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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Inglaterra (parte 2/2)

...continuação
Por conta própria, sem excursões escolares, pegamos trem rumo a Oxford. A antiga e histórica cidade sobrava em charme, beleza, personalidade. Encantava pelos becos, universidades com jardins perfeitamente conservados, construções pesadas e imponentes, catedrais, torres. Tirando as lotadas ruas comerciais, as demais partes da cidade exalavam calma, sossego, silêncio. Nem mesmo as pencas de turistas afetavam a atmosfera envolvente. Eram dezenas de universidades cujos prédios impunham respeito pela beleza da arquitetura, gramados impecáveis, parques floridos, atmosferas seculares. E tivemos a sorte de presenciar cerimônias de formatura, nas quais estudantes vestiam togas solenes e pretas, chapéus também pretos, fornecendo ao ambiente muita pompa e emoção.
Em Londres, demos uma olhada rápida pela região de Camdem Town no início da manhã. Ainda montavam o mercado, feira de roupas, objetos usados em geral. Havia de tudo um pouco, maluquices, ousadias, outras nem tanto. Os preços variavam de exorbitantes a boas pechinchas.
Caminhamos da praça Leicester até a Torre de Londres, passando pela catedral de São Paulo, pelo centro financeiro. Foi uma longa pernada, mas agradável e pedagógica. Não fazia calor e as ruas estavam vazias naquela manhã de domingo. Mas permanecemos somente do lado de fora da Torre. Não estávamos a fim de encarar a fila quilométrica. Encaramos cinema e assistimos a filme deplorável. Circulamos pelo Hyde Park sob um vento frio.
Exceto as aulas dispensáveis, o dia se resumiu a outro gostoso lanche na base de muita comida e vinho no parque Waterlow.

À noite, a escola promoveu concursos de cultura geral. E o grupo do qual participamos saiu vencedor. Ganhamos uma garrafa de vinho, detonada ali mesmo, camisetas da escola e um dicionário Oxford. As perguntas se restringiam a conhecimentos simples e não exigiam tanta cultura ou raciocínio. Com honrosas e raras exceções, a maioria dos alunos impressionava pela ignorância e alienação sobre tudo. Embora compreendessem o inglês necessário, nada sabiam sobre dados e fatos ao redor do próprio nariz. Um aluno suíço pós-adolescente se destacou pelo desequilíbrio mental. Gritava, interrompia, atrapalhava. De nada adiantou as sutis repreensões do inglês que coordenava e lia as questões. Após abrirmos e secarmos a garrafa de vinho conquistada, o jardineiro da escola sentou-se à nossa mesa. Abriu outra garrafa e nos ofereceu. Então auxiliamos o gentil colega a enxugá-la em minutos.
O clima sombrio incomodou durante o dia e não fizemos grandes coisas ao ar livre. Algumas linhas de metrô estavam paralisadas ou em funcionamento precário.
Como se fosse possível, o dia na escola conseguiu a proeza de ser ainda pior que os anteriores. Em tudo, conteúdo das aulas, comportamento dos professores, vexame dos alunos. O cardápio das bobagens incluía jogos de ludo, de adivinhação e outras idiotices para enrolar o tempo. De ensino da língua inglesa, praticamente nada. Nos últimos cinquenta minutos da tal “aula”, dois alienados da Suíça pediram e o professor os atendeu. Ignorando a programação do curso e o interesse da maioria dos alunos, trouxe folhas contendo lista dos principais palavrões da Inglaterra, com exemplos e tudo o mais. Os dois suíços, que adoravam cochichar em alemão feito duas comadres fofoqueiras, aplaudiram a inovação e se excitaram com o nobre aprendizado. De nada adiantou eu e outros alunos reclamarem daquela perda de tempo. O professor justificou que oferecia a oportunidade de aprendermos a linguagem das ruas. Somente palavrões por longos cinquenta minutos.
Aproveitamos as aberturas de sol e passeamos na região de Richmond, afastada do centro de Londres, na margem do rio Tâmisa, em meio a extensas áreas verdes, como sempre impecáveis no arranjo e conservação.
Embarcamos em nova excursão da escola, rumo à cidade litorânea de Brighton.
Muito frequentada pelos londrinos no verão, a praia só podia ser piada de mau gosto. Não havia sequer um grão de areia, somente seixos de cerca de cinco a dez centímetros de diâmetro. Era impossível caminhar descalço sem tropeçar, cair ou cortar as solas dos pés. Para completar a desgraça, o píer que avançava no mar se entupia de fliperamas, máquinas de jogos eletrônicos, caça-níqueis.
A área central da cidade oferecia becos estreitos e sinuosos, formando labirintos com lojas, restaurantes, confeitarias. Pelo menos ali valia a pena circular e apreciar o conjunto arquitetônico. Entramos em restaurante italiano no meio do labirinto que servia boa comida, bom vinho, bom café. Sem pressa, passamos boas horas naquele ambiente aconchegante.
Acordamos bem cedo para pegarmos trem rumo a Canterbury na estação ferroviária de Victória. Aquela linha não estava em nenhuma tabela de horários, o que não seria novidade. A maioria das tabelas não passava de pura ficção. Linhas de trens presentes nas programações não corriam mais. Outros em funcionamento não constavam das listas. A Inglaterra depois da privatização de inúmeros serviços essenciais não inspirava confiança. E nem havia banheiros no vagão que viajamos.
Canterbury era bem arranjada, simpática, com lindos jardins, para não perder a mania inglesa, casas e ruas charmosas, a impressionante catedral gótica. O tempo chegou a abrir, mas o frio apertou. E na volta, mais aventuras pelos transportes ingleses privatizados. Foi preciso pegar um trem, um ônibus para superar o trecho interrompido da ferrovia, e outro trem até a capital. E o percurso total era curto. Muito mais complicado e desgastante do que nos interiores da Índia, onde estivéramos meses antes.
E mais problemas no metrô em Londres. Ramais e linhas interrompidas. Desviamos e tivemos que trocar duas vezes de linha.
Em dado momento da aula no outro dia, o professor pediu que cada aluno conversasse com o aluno ao lado e perguntasse sobre o comportamento usual durante as refeições nos respectivos países. Eu fiz dupla com uma japonesa de vinte e poucos anos. Descrevi a alegria e descontração que acompanhavam a maioria das refeições brasileiras. Na vez dela, muito sóbria, comunicou que durante as refeições nas casas japonesas todos se calavam completamente enquanto comiam. Seria tremenda falta de educação alguém falar.
Desisti de esticar por terra até a Ásia e decidi retornar ao Brasil após o final do curso. Ela permaneceria mais tempo, mas em outra escola de inglês.
E a escola mantinha a embromação. Os dois suíços continuavam a manifestar atitudes racistas e preconceituosas. Os demais alunos não os suportavam. Os professores nada faziam e eles não cediam um milímetro sequer.
À noite tivemos jantar agradável com os alunos e professores da minha turma. Ainda mais porque os dois suíços racistas, “as duas comadres”, não compareceram, deixando o ambiente mais leve e prazeroso. Foi um alívio. Ninguém sentiu a falta deles.

Último dia de aula, finalmente, entre trocas de fotos, de endereços, despedidas. O professor, apesar das péssimas aulas, era boa pessoa, adorava culinária, planejava no curto prazo sair da escola, vender alguns bens e partir para a China a fim de estudar a culinária chinesa. Exceto “as duas comadres” da Suíça, a turma agradou e proporcionou bons momentos sociais. Mas o tal curso de inglês, nunca existiu de verdade.
Passamos quatro horas memoráveis na Torre de Londres. Exploramos as muralhas, masmorras, escadarias, exposição de joias, peças de ouro. O brilho das riquezas impressionava, mas se ofuscava pela origem de tudo a partir de saques e roubos do império britânico pelo mundo afora.
À tarde, após almoço italiano saboroso e caro, entramos em cinema para assistir a filme inglês rodado no norte do país. Era comédia crítica à decadência econômica e social da Inglaterra, sobretudo daquela região, outrora rica em indústrias metalúrgicas. Os atores usavam sotaque regional de difícil compreensão. Perdemos inúmeros diálogos, mas nos divertimos com as cenas cômicas e as risadas da plateia inglesa.
No início da manhã, espessa neblina, associada à umidade, molhava as ruas e os carros estacionados. A água escorria da lataria de alguns deles. E nenhuma gota de chuva caíra durante a noite ou madrugada. Seguimos de trem rumo à cidade universitária de Cambridge.
O ponto alto de Cambridge ficava por conta do King’s College, faculdade somente para homens, com capela estupenda, cheia de vitrais, os jardins gramados na parte da frente, o rio bucólico nos fundos do prédio. Estudantes ganhavam trocados conduzindo turistas de barco pelas águas calmas. Não usavam remos, mas estacas profundas que impulsionavam os barcos lentamente.
Um saboroso kebab recheado de frango ricamente temperado encerrou a noite nas imediações da praça Leicester em Londres. Era minha última noite na cidade.
Ela matriculara-se em escola bem mais barata nas imediações do centro da cidade. Também conseguira permanecer na mesma casa depois das renegociações de preços e condições. Tivemos muita sorte com a casa, a higiene, o café da manhã farto e variado, a boa recepção. Mas parecia exceção. Ouvíamos histórias escabrosas de outras casas, onde os donos trancavam a porta a partir de certas horas, serviam comidas vencidas ou de má qualidade, cortavam a água quente, destratavam os hóspedes. E todas elas faziam convênio com a escola privada, a tal que cobrava fortunas dos alunos, nada ensinava e só embromava.
No voo da volta, com conexão em Zurique, a mesma viagem chata, cansativa, com comida medíocre da empresa aérea da Suíça. E novamente as desnecessárias e torturantes informações técnicas nos televisores.
Aproveitei para refletir sobre o desejo de parar momentaneamente com as viagens ao exterior. Depois de tantas e gratificantes viagens pelo continente americano, europeu e asiático, me dei por satisfeito. E também um pouco enfadado de gringos. Eu sentia muita falta das paisagens e dos povos brasileiros. Pronto! Em breve voltaria a percorrer os interiores do Brasil, destinos bem mais fascinantes, que certamente brilhariam nas minhas próximas explorações.
Desembarquei em São Paulo em fins de outubro. Depois de pegar o ônibus comum no aeroporto de Cumbica, tive que esperar bastante na estação Bresser do metrô por um vagão que não estivesse transbordante naquela manhã de terça-feira.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Inglaterra (parte 1/2)

Quatro meses após o retorno da viagem de mais de sete meses pela Ásia, partimos para outra aventura. Ela desejava aperfeiçoar os conhecimentos na língua inglesa na Inglaterra. E tínhamos a expectativa de, após o curso, seguirmos por terra até a Índia, através da Turquia, Síria, Irã, Paquistão.
Em agência de intercâmbios e cursos de línguas no exterior nos matriculamos em escola de Londres, incluindo estadia em residência familiar.
Em meados de setembro embarcamos em voo para Londres, com conexão em Zurique na Suíça.
Televisores espalhados em todos os cantos da aeronave torturavam os passageiros com repetidas e monótonas imagens da posição evolutiva do avião no oceano atlântico. A empresa aérea suíça exibia, nos mesmos televisores, detalhes da velocidade do avião, temperatura externa, altitude, distância percorrida, distância a percorrer, tempo decorrido, tempo restante, em três línguas, em três unidades de medida. Nada de filmes ou documentários, somente aquela tortura inútil.
Enfrentamos longa fila no setor de migrações do aeroporto internacional de Londres. Apresentei o formulário de matrícula da escola de inglês, a passagem de volta, respondi às diversas perguntas. E o funcionário insatisfeito queria saber quem eu conhecia na cidade e onde trabalharia para me sustentar. E eu repetia tudo novamente. E ele fazia novamente as perguntas racistas de sempre. O impasse ridículo resolveu-se subitamente quando a apontei no balcão ao lado como se fosse minha mulher. A coisa mudou radicalmente. O dito cujo até sorriu, forneceu o visto de três meses e me liberou.
Pegamos o metrô no aeroporto e, depois da conexão de linhas, descemos na estação Highgate. Alcançamos a rua residencial e tranquila de nosso lar inglês.

Dentro do sobrado revestido de tijolinho, como não poderia deixar de ser na Inglaterra, a advogada de trinta e poucos anos nos levou ao quarto, nos explicando como tudo funcionava. Em gravidez avançada, tinha um filho pré-adolescente e recebia a ajuda de uma discreta empregada trintona. Os quatro pisos do sobrado acomodavam, com conforto, vários quartos, banheiros com água quente e abundante, limpeza, organização, sossego. Uma espanhola arrogante, a trabalho na Inglaterra, se hospedava em quarto privativo.
Deixamos as coisas no quarto amplo e, a fim de evitar o sono que nos cercava, fomos dar voltas no centro de Londres. Comemos bem, reconhecemos os arredores meio por cima e voltamos para casa.
Caímos no gostoso banho quente de um dos banheiros coletivos e desabamos na cama. Nem precisamos ligar o aquecedor. Apenas fechamos a janela de vidro duplo, que dava para o quintal arborizado da casa, para mais árvores, para o conjunto de quadras de tênis mais ao fundo.
Dormimos bem e bastante. O café da manhã na cozinha da casa era livre e podíamos comer o quanto quiséssemos. Arregaçamos as mangas e nos servimos de cereais, leite, torradas, manteiga, suco de laranja industrializado, chá.
De bate pronto seguimos à escola de inglês instalada em casarão nos altos do bairro de Highgate. Após leve preleção e teste escrito, chamaram cada aluno individualmente para entrevista e teste oral. E nada mais. Somente no dia seguinte seríamos distribuídos nos níveis e salas específicos. A esmagadora maioria de orientais entre os alunos era espantosa. Simpáticos e educados, apenas arranhavam, e mal, a língua inglesa.
O surpreendente tempo claro e ensolarado continuava. Aproveitamos para passear mais pelo centro da cidade.
Na manhã seguinte, o primeiro dia de aula decepcionou a mais não poder. Caí em sala com doze alunos, onde o professor falava demais, seguia militarmente o livro, não permitia aos alunos praticarem. E, em quatro horas brutas de aula, a escola desperdiçava quarenta minutos em intervalos desnecessários.
Além de informações de pequenos furtos e batedores de carteira, os vagões do metrô de Londres revelavam sujeira acumulada nos bancos e cantos do piso, entre garrafas, latas, jornais, plásticos, comida. Vez ou outra, víamos passageiros lendo tabloides e comendo sanduíches. Ao chegar a estação do desembarque, eles simplesmente largavam o jornal sobre o assento do lado direito, o resto da comida sobre o assento do lado esquerdo, e saíam do vagão impunemente. Não eram imigrantes ou turistas, mas britânicos legítimos.
No entanto, apesar da absurda lotação nos horários de pico, o metrô londrino funcionava com eficiência e cobria a maior parte da cidade. Nos eventuais enguiços ou suspensões temporárias de linhas, os funcionários escreviam a mão e às pressas a comunicação dos problemas e as sugestões de alternativas em quadros negros afixados nas paredes ou armados no chão das estações.
À noite na escola tivemos sessão opcional de filme falado em inglês e sem legendas. Lamentando que os filmes fossem dublados nos cinemas da Itália, o italiano da minha turma comentou que era a primeira que ouvia as vozes originais dos atores.  
Caminhamos ao cemitério de Highgate, ao lado do parque do bairro, no qual se situava o túmulo e o busto de Karl Marx. Em outros trechos, o cemitério apresentava lápides e tampas de túmulos deslocadas, tortas, quebradas, brotando mato por entre as rachaduras. O cenário não poderia ser mais apavorante e típico de estórias de terror.
O curso prosseguia entre momentos altos e baixos. Mais baixos que altos.
Compramos salame, queijo, pão italiano, vinho, frutas e seguimos ao parque Waterlow. O tempo abriu e o sol brilhou. Escolhemos banco em frente a extenso gramado e nos deliciamos com o banquete.
Partimos em ônibus da escola rumo a Bath, cidade que pertencia aos roteiros opcionais de fim de semana. Os japoneses, obviamente, eram maioria entre os passageiros, seguidos de suíços e brasileiros.
Entupida de turistas, Bath guardava arquitetura antiga, ruas estreitas, catedrais e, claro, os famosos banhos romanos. Apesar de pouca coisa remanescente, pudemos apreciar o eficiente uso das águas naturalmente termais por entre canais, piscinas, tanques. Restos de colunas originais, entalhes em pedras e objetos pessoais antigos completavam o conjunto. Entramos em padaria e comemos sanduíche de atum e salada, servido em pão baguete quente e fresco.

Retornamos ao nosso lar londrino à noite.
Fomos assistir ao que eu nunca vira e sempre evitara em todas minhas passagens por Londres, a internacionalmente famosa troca da guarda no palácio de Buckingham. E eu fizera bem em não assistir antes a espetáculo tão deprimente, insípido, monótono, sem graça, sem brilho. Ingleses e turistas do mundo inteiro entupiam as redondezas, disputavam febrilmente os melhores lugares para ver e fotografar aquelas cenas de realeza em pleno final de século XX.
Subimos em barco na estação de Westminster e descemos o rio Tâmisa até Greenwich. Após a Torre de Londres, o que dez anos antes se resumia a áreas degradadas com armazéns e fábricas abandonadas, passou a região nobre ocupada por edifícios residenciais voltados às camadas mais ricas da cidade.
Greenwich tratava-se de local dos mais belos e agradáveis dos arredores de Londres. Tranquilo, pitoresco, muito verde no parque deslumbrante decorado com jardins floridos, rosas, esquilos, a vista privilegiada da cidade.
Em Londres contemplamos o pôr-do-sol no parque St James e, em seguida, sorvemos o burburinho contagiante nas imediações da praça Leicester.
Dois franceses de meia idade inscreveram-se para o curso de inglês e se hospedaram na mesma casa onde ficamos. Sabedores de que a dona da casa morara na França, o casal passou a conversar com ela em francês, perdendo a oportunidade rara de praticar o inglês. Impressionante a piada pronta! Fiquei perplexo com tamanha esperteza e inteligência do casal francês.
A cada aula que assistia na escola, mais eu tinha certeza que tudo não passava de grande enrolação para tirar dinheiro de estrangeiros deslumbrados com o exterior. A escola dividia os estudantes em níveis somente na aparência. Quanto mais alunos por sala, mais barato para a escola. No final das contas, o lucro era o critério essencial dos proprietários daquele estabelecimento privado.
E as horas passadas na sala transformavam-se em divertidos momentos de lazer. Os professores, ou melhor, os animadores, mantinham o astral. O tempo corria velozmente, mas pouco ou nada aprendíamos. Não davam oportunidade para tal. Os alunos praticamente não falavam. E isso em salas com mais de doze alunos e a preços exorbitantes. Em qualidade educacional, a escola perdia feio para as similares brasileiras.
Durante o café da manhã, respondendo às sugestões da dona da casa de assistirmos aos famosos musicais britânicos no teatro, agradeci respondendo que não gostava desse gênero. Minha opinião soou como terremoto, como agressão brutal à honra nacional. Sentindo-se ofendida em nome de todos os ingleses, a advogada rosnou que aquilo era absurdo e saiu da cozinha batendo os saltos. A espanhola arrogante fez coro às indignações britânicas, me olhando como se eu fosse alienígena. Talvez elas não estivessem acostumadas a conviver com outras opiniões e gostos. E dei vivas à diversidade cultural e à tolerância diante das diferenças!
Na parte da tarde, pegamos os livros e fomos ler sob o sol morno no parque Waterlow.
À noite, minha turma e mais três dos professores saímos para jantar em restaurante de comida da Malásia, localizado no próprio bairro de Highgate. Noite agradável, entre bons papos e comida saborosa.
O curso completava a primeira metade. Conversei com diversos alunos e a conclusão era que ali estava mais para centro de diversões e contatos sociais do que para autêntica escola de inglês. Crescia o número de insatisfeitos, porém a maioria preferia deixar como estava. Outros se contentavam em estar entre pessoas, pelo ambiente divertido e agradável, em fazer novas amizades.
continua...

terça-feira, 6 de setembro de 2011

da Inglaterra à Suiça (parte 3/4)

...continuação
Exceto nos momentos de embriagues avançada, ninguém notava a presença de ninguém. Frieza total. Praticamente todos liam nos metrôs, livros, revistas, jornais sensacionalistas, bulas de remédio. Era como se cada pessoa estivesse sozinha no vagão. Mesmo nos horários de pico quando os trens lotavam de verdade. Quem não lia, fixava o olhar num ponto neutro nas paredes, teto ou piso. Mesmo nos locais de vida noturna, não se notavam olhares com segundas ou terceiras intenções.
Covent Garden oferecia artesanato fraco e apresentações artísticas livres pelas ruas, entre música, mímica, teatro, mágica. E parecia que todos os moradores saíram para aproveitar o sábado ensolarado nos parques. Locais ideais para relaxar e degustar a tranquilidade no meio de paisagem tão verde e vistosa.
Escolhi o parque Regent para o final da tarde e o pôr-do-sol. O céu não possuía nuvens. O sol radiante iluminava os jardins e gramados. A temperatura agradava. O sol se pôs divinamente às 19h e fechou com chave-de-ouro aquelas semanas passadas na Inglaterra.
E lá fui eu pegar o ônibus noturno para Amsterdã. A estação rodoviária de Victoria oferecia muita sujeira, poluição do ar e sonora, desorganização, ausência de espaço para sentar ou esperar os ônibus. A pior rodoviária do Brasil seria modelo de organização, limpeza e conforto perto daquele horror. Não havia plataformas, tampouco indicações do local da partida dos ônibus. E o tal ônibus surgiu subitamente, do nada, com o motorista berrando o destino da porta de entrada. E embarquei com destino à Europa continental, primeiro parando em Dover para subir na balsa que cruzaria o canal da Mancha.
A verificação apenas visual do passaporte foi rápida e sem problemas. Dover revelava escarpas rochosas, altas e esbranquiçadas, atrás das docas. O ônibus estacionou nos porões e os passageiros seguiram para as áreas sociais da balsa. Bares não faltavam, assim como os europeus bêbados despencando pelas escadarias. Gritavam, mal enxergavam um metro à frente, queriam criar confusões, prontamente impedidas pelos seguranças.
Desembarque ao amanhecer em Ostende, Bélgica. Meu passaporte nem sequer foi verificado, pois o país não exigia visto prévio de entrada para brasileiros. Novo embarque no ônibus para seguir viagem.
O veículo cruzou a fronteira entre Bélgica e Holanda depois de passar rapidamente pela cidade de Antuérpia. Nenhum documento foi verificado na fronteira. Paisagens completamente planas dominavam pela janela do ônibus. Infindáveis planícies esverdeadas, plantadas, com gado e pequenas casas de campo. Grandes indústrias apareciam próximas à rodovia. O ônibus entrou em Roterdã, com o porto, guindastes, pontes gigantescas, bondes em circulação.
O ônibus estacionou e largou os passageiros em uma rua qualquer de Amsterdã, sem estação, sem nada. Peguei a bagagem e comecei a andar. Optei pelo albergue da juventude situado no centro. A localização compensava a má qualidade dos quartos, grandes e cheios, para até vinte hóspedes empoleirados em beliches, dos banheiros mal cuidados, das instalações antigas e caindo aos pedaços. O banheiro comportava até quarenta pessoas, e jamais lotava, já que os europeus nunca foram chegados a banhos ou higienes diárias.
A belíssima Amsterdã era bem diferente das cidades inglesas. Cortada por dezenas de canais, arquitetura antiga, sem edifícios altos, atmosfera mais descontraída. As poucas e escuras folhas das árvores apontavam a chegada antecipada do outono.
O centro da cidade fascinava pela fauna variada. Centenas de jovens perambulavam pelas ruas e bares ao som de rock pesado. Abundavam lojas de artigos eróticos anexas a cubículos exibindo filmes de sexo explícito. Puteiros, ambientes com apresentações de sexo ao vivo, se espalhavam pelos canais, becos e travessas. Tudo funcionava 24 horas por dia. Drogas dos mais variados tipos eram vendidas nas esquinas sob os olhares indiferentes dos policiais. A maioria das prostitutas exibidas nas vitrines como produtos de supermercado era de negras e mulatas. Muitas conversavam em espanhol. A zona de prostituição tornava-se também zona turística à noite, quando as vitrines se iluminavam e as mulheres ou travestis ficavam ainda mais expostas aos olhos dos clientes e turistas. As negociações de preços e características dos programas se faziam pelo interfone localizado do lado de fora das amplas janelas de vidro. E os turistas, em casais, idosos, crianças, se deliciavam com as cenas.
De maneira geral o movimento nas ruas em Amsterdã era pequeno, sobretudo de bicicletas, bondes, e poucos carros. E a pé ou de barco cheguei aos principais pontos de interesse. Barcos dos mais variados tamanhos e formas, atracados nos muros dos canais, serviam de residência a famílias inteiras.
A cidade e moradores ganhavam em descontração e informalidade em comparação aos ingleses. Circulava-se mais à vontade pelas ruas. A região da Leidseplein se agitava à noite com muita gente espalhada nas centenas de bares. Mesmo durante a semana a animação não diminuía. Nas ruas onde se localizavam teatros sofisticados, entravam e saíam holandeses vestidos de modo conservador, a caráter, ostentando expressões carrancudas.

Um mundo de bicicletas inundava o estacionamento da estação ferroviária central de Amsterdã. Todas postadas lado a lado, quase grudadas, do mesmo modelo e da mesma cor cinza escura. Comprei guloseimas para me abastecer durante a viagem e também me livrar do dinheiro holandês. Me atrapalhei com as microscópicas moedas holandesas, onde mal se enxergavam os valores. A balconista da lojinha, loira, magrela, feia e racista, se impacientou com a demora e gritou para os clientes atrás fazerem os pedidos. Continuei a contagem das moedas. Entreguei o valor exato, sem nenhum centavo a mais.
A paisagem em direção à Alemanha, impecavelmente plana, compunha-se de plantações, criações de gado, pequenos vilarejos, bosques.
A vistoria de passaporte fez-se pela polícia alemã dentro do próprio trem perto da fronteira. Apenas deram olhadelas nos documentos e devolveram em seguida. A entrada na Alemanha aconteceu em regiões industriais, mais povoadas. O relevo permanecia aplainado, porém menos plantado. Os ininteligíveis anúncios nos alto-falantes do vagão se restringiam à língua alemã.
A coloração cinza dominava na cidade de Dusseldorf. Poucos prédios altos, construções germânicas de cinco andares e infinidade de chaminés por todos os lados. Mais ao sul, também na margem do Reno, a moderna Colônia ganhava em beleza. Os bombardeios durante a segunda guerra mundial destruíram o que havia de antigo e histórico da cidade. Mas a imponente catedral, apesar de cinza escura, insistia em preservar algo do passado em meio a prédios de traços frios e retos. Capital federal na época, Bonn guardava atmosfera pitoresca, pelo menos vista da estação ferroviária.
Sem abandonar o vale do Reno, começaram a aparecer elevações no terreno em ambos os lados da ferrovia. À medida que o relevo se acentuava, despontavam pequenos castelos em ruínas nos altos dos morros.  O rio corria a leste da ferrovia e cortava região bastante verde, com minúsculas aldeias, parreiras, florestas nos altos. Destaques para os convidativos vilarejos de Bogarh, St Goar, Obbereswell. O vale tornou-se ainda mais profundo e escarpado. Túneis cortavam as montanhas, sobre as quais apontavam castelos e sob as quais vilarejos seduziam pela tranquilidade.
Infelizmente a ferrovia abandonou o vale do Reno e passou pela feia, cinzenta, industrial e entupida de viadutos cidade de Mainz. E o relevo voltou a se aplainar. Troquei de trem na estação de Manheim. Tive que andar bastante para encontrar vaga nas cabines. Finalmente entrei em uma recheada de alemães mal encarados.
Os trens alemães serviam sanduíches, salgados, bebidas, doces em carrinhos que subiam e desciam os corredores. Mas os preços beiravam o absurdo e quase ninguém consumia. Os vendedores nem insistiam.
Desembarquei em Heidelberg no meio do dia sob um céu bastante azul. Peguei ônibus até o albergue da juventude.
O funcionário da recepção do albergue me comunicou laconicamente que o local estava lotado. Insisti. Talvez ele tenha se arrependido da mentira deslavada. Lembrou-se que ainda restava uma vaga, mas apenas para aquela noite. Preenchi o formulário, paguei adiantado e subi ao quarto para deixar a bagagem. Os hóspedes das demais camas me cumprimentaram. Perguntaram de onde eu era e batemos papos descontraídos. A maioria dos outros quartos se ocupava de adolescentes alemães barulhentos. A desorganizada administração local não conseguia manter a ordem nem durante a noite.
O centro de Heidelberg mantinha aspecto de vilarejo de montanha, bastante antigo, com ladeiras e becos de paralelepípedos, imenso castelo no alto, o caudaloso rio Neckar em frente. Diversos prédios históricos bem conservados ocupavam-se de escritórios.
Centenas de degraus encostados no morro levavam à entrada principal do castelo de Heidelberg. De coloração avermelhada e parcialmente em ruínas, o castelo ainda mantinha imponência com galerias, masmorras, torres. Do alto se tinha visão privilegiada da cidade e do vale do rio Neckar. Nas redondezas, um parque bem arborizado dava acesso a bosque fechado no alto do morro. A maioria dos visitantes era de jovens alemães, e loiros.
O atendimento em praticamente todos os lugares primava pela frieza, grosseria e má educação. Os alemães se irritavam em atender estrangeiros e resistiam em se comunicar em outras línguas. A melhor maneira de evitar esses contratempos era perguntar antes se a conversa poderia ser em inglês. E o som da língua alemã agredia aos ouvidos. Muito gutural e fortemente pronunciada, incomodava mais que a língua holandesa.
Graças à palavra Brasil escrita na bolsa que eu carregava, um brasileiro me chamou na rua. Ele cursava pós-graduação em matemática na quase milenar universidade de Heidelberg. Conversamos animadamente ali no meio do movimento antes de entrarmos em restaurante italiano. Obviamente nos tornamos os mais alegres do local. O restante das mesas mergulhava na seriedade e tristeza germânicas. O garçom que nos atendia logo notou e se contagiou. Napolitano, bigodudo e engraçado, se animou quando soube que vínhamos do Brasil. Pena que não entendia quase nada de inglês. Eu e o matemático, nada de italiano, menos ainda de dialeto napolitano. Mas valeu pelos sorrisos, empatia, calor humano latino.
E apesar da má vontade e comportamento racista da recepção, consegui mais uma noite no albergue da juventude. Muitos dos barulhentos adolescentes alemães partiram e não haveria motivos para eu ser barrado.
O sistema ferroviário europeu continuava a me despertar inveja e admiração, enquanto residente em um Brasil criminosamente rodoviário. Rápido e rasteiro peguei meu bilhete para Budapeste, com conexão em Frankfurt.
Grande, barulhenta, moderna, Frankfurt era todo contraste com a pitoresca Heidelberg. As supostas atrações turísticas se resumiam a resquícios minúsculos de construções antigas no centro da cidade. Até as cidades catarinenses do vale do Itajaí guardavam mais riquezas arquitetônicas germânicas do gênero.
O que valia a pena, não só na Alemanha, mas nas cidades européias em geral, era o urbanismo dos rios e margens. Sempre com extensos e belos jardins, bancos de sobra para descansar e apreciar o fluxo das águas com barcos de pequeno e médio porte. De metal, cimento ou tijolinho, as pontes também agradavam.
Passei o resto da tarde em banco na margem do rio em Frankfurt, observando o movimento do público. Gansos e cisnes flutuavam nas águas do rio. O céu azul impecável e o visual superavam o incômodo do vento frio. Antes de anoitecer, os vendedores ambulantes de flores, frutas e doces abaixavam os preços para venderem todo o estoque. Todos berravam e a atmosfera lembrava feira livre. Os doces, as tortas, os bolos vendidos nas ruas, eram irresistíveis. Aos olhos e ao estômago. O frio me obrigou a experimentar de vários tipos, todos para lá de saborosos.
A estação ferroviária de Frankfurt primava pelo desconforto. Muita tecnologia, computadores, mas nenhum banco para sentar e esperar as partidas dos trens. Ou aguardava de pé, no frio, entre os carregadores de malas, ou consumia algo nas lanchonetes para poder sentar. Em quase todas as estações da Alemanha havia locais reservados para as tropas de ocupação do exército estadunidense. E lá estavam os benfeitores da humanidade, uniformizados para a guerra e fortemente armados. Não devia ser nada fácil para a autoestima do povo alemão engolir tais cenas.
Passava da meia noite quando estacionou o trem na plataforma. Havia vagão exclusivo para os passageiros rumo a Budapeste. A composição partiu com a cabine vazia e pude me esticar para tentar dormir na viagem que prometia demorar. Fui acordado próximo à fronteira austríaca para fiscalização do passaporte.
O dia amanheceu quando o trem percorria o interior da Áustria. O relevo levemente ondulado comportava plantações de milho, verduras, pequenos vilarejos isolados. Pouco antes de Viena, morros muito verdes, bosques de pinheiros, casas e cabanas de montanha, lembravam a serra da Mantiqueira.
O trem atingiu a fronteira entre a Áustria e a Hungria, então sob o regime chamado erroneamente de comunista. A fiscalização severa, sem ser ostensiva ou desrespeitosa, conduziu os funcionários húngaros para dentro dos vagões, olhando os passaportes. Outros se postavam na plataforma e fiscalizavam a fiscalização.
Com o trem novamente em movimento, a paisagem húngara revelou-se plana, com imensas plantações que se perdiam de vista, pequenos bosques isolados. Vilarejos espaçados surgiam na planície cultivada. As habitações guardavam aspecto modesto, algumas mal conservadas. As hortas familiares lembravam as brasileiras do interior do sudeste. De longe tudo parecia mais simples que nos vizinhos europeus, mas infinitamente superior aos lares latino-americanos.
Da cidade de Komáron, na margem do rio Danúbio, avistava-se a Tchecoslováquia no outro lado. Casas, dragas, depósitos de areia, argila e guindastes marcavam o cenário. Mais à frente surgiram conjuntos habitacionais padronizados, cercados por infindáveis plantações, sobretudo de milho. Muitas residências, escolas, supermercados, em fase de acabamento.
O trem chegou a Budapeste no começo da tarde. Usuários vestiam roupas simples e não muito novas, mas nada padronizadas e iguais como berravam os meios de comunicações ocidentais. A moda estava presente por ali, sem o doentio consumismo dos países ocidentais. Filas enormes se formavam nos guichês de informações.
A prestativa funcionária da estação esforçou-se em péssimo inglês, mas conseguimos nos comunicar. Acertei hospedagem em casa de família situada em zona residencial. O quarto individual era amplo e confortável. A simpática proprietária, porém, não falava nada de inglês, apenas húngaro e alemão. Me entregou o mapa da cidade, sorriu, sussurrou algo em alemão, me observou de alto a baixo, sorriu novamente e nada mais. Sem possibilidades de qualquer diálogo. Pena.
Depois de café da manhã saboroso na confeitaria, saí para dar uma volta e procurar lavanderia. Era sábado e quase tudo estava fechado. Caminhei muito, segui diversas informações e nada. Mas aprendi que lavanderia em húngaro é patiolat, e fechado zarva. Aliás, zarva era a palavra que mais encontrei afixada nas portas dos estabelecimentos comerciais. Com a sacola de roupas sujas, muito sujas, de vários dias, eu circulava a esmo pelas ruas de Budapeste. Eu teria que esperar a segunda-feira.
Estava mais que evidente que seria difícil, muito difícil, me comunicar na Hungria. Praticamente nenhuma palavra da língua húngara possuía radicais latinos, gregos ou anglo-saxônicos. Nada soava familiar, nem as internacionalmente conhecidas como hotel, hospital, polícia, restaurante. A segunda língua mais falada no país era a alemã, seguida da russa. O inglês se restringia a hotéis de luxo ou em outros pontos exclusivamente turísticos. Pedir informações, ser atendido em restaurantes, lojas, tornava-se uma luta.
Mas as coisas ficaram divertidas. Assim que eu entrava nos restaurantes, logo vinha a garçonete, geralmente atraente, sorridente e de olhos amendoados, me entregando o cardápio, em húngaro. Eu sinalizava que não entendia o que estava escrito. Ela sorria ainda mais e o substituía, quando existia, por outro. Em alemão. Em nada me ajudaria, mas eu agradecia com sorrisos ou em português mesmo. Eu corria os olhos pelo cardápio, verificava os preços e escolhia qualquer coisa sem saber do que se tratava. Chamava a garçonete, apontava no cardápio minha opção e falava em português. Ela anotava, sorria e corria para a cozinha.
Jamais comi algo que não fosse saboroso. No geral, os pratos vinham bem temperados e a contas saíam baratas, mesmo com uma garrafa de vinho. Em diversos restaurantes havia música ao vivo. Quartetos, duetos de cordas ou pequenas orquestras de câmara interpretavam peças eruditas ou do folclore húngaro.
continua...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

da Inglaterra à Suiça (parte 2/4)

...continuação
Cruzamos a fronteira entre Inglaterra e Escócia. Imediatamente o guia pediu os passaportes de todos, jogou-os na grama do acostamento e os pisoteou com gosto. Os passaportes voltaram inteiros, apenas com restos de grama grudada.
Parada em trecho alto da estrada, de onde se tinha visão panorâmica de extenso lago. Eram as primeiras imagens da Escócia. Contemplávamos o cenário quando, subitamente, ouvimos a brecada aguda de um carro. De dentro pulou escocês vestido a caráter, de kilt e tudo, com a gaita de fole nas mãos. Disfarçou a pressa, se dispôs bem o meu lado, abriu a caixa do instrumento para receber doações, lançou sorriso amarelo e, antes de tocar as melodias típicas escocesas, me sussurrou:
“Desculpe, eu me atrasei hoje”.  
Em seguida Moffat, vilarejo escocês, repleto de lojas de artigos de lã de carneiro. Fazia frio, mesmo sob o sol. O número de barbudos e de rostos avermelhados começava a aumentar no sentido norte.
Depois de passar batido pela industrial e cinzenta cidade de Glasgow, o lock Lommond para explorar a cidade e o lago no pé das montanhas. O lago mais parecia água retida como a represa de Guarapiranga em São Paulo. Os castelos e palácios que o margeavam, contudo, se destacavam, ainda que todos transformados em hotéis. O guia inglês afirmou que o lago Lommond se assemelhava aos fiordes escandinavos. Coitado dos fiordes e dos escandinavos.
As margens da estrada no rumo norte revelavam rios encachoeirados e mais lagos entre montanhas cobertas por vegetação rasteira.
Chegada a Fort Willian, na beira de mais um lago. Outro impressionante pôr-do-sol insistia em desmentir a fama de constante mau tempo da região. Simpática e acolhedora como as demais, a cidade estendia-se nas margens do Lock Linney.

Na manhã seguinte partida ao extremo noroeste escocês. A paisagem tornava-se mais impressionante. Trechos montanhosos, picos ligeiramente nevados abrigavam estradas muito estreitas, sinuosas, sem acostamento. O tempo piorara, nublara, esfriara mais, chovia de vez em quando. Os lagos surgiam um após o outro. Subitamente apareciam castelos, em ruínas ou não, próximos ao leito da estrada, alguns com poço e ponte levadiça. O céu cinzento caía como luva para compor atmosfera adequada à paisagem.
Durante a balsa à ilha de Skie, choveu fino e o frio pegou nos ossos. Tempo apenas para voltas curtas pelo vilarejo.
De volta ao continente, passando por Portree, percorremos toda a margem oeste do famoso Lock Ness. Nenhum sinal do monstro. Era lago como os anteriores, com água cinza-azulada e vegetação nas margens. Lojas, homens vestidos em trajes típicos, inclusive tocando gaitas de fole, matilhas de turistas para todos os lados, vendedores de fotos, bonecos e adesivos do monstro, se espalhavam por ali. O guia colou pequena figura do tal monstro no vidro do ônibus e sugeriu fotos de dentro com o lago ao fundo. Assim, segundo ele, registraríamos a prova da existência do dito cujo. Os estadunidenses e australianos logo obedeceram. Eu e mais outros apenas sorrimos e nem tocamos nas câmeras fotográficas. Abaixo da encosta do lago, próximo à linha da água, encontrava-se impressionante castelo em ruínas.   
Eu me dava melhor, entre os turistas do grupo, com o casal de meia idade de Cingapura e com a australiana divorciada que também viajava sozinha. Com os demais passageiros, eu apenas trocava sorrisos educados e frases soltas. Nenhum assunto rendia frutos. A maioria revelava mentes estreitas e ignorantes. Não sabiam nada além da ponta do nariz.
E cada ocupante do ônibus foi intimado a sentar no banco dianteiro e, ao microfone, cantar canção representativa do respectivo país. Na minha vez, cantarolei parte do samba Para Ver As Meninas do Paulinho da Viola. A maioria gostou e até aplaudiu.
Entrada em Inverness no meio da tarde. A cidade atraía pela harmonia da arquitetura, cortada pelo rio Ness. Castelos e igrejas antigas se dispunham ao lado de construções típicas do norte da Escócia.
Após o jantar, circulei pelas ruas geladas e vazias. Entrei em pub, sentei no balcão e consultei o cardápio pintado na parede em frente. Comecei com o malte, nacional. Continuei com mais duas doses de uísques diferentes, todas nacionais. Nada de gelo no copo. Queria saborear a bebida e não estragá-la dissolvendo na água. Gritarias e ameaças de brigas no fundo do pub me fizeram interromper a degustação. Despedi-me do escocês legítimo do balcão e dei o fora.
A manhã se deu na direção do sudeste escocês, cruzando as terras altas da Escócia, de onde saíam caminhos vicinais rumo às famosas destilarias de uísque. Pontes estreitas e em arco mal permitiam a passagem de veículos. Precisávamos desembarcar a fim de que o ônibus a atravessasse com menos peso.
Parada no pequeno vilarejo fantasma de Tomintoul. Não havia ninguém nas ruelas. Ventava muito e, mesmo sob o sol e céu azul, o frio não dava tréguas. Enfiei as mãos no casaco, sempre pulando para tentar esquentar o sangue. O homem de Cingapura logo se aproximou sorrindo e se solidarizou com a minha desconfortável sensação térmica.

Paradas nas montanhas Grampian. Caminhei pelas encostas do vale por entre a grama, flores roxas e vegetação rasteira, dura e resistente. Pisei e senti o contato da famosa urze escocesa que crescia no relevo acidentado. Diversos castelos se espalhavam nas redondezas.
Diversos castelos se espalhavam nas redondezas da região de Braemar, procurada pela monarquia nos períodos de veraneio.
Chegada a Edimburgo, às margens da foz do rio Forth. Construções góticas escurecidas pela poluição dos séculos se destacavam. O cinzento castelo de Edimburgo se erguia no alto do morro de rocha negra. A topografia dos arredores, no entanto, se aplainava pela proximidade do litoral.
Aproveitei a tarde ensolarada para circular pela cidade, sem rumo específico, apenas andar e observar com calma. O verde intenso das árvores, jardins e gramados impecáveis do parque central se estendia ao longo do vale da ferrovia. Em ambos os lados, após as avenidas, erguiam-se construções antigas, imponentes, escurecidas. Praças com torres, esculturas e construções cheias de colunas enriqueciam o cenário. O centro de Edimburgo era um museu arquitetônico a céu aberto.
Escolhi pizzaria para o jantar. Sentei em mesa com vista para todo o ambiente. Quase à minha frente sentou um turista barbudo, quarentão, levando a enorme câmera fotográfica a tiracolo. Largou tudo na cadeira ao lado, analisou o cardápio e fez o pedido. Em dado momento, enfiou o dedo indicador na narina direita, quase até o fim. Sobrou pouco dedo do lado de fora. Girou, cutucou com firmeza, lentamente retirou o dedo, agora coberto de enorme quantidade de meleca. Despreocupadamente, impunemente, enfiou novamente o dedo, o mesmo dedo, só que não dentro do nariz, mas na própria boca. Enfiou até o fim e fechou os lábios em torno do dedo. Chupou e lambeu com gosto, até não sobrar nada. Engoliu tudo. Nem sequer se alterou ou levantou os olhos. Foi preciso muita concentração e equilíbrio psicológico para eu não vomitar imediatamente. E veio a minha pizza, coberta de cebolas, pimentões, queijo derretido. Só havia a opção de me desligar do que acabara de testemunhar. Então eu trouxe de volta à mente as paisagens escocesas, as terras altas, as montanhas, os vales profundos, os castelos, os lagos, as pitorescas cidadezinhas. Foi quase uma meditação. Olhando fixamente para o meu prato, comi e até saboreei. Mas depois de pagar e me levantar, antes de seguir para a porta do restaurante, não resisti e dei mais uma olhada. O dito cujo comia tranquilamente a refeição. Reforçada pelo tempero único e pessoal, sem dúvidas.
Pela manhã visitei sem pressa o castelo de Edimburgo. Localizado no alto de um rochedo sobre a cidade, o castelo contava com interiores desinteressantes. Valia pela posição em destaque sobre todo o vale. A visão da cidade e das paisagens ao redor impressionava. Como de praxe, os guardas vestiam o kilt, ali com desenhos em xadrez verde. Mais abaixo, avistei o palácio de Hollyrood. Depois circulei pelas ruas cinzentas e charmosas de Edimburgo, enquanto a chuva fina acentuava o frio cortante.
Já na estrada na manhã seguinte, após parada fulminante no palácio de Galashiels, o esquema comercial da excursão se fez presente na desnecessária e intencional parada para compras de supérfluos. Permanecemos ali quase uma hora. Nada para fazer naquela beira de estrada. Preferi ficar do lado de fora e conversar com os passageiros que também não entraram. Depois, a abadia de Jedburg, construída no século XII. Crua, pesada, de coloração ocre, evidenciava a idade que tinha.
Cruzamos a fronteira entre a Escócia e a Inglaterra. E o guia comunicou ao grupo que finalmente voltávamos à civilização. Poucos riram. Passada ao lado da cidade industrial de Newcastle, com cerca de duzentos mil habitantes amontoados em construções padronizadas e precárias. E índice de desemprego perto de 70%! Segundo o guia, o mesmo porcentual ocorria entre os dois milhões de habitantes da cidade de Birmingham. A situação comprovava os desastrosos resultados sociais do capitalismo, após os ajustes neoliberais conduzidos pelos organismos multilaterais do imperialismo através dos regimes da senhora Margareth Thatcher.
À medida que as estradas desciam para sul, o relevo tornava-se mais aplainado, as montanhas ficavam para trás, as planícies e suaves colinas dominavam a paisagem.
Nas imediações da cidade de York, pequenas propriedades plantadas, casas e sobrados de tijolinho, muitos animais, verde intenso, jardins floridos. Apesar do trânsito pesado e congestionado, York era simpática, com diversas vielas que conduziam ao robusto mosteiro de York. Muradas altas com ameias de observação protegiam a parte central da cidade, cujas entradas se afunilavam pelos portões em arco. O centro comercial, com becos estreitos e bloqueados para os veículos, lotava de pedestres.
Chegada à ajardinada cidade de Harrogate, impecavelmente limpa, organizada, coberta de parques. O parque Gardens Valley se destacava pela infinidade de canteiros floridos, coloridos, caprichosamente dispostos, perfeitamente mantidos. Nela morava a fina flor da elite inglesa que desfrutava do patrimônio adquirido em séculos de domínio britânico pelo mundo afora.

Depois do pequeno e pitoresco vilarejo de Stamford, houve tempo suficiente para conhecer a cidade universitária de Cambridge, com universidades em estilo gótico, jardins, gramados, córrego bucólico. Alugavam-se barcos a remo no rio que corria atrás dos prédios universitários. Esdrúxulos critérios dividiam a educação entre universidade exclusiva para homens no King´s College e exclusiva para mulheres no Queen´s College. Igrejas e abadias postavam-se ao lado com vitrais trabalhados e iluminados naturalmente. A cidade dispunha de vários calçadões comerciais, culturais, de lazer. Apinhada de estudantes, não faltava animação por todos os cantos.
Chegada de volta a Londres em hotel incluído no preço da excursão. A operadora de turismo Cosmos abandonou completamente os passageiros após o desembarque do ônibus. O guia e os ajudantes fugiram num passe de mágica. Ninguém sabia qual quarto ocupar. A indignação de todos beirou à revolta. E ali era a capital do império britânico, coração do assim chamado primeiro mundo.
Após o jantar, liguei a televisão no horário nobre dos “noticiários”. Todos os canais mostravam as notícias exatamente iguais, com imagens iguais, manchetes e conteúdos iguais, posições e opiniões iguais. Pareciam cópias uns dos outros. Predominavam temas de desastres naturais, acidentes aéreos, declarações oficiais do governo e de agentes da classe dominante, as encomendadas crises nos países do leste europeu. Mas nada sobre os assustadores índices de desemprego britânicos e dos demais paises da Europa ocidental, nem sobre as privatizações e o desmonte social impostos pelo regime direitista inglês. A tão cantada e falsa liberdade de imprensa inglesa em nada se diferenciava da dos países da América. Era a ditadura do pensamento único fazendo escola pelo mundo afora.
O hotel se localizava em King´s Cross, região simplesmente medonha de Londres. Sujeira aos montes, inóspita, entupida de mendigos e tipos perigosos. A estação de metrô mais parecia depósito de lixo. Mas nada disso aparecia nos telejornais exibidos em série no horário nobre.
O centro fervia em Leicester Square e arredores durante a noite. Muita gente dos mais variados estilos perambulava pelos bares, pubs, bancos de praça, casas noturnas, teatros, restaurantes, puteiros, ou simplesmente ficava parada no meio da praça para conversar, ver, ser visto. Eram músicos, punks, seres da noite, engravatados, indefinidos, até membros do exército da salvação. Bastava andar cinquenta metros para deixar a esquina de teatros e restaurantes e entrar em rua de puteiros, casas de shows eróticos, com mulheres do mundo encostadas nas paredes e oferecendo serviços. Os porteiros das casas chamavam os homens da rua para entrar e se “deliciar com as mais belas mulheres”. Mas, ao contrário de São Paulo, onde os mesmos apenas convidavam com palavras, os porteiros de Londres agarravam nos braços e tentavam atirar as vítimas porta adentro.
Em letras grandes, cartazes espalhados pelas praças insistiam para que não se jogasse lixo nas ruas e calçadas. Mas ninguém parecia se incomodar. A sujeira se acumulava em todos os lugares, simples ou sofisticados.
continua...

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

da Inglaterra à Suiça (parte 1/4)

Em 1986, o regime de José Sarney, não eleito pelo povo, mas parido do colégio eleitoral da ditadura, lançou pacote que, entre outras tantas arbitrariedades, impunha compulsório de 25% sobre as viagens ao exterior, tanto na passagem aérea como na aquisição de moeda estrangeira no câmbio oficial. E sem direito a devoluções posteriores. 
Embarquei em voo noturno no início de setembro. Desembarquei em Londres e passei pela imigração sem problemas.
Ao pegar as bagagens nas esteiras me dei conta que estava em país estranho, onde não conhecia ninguém. Eu não fizera nenhuma reserva de hospedagem. Nem contava com guias impressos. Procurei o balcão de informações turísticas. A loirinha inglesa me atendeu pacientemente, me passando alternativas baratas em quartos coletivos.
Peguei o metrô na estação sob o aeroporto. A linha e as estações próximas ao aeroporto eram de superfície. As composições balançavam mais que os trens de subúrbio de São Paulo. Entre os demais passageiros, havia amarelos, negros, indianos, paquistaneses, árabes, muitos vestidos a caráter. Tinha ingleses também, quase todos idosos vestindo casacos longos e cinzas de gabardine. A paisagem externa revelava bairros de classe média baixa e também de mais abonadas. Os campos esverdeados se prolongavam entre gramados, campos de futebol, quadras de tênis, parques. Desembarquei na estação de metrô Gloucester Road, após troca de linha com direito a elevador e ascensorista.
Bati em hotel simples, em rua residencial e calma. Peguei quarto coletivo com cinco camas e um banheiro. O quarto não lotava, dois israelenses e um irlandês me faziam companhia. O irlandês do interior, vestindo sempre terno e gravada, procurava emprego de professor de matemática. Os israelenses possuíam semblante triste e cansado. Tinham acabado o serviço militar obrigatório de três anos e se ressentiam de terem perdido tanto tempo da vida na opressão e repressão aos povos palestinos e árabes.

Caminhei pelos estupendos parques ingleses, o popular Hyde Park, e o Kesington Park, mais fascinante e diversificado. Nele, além dos infindáveis e charmosos gramados, prolongavam trechos mais sombreados e misteriosos, onde o verde e a vegetação densa prevaleciam.
Na maioria, as inglesas exibiam rostos atraentes. Pinturas exageradas, penteados de festa de gala e roupas muito alinhadas, no entanto, tiravam-lhes a espontaneidade e ofuscavam os dotes naturais. Longas capas, casacos, roupas largas impediam uma observação mais detalhada. Ninguém parecia notar a presença de ninguém nos espaços públicos. Eu me sentia invisível em todos os lugares. E não entendia como tanta gente se evitava, ignorando as pessoas próximas. Sociedade fria, cheia de regras e etiquetas, resultava nessa geladeira desumana. Não surgiam à toa as rebeldias, radicais e ingênuas, de parte da juventude britânica no comportamento, vestimentas, adornos, músicas, linguajar.
No início da noite, eu e os colegas do quarto, seguimos ao pub próximo ao hotel. O local se encheu rapidamente de ingleses e estrangeiros. A frieza e solidão dos ingleses nos primeiros momentos chamaram a atenção. Horas e copos de cerveja depois a situação mudava visivelmente. Riam e conversavam alto, aceitavam falar com estrangeiros, bebiam mais e mais. No fundo do pub um grupo jogava dardos, outro ia de sinuca. Havia mesas e bancos, mas a maioria permanecia de pé com copos na mão. Enxuguei três doses de uísque nacional. Pouco antes da meia noite, a sineta avisava o fechamento do estabelecimento. Fizeram-se os últimos pedidos. Saímos junto com os demais quando o pub fechou. As cenas eram deprimentes. Havia os que cambaleavam, os que vomitavam apoiados nos postes, até o que despencou na calçada lambuzando o terno. A partir dali os ingleses voltavam a ser solitários. Ninguém os acompanhava.
E não era raro ver nas escadas rolantes do metrô, declarações de amor entre desconhecidos. Pelo menos um dos lados, geralmente o masculino, estava para lá de bêbado. Só assim, pateticamente, para eles notarem as pessoas nas proximidades, se rebelarem, romperem os jurássicos códigos de conduta.
Reservei a manhã para visitar o imponente e bem conservado castelo de Windsor. Era usado pela família real aos finais de semana e feriados. Percorri os interiores, os extensos jardins primorosamente cuidados, os muros, as ameias. Aproveitei o visual sem entender absolutamente nada do que o guia local explicava. O sotaque ininteligível mal parecia ser da língua inglesa.

Na parte da tarde apreciei o palácio de Hampton Court, menos impressionante que o castelo, mas com jardins deslumbrantes na parte de trás.  A grama impecavelmente cortada mais parecia tapete felpudo. As árvores mutiladas geometricamente quebravam o encanto e retiravam a naturalidade do ambiente.
Voltei de barco pelo rio Tâmisa até o cais de Kingston. O sol da tarde valorizou a paisagem de campos, jardins, bosques, mansões de veraneio.
Sempre que chegava ao hotel, eu encontrava o irlandês deitado na cama, lendo ou fazendo palavras cruzadas. Ele sentia dificuldades para se empregar como professor, mas não perdia a esperança. Conversávamos bastante sobre profissões e países. Ele jamais saíra da Grã-Bretanha. Vinha de cidade pequena do interior da república da Irlanda e demonstrava muita ingenuidade. Mas oferecia companhia agradável e as opções de assuntos nunca terminavam.
Perambulei pelo centro financeiro de Londres, a City, com os bancos, a bolsa de valores, a rua Fleet, outrora famosa por contar com as sedes dos grandes jornais. Os destaques arquitetônicos ficaram por conta do prédio do banco da Inglaterra e a suntuosa catedral de São Paulo. No mais, poluição sonora, tráfego congestionado, multidões em calçadas entupidas.
Andei mais e atingi a estonteante Torre de Londres, uma das atrações mais interessantes da cidade. Enorme, imponente, fascinante e diversificada internamente, com castelos, palácios, museus, porões, masmorras, antigas e aterrorizantes salas de tortura, peças de artilharia, muralhas de pedra altíssimas. Guias vestidos à moda antiga acompanhavam pequenos grupos e descreviam a história do local, sempre ressaltando os trechos mais cruéis, sangrentos e apavorantes. Impostavam a voz e carregavam na dramaticidade nos detalhes dos crimes de famílias inteiras que morreram a golpes de pá, machado ou foram enterradas vivas nos charcos. Estupendas jóias da realeza expunham-se em salas rodeadas de guardas e de dispositivos de segurança. Diamantes, rubis e esmeraldas, muito ouro e prata, se ofereciam a olhos tentadores em país com a reputação de contar com os mais engenhosos ladrões do planeta.
As estações de metrô de Londres eram geralmente sujas e feias. Muitas estavam em conserto ou com paredes e pisos quebrados. À noite abundavam tocadores de violão, flauta, guitarra, percussão, que cantavam ou tocavam em troca de moedas. Eram loiros, negros, asiáticos, na tentativa árdua para sobreviverem.
Embarquei em barco no cais de Westminster à cidade de Greenwich, pelo rio Tâmisa. O trajeto permitiu apreciar Londres de perfil, sobretudo as margens do rio, às vezes abandonadas, com construções velhas ou em ruínas.
A cidadezinha de Greenwich envolvia instantaneamente pelo charme e arrumação. O parque impressionava pelos imensos gramados, canteiros de flores, bosques sombreados. Idosos com casacos acinzentados predominavam por ali, sentados em bancos, caminhando ou cuidando dos jardins, inclusive com tesouras para aparar o que estava fora das dimensões previstas. Esquilos soltos pela grama quebravam o silêncio.
O famoso barco Cutty Sark levava banhos contínuos de água a fim de preservar a madeira do casco. O Museu Marítimo e o Observatório Real, ambos demasiadamente técnicos, exibiam centenas de aparelhos de precisão. Ali perto, a linha imaginária do meridiano de Greenwich, acompanhada de mais mapas e gráficos.
A fim de evitar mais atrações turísticas, peguei o metrô e desci na última estação da zona leste, no subúrbio de Barking. Padronizado, triste e cinzento, com bom centro comercial, reservava sobrados geminados e estreitos, apartamentos subdivididos, todos iguais e com acabamentos em tijolinhos. Pouco antes das últimas estações erguiam-se sobrados mal conservados, sempre geminados, estreitos e de tijolinho. Um parecia cópia do outro. A monotonia do cenário deprimia logo à primeira vista.
À tarde liberei a preguiça no parque Regent. Verde abundante, primorosamente cuidado, entre gramados e jardins impecáveis, amplidão, tranquilidade, silêncio. Me sentei num dos tantos bancos disponíveis e me deixei ficar apreciando aquele paraíso.
Decidi me incluir em excursão aos interiores da Inglaterra e Escócia. O grupo compunha-se de turistas da Austrália, Canadá, África do Sul, Estados Unidos, Israel, Cingapura.

O ônibus saiu bem cedo. Depois de Bladon, parada perto de Woodstock, vilarejo onde nasceu e viveu boa parte da vida o antigo primeiro ministro britânico Winston Churchil. Parada imbecil e desnecessária servindo apenas para cultuar a personalidade de um dos testas-de-ferro da segunda guerra mundial. O frio e o vento castigaram em local tão inóspito.
Mais tarde permanecemos horas na estupenda Stratfford Upon Avon, cidade natal de Shakespeare, com ruas estreitas, construções de madeira com listas grossas claras e escuras. Pontes medievais cortavam o rio Avon, margeado por gramados extensos, parques, igrejas góticas. Nem a manada de turistas conseguia tirar o brilho da cidade. Tive tempo suficiente para perambular pela cidade, observar cada detalhe e almoçar com calma.
De volta à estrada, vilarejos, chácaras com casas de pedra. Grama, muita grama e verde se prolongavam para todos os lados.
Atingimos Chester sob a tarde ensolarada. A arquitetura se assemelhava a de Stratfford, mas enriquecida pelos portões em arco, simbolizando as entradas oficiais. No meio da zona urbana, aquedutos e muradas altas testemunhavam as invasões romanas. Os moradores entupiam as ruas comerciais. Faixas estendidas nas ruas chamavam a atenção para as iguarias inglesas servidas nos restaurantes e pubs, entre elas a “saborosa” torta de rim ou a “apetitosa” torta de fígado. Não era difícil explicar porque as culinárias estrangeiras se popularizaram tanto na Grã-Bretanha.
Em seguida, paisagem com pequenas casas instaladas em gramados extensos. O sol inclinado produzia efeito luminoso único. Chegada em Windermere no final da tarde. E o aguardado pôr-do-sol não decepcionou, dourando as árvores, construções, os interiores do hotel, tudo.
Saída pela manhã e logo o fotogênico vilarejo de Grasmere, encravada entre montanhas abauladas. Casas construídas inteiramente em ardósia se estendiam cortadas por becos sinuosos e margeadas pelo lago. Poucas pessoas saíam às ruas naquela manhã de domingo, ensolarada e fria. Pequenos barcos estavam atracados no ancoradouro. Cortávamos região conhecida como Distrito dos Lagos, cercada por relevo mais acidentado, estradas estreitas e sinuosas e, obviamente, dezenas de lagos de águas calmas. As propriedades rurais também utilizavam a ardósia para demarcarem os limites do terreno.
continua...