quinta-feira, 23 de abril de 2026

Rússia (ferrovia Transiberiana), Mongólia e China (parte 7/8)

 ...continuação

Pela manhã embarque no metrô de Beijing para trajeto de dezesseis estações, até o ponto das ruínas do antigo Palácio de Verão dos imperadores.

Praticamente nada mais restava em pé. Os civilizados regimes da Inglaterra e França saquearam e destruíram os pavilhões, igrejas, mesquitas, templos, fontes, tudo. Era o início do século da humilhação do povo chinês pela tirania da Europa. Não por coincidência não havia ocidentais desses países em visita aos escombros decorrentes daqueles crimes cometidos. Os chineses, no entanto, de todas as idades e regiões do país, sobretudo crianças escolares, visitavam o local, para aprender, relembrar, jamais esquecer o que significaram, e ainda significam para outros povos, o imperialismo estadunidense e europeu.

Em ônibus urbano, cuja passagem equivalia a menos de um real, para a ruazinha gastronômica e almoçar bem o pato laqueado, macarrão com legumes, suco e chá bem quente.

Dali breve caminhada ao novo Palácio de Verão. Os imperadores construíram lagos, colinas, templos, pavilhões, residências, em área extensa, a perder de vista. O local estava entupido de turistas, chineses e também os estrangeiros que não foram às ruínas do antigo Palácio de Verão para aprender sobre os crimes dos regimes dos respectivos países.

De maneira geral, os chineses, crianças, idosos, todos, observam, sorriem, cumprimentam. Povo feliz vivendo em país feliz.

Na manhã seguinte visita ao mausoléu de Mao Zedong na praça Tiananmen. Foram três horas e meia em várias filas por conta da verificações de passaporte, controles de segurança para os objetos trazidos no corpo, com direito a apalpadelas na frente, atrás, membros superiores, membros inferiores, quadril, centímetro por centímetro, das roupas e do corpo. E em repetidas vezes, em filas diferentes. Por fim, a última e novamente imensa fila para acessar o mausoléu propriamente dito, a fim de ver o corpo embalsamado do líder da revolução chinesa Mao Zedong.


Mais deslocamentos pelo eficaz, eficiente e extenso metrô de Beijing (Pequim). Desembarque na estação construída para a vila olímpica das Olimpíadas de 2008. Lá estavam construções gigantescas e arrojadas, como o estádio Ninho de Pássaros, entre tantas da moderna arquitetura chinesa, e o prédio construído em 2021 para comemorar o centenário do Partido Comunista chinês.

A construção suntuosa e bojuda do museu abrigava exposição didática. Em cinco pavimentos organizados em ordem cronológica havia fotos, textos, vídeos, filmes, painéis, pinturas, objetos, referentes aos cem anos do Partido Comunista chinês. Pouca coisa apresentava legendas em inglês ou em outras línguas além do mandarim.

Após o museu, jantar em restaurante típico que servia hot pot. Diversas comidas cruas eram lançadas em água fervente e temperada, com ou sem pimenta, para cozinhar no ponto desejado de cada um. Tomei cem ml de baijiu com gradação alcoólica de 56 por cento. Pedi suco de limão para diluir tamanha dinamite alcoólica.

Muito boa a frota de motos e lambretas inteiramente elétricas, silenciosas, não poluentes do ar e dos ouvidos. Porém, na China, e na Mongólia, elas circulam impunemente pelas calçadas, mesmo as calçadas estreitas, que mal cabem os pedestres. Silenciosíssimas, elas apareciam do nada, por trás, pela frente, pelos lados. E aí era um alvoroço para desviar ou ser desviado. Nunca presenciei acidentes ou desrespeito por parte dos condutores desses veículos. Mas as finas e os quases eram inúmeros.

Forma dezoito estações de metrô mais ônibus urbano ao extremo leste da capital chinesa. Em extensa área recentemente urbanizada, com estações de metrô previstas para breve, jardins, árvores, beira de rio, os arrojados prédios da Biblioteca de Beijing e do Centro de Performance Artística de Beijing.

As três construções do Centro de Performance Artística impressionaram pelo desenho e detalhes das fachadas, sob os diversos ângulos de observação. Internamente, cafeterias, lojas de lembrancinhas inúteis, três auditórios estupendos, na acústica, na disposição da plateia e balcões, no palco amplo. Num deles organista ensaiava e testava os recursos técnicos do aparelho, com os tubos produzindo sonoridade assustadora.

Novamente o eficiente metrô da cidade para alcançar o complexo comercial de escritórios Soho, projetado pela arquiteta iraquiana Zaha Hadid. As formas da construção, abusando de curvas sinuosas nas estruturas, interligações fechadas e abertas, provocava espantos, de longe, de perto, de dentro, de cima, de baixo, por conta dos interiores vazados.

Levantei antes da alvorada. Desci ao café da manhã que apenas iniciava os serviços.

Na estação ferroviária de Beijing (Pequim), embarque em assentos confortáveis e espaçados do trem de alta velocidade para Shanghai (Xangai).

O percurso contou com três paradas em cidades no caminho, todas invariavelmente entupidas de prédios altos e cinzentos, alguns de desenhos ousados. Entre as zonas urbanas, plantações com culturas variadas. Ao fundo do horizonte serras e serrotes quebravam a monotonia da paisagem aplainada, vez ou outra recortada por rios de porte médio. Os vagões confortáveis do trem pouco balançavam e atingiram a velocidade máxima de trezentos e quarenta e oito quilômetros por hora.

Durante o trajeto era possível pedir comida por aplicativo da internet de maneira antecipada, especificando o trem, o vagão, o assento. A refeição seria preparada na cidade da próxima parada. Assim que o trem encostava na estação dessa cidade, as encomendas já estavam disponíveis na plataforma. Os funcionários internos do trem as recolhiam e as distribuíam nos vagões e assentos correspondentes.

Desembarque no começo da tarde na gigantesca estação ferroviária de Shanghai (Xangai), integrada lado a lado ao aeroporto internacional. Ônibus ao hotel situado ao lado da estação do metrô.

Metrô rumo ao centro de Shanghai. Logo atingi a orla do rio Huangpu, afluente do rio Yangtzé, não distante da foz no Mar da China Oriental. Calçadão elevado, largo e extenso, atraía moradores e visitantes para perambular ao final da tarde. Na margem oposta do rio a internacionalmente famosa linha de torres de vidro, altíssimas, deslumbrando turistas regionais e estrangeiros.

Circulei por ali até anoitecer e começar o espetáculo de luzes nos arranha-céus da outra margem. A maioria se impressionava com o colorido da iluminação. Não se cansavam de fotografar e, sobretudo, se fotografarem. Na beira do calçadão, barcos de passeio e de travessia entre as margens. Também atracados diversas embarcações para festas e eventos em geral, decoradas e escandalosamente iluminadas.


Mergulhei no Bund, o centro da cidade, por ruas, avenidas, becos cheios de bares, restaurantes, cafés, e muita gente jovem.

Durante o café da manhã, conversas com mãe e filha marroquinas com quem dividi a mesa em ambiente lotado. Muçulmanas legítimas, viajadas, alegres, comunicativas, elas tomaram a iniciativa do diálogo, brotando assuntos variados.

Novamente o metrô levou à Casa e ao Memorial refente ao primeiro congresso do Partido Comunista chinês, em 1921. Fotos, vídeos, textos explicativos, a despeito da maioria deles somente em mandarim.

Almocei bolinhas de trigo macias recheadas com carne de porco e nabo. Saborosíssimas.

Shanghai sofria fortes influências ocidentais, em especial nas vitrinas das lojas, expondo marcas famosas, aquelas de sempre pelas quais os consumistas se matam. Era a cidade da China na qual mais abundavam turistas e moradores provenientes dos países ocidentais. Definitivamente as motos elétricas circulando livremente, e impunemente, sobre as calçadas se tornava impraticável. Os pedestres sofriam com aquelas máquinas velozes e silenciosas.

Para além das ilimitadas funcionalidades digitais disponíveis na vida cotidiana, da simpatia e prestatividade do povo chinês, o que mais me deslumbrava na China era a arborização planejada e intensa em todos os lugares vagos do país. Calçadas, canteiros centrais de ruas e avenidas, rotatórias, vasos de plantas floridas em viadutos, acostamentos e ilhas das rodovias, áreas livres nas esquinas, recuos de calçadas, entre outros tantos lugares. Sem falar na infinidade de praças e parques bem cuidados. Não havia espaço disponível que não estivesse densamente arborizado. A saúde dos seres vivos agradece. Os olhos agradecem. O planeta agradece. Somente assim dava para aceitar a falta de beleza em geral das modernas cidades chinesas.

De manhã ônibus para Jiaxing. O veículo percorreu rodovias de várias pistas entupidas de automóveis, ônibus, caminhões. Em ambos os lados, edifícios altos, cinzentos ou pardos, impessoais, Tudo porém, para felicidade geral da nação, arborizado maciçamente, em muitos casos recentemente, com as árvores ainda contando com os suportes laterais.

Perambulei pela orla do lago de Jiaxing, arborizado e ajardinado maravilhosamente. Pelas águas, barcos em desenhos antigos carregavam turistas chineses.

Foi numa dessas embarcações que nos dirigimos à ilha no centro do lago. Em 1921, ao lado da ilha, em barco com aquelas características, hoje turísticos, os membros fundadores do Partido Comunista chinês prosseguiram a realização do primeiro congresso, interrompido em Shanghai pela polícia do quadrante francês. Naquela época a cidade era fatiada em partes, cada uma delas administrada e policiada por um país estrangeiro. Corria o século da humilhação para os chineses.

No interior da ilha lacustre, pequeno palácio utilizado pelos imperadores em determinadas estações do ano, mobiliado e decorado conforme as modas antigas.

Pelo centro antigo e histórico de Jiaxing, entre as dezenas de opções charmosas, almocei bolinhos de arroz prensado, com carnes, ovos, verduras, castanhas. Tempo para passear em região que remetia à velha China, mesmo a China depois da revolução de 1949, mas antes da modernização acelerada a partir da virada do século XX para o XXI. Flanei por becos, canal de água, pontezinhas pitorescas, casas de madeira, barcos da época, comércio ativo e atraente de comes e bebes.


Levantei muito cedo. Ônibus ao aeroporto Pudong, de Shanghai, a fim de embarcar em voo doméstico para Zhangjiajie, província de Hunan.

A empresa aérea Juneyao, nova, modesta, caprichou no atendimento aos passageiros. As comissárias, recém-saídas da adolescência, lindas, delicadas, parecendo bonequinhas de porcelana, se desdobravam em sorrisos e trejeitos para agradar.

Já em meio às montanhas de agulhas areníticas da cidade de Zhangjiajie, almoço de comida típica da província de Hunan, famosa pelos pratos apimentados. Na verdade, a pimenta estava mais nos próprios pedaços dela do que no sabor incutido nas opções variadas que se alternavam no centro giratório da mesa coletiva.

A portaria sul do Parque Nacional de Zhangjiajie levava à parte baixa da região, de onde se avistava os pináculos rochosos de baixo para cima. Havia filas para entrar no parque pago, muita gente pelo caminho, sobretudo de turistas chineses, mas nada de lotação ou tumultos que impedissem o prazer de caminhar em meio a árvores, cursos d’água, montanhas agulhadas e enevoadas ao fundo.

À noite, o espetáculo musical Madame Raposa (Lady Fox). A plateia do teatro ao ar livre, aos pés da montanha Tianmen, abrigava mais de mil espectadores, entre turistas chineses e estrangeiros. O espetáculo se baseava em fábula chinesa da região. Enredo e roteiro excessivamente ingênuos. Produção ambiciosa, de gosto duvidoso, usando e abusando de luzes e cores.

Pela manhã bem cedo, na entrada central do Parque Nacional Zhangjiajie, inúmeras e longas filas por corredores estreitos de barreiras metálicas. Tudo, absolutamente tudo, na China era cheio de chineses, e estrangeiros também, que avançavam aos trambolhões, mais por afoiteza e cientes de viverem em país superpopuloso do que por má-educação ou desrespeito. Entre uma fila longa e outra, ônibus interno, acessado por filas longas, para atingir outros estágios com mais filas longas. Finalmente os imensos e questionáveis elevadores que transportavam o público ao topo das montanhas de pináculos areníticos.

A subida do elevador, feita em duas etapas, com formação de longas filas entre elas, era afronta tecnológica à natureza e aos seres humanos, visível de vários pontos, próximos e distantes. O Parque Nacional Zhangjiajie era de propriedade privada! Portanto movido pelas leis do lucro, e não pela harmonia entre os seres humanos e a natureza.

Enquanto essas reflexões ocupavam minha mente, eu tentava superar as seguidas e longas filas. Mais ônibus internos, mais curtas caminhadas, precedidas e sucedidas por longas filas de dezenas de milhares de turistas em pleno dia útil e longe de qualquer feriado. No meio dos caminhos de concreto, vendinhas, comércio, bugigangas em exposição, gente, muita gente, grupos de turistas, muitos grupos de turistas.

Entretanto, as montanhas, então vistas de cima para baixo, com ou sem vegetação, nas encostas ou no topo dos pilares, meio suspensas no ar em razão da névoa fina costumeira daquele outono úmido, encantavam os olhares. Nem a absurda lotação de turistas se amontoando nos locais mais privilegiados de observação, e se fotografando de maneira obsessiva, prejudicava o prazer de contemplar tantas e curiosas belezas naturais.

Para descer e fazer o caminho de volta aos portões centrais do parque nacional, mais filas, mais ônibus internos, mais trilhas curtas e entupidas de turistas para alcançar a estação dos bondinhos, teleférico, que levava todos para baixo. Pelo percurso aéreo, imagens belíssimas dos pilares areníticos bem diante dos olhos.

No meio da tarde, nas tradicionais mesas redondas, com o centro giratório, comi e bebi a melhor refeição e bebidas da região até aquele momento. Tomei chá da casa, baijiu, o destilado chinês de arroz. Comi carne de frango, carne de boi, carne de porco, carne de pato, verduras e legumes, ovos temperados, brotos de bambu, entre outras tantas e saborosas iguarias, autenticamente chinesas e apimentadas da província de Hunan.


Na manhã seguinte, na entrada ao acesso à montanha Tianmen, filas e mais filas. Embarque em bondinho, ou teleférico, sustentado por cabos altíssimos, para percorrer, sobre as montanhas, nove quilômetros durante vinte e cinco minutos. Em elevação gradual de altitude, visão incrível das escarpas, dos vales e lagos, das casinhas e lavouras isoladas, do ziguezague da estrada ascendente, serpenteando as montanhas até o cume, do verde intenso das encostas, da cidade de Zhangjiajie, atrás e embaixo.

Já no topo da montanha, trilha leve e diluída na multidão inacreditável de chineses e poucos estrangeiros, com direito a vista estupenda das montanhas, algumas em pináculos, dos vales, novamente da cidade, lá no fundo e distante no horizonte. Curto trecho sobre vidro transparente ao lado da encosta rochosa vertical.

Me entusiasmava com a paisagem estonteante. Ao mesmo tempo questionava tanta tecnologia invasiva na natureza. E associava essa agressão ao fato daquele parque nacional estar entregue à empresa privada. Abundavam as lojinhas de inutilidades e supérfluos, bancas de comes e bebes das redes daquele regime terrorista ao norte do México, ao lado de opções chinesas.

E começou a descida, não descida comum, em meio à natureza. Mas por nada menos que doze lances de escadas rolantes escavadas dentro da montanha. Nada se via do exterior e, portanto, não era vista do exterior. Não comprometia a imagem externa da montanha. Porém, precisava ser assim, como num xópim?

Finda a absurda maratona dos doze lances de escadas rolantes, o patamar de concreto, mais lojinhas para os consumistas desvairados, muro com escritos em mandarim, a escada de concreto montanha acima e, lá no alto, a famosa Porta do Céu (Tianmen) que dava o nome àquele trecho do parque de Zhangjiajie. O enorme orifício verticalizado no paredão rochoso compunha desenho natural impressionante. O conjunto, no entanto, se comprometia pela desfiguração tecnológica e comercial.

Mais um teleférico, de descida, diferente do trajeto da subida. Mais visual impressionante das escarpas e picos esverdeados sob o céu azul.

Em enorme panela côncava no meio da mesa, e aquecida a lenha na parte inferior, as cozinheiras prepararam ensopados de carne de boi e de porco, legumes, temperos variados e, como de praxe na província de Hunan, muita pimenta. As tigelas de arroz à parte, constantemente repostas, auxiliavam contra a queimação da boca e dos lábios.

Ônibus vespertino rumo a Changsha, capital da província de Hunan.

continua...