sexta-feira, 13 de setembro de 2019

do Acre ao Piauí (parte 4/8)

...continuação
Ao entardecer desci à orla para contemplar o por do sol nas escadas diante do rio. Vivas ao urbanismo de Santarém, pelo menos nesse trecho, se abrindo às águas do Tapajós! Compareciam pescadores, atletas e aspirantes, estudantes, casais, grupos, gaúchos agarrados ao chimarrão.
Emendei no bar e restaurante instalado em plataforma de madeira que avançava sobre as águas do Tapajós. Além de duas caipirinhas detonei prato com maniçoba, vatapá, arroz com toques de jambu e camarão. Morcegos sobrevoavam, aos montes, brincando por entre a iluminação pública, sem sugar o sangue de ninguém.
Durante a chuva da manhã me refugiei sob a marquise. Bem na frente, cruzamento sem semáforos, com faixa de pedestres. Tráfego intenso. Os motoristas, de carros, ônibus, motos, caminhões, cediam constantemente passagem aos pedestres. Trânsito educado e não agressivo, na prática.
Em restaurante especializado em peixes abri o apetite com duas caipirinhas pequenas e saborosas e emendei com caldeirada de tucunaré, imensa, de peixe inteiro. Arroz branco e pirão acompanharam a tigela que mais parecia balde, repleta de caldo, legumes, batata, quatro ovos cozidos e todos os pedaços do tucunaré. Saí com dores no abdómen de tão estufado.
À noite, sorvete de açaí com tapioca e nada mais. Volta leve pelo sempre animado e bem frequentado calçadão da orla de Santarém. Vaivém variado e divertido, além das famílias e grupos que se estabeleciam em cadeiras trazidas de casa ou nas escadarias diante das águas do rio Tapajós.
Embarquei em navio ao Amapá no meio da tarde, no flutuante em frente à praça Tiradentes. Comecei a ler Úrsula, livro de Maria Firmina dos Reis.
O amapaense de Laranjal do Jari desembarcaria em Almeirim, de onde pegaria lotação até Monte Dourado, atravessaria de canoa o rio Jari e chegaria, finalmente, ao destino. Segundo ele, o Beiradão, o famigerado Beiradão de Laranjal do Jari, ainda provocava assassinatos eventuais. Nada comparado com décadas antes. Mas, mesmo assim, como bem salientou:
“Se o sujeito vacilar, morre.”
O senhor de Oriximiná iria visitar as filhas em Macapá. Politizado, atuante, brilhou naquele mar de alienação, despolitização, resignação, conformismo e submissão ao fundamentalismo evangélico de muitos passageiros. Pouco antes da partida, surgiu passageiro setentão e encostou por ali. Escolheu o colega de Oriximiná para puxar conversa, em voz baixa. Deu para eu ouvir, entre os sussurros, a ladainha fundamentalista. Autoritário, o setentão não permitia que o oponente se manifestasse, impondo frases mal decoradas e tentando cooptar o senhor de Oriximiná. Mais tarde soube que o evangélico agressivo não se deu bem. Nada como o conhecimento para derrotar os fanatismos.
O navio zarpou à tardinha, deixando para trás a acolhedora Santarém dourada pelas luzes do fim da tarde. Mais adiante, o alaranjado do por do sol sobre as águas da popa.
Antes de escurecer, quando Santarém ainda aparecia no final do horizonte oeste, foi servida a tradicional sopa das primeiras noites de barco. Cada passageiro recebeu a tigela de sopa encorpada com legumes, macaxeira, pedaços de rabada. Acrescentei a farinha grossa para dar mais sustância.
Três horas depois da partida ainda se notava o clarão de Santarém no horizonte da popa. Acima, céu escandalosamente estrelado. No horizonte da proa, a leste, relâmpagos, muitos relâmpagos. Seria naquele trecho perigoso, após a parada em Monte Alegre, o local da pior tempestade fluvial que eu já enfrentara quatorze anos antes?
Parada de meia hora em Prainha enquanto começava a amanhecer. Desembarques mais numerosos que embarques.
Logo em seguida serviram o café da manhã. Nada de boca livre como antes. Cota única por passageiro. Pão com queijo e presunto, maçã, fatia de mamão, fatia de melancia, copo descartável (para contribuir com a poluição) de café com leite adoçado.
Nas redes, ou nos bancos laterais, um ou outro passageiro lia a bíblia. Alguns, sobretudo mulheres, jamais deixavam as redes. Recebiam as refeições trazidas por acompanhantes e comiam ali mesmo. Circular pelos pisos da embarcação seria coisa do diabo para os fundamentalistas?
O navio navegava em água grande. As margens do rio Amazonas se afastavam para bem longe. Ilhas alongadas e alagadas surgiam vez ou outra. Houve desembarque de passageiros, com bagagens e tudo mais, em voadeiras que se aproximavam vindas de dentro de lagoas ou paranás onde se abriam pequenas comunidades. Ao fundo, serras alongadas contavam com escarpas significativas. Nas águas, canaranas boiavam à deriva. Nas margens aningas se destacavam imensas. Pássaros sobrevoavam o navio. Os horizontes, cada vez mais distantes.
O navio atracou no meio do dia em Almeirim. No alto do barranco, no ponto mais visível e destacado, sede de filial de empresa evangélica, roubando bolsos e mentes da população, ainda mais depois que a corporação passou a fazer parte do governo federal, o mesmo que corta investimentos em previdência, educação e saúde para o povo. O crime lhes tirava a máscara e mostrava para quem quer ver o real papel desempenhado pelos fundamentalistas contra a sociedade. Tanto que a letra “d”, usada no nome das empresas do ramo, mais se encaixa com diabo ou demônio, jamais com deus.
Almeirim era mais uma cidade amazônica dependente de quase de tudo de fora. Não criava e nem cultivava praticamente nada. Bastava observar as inúmeras cargas do navio deixadas no porto da cidade: legumes, verduras, frutas, temperos. Os ricaços da cidade, aí incluídos os empresários do fundamentalismo evangélico, deviam lucrar bastante com a penúria alimentícia de Almeirim e de tantas outras cidades ribeirinhas da Amazônia.
Assim que o navio apitou para partir foi servido o almoço. Um prato por pessoa com arroz, macarrão, duas fatias de carne assada. Nas mesas do refeitório, livres em quantidade, feijão, salada com maionese, salada de verduras cruas, farinha, abacaxi fatiado.
Após a foz do rio Jari, na margem esquerda do rio Amazonas, o navio entrava em águas do estado do Amapá.
O senhor de Oriximiná, orgulhoso e ativo na vida, me mostrou, pelo celular, pirogravuras de própria autoria com motivos locais. Garantiu que mais de cem delas jaziam guardadas em casa para futura exposição. Lhe doei o livro O Livro de Ouro da Amazônia, de João Meirelles Filho. Ele agradeceu comovido e me pediu dedicatória. O livro, adquirido em sebo, já possuía uma, de não sei quem para não sei quem. Pus a minha na contracapa.
Durante o jantar cada passageiro recebeu prato com arroz, macarrão, pedaço generoso de frango assado ou de peixe. Da mesa, livre para todos, salada crua, feijão, farinha, fatias de abacaxi.
Do lado de fora chuva forte, mas nada de tempestade ou vendavais. O navio nem sentia o tranco das águas agitadas e crespas do rio Amazonas.
Pouco depois da meia-noite o navio atracou no porto privado do Grego, em Santana, Amapá, cidade vinte quilômetros a sul da capital. Nem saí da suíte. Os ruídos do desembarque, de carga e principalmente de passageiros, reverberando pelas estruturas metálicas da embarcação, me fizeram oscilar entre sono leve, vigília, breves cochilos. Assim foi até o amanhecer. Fechei toda a bagagem e fui verificar o restante do navio. Menos de dez passageiros permaneciam nos pisos das redes. Aguardavam, como eu, clarear de vez e espantar o perigo dos arredores do porto, para irem embora.
Percorri a distância entre as cidades de Santana e Macapá, com direito a cruzar a linha do equador pela zona sul da capital amapaense e entrar no hemisfério norte. Embora o traçado da cidade fosse quadriculado, com ruas longas e normalmente de mão única, os ônibus urbanos ziguezagueavam, em vez de seguir direto ao destino, a fim de pescar mais passageiros e faturar mais. O tempo de percurso, óbvio, aumentava bastante.
Macapá, no geral, apresentava esgotos a céu aberto, canais e igarapés poluídos, mato crescido nas calçadas. Aliás, as calçadas macapaenses eram casos à parte. Cada imóvel construía a própria calçada, do jeito que bem entendia, na altura, inclinação, material do piso, ou simplesmente não construía nada, largando a terra, as pedras, o mato, os buracos se fingirem de calçada. Caminhar por elas ou pela ausência delas era saltar obstáculos, muitas deles instransponíveis. Os pedestres, de todas as condições físicas, eram obrigados a andar pela rua. Ainda bem que o tráfego de Macapá era respeitoso, não agressivo, gentil, parando nas faixas de pedestres ao sinal do braço. Os prédios no centro comercial, baixos na maioria, se apresentavam mal conservados, quase caindo aos pedaços, sem preocupações com a aparência e, provavelmente, com o conteúdo. Por outro lado, o açaí, o camarão, a oferta de alimentos variados, abundavam na cidade. A influência indígena e africana concorria para aperfeiçoar os pratos da culinária regional.
Ao sair para jantar, já noite avançada, conversei com paulista de São Bernardo a trabalho em obras civis no quartel do exército. Estava pessimista em relação ao futuro social do Brasil. Tinha votado na extrema-direita porque ela representava a mudança. Fora eleitor e simpatizante petista durante anos. E considerava todas as medidas do governo da extrema-direita ruim para o Brasil e os brasileiros.
A orla de Macapá, ao longo da avenida e calçadão da margem esquerda do rio Amazonas, por quilômetros e quilômetros, não tinha preço. Gente caminhando, correndo, se exercitando, perambulando, namorando, aproveitando o relativo frescor da noite. E havia o antes e o depois da fortaleza de São José de Macapá. Trechos frequentados, outros vazios, escuros, privativos, silenciosos. Ao norte da fortaleza, quiosques, trailers, comes e bebes, frequência variada e discreta, mas que sempre cumprimentava, bom dia, boa tarde, boa noite.
Jantei caldeirada de tucunaré em restaurante cuja vista do rio pelas imensas e transparentes vidraças fascinava entre mordidas no peixe e goles nas caipirinhas bem preparadas. Frequência triste nas outras mesas, com exceção a de almirantes e afins na enorme mesa reservada ao lado. Saí antes de o álcool fazer efeito e de eles soltarem a franga.
Nos quarteirões contemporâneos de Macapá, ao lado de construções modernas, ainda havia casas de madeira, com estilo, aspecto e conservação de algo velho, antigo, dos primórdios da capital do antigo território federal do Amapá. E nessas casas morava gente, como se o tempo não tivesse passado. Testemunhos de outros tempos, resistindo às engrenagens que elimina o que é considerado obsoleto e ergue o que é supostamente moderno e eficiente.
Longa caminhada pela cidade plana até o museu Sacaca. Aberto gratuitamente ao público, local de eventos voltados à educação e questões socioambientais, ocupando todo o imenso quarteirão, o museu exibia espécies da flora nativa da Amazônia, quelônios, pássaros, em ambiente natural, ao ar livre, junto a inúmeras representações de cenas ribeirinhas, como casa da parteira, casa do castanheiro, casa do seringueiro. Também ali, diversas culturas que compõem o povo amapaense, entre elas os negros da região de Mazagão e Curiaú, emprestando à região a cultura de parte da África, as canções e danças do marabaixo, por exemplo. Um barco, o regatão, se deslocava sobre curso d’água a fim de mostrar como era o comércio nos velhos tempos na floresta. Ligado ao Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá, responsável por fomentar e divulgar a produção científica e tecnológica local, que era vasta e amplamente reconhecida, o museu Sacaca corria sérios riscos de sobrevivência em razão das ações criminosas do regime de plantão no governo federal. Antes dessa calamidade, porém, os visitantes poderiam aprender bastante com os amapaenses.
À noite jantei bem, regado a duas razoáveis caipirinhas. Sentado em mesa ventilada na calçada eu pude ver através do vidro a festa de noivado, como aliança e tudo mais, em longa mesa interna. O garçom que me atendeu, trintão, não registrado em carteira, somando oito filhos de três mulheres diferentes, rodara bastante pelo Brasil. Com a esposa do momento, grávida, planejava se mudar para Londrina. Falava como grande administrador da própria vida, das próprias finanças. Dei corda e ele deitou a contar a vida, passada, atual e futura.
Choveu forte durante a madrugada inteira. Água, muita água. Nada de relâmpagos, raios ou trovões. Só água.
continua...