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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Paraná e Santa Catarina (parte 4/4)

...continuação
A sede veio a galope. Bebemos bastante água, seguida de mais sede e mais água. Tudo era caro na Ilha do Mel, sobretudo os líquidos. Levamos a do estabelecimento que doeu menos no bolso.
Desprovido de planos para o dia seguinte, optamos por passeio de lancha ao redor da ilha. Depois de voltear a extremidade sul, margear as praias de mar aberto, o farol, o vilarejo de Nova Brasília, paramos na praia da Fortaleza onde se erguia a Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, construída no século XVIII pelos invasores portugueses. Visitamos os interiores, os salões vazios e gradeados, as ameias acima, a fileira de canhões, o topo do morro oferecendo a vista panorâmica do nordeste da ilha.
Ao norte da Ilha do Mel, paramos na Ilha das Peças, onde moradores e turistas se agitavam para os festejos de São Sebastião. Lixo nas areias, águas e caminhos, bêbados caídos, muita gente, nenhuma atração digna de nota. Durante o trágico período da escravidão no Brasil, organizada e financiada durante séculos pelos países invasores da Europa, os africanos sequestrados eram largados ali e depois vendidos como peças, daí o nome da ilha. Fugimos de volta à Ilha do Mel.
Almoçamos no mesmo restaurante simples do dia anterior, atendido informalmente por garçons meio malucos, meio bêbados, meio chapados. A comida farta e saborosa não decepcionou.
A preguiça foi ao infinito em tarde ensolarada e tórrida. Nada de sombra na praia voltada ao poente. Água, muita água para hidratar o organismo e amenizar a sede.
O sol deu espetáculos de luzes e cores antes de se despedir. Por uns momentos esquecemos o calor, o suor pelo corpo, os mosquitos que punham as manguinhas de fora e começavam a atacar, para nos extasiarmos com aquelas imagens de cair o queixo. O sol já havia se escondido atrás das montanhas e no céu acima se formaram discretas faixas radiais e coloridas. O tom de metal fundido imprimia aspecto inesquecível às águas do mar.
Amanheceu novamente com o sol brilhando no céu azul desprovido de nuvens. E, logo pela manhã, quente, muito quente. Pegamos barco de linha ao trapiche de Nova Brasília, o segundo vilarejo da Ilha do Mel.
Nova Brasília, ao contrário de Encantadas, tinha as pousadas, bares, restaurantes, moradias, comércio discreto, voltados para dentro, por entre as trilhas e caminhos. Nada ficava de frente para o mar. O aspecto era de melhor infraestrutura das construções e instalações. E os preços, acompanhando a aparência, maiores, bem maiores que os de Encantadas.
Subimos pela trilha ao Farol das Conchas, de cujos altos tínhamos a vista estupenda de praias de ambos os lados da ilha.
Percorremos o istmo do meio da ilha, que as águas cobriam durante a maré alta em minha visita anterior à ilha. Naquela época, sobre a estreita faixa de areia, casas abandonadas, em ruínas, despencando, desmoronando, arrebentadas pelo avanço do mar. Dezenove anos depois o deslocamento do mar se invertera, o istmo de alargara, a vegetação crescia livremente.
Mergulhamos e nadamos nas águas mansas da praia do Farol, desprovida de qualquer nesga de sombra nas areias.
Conferimos mais uma vez os preços altos dos restaurantes de Nova Brasília, muitos dotados de som ao vivo, mesmo durante os almoços. Pegamos o próximo barco de linha e, sozinhos, apenas eu, ela e o barqueiro, fugimos para a informal praia de Encantadas.
E o calor não arrefecia. Andei cambaleante até o mar e entrei nas águas calmas e mornas. Boiei e nadei bastante. Despencamos nas cadeiras entre banhos refrescantes e reconfortantes na ducha do quintal da pousada. Até pensar cansava.
Saímos para dar voltas somente depois de escurecer, quando começava o discreto movimento noturno na beira do mar, a maioria com lanternas na mão. O céu estreladíssimo impressionava acima. Mas muitos moradores e turistas pareciam nem notar. Preferiam cutucar histericamente os celulares ou deitar os olhares bovinos na direção dos televisores instalados em alguns bares e restaurantes. Outros, mais felizes, se banhavam nas águas escuras do mar.
Mais sol, mais céu azul, mais calor ao novo amanhecer.
Caminhamos lentamente até a belíssima praia do Miguel, através do morro na parte norte da praia do Mar de Fora. Exceto os raros caminhantes em ambos os sentidos, a praia estava praticamente deserta em plena temporada de janeiro. E as areias e as águas, a despeito da ausência de sombras, nos convidavam a ficar e desfrutar. Nenhuma construção, nenhuma moradia, nenhum comércio. Ali permanecemos, contemplando e usufruindo da tranquilidade. Entramos na água transparente, contendo peixinhos ariscos, e nos refrescamos do sol ardente.
Ao bater a sede e a fome, vazamos à nossa velha conhecida praia de Encantadas. Regados a caipirinhas, comemos o farto e saboroso comercial com peixe, acompanhado do curtido, suculento e bem temperado feijão preto. Já nos tornáramos íntimos da casa.
E, para variar, após as caipirinhas e o lauto almoço, bateu aquele bode sob o sol fundindo tudo e todos. Caminhei perpendicular ao mar e caí nas águas mornas e com ondas pequenas. Mas não foi fácil, não. Devido à maré muito baixa, tive que andar mais de cem metros a fim de que o nível das águas alcançasse os meus quadris. Boiei, flutuei, com a cabeça para baixo e prendendo a respiração, para cima e olhando o céu incrivelmente azul.
Anoiteceu nublado com o céu sem indício de estrelas. Caíram oito ou dez pingos de chuva. Mais nada. Os pernilongos e borrachudos se assanharam atacando com mais fervor.
Amanheceu limpo, com céu azul, sol intenso e calor indescritível. Mas não era exatamente isso que buscávamos na Ilha do Mel?
Peguei trilha na extremidade norte da praia do Mar de Fora e subi o morro do Cruzeiro, em cujo topo um oratório a São Francisco de Assis e duas cruzes davam graças à praia do Miguel, à esquerda, e à praia do Mar de Fora, à direita. Paisagem exuberante numa ilha exuberante.
Nas imediações da Gruta de Encantadas, centenas de minúsculos caranguejos recém-nascidos se movimentavam desajeitadamente pelas areias úmidas, dando os primeiros passos independentes.
Mais mergulhos refrescantes diante de ondas bravas. Mais não fazer nada.
Cinzeiros feitos a partir de garrafas plásticas de água mineral e forrados de areia, inúmeros sacos plásticos, azuis ou pretos para diferenciar o lixo orgânico do lixo reciclável, distribuídos nas trilhas, caminhos e praias, garantiam a limpeza e o respeito à natureza por parte de moradores e visitantes. Pouco ou nada se via de lixo jogado fora dos recipientes apropriados. E em plena alta temporada de um janeiro ensolarado! Bem diferente da vizinha e emporcalhada Ilha das Peças, de passado sombrio, também na baía de Paranaguá. Eis um exemplo aos demais destinos turísticos brasileiros.
Noite abafada, mas de céu estrelado. Uma voltinha para cá, outra para lá. Assim encerramos nossa última noite na deslumbrante Ilha do Mel.
Acordamos cedo já sob o calor intenso. Abrimos o café da manhã da pousada. Fechamos tudo e nos despedimos do pessoal.
Barco para Pontal do Sul.
Ônibus para Curitiba, parando em cada ponto para embarque de novos passageiros, do começo do trajeto até atingir a rodovia que liga Paranaguá a Curitiba.
Ônibus ao aeroporto de Curitiba, em frente à estação rodoferroviária em obras, aos trancos e barrancos devido ao motorista afobado.
Avião e voo rápido em assentos desconfortáveis, somente com serviço de líquidos de transnacional estadunidense.
Ônibus comum para o metrô vindo do aeroporto de São Paulo. Raios, relâmpagos, trovões, estouravam no céu enegrecido e com nuvens pesadas a sudeste.
Metrô e caminhada até entrar em casa.
E assim, seis transportes ou nove horas depois, tudo num mesmo dia, naquele final de janeiro, nos deslocamos da repugnante Ilha do Mel à bela, arborizada e humana cidade de São Paulo. Quando é mesmo a próxima viagem?
 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Paraná e Santa Catarina (parte 3/4)

...continuação
No pé da serra atingimos uma sequência de cidades feias e mal cuidadas, invariavelmente construídas ao longo das rodovias vicinais, Lauro Muller, Orleans, Braço do Norte, Rio Fortuna. Mas nada como evitar o tormento rodoviário da infernal BR-101.
Alcançamos a charmosa Santa Rosa de Lima, pequena, ajeitada, simpática. Era hora do almoço e encostamos ao lado de padaria convidativa. Mas fomos vítimas de situação similar às piadas antológicas da Rádio Difusora de Camanducaia exibidas durante o saudoso Show de Rádio, transmitido após as partidas de futebol. A padaria, que vende alimentos, lanches e afins, estava fechada para almoço!
Percorremos o intervalo entre Santa Rosa de Lima e Anitápolis em estrada de chão. Os raros veículos em sentido contrário nos forçavam a aproximar do barranco. Apaixonado por estradas de terra, eu não tinha do que reclamar. A paisagem ao redor só gerou alegrias.
Anitápolis chegou, e com ela o asfalto. Em Rancho Queimado nos contentamos com salgados e doces caseiros da padaria. Evitamos a pesada BR-282 e seguimos no rumo norte, até a cidade de Angelina.
Mais puteiros explícitos na beira da estrada, de aspectos óbvios, nas frentes, na iluminação, nos nomes, nas fotos para atraírem clientes. Paranaenses e catarinenses pareciam mais afeitos a esse ramo de atividade que os colegas de outros interiores brasileiros. E irrompiam mais cemitérios com mania de aparecer, bastante chamativos nas encostas.
Novamente estrada de chão entre as cidades de Angelina e Major Gercino. Depois, asfalto até a cidade de São João Batista, em cuja rotatória as confusas sinalizações catarinenses me fizeram errar o acesso a Brusque e cair no inferno rodoviário da BR-101. Demos adeus às estradinhas vicinais, ao pequeno movimento de veículos, ao bucolismo rural, às casinhas de madeira perto de araucárias, hortas familiares, mata atlântica primária. E haja caminhões, carretas, veículos em geral, ultrapassando uns aos outros.
Assustavam de tão feias as cidades pelos quais passávamos. Inúmeros carros com placas da Argentina e do Paraguai viravam à direita e desapareciam nas infindáveis barreiras de altos edifícios na beira do mar. Como pioraram com o tempo os balneários do litoral norte de Santa Catarina!
Da BR-101 até propriamente a cidade de São Francisco do Sul, enfrentamos interminável fila indiana de veículos. Anoitecia. Optamos por hospedagem no centro histórico, não sem antes pechincharmos até o limite.
A chuva caiu com tudo no começo da noite. Arriscamos o restaurante do próprio hotel, completamente vazio. Os preços de tudo eram estratosféricos. Demos o fora.
Corremos até o restaurante na beira da água do canal, cujas obras internas estavam inacabadas, restando material de construção perto das mesas. Os garçons exibiam semblantes cansados e desencorajadores. O prato veio bem servido, mas o sabor desanimaria o mais famintos dos flagelados.  
Servido no amplo e triste salão, o café da manhã do hotel valeu somente pelos iogurtes e cereais. Os uniformes das funcionárias, feios, velhos, puídos, lembrando os de reformatórios, ajudaram a tirar o apetite.
E lá fomos para as praias da ilha, distantes do centro da cidade. Começamos pela praia da Enseada, sem graça, lotada, familiar, voltada para o continente, de ondas fracas. Seguimos à Prainha, de mar aberto, com ondas fortes, cercada de pedras em ambas as extremidades, também cheia de turistas. Mais adiante, praticamente vazia, a extensa Praia Grande, a perder de vista, de mar bravo, areias limpas e desertas. Atrás, as dunas do Parque Estadual Acaraí.
Após rápidos mergulhos, voltamos à urbanizada praia da Enseada para nos hidratar e forrar o bucho. Carros com placas do interior do Paraná e Santa Catarina, e obviamente da Argentina, abundavam nas transversais e paralelas à praia. Loiros e ruivos predominavam nos rostos.
No bar e restaurante instalado na própria avenida da praia, as caipirinhas vieram saborosas, bem temperadas, na base de cachaça branca, como deve ser. O abadejo, ou congro, grelhado e acompanhado de arroz, fritas e salada, chegou farto e com boa aparência, elogiadíssimo pelo garçom e pelo dono. Mas, porém, contudo, todavia, como parecia ser regra nos restaurantes em Santa Catarina, nada tinha gosto de nada. Alho, cebola, temperos em geral, ou mesmo sal, passaram longe do peixe e do arroz. A salada temperada por nós e as fritas acrescidas do sal se tornaram iguarias se comparadas ao peixe insípido.
Perambulamos pelo centro histórico de São Francisco do Sul. Mercado Municipal antigo transformado em área de lazer. Construções da passagem dos séculos XIX para o XX. Vista dos trapiches projetados sobre as águas, a linha do casario antigo erguido na rua frontal, dourado pela luz do entardecer, desenhava imagem digna de registros caprichados.
Antes do anoitecer as nuvens baixas e ameaçadoras cobriram tudo e a chuva caiu com força.
Pela manhã, depois de horas pela BR-101, devolvemos o carro na locadora em Curitiba.
Almoçamos bem e bastante no Mercado Municipal, regado a espumante paranaense para nos refrescarmos do calor curitibano.
E na manhã seguinte finalmente conseguimos descer a Serra da Graciosa na tão famosa, cantada em verso e prosa, viagem de trem. A empresa privada monopolizava o passeio turístico, utilizando a ferrovia da empresa que abocanhou trechos da estatal privatizada a preço de banana durante o regime neoliberal de Fernando Henrique Cardoso.
As três horas e meia de viagem de Curitiba a Morretes eram realizadas em três classes diferentes de vagões e serviços. Em cada vagão uma guia descrevia a paisagem, a história da ferrovia, dava as explicações necessárias, inclusive apontando, como professora infantil, as cenas e os momentos a serem fotografados.
Entre as falas da guia, uma vendedora oficial oferecia inutilidades da empresa privada ao estilo de camelôs de esquina. A maioria ignorava a tagarela inoportuna e virava o rosto.
Apesar de contar com imagens bastante familiares para os moradores do sudeste brasileiro, a natureza da serra do mar paranaense encantou. As montanhas do maciço do Marumbi, os túneis, cascatas, pontes, precipícios, mata atlântica preservada e colorida de manacás-da-serra, bromélias, araucárias, construções antigas, abandonadas e parcialmente cobertas pela mata.
Ao desembarcarmos em Morretes, praticamente ao nível do mar, a cidade torrava sob o sob do meio do dia. Mas enchia os olhos e a mente pelo bucolismo da arquitetura da virada dos séculos XIX e XX em ambas as margens do rio Nhundiaquara.
E caímos de cabeça no Barreado, o saboroso prato típico da região. Duas caipirinhas bem temperadas com a cachaça artesanal alambicada em Morretes arrombaram o apetite já aberto. A carne desfeita e cozida por horas, soltando molho enriquecedor, a farinha de mandioca posta no prato para ligar e engrossar, o arroz branco, a banana cortada em fatias na hora, compuseram a delícia.
A preguiça preencheu parte da tarde sob as sombras das pracinhas de frente para o rio.
Voltamos de ônibus de linha até a estação rodoferroviária da capital paranaense.
Na manhã seguinte embarcamos de ônibus para o balneário de Pontal do Sul em cujo ponto final nós alcançamos o porto de embarque para a Ilha do Mel.
Desembarcamos na praia de Encantadas, em ilha sem nenhum tipo de veículo motorizado, para alegria de quem ama a natureza e a tranquilidade.
Escolhemos para o almoço o bar e restaurante nas areias da praia. Apesar da caipirinha e da batida de maracujá não virem estupendas, comemos bem o comercial de peixe e camarão acompanhado de arroz, feijão preto, fritas e salada. O ambiente descontraído e levemente bagunçado garantiu o bem-vindo relaxamento físico e mental.
Andamos no rumo da Gruta de Encantadas e da praia do Mar de Fora, ambas de frente ao mar aberto com ondas fortes e águas esverdeadas. Margeei alagadiços habitados por gaviões corpulentos. Subi o morro e avistei a belíssima praia do Miguel, a praia Grande, o farol das Conchas, desenhando cenário colorido sob o céu azul e o intenso sol da tarde. Me banhei na praia do Mar de Fora, de águas límpidas e violentas, formando ondas irregulares e traiçoeiras.
continua...

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Paraná e Santa Catarina (parte 1/4)

Tirando a visita a Foz do Iguaçu dois anos e tanto antes, bastante tempo correu desde minha última viagem ao sul do Brasil.
Mas eis que ela propôs descer de trem a Serra da Graciosa e relaxar na Ilha do Mel. Aproveitei e incluí no roteiro os altos de Urubici e a Serra do Rio do Rastro.
E no início de janeiro lá fomos pela via aérea até Curitiba, evitando assim a assassina rodovia Regis Bitencourt que liga São Paulo à capital paranaense.
Desembarcamos no aeroporto de Curitiba debaixo de vento e chuva forte.
Pegamos o ônibus Ligeirinho na estação tubo em frente ao saguão principal. Descemos próximos à estação Rodoferroviária também debaixo de chuva. Caminhamos com as bagagens nos protegendo do aguaceiro nas raras marquises da rua Mariano Torres.
Famintos, esvaziamos as bagagens no quarto do hotel e saímos para jantar.
Choveu durante toda a noite. Amanheceu nublado e sem chuvas.
Caminhamos apressados para a estação Rodoferroviária a fim de pegar o trem de descida da Serra da Graciosa que sairia cedinho. A viagem daquele dia, porém, fora cancelada em função das chuvas durante a noite e madrugada.
Tentamos alternativas de ir a Morretes. Os horários de ônibus não ajudavam.
Enrolamos no Mercado Municipal bem em frente à estação na esperança de surgirem ideias para aquele dia cinzento.
Na esquina oposta ao Mercado saía o ônibus turístico percorrendo as principais atrações de Curitiba. Embarcamos no veículo lotado de turistas que também não puderam descer a serra de trem.
 O ônibus turístico percorreu um roteiro de cerca de três horas pelas cercanias ricas e bonitas da capital, apenas e então somente pela fina flor dos bairros curitibanos. Nada da Curitiba da maioria da população carente. Descemos na Ópera de Arame, então fechada para reformas, e no Jardim Botânico, abrangendo parques, áreas para exposições, pequeno zoo e o Palácio de Cristal, cartão postal de Curitiba. No mais, trechos sem grandes interesses da cidade, ruas com mansões e casas de moradores abastados, torres altas de telefonia, mais parques, algumas construções vistosas no centro novo e antigo da capital.
De lá voltamos a pé até o Mercado Municipal, onde almoçamos razoavelmente.
No hotel nos entregamos à preguiça e cochilos eventuais. Comecei a leitura do Expresso do Oriente, de Graham Greene, escolha bem despretensiosa para aquela viagem.
Anoiteceu com céu limpo e estrelado.
Encaramos espera em boteco árabe, cheio, bastante informal e descuidado. O kebab, no entanto, não decepcionou, seja na quantidade, seja na qualidade. Matamos o que estava nos matando.
Na manhã seguinte, andamos com as bagagens até o terminal urbano de Guadalupe para pegar o ônibus até a locadora de automóveis. Nas imediações do terminal, ambiente pesado, hotéis “estritamente familiares”, bêbados urinando nas paredes, pedintes. Normal para aquele tipo de entorno de cidade grande.
Entramos no carro básico, prata obviamente, e pegamos o sentido norte da BR-116, saindo no acesso ao ramal rodoviário da Serra da Graciosa. Paramos no mirante nos altos da Serra do Mar paranaense, de onde se tem vista panorâmica das montanhas, das baixadas e do litoral.
Descendo a serra, percorremos trechos calçados de paralelepípedos, em concreto, raros em asfalto, todos invariavelmente sinuosos, em declive acentuado, entre curvas fechadas, paisagens exuberantes, relevo montanhoso, muito verde, araucárias nas partes altas, manacás-da-serra, pássaros variados.
Subimos a serra pela BR-277 que liga Paranaguá à Curitiba. No planalto acessamos a BR-376 que se tornaria a famigerada BR-101 mais adiante. Felizmente nos livramos daquele trânsito infernal no trevo de Rincão, pegando a rodovia local rumo a Tijucas do Sul. Para nossa alegria, o movimento de veículos se tornou mínimo naquela estrada sinuosa cortando paisagens rurais, com casas de madeira, araucárias, pequenas plantações.
Lanchamos lanche farto e bem preparado em Agudos do Sul. Ignorando o trevo para Piên, cruzamos a divisa entre os estados do Paraná e Santa Catarina.
Nos chamava atenção a localização e o destaque dado aos cemitérios locais. Quase sempre construído nas encostas dos morros, se inclinando para as vias e estradas, se tornava impossível não notá-los ou não tecer-lhes comentários.  
Pouco antes de São Bento do Sul, tudo parou, em ambos os sentidos. Ninguém ia e ninguém vinha. Inicialmente pareciam obras na pista. Depois, algum acidente que interditou as duas faixas. Finalmente nos informaram o motivo real. Moradores de São Bento do Sul e das imediações, cansados das promessas vazias do governo estadual para tapar os buracos da estrada, interromperam o tráfego, bloqueando o fluxo com dois caminhões, um perpendicular ao outro. Só passava pedestre ou ciclista com a bicicleta nas costas. Nem moto conseguia ultrapassar o bloqueio.
Distribuíram panfletos explicativos, deram entrevistas para o jornal local, ligaram o som, fizeram um minicomício. Denunciavam o descaso das autoridades, forneciam informações de como andavam as negociações, enriqueciam o evento com dados técnicos disso e daquilo. Um deles esclareceu que como aquela rodovia estadual mudara de número, a verba para o recapeamento viera para o número antigo e não poderia ser liberado para a rodovia de número novo assim sem mais nem menos.
Em região colonizada por imigrantes europeus, vira e mexe vinha um deles conversar e esclarecer as reivindicações com os ocupantes dos veículos parados na pista. Loiros legítimos, de rostos suados e avermelhados pelo sol, pareciam pimentões brilhantes. E se expressavam em português carregado de um misto de sotaques estrangeiros, de termos regionais, com olhares simplórios de gente do campo. Até que se tornava divertido vê-los e ouvi-los falando, amenizando aquela longa espera sob o sol quente.
A polícia militar catarinense assistia a tudo sem intervir. Crianças loiríssimas passavam de bicicleta e tentavam nos apavorar garantindo que o bloqueio demoraria horas ou talvez dias.
Depois de duas horas e meia, porém, os líderes liberaram o tráfego, ameaçando bloquear a estrada, ali chamada de rodovia dos móveis, caso o governo estadual não atendesse às exigências dos manifestantes.
E seguimos no rumo sul dos interiores altos de Santa Catarina.
Dezenas de puteiros se espalhavam na beira da estrada ou em curtos acessos laterais, conforme as placas indicativas. Assim como os inúmeros do interior do Paraná, os puteiros catarinenses usavam e abusavam de cores vermelhas e escandalosas na parte da frente dos estabelecimentos, como também em imensas fotos onde uma deusa do amor, que só existia na foto, jamais dentro deles, em trajes mínimos, posava com olhares e bocas convidativas. Em alguns casos até tentavam disfarçar o ramo de atividade, mas a tabuleta frontal com palavra Drink´s e a luz vermelha perto da porta de entrada não deixariam dúvidas à maior das carolas.
O relevo acidentado se acentuou radicalmente entre as cidades de Corupá e Jaraguá do Sul, revelando serras estupendas, vales e precipícios, olhos d’água, pequenas cascatas, riachos com corredeiras, verde exuberante guardando hortênsias, flores e aves diversas. Nossos olhos se alternavam entre a pista e a paisagem de tirar o fôlego. Esparsas casinhas de madeira se erguiam nas encostas. Araucárias e espécies da mata atlântica irrompiam no terreno.
Ao entardecer, a descida íngreme da serra, entre sinuosidades agudas, antes de Jaraguá do Sul, mereceu que diminuíssemos a velocidade a fim de melhor apreciar as impressionantes serras, deixando os apressadinhos nos ultrapassarem à vontade.
Mesmo perguntando mais de uma vez e fuçando as péssimas placas catarinenses de orientação, erramos um bocado para encontrar a saída em Jaraguá do Sul para a cidade de Pomerode.
Pretendíamos pernoitar em Pomerode, mas devido às festividades dos imigrantes pomeranos não havia vagas nos hotéis da cidade ou dos arredores. Loiros e loiras vestidas a caráter se movimentavam pelas ruas da cidade aplainada e sem maiores atrativos.
 Pegamos a BR-470. Encontramos o posto de combustíveis conjugado com o centro de conveniências e com o hotel. Nem regateamos o preço salgado da diária. Mesmo assim o loiro delicado que nos atendeu cobrou um valor bem abaixo do inicial. Levamos as bagagens para o quarto amplo, novo, limpo, bem ajeitado.
Descemos ao centro de conveniências para improvisar um lanche em dia de também lanche no almoço.
Acordamos tarde no quarto confortável do hotel de beira de estrada para o café da manhã. A recepção nos forneceu um vale para cada um a ser abatido das despesas no centro de conveniências. Nos entupimos de comer e ainda levamos água mineral para completar o valor.
continua...