Mostrando postagens com marcador c.América-Peru. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador c.América-Peru. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

da Bolívia ao Piauí (via Bolívia, Peru, AM, PA, MA, PI) parte (4/7)

 ...continuação

Andei horrores pelo traçado quadriculado da cidade de Iquitos, sempre atento aos moto-táxis cobertos e naturalmente ventilados, mas também aos chamativos ônibus de Iquitos, construídos a partir de chassis de velhos caminhões e cobertos por carroceria de madeira, a fim de evitar o calor excessivo que os metais provocariam.

Alguns jovens me abordavam em inglês para vender pacotes turísticos na selva, daqueles pacotes xoxos e previsíveis aos turistas do hemisfério norte. Ao informá-los que eu era brasileiro e que já tinha explorado os meandros da floresta amazônica no Brasil eles retiravam a fantasia de vendedor e passavam a conversar despreocupadamente em castelhano, como se eu fosse amigo e não cliente em potencial.

Longe da orla turística, e principalmente dos turistas que sempre repetem os mesmos lugares recomendados na internet, almocei em cevicheria típica peruana, frequentado por casais, amigos e famílias locais. No cardápio reduzido e bem específico fui de ceviche de peixes com arroz de mariscos. Muito bom, na quantidade e na qualidade, além do serviço eficiente e simpático.

Nos ambientes autenticamente peruanos de Iquitos, e frequentados basicamente por peruanos, predominava música mestiça, com forte influência caribenha. Era fruto provavelmente da herança africana presente no Peru, de modo não tão marcante como no Brasil, mas evidente pela alegria, ritmo contagiante e dançante. Bem diferente das canções andinas ouvidas no altiplano, caracterizadas pelos dramalhões e tragédias amorosas.

Domingo à noite, ainda mais gente pelas ruas e praças que na noite de sábado. Gente andando, comendo, beliscando, conversando, usando e abusando dos espaços públicos e gratuitos, se relacionando com outros moradores e visitantes.


Não me cansava de observar o trânsito de Iquitos. Mesmo à noite, impressionante a ciranda de centenas de moto-táxis cobertos e para dois passageiros circulando pelas ruas. Eram batalhões deles, uns atrás e ao lado dos outros, causando ruídos insanos.

Pela manhã, caminhei no sentido do bairro de Belén, na zona sul de Iquitos, região erguida, na maior parte, sobre a várzea fluvial. Antes, o imenso mercado, ou feira livre, a céu aberto e em lojas e mercados, abrangendo várias quadras, em todas as direções. Nas barracas, tendas, armazéns, se vendiam de tudo, inclusive milho preto, cigarros enrolados na frente dos fregueses a partir de fumo fresco, garrafadas e demais produtos para saúde, simpatias, oferendas, rituais. E, claro, produtos frescos, como frutas, verduras, legumes, grãos, carnes de peixe, de boi, de porco, de frango, entre outros tantos animais.

Avançando nos setores da feira, ou quebrando a leste, entrei no bairro propriamente dito de Belén, guardando moradias modestas, pobres, miseráveis, muitas sobre palafitas e interligadas por passarelas suspensas, a fim de conviver com as oscilações das águas fluviais. Muitas caindo aos pedaços, entre muita sujeira, moscas, mosquitos, lixo, esgotos fétidos a céu aberto. Na beira da água saíam embarcações de diferentes formas e tamanhos para as moradias flutuantes ou que contavam com acesso exclusivo pelas águas do lago em frente a Iquitos. Por ali, muito lixo e mau cheiro, em terra e nas águas, embora se afirmasse que a situação sanitária do município tenha melhorado muito nas últimas décadas.

Belén se tornava bairro perigoso fora dos horários das feiras. Policiais marcavam presença, em rondas, em postos fixos ou circulando a pé. Nas paredes e muros, clamores pela diminuição da violência, da criminalidade, da gravidez precoce. Enfim, bairro típico de país capitalista dependente, nada muito diferente das grandes, e algumas médias, cidades da América. No caso das palafitas e das passarelas suspensas que as interligam, eram similares às demais cidades nas margens fluviais da Amazônia brasileira, cujos níveis das águas oscilam intensamente conforme as estações do ano.

Ao retornar ao centro de Iquitos, repeti o bom restaurante do dia anterior. Dessa vez escolhi arroz temperado com pedaços de pato. Saborosíssimo. A travessa na qual vinha servida a refeição era oval e apertada. Foi uma luta para me equilibrar naquele espaço reduzido e não esparramar o arroz e o pato na mesa.

Principal cidade da Amazônia peruana, acessada somente por barcos ou aviões, apesar de contar com mais de quinhentos mil habitantes, Iquitos não tinha edifícios altos, espigões ou outras aberrações. Os seres humanos, moradores e visitantes, com cérebro e sangue nas veias, agradeciam de coração.

Entre os estrangeiros presentes na cidade, predominavam de maneira absoluta os estadunidenses. A maioria deles, vintões ou trintões. Seriam inocentes turistas ou teriam relação com as bases militares em território peruano? Ao pousar no aeroporto de Iquitos, reparei em aeronaves militares vindos daquele regime.


Voltei a ler O Século das Luzes, de Alejo Carpentier, livro deixado de lado na maior parte do tempo durante a intensa e fascinante viagem à Bolívia e ao Peru.

Naquela manhã, os estudantes das universidades próximas ao hotel desfilavam, marchavam, cantavam, gritavam. A movimentação fazia parte dos sessenta e dois anos da Universidade Nacional da Amazônia Peruana. Cada turma, cada departamento, caracterizado de acordo com a área de estudos, desfilava nas ruas. Durante uma semana as festas prosseguiriam, nas ruas e nos interiores da universidade.

Iquitos, pelo menos no centro e arredores, contava com calçadas ininterruptas, conservadas e seguras para andar. Era tremenda humilhação para as cidades amazônicas brasileiras. As raras calçadas existentes no Brasil apresentavam buracos fétidos, remendos, descontinuidades, tralhas mil, todas as dificuldades e perigos para seres humanos circularem. Por outro lado, em Iquitos abundavam cassinos e máquinas caça-níqueis. Não eram duas ou três casas, mas dezenas delas em cidade de porte médio. Casas ávidas pelos trouxas e estúpidos a jogarem o dinheiro e a vida fora.

Era dia de deixar a cidade. Tomei um daqueles interessantes, curiosos e eficazes moto-táxis, cobertos e para dois passageiros, ao porto da Enapu. Em ambiente limpo e funcional revistaram por alto minhas bagagens. Aguardei o embarque na lancha de dois andares. O de cima, mais caro e mais gelado, era reservado a estrangeiros.

A lancha partiu à tardinha. Na fileira de assentos à minha frente sentou casal de setentões amazonenses residente em São Paulo. A conversa engrenou e perdemos a noção do tempo em troca de informações de viagens pelos interiores do Brasil e o mundo afora.

No início da noite desci ao piso inferior para comprar o jantar, na base de arroz, feijão, perna de frango assado, água mineral e picolé de sobremesa.

Anoiteceu de vez e o ar condicionado agiu para gelar os ambientes, sobretudo o piso superior. Vesti a camiseta térmica de mangas longas e a jaqueta justa e impermeável. Me sentei no assento para relaxar e tentar dormir durante o trajeto que ocuparia toda a noite e a madrugada. O corpo ainda sentia frio. Apelei ao gorro, meu derradeiro item contra baixas temperaturas trazido na mochila de ataque. Enfiei na cabeça e cobri as orelhas. Meu corpo estava gelado pela estupidez do ar condicionado regulado de maneira despropositada.

O frio durante a noite e a madrugada foi indecente. A estupidez da temperatura do ar condicionado atingiu a insanidade. Outros passageiros apelaram a sacos plásticos, nas pernas, braços, cabeça.


Dormi, acordei, cochilei, troquei mil vezes de posição no assento com encosto reclinável.

Acordei de vez ao amanhecer, antes da penúltima parada da lancha, em Caballococha. Tomei chá gratuito bem quente para relaxar a musculatura contraída pelos efeitos do frio vindo do ar condicionado criminoso. À medida que clareava do lado do fora a situação trágica do frio interno se amenizava, mas muito lentamente. Foi servido diretamente nos assentos o café da manhã gratuito, na base de sanduíche de queijo e presunto e copo grande de café preto.

No meio da manhã a lancha atracou no porto da ilha de Santa Rosa. Eu e o casal amazonense nos esprememos no banco traseiro do moto-táxi coberto rumo ao centrinho da cidade a fim de dar baixa no passaporte no escritório da migração peruana. A chuva que começou fina pela manhã aumentou de volume. Embarcamos em canoa alongada e coberta, com motor de popa, para atravessar o rio Amazonas, como chamado no Peru, ou Solimões, como chamado no Brasil, com destino à cidade brasileira de Tabatinga. Chovia forte durante a travessia fluvial e ao desembarcar no porto do mercado.

Permanecemos um tempão no pequeno flutuante na espera de estiar. Mas eu estava em território brasileiro. Viva!

A chuva enfraqueceu levemente. Caminhei pelas passarelas de madeira ensopada e escorregadia em direção à terra firme, e finalmente ao hotel. Estendi no quarto os itens molhados pela chuva e fui ao porto da cidade para comprar a passagem do navio para Manaus.

O tempo estiara e pude caminhar pela cidade. Poucas mudanças desde minha última visita sete anos antes. Tabatinga continuava feia, largada às traças pelas sucessivas administrações municipais e estaduais. As calçadas, onde existiam, se encontravam arrebentadas, com buracos fundos às dezenas, mato crescido em toda parte, bares podres cheios de bêbados ameaçadores. Perambulando pelo centro da cidade almocei em restaurante por quilo de qualidade medíocre e frequência entristecida.

Mas que contraste abissal no atendimento entre os simpáticos, educados e prestativos bolivianos e peruanos, de um lado, e os frios, desinteressados e até bruscos brasileiros de outro! O país parecia em ruínas e o povo indiferente e apático em relação ao presente e com o que estava por vir no curto prazo.

Encerrei o interessante O Século das Luzes, de Alejo Carpentier. E comecei Literatura da Floresta: textos amazônicos e cultura latino-americana, livro de Lúcia Sá.

Saí cedo para jantar. Impressionante a poluição sonora em Tabatinga vinda dos bares, dezenas deles, ao longo das principais ruas, mas principalmente na longa e larga avenida da Amizade que leva, mais adiante, à cidade de Letícia, já na Colômbia. Parecia concurso de quem tinha o som mais alto e de repertório mais repugnante. Mas não era somente isso. A frequência decrépita, em grau etílico avançado, com vozes empapadas, no início de noite em dia útil de semana, berrava para as meninas que passavam na rua, na base de “vem cá”, “vamos se divertir”, “ei isso, ei aquilo”. Desanimador. Essa era Tabatinga, no Brasil, tão diferente das cidades bolivianas e peruanas visitadas, com praças cheias de gente diversificada e orgulhosa da própria cultura. Nem havia praça decente em Tabatinga. A que fora construída em frente à igreja matriz estava em ruínas, com mato crescido, bancos estraçalhados, lixo por toda parte, vazia de seres humanos. Horror dos horrores. Tabatinga era administrada por animais irracionais que, na maioria dos casos, nem sequer moravam na cidade, péssimo exemplo de descaso urbano que se refletia na imensa maioria dos moradores.

Levantei e me empanturrei no saboroso, variado e abundante café da manhã do simplório hotel brasileiro. Fui ao porto de Tabatinga caminhando sobre os restos de calçadas.

Pouca gente na fila do navio. Lentamente os passageiros foram cumprindo as etapas para o embarque. Cadastramento na polícia federal, etiquetagem das bagagens e dos passageiros na base de pulseira impermeável, vistoria praticamente nula das bagagens, apenas da passagem e do documento e, finalmente, o embarque no meio da manhã.


Fui designado à suíte ampla, com cama de casal, ar condicionado, televisor que se manteve desligado durante todo o trajeto fluvial, banheiro privativo espaçoso e sacada coberta, com janelona de vidro de correr, de frente para a paisagem em evolução e para o vento refrescante.

No mesmo piso os passageiros escolhiam os melhores pontos para armar as redes. No piso superior, também reservado às redes, e à cabine de comando, mais espaço e menos procura entre os passageiros embarcados em Tabatinga.

Entre os passageiros brasileiros, grupo de jovens pertencentes à organização de missionários religiosos, não ligados oficialmente, segundo o integrante carioca, a nenhuma denominação específica, ou seja, a nenhuma corporação evangélica em particular, mas todos representantes do cristianismo. Ele garantiu que no trabalho do grupo nada tinha de forçado ou impositivo. Sei. Me engana que eu gosto. Na prática mais uma frente de ataque das empresas do fundamentalismo religioso a traficar com a fé do povo, urbano, rural, indígena.

No começo da tarde o navio zarpou com cerca de um terço da capacidade de passageiros. Inicialmente deixou o rio Solimões para subir parte do rio Javari, rumo à cidade de Benjamin Constant, a primeira parada para desembarque e embarque, de mercadorias e passageiros.

No jantar servido antes de escurecer tomei bastante sopa de macarrão, carne, batata, acrescida na mesa com farinha de mandioca para engrossar. Suco artificial à vontade para hidratar e lavar o organismo.

O navio já deixara para trás o rio Javari e retomara o curso no Solimões, de baixada, a favor da correnteza. Parada em São Paulo de Olivença à meia noite.

Levantei com chuva antes de clarear. Amaturá, a cidade bonitinha da visita anterior, se aproximava. Três apitos da buzina foram acionados pelo comando da embarcação. Observando a altura da escadaria da orla da cidadezinha, o Solimões se encontrava mais cheio que sete anos antes.

O bufê do café da manhã ofereceu mamão, macaxeira cozida, copinho com salsicha picada e temperada, suco artificial, pão com margarina, que peguei dois, café com leite. Empurrei tudo goela abaixo, com dificuldades na macaxeira seca e na salsicha.

Em viagens de baixada como aquela, a favor da corrente fluvial, as embarcações buscam a correnteza, o canal principal do rio, para economizar motores e combustível, se posicionando, na maior parte do tempo, distante das margens. Daí pouco ou nada para ver em rio tão largo como o Solimões, a não ser nas paradas intermediárias.

continua...

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

da Bolívia ao Piauí (via Bolívia, Peru, AM, PA, MA, PI) parte (3/7)

 ...continuação

Pela manhã subi em barco rumo à ilha da Lua, no meio das águas do lago Titicaca.

Assim que o barco contornou a última ponta do continente, eis que surgiu ao fundo, à direita, esplêndido, imponente, adiante das águas azuis do lago, o nevado Illampu, contando com seis mil trezentos e trinta e um metros de altitude. De base ampla, aquela montanha sempre me atraiu para circuito de caminhada durante sete dias ao redor dela a partir da cidade de Sorata.

O barco atracou na ilha da Lua. Desembarquei para observar as ruínas do templo inca das Virgens, ou Iñaq Uyu. Valeu mais pelas contemplações sem fim do Illampu.

Novo embarque, rumo à ilha do Sol, para atracar no cais Huacani. Almocei comida típica do camponês do altiplano boliviano, o Apthapi, similar àquele experimentado no salar de Uyuni. Mais barco para contornar a ponta da ilha do Sol e atracar em porto onde havia a ruína do templo inca Pilkokaina.

Subi a encosta atrás do templo até atingir a trilha quase em nível. O caminho margeava terraços para plantação de milho, batatas, entre outras culturas, na fase da semeadura umas, na de colheita outras. Casinhas esparsas, pousadas simples para turistas, indicavam a aproximação do principal vilarejo da ilha do Sol, Yumani. Carneiros e lhamas pastavam livremente nas encostas. Agricultores produziam alimentos em pequenas propriedades. Do lado leste, as águas escandalosamente azuis do lago Titicaca e, mais adiante, ele, sempre ele, o nevado Illampu e a cordilheira dos Andes.

Após mais de uma hora de caminhada leve e deslumbrantemente cênica entrei na hospedagem composta por chalés bem dispostos na encosta voltada para o leste, com direito a vista das plantações em terraços, das águas azuis do lago Titicaca e dele, do nevado Illampu.


Tomei enorme xicara de chá de muña, preparado a partir de infusão das folhas. A muña servia para atenuar eventuais problemas com a altitude, aumentando a oxigenação do sangue, e também para problemas digestivos e intestinais, ainda mais no caso da ilha do Sol a três mil e oitocentos metros de altitude.

Não havia sistema de calefação na hospedagem, apenas dispositivos ecológicos de aquecimento do ambiente, aproveitando e armazenando, de uma forma ou de outra, o calor da luz solar presente durante todo o dia.

O ponto mais quente da hospedagem, como não poderia deixar de ser, era a sala onde serviam as refeições. Os poucos hóspedes se concentravam lá a maior parte do tempo ocioso. O jantar veio de sopa de legumes, truta grelhada com legumes e batatas, maçã assada no forno. Para beber, infusão refrescante de muña.

Antes de voltar ao chalé a recepção forneceu bolsa de água quente a ser colocada sob as cobertas, junto às pernas, num prenúncio de como seriam as temperaturas noturnas em quarto sem calefação.

Entrei sob todas as cobertas, mais a bolsa de água quente e tentei adormecer.

Sob o edredom a temperatura era até que suportável, me permitindo dormir por uns tempos. Durante a madrugada fui ao banheiro sob o frio de trincar ossos. O ar do quarto estava gelado. O sistema ecológico de retenção de calor do sol, apesar das melhores das intenções com o meio ambiente, com o planeta, com a humanidade, não funcionava. A bolsa de água quente, colocada entre as pernas, há tempos que não estava mais quente. Ao sair da cama, me enrolava nos tecidos que vinham às mãos. Cobria cabeça, pescoço, pernas e o que mais eu conseguia a fim de não congelar entre a cama e o banheiro.


Pela manhã, corri à sala de refeições para não congelar no chalé. Tomei o saboroso e farto café da manhã cuja maioria dos itens era preparada na hora. Vinham fresquinhos, quentinhos, deliciosos.

Desci a trilha ao cais da beira do lago. Margeei as três saídas de água da chamada fonte da Juventude, Baixei os degraus da longa escadaria guardada, aos pés, por duas divindades incas, mulher e homem, na forma de esculturas coloridas, já no nível do atracadouro dos barcos sobre as águas do lago Titicaca. E embarquei no porto de Yumani de volta ao continente, à cidade de Copacabana.

Almocei e caminhei ao ponto de ônibus em Copacabana. Depois de formalidades burocráticas da empresa, preenchendo formulários, embarquei em ônibus de linha regular com destino a Puno, cidade peruana na margem do mesmo lago Titicaca.

Meia hora depois da partida de Copacabana o ônibus parou na fronteira internacional. Os passageiros caminharam cumprindo as etapas migratórias. Saída na migração boliviana, carimbo do passaporte, controle da alfândega boliviana, troca dos bolivianos remanescentes em soles e, finalmente, a entrada em território do Peru.

O ônibus vinha lotado de turistas jovens do hemisfério norte, mochileiros, todos com rostinhos de filhinhos do papai, bem alimentados, bem cuidados, bem financiados, muito diferentes dos autênticos mochileiros de décadas antes. Exceções havia, é claro, como o casal equatoriano que voltava para casa por terra. Muito jovem, talvez europeia, de olhos bem azuis e expressão levemente abobada, a turista sentada ao meu lado se recusou a conversar, mantendo o olhar vidrado para frente.


No meio da tarde o ônibus entrou no terminal terrestre de Puno. Peguei moto-taxi coberto e fechado, com assentos atrás para duas pessoas. Puno, revisitada quarenta e um anos depois, crescera, mas continuava entre cinzenta e acastanhada, sem belezas urbanísticas. As águas do lago Titicaca se encontravam afastadas do centro antigo da cidade. Situada a três mil e novecentos metros de altitude, a cidade era bem fria e fustigada por ventos gelados vindo do lago e das montanhas nevadas não distantes dali.

Apesar das pouquíssimas opções oferecidas no bufê do café da manhã do hotel, caiu bem demais da conta. Tracei cinco pães, de formato irregular e pouco fermento, com manteiga e queijo, suco de manga e suco de laranja, encerrando com chá de camomila. O minúsculo salão comportava apenas duas mesas e não havia mais ninguém.

Dei extensa volta pela cidade, incluindo a praça Mayor, com a catedral pesadona e suntuosa, em preparos para festividades, o parque Pino, praça pequena e sempre prestigiada pelos moradores. Estiquei por ruas e avenidas, até o porto de Puno. Na orla do lago Titicaca, extenso calçadão, limpo, bem cuidado e com bancos para sentar, relaxar, contemplar, conversar. Vendedores de pacotes às ilhas do lago assediavam, sem insistir ou sufocar.

Os peruanos de Puno tinham tez mais escura que os bolivianos do outro lado da fronteira e vestiam roupas mais sóbrias. Mais atraentes que as bolivianas, elas exalavam discreta sensualidade. As mulheres maduras, vestidas a caráter, com trajes andinos, saiões, chapéu coco, tranças longas, se assemelhavam bastante às bolivianas.

A despeito da ausência de arquitetura ou de urbanismo marcantes e vistosos, ao andar pelo centro e arredores da beira do lago Titicaca, Puno agradava aos olhos. Auxiliava significativamente aquela impressão a sensação de liberdade de viajar sem guias, roteiros, prazos, destinos marcados. Nada como circular por conta própria, por onde queria, no meu jeito e no meu ritmo.

Jantei o excelente lomo saltado com arroz e batatas, precedida de dose de pisco. Em ambiente clássico, aconchegante e aquecido, a proprietária setentona e sisuda costumava cercar insistentemente os fregueses no momento de escolher os pratos e bebidas. Eventualmente intervinha na mesa até mesmo durante a refeição. Era o jeito dela. Mas jamais chegava a sufocar ou impor nada. Apenas sugeria com excesso de ênfase. Era questão de sorrir, se esquivar para o que desejava e seguir em frente. Eu a driblei elegantemente, retirei sorriso daquele rosto amassado e, ao pedir a conta, até recebi outra dose de pisco como cortesia.

Dei volta rápida pelo calçadão principal do centro antigo, o peatonal, Fazia frio cortante e intenso, mas minhas roupas, inclusive gorro e luvas, me protegiam à altura. Muita gente nas ruas, calçadas e praças, prestigiando espaços públicos, democráticos e gratuitos. Apesar das baixíssimas temperaturas, as sorveterias funcionavam normalmente e os peruanos afluíam em massa, chegando a formar pequenas filas.

Pela manhã acompanhei a linha do trem no sentido de quem deixa a cidade. Atingi o lago Titicaca em outro ponto. Observei e contemplei os arredores, refletindo sobre um pouco de tudo. Estava na outra ponta do longo calçadão da orla do lago que se iniciava no porto. Naquele trecho o calçadão se alargava e virava parque linear. Do outro lado da avenida, a Universidade Nacional do Altiplano.

Assisti à passagem do trem para Cuzco, não o comum e regular, mas o que cobrava preços absurdamente altos para pensão completa e parada noturna para os passageiros dormirem fora dos vagões. Pouquíssimos passageiros ousaram desembolsar a fortuna impagável para meros mortais. Aquela opção, voltada para turistas milionários, bilionários ou insanos, contudo, servia para arrecadar fundos para o turismo peruano. Tiravam de quem tem muito. Certíssimo!

Jantei maravilhosamente em restaurante com frequência exclusiva de peruanos. Os ditos gringos alternativos, completamente diferentes dos autênticos mochileiros de décadas passadas, jamais arriscariam estabelecimentos não recomendados pelos influenciadores e, aquele ainda pior, pois frequentado apenas pelos nativos, dos quais os gringos preferiam a distância.

Esnobei Cuzco e Machu Pichu, locais visitados em minhas duas primeiras visitas ao Peru. Tomei o rumo de Iquitos, na Amazônia peruana.

As partes da manhã e da tarde daquele dia, entre a origem e o destino do meu deslocamento geográfico, apresentaram os absurdos contrastes; Em Puno, altiplano, -2 graus, 3.900 metros de altitude, 15% de umidade do ar. Em Iquitos, Amazônia, +32 graus, 150 metros de altitude, 80% de umidade do ar.

Não havia aeroporto em Puno. O dono do hotel estava na recepção para me orientar no deslocamento para o aeroporto da cidade de Juliaca. Amanhecia. Debaixo de frio glacial nos dirigimos ao escritório da transportadora que ainda se encontrava fechado. Entrei e permaneci dentro de veículo estacionado em frente. Serviu apenas para aguardar a perua definitiva. E porque ficar na calçada sob a temperatura de dois graus negativos seria desumano. Finalmente apareceu o veículo, já com outros passageiros sentados, e embarquei.

O trajeto durou cerca de uma hora por estrada cruzando zonas planas, de mais altitudes que Puno, semiáridas, pouco habitadas, tendo colinas ao fundo. Juliaca era cidade empoeirada, de tamanho médio, revelando casas e demais construções com tijolos à vista.

Juliaca saiu dos mapas no ano anterior quando dezoito pessoas foram assassinadas pelas forças de repressão política. Intensas manifestações protestavam contra o golpe de Estado que derrubara o presidente democraticamente eleito, Pedro Castillo, e impunha ao povo peruano regime ilegítimo e autoritário. O macabro episódio urbano ficou conhecido como o massacre de Juliaca.

Durante o voo avistei pico que exalava fumaça preta e espessa, denunciando provável vulcão em erupção. Mais adiante, vista privilegiada e desimpedida da cordilheira dos Andes. Montanhas altas, encostas íngremes, vales profundos, alguns picos e cristas nevadas e isoladas.

Ao sobrevoar a Amazônia peruana, o tempo abriu de vez e a paisagem se descortinou. Verde denso da floresta, rios largos e caudalosos, entre eles, evidentemente, o rio Amazonas. Raras e pequenas clareiras na floresta. A despeito de cenários conhecidos e tantas vezes contemplados em viagens anteriores pela Amazônia brasileira, aquela paisagem verde da floresta e dos rios sinuosos me emocionou mais que as estupendas montanhas nevadas da cordilheira.

O avião pousou em Iquitos em pista cercada pela floresta amazônica, parcialmente preservada.

Do lado de fora do aeroporto tomei o famoso moto-táxi de Iquitos, simples, eficaz, coberto e aberto na frente e nos lados, ao contrário, por motivos óbvios, dos moto-táxis fechados da gelada Puno. Longo trajeto ao centro da cidade, ao lado de incontáveis outros moto-táxis, ziguezagueando pelas ruas e avenidas largas.


No quarto do hotel comecei a reorganizar a mala, escondendo em compartimentos bem apertados as roupas de frio e resgatando do fundo os itens de calor. Afinal, somente naquele dia, eu trocara Puno, cidade a dois graus negativos, por Iquitos, a trinta e dois graus positivos.

Na mesa ao lado do restaurante do jantar, quatro estadunidenses se vangloriavam entre si das próprias sexualidades, e das respectivas esposas que ficaram lá no regime terrorista ao norte do México, bem comportadas, segundo a ingenuidade deles. Em dado momento encostou moto-táxi de onde dois peruanos sorriram em excesso para um dos quatro gringos. Sorriam de maneira pegajosa enquanto o gringo os ignorava solenemente. Mesmo assim os dois peruanos não desgrudavam dali. Olharam fundo quando um dos quatro estadunidenses abriu a carteira para pagar a conta. Algo não cheirava nada bem naquele conjunto. Me bateu a dúvida de quem mais explorava quem na história entre os seis. Nada era o que parecia. Em se tratando da origem dos quatro sentados imaginei o pior dos cenários.

Tanto na orla fluvial, com calçadas largas de ambos os lados da rua, como no calçadão paralelo à orla, ou na ampla Plaza de Armas, os peruanos passeavam e viviam a noite ao ar livre, em casais, amigos, famílias, sozinhos, prestigiando espaços públicos e democráticos. O policiamento peruano se fazia presente, para intervir em qualquer eventualidade, que não parecia latente. Pontos, muitos pontos, à Bolívia e aos bolivianos, ao Peru e aos peruanos. Humilhavam a maioria dos espaços similares no Brasil, normalmente negligenciados e abandonados pela população, que era induzida a se idiotizar nos xópins, e por causa disso entregava os espaços públicos a dependentes químicos, moradores de rua e afins.

Saí de manhã cedo para caminhar, apreciar a cidade de Iquitos e a orla fluvial. Ao redor da Plaza de Armas, e da beira do rio Amazonas, na verdade lagoa a partir das águas dos rios Itaya e Nanay, mais acima, construções antigas, da virada do século XIX para o XX, em meio a novidades quadriculadas, cheias de vidro e concreto. A jusante da orla fluvial urbanizada, a planície alagável da lagoa, habitações e comércios flutuantes sobre grossas ripas de madeira resistente à água. Famílias ali viviam em casas de madeira e tetos metálicos, amontoadas, sem ventilação natural. Mais ao sul do centro havia enorme concentração dessas favelas que, desgraçadamente, atraíam visualmente pela precariedade. Era o famoso e extenso bairro de Belén.

continua...

sexta-feira, 16 de março de 2018

O Vale do Amazonas e Solimões (parte 5/9)

...continuação
As temperaturas, ainda que ligeiramente, começavam a baixar. No início da manhã, a sensação térmica era de quase frio, sobretudo em comparação ao vapor quente dos dias anteriores. O céu limpo e o tempo estável garantiam águas calmas, quase espelhadas, do Solimões.
O navio parou no porto da cidadezinha de Amaturá, na foz do rio de mesmo nome, de águas escuras e atraentes. Longa escadaria para pedestres, rampa para veículos, o nome da cidade estampado no gramado inclinado e voltado para o rio. No topo, o largo da Matriz, enfeitado de bandeirolas vermelhas, azuis, amarelas e brancas, a cruz no centro. A igreja, a escola estadual e colégio em anexo, todos de nome São Cristóvão. O hotel antigo à esquerda, o restaurante e sorveteria, o mercadinho, árvores pela praça, desgraçadamente mutiladas geometricamente, reduzindo a sombra tão vital naquelas paragens. Centro com cara de centro, para felicidade geral da nação. Pequena orla urbanizada com calçada e mureta na beira do barranco para o rio, sombreada por árvores mais frondosas e, felizmente, não mutiladas. Ainda na orla, rio Amaturá acima, o parque infantil e o ponto oficial de moto-táxi. A jusante da praça, casario antigo e de madeira, pendurado no morro, a maioria em más condições, mas sempre charmoso e o mais fotogênico da cidade. Barranco abaixo, sobre as águas, sequência de flutuantes e lanchas escolares que foram amarelas um dia.
Ruas estreitas de concreto, outras de chão, normalmente em bom estado. Mercadinhos, alguns minúsculos, quatro escolas, três delas municipais. Obras financiadas pelo governo federal, dos tempos progressistas de Lula e Dilma. Centros de saúde, casas de apoio ao índio. Indígenas em circulação se comunicando nas línguas originais, de etnias estabelecidas havia milênios nas proximidades. Placas informais nas portas das casas e comércios anunciavam a venda de dindin em dezenas de sabores, gasolina a cinco reais o litro, açaí, serviços gerais.
Todos em Amaturá usavam e abusavam da popular sombrinha para se protegerem do sol. Colorida ou preta, masculina ou feminina, não importava. Impedir os raios de sol era o objetivo primeiro, segundo, terceiro e último. Depois do meio-dia, como ocorre em todas as cidades quentes, o povo se recolhia às casas, o comércio baixava as portas, as ruas se esvaziavam. Raros gatos pingados se refugiavam sob as sombras das árvores. A cidade praticamente adormecia para a merecida sesta debaixo daquele calor de caldeira.
Menininhas ousadas da cidade se vestiam com roupas de domingo, se produziam com esmero, se enfeitavam com capricho, e vinham passear pelos interiores do navio. Tiravam fotos delas mesmas com poses e sorrisos ensaiados. Assim como a maioria da cidade, elas portavam traços inteiramente indígenas.
Os três franceses a bordo nunca entravam em contato com nenhum brasileiro. Não se interessavam por nada. O mais velho bebia café e fumava o tempo todo. O mais moço às vezes tocava flauta doce. Nenhum dos três tomou banho ou trocou de roupa em todo o trajeto de Manaus a Tabatinga. Passar perto deles ou mesmo sentir o odor vindo contra o vento era caso de calamidade pública, de interdição pelos órgãos ambientais. Pobre dos vizinhos deles nas redes, brasileiros que costumavam tomar vários banhos por dia vestindo roupas limpas em seguida.
No meio da tarde o navio partiu de Amaturá. Cidade com jeito de cidade. Cidade pequena, indígena e graciosa. Cidade voltada para o rio através da orla urbanizada.
Dado o avanço da vazante, lagos afloravam próximos às margens do rio. E se tornavam destino de pescadores por confinar diversas espécies de peixes. Semanas depois, essas águas perderiam a ligação com o rio e ficariam ainda mais piscosas.
Avançando no rumo oeste da Amazônia, os dias terminavam mais tarde, obrigando a criação de outro fuso horário acima de Santo Antônio do Içá, duas horas atrás de Brasília. Na parte da tarde, por quilômetros de extensão, perfilou na margem direita do Solimões comunidade dividida em vários núcleos contíguos, entre casas, cabanas, flutuantes, pastos, gado, porcos, escolas, igrejas, gramados, comércio. E tudo iluminado com luz elétrica, graças ao programa Luz Para Todos do governo federal, dos tempos progressistas entre 2003 e 2014.
O peruano de Iquitos me contou a atribulada história de vida. Órfão de mãe muito cedo sobrevivera com os irmãos mais novos, abandonados pelo pai que se embriagava e não supria a casa. Ele largou a escola e vagou por Iquitos até entrar clandestinamente em navio peruano com destino a Letícia, Colômbia. Atravessou a fronteira brasileira para Tabatinga, onde trabalhou como estivador informal no cais e ambulante perseguido pela prefeitura. Como recepcionista de hotel se envolveu com traficantes peruanos de drogas que lhe pagavam para guardar encomendas no hotel. Descoberto, foi demitido e viveu de biscates até ser preso e condenado a anos de prisão em Manaus. Casou e fixou residência em Manaus, onde vivia até então como ambulante de variedades.
Um colombiano de Letícia, também passageiro do navio, se juntou à conversa. Vivia havia trinta anos em Manaus sem nunca ter retornado à terra natal, onde ainda tinha irmãs e irmãos, um deles traficante e portador de cinco documentos com cinco nacionalidades diferentes. O colombiano aguardava ansiosamente que o peruano lhe devolvesse os quarenta reais emprestados para apostar na mesa de caixeta do navio e que lhe escorrera das mãos em poucas rodadas.
Parada à noite em São Paulo de Olivença. Devido ao nome daquela cidade, ao informar que eu era de São Paulo, os passageiros assentiam e completavam:
“Ah, sim, São Paulo do sul...”
Os rituais satânicos e delirantes do fundamentalismo evangélico, puxado pelo pastor com cara de bebê chorão e casado com a cabeluda e bigoduda, funcionava todas as noites depois do jantar. Durante os horrores era vedado o uso da televisão do piso de Lazer. Naquele navio, na disputa acirrada pelo embrutecimento coletivo, o fundamentalismo evangélico levara a melhor sobre a desinformação e a deformação da mídia burguesa.
Antes do amanhecer o navio partiu de São Paulo de Olivença, rio Solimões acima.
Ribeirinhos utilizavam o puçá como instrumento auxiliar de pesca. Pelo cilindro feito de rede trançada, submerso nas águas, com a boca acima da superfície, os pescadores lançavam os peixes pescados e ainda vivos durante dias de atividade. Ao voltar à comunidade levavam todo o cardume, recolhido de uma vez só, com os peixes vivos e frescos. As mulheres ribeirinhas, ao lavarem roupas na beira do rio, vez ou outra enchiam canecas com a água do rio e se banhavam para refrescar.
Depois de sete dias de viagem Solimões acima, finalmente serviram peixe no almoço. Pirarucu ensopado. Acompanhei de arroz e vinagrete. A minúscula porção de pudim, servida no copinho de café, coroou a condescendência dos proprietários do navio.
Um dos contramestres do navio me informou que na fatídica sala de orações do piso de Lazer antes funcionava sala de cinema. Os doces proprietários da embarcação substituíram a ampliação dos conhecimentos, o enriquecimento cultural, o lazer, pelo estreitamento do pensamento, pelo embrutecimento das mentes, pelo fundamentalismo evangélico. E as ovelhinhas do rebanho ainda pagavam por isso.
Comunidades tikuna surgiam às margens do Solimões. Vendaval, Feijoal, Belém do Solimões, entre tantas.
O maranhense de Presidente Dutra já garimpou no Pará, Amapá, Guiana Francesa, Suriname. Largou família no Maranhão para se instalar com o novo amor em Atalaia do Norte, na fronteira com o Peru. Somavam sete os filhos que teve com as duas mulheres. Comerciante inquieto trabalhou de tudo um pouco. Planejava se mudar com a segunda família para Santo Antônio do Içá. Nordestino, falante, comunicativo, se diferenciava dos amazonenses reservados do alto Solimões.
O navio cortou caminho pelo paraná a fim de liberar os passageiros a desembarcar em Tabatinga. Mas somente os passageiros, adiando a saída das cargas ao encerrar o trajeto.
Uma hora depois, no início da madrugada, o navio atracou em Benjamin Constant, na margem do rio Javari, para a parada prevista de mais de vinte e quatro horas. Acordei e o navio estava vazio. Apenas tripulantes e carregadores retiravam lentamente as mercadorias para a cidade. Alto-falantes funcionavam no porto de Benjamin Constant na base de músicas regionais, dedicatórias, recados, convocações, conselhos sobre isso ou aquilo.
Desembarquei e comi o café da manhã nas barracas do mercado logo acima. Pão com tucumã, tapioca com queijo, café com leite. A rampa de terra e barro na beira do rio escancarava a decrepitude e abandono da cidade. Tudo em péssimo estado, caindo aos pedaços. Ruas esburacadas, calçadas inexistentes ou arrebentadas, terra, lama, sujeira. A administração municipal de Benjamin Constant seguia a linha da quadrilha que deu o golpe de Estado no Brasil em 2016, saqueando o município, desprezando a população.
Na margem oposta do rio Javari se via o aglomerado suspenso da cidade de Islândia, já em território do Peru. Eu e o contramestre pegamos a catraia brasileira e fomos ao outro lado. A cidade peruana, inteiramente suspensa a três metros do solo alagável, se interligava por passarelas, as principais de concreto, as secundárias de madeira. Prefeitura, posto de saúde, comércios, hotéis, áreas de lazer e esportes, residências, delegacia, bares e restaurantes, a igreja matriz, tudo acima do chão. Abaixo da passarela, somente o lixo que emergia na vazante. Bandeiras peruanas, vermelha e branca, estavam hasteadas em moradias, edifícios públicos, comércios. Os peruanos, de ambos os sexos e diferentes idades, sorriam e cumprimentavam.
De volta ao Brasil, circulei em Benjamin Constant pela zona do mercado e feira municipal. Apesar do movimento intenso, com muitos clientes e curiosos, da vida pulsante, o aspecto das construções, produtos, bares cheios de bêbados, restaurantes imundos, combinava com os desmazelos da administração municipal.
O contramestre, falante, cheio de lorotas e de contatos na cidade, encostou o esqueleto em boteco sórdido do mercado. O dono do cubículo me sugeriu provar a aguardente de cana curtida em pó de guaraná, gengibre, xixuá, mambaré. A bebida de coloração cinza acastanhada era seca e amarga, mas tragável e animadora. Bêbados circulavam e paravam para prosa rápida, invariavelmente portando olhos avermelhados, lábios inchados e úmidos, apertando e reapertando as mãos de todos, sorrindo mole de cinco em cinco minutos. Como todos os bêbados do planeta.
Reencontrei o vizinho da cabine do navio que encerrara a viagem em Benjamin Constant. Ao saber que iríamos almoçar em restaurante afastado da cidade, me levou na garupa da moto. O arrendatário do cubículo e o contramestre seguiram em outra moto. O local dispunha de lagos com peixes, cabanas ou chalés, amplo restaurante, redário, quiosques para relaxar na beira da água.
A caipirinha precedeu o matrinxã assado e acompanhado de arroz e farinha de Uarini. O arrendatário do cubículo no mercado municipal mostrou que era do ramo e preparou molho na base de limão, vinagre, sal, pimenta, a fim de enriquecer os sabores. Em três detonamos quase dois quilos do peixe inteiro.
Na volta ao centro da cidade, fizemos escala em bar para mais bebes. Experimentei a aguardente colombiana, licor à base de anis. Intragável. O arrendatário do mercado caía pelas tabelas. O contramestre falante e contador de vantagens fingia sobriedade. Retornamos ao navio para cochilar e recuperar as forças prevendo mais atividades sociais à noite. A descarga de mercadorias, em volumes pequenos, prosseguia ininterruptamente desde a madrugada.
Sábado em Benjamin Constant, ao anoitecer. A maioria do comércio fechando, restando abertos apenas bares, arremedos de restaurantes, barracas de comes e bebes. Impossível a poluição sonora naquela cidade empoeirada, esburacada, abandonada, desmazelada, desmantelada. Motos, muitas motos. Raros automóveis. Raras bicicletas. O barulho ensurdecedor enlouquecia. Não dava para conversar. Parecia que tudo iria explodir. A iluminação pública era quase inexistente. Não havia restaurantes, mas sim bares, muitos bares, todos imundos. Ambulantes peruanos vendiam espetos variados. Pelo menos serviam e tomavam sucos de frutas em quantidade e variedade. A praça da Matriz, contando com construção moderna, tenebrosa, monstrengo religioso inativo naquela noite, abrigava espaço insuficiente em alongados bancos de cimento sem encosto, ao lado de grama rarefeita e ressecada. Pouca gente por ali. Calçadas quebradas, descontinuadas, ocupadas por comércio ambulante ou por buracos profundos e entupidos de líquido preto e fétido. Benjamin Constant compunha um amontoado de defeitos e aberrações.
Repeti a banca do mercado para o café da manhã. Tapioca com ovo, tapioca com queijo, café com leite. Lá estava o arrendatário do cubículo de comes e bebes do mercado municipal com um colega. Iam a sítio para comer, e principalmente beber. Iam, mas não iam, pois paravam aqui, paravam ali, conversavam, tomavam umas, outras, se despediam para, finalmente, estacionarem em outro ponto para mais bebes, mais papos, mais bebes.
Circulei pelo centro decrépito de Benjamin Constant naquela manhã de domingo. Cachorros sarnentos, mancos, pernetas, somente pele e osso, disputavam comida com bêbados e demais párias sociais. A poeira em suspensão cobria alimentos expostos na feira e no mercado municipal. O terminal hidroviário da cidade fora construído e inaugurado com verbas federais, mas se encontrava abandonado, ocioso, vazio. Na avenida paralela ao rio, bares, bregas, puteiros, exibiam o lixo amontoado da noite de sábado. Na beira da água, mulheres de vestidos longos, lenços longos e escuros amarrados à cabeça, de seitas evangélicas para lá de medievais, lembravam personagens bíblicos de novelas de televisão. Empresas evangélicas próximas ao centro recebiam clientes ávidos por entregarem bens e consciências aos proprietários do fundamentalismo.
Sujeira, abandono social, miséria e embriagues de um lado. Fundamentalismo lucrativo de outro. Duas faces da mesma moeda. E com o golpe de Estado de 2016 o Brasil tenderia a aprofundar ainda mais essas mazelas sociais.
continua...

sexta-feira, 6 de maio de 2011

da Bolívia ao Chile (parte 2/3)

...continuação
A linha de trem para visitar a cidade Inca de Machu Pichu se encerrava em Águas Callientes, de onde subiam ônibus à entrada da cidade. Machu Pichu mais parecia um planeta, tal a infinidade de construções de diversos formatos e tamanhos, erguidas em níveis diferentes. Tempo de sobra para subir, descer, cruzar portas e passagens, sentar, olhar, ouvir, investigar, absorver, apreciar, contemplar, refletir. A localização privilegiada e protegida impediu a intromissão de invasores por séculos. Os turistas se maravilhavam com tamanha herança de força e sabedoria. Do alto, vista panorâmica e estratégica da região ao redor. Montanhas esverdeadas, escarpas abruptas, abismos, vales profundos, rios de forte correnteza que quilômetros adiante, junto a outros cursos d’água, formariam o rio Amazonas. As nuvens jamais abandonavam os céus, característica típica dos meses de verão.
Mais dias na imponente e instigante cidade de Cuzco. Depois, trem com destino a Arequipa, localizada nas encostas ocidentais da cordilheira dos Andes. O outro casal ficara para trás e o rumo que tomaram a partir dali somente ao voltar para o Brasil.
O trem noturno contava com as mesmas características dos demais, compartilhando bancos com famílias peruanas. Não faltaram boas e esclarecedoras conversas. O frango com batatas, o pollo con papas fritas, opção monótona, mas segura em termos sanitários, abastecia a fome e garantia chegada saudável aos destinos.
Amanheceu durante a descida da cordilheira e o visual das encostas cobria-se de branco. Num primeiro momento pensei que estivessem cobertas de neve. À medida que o sol clareava e a paisagem tornava-se mais nítida, pude notar que não era neve, e sim areia. Muita areia. A ferrovia cruzava o trecho peruano do deserto do Atacama. Nada de vegetação. Apenas areia e rochas de coloração acinzentada. Raríssimos casebres perdidos no meio do deserto desafiavam a aridez.

Arequipa localizava-se aos pés do cone do vulcão ativo El Misti, imponência de 5.800 metros de altitude, cujo cume nevado invariavelmente cobria-se de densa névoa. A cidade pertencia à faixa sujeita a tremores de terra, além de possíveis erupções vulcânicas. Construções, sempre de um ou no máximo dois pavimentos, parcialmente destruídas ou inacabadas, surgiam em ruas e becos. Muitas delas utilizavam material vulcânico como matéria prima, fornecendo-lhes coloração acinzentada e vistosa.
O centro antigo de Arequipa guardava arquitetura barroca, sobretudo ao redor da praça das Armas, onde palácios com sacadas sobre as calçadas, colunas trabalhadas, torres da catedral, formavam harmonia exuberante com o verde pálido das árvores do miolo da praça e a cordilheira desértica ao fundo. Aquele imponente conjunto arquitetônico revelava a opulência do passado da região, mas somente para a minoria de grandes latifundiários, associada à miséria da maioria da população.
Caminhamos pelas ruas que davam acesso às encostas do vulcão Misti, as quais viravam becos, caminhos de terra e finalmente trilhas. A simples visão daquele enorme cone impunha respeito.
Arequipa estendia-se ao lado da rodovia pan-americana que seguia ao sul, ao Chile, o próximo destino. O plano consistia de ônibus até a última cidade do sul do Peru e táxi ou outro transporte local rumo a Arica, a primeira cidade do norte do Chile. Transporte direto de Arequipa a Arica sairia muito mais caro devido às tarifas internacionais.
O ônibus peruano percorreu a sinuosa rodovia pan-americana, cujas pistas estreitas atravessavam o deserto do Atacama, através de paisagem montanhosa de areia e rochas. As encostas ocidentais dos Andes, inteiramente áridas, encantavam pela completa desolação e pela variação das cores de acordo com a inclinação da luz do sol.
A rodovia cruzou a cidade de Tacna antes do desembarque na fronteira peruana em Concórdia. Então o táxi que levaria a Arica, já em território chileno.
 
A saída do Peru não trouxe novidades além das formalidades aduaneiras. A entrada no Chile, ao contrário, mostrou aperitivos do que seria enfrentar a ditadura civil/militar chilena, organizada, apoiada e financiada pela burguesia local e principalmente pelo regime dos Estados Unidos.
Nos primeiros metros em território chileno o veículo foi barrado. Todos eram obrigados a desembarcar. Militares fortemente armados com as metralhadoras apontadas em nossa direção nos arrancaram do táxi, exigiram a abertura do porta-malas, revistaram os interiores do veículo. Jogaram as bagagens no chão empoeirado e nos forçaram a abri-las, enquanto as metralhadoras continuavam a mirar nossas cabeças.
Minha aparência não era das melhores, tampouco minhas roupas. O preconceito incutido nos militares chilenos, duramente treinados nas escolas de tortura dos Estados Unidos e assessorados pelos agentes da ditadura do Brasil, só fez aumentar as desconfianças. Mas a vistoria nas bagagens não demorou tanto assim. Cutucaram mais as peças de cima e enfiaram os canos das armas mais abaixo. Mantendo as expressões e comportamento de assassinos, os animais amestrados mandaram fechar as bagagens, entrar no táxi e seguir adiante. Logo eu lembraria que guardava por mera curiosidade no fundo da mochila farto material sobre o grupo guerrilheiro peruano Sendero Luminoso, entre periódicos, panfletos, programa, lista de reivindicações.
O taxista parou em frente ao escritório de informações turísticas de Arica. Eu viajava sem qualquer guia ou coisa parecida, precisando me informar em cada parada sobre hospedagens e pontos de interesse.
Uma morena trintona, tremendamente simpática e sensual, veio atender. Entre sorrisos discretos e olhares dissimulados indicou hotel de luxo, com piscinas, quadras de esportes, instalações de muitas estrelas, mais outras opulências. Imediatamente argumentei que o orçamento era curto e que pretendia hospedagem mais simples e mais barata. Porém, para a surpresa geral, após os preços de tabela do hotel de luxo, ela mostrou os preços com descontos. Os valores após os descontos equivaliam a menos de um sexto dos preços oficiais. Era difícil de acreditar que um hotel daquela categoria pudesse oferecer descontos de mais de 80%, em cidade na beira no mar, com praias no oceano pacífico, em pleno mês de janeiro, alta temporada, verão, principal mês das maiores férias do hemisfério sul. Alegou que o Chile andava vazio de turistas em virtude dos preços altos. Era a versão oficial que a ditadura a obrigava decorar, omitindo que os turistas evitavam o país com medo de serem perseguidos, presos, torturados, mortos, pelo terror de Pinochet.
Aproveitei as deixas para pedir-lhe o endereço a fim de passar lá mais tarde. Ela sorriu e escreveu tudo num papel com certo prazer e expectativa.

O hotel era realmente demais. A enorme e bem aproveitada área verde escondia os apartamentos térreos com sacada, tudo amplo, confortável, de bom gosto. O atendimento exageradamente formal tornava-se ainda mais incômodo naquela imensidão quase sem hóspedes. Os preços de tabela apareciam afixados na parede da recepção, mas não passavam de ficção em tempos de ditadura.
No início da noite caminhei pelas ruas escuras e vazias de Arica na busca da casa da funcionária de turismo. Com o mapa da cidade fornecido por ela nas mãos, não foi difícil encontrar o endereço. A mãe atendeu desconfiada. Olhando para os lados, falando baixo, afirmou que a filha saíra e não tinha horas para voltar. Insisti sobre o combinado naquele horário e naquele local. Com expressão que não fora com minha cara e muito menos com minhas insistências, a mãe me pediu que fosse embora. Agradeci a atenção, me despedi e voltei às ruas. Algo me dizia que a funcionária de turismo, que tanto se animara com o encontro, se encontrava próxima à porta semiaberta pela mãe. Eu estava em cidade do interior de outro país, diante de outra cultura e de pessoas apavoradas com a situação política vivida pelo país.
Retornei pelas ruas desertas daquela noite de Arica. O horário do toque de recolher imposto pela ditadura se aproximava. Ninguém ousava desafiar o instinto assassino do regime e se trancafiava em casa. Tanto na ida como na volta da casa dela, senti estar sendo seguido por um homem à paisana. Ele mantinha distância de segurança sem jamais me perder de vista. Fingi não perceber. Também fingi normalidade diante das constantes e móveis duplas de militares uniformizados e armados com metralhadoras apontadas aos pedestres.
continua...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

da Bolívia ao Chile (parte 1/3)

Eu tinha retornado a São Paulo vindo de projeto de prospecção mineral de quase um ano em Rondônia. E, junto a novos colegas, surgiu ideia da viagem. Não nos esquecemos do visto de entrada na Bolívia, ainda necessário na época.
Desembarcamos no início de janeiro no aeroporto de El Alto, a 4 mil metros de altitude e quatrocentos metros acima do centro de La Paz. Ainda que coberta parcialmente por nuvens, avistamos os picos nevados de parte da cordilheira dos Andes, ali a cordilheira Real, muito próxima da capital.
Era minha primeira viagem internacional, e não conseguia disfarçar o nervosismo assim que pisei em solo boliviano. Logo nas esteiras, enquanto esperávamos as bagagens, fomos abordados pelos cambistas, funcionários e afins do próprio aeroporto, com a intenção de trocar pesos bolivianos. Obtivemos apenas o indispensável até chegar ao centro da cidade, onde escolheríamos melhores taxas e condições.
A escolha caiu em hotel simples e barato instalado em sobrado no centro antigo de La Paz antes de partir para explorar as ruas da cidade.
Militares entupiam as esquinas e praças. A Bolívia vivia anos de turbulência política. Golpes militares se sucediam com rapidez impressionante. Generais entravam e saíam da fama de uma hora para outra, invariavelmente ligados ao narcotráfico e submetidos às ordens do regime dos Estados Unidos. A mobilizada população boliviana não conseguia oferecer alternativas aos desgovernos capitalistas e sofria as conseqüências da exploração econômica e opressão política.

A tensão e o terror flutuavam no ar com tanta intensidade que nem sequer percebíamos os efeitos da altitude. Cansava durante as caminhadas pelas intermináveis ladeiras da capital, mas nada de mal estar ou dores de cabeça. O centro antigo fascinava pelas construções antigas, ruas e ruelas, ladeiras, calçamento de pedra, praças arborizadas, as montanhas nevadas sempre visíveis.
A maioria dos bolivianos exibia fortes traços indígenas, Aymara ou Quéchua. Nas raras tentativas de fotografar as bolivianas, chamativas com compridas saias coloridas, chapéus coco, adereços, aprendemos que não aprovavam a atitude. Ameaçavam atirar pedras ou simplesmente se viravam escondendo o rosto. Afinal não se tratavam de objetos exóticos a serem fotografados por turistas deslumbrados. Contentei-me em registrá-las visualmente.
Ainda inexperientes em descobrir pontos mais saborosos, enjoávamos de tanto comer pollo con papas fritas.
Circulamos rapidamente pela parte nova de La Paz. Avenidas novas, prédios novos, mansões novas, lojas novas, lanchonetes novas de redes estrangeiras. Chatice bem familiar. Muita segurança e proteção para a elite de sempre.
Visitamos o Vale da Lua, nos subúrbios da cidade. Paisagens inóspitas e fascinantes, áridas, íngremes, vales profundos e escarpas, vegetação rala e espinhosa, areia cinza clara, desabitada, intrigante.
Percorremos a zona rural boliviana rumo às ruínas e aos vestígios da antiga civilização em Tiwanaku. Exploramos sem pressa o sitio arqueológico com a cordilheira Real sempre a perfilar no horizonte. O ambiente não lotava e permitiu captar a atmosfera do local.
Compramos passagens conjugadas de barco e ônibus à cidade peruana de Puno. Senti um frio insuportável na travessia de barco pelo lago Titicaca. A blusa de lã que eu vestia estava longe de me proteger do vento e das baixas temperaturas andinas. Paramos na ilha de Copacabana, a cerca de 3.850 metros de altitude, onde pudemos circular pelas redondezas, escadarias, pequenas ruínas, templos.
Já em solo peruano, ônibus com destino a Puno, ainda na beira do lago Titicaca. A rodovia se afastou levemente da margem do lago e pudemos apreciar a paisagem rural, as pequenas comunidades, plantações, índios, mestiços.
Puno mais parecia uma periferia de cidade grande tal a feiúra e sujeira generalizada. Telhados de zinco se refletiam sob a fraca luz do entardecer. Lama e lixo se espalhavam nas ruas devido às chuvas de verão. As margens do lago Titicaca assustavam pelos detritos e mau cheiro. Mas era por uma noite apenas.

Após acertar hospedagem em hotel precário, providenciamos na estação ferroviária, para o dia seguinte, as passagens de trem com destino a Cuzco. Circulamos sem grandes pretensões pela cidade, comemos o trivial e retornamos ao hotel. O tempo nublado tornava tudo sem graça ao redor e nada realçava na paisagem. O vento gelado da cordilheira e do lago açoitava tudo e todos.
Embarcamos pela manhã no trem em classe que, se não era a primeira, também não era a última. Bancos acolchoados para duas pessoas, um de frente para outro, com mesa no meio, nos deixaram, os quatro, formando um grupo. As bagagens seguiam acima de nossas cabeças, amarradas aos ferros a fim de prevenir eventuais furtos. 
Conversamos bastante. Tentamos cochilar sobre a mesa ou na vã tentativa de nos acomodarmos nos encostos verticais e fixos. Comemos frango com batatas, cobrados à parte da passagem, pollo com papas fritas. Em paradas mais demoradas, era possível desembarcar e arriscar comprar algo que nos enganasse o estômago. O frio e o vento vinham das montanhas. Em dada estação nevava tão fortemente que nem deu para colocar a cara fora do vagão.
A paisagem externa chamava a atenção. Montanhas nevadas, picos agudos, planícies esverdeadas, vegetação abundante nos fundos dos vales, abismos, escarpas rochosas, rios encachoeirados, pequenas cascatas, vilarejos, lhamas, alpacas, comunidades indígenas.
A frequência no vagão compunha-se majoritariamente de turistas independentes em meio a peruanos de classe média. Sempre que surgiram oportunidades trocávamos ideias com os passageiros próximos. Circulamos pelos vagões de passagens mais baratas. Os peruanos pobres eram transportados como gado, amontoados, esmagados em vagões apertados, sujos, mal conservados, insuportavelmente lotados.

As primeiras divergências dentro do grupo não tardaram a aparecer. Diferentes pontos de vista sobre os lugares visitados, sobre modos de vida, sobre o ritmo da viagem, sobre o roteiro para os dias futuros.
Cuzco surgiu no dia seguinte depois de trajeto extremamente exuberante e variado, exibindo facetas distintas do altiplano peruano. Em hotel simples no centro da cidade, logo no banho houve problemas com a água quente, prometida enfaticamente pelos agentes que nos levaram da estação ferroviária. Sem soluções à vista, saímos à rua e nos hospedamos em outro local, também simples e barato, mas com água quente e conforto compatível com o oferecido.
Jantamos todos juntos naquela primeira noite. A unidade do grupo, no entanto, estava comprometida. Eu e minha irmã marcharíamos à parte nas atividades seguintes. Antes mesmo da metade da viagem não havia mais as convergências de intenções surgidas originalmente entre os quatro.

Exploramos a pé a fascinante Cuzco, cidade erguida sobre os alicerces dos escombros de antiga cidade Inca, destruída impiedosamente pelos invasores europeus. Cuzco era um museu ao ar livre, tal a infinidade de ruas e becos estreitos, arquitetura barroca, praças aconchegantes, igrejas pesadas, balcões e colunas sobre as calçadas. Ruínas Incas nos arredores da cidade comprovavam a avançada tecnologia em construções adquiridas pelos antigos habitantes da região. Caminhadas sem pressa pelas ruas do centro e bairros, entre conversas com os moradores. Paradas em pontos altos a fim de contemplar o visual urbano e das montanhas próximas.
Turistas e mais turistas se distribuíam em hotéis, bares e restaurantes de Cuzco. A vida noturna fervia entre apresentações musicais e comidas típicas regadas a pisco. As cores vivas das malhas e gorros de lã alegravam os ambientes.
continua...