...continuação
Frio gelado das ruas de Kostroma, sob o sol brilhante, o céu azul limpo e sem nuvens. Longa caminhada por ruas pitorescas, ladeadas por casas pesadas e antigas de madeira, algumas aparentemente abandonadas, conjuntos baixos e alongados de edifícios residenciais da época soviética, em cuja frente de um deles apareciam estátuas de pioneiros da juventude comunista do período estalinista. As calçadas arborizadas de ambos os lados das vias embelezavam o cenário e a saúde do moradores agradecia de coração.
Ao final da extensa via, ponte sobre o rio Kostroma, um pouco a montante da foz sobre o rio Volga. Dali visão privilegiada do mosteiro, das águas dos dois rios, das habitações baixas em ambas as margens, da marina repleta de barcos suspensos fora da água, e verde, muito verde da vegetação abundante e amarelada pelo avanço do outono.
Ao fim da ponte, ruelas calçadas de cascalho do bairro ao lado do mosteiro, repletas de casinhas de madeira, pintadas em cores vivas, com janelas envidraçadas e emolduradas em detalhes personalizados, uma mais vistosa que a outra.
Ao fundo de tudo, o Museu de Casas de Madeira, para onde o Estado Soviético transplantou moradias, igrejas, armazéns, celeiros, comércio, absolutamente tudo em madeira original, de regiões distantes, com o objetivo de ensinar aos povos recentes, sobretudo os urbanos, como se vivia na Rússia rural das décadas, ou séculos, anteriores. Os interiores das casas retratavam fielmente a vida de comerciantes ricos, camponeses médios, religiosos, população mais carente. Lá estavam móveis, aparelhos de cozinha, da sala, dos quartos, dos armazéns, celeiros, igrejas. O conjunto ocupava ampla área na beira de lagos habitados por patos selvagens e margeados por bétulas de folhas amareladas. O resultado outonal e colorido encantava os olhos a valer.
Em cidade famosa, entre outras coisas, por fabricar os considerados melhores queijos da região, o almoço ocorreu em restaurante que oferecia cardápio cujos pratos e tira-gostos usavam e abusavam do produto.
Seguimos ao Mercado Municipal, entre barracas de mel, queijo, obviamente, legumes, repolhos gigantescos, batatas com cascas de cores variadas, peixes frescos e defumados. As pernas pediram trégua. Voltamos ao hotel para descansar, na intenção de sair para jantar à noite.
Mesmo sem fome saí para jantar. Duas doses de vodca, metade da porção de arenque fresco, salada verde e queijo. Bastou para quem raramente jantava de modo substancioso.
Abri parcialmente a claraboia do teto inclinado do quarto do sótão a fim de neutralizar o calor provocado pelo aquecimento central, recentemente acionado pelas administrações públicas, e sem possibilidade de desligar ou regular o termostato. Assim a noite fluiu bem mais fresca e agradável.
Após o café da manhã substancioso, eu e o guia fomos, de mala e cuia, de carro de aplicativo, à estação ferroviária de Kostroma. Mas não para pegar o trem. Não havia trens, ônibus ou lotações de Kostroma diretamente para Suzdal. Embarcamos em van com destino a Vladimir para descer no meio do caminho, mais precisamente no trevo rodoviário para Suzdal, e dali subir em mais um carro de aplicativo ao destino final.
Sentei em assento individual, perto da porta da van, na intenção de liberar as pernas. Não havia espaço reservado para as bagagens, a minha e a do guia. Elas foram empilhadas de pé e largadas ao lado da porta deslizante, bem na minha frente. As rodinhas provocaram deslocamentos constantes das bagagens à medida que o veículo se movimentava. Isso atrapalhava o embarque e desembarque de passageiros. No meio do caminho deitei as bagagens na horizontal, uma sobre a outra. As rodinhas e os deslizamentos não incomodariam mais. Porém, diminuiu o espaço para a circulação de passageiros, me obrigando a puxá-las sempre que alguém descia ou subia na van, sobretudo os passageiros da primeira fileira do outro lado do corredor interno.
Durante o percurso apreciei a paisagem, composta por florestas e campos onde o verde amarelava pelo avanço do outono. Cochilei pouco no assento duro e não reclinável. E ainda tinha o movimento das malas para zelar.
Veio o desembarque no entroncamento de acesso a Suzdal, no acostamento da rodovia principal. O guia chamou o carro de aplicativo rumo ao hotel.
Bem instalados, saímos para explorar a pequena Suzdal, a menor e a mais visitada cidade do circuito do Anel Dourado. E era uma gracinha de lugar, a despeito da maior quantidade de turistas, principalmente russos.
Entre as atrações, igrejas, mosteiros religiosos, para homens e mulheres, o Kremlin, casas de madeira com janelas grandes e envidraçadas, parques, praças, jardins. Tudo limpo, organizado, em ótimo estado de conservação ou em processos de reformas ou restaurações. Rodamos a pé por todos os segredos locais, apreciando as ruas ou entrando em algumas das dezenas de atrações.
Ao final da tarde, com o sol se pondo num céu límpido e sem nuvens, entramos em restaurante típico russo para matar a fome e a sede em dia sem almoço. Tomei quatro doses de vodca curtidas ora no gengibre ora em frutas vermelhas. Iniciei o banquete com sopa de legumes, cogumelos e carne de porco. Prossegui com assado de porco com batatas e cebolas. Encerrei com torta de mel, surpreendentemente pouco doce, e até levemente cítrica, para a minha alegria, seguida de chá de ervas e flores regionais.
Depois de café da manhã farto e variado, pegamos carro de aplicativo para a cidade de Vladimir. Desembarcamos na estação ferroviária para deixar as bagagens no guarda-volumes. E botamos o pé nas ruas para a longa exploração pelo centro histórico da cidade de porte médio.
Em Vladimir abundavam construções suntuosas, igrejas, capelas, catedrais, as onipresentes e charmosas casas antigas de madeira, algumas abandonadas e caindo aos pedaços, infelizmente. O centro histórico se erguia no alto de colina da qual se tinha vista panorâmica do vale do rio Kliazma e das planícies ao redor. Na maioria das igrejas, nenhum destaque internamente, mas trabalhadas detalhada e artisticamente do lado de fora. A que mais impressionou externamente, a igreja de São Demétrio, datada do século XII, exibia imagens em alto-relevo de animais, plantas, personagens de lendas, religiosos, cenas de guerras e lutas, distribuídas lado a lado nas quatro faces da torre alta e estreita. Lembrava a arquitetura das igrejas armênias visitadas anos antes no extremo leste da Turquia.
Os parques de Vladimir encantavam pelas bétulas esverdeadas a amareladas sobre solo gramado e coalhado de folhas caídas, se tornando lugares ideais para relaxar e observar o mundo passar.
Almoço na base de comida russa simples e saborosa em restaurante instalado em subsolo frio de construção antiga. Fui de sopa temperada de cordeiro e batata, espeto de pescoço de porco com cebolas, o tradicional suco de frutas vermelhas, o onipresente morse.
Mais voltas pela cidade, agora sob o frio e o vento gelado do entardecer, antes de acessar a estação ferroviária de Vladimir e aguardar o trem para Moscou.
As menos de três horas em trem confortável, cujo vagão dispunha de dois assentos em cada lado do corredor central, transcorreram sem novidades. Bizarro foi os russos e as russas reclamarem dos vinte e quatro graus da temperatura interna. Mas não pelo calor. Alegavam frio e desconforto. Solicitavam insistentemente para os funcionários regularem o termostato nos vinte e seis graus. Parecia mentira, mas não era.
Ao desembarcar numa das inúmeras estações ferroviárias de Moscou, utilizei novamente o extenso, eficaz e eficiente metrô da capita russa, dotados de estações suntuosas, diferentes entre si, verdadeiras galerias de arte.
Moscou se descortinava ao amanhecer da janela do décimo segundo andar. Lá embaixo, a estação dos bondes, a avenida com duas estações de metrô, a estátua do Lenin, o movimento de veículos que certamente engarrafaria o quase sempre engarrafado trânsito de Moscou, as horríveis torres de vidro ao fundo, construídas na catastrófica década de 1990, logo após o fim da União Soviética.
Entrei no metrô de Moscou, percorrendo três linhas até o aeroporto Vnukovo (VKO).
Embarquei em voo a Istambul. Comi a pouca e saborosa refeição servida a bordo. Li bastante, até encerrar, A Estrela Vermelha Brilha Sobre a China, de Edgar Snow. Livro riquíssimo em detalhes sobre o avanço da guerra popular prolongada do exército vermelho, sob a liderança do Partido Comunista da China, contra a invasão do Japão e contra o sistema de exploração e opressão vigente até então na China, que contava com total apoio dos principais regimes cinicamente chamados de democráticos do ocidente.
Andei horrores, por esteiras rolantes ou não, subindo e descendo escadas, pelo aeroporto de Istambul até, finalmente, encontrar o ponto de embarque para o segundo voo, com destino a Ulan-Bator, na Mongólia.
Durante o voo comecei a ler Os Urubus Não Esquecem, do antropólogo Pedro Cesarino, abordando a Amazônia brasileira devastada por madeireiros, pelo narcotráfico e pelos políticos, sempre sob o ponto de vista das comunidades indígenas.
Amanheceu sobre as estepes mongóis e trechos do deserto de Gobi. Café da manhã farto e saboroso servido a bordo.
Desembarque matinal no aeroporto de Ulan-Bator, capital da Mongólia, em meio à estepe semiárida.
Ônibus ao centro da capital. Foram quase duas horas para vencer os congestionamentos crônicos do dia a dia daquela região metropolitana. Do lado de fora, a estepe mongol e os bairros da periferia.
Me hospedei na região central de Ulan-Bator, cidade feia, desorganizada, com trânsito infernal. Para piorar, horrorosas torres de vidro estavam sendo erguidas por todos os cantos. Em cidade sem rede de metrô, o melhor meio de transporte naquele caos rodoviário era a pé.
Visita à Galeria Nacional de Artes. Ao longo de vários andares, ampla exposição de xilogravuras, litogravuras, linogravuras, interessantíssimas, entre outras obras de arte moderna e contemporânea de artistas da Mongólia.
Em longa caminhada pela noite gelada, jantar em restaurante típico mongol. Por típico, em país que praticamente nada produz de agricultura, se entenda carne, muita carne, praticamente só carne. Na mesa veio carne de cordeiro a partir de vários tipos de preparo, poucos e pobres acompanhamentos. Tomei quatro doses de vodca mongol para auxiliar a encher o bucho. No palco quase à nossa frente, músicas e danças regionais ao vivo.
Entrei no quarto do hotel cambaleando a fim de recuperar o sono atrasado. Mais uma vez eu teria que encarar o choque de cinco horas de fuso horário na frente de Moscou, fora as onze horas à frente de São Paulo.
Amanheceu quatro graus abaixo de zero sob o céu sempre azul da Mongólia.
Novamente a pé, para evitar os congestionamentos constantes de Ulan-Bator, nos dirigimos ao Museu Gengis Khan, onde havia imensa exposição ao longo de oito andares sobre as maravilhas do império mongol, enaltecido ao máximo pelos dirigentes do país depois do fim de período socialista. Estruturalmente museu de primeira qualidade. Mapas, vídeos, painéis, peças, vestuários, reproduções de cenas passadas, arqueologia, entre tantas atrações. O conteúdo do museu, entretanto, louvava apenas os antes e os depois do período socialista, fase esta demonizada ou ignorada pelo novo regime.
Visita ao Museu Nacional da Mongólia, dessa vez sem guia local. Mesmo assim as exposições louvavam somente as monarquias dos Khans, detratando a era socialista que retirou o povo mongol da miséria, exploração e abandono. Para as autoridades do país de então, que impunham o conteúdo do museu, importava celebrar o que veio depois do socialismo, denominado por eles “período democrático” e não período capitalista.
Ao final da tarde, seguimos a pé a parque afastado do centro para assistir a apresentação folclórica composta de músicas e danças típicas mongóis. A despeito do caráter turístico e da presença quase exclusiva de turistas estrangeiros na plateia, inclusive de europeus do Otanistão e daquele regime terrorista ao norte do México, o espetáculo traçou atraente panorama das músicas, vozes e danças da Mongólia, das quais eu jamais ouvira referências.
Durante o jantar valeram as conversas da mesa, variadas, divertidas, informativas. O mineiro, morador de Berlim havia anos, salientou que a lavagem cerebral dos meios de comunicação alemães, induzindo os desavisados a apoiar o regime nazista da Ucrânia contra a soberania da Rússia, tornava o povo alemão difícil de conviver. E ele já cogitava sair daqueles países do Otanistão.
Amanheceu novamente com temperaturas negativas, a despeito do céu incrivelmente azul e desprovido de nuvens.
Embarque em van, pelo caótico e sempre congestionado trânsito de Ulan-Bator. rumo ao museu que homenageia o marechal Jukov, militar que liderou o exército soviético na derrota do nazismo em 1945. Antes ele esteve à frente da batalha contra o exército invasor japonês na Mongólia e China, como na batalha de Khalkhin Gol.
Mais que as visitas programadas, eu procurava observar e registrar os flagrantes urbanos do cotidiano da caótica capital mongol. Cenas de rua, paradas de transporte coletivo, pessoas sentadas, conversando ou olhando o vazio, guardas de trânsito fingindo organizar o cronicamente desorganizado tráfego de veículos, algum raro e peculiar detalhe arquitetônico, entre outras imagens que me chamavam a atenção.
Visita ao palácio residencial do último monarca da dinastia Khan, Bogda Khan, antes daquele regime ser derrubado pelo povo via a revolução socialista de 1922.
Mais van, mais trânsito insuportável de Ulan-Batot, dessa vez rumo à periferia montanhosa da cidade para subir as escadarias até o Memorial Zaizan em homenagem aos heróis da Grande Guerra Patriótica, conhecida no ocidente como Segunda Guerra Mundial. Nesse período foi selada a aliança e a amizade entre União Soviética e o Governo Socialista da Mongólia. Painéis em mosaico representavam cenas cronológicas dessa aliança destacando as mais cruciais na história de ambos os povos.
Durante a madrugada mais fria da viagem os termômetros marcaram dez graus abaixo de zero. E isso em pleno começo de outono, distante ainda do verdadeiro inverno.
Pela manhã, visita ao maior mosteiro budista da Mongólia, Gandantegchinlen. O monstrengo foi fechado após a revolução socialista e reaberto durante a Grande Guerra Patriótica. Nos dias atuais, ainda mais que antes da libertação do povo mongol, passou a atuar como peça de alienação e doutrinação conformista. A máquina de fazer dinheiro age com orações encomendadas, “consultas” a monges que recitam mantras decorados, todos muito bem pagos pelos inocentes úteis. Bastava notar as dezenas de caixas de doações, as contas bancárias para depósito e afixadas em todos os cantos, as inúmeras máquinas de cartões nas partes internas da construção, os televisores matraqueando a aceitação compulsória e a submissão. Nada diferente dos fundamentalismos cristãos e judaicos do ocidente. E, como todas as religiões institucionalizadas, a elite do budismo mongol esteve aliada à monarquia absolutista dos Khans e atualmente era unha e carne com o regime.
Em seguida, ainda de van, pelo insuportavelmente entupido trânsito de Ulan-Bator, fato que a indústria transnacional automobilística agradecia, com destino ao Museu de História Natural. Chamado de Museu Lenin durante a fase final do período socialista, o espaço foi posteriormente transformado em salão de bilhar pelo regime capitalista, antes de voltar a ser novamente museu. Internamente acervo fraquíssimo e mal apresentado, a despeito de fósseis e ossadas de dinossauros quase completas e tão abundantes em território mongol.
Almocei risoto de tutano de boi, de entrada e, como prato principal, carne vermelha com arroz e curry bem temperado.
À tarde visita ao templo budista, mais um, Choijin Lama, que se tornou museu durante o período socialista e assim se manteve.
No começo da noite, já sob as temperaturas negativas do dia mais frio da viagem até então, desci às ruas para jantar lamen apimentado com carne de porco, ovo, legumes variados.
Até pensei em circular pelo centro da cidade, em especial pela ampla e vazia praça principal. Desisti. A maioria dos mongóis corria para lá e para cá de volta para casa. E ficar parado, ao ar livre, naquele frio glacial, com temperaturas abaixo de zero, nem pensar!
continua...