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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Uruguai e Argentina (parte 5/5)

...continuação
Na manhã seguinte, ao entrarmos no salão do café da manhã, encontramos o mesmo paulistano de vinte e poucos anos com quem trocáramos frases na manhã anterior. O indivíduo batia boca com a copeira que costumeiramente passava de mesa em mesa a fim de anotar o número do quarto dos hóspedes. Eis que o turista berrava histérico, nem em castelhano, nem em português, nem em inglês, que não daria o número do quarto porque isso geraria custos para a empresa onde ele alegava trabalhar. Por mais que a coitada da copeira insistisse que não, o desequilibrado repetia a ladainha em língua nenhuma. Inconformado por não convencê-la do raciocínio ilógico, se virou para um senhor sentado sozinho e apostou “Eu sei de onde você é. Deve ser do Mato Grosso”. E o senhor, de cabeça baixa, apenas sussurrou “Não, da Bolívia”. Em seguida se virou para mim e disparou “Você deve ser mineiro”. À minha resposta negativa, perguntou “Então, de onde você é?”. Secamente emendei “Você me fez a mesma pergunta ontem e já respondi”. Deu um sorriso amarelo e, desajeitadamente, se retirou do salão sem saber onde botar a cara.
A copeira, o boliviano e eu nos entreolhamos, fazendo sinal que o dito cujo não batia bem da cabeça. E ouvimos outras boas sobre o abestalhado nas dependências do hotel.
Em minhas experiências passadas em outros países, aconteceu sempre o contrário. Os brasileiros, bem vistos e admirados, contrastavam com a arrogância, prepotência, ignorância, preconceito, racismo, de muitos turistas do chamado mundo ocidental.
Pegamos metrô até a praça Itália de onde tomamos ônibus intermunicipal. Desembarcamos na beira da rodovia, em frente ao zoológico de Lujan, destino famoso e oferecido em excursões, no balcão dos hotéis e aos berros pelos agentes nos calçadões das ruas Lavalle e Florida do centro de Buenos Aires.
Estávamos prestes a entrar na maior ROUBADA daquela viagem.
Pagamos de entrada o equivalente a sessenta reais por pessoa, sem direito a nada, somente ao impacto de nos depararmos com um deplorável espetáculo envolvendo seres humanos e animais. Estes, teoricamente selvagens, eram dopados e forçados a se exibirem com objetos de decoração e acessórios para fotos aos milhares de turistas que despencavam ali. Não sei o que era pior, a humilhação e maus tratos aos animais obrigados a se exporem ao ridículo durante horas, ou o escândalo mesmo de seres humanos se prestando a tal papel.
Em área reduzida e mal cuidada, o tal zoológico de Lujan abrigava diversos tipos de animais, alguns soltos entre os visitantes, como patos, gansos, lhamas e afins. Outros, cercados e dopados para se sujeitarem aos “carinhos” da horda de turistas em buscas de “emoções” sem nenhuma emoção.
Diante de cada uma das jaulas, dos tigres de bengala, dos tigres brancos, dos leões adultos, dos leões filhotes, dos ursos pardos, dos lobos marinhos, se formavam longas filas de turistas aguardando para entrarem, geralmente aos casais, e se fotografarem alisando os animais postados sobre uma mesa. Toda a cena era vigiada de dentro da jaula por funcionários do zoológico e por cachorros treinados a distrair os felinos na remota hipótese de algo sair errado. Em outras palavras, os cachorros seriam sacrificados para salvar os turistas.
E, turista a turista, casal a casal, entrava na jaula por alguns minutos, pousava a mãos sobre os felinos, e dá-lhe fotos, de frente, de lado, de cima, de baixo, assim, assado. Os pobres dos funcionários, entre um bocejo e outro, se ofereciam para fotografar o bravo casal, agora abraçadinhos e sorrindo com as mãos sobre o animal dopado. E ainda forçavam para cima a cabeça do animal para sair melhor na foto.
Nas jaulas contíguas, havia outros animais da mesma espécie, sonolentos, abobados, deprimidos, esperando a vez de serem convocados ao palco dos horrores.
Os animais acariciados e fotografados milhares de vezes mal abriam os olhos tamanho o esgotamento físico e mental. De vez em quando, num lampejo de lucidez, um deles se recusava a permanecer naquela imbecilidade e ameaçava pular da mesa de exibição. Os funcionários imediatamente enfiavam pedaços de carne na boca deles na expectativa de que, com o suborno, aceitassem mais alguns minutos de humilhação. Eventualmente o animal dava um basta definitivo e descia da mesa sem negociação. Não tinha jeito. Os funcionários então levavam este de volta à jaula contígua e carregavam o próximo animal do rodízio para cima da mesa de exibições, sempre com os pedaços de carne enfiados na boca, para mais carícias e fotos dos ávidos turistas.
No caso específico das jaulas dos ursos pardos e dos lobos marinhos, aos turistas era permitido somente entregar-lhes comida através de um galho comprido de madeira, sem direito a carícias e afagos. E o festival de fotos de todos os ângulos, é claro, vinha a granel.
O passeio sobre o lombo do dromedário, em círculo e por menos de dois minutos, conduzido por funcionários mortos-vivos, era mais deprimente que um velório.
E assim foi, por horas e horas, animal por animal, de fila em fila, fotos e mais fotos, poses e mais poses, ridículo em cima de ridículo. E os animais já não aguentavam mais. Nem com os subornos de carne enfiados goela abaixo. Mas os turistas em bando esperavam nas longas filas, entravam, acariciavam, sorriam, faziam poses e eram fotografados.
E viva a indústria do turismo predatório!
Fugimos dali no meio da tarde, horrorizados com o tal zoológico de Lujan. Atravessamos a rodovia e subimos em ônibus rumo à cidade de Lujan, menos de dez quilômetros à frente.
A despeito de destino de romarias religiosas e sede da gigantesca basílica voltada aos desesperados na busca de benzeduras, milagres e curas, Lujan era uma típica cidade do interior argentino, pacata, arborizada, silenciosa, pelo menos nos dias não santos. Mas a hierarquia religiosa e a indústria da fé agradeciam. O comércio religioso ia muito bem, obrigado.
Pegamos ônibus de volta para Buenos Aires.
Jantamos novamente no bom e legítimo restaurante espremido na zona turística do Micro Centro, porém mantendo, na comida, no aspecto, na frequência, no atendimento, certo purismo nostálgico da velha boemia de Buenos Aires.
Na manhã seguinte, cruzamos novamente a deliciosa e refrescante praça San Martin, desta vez ao final da rua Esmeralda, a caminho dos templos da elite portenha, os bairros do Retiro e da Recoleta, se assemelhando de leve aos bairros paulistanos de Higienópolis e dos Jardins.
 Logo de cara, no entanto, notamos que esses bairros argentinos superavam com folga, em quantidade e qualidade, os citados bairros paulistanos, como também todos os equivalentes nas demais cidades grandes brasileiras. Buenos Aires humilhava no quesito áreas verdes, parques, gramados e praças, arborização de ruas, espaços públicos para lazer gratuito. E esse humanismo não se restringia ao Retiro e à Recoleta, mas em grande parte dos bairros visitados das cidades da Argentina e do Uruguai.
Que situação triste e revoltante para o Brasil e os brasileiros, anestesiados a admirar concreto e asfalto, viadutos e xópins, o lazer pago e discriminado! A maioria da população brasileira não dispõe de significativas áreas verdes, de espaços públicos e democráticos, em quantidade e qualidade suficientes. É empurrada então a torrar dinheiro ou a babar diante de vitrines reluzentes e entupidas de necessidades desnecessárias, despertando o consumismo de supérfluos nos xópins.
Os países do cone sul, Argentina, Chile e Uruguai, não vivem mais o passado de glórias e farturas desfrutadas até os anos de 1960 e 1970. As cidades se degradaram. As ditaduras do capital os mergulharam em crises sociais profundas, baseadas em modelos políticos e econômicos injustos, os mesmos que sempre vigoraram no Brasil. Esses países, porém, aproveitaram a época de prosperidade para, entre tantos itens sociais, construírem cidades humanas e públicas.
De qualquer maneira, os bairros de Retiro, Bairro Norte, Recoleta, ainda eram ilhas de paz e tranquilidade, sobretudo se comparado ao sufocante centro de Buenos Aires, barulhento, poluído, massacrado por buzinas de carros, ônibus e caminhões.
Percorremos a avenida Alvear, as transversais, o cemitério da Recoleta, intensamente visitado por turistas e cuja suntuosidade dos túmulos e mausoléus lembra o cemitério da Consolação de São Paulo. A escultura metálica Floralis Generica se destacava na praça das Nações Unidas, realçada pela resplandecência do metal diante do sol em manhã ensolarada e brilhante. Nas imediações, extensos gramados para relaxar, tomar sol, ler, não fazer nada, como testemunhamos os portenhos praticando.
Entramos na avenida General Las Heras e dobramos na rua Montevidéu, repleta de bares e restaurantes interessantes, alguns oferecendo culinárias menos difundidas. Dezenas de quarteirões depois alcançamos a praça do Congresso, mais um espaço de proporções desmedidas, bem cuidado, destacando o palácio do Congresso Nacional.
Em frente ao congresso, manifestantes acampados erguiam faixas e cartazes contra a Monsanto, a famigerada transnacional química estadunidense rejeitada pela maioria dos povos do mundo por envenenar solos com agrotóxicos, por impor e monopolizar sementes transgênicas, por desrespeitar e agredir ecossistemas e comunidades tradicionais pelo planeta, inclusive e principalmente no Brasil.
Dali, voltamos, sempre a pé, para a zona turística do Micro Centro. De volta aos obstáculos de cambistas, agentes de turismo, inclusive vendendo pacotes para o repugnante zoológico de Lujan, agentes de lojas, agentes de restaurantes, agentes de casas noturnas, todos berrando ao mesmo tempo, alguns até em português sem sotaque, na voz de brasileiros legítimos que se transferiram para Buenos Aires.
Almoçamos no charmoso e honesto restaurante de sempre, sem ninguém nos assediando pelo calçadão.
No meio da tarde, mais que merecidamente, retornamos ao quarto do hotel para não fazer absolutamente nada. A boa e velha preguiça, alternada pelas leituras às informações e às reflexões invariavelmente precisas de Eduardo Galeano no livro Espelhos.
Nos entregamos ao ócio criativo do corpo e da alma.
Enrolei na manhã seguinte indo e vindo de San Telmo, cuja feira dos domingos se estendia pela rua Defensa, da praça Dorrego, centro cultural do bairro, até a avenida de Mayo, nas imediações da Casa Rosada. Centenas de barracas e barraquinhas vendiam de tudo um pouco, velharias, antiguidades, artesanatos, lixos feitos em série voltados a quem nunca teve apreço pelo gosto, obras artísticas e não artísticas, além de inúmeros charlatanismos, como os dançarinos de tango numa das extremidades da praça Dorrego. Velhos, caquéticos, vestindo roupas puídas, esbagaçados fisicamente, portando expressões tristes que lembraram os felinos do zoológico de Lujan, ele e ela mal se mexiam ou acompanhavam a melodia da música reproduzida num tocador de CD.
Turistas do mundo todo perambulavam naquela manhã quente de primavera. A maioria nem olhava os itens em exposição. Estavam mais interessados, como eu, em contemplar o movimento humano, eventuais fachadas arquitetônicas ou casas comerciais antigas e vistosas.
Embora nada espetacular, o mercado de San Telmo empolgou mais que a feira propriamente dita. Dentro de construção autêntica e não desfigurada, em ambiente discreto, as vias estreitas, oferecendo desde alimentos frescos e bebidas a itens similares aos da feira externa, não se entupiam de turistas e garantiam momentos de tranquilidade.
Ônibus de turismo se amontoavam na praça de Mayo vomitando turistas para fotografar rapidamente a Casa Rosada, a Catedral e caminhar pela rua Defensa entre as quinquilharias das barracas.
Dei meia volta depois de arriscar algumas transversais da região.
Os teatros e cinemas da avenida Corrientes enchiam de portenhos, mesmo naquele começo de tarde ensolarada. Filas se formavam pelas calçadas e lotavam as plateias.
A noite abafada de Buenos Aires trouxe vento e chuva pela madrugada. E dezenas de pernilongos. O ar condicionado sem poder regular a temperatura mal amenizava o calor pegajoso ou espantava os mosquitos sedentos de sangue novo. Mas de uma forma ou de outra adormecemos.
Amanheceu chovendo fino naquela manhã de feriado na capital portenha.
Rachamos táxi com outro casal paulistano ao Aeroparque, o aeroporto menor e mais próximo ao centro da cidade. O trajeto percorreu os parques e gramados do bairro de Palermo até a beira do rio da Prata, justamente em frente ao aeroporto.
Desembarcamos em São Paulo na tarde daquele final de novembro, no aeroporto de Cumbica. Caía chuva intermitente similar à daquela manhã em Buenos Aires, cidade à qual, depois de quatro visitas, não pretendia voltar tão cedo, ao contrário das acolhedoras cidades uruguaias.
Como de praxe numa cidade desumana e voltada ao transporte individual, nós demoramos uma eternidade para ultrapassar os congestionamentos sem fim das Marginais de São Paulo, entupidas de automóveis.
Mas cheguei em casa são, salvo e gratificado pela viagem.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Uruguai e Argentina (parte 4/5)

...continuação
Despretensiosamente saímos pelas ruas do Micro Centro, sem rumo ou objetivos específicos. Desejávamos apenas flanar.
Alcançamos a avenida 9 de Julho, do Obelisco, a Corrientes, dos teatros e cinemas, as construções neoclássicas imponentes, ente elas o grandioso Teatro Colón, o Tribunal, a Casa Naval. Construções históricas que Buenos Aires e Montevidéu mantinham de pé e em bom estado, ao contrário da maioria das grandes cidades brasileiras, que cometeram e cometem o crime de apagar a memória urbana. Enquanto isso, ironicamente, a capital uruguaia e a argentina recebiam milhares de turistas brasileiros maravilhados com a arquitetura.
Acabamos caindo, como a maioria, no calçadão da rua Florida, repleta de lojas e lojinhas, cambistas, agentes de viagem, agentes culturais, vendedores. Todos gritando ao mesmo tempo no meio do calçadão, no melhor estilo do centro degradado de São Paulo. No meio das lojas, para portenhos e principalmente para turistas, cruzamos com um goiano de Goiânia que vendia produtos de couro de fabricação própria. Apesar da lábia e da certeza de nos engambelar, somente roupas caríssimas e sem novidades estilísticas. Vazamos rápido.
O mais agradável na desagradável rua Florida estava numa das extremidades do calçadão, mais precisamente na aconchegante praça San Martin, porta de entrada do bairro de Retiro. Colorida pelas flores lilases cobrindo as árvores altas, o local irrompia como um oásis depois da tortura sofrida ao longo do corredor polonês do calçadão comercial. Ampla, limpa, bem cuidada, sombreada, a praça nos convidava à preguiça, ao relaxamento, à observação da natureza e do leve vaivém de argentinos e turistas.
Antes da praça, porém, gente, muita gente, disputando espaço com os veículos em trânsito ou estacionados. Era impossível negar o tremendo impacto negativo dessa minha quarta passagem por Buenos Aires após vivenciarmos o pacato Uruguai, mesmo Montevidéu da movimentada e barulhenta avenida 18 de Julho.
Acordei antes do amanhecer e não consegui adormecer novamente. Já havia os ruídos vindos rua, seguidos pela vibração do começo do tráfego pesado de veículos dos dias úteis.
Descemos ao café da manhã, servido no subsolo, em salão feio e claustrofóbico. Fora os cereais e os iogurtes, dos quais eu me empanturrei, os demais itens eram pouco variados, invariavelmente ressecados e passados.
Botamos os pés nas ruas para enfrentar a trepidação, o barulho e a poluição do centro de Buenos Aires. Escolhemos uma rua a esmo, a Reconquista, no sentido da Praça de Mayo, espaço que contém a Catedral, o Banco de la Nación Argentina e, é claro, a Casa Rosada, sede do governo federal argentino.
Ao redor da praça, e dentro dela, faixas e cartazes de protesto, a maioria se referindo à soberania argentina e aos mortos durante a invasão da Inglaterra às ilhas Malvinas. E muitos, muitos mesmo, bloqueios metálicos montados pela polícia federal, ao redor de toda a Casa Rosada, fechando ruas, calçadas, parte da própria praça de Mayo.
A presidenta Cristina Kirchner discursaria para o público ao entardecer, depois de se licenciar por motivos de saúde por quarenta e cinco dias. O evento prometia. Os portenhos, lenta e firmemente, se dirigiam, isoladamente, em grupos, passeatas, para a praça. À medida que entardecia, crescia a agitação, as passeatas, os rojões, os tradicionais bumbos argentinos, a trepidação da cidade, a ansiedade de todos, inclusive a nossa.
Andamos demais do Micro Centro para o Centro, do Centro para San Telmo, de San Telmo para Puerto Madero, de volta ao Micro Centro, de volta a Puerto Madero, entre perambuladas, observações arquitetônicas, detalhes de portas, janelas, restaurantes, bares, cafés, as portenhas e os portenhos, todos apressados, aquelas produzidas e sobre saltos quilométricos, aqueles empertigados e vestindo ternos justos. E barulho, muito barulho, das obras, do trânsito, de tudo. E gente, muita gente.
Almoçamos em restaurante de Puerto Madero. Optamos pelo menu executivo, incluindo salada, pães e molhos variados, o suculento Bife de Chourizo, e uma generosa porção de salada de frutas. Comemos bem e bastante, regados ao vinho argentino, pagando preço aceitável. Apesar de local não turístico, mais frequentado por engravatados, o garçom arranhava a língua portuguesa e torcia fanaticamente para o Quilmes, time de futebol de cidade suburbana de mesmo nome. Ao pedirmos a conta, ele realçou “já trago la doloroza”.
E andamos, andamos, até os pés incharem. Entramos no hotel quase rastejando de cansaço. Tiramos as roupas e desabamos na cama para recompor as forças. O sol viera com tudo e fazia um calor suave. Abrimos o janelão de vidro. As preparações para as passeatas rumo à praça de Mayo, as vozes reivindicadoras, retumbantes aos microfones, incrementadas pelos bumbos e pelo espocar dos rojões, explodiam dentro do quarto do oitavo andar, talvez amplificadas pela acústica das ruas do Micro Centro.
Não saímos mais. Assistimos aos discursos da volta da presidenta Cristina Kirchner pela televisão. Tomamos o cuidado para escolher um canal público e não os privados ainda dominados pelos monopólios de sempre. Recentemente uma lei de democratização dos meios de comunicação fora aprovada pelo Congresso argentino e referendada pelo Judiciário. A famosa Ley de Medios combateria os monopólios da mídia argentina e abriria acesso para diversos setores da sociedade, públicos e comunitários, expressarem a voz pelo rádio e televisão, o que irritava profundamente o império privado dos meios de comunicação, avesso às vozes do povo.
Na Argentina, assim como no Brasil, nunca houve liberdade de Imprensa e sim liberdade de Empresa privada manipular a opinião pública.
Após o café da manhã mixuruca, caminhamos até a estação ferroviária de Retiro.
Quase em frente à estação, diante do painel dos Caídos na Guerra das Malvinas, soldados trajados de gala hastearam a bandeira argentina e tocaram o clarim em comemoração ao dia da Soberania.
Depois de nos situarmos dentro da enorme estação ferroviária, e encontrar a bilheteria correta, compramos passagens no trem de subúrbio. Uma usuária de crack furou a fila e implorou à bilheteira para lhe trocar uma nota de cinco pesos. Tão logo obteve o que queria, desapareceu pelos arredores da estação, recheada de moedas.
Embarcamos no trem metropolitano quase cheio em horário do contra fluxo. Os vagões estavam velhos e mal cuidados. A paisagem ao longo do trajeto de mais de uma hora alternou zona de fábricas e galpões, favelas de concreto, prédios de apartamentos, quadras de tênis, muitas quadras de tênis, campos de futebol, concentrações comerciais, subúrbios de alto padrão.
Apesar de casarões e mansões entre ruas arborizadas dos trechos mais sofisticados, nada de muros altos, nada das colônias penais tão na moda nos arredores de São Paulo, nada daquelas monstruosidades fortificadas batizadas de “condomínios fechados”, os sonhos de consumo das novas e velhas castas antissociais.
Na zona a nordeste de Buenos Aires, mais especificamente nas imediações de San Isidro, sobrados dos meados do século XX, alguns mais recentes, entre muito verde, ruas divinamente arborizadas, praças, parques, gramados. Nem sinal de muros altos ou guaritas de segurança. Afinal tratava-se de zona residencial e não de presídio.
Ambulantes e pedintes circulavam pelos vagões, alardeando as ofertas, proferindo o tradicional discurso, tão familiar nos trens da grande São Paulo: ”desculpe incomodar a viagem de vocês, mas...”, ou entregando bilhetes e fichas contendo a situação trágica em que se encontravam, para depois recolherem as magras esmolas.
Descemos na estação Tigre, na margem do rio de mesmo nome e ponto de partida de passeios turísticos pelo Delta, ao longo de rios e canais que desembocam no rio da Prata, além de partida das linhas regulares de barcos de passageiros às vilas acessadas somente pelas vias fluviais.
Não nos animamos a realizar os passeios fluviais turísticos, cujas rotas padronizadas não incluíam paradas para explorar os vilarejos e as trilhas entre eles. E nada conseguimos das linhas regulares. O péssimo atendimento nas bilheterias e a ausência de orientações claras nos painéis eletrônicos quanto aos horários de ida e de volta e às paradas previstas, provavelmente em acordo tácito com as operadoras turísticas, nos deixaram na mão.
Desistimos do que já não nos empolgava.
Nos contentamos em andar despreocupados pelas calçadas arborizadas das margens dos cursos d’água que cruzam a cidadezinha, entre casas, museus, bares, restaurantes, clubes de remo invariavelmente levando nomes em inglês. Tudo muito bem cuidado, limpo, vistoso, aconchegante. Não dava vontade de levantar do banco sob o caramanchão florido, assistindo os barcos irem para lá e para cá, vislumbrando os casarões da margem oposta.
Haja verde, nas árvores, gramados, calçadas, ilhas centrais da avenida da orla sinuosa. Não faltavam flagrantes do passado esnobe da Argentina, imitando em tudo a Inglaterra monárquica, a mesma que invadiu as ilhas Malvinas em 1982 e que, de maneira humilhante ao povo argentino, as ocupam até hoje. Evidências britânicas abundavam na arquitetura das casas, fachadas, nomes de estabelecimentos, na obsessão em decorar jardins impecáveis. Em redutos isolados, a Argentina parecia ainda viver os áureos tempos, anteriores às ditaduras e aos desmontes capitalistas dos anos 1970, 1980 e 1990.
Passamos rapidamente pelo Porto de Frutas, que de porto e de frutas não tinha mais nada. Tratava-se, na verdade, de um amontoado de lojas vendendo quinquilharias inúteis a preços exorbitantes e voltadas a turistas otários.
Trocamos novamente de margem e escolhemos uma mesa na calçada de restaurante que servia porções generosas a preços acessíveis. Sem titubear optamos pelo saborosíssimo Vacio, a nossa suculenta Fraldinha, uma das partes nobres do boi e que nos deliciamos em mais de uma oportunidade no Uruguai. Ainda reforcei o pedido para que viesse um pedaço magro, com o mínimo de gordura. Mas, porém, contudo, todavia, ao contrário do Uruguai, o que o garçom trouxe, para nossa profunda decepção, foi um pedaço de Costela, mais precisamente a famigerada Ponta de Agulha, uma parte  cinzenta, gelatinosa e gordurosa da costela bovina. Absolutamente nada a ver com o Vacio uruguaio ou com a Fraldinha brasileira. Garimpamos aquela gororoba o máximo que pudemos, mas nem chegamos à metade do que nos foi servido. A farta salada, as batatas fritas e a porção de pães nos salvaram parcialmente.
Ainda conversei com o garçom se aquilo era realmente o Vacio, no que ele prontamente confirmou, explicando os diferentes nomes usados no país para cada parte do boi. Os argentinos traduziam a palavra Vacio como sendo Fraldinha, e não Costela. Mas ali era a Ponta da Agulha da costela e não Fraldinha. E o Uruguai ali tão perto!
Vivendo e aprendendo! Vacio só no Uruguai, Fraldinha só no Brasil.
Andamos até a outra estação de trem da cidade, a Delta, a fim de tomar o Trem da Costa, dez vezes mais caro que o da ida e ligeiramente mais confortável. O diferencial ficou por conta do trajeto, diferente do anterior, passando ao largo de subúrbios charmosíssimos, San Isidro, Barrancas, entre tantos, alguns na margem do rio da Prata, repletos de verde, ruas arborizadas, quadras de esportes, gramados e parques sem fim, plataformas e barcos na beira das águas, nos convidando ao ócio criativo, como, aliás, muitos portenhos se deixavam levar por ali.
Até as pequenas e convidativas estações de trem da linha da costa eram aproveitadas para beber, conversar sem pressa, contemplar os únicos dois vagões do trem turístico, em mesas espaçadas dos cafés pitorescos.
Descemos na estação Maipu, a inicial da linha da costa. Atravessamos uma extensa galeria ladeada de dezenas de lojas de antiguidades e velharias, exalando o esnobismo anacrônico de uma Argentina que não existe mais. Ninguém parava, para olhar e muito menos para comprar.
No final da galeria, a estação Mitre, final de outra linha de trens de subúrbios, onde embarcamos rumo à estação de Retiro, de volta ao nosso ponto de partida pela manhã.
Um maluco, aparentemente inofensivo, vez ou outra, atravessava o trem inteiro, vagão por vagão, ruminando palavras indecifráveis. Ao se sentar, aproveitou para pichar frases na parede interna do vagão com caneta. Na praça das proximidades da estação, o indivíduo ainda caminhava aos supetões e escrevia frases ininteligíveis em placas públicas.
Insatisfeitos diante da Fraldinha que virou Ponta de Agulha gordurosa no almoço, saímos para jantar em Buenos Aires. Não pretendíamos ir longe, explorar opções gastronômicas em outros bairros. Arriscaríamos mesmo no Micro Centro.
Percorremos a rua Lavalle inúmeras vezes até nos decidirmos por café e restaurante de esquina, animado, possuindo boas opções a preços aceitáveis, conforme o cardápio afixado do lado de fora. O garçom nos assediou. Topamos, entramos e nos sentamos. Ele nos trouxe o cardápio na mesa e partimos para as escolhas. Mas, eis que senão quando, notamos que os preços daquele cardápio entregue na mesa diferiam dos do cardápio afixado do lado externo. Ainda verificamos e averiguamos duas ou três vezes. Os bandidos usavam preços baixos do lado de fora para cobrar altos preços do lado de dentro. Confirmada a tentativa de golpe dos empresários, levantamos e demos o fora imediatamente.
Embora cientes de estarmos em zona turística, nos enojava o assédio pegajoso dos agentes de bares, restaurantes, casas de espetáculos, lojas, passeios turísticos, isso e aquilo. Pareciam moscas e não paravam de gritar, todos ao mesmo tempo, pelas calçadas e calçadões.
Notamos um restaurante com jeito antigo, preços razoáveis e, principalmente, sem o assédio de garçons ou pentelhos em geral. Entramos. Os preços de dentro batiam com os de fora. Era estabelecimento do tipo tradicional, com garçons velhos e gastos, vestindo calça preta, camisa branca, gravata borboleta preta, guardanapo envolvendo o braço direito.
Pedimos massa e vinho argentino. E não nos arrependemos. Ambos vieram saborosos e bem servidos.
Mais relaxados e saciados, notamos que a frequência, à parte dos raros turistas que não caíram nas arapucas de sempre, era de portenhos, seres da noite, amigos, casais antiquados, saudosistas do centro de Buenos Aires.
Cama e sono pesado coroaram o dia gratificante.
continua...

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Uruguai e Argentina (parte 3/5)

...continuação
Indecisos no que fazer pela manhã, uma vez que os horários dos transportes a Cabo Polônio não batiam, optamos por outro vilarejo. Corremos para o terminal rodoviário e embarcamos em tempo.
O ônibus entrou em La Pedrera, vilarejo na beira do mar. Mais adiante, passou na entrada do Parque Nacional de Cabo Polônio. Vários ônibus de turismo, mais uma dezena de automóveis, estavam estacionados ao lado. Longa fila de visitantes aguardava para embarcar nos veículos tracionados rumo ao miolo do Cabo Polônio. Algo me dizia que não iríamos adorar apreciar a natureza, física, vegetal e animal com os lobos marinhos, em meio àquela caravana de turistas.
Meia hora depois desembarcávamos em La Valizas. Saímos a pé pelas ruas de areia do vilarejo, pequeno, pacato, singelo, tranquilo, dotado de construções precárias e charmosas. Algumas completamente abandonadas, cercadas de mato e em estágio avançado de apodrecimento das madeiras das paredes, portas, janelas.
Atingimos a praia extensa e aplainada, cujas dunas invadiam as casas e bares de madeira erguidos irregularmente. A natureza, substituindo a negligência de construtores e autoridades, tratava de punir os infratores ambientais, forçando-os a abandonar as propriedades por bem ou por mal. Casas simples e inventivas, de cores berrantes, começavam a ser engolidas pelas dunas, em constante movimento devido ao vento intenso que não cessava um segundo sequer.
Na praia, frequência esparsa e desencanada.  Cada um na sua, despreocupados se os demais agiam assim ou assado. Bichos-grilos, autênticos e falsos, vestindo roupas puídas e encardidas, se espalhavam em raros e pequenos grupos ou casais pela imensidão da praia. A maioria procurava se encostar ao pé das dunas para se proteger, ainda que parcialmente, das rajadas de vento. É isso aí, bicho!
Na extremidade da praia, a barra do rio Valizas, que deu nome à cidadezinha, atravessado somente por barcos a motor mediante pagamento aos barqueiros. Do outro lado do rio, as dunas mais altas, mais praias e, no final do horizonte, pontões e ilhas rochosas, talvez nas proximidades do Cabo Polônio.
As águas calmas do rio lutavam contra a correnteza do mar, num vaivém constante de avanços e recuos, ora de um, ora de outro. Na margem esquerda, mais casas, casebres, cabanas, barracas, abandonadas pelo avanço das dunas, pela baixa temporada, pela falta de condições ou de interesse em mantê-las.
No geral, o conjunto natureza bruta em contato com as construções isoladas formava um desenho belo e atraente, delicioso para se deixar contemplar por horas.
Voltamos ao caminho de areia principal da vila na procura de algo substancioso para comer. Na primeira tentativa, em estabelecimento completamente vazio, o proprietário nos comunicou, em tom de quem não queria nada com nada, mas sorrindo ironicamente, que só tinha para oferecer peixe e camarão, já se desculpando, já se despedindo, e prontamente nos sugerindo outro restaurante ali perto.
Entramos no que parecia a única opção em refeições naquele dia em La Valizas. Comemos Chivitos, regados ao espumante uruguaio, o Medyo y Medyo, bem gelado e refrescante, em garrafa retirada do fundo do refrigerador depois de lenta procura pelo dono gordo e vagaroso. Nos empanturramos e saímos saciadíssimos do estabelecimento bem decorado, mas desmazelado pelo tempo e pelo descuido do dono que se arrastava pelo chão acompanhado da gata e da cadela.
O retorno de ônibus foi rápido na tarde ensolarada, iluminando pastos, alagados, baixios, criações de gado, ovelhas, cavalos, os bosques de pinheiros, as casas, as isoladas sedes de fazendas. Pouco depois desembarcávamos em La Paloma. O vento frio vencia com folga o sol brilhante e descendente.
Descemos ao procurado restaurante do hotel para o jantar. Fui de Cazuela de mariscos, ela de peixe grelhado com salada. Escolhemos vinho uruguaio e nos demos por saciados. Nem tentamos a sobremesa. O restaurante lotou naquela noite. Os interessados tiveram que esperar bastante no bar anexo ou desistir.
Arriscamos dar uma volta pelas ruas da cidadezinha, mas o frio penetrante, surpreendentemente sem vento, frio de verdade, nos obrigou a voltar e nos enfurnar no quarto do hotel. A lua cheia brilhava absoluta no céu desprovido de nuvens.
Acordamos cedo, para o começo do café da manhã. Lá estavam três gringos, um estadunidense com sotaque marcante de terrorista, um indiano ou paquistanês, um oriental, todos conversando amenidades com um uruguaio. A língua falada era a inglesa. Eu poderia jurar que ninguém estava a passeio pelo Uruguai, por La Paloma. E boa coisa para o povo uruguaio eles não vieram fazer na América do Sul.
Embarcamos em ônibus velho de dois andares. Na rodoviária de Montevidéu subimos em ônibus cheio que lotou ainda mais durante o percurso, obrigando dezenas de passageiros a viajarem de pé, esmagados no corredor.
Nada de novo na paisagem de campos aplainados, exceto na periferia oeste de Montevidéu. Além da refinaria da ANAP e de pequenas fábricas e galpões, extensa zona residencial bastante precária, favelas de concreto, cubículos imundos e entulhados de gente e tralhas. Depois, campos de gado, trigo, milho, pastos vazios, vegetação ciliar.
Descemos em Colônia Sacramento e nos hospedamos em hotel a poucos passos do terminal rodoviário e do terminal flúvio-marítimo.
Assistimos a partidas e chegadas das embarcações, da linha entre Colônia Sacramento e Buenos Aires, do parque ao redor da desativada estação ferroviária da cidade que alcançava a beira do rio da Prata. O Uruguai, assim como o Brasil, também se ajoelhou e caiu no conto do vigário do transporte rodoviário. As linhas de trem do país se encontravam totalmente abandonadas, cobertas pelo mato ou pelo asfalto. Ônibus, caminhões e automóveis compunham a rede de transportes uruguaios. O país vivia sob a ditadura do transporte rodoviário, encabeçada por corporações transnacionais, as mesmas que corromperam os governos a sucatearem a extensa malha ferroviária do Brasil.
Ainda deu tempo para contemplarmos o belíssimo por do sol na beira do rio da Prata, seguido magistralmente pelo nascimento de mais uma lua cheia e brilhante no lado oposto.
Opções gastronômicas se dispunham ao longo da avenida General Flores. Comemos a fraldinha grelhada ao ponto, acompanhada de saladas, pães e o bom vinho uruguaio. Sentamos em mesa na calçada naquela noite fresca e agradável.
Durante o jantar, passou pela avenida um bloco de Candombe, ritmo típico do carnaval do Uruguai. A despeito da origem africana, naquele bloco não havia nenhum mulato ou negro, apenas branquelos batucando, balançando as mãos e os quadris. O resultado se assemelhava bastante ao candomblé brasileiro, não só no nome, mas no ritmo das batidas da percussão e na coreografia dos passos de dança, particularmente em relação às festas de louvor aos orixás tão presentes nos terreiros e roças do Brasil.
A noite avançava e o frio sorrateiramente começava a nos envolver. Batemos no rumo ao quarto apertado do hotel.
Comemos o café da manhã, reguladíssimo, mas saboroso e suficiente. A senhora da cozinha nos esperava sentar para começar a servir item a item. Internamente, o hotel agradava pela disposição entre os quartos, pátios, corredores, pequenas escadas, entradas e saídas das áreas comuns. O enorme casarão foi bem aproveitado e decorado com discreto bom gosto.
E fomos caminhando pela arborizada rua Manoel Lobo, em homenagem ao fundador da cidade, rumo à Cidade Velha, à qual entramos pelo portão da antiga cidadela fortificada, através de espesso muro de pedras. O brasão português lá estava acima da fortificação, assim como os canhões voltados para as águas do rio da Prata. Dentro da cidadela, calçamento em pé-de-moleque, becos, azulejos, lustres, construções barrocas e neoclássicas, a catedral, o alicerce do palácio e residência de Manoel Lobo, saqueado e destruído pelos invasores portenhos, a Plaza Mayor, a Plaza Menor, o farol, a rambla costeira, pequenas enseadas, muitos restaurantes e pousadas, lojinhas de utilidades e inutilidades, carros antigos estrategicamente estacionados para realçar a atmosfera histórica e, surpreendentemente, poucos turistas e muita tranquilidade naquele começo de manhã.
Almoçamos menu turístico, bem servido na quantidade e na qualidade, em restaurante instalado despretensiosamente dentro de casarão da avenida principal, a General Flores. Até os banheiros eram originais, amplos, com pia, vaso sanitário, bidê, banheira. Tudo sob um pé direito alto e placas de motos e automóveis decorando as paredes internas dos salões.
Os uruguaios, e provavelmente os argentinos visitantes, não largavam a garrafa térmica debaixo do braço, a cuia e a bomba do chimarrão na mesma mão, durante quase vinte e quatro horas por dia, nas ruas, praças, parques, ônibus, carros, pontões de pedra, onde pescavam tranquilamente na beira do rio. Homens e mulheres, velhos e moços, vestidos assim ou assado, agiam como manetas, tendo apenas um braço e mão disponíveis para o resto das atividades.
Por ser pequena, bonita, famosa e em posição estratégica na ligação fluvial entre dois países, Colônia exibia turistas de todos os cantos do mundo, inclusive os mochileiros modernos, que em comum com os mochileiros exploradores de outrora só mesmo a própria mochila, como pude notar e anotar nas viagens anteriores pelo Brasil e por outros países do planeta.
Houve tempo de sobra na parte da tarde para revermos os nossos pontos favoritos da cidade. As pequenas distâncias e as sombras nas calçadas das ruas ricamente arborizadas de plátanos possibilitavam repetirmos esse e aquele roteiro a pé.
Sentamos em banco na beira do rio da Prata a fim de contemplar o encerramento do dia.
Para jantar, optamos por restaurante pequeno e charmoso numa praça da Cidade Velha, quase em frente à Catedral. Escolhemos mesa estrategicamente situada na calçada, sob a noite fresca. Vinho uruguaio, massa e a atmosfera bucólica da praça compuseram nosso jantar de despedida do Uruguai.
Praticamente não dormimos.
Bem depois da meia noite o casal do quarto ao lado discutia do lado de fora, muito próximo à nossa porta. O clima estava pesado e ela, principalmente, lhe lançava palavras fortes, enquanto ele desembestava a falar sem parar. Tudo em castelhano. Foi preciso eu reclamar na janela para eles entrarem e brigarem mais baixo.
Outros turistas se hospedaram tarde e conversavam em voz alta pelas saletas, escadas de metal e corredores. Um gaúcho adulto e todo esbaforido iria dividir o quarto com a mãe. Subia e descia as escadas tagarelando. Não sossegava de jeito nenhum.
A simpática disposição interna entre os quartos do hotel revelava os defeitos. A acústica era péssima. A proximidade de portas e janelas, ambas internas, concentrava e propagava todo e qualquer som. A escada de metal vibrava e amplificava o ruído dos passos.
Acordamos cedo e chegamos horas antes ao terminal flúvio-marítimo de Colônia. Despachamos as bagagens, passamos pela imigração uruguaia, exatamente ao lado da imigração argentina. Saímos de um país e entramos noutro em apenas trinta centímetros de balcão.
Embarcamos no barco com capacidade para duzentos e trinta passageiros. Escolhemos assentos a esmo. A viagem curta foi agitada pelas águas bravias do rio da Prata, provocando fortes oscilações na embarcação. O tempo nublara. Chuviscou e ventou bastante. Nada para ver dentro ou fora, exceto muita água e animações curtas nas televisões internas, intercaladas de propaganda comercial e repetitiva, uma delas da prefeitura de Manaus, convidando às atrações turísticas da capital amazonense.
 Desembarcamos no dique de Puerto Madero, em Buenos Aires.
Com as bagagens, saímos a pé e batemos de frente com o trânsito infernal do centro de Buenos Aires. Buzinas, muitas buzinas, histéricas. Obras nas calçadas e em algumas ruas. Gente, muita gente, indo, vindo. Cenas de megalópole em transe.
Estávamos adiantados para o horário de entrada nos quartos do hotel. Deixamos o peso das bagagens atrás da recepção e saímos para almoçar.
E haja entupimento de carros pelas ruas e avenidas, gente pelas calçadas, em meio a incrível poluição sonora. Bem menos paciência e gentileza, de motoristas e pedestres, que na acolhedora Montevidéu.
Entramos em restaurante comercial, frequentado por trabalhadores do centro, na verdade o Micro Centro de Buenos Aires. Comida comível em ambiente frenético, apertado e barulhento. Chamou atenção a longa fila formada de clientes para comprar comida para levar, naquele e em outros estabelecimentos. Muitos restaurantes por quilo nem mesas tinham. As pessoas entravam, enchiam as quentinhas, pesavam, pagavam e as levavam sei lá para onde. Comeriam sobre as mesas dos escritórios? Comeriam sentadas nas calçadas, em meio à insana poluição sonora e do ar, como vimos duas funcionárias de escritório em rua estreita e movimentada?
Espalhamos a bagagem no amplo espaço do quarto e da saleta do hotel. Relaxamos na cama grande de casal enquanto a enlouquecida Buenos Aires trepidava lá embaixo.
continua...

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Patagônia - Chile e Argentina (parte 2/2)

...continuação
Chegada ao refúgio Grey, na margem gelada do lago de mesmo nome e com pedaços flutuantes de gelo. Desta vez não houve estadunidenses prepotentes e as reservas nos quartos coletivos se mantiveram. Muitas árvores enfeitavam as redondezas do refúgio, mas durante a noite o frio não permitia relaxar do lado de fora. O grupo se retirou cedo para compensar a noite anterior mal dormida.
Pela manhã caminhada à frente da geleira Grey, enorme formação de gelo entre blocos rochosos, que nascia na região do gelo continental e se desprendia lentamente nas águas do lago.
Da geleira Grey, passagem pelo refúgio e caminhada ao lago Pehoé. Novas rajadas de vento pelo caminho em meio a visual impressionante das geleiras e dos lagos. E, finalmente, hospedagem no refúgio Pehoé, a última noite depois do sexto dia de travessia pelo parque nacional Torres Del Paine.
Na manhã seguinte, o barco no cais da ponta do lago Pehoé. As últimas olhadas serviram de despedidas de região tão fascinante. Horas depois por estradas do extremo sul da América, novamente a fronteira da Argentina.
Estadia em El Calafate, cidade metida a besta, porém bem urbanizada e cheia de opções de bares e restaurantes. A avenida principal que cortava a cidade de ponta a ponta cobria-se de lojas de roupas caras e pretensiosas. Nem parecia que a Argentina estava mergulhada em crise profunda. A taxa de conversão entre o peso argentino e o dólar estadunidense ainda estava contida em 1 para 1. Os estabelecimentos comerciais aceitavam ambas as moedas.

Durante aqueles dias, vários presidentes argentinos se sentaram e se levantaram da cadeira oficial. Ninguém fazia previsões seguras. A incerteza pairava no ar. O garçom sexagenário do hotel, assim que servia a mesa do café da manhã, se juntava aos demais empregados e colava o ouvido no rádio da cozinha na busca de notícias alvissareiras. A maioria dos funcionários do hotel, lojas e restaurantes andava cabisbaixo e preocupado. Os olhares denunciavam a apreensão com os destinos do país e com o temor da situação social piorar ainda mais. Não havia espaço para piadas ou brincadeiras.
El Calafate servia como base para visitar o glacial Perito Moreno, distante poucos quilômetros da cidade. Da entrada, no alto do morro, a pé pelas passarelas, dava para circular por entre os vários níveis de observação. Ao descer as plataformas de madeira, mais se aproximavam os paredões de gelo. A visão era deslumbrante da montanha de gelo, alta, extensa e larga, que se debruçava sobre as águas. Vez ou outra, enormes pedaços se desprendiam e despencavam nas águas, causando fortes estrondos. A imensa massa de gelo, de tons azulados principalmente no miolo, se estendia a oeste, rumo ao gelo continental e à fronteira chilena. Horas benvindas de contemplação. Turistas de todos os tipos e idades se espalhavam por ali. Houve passeio de barco até bem perto dos paredões.
À noite em El Calafate, durante o lauto jantar, não foram poucas as garrafas de vinho consumidas. Além da qualidade do produto, das frias temperaturas da noite, a garrafa do precioso líquido custava o mesmo que uma xícara de café. Então, em vez de café, mais uma garrafa de vinho. Dólares estadunidenses e pesos argentinos se misturavam na mesa no momento de pagar a conta.
Pela manhã a caminhonete conduziu à cidadezinha de El Chalten, às portas do parque nacional Los Glaciares e próxima das principais montanhas da região.
El Chalten não era propriamente uma cidade. Ainda. Mas pequeno conjunto de pousadas, hotéis, bares e restaurantes na margem de rio pedregoso que corria no final de planície árida. Da estrada, mesmo distante, se via o vilarejo, as montanhas nevadas e pontiagudas ao fundo. Restaurantes de ótimo aspecto e preços altos apareciam aqui e ali.
Houve tempo suficiente para expedições à laguna Serena, à base do cerro El Chalten (Fitz Roy), à base do cerro Torre, nos pés dos quais se instalavam barracas dos acampamentos base, utilizadas principalmente por escaladores. As caminhadas não cansavam muito, cruzando bosques fechados, trechos mais secos, riachos parcialmente congelados. Nevou, nublou, garoou, esfriou muito. De perto vi apenas as bases das montanhas, desimpedidas das nuvens carregadas. Ventava furiosamente e não consegui permanecer muito tempo nas proximidades.

As comemorações pelo novo ano ocorreram em hotel próximo. Tudo simples, animado e espontâneo. Caminhantes se reuniram para beliscar e beber vinhos.
Em meio a outros turistas, as conversas evoluíram para a política mundial, com alguns argentinos e quatro suíços. Os quatro europeus questionavam a ausência de democracia em vários países da América, a miséria, a corrupção, o narcotráfico, as agressões ao meio ambiente. Avancei o debate no sentido de analisar as causas e os agentes dos problemas. Citei as transnacionais químicas e agrícolas suíças que atuavam impunemente pelo continente americano, agredindo a natureza e explorando a mão de obra barata. Primeiro silêncio e mal estar dos quatro. Também quis saber a posição deles frente ao então recente plebiscito sobre a abolição do sigilo das contas bancárias nos bancos suíços. Eram lá que os ditadores, assassinos, corruptos, megaempresários, traficantes do mundo inteiro, depositavam as fortunas decorrentes da exploração dos pobres. Com esse dinheiro os criminosos internacionais abasteciam a economia da Suíça. Os quatro suíços não responderam e tentaram desconversar. Insisti. E, finalmente, admitiram o apoio ao sigilo bancário dos bancos suíços. Apoiavam, portanto, a fuga de capitais, sobretudo dos países mais pobres. Concordaram que mantinham e desfrutavam do alto padrão de vida na Suíça graças à miséria de milhões de pessoas pelo mundo afora.
Após o acampamento base do cerro El Chalten (Fitz Roy), trilha para lá de íngreme rumo à laguna de Los Três, na base da montanha. Nevou na subida e no nível da lagoa, sem falar no vento gelado. Mas o cenário fascinava. Lagoa de águas azuladas, rochas negras e cinzentas, trechos de neve branca, a montanha, faziam qualquer um esquecer a neve, o vento, o frio.

Já de volta a Buenos Aires, houve tempo suficiente para dar voltas pela cidade, de noite e de dia, pelo centro antigo da capital, as imediações da Casa Rosada. Esticada a San Telmo e Puerto Madero. Aquele último domingo na Argentina seria também o último dia da paridade entre o dólar estadunidense e o peso argentino. As ruas anunciavam informalmente a desvalorização de cinquenta por cento do peso para o dia seguinte. Mas eu já estaria no Brasil.
Desembarquei em São Paulo em janeiro do ano seguinte. As imagens da Patagônia, chilena e argentina, das montanhas nevadas, lagos, vales e bosques impressionantes, do vento intenso sempre presente, não me sairiam da lembrança. Assim como os rostos preocupados dos argentinos frente às trágicas consequências do capitalismo no país que, como no mundo tudo, serve apenas a uma minoria, local e estrangeira, lançando milhões de trabalhadores na pobreza.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Patagônia - Chile e Argentina (parte 1/2)

Era alta temporada na Patagônia, ainda mais com as festas de natal e ano novo. Decidi encarar roteiro incluindo o lado chileno e argentino, com longas caminhadas às montanhas nevadas, visitas a vilas, glaciais e lagos.
Desembarquei em Buenos Aires em dezembro, justamente na noite seguinte às manifestações populares que expulsaram o presidente Fernando De La Rua. O povo argentino chamou a responsabilidade para si, se organizou e lutou, exigindo a renúncia de mais um fantoche do imperialismo, depois de sucessivos protestos de ruas, greves e passeatas. As ruas da capital se encontravam vazias. Vidros frontais de algumas instituições financeiras mostravam-se parcialmente quebrados. Pedaços de madeiras e tecidos queimados espalhavam-se pelas avenidas.
Em Rio Gallegos, extremo sul da Argentina, o furgão esperava no aeroporto. Apesar do sol e céu azul, o vento constante deixava tudo muito frio.
O veículo percorreu as estradas planas argentinas, cruzamos a fronteira do Chile, até Punta Arenas, na margem do estreito de Magalhães. Nem precisaria ressaltar o frio polar que baixava por ali. As altas latitudes, o vento que não sossegava um instante, transformavam o verão local em inverno. E a visita às areias escuras do gelado estreito de Magalhães durou o mínimo possível, o suficiente para olhadelas e registros fotográficos.     
No caminho ao parque nacional Torres Del Paine, uma reserva de pinguins. Na margem oposta do lago em Puerto Natales se erguiam as montanhas da cordilheira dos Andes.
Em área pertencente ao parque nacional, desembarque ao lado do refúgio Torres. O furgão ficaria por ali. De mochilas nas costas seguimos a trilha montanha acima, contra o vento e suave queda de neve.

Básico e de madeira, o refúgio Chileno garantiu o conforto necessário. Quartos amplos com beliches, sobre os quais eram desenrolados os sacos de dormir, banheiros coletivos com água quente, limpeza razoável, comida boa encomendada previamente. Mas o melhor, e o que eu já presenciara no Nepal, era o ambiente coletivo na sala de estar. Ao lado da lareira, turistas do mundo inteiro se distribuíam nas cadeiras e almofadas. Bancos de madeira do lado de fora, ao lado de rios encachoeirados vindos das geleiras acima, poderiam ser boas opções. Mas vento cortante e constante afugentava os oriundos de países tropicais.
O roteiro proposto era o chamado de “W”. A subida do refúgio Torres, passando pelo refúgio Chileno, até a base das Torres, compõe a perna oriental do “W”.
Bem cedo colocamos o pé na trilha em direção às famosas torres que dão nome ao parque nacional. Embora em subida constante e com trechos sobre blocos rochosos, a caminhada não chegou a cansar. As trilhas da Patagônia não atingem grandes altitudes, não provocam dificuldades de respiração ou prejudicam o rendimento físico. Atravessaram bosques, pequenas cascatas, campos abertos com visões de picos nevados, rios com corredeiras. A última subida, pela morena glacial, exigia mais cuidados para não escorregar nos enormes blocos de rochas justapostas. No alto, o relevo volta a descer ao lago do degelo e subir novamente a partir de onde se erguiam as três torres de pedra. Ao atingir a parte alta da morena, as nuvens cobriam as torres e os paredões ao lado. Mas em questão de minutos o vento as dissipou, e as torres se apresentaram imponentes bem à frente. Três enormes formações de rocha clara e maciça, pontiagudas, com pequenas nesgas de neve, se exibiam acima das águas acinzentadas do lago, desenhando imagem deslumbrante, chocante. E bem distinta dos Andes centrais.
Tempo de sobra no alto da morena. Comemos o lanche reparador. Inicialmente apreciamos aquela imponência sem mais ninguém, somente acompanhados da natureza. Depois o local se encheu de turistas. A maioria se calava diante das belezas naturais, não comprometendo a paz essencial à contemplação.  
Descida pela mesma trilha da subida, passando batido pelo refúgio Chileno. Parada no refúgio Torres, onde ficaríamos justamente a noite da véspera de natal. O refúgio serviu jantar no sistema de bufê, enriquecido de vinhos, espumantes e doces.
Bem cedinho, a travessia seguiu pela trilha na beira do lago. O visual se diversificava com bosques, campos, riachos cheios de pedras, pontes de madeira, morenas, encostas nevadas, picos rochosos, lagos de águas azuladas. As temperaturas durante o dia beiravam o agradável, sobretudo com o corpo em movimento. Eventualmente fazia calor, sob o sol, ou leve frio ao nublar e ventar.

Entre subidas e descidas pouco intensas, chegada ao refúgio Cuernos, na beira do lago, aos pés da imponente montanha de mesmo nome e em cujo topo a neve cobria a rocha negra. Rostos começavam a se tornar familiares devido às semelhanças de roteiro, ao mesmo ritmo. A morena inglesa, bonita e substanciosa, mereceu discretas atenções. E eu também não passara despercebido. Sutilmente, muito rapidamente, começou a me procurar com os olhos. Decidi degustar o flerte. E eu me divertia com os demais brasileiros, entre homens e mulheres, boas companhias de caminhadas. Além de comer bem, não dispensávamos o vinho chileno em todos os jantares. Servido em embalagem longa-vida para facilitar no transporte, a bebida ajudava a recuperar as energias e a descontração, entre goles e garfadas.
O quarto dia de caminhada foi o mais cênico de toda a travessia. Ainda próxima às águas dos lagos ao sul, a trilha ofereceu ramal transversal. Era o vale Francês, a perna central do “W”, que dava acesso ao acampamento Britânico, nas cabeceiras do riacho parcialmente congelado que acompanhava ao lado. Ventava terrivelmente. Nevava esporadicamente. O frio castigava mais à medida que o relevo subia. Imensos glaciais se assentavam nas paredes negras da montanha do lado oposto do vale Francês e atingiam o riacho. A imagem impressionava com o contraste entre o branco da neve e o preto das rochas. A vegetação, inicialmente composta de bosques, tornava-se mais rala vale acima. Pude avistar também a encosta leste do vale, acima da trilha, formada por agulhas rochosas e outras formações inusitadas. As pontas acinzentadas a levemente acastanhadas se projetavam no céu azul e criavam paisagens inóspitas e fascinantes. Sensações de estar em outro planeta. O vento insuportavelmente forte e o frio cortante castigavam sem dó.
De volta à trilha principal, o vento prosseguia a todo vapor, sobretudo nas proximidades do lago Pehoé, local de refúgio de mesmo nome e parada para aquela noite. Porém, inexplicavelmente, o refúgio aceitara mais reservas do que a capacidade normal. E já estava lotado. Um grupo de estadunidenses provavelmente subornara o administrador do refúgio, ocupando integralmente as dependências internas, expulsando os demais caminhantes, ainda que tivessem as reservas confirmadas várias vezes. Os cúmplices chilenos daquele escândalo talvez esquecessem que o regime do país de origem daqueles turistas preparou e organizou o golpe civil/militar de 11 de setembro de 1973, mantendo e financiando a ditadura por dezesseis anos, perseguindo e matando o povo chileno.

A alternativa foi em barracas para duas pessoas na beira do lago. Sempre adorei acampamento, ainda mais em meio à natureza tão privilegiada. Mas ficar em barracas iglu, altas e sem estabilidade, nas margens de lago de onde açoitava vento intenso e constante, não tinha a menor graça. Banheiros, somente os frios do acampamento. As dependências internas do refúgio eram liberadas apenas durante o jantar previamente encomendado. Nem bem acabamos de comer, fomos convidados a nos retirar e liberar espaço aos invasores estadunidenses. Durante a noite, o tecido da barraca, bastante inclinada pelo vento, balançava, vibrava, atingindo e açoitando meu rosto a todo instante.
A caminhada começou bem cedo, sob a neve e chuva fina. Pertencente à perna ocidental do “W”, a longa trilha subia leve, mas sem tréguas, até o alto da colina. O vento, como não poderia deixar de ser, soprava sem parar e com intensidade ainda maior que das outras vezes. Em certos momentos parecia que eu iria flutuar tal as rajadas vindas de todos os lados. A integrante do grupo, baixinha a magrinha, amedrontada com a situação, chegou a recolher duas pedras do chão, passando a caminhar com uma em cada mão, obtendo o lastro para não sair voando. Na descida do morro, em visão panorâmica do lago Grey, blocos de gelo flutuantes nas águas, que se desprenderam das geleiras mais ao fundo. Se não houve moleza durante o esforço físico da subida, o mesmo se repetiu ao longo da trilha de descida. Traçada na encosta do morro que se inclinava nas águas do lago, a trilha era castigada por impiedosas rajadas de vento. As árvores e arbustos estavam definitivamente inclinados e com os galhos todos voltados para um lado só. O vento contra vindo do lago era tão intenso que eu podia me soltar que não cairia. Eu abria os braços, tirava um pé do chão e quase tirava o segundo também. Aquelas flutuações viraram passatempo depois de acostumado com a velocidade do vento. Se por um acaso, repentinamente, o vento parasse de soprar, eu desabaria e me arrebentaria na trilha cheia de pedras pontiagudas.
continua...