas de festas juninas animavam os que preferiam permanecer no pátio do convento ou nas ruas ao redor.
Assisti ao Boi da Lua, do chato sotaque de orquestra, ao comovente e rústico Boi Fé em Deus, do pioneiro sotaque de zabumba, ao Boi da Pindoba, com número excessivo de integrantes para o pouco espaço disponível, do contagiante sotaque de matraca. A atração seguinte, o Boi de Morros, do sempre desagradável sotaque de orquestra, me lembrou de que passava da meia noite. E sotaque de orquestra, nem sem sono!
Pela manhã, tomei ônibus à praia do Calhau. Desembarquei na extremidade sul e caminhei até a parte mais ao norte, observando as perspectivas de onde e como me instalar. Refiz o caminho no sentido contrário pela areia da praia, bem próximo às primeiras ondas do mar.
Calhau jamais foi praia maravilhosa. Plana, com areia dura, sem vegetação natural sobre as dunas atrás da avenida. A longa fila de navios cargueiros no horizonte, prontos para levarem do porto do Itaqui as matérias primas brasileiras para o exterior a preço de banana, comprometia ainda mais a paisagem geral. Mas, como compensação, a praia encontrava-se limpa e quase vazia.
Reencontrei os três paranaenses, com quem passei o dia, ora na barraca de comes e bebes, ora na água do mar. Conversamos sobre tudo, principalmente viagens e futuros destinos.
Durante o retorno de ônibus ao centro, ao cruzarmos a ponte sobre o rio Anil e a baía de São Marcos, me deparei com cena lembrando uma catástrofe climática. Não havia nem sinal de água abaixo da ponte. E assim se mantinha até onde a vista alcançava. Apenas lama preta, lixo visível, a umidade refletida pelo sol. Nada mais. Não é à toa que a baía de São Marcos ganhou fama pela forte oscilação das marés, podendo atingir doze metros.
Algumas amigas maranhenses não apreciavam o centro histórico da própria cidade, consideravam aquela “velharia” feia, renegando as belezas do Maranhão. Enalteciam somente o que a cidade possuía de menos original e menos fascinante, a parte moderna com vida noturna copiada dos grandes centros do sudeste do país.
Assisti no Convento das Mercês ao boi da Floresta, sotaque de matraca, e ao boi de Guimarães, sotaque de zabumba. Este Boi, em determinada toada, cantou versos que defendiam abertamente a pena de morte no Brasil, como forma de acabar com a violência. Ofuscou sem necessidade o restante da própria apresentação.
Acordei inspirado a rever a distante praia de Araçagi, vinte quilômetros do centro de São Luís, depois de cinco anos. As lembranças me traziam imagens de casebres simples, outros mais rústicos, dunas, vegetação de mangue, poucos banhistas, raras barracas de palha invariavelmente vazias e abandonadas.
Ou minha memória falhou ou a praia decaiu vertiginosamente. De paisagem semelhante às demais praias da ilha, Araçagi transformou-se em destino de carros particulares, motos, caminhonetes. Circulavam impunemente pelas areias por entre dezenas de barracas de comes e bebes, cujas caixas vomitavam som alto do forró comercial. Carros e caminhonetes formavam pequenas filas de congestionamento na areia da praia e os mais impacientes buzinavam impunemente. Os veículos estacionavam em qualquer lugar da areia, inclusive rente às pessoas que já estavam lá. Vindo do porta-malas deles, mais lixo descartável em alto volume. Mal se ouvia o som do vento ou das ondas do mar. Os frequentadores entornavam litros e mais litros de cerveja e refrigerante. O avançado estado etílico no meio da manhã prometia horrores para mais tarde, quando eu esperava estar bem longe dali.
Caminhei sem relaxar de uma ponta à outra da praia, antes de embarcar aliviado em ônibus com destino ao exuberante e mal conservado centro histórico de São Luís.
Almocei pelo centro, perambulei, descansei sob a sombra, apreciei o movimento lento e preguiçoso dos pedestres durante o calor da tarde. Entrei no cinema de arte do Projeto Reviver e revi a deliciosa animação baseada em quadrinhos do cartunista Angeli. Contemplei o pôr-do-sol no fundo das águas da baía de São Marcos. Diante de todos esses prazeres, a praia de Araçagi me vinha como incômodo pesadelo da manhã.
Peguei a lotação na área do mercado central para a cidade santuário de São José do Ribamar, no nordeste da ilha de São Luís.
Dei volta leve pela beira do mar. Primeiro a leste, sem praias, mas com ancoradouros, pescadores, barcos, o mar muito azul. Passei sob a estátua de São José e em seguida pelos bares da orla da praia, do lado oeste da cidade. Os garçons disputavam clientes na calçada e até na areia da praia. Subi a escadaria que me levou de volta à praça da Matriz. Caminhei pela calçada com destino ao restaurante conhecido de viagens anteriores.
Caiu bem, pelo local alto, sombreado e ventilado naturalmente pela brisa do mar, pela vista privilegiada da praia. Bebi umas e outras, aguardei o apetite se manifestar e pedi sururu ensopado com arroz e pirão.
A lotação de volta encheu de passageiros com destino à festa no vilarejo de Pau Deitado. Roupas mínimas mal cobriam as mulheres festeiras. Assim que embarcavam, elas perguntavam ao cobrador: “É Pau Deitado?”. Um velho sentado no meio da lotação imediatamente respondia: “Não senhora, aqui é pau em pé mesmo”. Elas gargalhavam e rebatiam debochando: “Esse aí nem levanta mais, coitado”. Dois bancos à minha frente, o casal jovem se agarrava e se beijava animadamente, antes de ele apagar de tão bêbado no colo dela.
O ônibus matinal para Barreirinhas saiu praticamente vazio da rodoviária e assim se manteve. Quatro horas de viagem tranquila, em ônibus novo e bem mais confortável que as lotações, por paisagens nas quais se destacavam casebres de taipa cobertos de palha, buritizais, extensas áreas desabitadas e cobertas de arbustos.
Tentei variar de pousada, mas estavam lotadas. Fiquei na mesma das visitas anteriores. Segui ao restaurante de sempre, agradavelmente localizado na beira do rio, cuja novidade era a desnecessária música ao vivo. Relaxei diante da visão bucólica das margens e das águas do rio Preguiças, enquanto turistas apressados exigiam, sei lá porque, atendimento rápido nos serviços. Embalei duas caipirinhas antes de cair de cabeça na peixada à moda da casa.
Barreirinhas estava cheia de turistas, embora, durante o dia, seguisse a calma e a preguiça que apropriadamente cedia o nome ao rio que a banha. Contemplei deslumbrante entardecer na margem direita do rio, sombreada, tendo à frente a margem oposta iluminada pela luz do sol. A imagem com açaizeiros, buritis, arbustos aquáticos, aguapés, encantava os olhos. Permaneci ali por horas, trocando de lugar apenas para obter diferentes ângulos de visão ou observar o movimento dos barcos recém-chegados dos passeios fluviais.
A prefeitura urbanizou a pequena orla do rio, ampliando a área suspensa, com plataforma de madeira e bancos. Sumiram os ambulantes que vendiam comes e bebes, substituídos por três quiosques de alvenaria. Melhor para os bares e restaurantes em frente ao calçadão. O visual tornou-se mais formal e certinho que o de dois anos antes, sem tirar, contudo, o charme da beira do rio.
À noite muitos se dirigiam à orla do rio Preguiças. Os maranhenses circulavam, conversavam, namoravam, desfrutavam a vida ao ar livre. Os turistas se concentravam mais nos bares, restaurantes e lojas.
continua...

sexta-feira, 15 de julho de 2011

do Pará a Alagoas (parte 2/6)

...continuação
Pessoas de pele escura predominavam entre os maranhenses da região de Santa Inês. Cafuzos e cafuzas exibiam corpos esguios. Recebi desde olhares espantados e temerosos a curiosos e receptivos, entre sorrisos e intenções de trocar palavras. A retração e a cara fechada dos maranhenses logo se desfaziam quando eu tomava a iniciativa de puxar assunto, pedir informações ou simplesmente cumprimentá-los sorrindo. A cidade praticava o salutar costume de colocar as cadeiras na calçada, durante as noites, e conversar com a família e vizinhos, observar o movimento, passar agradavelmente o tempo, sem pressa ou ansiedade. Em bares, restaurantes, até em ambulantes que preparavam sanduíches e salgados nas calçadas, a onipresente televisão lá estava para atrair como imã os olhares bovinos dos frequentadores. Em vez de conversar entre si, observar o movimento, trocar olhares, a maioria se embrutecia diante de tamanho lixo audiovisual.
O percurso de ônibus até Peritoró revelou paisagem aplainada com extensos campos de babaçus, algumas fazendas de gado, baixios alagados, rios e riachos caudalosos. As sedes das fazendas ostentavam mansões enormes em estilo moderno, currais bem construídos e bem conservados. O gado recebia do bom e do melhor. A população que servia como subempregada ou escrava nas mesmas fazendas, por outro lado, vegetava na mais absoluta miséria. O mesmo ocorria para a maioria que se amontoava nos vilarejos e cidadezinhas. Predominavam barracos de pau-a-pique ou taipa, cujos interiores se apresentavam ainda em piores condições. Os animais dos fazendeiros viviam melhor que aqueles seres humanos.
Me refugiei na lanchonete atrás da rodoviária de Peritoró para passar as mais de cinco horas até a saída do segundo ônibus. Mas a lanchonete fechou e me restaram as sujas dependências da rodoviária. O ônibus chegou quase à meia noite. Faltou pouco para o supérfluo ar condicionado congelar os passageiros, a maioria escondida debaixo de cobertores e mantas. Contrastes estapafúrdios do miserável Maranhão. E a empresa Transbrasiliana transportou passageiros em pé em plena madrugada, pratica ilegal e desumana.

Amanheceu na BR-230 sob um céu azul e sem nuvens, em meio ao cerrado do sul do Maranhão, a campos de babaçus e outras oleaginosas. Serrotes e o relevo levemente acidentado empolgaram nas imediações de Buritirama. À medida que se aproximava de Balsas, a devastação do cerrado se acentuava com presença das monoculturas envenenadas de agrotóxicos. Voltadas unicamente para exportação, as monoculturas de soja, além de arrasarem a natureza, envenenavam o solo, empregavam pouco e não investiam socialmente na região. Sotaques e rostos sulinos dos senhores da terra despontavam na paisagem humana.
Desembarquei na podre rodoviária de Balsas.  A minoria milionária que mandava e desmandava por ali só andava em caminhonetes cabines duplas. Os pobres e miseráveis que se esmagassem nas rodoviárias e ônibus lotados. Só o banheiro feminino funcionava para homens e mulheres na rodoviária, imundo e sem papel. Eu teria que aguardar horas o terceiro transporte. Qualquer coisa seria melhor que me hospedar em Balsas, o centro do agronegócio exportador e encravado na miséria do sul do Maranhão. Empurrei sanduíche com ovo e vitamina de goiaba na padaria do outro lado da rodovia que cortava a cidade. Pelas ruas da cidade, publicidade das transnacionais de sementes, agrotóxicos, equipamentos agrícolas, alimentos impostos pelos oligopólios.
As quase quatro horas de percurso da lotação ilustraram sobre o que tem se tornado o sul do Maranhão. Pela rodovia estadual asfaltada, o belíssimo cerrado natural era devastado por fazendas de gado e, sobretudo, pela monocultura extensiva de soja para exportação, geralmente tendo à frente latifundiários e capitalistas do sul do Brasil, os “laranjas” das grandes transnacionais de alimentos. Em mais de um ponto avistei a marca Bunge Alimentos. Em propriedades a se perderem de vista no horizonte, peões borrifavam agrotóxicos sem as mínimas condições de segurança para eles e pessoas próximas. Minúsculos e paupérrimos vilarejos situados ao lado de enormes silos e armazéns forneciam a mão de obra barata ou escrava ao grande capital.
Ao norte de Tasso Fragoso, pequena, simpática, com o rio Parnaíba ao lado, o relevo passou a se acidentar repentinamente. Serrotes, morros, elevações chapadas, alongadas ou não, de inúmeros formatos e tamanhos, surgiram em áreas preservadas do cerrado, em cujos vales estupendos buritizais se impunham na paisagem. Ao sul da cidadezinha o relevo ameaçou se suavizar, mas as chapadas reapareceram pouco antes de Alto Parnaíba, com a maioria das ruas não pavimentadas, a nada menos que 1.250 quilômetros da capital São Luís.

Jantei peixe frito com farofa e salada, acrescido de arroz e ovo frito. Agora sim eu me sentia em Alto Parnaíba, extremo sudeste do Maranhão.
Formigas grandes e assanhadas perambulavam pelo quarto do hotel básico. Matei várias até me cansar e desabar de sono na cama de colchão macio disposto sobre o concreto.
Sendo o único hospede do hotel, a funcionária vinha de casa apenas para me presentear com farto e delicioso café da manhã. Destaque para a jarra de suco de goiaba e a jarra de suco de manga. Devorei gota por gota de cada uma delas.
Depois da praça principal de Alto Parnaíba, a cidade descia suavemente em direção ao rio Parnaíba. Nas imediações da margem do rio erguiam-se construções antigas do núcleo original da fundação da cidade. Cheias ou ameaças de cheias do rio deslocaram o centro e os novos bairros para longe dali. Atravessei as águas barrentas das últimas chuvas no Parnaíba, até o outro lado, Santa Filomena, já no estado do Piauí. A travessia era realizada por pequenas balsas manuais. Apenas um sistema de cabos de aço e polias guiava a embarcação frente à correnteza das águas.
Santa Filomena era menor que Alto Parnaíba. Sob o sol de rachar mamona circulei pelas ruas da cidade, quase todas não pavimentadas. Assisti parte da sessão extraordinária da câmara de vereadores, com a presença do prefeito, transmitida por alto-falantes para toda a cidade e pela emissora de rádio municipal. A pauta seria as constantes faltas de água e energia elétrica em Santa Filomena e o não repasse à prefeitura do valor recolhido das tarifas pela companhia estadual de energia.
Dos altos de Santa Filomena avistei as serras e morros chapados além de Alto Parnaíba. Mais distantes ainda, as chapadas concentradas na direção de Tasso Fragoso.
Para meu alívio, a despeito da presença de sujeitos do sul do país em monstruosas caminhonetes, dos armazéns e silos na entrada de Alto Parnaíba, da região cada vez mais devastada social e ambientalmente pelas monoculturas para exportação, não notei sinais em ambas as cidades de plantações daquilo. Que assim continuasse. As populações necessitavam de investimentos sociais e não de destruição, envenenamento do ar, águas e solos, subempregos, trabalho escravo. Os moradores nas cercanias dessas ações criminosas sentiam os efeitos do uso intensivo de agrotóxicos junto à derrubada do cerrado original. Eram riachos ressecados, poluídos, aumento das temperaturas.
Caminhei pela a estrada de chão para Lizarda, estado do Tocantins, com a intenção de me aproximar dos morros e serras chapadas de Alto Parnaíba. A estrada revelava movimento esparso de motos, veículos pequenos e, mais raramente, carretas imensas transportando os produtos de exportação das monoculturas quilômetros adiante. Acessei estradinha vicinal, estreita, pouco ou nunca usada, me levando exatamente ao pé de um conjunto de morros. Em meio ao cerrado maranhense, me embrenhei para apreciar os paredões irregulares, erguidos em diferentes formatos e tamanhos. De tonalidade ocre, aquelas formações impressionavam pelas escarpas, escavadas em grutas incertas, ou maciças e uniformes. Cerrado mais ralo e menos desenvolvido aparecia nas encostas graduais e na plataforma dos topos. Mutucas não davam sossego um segundo sequer. Surgiam do nada e atacavam às dezenas, centenas, milhares, com picadas para lá de ardidas, das quais brotava sangue na certa. Avancei mais pela estrada de chão e tomei o ramal sem movimentação alguma de veículos. Os morros, de outros formatos, desenhavam mais cenários interessantes.

Retornei horas depois a Alto Parnaíba por outro acesso, passando por bairros miseráveis, cheios de barracos e casas em condições desumanas. Parei na praça principal e matei minha sede com litros de água.
E à noite a cidade se agitava, sobretudo ao redor da praça principal. Futebol de salão na quadra, turminhas circulando, bares e lanchonetes com bom movimento. Motos passando a toda velocidade, sem falar naqueles monstrengos das caminhonetes cabines duplas, todas muito parecidas, funcionando como uniformes de ostentação do agronegócio. 
Explorei o sentido sul da cidade, via a estrada de chão que iria até o distrito de Curupá, com relevo ondulado cortado por pequenos vales de córregos que desembocavam no Parnaíba. Peguei trilha estreita sobre o solo empedrado e ferruginoso. Bem depois dei de frente com o vale alargado e, mais adiante, o imponente serrote chapado, com a escarpa rochosa exposta de coloração ocre. No fundo do vale, mais lajedos e pequenas paredes avermelhadas. A trilha prosseguia em direção à base do serrote. O sol parecia explodir a cabeça que, mesmo com o chapéu, pedia trégua.
Retornei à praça principal da cidade após muitas horas, cansado, com o corpo pegando fogo e ensopado de suor, morto de sede, porém realizado por mais uma exploração pelas quebradas locais.
Placas de veículos do Paraná, Rio Grande do Sul, Tocantins, Goiás, prevaleciam sobre as de Alto Parnaíba, evidenciando polo de turbulências e incertezas no curto prazo. Os integrantes desses veículos se comportavam de maneira selvagem, caindo em cima das meninas locais, quase sempre menores de idade, como predadores das cavernas. Certamente praticavam a pedofilia impunemente e incentivavam a prostituição infantil. Porém, tudo por uma nobre causa, a devastação do bioma cerrado, o aprofundamento da miséria e, claro, o crescimento do agronegócio no sul do Maranhão.
Atravessei o rio Parnaíba e permaneci em Santa Filomena à espera do ônibus na pracinha da beira do rio. A lata velha, sem os para-choques, apareceu e, assim que estacionou, foi um tumulto para entrar e sentar em meio a empurrões. Depois de colocar minha mochila no bagageiro inferior, não havia mais nenhum assento livre. Ou tinha gente sentada neles, ou havia sacolas ou crianças guardando lugares para passageiros que embarcariam na saída de Santa Filomena. Me sentei em banco do corredor após afastar a sacola de alguém. Funcionou. Havia reserva para apenas um senhor que embarcou mais adiante. Exceto dois rapazes que se sentaram sobre bagagens no fundo do ônibus, todos acabaram por conseguir a vaga tão desejada.

Foram cinco horas para percorrer os cerca de 130 quilômetros de estrada de chão, bastante danificada, sobretudo na segunda metade. A paisagem encantou pela beleza, tanto pelo cerrado, como por mais e mais morros chapados. A estrada cruzou transversalmente a serra, sendo a maior parte do percurso em relevo acidentado, entre moderados sobes e desces. O deprimente ficou por conta dos trechos do planalto ocupados pelas monoculturas de arroz e soja, em imensas propriedades griladas, a perder de vista no horizonte, devastando o cerrado original, atacando o solo com quantidades absurdas de agrotóxicos borrifados de avião. Daí os riachos condenados ou secos definitivamente, a expulsão da flora e fauna nativas.
Depois de passar por Monte Alegre, desembarquei em Gilbués no começo da noite. O segundo ônibus passaria depois da meia-noite, sem saber se haveria ou não lugares disponíveis, não parando na rodoviária e sim na praça de frente para a BR-135 que cortava a cidade. O vendedor da empresa que operava a linha sugeriu que eu pegasse ônibus na manhã seguinte. Acabei por aceitar a indicação de hotel, caríssimo para um quarto minúsculo e sem banheiro privativo.
Após o café da manhã, o rapaz da pousada me levou de moto, sem capacete, até a rodoviária. E me cobrou, é claro. Na rodoviária encontrei muitos dos que viajaram comigo no ônibus desde Santa Filomena no dia anterior, aguardando para seguir a Brasília. Não encontraram vagas em nenhum dos ônibus que passaram durante a noite e madrugada. Uns ainda conseguiram dormir num hotel qualquer, mas a maioria passou todo o tempo ali mesmo nas dependências espartanas da rodoviária.
continua...