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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

do Acre ao Maranhão (parte 5/7)

...continuação
Na margem guianense senti-me no meio do nada, sem ruas, casas ou qualquer construção que lembrasse cidade ou vila. Meia dúzia de guianenses de cor de piche sorria sob a sombra fresca da mangueira. Segui em estrada de terra e cascalho. Logo surgiram construções esparsas e velhas em meio à vegetação. Mais à frente, a delegacia de policia, campo de futebol, outras casas. Tudo espalhado e em completo silêncio. Seguindo a rua de terra, sinalizações em inglês, o hospital precário, mais casas de onde se ouvia reggae, curtos trechos de asfalto.
O calor e o sol do meio-dia estavam impiedosos. A sede bateu forte. Prossegui a caminhada e percebi que Lethem não era nada mais que aquilo. Construções aqui e ali, ruas de terra, poucos prédios públicos, espaços vazios, com muito mato crescido, árvores frondosas, poucos e pequenos mercados, silêncio, preguiça, calor, muito calor. Um policial cumprimentou-me em frente à delegacia e, em inglês complicado, tentamos conversar. Não passou de três frases. Quase perguntei que língua era aquela. Embarquei na voadeira de volta a Bonfim.
Na margem brasileira do rio, experimentei o refrigerante guianense de gengibre, fortíssimo, que me deixou com a garganta arranhada. Ataquei o pequeno mercado nas redondezas. Comi e bebi o que havia nas prateleiras. Sentei na cadeira defronte ao mercado. Vazio, silêncio, nada e mais nada. Era o fim em Bonfim. Montanhas mais altas despontavam do lado guianense. Sentei sem ser convidado no posto de vigilância sanitária. Aceitei o açaí oferecido pelos simpáticos funcionários. Conversei bastante até a chegada do ônibus para me buscar.
Em Boa Vista escolhi a mesma barraca para jantar, desta vez, por ser sábado, com mais mesas montadas e muito mais fregueses. As praças estavam mais cheias e animadas em noite estrelada e quente. Eram famílias com crianças, casais, jovens, comendo, passeando, sentados nos bancos, paquerando, conversando ou simplesmente observando. A maioria nada consumia e divertia-se bastante ao ar livre naquela amplidão bem aproveitada. Espaço público e democrático.
Terminei o terceiro livro da viagem. Fui convidado à caldeirada na casa de moradores. Passamos antes em boteco muito simples, frequentado por nordestinos, especializado, entre tantas coisas, nas cachaças aromatizadas com raízes e frutas. A aromatizada com cururu-curural era seca, não muito forte e de sabor divino.

A casa deles era ampla, térrea, aconchegante e com piscina. O dono logo se embebedou. De nada adiantaram os mergulhos na piscina. Os lábios amoleceram, as pernas bambearam, não falava coisa com coisa. A esposa foi obrigada a ampará-lo até o quarto para nunca mais reaparecer. A caldeirada de tambaqui, a cachaça mineira e a pimenta estavam deliciosas. Os senões ficaram por conta da separação entre homens e mulheres. Logo na chegada de um dos casais, o homem ordenou à mulher:
“fique lá com elas enquanto fico aqui com meus amigos”.
Todos pareciam levar esse comportamento à risca.
Boa Vista, entre outras qualidades, guardava uma de dar inveja aos países assim chamados de civilizados e também de calar a boca de muitos que insistem em menosprezar, por pura ignorância, tudo que é brasileiro. Havia faixas de pedestres, sem semáforo, nas grandes avenidas. E todos os motoristas paravam para os pedestres atravessarem, não importando a quantidade de pessoas, se jovens, velhos, bonitos, feios, homens ou mulheres. Nem era preciso pisar no asfalto. Bastava posicionar-se na calçada que logo os ônibus, carros, motos, caminhões, paravam no mesmo instante.
A tarde em Boa Vista, com o por do sol, foi belíssima. As cores em vários matizes impressionaram no céu com poucas nuvens.
O ônibus com destino a Manaus partiu à noite, quase vazio, muito gelado pelo exagero do desnecessário ar condicionado. A malha, sempre deixada no fundo da mochila, foi oportuna e bem aproveitada.
O sol sobre o concreto e asfalto de Manaus provocava efeito insuportável durante o dia. A disputa pelas raras sombras da cidade era acirrada e, com menos de um minuto de caminhada, o suor derramava-se pelo corpo todo.
Garimpei livros insistentemente num sebo sem encontrar grandes coisas e sim dezenas de piuns que me comeram vivo. Escolhi dois, entre eles o razoável A Estrela Sobe de Marques Rebelo, autor de O Trapicheiro, A Mudança, A Guerra Está Em Nós, volumes pertencentes à excelente trilogia O Espelho Partido.
O entardecer no porto de Manaus, a Escadaria, foi espetacular. À noite no largo de São Sebastião houve recital de música brasileira, interpretado por grupo extremamente suave no tocar e cantar. O repertório era bonito e variado. Enquanto isso, na casa de sucos das proximidades, dois estrangeiros na faixa dos trinta anos analisavam minuciosamente a carta topográfica em alta resolução da região amazônica. Turistas?

O ônibus partiu da plataforma da rodoviária lotado e com o ar condicionado absurdamente gelado. Os passageiros vestiam casacos grossos, gorros, cobertores, e outros objetos bem típicos da região. Sítios e chácaras para finais de semana, bonitos igarapés e lagos com águas escuras marcaram a paisagem até Itacoatiara. Chegada e embarque imediato em lancha rápida rumo a Maués.
Após a partida foi servido o almoço em embalagens térmicas de alumínio e refrigerantes em copos descartáveis. Coloquei o copo entre os pés e tratei de engolir logo a comida para não derrubá-la. O trajeto seguiu pelo rio Amazonas, paranás, as águas bonitas e escuras do rio Maués. A forte tempestade não afetou a estabilidade da lancha. A tranquila viagem se encerrou no porto de Maués ainda com luz. Bares e movimento agitavam o porto e a margem do rio. A praça da matriz de Maués enfeitava-se para a festa do Divino.
À noite, sobretudo após a missa celebrada na igreja moderna, os moradores da cidade e comunidades vizinhas afluíram à praça. As barracas de comes e bebes eram muito procuradas, as arquibancadas ocupadas para assistir às atrações variadas da noite no grande palco. Pagode, canções religiosas, canções de rock cantadas em inglês, coreografias estudantis e até bingo beneficente premiando os fiéis com moto e computador. A população participava com entusiasmo no preenchimento das cartelas, de pé, nas mesas, nos bancos da praça ou até sentados na borda do jardim. A maioria dos moradores da cidade revelava fortes traços indígenas.
O rio Maués estava cheio e as praias submersas sob as águas negras e límpidas. A cidade oferecia extensa orla. A antiga mais próxima ao porto, e a nova, mais distante, longa e urbanizada com calçadão, quiosques de comes e bebes. Apenas estreitas faixas de areia úmida apareciam nessa época, usadas para lavagem de roupas e eventuais banhos. Os rojões e bombas não paravam de estourar pelas ruas e casas, em função das comemorações da festa do Divino.
Durante a deliciosa caldeirada de jaraqui na beira do rio Maués, pude reparar no tipo de jornalismo praticado na rádio da cidade. Locutores da emissora entrevistavam o prefeito e o vice-prefeito. As expressões usadas nas perguntas eram invariavelmente:
“querido prefeito”, “grande prefeito de Maués”, “alguns elementos o caluniam com...”, “os derrotados tentam desmoralizá-lo...”.
Entre as respostas dos entrevistados, eles adicionavam:
“parabéns prefeito...”, “Maués e todos os mauesenses agradecem seu gesto...”, “o povo desta cidade jamais esquecerá o que fez por ela...”, “sua grande obra entrou para a história...”,
E outras pérolas da imparcialidade jornalística.

O prefeito e o vice não se cansavam de afirmar durante a falsa entrevista que eram pessoas humildes e vieram trabalhar para pessoas humildes como eles. Em trecho antológico o prefeito disse:
“jamais me rebaixarei ao nível de meus acusadores...”, “não quero polemizar como eles...”, “eu não faço acusações, eu trabalho pelo meu povo...”, “eu sirvo ao povo da minha cidade e jamais direi que há, entre meus acusadores, demitidos por roubo...”, “não quero entrar no jogo de calúnias sujas e pessoais e dizer que um deles veste calças durante o dia e adora estar de saias durante a noite...”.
No final do longo programa, o prefeito e o vice-prefeito agradeceram o convite da rádio e sentiram-se satisfeitos e orgulhosos por responderem a todas as perguntas dos entrevistadores, reafirmando que elas não os amedrontavam, pois nada tinham a esconder. Os tais locutores da rádio de Maués, encerraram as transmissões com as declarações:
“este programa foi gravado para entrar para a história do jornalismo da região”, “o depoimento espontâneo de um grande líder foi registrado para a história”.
O vendedor gaúcho a trabalho na cidade insistia que os homens deviam dar presentes ou agrados em retribuição ao carinho recebido das mulheres, sobretudo as garotas mais jovens. Diante do argumento da indução à mendicância e à prostituição, arrematou:
“não devemos guardar o nosso dinheiro e sim compartilhá-lo com os necessitados”.
A festa do Divino encerrou-se à noite com grande procissão, seguida de missa na catedral. Muitos acompanharam as imagens de santos, santas, entre rojões, rezas. Os discursos eram excessivamente religiosos e sem qualquer conteúdo social, casando perfeitamente com a opressão política e o clientelismo. O padre não se cansava de louvar o prefeito e o vice, o deputado federal, o deputado estadual, como grandes cidadãos ligados ao espírito santo. Durante o bingo beneficente a cinco reais a cartela, o locutor derramava-se em elogios e agradecimentos aos mesmos quatro políticos citados. 
Após o final das celebrações da festa do Divino, a cidade voltou à rotina do dia-a-dia. Calmaria, silêncio e tranquilidade. A exceção ficava por conta da feira e do mercado, agitados como sempre. A nova orla se tornava ideal para passeios noturnos, bons papos ou simplesmente relaxar e ouvir o silêncio. As ruas recebiam cadeiras nas calçadas, as conversas eram em voz baixa, sem deixar o ambiente triste.
Depois de longa espera, chegou o barco com destino a Parintins. O vendedor gaúcho embarcou também. A companhia rendeu bons papos, a despeito do apoio dele à pena de morte, a crença em milagres evangélicos, o machismo metido à filantropia. O barco partiu sob a forte chuva. Serviram sopa saborosa acompanhada de suco e goiabada. Diversos outros hóspedes do hotel também embarcaram, um paranaense, um mineiro e outro gaúcho. Todos residentes na Amazônia.
Era noite de jogo da seleção contra a Argentina pelas eliminatórias. A tripulação tentou sem sucesso acertar a antena do barco. As curvas do rio e a má instalação da televisão não permitiam. Vários desceram na parada na cidadezinha de Boa Vista de Ramos, inclusive o comandante e os tripulantes. Sentamos ao redor de mesas ao ar livre, espalhadas na calçada e rua, em frente ao bar. Logo após o apito final voltamos ao barco para seguir viagem.

A enorme lua cheia esteve presente durante a noite toda, iluminando o caminho pelo rio e permitindo enxergar ambas as margens.
O barco atracou antes do amanhecer no porto de Parintins. Encontrei pousada central, pequena, simples e ainda barata, pelo menos até próximo do festival.
A cidade de Parintins, situada em ilha na margem direita do rio Amazonas, causou bom impacto à primeira vista, apesar do esgoto a céu aberto nas guias da maioria das calçadas. A cidade estendia-se ao longo de orla fluvial antiga, estreita e muita aconchegante, onde se alternavam pequenas praças com bancos sob as árvores, poucos bares, trechos sinuosos e tranquilos, a partir dos quais se inclinavam os paredões e gramados até as águas. Dos bancos sob a sombra refrescante das árvores da orla, avistava-se toda a amplidão do rio Amazonas, especialmente à montante, de onde apreciam os barcos vindos de Manaus. Aqueles minúsculos pontos no horizonte atracariam em Parintins somente duas ou três horas depois. As avenidas centrais pecavam pela falta de mais sombra devido à injustificável mutilação geométrica das árvores.
A cidade era praticamente dividida em duas metades iguais a fim de separar os seguidores de cada boi. Os ensaios para os desfiles dos três últimos dias de junho ocorriam nos currais situados em lados opostos da cidade. Os orelhões apresentavam formato de boi nas cores vermelha ou azul, representando os dois blocos rivais de boi-bumbá, em quantidades iguais para não desagradar ninguém. Tudo na cidade subiria assustadoramente de preço até o auge da festa. Diárias de hotéis seriam multiplicadas por cinco ou dez. A população explodiria, o porto entupiria de embarcações. Muitos dormiriam nos barcos e o vaivém nas margens do rio se tornaria caótico.
Boa oportunidade de ouvir e ver as coreografias, letras e ritmos em ensaio no curral do boi Caprichoso. A participação e o entusiasmo do público eram intensos. A quadra lotou rapidamente. Todos cantavam e dançavam juntos com o bloco. O ritmo em nada se parece com o ascendente bumba-meu-boi do Maranhão. A batida repetitiva lembrou as fanfarras escolares. As coreografias, muito certinhas e mecânicas, assemelham-se ao axé baiano ou às das dançarinas dos fundos de palco dos programas de televisão. As letras giram em torno de exaltações à cultura regional, como nos sambas enredo, e de pilhérias ao bloco adversário. O puxador oficial do tema do ano animava a galera na quadra com frases do tipo:
“vamos levantar e balançar a mãozinha...assim...”, “vamos tirar o pé do chão...”, “que galera mais linda...”, “olha o Caprichoso aí, gente...”.
Barracas de comes e bebes foram montadas do lado de fora do curral. Na parte interna, apenas produtos do patrocinador oficial, a transnacional estadunidense coca-cola.
continua...

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

do Acre ao Maranhão (parte 4/7)

...continuação
Na cidade de Tabatinga, no alto Solimões e divisa tríplice entre Brasil, Colômbia e Peru, me hospedei em hotel de frente para a avenida de ligação entre o Brasil e a Colômbia. Seguindo em frente, após passar ao lado de pequeno e discreto obelisco, mais algumas barracas de troca de moedas, eu estava na cidade colombiana de Letícia. Apesar de postos de fiscalização de ambos os lados ninguém era parado. Letícia possuía o mesmo traçado de ruas, porém mais arborizada, alegre e movimentada. O que não faltava era bar, restaurante, lanchonete, comidas vendidas nas ruas. Sempre alguém estava comendo algo do lado colombiano.
As terras indígenas dos Tikuna estendiam-se na região de Tabatinga e além, Brasil, Colômbia e Peru. De pele escura e rostos grandes, eram populosos, bastante organizados com associações e museus.
Tomei a lotação fluvial até Benjamim Constant, situada na margem do rio Javari. A cidade já foi a maior e mais importante cidade do alto Solimões. Ainda assim mantinha razoável movimento no mercado municipal e comércio em geral pelas ruas irregulares do centro. O antigo prédio da prefeitura, depois ocupado por agência bancária, ainda ostentava o nome original acima da porta de entrada. A catedral, como em toda a região, era moderna, as casas de madeira, sobretudo as afastadas do centro. A cidade adormecia na hora da sesta e não se ouvia um som sequer.
Subi na voadeira com destino a Islândia, no lado peruano. A água não parava de entrar na canoa. O barqueiro mais jogava água fora com a pequena vasilha de plástico do que pilotava. A peruana Islândia era pequena e interessantíssima, a despeito de toda miséria e abandono da população. Todas suspensas a cerca de três metros do solo, as casas de madeira, mais as raras de alvenaria, interligavam-se através de passarelas, também de madeira, com exceção das duas principais e mais longas, de cimento e com corrimão. O conjunto formava um traçado quadricular e, pelas passarelas, era possível percorrer toda a zona urbana, casas, escola, hospital, posto policial, órgãos públicos. Muito isolada do resto do Peru e totalmente dependente do precário transporte fluvial, era abastecida na maior parte pelo Brasil e Colômbia. Os rádios dentro das casas anunciavam, em espanhol, promoções das lojas brasileiras de Tabatinga e Benjamim Constant.

No barco de volta a Tabatinga troquei ideias com peruana radicada no Brasil. Comerciante de produtos de pesca em Tabatinga, ela criava sozinha as duas filhas e namorava um brasileiro residente em Manaus. Enquanto conversávamos, ela cortava e enrolava as malhadeiras, de fios muito finos de nylon.
Muitos colombianos estabeleceram-se em Tabatinga, sobretudo nos restaurantes, servindo comidas saborosas e variadas, brasileiras e colombianas. À noite, em local do gênero, servi-me de delicioso tambaqui assado, sem falar nas caipirinhas bem preparadas.
O troco, em diversos estabelecimentos comerciais, era dado em reais e pesos, não importava a moeda do pagamento ou a nacionalidade do cliente.
Letícia em quase tudo superava Tabatinga. Muito mais arborizada, a cidade permitia o crescimento livre e natural das árvores do canteiro central e nas calçadas laterais, tornando as ruas mais sombreadas, mais frescas e mais bonitas. Não se viam esgotos a céu aberto, as casas mais bem aparentadas, as praças inúmeras e amplas, sempre verdes e refrescantes. O comércio mais apresentável, com diversos bares, padarias, casas de lanches, restaurantes bem montados e aconchegantes, sempre cheios nos finais de tarde para beliscar algo típico, sorvetes ou sucos, beber com os amigos. Nada ostensiva, a paquera rolava solta sem que as mulheres caíssem na vulgaridade. Os prédios públicos eram de melhor aspecto, assim como os funcionários e a população em geral. O carro de som circulava convocando a população para a semana cultural, com ênfase para crianças e jovens. A programação conteria exibição de vídeos e filmes, exposição de artes plásticas, acesso livre a biblioteca municipal, leituras de livros.
De volta a Tabatinga, pela avenida da Amizade, constatei que apenas o canteiro central exibia árvores, desgraçadamente mutiladas em ridículos formatos arredondados, como acontece em diversas cidades brasileiras. Poucas opções de bares e restaurantes, sempre feios e sem comidas típicas, exceção feita aos de colombianos. Os machões predadores embriagavam-se de cerveja e chamavam como animais as mulheres que passavam. Nada de sucos, sorvetes ou produtos típicos da rica Amazônia brasileira. Somente refrigerantes, cervejas, salgadinhos de pacotes, entre outros venenos de Manaus ou de regiões distantes do Brasil, via grandes empresas nacionais e transnacionais. E o carro de som convocava a população para a apresentação musical de sucesso descartável no clube noturno, destacando o farto estoque de cerveja.
E a Colômbia também era país da América, miserável como o Brasil, injusto socialmente como o Brasil, dependente e explorado pelo imperialismo estadunidense como o Brasil, e, ao contrário do Brasil, em desvantagem pela longa guerra civil. O vigia noturno do hotel, brasileiro que morou e trabalhou em Letícia por vinte anos, concordou e ainda garantiu que, lá, os salários eram maiores e os preços dos gêneros essenciais menores.
E dormi cedo em minha última noite antes de voltar a Manaus.

Manaus continuava um forno. Concreto, cimento, asfalto, pouco espaço livre e, sobretudo, pouquíssimo verde dão nisso. Não sem motivo a cidade ostentava elevadíssimos números de aparelhos de ar condicionado por habitante. Manaus não era quente por natureza, mas ficou quente pela estúpida urbanização.
O largo de São Sebastião em Manaus, ao redor do teatro Amazonas, estava sendo restaurado e revitalizado no sentido de resgatar a história do início do século XX, quando a indústria da extração da borracha e a cidade viviam o apogeu. Os ambulantes, pontos de táxi, estacionamentos ao redor do teatro foram retirados e, no lugar, construíram-se calçadões. Ainda havia muito que fazer nas ruas que circundavam o largo, mas já era bom começo para encarar a cidade com mais carinho.
E para manter a atmosfera saudosista do local, havia o ciclo de óperas, encenadas dentro do teatro e também no largo, gratuitas e ao ar livre. Centenas de cadeiras, telões, barracas de comidas ocupavam o largo. A ópera iniciou com duas horas de atraso devido ao atraso do próprio governador do estado, cuja chegada foi marcada por vaias e aplausos. As vaias venceram pela intensidade e insistência. Poucas desistências e a maioria do público, bastante variado, assistiu a apresentação com atenção. Aplaudiu com entusiasmo os atores e toda a equipe dos bastidores.
Serestas com os músicos vestindo roupas típicas, carruagens e outros objetos do fim do século XIX e início do XX, ocuparam o canto do largo de São Sebastião nas outras noites. Manaus não se cansava de cultivar o passado glorioso. Mas que corrigisse os brutais erros cometidos na época, quando apenas uma ínfima minoria foi beneficiada pela borracha, e que o presente fosse glorioso para todos.
O avião regional da empresa Rico que fizera o voo de Tabatinga a Manaus dias antes caíra pouco antes do pouso final. Saíra lotado e não houve sobreviventes. O avião partiu-se em mil pedaços e ainda não se divulgara a causa do acidente. Denúncias de funcionários e de familiares dos mortos contra e empresa Rico surgiram nos jornais, entre a falta de manutenção das aeronaves, empregados mal treinados e desmotivados pelas más condições de trabalho, dolo administrativo.
O ônibus diurno para Boa Vista saiu no horário, com vinte por cento de ocupação e ar condicionado exageradamente gelado. O destaque positivo da paisagem da estrada aconteceu, como não podia deixar de ser, durante a travessia da reserva indígena Waimiri-Atroari. Dentro da reserva, com a floresta praticamente intacta, animais silvestres cruzavam a estrada calmamente, araras sobrevoavam e indígenas eram vistos em trajes urbanos, apenas com o arco e a flecha. Fora da reserva, o caos da devastação causada pelo modo de produção e consumo desenfreados. Vídeos repugnantes e violentos eram transmitidos no ônibus. Barulhentos, machistas, preconceituosos como a maioria da produção estadunidense. Verdadeiros manuais para assassinos e terroristas.

Quem é o verdadeiro selvagem? Os indígenas da floresta preservada da reserva, ou a civilização ocidental da destruição socioambiental e da violência gratuita dos filmes?
Chegada à noite na rodoviária de Boa Vista. Saí para enganar o estômago e voltei no momento que iniciava forte temporal. No hemisfério norte a estação chuvosa estava apenas começando. Desde minha visita quase cinco anos antes, Boa Vista continuava calma e com pouco movimento, mesmo na zona central onde se localizavam os prédios públicos, bancos e o comércio.
Durante a noite seguinte passeei em interessantíssima avenida. Dois ou três quilômetros de canteiros centrais que, de tão largos, mais pareciam quarteirões. Serviam em toda a extensão como área de lazer, calçadões, quadras de areia e cimento para a prática de diversos esportes, parques infantis, palcos para apresentações artísticas, bares, restaurantes, sorveterias, pista de kart, gramados e árvores, chafariz e muita área livre para a população fazer o que bem entendesse. Na extremidade sul havia barracas com comidas típicas paraenses e nordestinas. Tudo muito organizado e limpo. Os moradores agradeciam e utilizavam bastante o local. A extremidade norte e mais afastada do centro era mais sombreada e aconchegante, para deleite daqueles em busca de paz e natureza.
Boa Vista comportava muitos migrantes, nordestinos, sobretudo maranhenses, e sulistas. A marca indígena, porem, era forte. Roraima reservava significativo percentual de unidades de conservação e áreas indígenas. Era grande a discussão em torno da demarcação do território indígena Raposa Serra do Sol, como área única e contínua no nordeste do estado. A demora na homologação final exaltava os ânimos de ambas as partes, sobretudo dos latifundiários e empresários contrários a esse direito legítimo.
Andei do centro até a distante estação rodoviária. Estiquei até a margem do rio Branco, alto e sem praias. Entrei em restaurante típico cearense, com vista para o rio. A agradável trilha sonora, na base de Fagner e Belchior, o cardápio com destaque para a carne de sol na chapa acompanhada de baião-de-dois, o calor humano dos garçons não deixava dúvidas das origens do estabelecimento. Boa comida, mais as caipirinhas bem temperadas ainda que coadas, vistas relaxantes do rio Branco valeram o dia.

Comprei passagem para a cidade de Bonfim, na fronteira com a República da Guiana. Durante a espera para o embarque, aprendi que a rodoviária oferecia transporte regular de Boa Vista para a cidade de Dona Maria (Tesão). Será que a Dona Maria ainda fazia jus ao subtítulo? Os ônibus partiam diariamente, com paradas em Pium e Mata Burro. Porém não era a mesma linha que ia até a cidade de Puxa Faca.
O ônibus saiu com poucos passageiros. O motorista, após passar pela rodoviária de Bonfim, bastante afastada da cidade, perguntou o destino dos passageiros e os levou ao local desejado. Entrega em domicílio. Fiquei na última parada, local da balsa e da travessia oficial de fronteira. Combinei com o motorista do ônibus para me buscar à tarde para o retorno à capital. Até parecia veículo fretado.
Desci a rampa e embarquei na voadeira no rio Jucutu, para no minuto seguinte desembarcar na outra margem, cidade de Lethem, República da Guiana. Em ambas as margens, nada além de caixas de isopor com refrigerantes, a sombra e o grupo de negros, bem pretos, conversando com taxistas brasileiros em dialeto, formado da mistura de português, inglês, línguas indígenas e africanas.
continua...