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segunda-feira, 24 de outubro de 2022

de Goiás ao Piauí (via GO, MT, TO, BA, PE, CE, PI) (parte 6/7)

 ...continuação

Pela manhã, atravessei mais uma vez a pé a ponte sobre o rio São Francisco. Circulei pelo centro velho de Juazeiro, mortinho da silva naquela manhã de domingo. E retornei a Petrolina de barco.

Almocei novamente no restaurante ao lado do hotel, aquele frequentado pelos mais entre os mais de Petrolina. E lá estavam eles marcando presença. Ao final, adquiri na lojinha ao lado meio quilo do estonteante bolo-de-rolo, recheado de goiabada, produto tipicamente pernambucano.

E voltei ao quarto de hotel para fugir da modorra da tarde. Comecei a ler os contos de O Macaco Que Se Fez Homem, de Monteiro Lobato.

O ônibus partiu cedinho da rodoviária de Petrolina. Seguiu pela BR-428 até Lagoa Grande. Atravessou caatinga brava, espinhenta, fechada, sobre solo pedregoso. Nas zonas irrigadas, porém, intensa fruticultura, comercializada nas próprias cidades ou levadas para cidades distantes. Dobrou na BR-122, ainda atravessando a mesma caatinga fechada, pouco habitada, exceto por minúsculos e isolados vilarejos.

Parada para almoço ao lado de Santa Cruz, cidadezinha também chamada de Santa Cruz da Venerada e de Cruz de Malta. No posto de combustíveis ao lado do restaurante, carretas gigantescas estacionadas carregavam imensas peças dos coletores de energia eólica. Aguardavam o horário noturno permitido para tráfego de tais veículos nas rodovias. Embora considerada limpa, a energia eólica, imposta sem debates públicos, causava tremenda poluição visual em toda a região instalada, assim como ruídos perturbadores aos moradores próximos.

Pequenos e médios serrotes despontavam no relevo aplainado da caatinga.



Na plana, feia, suja e desorganizada cidade de Ouricuri o ônibus despejou e recolheu passageiros nas beiras das calçadas, em paradas muito próximas entre si, às vezes quarteirão a quarteirão.

Esse estranho comportamento fez lembrar as escolas em São Paulo, frequentadas pelos filhos dos ricos. Os pais formavam imensas filas de carrões, congestionando o trânsito, para deixar e buscar os respectivos nas portas das escolas. Exatamente na porta das escolas. Nem mais um metro, antes ou depois. O que me levava a chamá-las de escolas de “aleijados” porque o aluno não “conseguia” andar se o carro o deixasse ou o resgatasse a uma quadra ou mais de distância.

Já nos interiores brasileiros, ali em Ouricuri por exemplo, como resultado dessa prática, a rodoviária da cidade, nova, ampla, cheia de espaços disponíveis para o comércio local, órgãos públicos e outros interessados, todos vazios e fechados, apresentava pouco ou nenhum movimento nas plataformas.

A partir de Ouricuri o relevo se tornou mais acidentado e a vegetação mais desenvolvida e menos árida. O não aproveitamento das terras, contudo, permanecia o mesmo.

Bodocó, cidade pequena e simpática, tipicamente sertaneja, com a feira semanal a todo vapor, também contribuiu para manter o ônibus lotado desde Ouricuri.

Estátuas, esculturas, pinturas, cartazes, faixas, frases de Luiz Gonzaga, nas margens da estrada, pracinhas, muros, paredes, anunciavam Exu, terra natal do rei do baião. A cidade revelava urbanismo bagunçado, disforme, acidentado, mas de legítima cidade sertaneja pé-de-serra, no caso a serra do Araripe.

Nas cercanias ao norte de Exu a rodovia ziguezagueou em aclives, chapada acima, ao lado de vegetação agreste, quase tropical, bem mais desenvolvida que nas baixadas. No altiplano, a natureza se encontrava preservada nas imediações da unidade de conservação ambiental da Serra do Araripe. Não demorou a divisa interestadual entre Pernambuco e Ceará. Daí a estrada entrou em declive, rumo ao vale do Cariri, ao longo do qual Crato e Juazeiro do Norte reinavam absolutas.

Desembarquei no meio da tarde na rodoviária de Juazeiro do Norte. Me instalei em quarto de hotel, como os demais quartos do estabelecimento, sem janelas, sem tapetes no banheiro, fora ou dentro do box, sem lençol de cima. Retirei da cama de solteiro o lençol de baixo e o usei como o de cima na cama de casal.

Saí cedo para jantar. A fome exigia comida farta e nutritiva. Acabei caindo nos arredores da praça de nome, adivinhem qual, Padre Cícero, justamente na esquina da rua, adivinhem qual, Padre Cícero. Comi bem e bastante ao lado de mesas ocupadas com clientes bebericando sem pressa. Fui de carne-de-sol, baião-de-dois com queijo coalho, macaxeira cozida, vinagrete, farofa. Enchi divinamente o bucho em mesa ao ar livre.

E ali, na calçada onde se instalavam as mesas ao ar livre, me deparei com fenômeno que marcava como selo os destinos religiosos e de peregrinação. A mendicância. Pedintes. Aos montes. De vários aspectos e estratégias de atuação. Um deles, vestido de missionário, com roupa longa de algodão cru e tudo o mais, rodeava as mesas de hora em hora, sempre com o olhar sofrido de mau ator. Mas eram muitos, muitos mesmo.



Na volta ao hotel encontrei enorme barata viva sob a cama de casal. A primeira barata vista em quarto de hotel em quase dois meses de viagem pelos interiores de seis estados brasileiros.

Pela manhã saí para subir a colina do Horto, sobre a qual se encontrava a estátua de Padre Cícero e outras construções religiosas. Era local de peregrinação intensa de brasileiros, sobretudo em quatro datas anuais. Descrevi em detalhes essa exploração nos relatos de minha viagem anterior, realizada vinte anos antes.

Era subida árdua e constante, durante mais de uma hora, por rua estreita e sinuosa, calçada de paralelepípedos, com esgoto a céu aberto fétido escorrendo por ambas as sarjetas. No topo, sob a estátua, nenhum guia ou pedinte, e poucos vendedores de bugigangas religiosas, ao contrário de minha primeira visita.

Além da vista panorâmica de Juazeiro do Norte, se destacaram os nomes e frases de milhares de devotos gravados a caneta, umas sobre as outras, na base da estátua do Padre Cícero.

Ao voltar, notei que, além de não terem limpado o quarto do hotel, os corredores de acesso não viam faxina havia dias. A mosca morta que encontrara na soleira da porta dias antes ainda estava lá, intocada.

Repeti o jantar da noite anterior. Circulei levemente pela praça Padre Cícero. Os pedintes, sempre os mesmos, caracterizados de igual maneira, incluindo o falso missionário e péssimo ator, pediam repetidamente, insistentemente.

E voltei ao quarto do hotel onde não havia limpeza, troca de itens sujos ou arrumação. Mas havia, sim, baratas vivas e moscas mortas.

O ônibus partiu cedo com poucos passageiros, metade dos quais, eu inclusive, usando máscara facial contra a covid-19.

O veículo parou em Crato, Farias Brito, Várzea Alegre, por entre serras, serrotes, colinas, vales, muito verde, umidade, água, fertilidade. Eram cidades de bom aspecto, mas as mutilações geométricas das árvores das ruas e praças estavam lá, desgraçadamente. Na margem de uma das rodovias, me chamou atenção igreja ou capela, isolada, no meio do nada, de fachada e portão alto, datada de 1762.

A relevo se suavizou ao chegar em Iguatu, cidade média cujo centro comercial fervilhava de movimento. Estação ferroviária, linhas de trilhos, simples e duplas, pontilhões metálicos, apontavam, assim como em toda a região nordeste, que a ferrovia, de cargas e passageiros, reinou com eficácia e eficiência durante décadas. A ditadura do transporte rodoviário, no entanto, se impôs pela força dos monopólios capitalistas, sucateando e abandonando o transporte ferroviário.

Nos arredores urbanos apareciam, esparsas casas de taipa ou de pau-a-pique, em péssimo estado. Algumas abandonadas, outras com seres humanos sobrevivendo amontoados.



A vegetação passou a agreste. A serra de Acopiara e a cidade de mesmo nome despontaram na paisagem. Parada para almoço em Catolé da Pista, distrito entre serras no município de Piquet Carneiro.

A rodovia seguia no rumo norte. Cidadezinhas surgiam e ficavam para trás, mas o ônibus parava em todas elas para desembarque e embarque de passageiros. Entre elas, Mombaça, Mineirolândia, Senador Pompeu.

Ainda na CE-060 brotaram lajedos cobertos de xique-xiques, rochedos imensos. Mas ao entrar em Quixeramobim os rochedos se afastaram e a cidade plana nada oferecia de atraente aos olhos.

Na BR-122, aí sim, mais monólitos, maiores, próximos da rodovia, escarpados, anunciando Quixadá, cidade rodeada deles e tão bem relatada na viagem anterior. Pertencente à região do Sertão Central, típica do semiárido cearense, exibindo vegetação de caatinga, Quixadá costumava sofrer com secas periódicas e devastadoras.

Anoiteceu.

Ao entrar na BR-116 o ônibus se deparou com buraqueira, lama, poças d’água, causados pelas chuvas recentes e pelo descaso do governo federal de então, a serviço de projeto capitalista de destruição da infraestrutura nacional e da entrega das riquezas brasileiras aos monopólios privados, sobretudo estrangeiros.

O frio se tornou intenso internamente. Vesti a blusa guardada providencialmente na mochila de ataque e logo adormeci. A maioria dos passageiros usava máscara facial de proteção conta a covid-19.

 Ouvi durante a madrugada o motorista anunciar aos dorminhocos a cidade de Camocim, no litoral oeste do Ceará. Amanheceu no Piauí, nas imediações de Cajueiro da Praia. Em seguida, bem próximo ao mar, o ônibus cruzou o município de Luís Correia, ao lado das praias do Coqueiro, Peito de Moça, Atalaia, antes de se dirigir à Parnaíba, passando não muito afastado da lagoa do Portinho. E vivas ao mar que aparecia pela primeira vez aos meus olhos em quase dois meses de viagem!

Desembarquei na rodoviária de Parnaíba no começo da manhã.

O funcionário do banheiro do terminal, que colocava bem altas as gravações de Roberto Carlos, talvez porque adorava o repertório, talvez para ajudar a encobrir os ruídos orgânicos dos usuários, pedia contribuições espontâneas ao final das necessidades fisiológicas de cada um.

Permanecei nos sofás da recepção do hotel, aguardando a liberação do quarto, apenas trocando de lugar para fugir dos raios de sol. Sim, porque em Parnaíba fazia calor de verdade. Aproveitei para registrar no diário as emoções e sensações vividas desde a saída de Juazeiro do Norte no dia anterior.

Almocei bem comida saborosa e temperada em restaurante simples. E hidratei a refeição com a divina cajuína cristalina da região. Parnaíba mantinha a qualidade dos serviços urbanos, entre garçons, balconistas, recepcionistas, caixas.

Comecei Romance d’ A Pedra do Reino, calhamaço de Ariano Suassuna. Acreditava que jamais iria encontrar monotonia naquelas mais de mil páginas.



Após o farto café da manhã tomei micro ao centro da cidade, zona conhecida como Porto das Barcas, na margem direita de um dos braços do rio Parnaíba, borda leste do Delta do Parnaíba. De lá subi em outro ônibus à praia da Pedra do Sal, ao norte da ilha Grande de Santa Isabel. Sentada ao meu lado, piauiense cinquentona de feição mameluca, envelhecida e gasta pela vida. Passara a noite em claro e exalava odor de álcool. Tinha filhos espalhados pelos estados do país. Morava num clã familiar, pouco ao sul do mar, sozinha em casa, mas ao lado de casas de filhos e outros parentes. Ali desembarcou, carregada de tralhas compradas na cidade e amontoadas no fundo do ônibus.

Desci no ponto final, em frente ao mar. As duas baías da praia da Pedra do Sal, a mansa e a brava, seguiam firme na situação de abandono. Pouca gente, barracas decrépitas de comes e bebes, a maioria fechada ou abandonada, dezenas em ruínas. Triste quadro em local repleto de belezas naturais. Os raros hotéis e pousadas, na mesma, caindo aos pedaços. Muito espaço vazio. Ruas e calçadas levando a lugar nenhum. Areia cobrindo pisos e calçadas. Coletores de energia eólica ocupavam extensas áreas em ambas as baías, compondo efeito visual questionável.

O vento fustigava com violência. E o sol não dava tréguas.

Acabei optando por bar, obviamente de mau aspecto, mas com meia dúzia de fregueses. Duas águas de coco, doze bolinhos de peixe até que razoáveis, me abasteceram parcialmente enquanto eu observava o mar agitado da maré subindo ao longo da baía brava. Visual bonito e relaxante de praias pouco frequentadas, águas limpas e natureza preservada. Apesar de tudo.

Durante o trajeto do ônibus na volta apreciei os carnaubais preservados em zonas alagadas ou alagáveis. Lindo demais! Nada construído ou cultivado por ali. Parecia unidade de conservação.

Em vez de descer ao pé da ponte sobre o braço do rio, fui até o ponto inicial daquela linha urbana de ônibus, até a zona do mercado 40. Naquele momento, fim da tarde de sábado, tudo fechado. Apenas alguns bares sórdidos acolhiam bêbados inveterados. Ao redor, moradores de rua, pichações do PCC nas paredes, ambiente para lá de suspeito. Apertei o passo para sair dali antes de escurecer e partir para longa caminhada ao hotel.

Jantei peixada atraente e fresquinha em bar e restaurante no canteiro central da avenida São Sebastião. Era local tranquilo, sem música ao vivo, silencioso, com a lua quarto-crescente subindo acima das copas das árvores.

continua...

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

de Goiás ao Piauí (via GO, MT, TO, BA, PE, CE, PI) (parte 5/7)

 ...continuação

O guia, que se dizia tetraneto de conselheirista, me pegou de moto de manhã cedo. Acompanhados de casal paulista sessentão que estavam de carro alugado em Aracaju, lá fomos para as explorações naturais, em casas e museus que explicavam a história do arraial de Belo Monte, depois Canudos, massacrado pelo exército do Brasil, após quatro tentativas de ataque aos moradores que resistiram bravamente ao genocídio.

Criado em 1986, o parque estadual de Canudos se mantinha administrado pela UNEB, universidade estadual da Bahia, universidade pública e gratuita.

Em área de mil hectares, o parque abrangia vários sítios onde ocorreram as batalhas travadas pelo exército contra o arraial, este posteriormente submerso pelo açude de Cocorobó, em atitude deliberada das classes dominantes para apagar a história. Pouco se via de vestígios do massacre ao longo do vale do rio Vaza Barris. Afinal se passaram mais de cento e vinte anos. Painéis explicativos e informações adicionais pelo guia nos ensinavam o que ocorrera no alto da Favela, no vale da Morte, nas trincheiras, em eventuais cartuchos e ossadas encontradas pelo caminho.

O açude de Cocorobó cobria a primeira Canudos, incendiada pelo exército. A segunda Canudos, para onde os moradores se transferiram voluntariamente, também foi submersa pelas águas do açude em 1968, auge da ditadura empresarial e militar implantada a partir do golpe de Estado de 1964.

Visitamos as ruínas da Canudos velha, a segunda, de onde se via a famosa igreja velha, emersa devido à baixa das águas do açude. Em seguida, a lagoa do Sangue, onde os conselheiristas sobreviventes do massacre foram degolados pelo exército, embora desarmados e rendidos, a maioria mulheres e crianças. Ainda caminhamos, atravessando o riacho Umburana, então completamente seco, ao ponto onde estivera o corpo do Moreira César. O arrogante e espalhafatoso comandante da terceira expedição contra Canudos fora ali abandonado após ser carregado pelos soldados famintos por quilômetros desde o arraial de Belo Monte, local da morte do oficial.



Encerramos o dia ao por do sol no eixo da barragem do açude de Cocorobó. A jusante floresciam plantações de bananas, entre outras frutas e produtos agrícolas, ao longo do leito umedecido do rio Vaza Barris. As exuberantes plantações comprovavam que ali jamais houve problemas com a fertilidade do solo, mas sim com a concentração da propriedade da terra e com a falta de acesso à água, ambas monopolizadas nas mãos da minoria de latifundiários.

Em nova visita ao IMPC, Instituto Popular Memorial de Canudos, os cuidadores realçaram a importância de manter viva a memória daquele crime hediondo cometido pelo exército, mais um dentre muitos, a serviço do então governo federal do Brasil. E também destacaram que a resistência prolongada dos moradores de Canudos contra os ataques militares comprovou que a organização, a união e a mobilização são as únicas armas do povo contra a exploração e a opressão das classes dominantes, de ontem e de hoje.

A Canudos nova, a terceira e atual, com menos de sessenta anos de idade, era aplainada e de traçado quadriculado. Felizmente, porém, não se espalhava em vias largas e inóspitas. Canudos tinha cara de cidade, sim. Nada de atraente arquitetonicamente, mas de resultado final satisfatório. Se fosse coibido o crime da mutilação geométrica das árvores de ruas e praças, destruindo sombras refrescantes, Canudos se tornaria bem mais agradável.

Passava da meia-noite. Do lado da janela do quarto do hotel, a inauguração de bar seguia a todo vapor com indivíduos se revezando no palco e vomitando gritarias. Do lado oposto, sons tão altos quanto o do evento, mas vindo das caixas de som de carros particulares. Os sujeitos duelavam para ver quem explodia o som mais alto e trepidante. E eu era o único hóspede do hotel naquela noite barulhenta de sábado.

Os policiais militares da Bahia perambulavam pelas ruas da cidade em carro oficial e com metralhadoras a tiracolo. Da lei do silêncio jamais ouviram falar. Aqueles fardados foram treinados para matar trabalhadores, pobres e pretos, jamais prevenir a poluição sonora ou proteger a vida dos cidadãos comuns.

No café da manhã, básico e condizente com a qualidade do hotel, a proprietária informou que de madrugada, durante a festa de inauguração do bar da esquina, um rapaz fora assassinado. Era canudense e conhecido dela. O corpo havia sido retirado do local do crime havia minutos.

E saí a esmo pelas ruas de Canudos. O assassinado da madrugada era o assunto recorrente. Ninguém se lembrava, no entanto, de condenar a polícia militar. A instituição daquele governo estadual constrangia cidadãos comuns pelas ruas da cidade, conforme eu testemunhara na noite anterior, mas não tinha competência, ou interesse, em barrar pessoas armadas numa festa de rua.



Encerrei o ótimo Cangaços, de Graciliano Ramos. Embora eu tivesse lido a maioria dos artigos em Viventes das Alagoas e em dois capítulos de Vidas Secas, agradou a ideia de editar num único volume aqueles textos sob o tema do cangaço. Menos os personagens em si, e mais as origens, as causas e o contexto histórico e social do fenômeno que assolou os interiores do Brasil, sobretudo durante a República velha.

Embalei as leituras com os contos de Negrinha, de Monteiro Lobato O autor era injustamente demonizado e perseguido pelos movimentos chamados de identitários, de cunho pequeno burguês, que defendiam conteúdos importados daquele regime terrorista ao norte do México.

À noite, mesmo com o tempo chuvoso e poucos em circulação pelas ruas e calçadas, o som alto, em bares e carros, confirmava a regra que no nordeste a poluição sonora reinava não como exceção, mas como característica cultural.

Sem o café da manhã, fui esperar o micro perto da esquina da rua com os enfeites das festas de Santo Antônio. No itinerário, pela BR-235, os distritos de Canché, Água Branca e Brejo Grande, a últimas duas vilas com casas dotadas de platibandas. Raríssimas, distantes e isoladas formações rochosas brotavam no horizonte. No mais, pequenas propriedades, bananais, gado, caprinos, coqueirais, caatinga esverdeada e úmida, terreno levemente ondulado.

Sob a chuva fina e teimosa, desembarquei bem cedo na minúscula rodoviária de Jeremoabo. Belisquei bolachas salgadas e iogurte, trazidos na mochila de ataque. Me mudava sempre de lugar a fim de driblar as inúmeras goteiras no teto do terminal.

Aproveitei a estiagem momentânea e me dirigi à pousada próxima, mal conservada, com quartos escuros e mofados. Detestei o que vi. Atravessei a avenida de volta à decrépita rodoviária.

Belisquei mais bolachas e castanhas. Haja goteiras no teto do terminal de zinco da estação! As pancadas de chuva se tornaram mais intensas.

No meio do dia embarquei em ônibus praticamente vazio. Pouco depois desci na rodoviária de Paulo Afonso. Era cidade nova, planejada e espalhada ao longo de extensas e largas avenidas que atravessavam a ilha em meio ao lago formado com as águas do rio São Francisco por conta da hidrelétrica de Paulo Afonso.

No meio da caminhada ao hotel me simpatizei com restaurante. Parei, com bagagens e tudo, para devorar carne de sol coberta com queijo coalho e acompanhada por macaxeira bem crocante.

Sem quaisquer retornos promissores das agências de turismo quanto a passeios organizados ao Raso da Catarina, inviáveis por conta própria, eu saí para caminhar pelas ruas e avenidas de Paulo Afonso, mais especificamente no rumo das águas da hidrelétrica no São Francisco.

A despeito de não contar com conjunto arquitetônico ou histórico digno de nota, e se distribuir por avenidas largas e extensas, Paulo Afonso tinha um charme peculiar. O povo sorridente e receptivo, as áreas verdes amplas e tranquilas nas imediações da represa, forneciam à cidade atmosfera leve e agradável. Passei pelo centro comercial, parques, margem da represa com a hidrelétrica ao fundo, bairros ribeirinhos ou ao lado de riachos que corriam ao longo de gargantas profundas, pedregosas e áridas, estas quase sempre beirando a divisa interestadual entre Bahia e Alagoas. Muitos usavam máscaras faciais contra a covid-19, inclusive em espaços abertos. População bem orientada.

As faixas de pedestres das avenidas de Paulo Afonso, sem qualquer semáforo, eram respeitadíssimas pelos motoristas. Bastava se posicionar na calçada, em frente à faixa, que os motoristas ligavam o pisca-alerta, paravam, e os pedestres podiam atravessar calmamente.

Não muito comuns, mas charmosíssimas, as motos adaptadas a triciclo com capota e banco duplo para passageiros. Uns incrementavam a carroceria, parecendo bólidos futuristas. Quem disse que tais tipos de veículos só circulavam pela Ásia ou em Iquitos?

O bacanal em torno da provável privatização da Eletrobrás ia a todo vapor. O capital financeiro se refestelaria com a aguardada subida dos valores das ações da empresa estratégica estatal e também com a criação de fundos lastreados nessa privataria. Era a orgia dos donos do mercado, da grande burguesia, dos grandes capitalistas que dominam a economia brasileira e mundial!



Li mais contos de Negrinha, de Monteiro Lobato. Ouvi vídeos debatendo a conjuntura política do Brasil, outros de humor para descontrair.

Embarquei pouco antes da meia noite em ônibus vazio proveniente de Maceió. A numeração dos assentos, nos pisos inferior e superior, em nada combinava com o mapa que a bilheteria me mostrara e através do qual escolhi o lugar. Não era ônibus executivo, mas leito. Acabei ficando no piso inferior em banco grande, largo, confortável e com inclinação quase horizontal.

Dormi bem. Só acordei durante a madrugada, na parada em Cabrobó, para voltar a adormecer novamente. Antes saquei a malha da mochila de ataque para me proteger do friozinho do ar condicionado.

Desembarquei ao amanhecer na rodoviária de Petrolina.

Era cedo demais. O quarto do hotel ainda estava ocupado. Conversei com a sorridente funcionária do balcão que estudava a bizarra combinação de relações internacionais e teologia.

Perambulei pela orla urbanizada do rio São Francisco, tendo como vista as águas do rio, a ponte velha, e ainda a única e sempre carregada, às vezes engarrafada pelo tráfego intenso de veículos, e a cidade de Juazeiro na margem oposta.

Atravessei a pé, pela extensa ponte, até a Bahia, observando a ilha do Fogo, no meio do caminho, mas ainda no estado de Pernambuco. A BR-407 entupia a ponte que funcionava como gargalo para quem se movia dentro dos interiores nordestinos. De Juazeiro voltei de barco de passageiros para Petrolina.

Do lado de fora, o restaurante do almoço parecia modesto e por quilo. Seria suficiente diante da pouca fome. Mas nada de quilo, bufê ou estabelecimento para alimentar trabalhadores do entorno. Se tratava de loja de vinhos, comes e bebes diferenciados, além de algumas mesas em salão separado. Logo notei os arrumadinhos e as arrumadinhas bebericando vinho branco gelado. E não eram garrafas de marcas regionais do vale do São Francisco. Os rótulos apontavam para países distantes. Me senti imerso em ambiente similar às tais novidades que surgiam em São Paulo, ganhavam destaque por um tempo, recebiam o nome de bistrô, serviam comida de micro-ondas, aquela galerinha que gosta de ver e ser vista comparecia em peso. Isso até o ponto envelhecer, os buscadores de badalações mudarem de destino e o tal bistrô fechar as portas.

A frequência pelas mesas era a fina flor da elite local. Muitos se conheciam e se cumprimentavam efusivamente ao entrar ou sair. Eles, de calça e camisa. Elas, produzidíssimas, vestidas para matar. Vez ou outra se viravam para a mesa vizinha e trocavam frases sobre grandes negociatas, suspeitos investimentos de vulto, envolvendo cifras gigantescas.

Aceitei a sugestão de tomar taça de vinho tinto do Alentejo, a preço não abusivo. Dentre as opções executivas, fiquei com o filé mignon ao molho de vinho acompanhado de arroz, purê de batatas, precedido de salada verde. Tudo saboroso e não tão caro quanto eu imaginava. Nas mesas ao lado, elas e eles pediam mais garrafas de vinho branco, engarrafadas bem longe do vale do São Francisco.

Ao final, antes de pagar a conta, e aproveitando que me encontrava em Pernambuco, entrei de cabeça em generosa fatia de bolo-de-rolo recheado de goiabada. Soube divinamente, como de praxe.



À noite, tracei picanha suína grelhada com farofa, vinagrete e cebola também grelhada em bar e restaurante na beira do rio. Na margem oposta, entre sons de música, a Bahia e a cidade de Juazeiro. Som ao vivo do lado baiano, som ao vivo do lado pernambucano, sob a acústica das águas correntes do rio São Francisco.

Logo após o café da manhã me incluí em passeio às vinícolas e à represa de Sobradinho.

Repleto de turistas brasileiros, o ônibus seguiu à vinícola situada no município de Casa Nova, Bahia. Lá nos explicaram as fases da produção dos vinhos, espumantes e tranquilos, tintos, brancos e rosês. E com direito a degustação livre de todos os tipos mencionados, sem falar do brandy. Primeiro provamos o ainda bruto destilado do vinho, com oitenta por cento de álcool. Depois o envelhecido em barris de carvalho, com trinta e oito por cento de álcool. Todos podiam repetir as degustações. O clima entre os visitantes começou a animar.

O ônibus nos levou à barragem de Sobradinho, onde embarcamos em catamarã. O céu azul e a placidez das águas da represa valorizavam o passeio fluvial.

Por quase uma hora o catamarã navegou pelas águas calmas do lago. Beberiquei mais espumantes secos do vale do São Francisco, cujas garrafas vinham a preços bem aceitáveis. O bufê oferecia variedade de pratos para todos os gostos.

O catamarã ancorou em banco de areia coberto com vegetação original da caatinga. Mergulhei em banhos nas águas mornas. Ao redor, vento refrescante, descontração entre todos, pela alegria e pelo efeito cumulativo de tanto álcool ingerido. A música ao vivo mexeu com os passageiros, que dançaram a toda, incentivados por garrafas e garrafas de espumante.

Tempos depois o catamarã retornou ao eixo da barragem de Sobradinho, de onde reembarcamos no ônibus de volta à Petrolina.

À noite, a orla fluvial lembrava orla de verdade, de mar e não de rio. Ventava forte, constantemente, refrescando o ambiente. Às vezes até incomodava, mas evitava o calor excessivo e a transpiração inconveniente.

continua...

quinta-feira, 29 de março de 2012

Paraíba e Pernambuco (parte 3/5)

...continuação
O café da manhã do dia seguinte veio mais familiar, mas, claro, sem faltar as peculiaridades regionais. Desta vez foi tigela de salsichas mergulhadas em molho de tomate. Apenas a afastamos de lado e comemos os demais itens.
Bem que tentamos nos informar de rotas alternativas para a Olinda. Tudo para evitar a tenebrosa BR-101 duplicada. Não tinha jeito. A possibilidade de atravessar a Ilha de Itamaracá e o povoado de Nova Cruz para atingir a praia de Maria Farinha esbarrava na irregularidade do serviço de ambas as balsas.
Sem saídas, adentramos novamente na pavorosa e duplicada BR-101. E mais congestionamentos e trânsito pesado na altura do município de Abreu e Lima. Na cidade de Paulista, acessamos estrada diagonal no sentido do mar, mais precisamente rumo à praia de Maria Farinha. Percorremos toda a extensão da praia pela avenida paralela ao mar, abrigando apartamentos e casas de temporada, infraestrutura para visitantes, o conforto necessário, mas carecendo de beleza.
Olinda estava calma, sem guardadores e, surpreendentemente, sem o sufoco dos famigerados guias turísticos. Aliás, ao contrário de minhas outras visitas à cidade, os guias, adultos e mirins, não incomodaram, apenas ofereceram serviços discretamente, sem insistirem.
Caminhamos, exploramos, visitamos, contemplamos, apreciamos, com calma, sem tumultos, sem assédios, as extraordinárias igrejas, mosteiros, ateliês de arte, ruas, ladeiras e becos, construções, casas antigas e bem conservadas. Os destaques ficaram por conta da igreja de São Bento, da vista panorâmica da cidade, das praias e do Recife, obtida do alto da Sé, dos centros culturais, da simpatia dos pernambucanos. Repetíamos as visitas, parávamos, voltávamos, observávamos em detalhes, mais uma e outra vez.
A fome bateu em cheio. Apesar das inúmeras opções oferecidas no bufê do restaurante instalado em quintal arborizado, me concentrei na divina, estupenda, estonteante, saborosíssima galinha à cabidela. Apenas um pouco de arroz branco e angu para realçar a iguaria. E uma generosa jarra de suco de graviola. Preparei dois pratos cheios totalizando um quilo e duzentos gramas de galinha à cabidela. Saí engordado, preenchido, estufado. Nem podia andar e me movimentar direito. Mas saí em estado de graça, pleno de felicidade, satisfeitíssimo, pelo almoço dez estrelas. E o excesso não causou nenhum mal. Nadinha de nada. Prazer puro!
 À tarde pegamos de volta a mesma avenida da praia de Maria Farinha. Avançamos um pouco mais e arriscamos a primeira balsa para o vilarejo de Nova Cruz. Nada feito. Estava quebrada. Manobrei e retomamos a passagem pela cidade de Paulista, o terror da BR-101, o cruzamento pelo deprimente município de Abreu e Lima, o acesso a Igarassu e a pousada em Itapissuma.
Assisti parte dos prosseguimentos da festa de São Gonçalo do Amarante, em procissão de velas, acompanhadas de cantoria puxada por senhora bem idosa, a caminho da igreja matriz. Rojões estouravam convocando os fiéis para a missa em seguida. As águas do canal, vazias e calmas naquela noite, refletiam as luzes urbanas. Solitários e casais de namorados encostados na murada aproveitavam o silêncio da noite. As barracas que ofereciam as pesadas caldeiradas se encontravam fechadas. Um ou outro bêbado cambaleava por ali.
Ao percorrermos as ruas de Itapissuma, a pé ou de carro, éramos minuciosamente observados e analisados pelos moradores, das janelas das casas, sentados em cadeiras em frente às casas ou nas guias das calçadas, de dentro do comércio, de outros veículos. De todos os pontos. Não nos olhavam com censura, mas com curiosidade e espanto.
Atravessamos a extensa ponte a partir do centrinho de Itapissuma e entramos na Ilha de Itamaracá. Iniciamos pela parte sul, mais especificamente pelo Forte Orange, ao lado da praia. Vista da própria areia, a ilha da Coroa do Avião surgia imponente no meio do mar.
O Forte Orange construído pelos holandeses durante a ocupação encontrava-se fechado para visitação interna. Nos contentamos em circundá-lo e apreciar a alta e espessa murada, as ameias, as torres de observação, o manguezal em uma das laterais.
A praia não nos seduziu. Ainda era cedo para descansar a carcaça em alguma barraca na areia. E não estávamos a fim de nos entupir de bebidas. Embarcamos rumo a outros pontos da ilha. Percorremos o centrinho singelo com ruas e comércio pacatos, e mais praias.
O Caminho dos Holandeses, longa estradinha calçada de pedras, nos conduziu ao vilarejo de Vila Velha, situado no alto de uma colina. Compunha-se de casinhas ao redor de um retângulo, igreja secular, produção de artesanato, vista panorâmica do mar e da charmosa ilha da Coroa do Avião. Toda a vila transpirava calma, silêncio, tranquilidade.
Pegamos a estrada de terra no rumo norte na intenção de conhecer as praias oceânicas mais afastadas da agitação do centro e sul da ilha. No caminho nos deparamos com os muros altos de enorme penitenciária, com direito a filas de familiares, amigos e amantes carregando sacos com comida e demais pedidos dos presos. Peruas de lotação e comércio básico se aproveitavam da situação para encher o bolso. Nada diferente das cenas de penitenciárias pelo Brasil afora.
E acessamos as praias mais ao norte, dispostas na chamada Baía dos Golfinhos, a mesma acessada por canoas a partir dos pontos centrais da ilha. Loteamentos sem fim, ainda com vastas áreas vazias, sem construções, casas simples de temporada, comércio suficiente para atender a demanda, ruas sem calçamento. Praia longa, praticamente vazia naquele momento de muitas nuvens e pouco sol. Quiosques esparsos de alvenaria recebiam mais o vento constante que fregueses.
Caminhei pela praia na intenção de chegar à extremidade norte da ilha, bem distante dali. Nada de sol e muito vento cortante. Casas e partes de casas destruídas indicavam o avanço violento do mar. Impressionavam os pedaços de concreto projetados no ar ou despencados sobre a areia da praia. Placas de imóveis à venda mostravam o desespero e o último recurso para não se perder tudo. O vento aumentava de intensidade, acompanhado de chuvisco gelado. Quase uma hora depois atingi a ponta norte da Ilha de Itamaracá sob um clima para lá de inóspito. Um bar de madeira em condições precárias era a única construção por ali. O proprietário e provavelmente morador solitário no mesmo local varria não sei o quê, deslocando areia de um ponto a outro, debaixo de ventania dos diabos e garoa intermitente. As rajadas deslocavam a areia solta da praia e formavam véus esbranquiçados que me chicoteavam violentamente. Ficava quase impossível observar a paisagem da ilha e o continente mais a oeste e a norte, tal a força do vento e da chuva fina. Dei meia volta e caminhei apressado, com o rosto inclinado, tentando me proteger, sei lá como, daquela momentânea sensação de frio.
Pegamos a estrada de terra, passamos novamente ao lado do lúgubre presídio, acessamos o asfalto e cruzamos a ponte para o continente.
De volta ao nosso “lar” na cidade base de Itapissuma, mais rojões avisavam sobre as continuações das festividades de São Gonçalo do Amarante. Chuvas esparsas não impediram que saíssemos para forrar o bucho em restaurante para lá de simples, talvez o único em funcionamento naquela noite.
Mas ainda faltava a vizinha Igarassu. Apesar de termos atravessado a cidade diversas vezes, não nos permitíramos o tempo necessário para explorá-la como merece. E definitivamente o centro histórico de Igarassu merece uma visita detalhada, calmamente, saboreando, sem pressa.
Uma das cidades mais antigas do Brasil, Igarassu oferece conjunto arquitetônico ímpar, entre casarões, igrejas, mosteiros, calçamento pé de moleque, ladeiras, museus, prédios públicos, dispostos em área central do que restou daquela concentração urbana dos séculos XVI, XVII, XVIII. E o destaque ficou por conta da igreja de Cosme e Damião, erguida em 1535, guardando a imagem dos santos gêmeos no altar e demais divisões internas. Construído no mesmo século XVI, o convento de São Francisco reservava rica coleção em obras de arte, pinturas e esculturas, expostas em vasto salão vetado a fotografias. Enquanto perambulávamos pelas ruas de Igarassu, uma banda musical mirim toda paramentada se preparava para ensaiar ao ar livre.
  Saciados de tanto contemplar os testemunhos da história do Brasil colonial, pegamos novamente a BR-101, agora no sentido norte, surpreendentemente vazia. Assim que deixamos Pernambuco e entramos em território paraibano, dobramos à direita, sentido litoral. Passamos por Caaporã, ainda em meio a canaviais a perder de vista, minúsculos e precários vilarejos, caminhões e treminhões trafegando pela estrada estreita, usinas soltando baforadas de fumaça escura.
Tentamos nos hospedar em Pitimbu. Mas a cidade, feia e suja, as opções de hospedagem, caras, ruins e barulhentas, a praia em frente, poluída e nada convidativa, nos expulsaram dali em pouco tempo. Prosseguimos em estrada estadual litorânea no sentido norte.
Pesquisamos inúmeras pousadas e hotéis pelo caminho, nas imediações dessa ou daquela praia do litoral sul da Paraíba. Ou eram absurdamente caras pelo pouco que ofereciam, ou estavam lotadas. Em uma pousada nova, mas extremamente básica e na beira da rodovia, com direito à poluição sonora e do ar, o proprietário com sotaque de língua inglesa ousou cobrar preços estratosféricos. Mesmo com o estabelecimento quase vazio, o gringo se recusou a pechinchar. Se dependesse de nós, o tal lugar permaneceria sem hóspedes.
Paramos em Tambaba, praia famosa pelas famosas falésias e pelo trecho exclusivo para praticantes do naturismo. Hordas de turistas de um dia, conduzidos ou não pelas agências de João Pessoa, chegavam e partiam em minutos. Aterrissamos no único bar e restaurante do trecho sem nudistas. Enchemos a pança com peixe frito e matamos a sede. Relaxamos e apreciamos o visual da pequena praia em frente, no formato de baía com pedras. Mas o que realmente encantou foi o visual do alto do morro na direção norte, com as extensas falésias de frente para praias quase desertas, espumas brancas despejando as águas azuladas do mar nas areias acastanhadas.
continua...
                              

quarta-feira, 28 de março de 2012

Paraíba e Pernambuco (parte 2/5)

...continuação
          Cruzamos cidadezinhas paraibanas adormecidas naquela manhã de domingo, como Mogeiro, Itabaiana, Juripiranga. Pela rodovia, crianças e adolescentes tapavam mais ou menos os buracos do asfalto com areia e terra vindas das margens. E estendiam as mãos aos motoristas que por ali trafegavam na esperança de pingar algum como recompensa. Tais cenas se repetiam a cada maior depressão da estrada onde eram mais comuns os buracos surgidos durante as chuvas.
Bastou cruzarmos a divisa com o estado de Pernambuco para o bucólico do agreste paraibano, pouco cultivado, dar lugar a canaviais sem fim, usinas soltando fumaça pelas chaminés, caminhões e treminhões pela rodovia, restos de cana no leito e margem da estrada, trânsito intenso, poluição, natureza degradada. Era a economia capitalista em movimento. Entrávamos em cheio no miolo da zona da mata pernambucana, com cidadezinhas agitadas, feias, pobres, sujas, entre Ferreiros, Timbaúba, Aliança, Nazaré da Mata. O dinamismo e a injustiça social se escancaravam. Nem precisava muito esforço para notar a pujança econômica aliada à ausência de serviços públicos elementares.
Pouco antes de Carpina apareceu Tracunhaém. Ali entramos e fomos circular do jeito que se deve, ou seja, a pé. O local se notabilizava pelas manifestações de arte popular, sobretudo nas esculturas em madeira, barro, cerâmica. Lojinhas, centros cultuais, ateliês dos próprios artistas, exibiam objetos de diversos tamanhos, formas, cores, estilos, preços. Éramos recebidos com simpatia e sem pressões para vender isso ou aquilo. Faziam questão de explicar as origens, os estilos e motivações que marcavam cada artista.
Retornamos à rodovia. E mais caminhões e treminhões, vazios ou carregados de cana, infinitas monoculturas de cana, chaminés fumacentas das usinas, tráfego intenso, transporte de trabalhadores em condições sofríveis, vilarejos paupérrimos. Igrejas e capelas antigas se erguiam esparsas no meio de tudo. Após a cidadezinha de Araçoiaba, surgiu do nada, na margem de curva acentuada, próximo à usina imensa e ainda mais poluidora, obelisco daqueles da época da invasão do Brasil pelos portugueses. Nele havia o brasão, inscrições, tudo que tinha direito para marcar a posse do estrangeiro.
E batemos de frente com o trânsito infernal da famigerada BR-101. Mas por pouco tempo, felizmente. Entramos no acesso à cidade histórica de Igarassu. Seguimos à cidade de Itapissuma, erguida na margem do canal sobre o qual a ponte liga o continente à Ilha de Itamaracá.
Partimos para arriscar o que parecia ser a única opção de hospedagem por ali. Fechamos negócio. Assim transformaríamos Itapissuma em base para visitarmos Recife, Olinda, Ilha de Itamaracá, Igarassu.
Itapissuma vivia a festa de São Gonçalo do Amarante. Naquela tarde haveria a procissão marítima trazendo a imagem do santo de volta para a igreja da cidade. Era a “buscada” conforme expressão afixada nas faixas espalhadas pela cidade. E a programação da festa ainda duraria mais de uma semana, incluindo procissões, missas, barracas de comes e bebes pelas ruas, brinquedos infantis, sem falar nas apresentações musicais em palco especialmente montado, atividade esta onipresente em qualquer desses eventos, seja religioso, comercial, cívico, industrial, político, militar, etc.
Só com o café da manhã tomado em Ingá, saímos a pé na procura de algo substancioso para encher a pança. Na margem do canal havia comedores improvisados, um ao lado do outro, repletos de mesas e cadeiras com vista para as águas. O cardápio se restringia a caldeiradas de peixes e frutos do mar. Tudo já estava preparado de antemão. Pediu, chegou. Adoro e sempre busquei caldeiradas em viagens pelos interiores e litoral do Brasil. Mas aquela frustrou do início ao fim. Maçuda, enjoativa, excesso de sabores e temperos se disputando num só prato. A fome, a falta de perspectivas nas redondezas, a vista reconfortante das águas do canal, a alegria contagiante dos frequentadores, de certa forma, nos ajudaram a empurrar aquela gororoba. Mas não foi fácil. Enchemos a barriga, somente isto.
E lá fomos nós perambular pelas imediações da igreja matriz e beira da água do canal no aguardo da buscada da imagem de São Gonçalo do Amarante. Os fiéis, turistas regionais, curiosos, aos poucos se aglomeravam nos melhores lugares. Andamos, sentamos, levantamos, paramos aqui e ali, sentamos novamente, circulamos mais, e nada da procissão aparecer no horizonte. Mais gente se postava nas muradas da margem do canal, dirigindo os olhares para sul, na esperança de notar uma concentração de barcos a caminho. Rojões estouravam. Aumentava a movimentação, em terra e nas águas.
Enquanto isso, pudemos notar propagandas políticas a reboque da festa. Faixas na cidade e na ponte, bandeirolas, cartazes, em terra, nos barcos, nas muradas, nos ancoradouros, em toda a parte. Apareciam mais nomes e dizeres dos coronéis locais, prefeitos, vices, vereadores, deputados, aspirantes a cargos variados, do que frases referentes ao santo homenageado. O nome do prefeito entupia a visão de qualquer direção que se olhasse. Verdadeiro massacre visual. Tanto que fiquei em dúvidas de, entre os políticos e a hierarquia religiosa, quem se aproveitava de quem.
O sol já se inclinava no horizonte, o entardecer avançava, quando, bem a sul e ao fundo do canal, a concentração de barcos tomou vulto, navegando em nossa direção. Rojões estouravam, vindos de terra, dos barcos, daqueles próximos aos ancoradouros e daqueles no entorno da procissão. O povo se espremia nas muradas perto das águas, não se cabendo de emoção. A imagem do santo vinha em destaque no convés de embarcação ao estilo dos invasores portugueses. Dezenas de barcos a acompanhavam. Barcos pequenos, grandes, simples, sofisticados, iates, canoas, os maiores com passageiros fantasiados e dançando ao som de músicas carnavalescas. E muitos rojões.
O barco aportuguesado atracou num dos ancoradouros, sendo recepcionado por coroinhas e religiosos em geral vestidos impecavelmente de branco e vermelho. Mas a imagem não seguiu para a igreja, nas imediações da qual nos postamos para a chegada triunfal. Ela ainda partiria em procissão pelas ruas de Itapissuma antes de retornar aos interiores da matriz, na frente da qual as senhoras e os senhores esperavam sentados em cadeiras no topo das escadas.
Bem mais à noite, as cenas de Itapissuma que antecediam às famigeradas apresentações musicais desencorajavam. Bêbados aos montes, homens e mulheres, de idades variadas, uns caindo pelas tabelas, outros se oferecendo e atacando como presas e predadores. Tudo feio, sujo, fedido. Desanimador. E os produtos comerciais da temporada ainda nem haviam subido no palco.
Depois de noite bem dormida em quarto confortável, nos sentamos à mesa do café da manhã. Não havia esquema de bufê e a copeira foi trazendo os itens, um a um. Carne moída ao molho, moela de galinha ao molho, macaxeira, cuscuz de milho, ovos fritos, pão, manteiga, queijo, presunto, café ralo, leite. Ao recusarmos educadamente os três primeiros, ela estranhou e ofereceu carne de charque. Nova recusa. Sugeri frutas e sucos e a moça perguntou espantada, “vocês comem isso?”. Mas trouxe a jarra de suco natural de frutas da terra, mais melancia e mamão. Após o susto, todos se salvaram.
Pegamos a BR-101 rumo sul e batemos de frente a longo e irritante congestionamento logo nas imediações da cidade de Abreu e Lima. Algum acidente, bloqueio, obras na pista, chuvas, outra eventualidade? Nada disso. Apenas excesso de veículos acarretando congestionamento rotineiro naquela rodovia duplicada que nos levaria a Recife. Inferno total. Consequências desse Brasil estupidamente rodoviário e de joelhos diante da indústria automobilística. Dinheiro do povo, tempo e mão de obra foram gastos na construção e depois na duplicação da dita cuja para servir aos interesses das transnacionais do transporte rodoviário. Nem sinal de ferrovias, seja para cargas ou passageiros. Nada diferente da situação calamitosa pelo Brasil afora. Tudo para as rodovias, automóveis, caminhões. Nada para o transporte coletivo de qualidade para o povo, preferencialmente sobre trilhos.
Demoramos duas horas para percorrer quarenta quilômetros. Deixamos o carro no estacionamento da rodoviária de Recife e percorremos de trem a longa distância até o centro da cidade. Aí sim, transporte eficiente, rápido, seguro, confortável. Simples e fácil.
Percorremos a pé as ruas e becos da ilha de Santo Antônio e São José, pelas diversas pontes ligando essa à ilha do Recife Antigo. Nos deslumbramos com a Capela Dourada e o mosteiro de São Francisco, com as inúmeras igrejas que se acumulam no centro velho de Recife. Andamos nos labirintos em meio às bugigangas oferecidas nos corredores estreitos do mercado de São José. Observamos o movimento nervoso das avenidas, dos recifenses a trabalho, nas compras, apenas perambulando. O sol se impunha e torrava nossas cabeças, mesmo protegidas pelos providenciais chapéus.
Reservamos mais tempo pelas ruas da ilha do Recife Antigo, as construções históricas nas imediações do marco zero da cidade, o mar, as esculturas e torres de Francisco Brennand em frente, os restaurantes, bares, botecos, centros culturais. Famintos, entramos em restaurante por quilo bem frequentado pelos funcionários das redondezas. Estranhamente não havia saladas no bufê. De nenhum tipo. Nem uma rodela de tomate, uma folha de alface, uma fatia de cenoura, um anel de cebola. Pelo menos me esbaldei na jarra de suco de caju.
Fizemos passeio de barco pelos rios Capiberibe e Beberibe, mais especificamente ao longo dos trechos que margeiam as ilhas do centro histórico de Recife. Visão que realçou o charme e beleza da capital pernambucana, ainda mais sob a luz do entardecer. Antes do embarque, descendo de outro barco atracado depois de filmar um documentário, assistimos a figura pitoresca de Reginaldo Rossi, ostentando cabelos cobreados, em eterno sorriso, saudando todos, sendo fotografado pelos fãs que faziam fila para abraçá-lo. No final acenou e se despediu com o sonoro “ateé luooogo”.
Mas tínhamos que tomar o trem de subúrbio, pegar o carro e encarar novamente os horrores da BR-101 duplicada de volta a Itapissuma. Já era noite quando tentávamos sair de Recife. O congestionamento massacrava de qualquer direção. Chamar aquilo de inferno seria um eufemismo. A rodovia BR-101 torturava. O tráfego de automóveis e caminhões pouco avançava. Cruzar o munícipio de Abreu e Lima, pertencente à região metropolitana de Recife, novamente beirou à insanidade, tal à desorganização e engarrafamento do trânsito. E novamente os quarenta quilômetros de Recife a Itapissuma pareceram quatrocentos.
continua...
                        

sexta-feira, 22 de julho de 2011

do Pará a Alagoas (parte 5/6)

...continuação
Após deixar a rua do último bairro, peguei a estradinha de pedras irregulares. Ali, só de botas firmes, com solado duro e grosso, para amenizar os impactos nas solas dos pés. Cercas de pedra, pequenas propriedades com terraços cultivados, goiaba, manga, jaca, coco, mamão, maracujá. Relevo acidentado, entre sobes e desces, colinas rochosas, vales profundos, olhos d’água, pequenas criações de animais, casinhas de pedra ou alvenaria. Duas jararacas e uma coral cruzaram o caminho calçado. Ao me atrapalhar nas encruzilhadas, tive que aguardar passar alguém para confirmar a direção correta e prosear aqui e ali com os lavradores locais.
Atingi o topo do Pico do Papagaio, onde grupo de crianças e duas professoras se divertiam antes de iniciarem o retorno por caminho diferente do meu. Construção em cimento no formato do Careta, a figura símbolo do carnaval de Triunfo, vestida a caráter, com o chicote nas mãos e tudo mais, marcava o ponto culminante. Do alto se viam cadeias de serras, serrotes, vales profundos e verdejantes, casinhas esparsas, lajedos, parte das cidades pernambucanas de Triunfo e Flores, além da cidade paraibana de Princesa Isabel. O vento refrescante secou o suor e me manteve em ambiente cheio de paz e tranquilidade, garantidas após a descida dos escolares.
Pouco parei na volta. Entrei nas ruas de Triunfo com a sede acumulada de mais de quatro horas. Detonei duas garrafas grandes do mesmo refrigerante pernambucano fabricado em Garanhuns.
Almocei e me deixei levar pela preguiça gostosa da tarde.
À noite repeti os pedidos durante o jantar. A conta, porém, veio com valor menor do que a da outra noite. Acho que o dono nem calculava item a item. Chutava um valor equivalente ao consumido e ponto final. Encerrei com giro pelo centro antigo de Triunfo depois de margear todo o lago pelo calçadão. As ruas, praças e ladeiras, como sempre, combinando com o lugar tão pitoresco, se mantinham escuras, vazias, silenciosas.

Em outro dia, dei breves voltas pelo centro da cidade, visitei o precário e simpático museu regional. Jantei no bar de sempre, bebendo as de sempre, comendo o de sempre. E estava longe de enjoar daquela deliciosa rotina.
Embarquei à noite. Nem vesti a malha separada previamente contra possíveis frios decorrentes do desnecessário ar condicionado. A ventilação natural pelas janelas, que sempre funcionou tão bem, agiu bem melhor.
Logo após a saída de Triunfo a estrada se tornou sinuosa, em descida de serra. O veículo parou em diversas cidadezinhas para embarques esparsos, até o momento que adormeci e não acompanhei mais nada. Eu acordava assustado de vez em quando e voltava a dormir. Foi assim a noite inteira até notar que o ônibus trafegava pelas avenidas de Recife. A estação rodoviária da cidade ficava bem afastada do centro, devido à correta intenção de afastar o fluxo dos ônibus intermunicipais.
Mesmo assim o ônibus passou por vários bairros de Recife, arrebanhando passageiros em pontos de ônibus comum, seguindo pela repugnante BR-101, com o intenso movimento de veículos leves e pesados. A rodovia passava por obras de duplicação, emperrando o já emperrado fluxo geral. Se todo esse tempo, dinheiro, mão de obra, esforços gastos, fossem direcionados para a construção ou modernização de ferrovias, de passageiros e cargas, o povo brasileiro se beneficiaria de verdade. Mas não. As duplicações e os repetidos asfaltamentos das rodovias são vendidos ao público como a salvação da pátria. Na verdade, apenas se tratam de mais lucros para as construtoras, as transnacionais de veículos, autopeças, combustíveis e demais benfeitores da humanidade. É a famigerada opção rodoviária imposta pelas corporações aos brasileiros desde meados do século XX.
E o massacre prosseguia na BR-101 com mãos únicas de direção, desvios, trechos esburacados, automóveis e mais automóveis, caminhões e mais caminhões. Nas margens da rodovia, canaviais sem fim, cidadezinhas miseráveis, feias, sujas, desumanizadas, sem cara de nada. Ambulantes maltrapilhos expunham jaca e manga para vender. Ninguém parava para comprar. No posto fiscal, na divisa entre Pernambuco e Alagoas, um emaranhado de caminhões e carretas transformava o local no fim do mundo. 
 Todo o cenário social desolador se acentuou após a entrada em território alagoano. Aumentou a miséria, a sujeira, o abandono de tudo. E os canaviais prosseguiam como reis absolutos na paisagem, intercalados com vastas áreas improdutivas. Acampamentos de trabalhadores rurais sem terra, lutando por espaço para plantar alimentos, se erguiam na beira da estrada em condições desesperadoras.
O outro ônibus partiu de Maceió percorrendo pedaços belíssimos, as lagoas de Mundaú e Manguaba, as praias de Barra de São Miguel, a praia do Gunga, parte do litoral de Coruripe. Anoiteceu e a estrada se afastou do mar para passar por Piaçabuçu e chegar a Penedo. A ressalva ficou por conta dos canaviais e arrozais muito próximos ao mar entre Barra de São Miguel e Coruripe. O contraste entre a beleza da paisagem natural e o jeito sombrio da monocultura gerava apreensões quanto ao futuro da região.

Em Penedo, a pousada instalada em sobrado colonial se destacava pela imponência, interna e externa. O quarto era amplo, em estilo rústico e antigo. O assoalho feito de longas ripas de madeira rangia ao caminhar.
Encontrei restaurante de madeira na beira do rio São Francisco, charmoso, caro, oferecendo comidas e bebidas saborosas. Enquanto matava a sede e a fome, pude apreciar a calmaria das águas do rio, o esparso movimento de barcos, as luzes de Sergipe na margem oposta. Casais, grupos de amigos e dois gringos petiscavam nas outras mesas.  
Tomei dois grandes copos de suco de jenipapo durante o café da manhã. Nem lembrara a última vez que experimentara aquela delícia, antes de se transformar no famoso licor, tão apreciado nas festas juninas do nordeste.
Caminhei lentamente pela calçada da margem do São Francisco, retornando pelas ruazinhas de dentro, até atingir o centro histórico de Penedo. Misturado ao comércio popular e ao mercado, provisoriamente ao ar livre, o casario antigo, as igrejas, as ladeiras, os becos, os sobrados, aquele trecho central da cidade encantava de vários ângulos que se apreciasse. Sem falar na presença marcante das águas verde-azuladas do rio e das cidadezinhas de Sergipe na outra margem. O horrendo edifício do hotel São Francisco e os dois prédios cinzentos ao lado destoavam da harmonia arquitetônica e chamavam a atenção pelo mau gosto.
Visitei igrejas, conventos, museus, todos memoráveis. Mas o melhor mesmo era andar sem compromisso pela cidade, sobretudo pela pitoresca margem do São Francisco, situada abaixo do paredão do antigo forte. Em local íngreme e arborizado, o beco sinuoso ladeava as águas e atraía pescadores, banhistas ou meros observadores. O sol torrava a cuca e eu tinha que me esgueirar sob as marquises ou parar sob as sombras das árvores para tomar fôlego. Ainda bem que a brisa constante mantinha o ar respirável.
Após delicioso almoço, no qual me esbaldei com peixada à brasileira de dourado, com direito à vista panorâmica do São Francisco, decidi fugir do sol e me refugiar no quarto da pousada, alto, claro, bem ventilado. Nas esquinas próximas, inúmeras lotações chamavam passageiros com destino às cidadezinhas próximas.
A pousada, a igreja de Nossa Senhora da Corrente, exatamente ao lado, e o atual paço municipal, atravessando a rua, pertenceram à família que fez história na cidade. O casal espalhou a fama por ser contra a escravidão, inclusive escondendo negros cativos nas dependências da igreja particular, oferecendo-lhes a carta de alforria em seguida.
À noite apenas perambulei pela orla fluvial, circulei pelo melhor do centro histórico de Penedo, sob a iluminação noturna. A maioria dos moradores se concentrava nos bairros altos e alinhados na saída para Piaçabuçu. O centro, comercial, administrativo e turístico, se esvaziava à noite, oferecendo silêncio e tranquilidade.

Peguei lotação até Piaçabuçu, também na margem do São Francisco. Andei pela orla fluvial, ao longo da qual uns bêbados jovens ainda entornavam copos e garrafas, meninas vomitavam atrás das barracas, pairando certo ar de fim de festa, só contrastado pelo ir e vir dos barcos de pesca. Piaçabuçu era completamente plana, com ruas estreitas e parecidas.
Lotações chegaram de Maceió trazendo os turistas para o passeio de barco. Nem bem desciam dos veículos, começavam a disparar a câmera fotográfica, principalmente fotos deles mesmos, passo a passo, até o convés do barco. Praticamente só havia casais jovens, a maioria da região sudeste do país. Conversavam apenas entre si, jamais se dirigindo a outros, muito menos a mim, que não viera nas lotações da capital. Nunca sorriam ou se mostravam receptivos.
O barco partiu do cais fluvial de Piaçabuçu e atingiu as dunas bem próximas à foz propriamente dita do São Francisco.
Nem me lembrava em quantos pontos e em quantas oportunidades eu estivera nesse rio maravilhoso. Das nascentes nos altos da Serra da Canastra, dos tantos sítios em Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, eu agora visitava a foz dos quase três mil quilômetros do chamado rio de integração nacional. Rio judiado pelo capitalismo, especialmente pelo desmatamento das cabeceiras e margens, da poluição industrial e residencial, do descaso na aplicação das políticas sociais e ambientais. É certo que havia pequenas e aguerridas resistências dos ribeirinhos, em diversos estados, pela revitalização das águas e do curso do rio. Esses importantes focos de consciência socioambiental eram esmagados pela repressão, ignorados, perseguidos ou distorcidos pela justiça e pelos oligopólios privados dos meios de comunicação.
A tripulação marcou o horário de volta e cada casal tomou o rumo desejado. Preferi subir as dunas, apreciar a vista, antes de caminhar até o ponto exato da foz, onde as águas doces do São Francisco encontram o mar na margem alagoana. A praia oceânica, plana e de mar bravo, o farol abandonado próximo ao lado sergipano, o novo farol movido à energia solar, as águas refrescantes do Velho Chico. Caminhei bastante pelas dunas e margem, me refresquei nas águas esverdeadas do rio, contemplei a paisagem única.

Troquei boas frases com a tripulação do barco. Essa gente sofrida e trabalhadora não era reconhecida e muito mal remunerada pelos patrões que insistiam no estilo de coronéis regionais.
Ao retornar ao cais de Piaçabuçu, belisquei qualquer coisa na cidadezinha e peguei lotação de volta a Penedo.
O camarão ao alho e óleo regado a duas caipirinhas, o visual noturno do São Francisco, sempre ele, no bar e restaurante de Penedo só não foi perfeito em razão de dois gringos na mesa atrás. Conversavam em francês, em volume alto, bem alto, exigindo que todos ouvissem o discurso. E ainda fumavam um cigarro atrás do outro. Outros clientes também se incomodaram com aquela arrogância. Clientes e garçons suspiraram aliviados quando pagaram a conta e sumiram do mapa. O ambiente voltou à leveza costumeira. Fiquei ainda um tempão degustando os comes, os bebes, o suave som das águas do rio.
continua...