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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Uzbequistão e Turquia (parte 3/8)

...continuação
Dali, ao cartão postal de Samarqand (Samarkand) e um dos principais do Uzbequistão, o complexo de madraças, ou escolas corânicas, e mesquitas ao redor da praça Registan.
Infelizmente, quase tudo estava em obras, com tratores e guindastes removendo o piso central da praça e ações agressivas em trechos internos das construções históricas. Fato injustificável, uma vez que fotos recentes mostravam todo o conjunto em perfeito estado de conservação. Não só ali, mas em todo o país, me parecia que no Uzbequistão se construía ou se reconstruía pelo simples capricho do chefe de plantão, pela obsessão em apagar e refazer imagens.
Mas, aos trancos e barrancos, contornando telas de proteção, dando voltas, tomando cuidado para não tropeçar ou escorregar nos trechos esburacados ou enlameados, evitando as manobras das máquinas leves e pesadas, abstraindo os ruídos inerentes, deu para explorar o local.
As dependências internas das madraças desativadas foram ocupadas pelo comércio de produtos típicos do país e de outros itens nem tão típicos. A cúpula interna de uma delas, ornamentada em ouro e em outros materiais resplandecentes, valeu pelo efeito extraordinário das cores sob a luz natural. Ao longo dos corredores laterais, lojas expunham a antiga arte regional, entre vestimentas, joias, barretes, burcas, mantos, dos mais variados tipos e preços, pinturas e velhas fotografias.
O almoço foi em restaurante regional que mais se parecia com bar noturno tal a decoração extravagante, usando e abusando de móveis chamativos e cores espalhafatosas. A mesa ficava no andar superior. No térreo, uma festa de casamento animava uma roda de mulheres, somente de mulheres, dançando ao som do pop uzbeque.
Depois foi a vez de visitar o observatório astronômico de Ulugbek, filho de, adivinhem quem, sim ele mesmo, o próprio, quem mais poderia ser se não Amir Timur. Dizia a lenda que o filho, porém, não se identificava com guerras, mortes e religião, passatempos favoritos do pai, preferindo se aprofundar nas artes e nas ciências.
Mas o melhor da tarde ainda estava por vir, a Necrópole da cidade. O interessante cemitério abrigava nas partes mais baixas tumbas que eram verdadeiras obras de arte, datadas dos séculos XIV a XVI. Me deleitei diante da arquitetura e das ornamentações em tijolos, ladrilhos, ouro, pedras, pinturas, esculturas, em conjunto harmoniosamente colorido.
Samarqand (Samarkand), a segunda cidade do Uzbequistão, contava com centro inteiramente renovado arquitetonicamente. Foram demolidas as construções antigas e erguidos novos edifícios, largos, baixos, padronizados, demonstrando mais uma vez a paranoia por uma nova cara nacional. Assim como no resto do país, a cidade estava em obras, apagando o antigo, perdendo a memória urbanística, e construindo o novo.
Por outro lado, a preservação de um passado glorioso brotado após a “independência” nacional em 1991 e maquiado segundo as conveniências dos mandas-chuvas de plantão, visto nos monumentos novos e antigos, contrastava com a demolição do casario histórico dando lugar ao que viria a ser a imagem que a nova classe dominante desejava impor ao país.
As calçadas das cidades do Uzbequistão ficavam às escuras durante toda a noite e madrugada. Somente o leito das ruas e avenidas recebia iluminação artificial, mesmo assim de maneira fraca e irregular.
Pela manhã, eu e mais dois caminhamos rumo à praça Registan, desta vez sem chuva e com muito sol. Contemplamos o complexo de madraças e mesquitas somente de fora, sem pagar novamente o ingresso caro. Novos ângulos, novas luzes e cores pelo dia ensolarado, mais observações e reflexões a respeito dos detalhes arquitetônicos e históricos. E, mais uma vez, lamentamos as obras desnecessárias em praticamente todo o conjunto.
Arriscamos a galeria de arte pertencente à associação dos artistas de Samarqand. Continha belíssimas obras, entre pinturas, aquarelas, gravuras, trabalhos em lenços de seda, roupas, véus. Os itens estavam expostos em sala atendida pela solitária russa que mal arranhava o inglês. Os lenços de seda, estampados por trabalhos únicos dos artistas regionais, levíssimos, mal sofriam das forças da lei da gravidade.
Caminhávamos vagarosamente, apreciando a rotina da cidade num dia útil, o vaivém dos pedestres e veículos, as calçadas e calçadões arborizados, os parques abrigando famílias e discretos casais de namorados, a elegância modernizada daquela cidade milenar.
Almoçamos comida típica em residência familiar decorada especialmente para os visitantes. Além das saladas iniciais, dos iogurtes caseiros e temperados, dos diversos tipos de pães, da sopa de legumes e carne, o prato principal seria o Plov, o mais famoso do país. Tratava-se de arroz cozido com cenoura amarela, alho, cominho, cebola, pedaços de carne, passas. Saborosíssimo e servido em grande travessa sobre a mesa, da qual todos se serviam.
Tiramos os sapatos antes de entrar no salão ricamente ornamentado, nas paredes, com objetos regionais e familiares, no teto composto de ripas arredondadas, avermelhadas e desenhadas de madeira, na mesa, colorida e apetitosa. Reguei o banquete com água e chá verde.
No quintal da casa, a cerejeira em flor, o móvel que era mistura de mesa, cama e sofá estampado, muito comum no país para os futuros dias e noites quentes do verão, o andar de cima construído em madeira entalhada.
Emendamos ao Mercado Municipal. Em instalações limpas e organizadas havia de tudo um pouco do que os verdadeiros mercados devem oferecer à população. Ziguezagueei por entre as barracas, observando itens e flagrantes culturais. De vez em quando um balconista me oferecia produtos e perguntava o meu país de origem num inglês diminuto, mas o suficiente para a comunicação básica.
Retornamos ao hotel no final da tarde ensolarada e sem sensação de frio.
Jantamos em restaurante e clube dançante, um dos mais badalados da cidade. E, para manter o regime de engorda daquela viagem ao Uzbequistão, dá-lhe comida, muita comida, comida típica e saborosa. Bebemos vinho de Samarqand, comemos horrores, conversamos e rimos muito. No subsolo decorado em cores vivas e brilhantes, entre intervenções artísticas extravagantes, havia outra mesa ocupada por três mulheres, produzidíssimas, dos pés à cabeça, no melhor estilo uzbeque.
Acordei sem pressa e comi no final do horário do café da manhã a fim de forrar bem o estômago em dia sem perspectivas de almoço de verdade.
O trem com destino à Toshkent (Tashkent) partiu da gigantesca e moderníssima estação ferroviária de Samarqand (Samarkand), mas sem direito a fotos, proibidíssimas nos interiores e exteriores. A construção e as instalações pareciam de aeroporto, porém mais eficientes e mais confortáveis. E tudo em dimensões exageradas. Se Amir Timur, o novo herói nacional, não estivesse morto e enterrado havia séculos no mausoléu da cidade, juraria que tivesse sido obra dele.
A composição partiu no meio do dia. Comemos empanadas arredondadas adquiridas em estação intermediária. O salgado suculento e bem temperado matou a fome discreta do meio do dia.
Durante todo o trajeto a cadeia de montanhas nevadas acompanhou a ferrovia, emoldurando campos agrícolas em fase de semeadura e bem aproveitados entre algumas cidades pequenas e vilarejos. Com as reformas agrárias anteriores e a politica agrícola encorajadora todos possuíam o necessário para viver razoavelmente. Alguns trechos revelavam colinas rochosas, campos menos férteis, zonas cobertas de solo esbranquiçado pelo sal.
No meio da tarde o trem parou na estação ferroviária também ampla, moderna, funcional em Toshkent (Tashkent).
A maior mesquita da capital do país guardava a sete chaves o mais antigo alcorão em papel do mundo. Impresso no século VII em pele de gazela, o imenso e pesado livro impressionava pelo visual e pelo valor histórico. Do lado direito da imensa construção religiosa, notei ao fundo a cadeia das montanhas nevadas que se destacava irrompendo no horizonte.
O metrô da capital foi construído durante a República Soviética do Uzbequistão. Contando com três linhas e estações distintas e ricamente decoradas, aquele meio de transporte testemunhava o passado socialista do país, funcionando e atendendo bem a população por quase quarenta anos.
A moderna Toshkent (Tashkent), cujo centro foi reconstruído completamente após o intenso terremoto de 1966, era amplamente arborizada, nas calçadas, parques, praças, canteiros centrais das principais vias. A cidade esnobava quarenta hectares de área verde por habitante. Uma interminável avenida contava com canteiro central de mais de cinquenta metros de largura, inteiramente arborizado, com faixa interna para caminhadas e passeios. Maravilhoso, invejável, admirável do ponto de vista socioambiental.
O Uzbequistão não se mostrou tão estranho quanto as expectativas apontavam, mas agradou bastante. Gostei.
Rahmat O’zbequiston!
Se para entrar no país o processo se mostrou burocrático, para sair dele a lentidão e a burocracia se multiplicaram por mil.
Logo na entrada do saguão do aeroporto, após o primeiro controle de passaportes, os raios-x acusaram objeto perigoso na minha bagagem. Tive que abrir e mostrar ao zeloso funcionário que se tratava do pequeno tripé fotográfico. Pegou-o na mão e, por gestos, me pediu para que eu lhe mostrasse como funcionava. Assim que concluiu que as três pernas eram flexíveis e que se regulavam ao gosto do freguês, sorriu me liberando.
Após esse primeiro bloqueio duplo, houve mais quatro bloqueios, fiscalizando e controlando praticamente as mesmas coisas. Sem falar na inadmissível lentidão dos atendentes.
Em cada um dos restantes quatro controles de saída do país, também fizeram a incrível pergunta sobre o motivo da minha viagem ao Uzbequistão. Questionaram a quantidade de moeda nacional e estrangeira em mãos. Exigiram o preenchimento de formulários alfandegários em duas vias, nas quais eu tinha que escrever todos os detalhes por duas vezes mesmo. E sem erros ou rasuras. Cobraram a primeira via do formulário quando da entrada no país. Conferiram os comprovantes de entrada e saída em cada um dos hotéis utilizados. Abriram e reabriram bagagens na busca daquilo que nem eles sabiam o que era. Num dos pontos de controle, me chamaram numa salinha anexa e, pela enésima vez, queriam saber quanto de dinheiro eu levava.
Ao ultrapassar cada um desses obstáculos, nem dava tempo para comemorar. Poucos metros adiante começava tudo novamente. Novo bloqueio, novo controle, nova fiscalização, as mesmas perguntas, as mesmas expressões de autoridade, os mesmos carimbos.
Na última barreira, além dos procedimentos de praxe, repetidos à exaustão, confiscaram minha garrafa de água. Nem questionei. Quase entreguei a mochila de ataque inteira para eles, desde que me deixassem embarcar.
E isso acontecia com todos da mesma maneira, ou ainda pior. De uma passageira exigiram que ela bebesse da água que carregava na bolsa para provar que não era uma arma líquida letal. De outro, retiveram frascos de desodorante, creme dental, perfumes, entre outros itens altamente perigosos à humanidade.
Após “apenas” duas horas de saltos em obstáculos que testaram o limite dos nervos de todos, controle por controle, fiscalização por fiscalização, raios-x por raios-x, formulário por formulário, pergunta por pergunta, carimbo por carimbo, finalmente atingimos a porta de embarque para a aeronave.
Mas, mesmo após todo aquele perrengue, não conseguia parar de rir ao me lembrar de uma das perguntas mais presentes na boca dos funcionários do aeroporto, justamente no momento que eu desejava apenas sair do país: “Qual o seu motivo de viagem ao Uzbequistão?”. Era a pérola das pérolas!
O avião apertadíssimo para as pernas decolou no meio da madrugada e pousou em Istambul ao amanhecer.
Comi horrores no café da manhã tardio e permaneci no quarto para tentar descansar. Nada feito. A obra ao lado do hotel andava a todo vapor. Guindastes, escavadeiras, caminhões basculantes, o operário que guiava gritando os veículos pesados durante as manobras. Uma barulheira danada.
continua...

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Uzbequistão e Turquia (parte 2/8)

...continuação
Na região de Kalas, em meio ao deserto de Xorezm (Khorezm), visitamos duas fortalezas construídas no século III A.C., Toprak Qala e Ayaz Qala, ambas interrompidas na fase inicial das escavações arqueológicas, ambas abandonadas às intempéries e aos vandalismos. Presenciei turistas de língua francesa, loiros e de olhos azuis, removendo material das ruínas das paredes e pisos, atirando pedaços uns aos outros ou simplesmente os lançando longe.
As civilizações que construíram e residiram nessas e em outras fortificações da região eram praticantes do zoroastrismo, religião considerada inspiradora de outras mais conhecidas e praticadas atualmente, como o cristianismo, islamismo, hinduísmo, judaísmo.
Abaixo da colina das ruínas do segundo castelo, o Ayaz Qala, dez yurtas se estendiam nas areias do deserto. As tendas montadas e mantidas por povos nômades contavam com os necessários recursos, inclusive coletores de energia solar, e o conforto para curtas ou longas permanências sob as mais contrastantes temperaturas.
Almoçamos no interior de uma delas, especialmente decorado para visitantes. A comida se manteve na costumeira sequência de quatro pratos. Saladas, sopa, carne com batatas, chá, docinhos, água e muitos, mais muitos mesmo, pães variados.
De volta à Xiva (Khiva) ainda visitamos na parte nova da cidade a casa do último “coronel” de antes da revolução soviética. O quase palácio ostentava luxo e imitação total, da arquitetura à decoração interna, do estilo russo imperial, dos tempos ditatoriais dos czares. Após a revolução russa o espaço foi expropriado e aproveitado para exibições teatrais, escritórios administrativos, entre outros usos. E, desde 1991, apenas área para visitação turística e venda de quinquilharias.
Preferi circular pelo entorno da construção e observar o dia a dia da população local em dia útil nas ruas modernas de Xiva.
O jantar aconteceu em restaurante da parte nova da cidade, Dishan-Kala, mas próximo a uma das quatro portas da cidade antiga, Icham-Kala. Além das saladas variadas acompanhadas de diversos e saborosos tipos de pães, nos foi servido sementes secas de abricó, sopa de legumes e carne de carneiro, massas recheadas com ovos e cobertas com iogurte natural e frio, além de água e doces, inúmeros doces. A viagem ao Uzbequistão se tornava a cada dia um verdadeiro regime de engorda, pela grande quantidade e pela boa qualidade das comidas, nos cafés da manhã, almoços e jantares.
Ouvimos da guia que, após o casamento, algumas noivas ainda vão morar na casa dos pais do noivo. Ela só poderá se dirigir à sogra depois do primeiro filho nascido. E jamais poderá se dirigir ao sogro. A recém-casada, ao se encontrar com conhecidos na rua, se inclina e esfrega as mãos nas próprias coxas, conforme eu notara na tarde anterior.
Esses costumes dos interiores do país se enfraqueceram, mas sem desaparecer, durante o período da República Soviética do Uzbequistão. Também nessa época o governo desestimulava práticas discriminatórias contra as mulheres solteiras que queriam se divertir, em bailes ou festas, por exemplo. Desde a tal “independência” em 1991, entretanto, essas e outras práticas opressivas vem sendo reforçadas e incentivadas, sobretudo nas cidades pequenas e zonas rurais.
O Uzbequistão atual manteve algumas conquistas da fase soviética. A educação ainda era pública, gratuita e obrigatória nos nove anos do ensino fundamental e nos três anos do ensino médio. As universidades também eram públicas, mas as cursavam gratuitamente somente os estudantes que obtiveram boas notas anteriormente nas escolas. Os demais que desejassem estudar nas instituições públicas deveriam pagar mensalidades a preços nada módicos.
O caminho de Xiva (Khiva) à cidade de Buxoro (Bukhara), por estradas asfaltadas e esburacadas, exceto pelos cem quilômetros em pista dupla sobre concreto recém-inaugurado, ora cruzou o deserto de Kisyl Kum, ora correu através de terrenos totalmente aproveitados para a agricultura. Nenhum espaço era desperdiçado, inclusive na frente, lados, e fundos das moradias, comércios, indústrias. Políticas agrícolas de incentivo, aliadas às reformas agrárias que democratizam o acesso a terra para quem nela trabalha, dão nisso. Parabéns! Bem diferente do Brasil, fértil e subaproveitado, escravo do latifúndio improdutivo e do agronegócio das monoculturas para exportação e entupidas de agrotóxicos.
No trecho desértico mais ao norte a estrada acompanhou o rio Amudarya, em cuja margem oposta, a oeste, começava o território do Turcomenistão.
O desembarque ocorreu na estupenda praça central de Buxoro (Bukhara), uma maravilha arquitetônica. Iluminada pelos lustres e pela lua quarto-crescente, exalava o charme peculiar, cercada por construções magníficas que transmitiam os dois mil e quinhentos anos de existência urbana, desde os remotos tempos da Rota da Seda.
Durante o café da manhã servido no subsolo do hotel, o garçom mostrou os dotes de massagista em minhas costas, nuca e ombros, antes de dar o preço para a massagem completa. Ninguém se animou.
No centro da área de lazer pública se erguia o Mausoléu dos reis Samoniy (Samanid), datado dos séculos IX e X, construção cúbica mais antiga e preservada da cidade. Impressionante a disposição vertical e horizontal dos tijolos, nas paredes, nas cúpulas interna e externa, fornecendo um paciente e imbricado trabalho artesanal.
Mais à frente, o conjunto da mesquita ricamente decorada nas pilastras, no minarete, no teto externo, na pesada porta de entrada, e do lago em frente, compondo cenário exuberante.
Aproveitei para analisar cenas do cotidiano, dos moradores, meios de transporte urbano, comércio, ambulantes, pedestres. Pelo menos nos trechos visitados, as cidades do Uzbequistão se encontravam limpas e bem cuidadas. As exceções ficavam por conta de ruas em obras ou com a pavimentação em pandarecos. Os cartazes, ora em uzbeque latino, ora em uzbeque cirílico, se espalhavam pelas ruas e avenidas.
O mercado municipal de joias e tapetes, cujas linhas de produtos, extravagantes demais, revelavam gosto deveras contrastante com o das brasileiras e dos brasileiros. As clientes do mercado, usando e abusando de combinação de cores esdrúxulas nas túnicas, batas, vestidos e mantos, se deleitavam com anéis, brincos, pulseiras, colares, recheados de pedras preciosas, todos enormes, coloridos, brilhantes, chamativos.
Deslumbrante o miolo do centro arquitetônico antigo de Buxoro (Bukhara). As madraças, a mesquita Poi-Kalian com o alto minarete e principal símbolo da cidade, visível a quilômetros de distância nos tempos das caravanas da Rota da Seda, as cúpulas pardas ou esverdeadas, as árvores ressecadas pelo recente inverno, os detalhes nos ladrilhos e inscrições islâmicas em árabe. Era o tipo do lugar para esquecer o tempo e interagir com as belezas plásticas das construções ao redor.
Farto e delicioso, o almoço tardio aconteceu dentro da sala de aula de uma antiga madraça. A refeição, servida nas onipresentes quatro partes, veio caprichosamente preparada e temperada. Lambi os beiços e os pedaços de pães variados molhados nas entradas picantes.
Observei os uzbeques e os turistas regionais circulando e relaxando em meio à estupenda praça do centro. Flagrei o final de casamento com direito ao noivo falando ao celular enquanto desfilava com a esposa para as fotografias oficiais. Mulheres maduras com dentes de ouro, homens jogando dominó, roupas coloridas para elas, algumas com véus brancos, roupas sisudas e escuras para eles, alguns com casacos ou túnicas compridas, aveludadas e azuis.
A apresentação folclórica de músicas e danças típicas do O’zbequiston, como praxe em apresentações para turistas, se mostrou um fiasco. Desajeitadamente, as músicas e as danças se alternavam com desfiles de modas nos quais as modelos exibiam trajes modernos do país. Os músicos se postavam no fundo do salão, enquanto as dançarinas e as modelos se movimentavam ao longo de um corredor estreito, entre as mesas ocupadas somente por estrangeiros entediados.
Saindo de Buxoro, após as zonas agrícolas inteiramente aproveitadas, a estrada entrou com tudo nas estepes uzbeques, imensas planícies pouco plantadas, mas tomadas de rebanhos de gado e de ovelha em meio a terreno castanho e vegetação nativa arbustiva. Pelos campos sem fim, os pastores se vestiam a rigor, com casacões longos, aveludados, escuros.
Trechos com construções de novas moradias populares, grandes e de boa qualidade. Bem diverso dos cubículos criminosos dos conjuntos habitacionais populares no Brasil, onde as administrações públicas engordam o faturamento das construtoras que as financiaram e elegeram.
Antes, ao longo e depois da cidade de Kaishi, pujantes zonas industriais lançando muita fumaça das altas chaminés.
Almoço em residência uzbeque em Shahxisabz, cidade onde se erguiam a estátua e as ruínas do palácio construído por Amir Timur, nativo da cidade. O megalomaníaco Amir Timur gostava de levantar construções gigantescas a fim de demonstrar força para os inimigos que o ameaçavam. Aquele palácio, ainda que desprovido da cúpula e de parte das paredes, guardava dimensões descomunais, absurdas, improváveis. Amir Timur figurava onipresente nos monumentos da nação, sobretudo após 1991 quando encerrou o período soviético. Curioso e intrigante o novo regime do Uzbequistão substituir as antigas estátuas dos lideres da revolução soviética por personagens, Amir Timur entre outros, que os próprios historiadores uzbeques reconhecem como assassinos e carniceiros.
À medida que se aproximava os limites da província de Samarqand (Samarkand), a paisagem se tornava mais verde, entre campinas sobre relevo ondulado, plantadas de algodão, frutas, trigo, mais rebanhos de gado e ovelhas. A cadeia das montanhas Zeiavshan guardava cristas rochosas e dentadas, escarpas íngremes e uma espinha alongada, em cujo topo e encostas apareciam camadas e fios de neve. Salpicadas de casas isoladas e rebanhos esparsos aos pés das montanhas, as campinas esverdeadas desenhavam um dos cenários naturais mais belos do O’zbequiston (Uzbequistão).  
A cosmopolita cidade de Samarqand (Samarkand) abrigava, além da maioria uzbeque, povos tadjiques, russos, europeus, asiáticos do extremo oriente. Através de avenidas largas e extensas, ricamente arborizadas de plátanos, margeadas por construções modernas e espaçadas, dos períodos soviético e pós-soviético, cruzando bairro por bairro, alcançamos o centro.
Jantamos no próprio hotel, com direito a garrafas de vinho produzidos nas melhores vinícolas da região de Samarqand (Samarkand), cidade que contabilizava mais de dois mil setecentos e cinquenta anos de fundação.
Amanheceu o dia mais frio de toda a viagem. Pela manhã, para agravar a sensação térmica, o tempo nublado e os chuviscos ocasionais. A roupa toda fechada, camiseta térmica de mangas compridas, malha de montanha, anoraque com o zíper até acima do pescoço, capuz, não deu conta.
A primeira visita ocorreu à tumba de, adivinhem quem, ele, sempre ele, Amir Timur, o herói onipresente em todo O’zbequiston. A construção dos séculos XIV e XV, no entanto, revelava beleza de cair o queixo, mesmo sob o céu cinzento. Contava com minaretes milimetricamente ornamentados, cúpulas rebuscadas de coloração azul-esverdeadas, portais ricamente trabalhados sobre ladrilhos, cerâmica polida, terracota pintada, entre desenhos e escritas islâmicas impressionantes. A harmonia das cores, a simetria das estruturas, o equilíbrio das formas, os detalhes infinitesimais, encantavam até não poder mais. O interior principal, de um azul vítreo e profundo, desenhado em fios de ouro, na cúpula acima e em escritas árabes nas paredes, embasbacava pela riqueza estética e materiais utilizados.
Não queria sair dali para não perder o olhar e a mente daquela maravilha. E também por não desejar enfrentar o frio externo.
continua...

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Uzbequistão e Turquia (parte 1/8)

Depois de muitos anos resolvi novamente cruzar o Atlântico e viajar fora da América. Faria um breve intervalo em minhas incursões pelos interiores do Brasil.
O voo do meio da madrugada exigiu sacrifício para aguentar firme até o horário de embarque. Me antecipei e me dirigi ao aeroporto internacional de São Paulo no meio da noite anterior.
Após quase quatorze horas de voo desembarquei em Istambul naquele final de março. Passava da meia-noite, horário local, quando entrei no quarto do hotel no bairro antigo de Sultanahmet.
O aquecimento central, sem possibilidades de regulagens, esteve demasiadamente quente durante toda a madrugada. Levantei ainda zonzo, sonolento e cansado.
Após café da manhã empurrado, eu e os colegas visitamos a Praça do Hipódromo, sobre a antiga pista de corrida de bigas dos tempos do Império Romano, destacando a torre de Constantino, a torre de Teodosius, a torre da Serpente.
Ao lado, a gigantesca Mesquita Sultanahmet (Azul). Imensa, ampla, imponente. Ali, como em todo o centro turístico de Istambul, enxames de turistas provenientes dos quatro cantos do mundo, numa profusão de tipos físicos e de línguas. Gente, muita gente, formando filas e mais filas para tudo e em vários lugares.
A Aya Sophia, fechada, ficaria para depois. Seguimos ao Palácio Topkapi, espalhado em vasta área próxima ao estreito de Bósforo. Parques, jardins, salões dos antigos sultões, exposições de joias, roupas e adornos dos antigos e megalomaníacos proprietários.
Almocei kebap de carne, precedido do tradicional meze, contendo pastas de grão-de-bico, pimentão apimentado, berinjela com tomate, coalhada seca com azeite, muitos e variados pães. Me hidratei com suco natural de romã com laranja, forte, marcante, saborosíssimo.
Após a refeição, visita à Cisterna, outra atração que formava filas imensas. Nada de especial a não ser a iluminação amarelada das catacumbas. Em seguida, giro despretensioso, a esmo, pelas ruas comerciais e estreitas do bairro de Sultanahmet sob a luz belíssima do fim de tarde.
Foi providencial o retorno ao hotel para descansar e preparar a transferência noturna ao aeroporto. A zonzeira ia e vinha da cabeça ao corpo, pela canseira do voo, pela diferença de fuso horário, pelo sono atrasado. Os muezins das mesquitas, numa das chamadas para as cinco orações diárias dos muçulmanos, me acordaram do cochilo.
O voo saiu no começo da madrugada em avião apertado, sem possibilidade alguma de mover as pernas. Ainda bem que o grandalhão à minha frente não reclinou o encosto do banco. Do dobro do meu tamanho, o coitado nem se movia.
A rota área passou sobre o Mar Negro, o Mar Cáspio e acima de dezenas de cidades e vilarejos iluminados.
Desembarcamos ao amanhecer no aeroporto de Toshkent (Tashkent), a capital do Uzbequistão, próxima à divisa internacional com o Cazaquistão.
E batemos de frente com a absurda lentidão burocrática das autoridades uzbeques. Preenchemos fichas em duas vias. Aguardamos horrores em fila desorganizada o funcionário buscar os formulários em falta. Pagamos o valor do visto calculado proporcionalmente ao tempo de permanência no país e ao tamanho do grupo de visitantes que apresentava a carta-convite previamente obtida no Brasil. Passamos pelo controle de passaportes, agora com o visto pago, obtido e carimbado. Pegamos as bagagens aos trancos e barrancos, já que a esteira mais parava que andava. Depois, nova fiscalização das bagagens.
Uma das colegas preencheu as duas vias do formulário alfandegário com caneta preta. O funcionário recusou alegando que não aceitaria preenchimento a lápis. Ela insistiu que era caneta preta e não lápis. Ele insistiu que era lápis e não caneta preta. Ela teve que voltar e pegar outros dois formulários vazios, usar caneta azul e preencher tudo novamente. Aí sim o formulário foi aceito e as bagagens dela liberadas.
Do lado de fora do saguão do aeroporto, a jovem e sorridente guia uzbeque fluente em uzbeque, russo, inglês e espanhol, nos esperava. O veículo percorreu avenidas amplas e vazias naquela hora da manhã, com árvores peladas pelo início da primavera em país de inverno violento.
Para o aceso interno à construção mais alta da cidade, a torre de telecomunicações, a burocracia costumeira, com preenchimento de formulários, passagem por detector de metais, conferências, carimbos e destaques de vias dos ingressos e formulários preenchidos, tudo em postos a menos de dez metros um do outro. Uma guia específica da torre nos descreveu em inglês arrastado e em tom monocórdio as dimensões e peso de cada uma das partes da torre. O elevador levou somente até o andar permitido, de onde se tinha vista panorâmica da cidade, inclusive das montanhas nevadas a leste. Mas não era permitido tirar fotos através das janelas daquele andar dotado de bar e restaurante giratórios, ambos decadentes e tristes. As sonolentas garçonetes ainda insistiram para que ficássemos. Sorrimos, agradecemos à guia da torre e aos demais funcionários e fomos embora.
Almoçamos no antigo e tradicional hotel erguido na arredondada praça Amir Timur, em cujo centro o novo herói uzbeque se postava garboso acima do cavalo. Ao redor da praça, avenidas planejadas, largas e arborizadas, construções modernas e retilíneas.
A cidade de Toshkent (Tashkent) foi parcialmente arrasada pelo terremoto de 1966, cujo epicentro foi exatamente ali, no centro da cidade. As repúblicas soviéticas vizinhas e a própria Rússia soviética auxiliaram na reconstrução dando-lhe um visual mais moderno no centro administrativo e comercial da capital, agora cortada por avenidas largas, amplas, arborizadas, entre espaçosos gramados, construções retangulares e padronizadas. Tudo pela funcionalidade, urgência em reerguer a cidade destruída, abrigar os desabrigados.
Rumamos ao Museu de Arte Aplicada, contendo vasta e belíssima coleção de tecidos, bordados e estampados, em seda, algodão, fios de ouro, peças de cerâmica, objetos variados, móveis, instrumentos musicais pertencentes às diversas subdivisões culturais do Uzbequistão, distribuídos em salões ricamente ornamentados e coloridos. Bonito e fascinante. Porém, esgotados pelos dois voos em horários malucos, fora de prumo pela diferença de fuso, nos arrastávamos pelos diversos setores do museu.
Em país dotado de câmbio negro de moedas estrangeiras, troquei o necessário em Sum, a moeda do Uzbequistão. Considerando que a cotação era de um dólar para 2.500 sums e que a maior nota das mais usadas era de 1.000 sums, recebi um pacote de cerca de trezentas notas pelos 100 dólares que troquei. Vieram notas de 500 sums e 1.000 sums, envoltas em elástico e dentro de uma sacola plástica, peça que se tornaria gênero de primeira necessidade. Aquele espesso pacote de notas jamais caberia em bolsos ou carteiras. Teria que usar a mochila de ataque, entupida de sums, de dia ou de noite, a pé, de carro, de ônibus, de trem, de avião.
O jantar aconteceu em restaurante decorado com bordados e estampas típicas do interior do Uzbequistão, e com o palco recheado de instrumentos regionais e preparado para apresentações em dias específicos.
Dividido em quatro partes generosas, a refeição nos alimentou de saladas, sopa de beterraba, carne com arroz e cogumelos, sobremesa, água mineral livre. Arriscamos vinho uzbeque e nos demos bem, especialmente pelo sabor pronunciado e duradouro.
A cidade adormecia ao voltarmos ao hotel por avenidas esvaziadas de veículos e pedestres.
Saltei da cama antes de clarear e fomos ao novíssimo aeroporto doméstico da capital uzbeque.
Embarcamos em avião pequeno que sobrevoou planícies desérticas, entremeadas de manchas cinza-esverdeadas, algumas cristas baixas e alongadas, raras estradas ou caminhos rurais, mais raros ainda os vilarejos ou cidades. E aterrissamos no norte do país.
Cruzamos a pequena Urgench, cidade repleta de longas e largas avenidas, prédios baixos e modernos, excesso de espaço livre, muitas obras de construção e reconstrução espalhadas por toda a zona urbana. Arrozais e olarias se distribuíam ao longo da zona rural entre Urgench e Xiva (Khiva).
E pela manhã teve início a exploração totalmente a pé, e como tem que ser, de Icham-Kala, a Xiva (Khiva) milenar e fortificada, pertencente à antiga Rota da Seda que interligou durante milhares de anos a China ao ocidente.
As vielas, becos, largos, os quatro portais de entrada, as muradas, as mesquitas, as madraças, ou escolas corânicas, os palácios, as tumbas, o traçado irregular e charmoso das vias, os domos coloridos das construções, as colunas estampadas dos minaretes, o tom de areia das paredes e pisos, os ladrilhos ricamente decorados e montados em mosaicos belíssimos e abstratos, as portas e janelas detalhadamente entalhadas, os tetos, os homens, as mulheres, as crianças em circulação, os poucos turistas, o sol que resolveu aparecer e resplandecer tudo e todos, encantaram, deslumbraram, fascinaram.
Os minaretes, altos e baixos, finos e espessos, contendo faixas coloridas e estampadas abstratamente. Os domos das cúpulas, nas cores verde ou azul. A profusão de cores das sedas e tecidos mistos. O artesanato em seda, cerâmica, madeira, no caso plátano e nogueira. O conjunto, no geral e no detalhe, extasiava os olhos e os mais diversos sentidos.
O almoço veio com a sequência de quatro partes em salão interno e claro pela iluminação natural vinda do teto de uma construção restaurada de dois mil e tantos anos.
Os reservados e educados uzbeques sempre sorriam. Os mais jovens vestiam roupas escuras, cintos com fivelas enormes, às vezes terno completo. As mulheres vinham de salto alto, saias e vestidos coloridos, cabelos estilo anos 1960, alisados, ilustrados com pentes e enfeites grandes e brilhantes. Não caminhavam ou se portavam naturalmente. Aqueles e aquelas que se vestiam à moda regional, sem tentativas de ocidentalização, se sentiam mais à vontade. Várias mulheres idosas ostentavam dentes ou dentaduras inteiramente de ouro, dente a dente, causando brilho intenso à luz do sol.
Acordei cedo e detonei no café da manhã do hotel, em estilo bufê, que tinha tudo de bom, inclusive ovos fritos na hora. As frutas frescas, porém, fizeram bastante falta.
Seguimos para Beruniy e imediações rurais nas portas do deserto, pertencentes à região autônoma do Karakalpaquistão (Karakalpkstan).
Pelo caminho, cenas do Uzbequistão ignorado pelo turismo. Intenso processo de construção de obras residenciais, comerciais, administrativas, espaçadas entre si, de cores claras a pardas. Cartazes, placas, edifícios, ainda em alfabeto cirílico, mesmo depois da conversão ao alfabeto latino da escrita uzbeque dez anos antes. Plantações na beira do asfalto esburacado, hortas e pomares nas frentes das moradias. Lavradores e lavradoras trabalhando pesado na terra, eles invariavelmente de roupas escuras, elas com vestidos ou batas estampadas e de cores vivas. Embora em país de maioria muçulmana, nenhum sinal de mesquitas ou do islamismo.
Exceto as rodovias em péssimo estado, tudo parecia estar sendo refeito no Uzbequistão. Era obsessiva a intenção de apagar o passado. Mas não todo o passado, somente aquele que interessa à nova classe dominante. Raros os resquícios dos tempos em que o país era membro da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Uma construção abandonada ali portando a estrela vermelha acima, outro símbolo acolá. Em compensação, o novo regime passou a ostentar símbolos e estátuas dos novos “heróis”, anteriores ou posteriores à República Soviética do Uzbequistão. Desde 1991, ano da chamada “independência”, o país tem sido dirigido com mãos de ferro por uma camarilha que não admite oposição ou alternância de poder. E se estreitaram as relações diplomáticas, comerciais e militares com as “democracias” dos países membros da OTAN e com aquele regime terrorista ao norte do México. 
continua...