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segunda-feira, 24 de outubro de 2022

de Goiás ao Piauí (via GO, MT, TO, BA, PE, CE, PI) (parte 6/7)

 ...continuação

Pela manhã, atravessei mais uma vez a pé a ponte sobre o rio São Francisco. Circulei pelo centro velho de Juazeiro, mortinho da silva naquela manhã de domingo. E retornei a Petrolina de barco.

Almocei novamente no restaurante ao lado do hotel, aquele frequentado pelos mais entre os mais de Petrolina. E lá estavam eles marcando presença. Ao final, adquiri na lojinha ao lado meio quilo do estonteante bolo-de-rolo, recheado de goiabada, produto tipicamente pernambucano.

E voltei ao quarto de hotel para fugir da modorra da tarde. Comecei a ler os contos de O Macaco Que Se Fez Homem, de Monteiro Lobato.

O ônibus partiu cedinho da rodoviária de Petrolina. Seguiu pela BR-428 até Lagoa Grande. Atravessou caatinga brava, espinhenta, fechada, sobre solo pedregoso. Nas zonas irrigadas, porém, intensa fruticultura, comercializada nas próprias cidades ou levadas para cidades distantes. Dobrou na BR-122, ainda atravessando a mesma caatinga fechada, pouco habitada, exceto por minúsculos e isolados vilarejos.

Parada para almoço ao lado de Santa Cruz, cidadezinha também chamada de Santa Cruz da Venerada e de Cruz de Malta. No posto de combustíveis ao lado do restaurante, carretas gigantescas estacionadas carregavam imensas peças dos coletores de energia eólica. Aguardavam o horário noturno permitido para tráfego de tais veículos nas rodovias. Embora considerada limpa, a energia eólica, imposta sem debates públicos, causava tremenda poluição visual em toda a região instalada, assim como ruídos perturbadores aos moradores próximos.

Pequenos e médios serrotes despontavam no relevo aplainado da caatinga.



Na plana, feia, suja e desorganizada cidade de Ouricuri o ônibus despejou e recolheu passageiros nas beiras das calçadas, em paradas muito próximas entre si, às vezes quarteirão a quarteirão.

Esse estranho comportamento fez lembrar as escolas em São Paulo, frequentadas pelos filhos dos ricos. Os pais formavam imensas filas de carrões, congestionando o trânsito, para deixar e buscar os respectivos nas portas das escolas. Exatamente na porta das escolas. Nem mais um metro, antes ou depois. O que me levava a chamá-las de escolas de “aleijados” porque o aluno não “conseguia” andar se o carro o deixasse ou o resgatasse a uma quadra ou mais de distância.

Já nos interiores brasileiros, ali em Ouricuri por exemplo, como resultado dessa prática, a rodoviária da cidade, nova, ampla, cheia de espaços disponíveis para o comércio local, órgãos públicos e outros interessados, todos vazios e fechados, apresentava pouco ou nenhum movimento nas plataformas.

A partir de Ouricuri o relevo se tornou mais acidentado e a vegetação mais desenvolvida e menos árida. O não aproveitamento das terras, contudo, permanecia o mesmo.

Bodocó, cidade pequena e simpática, tipicamente sertaneja, com a feira semanal a todo vapor, também contribuiu para manter o ônibus lotado desde Ouricuri.

Estátuas, esculturas, pinturas, cartazes, faixas, frases de Luiz Gonzaga, nas margens da estrada, pracinhas, muros, paredes, anunciavam Exu, terra natal do rei do baião. A cidade revelava urbanismo bagunçado, disforme, acidentado, mas de legítima cidade sertaneja pé-de-serra, no caso a serra do Araripe.

Nas cercanias ao norte de Exu a rodovia ziguezagueou em aclives, chapada acima, ao lado de vegetação agreste, quase tropical, bem mais desenvolvida que nas baixadas. No altiplano, a natureza se encontrava preservada nas imediações da unidade de conservação ambiental da Serra do Araripe. Não demorou a divisa interestadual entre Pernambuco e Ceará. Daí a estrada entrou em declive, rumo ao vale do Cariri, ao longo do qual Crato e Juazeiro do Norte reinavam absolutas.

Desembarquei no meio da tarde na rodoviária de Juazeiro do Norte. Me instalei em quarto de hotel, como os demais quartos do estabelecimento, sem janelas, sem tapetes no banheiro, fora ou dentro do box, sem lençol de cima. Retirei da cama de solteiro o lençol de baixo e o usei como o de cima na cama de casal.

Saí cedo para jantar. A fome exigia comida farta e nutritiva. Acabei caindo nos arredores da praça de nome, adivinhem qual, Padre Cícero, justamente na esquina da rua, adivinhem qual, Padre Cícero. Comi bem e bastante ao lado de mesas ocupadas com clientes bebericando sem pressa. Fui de carne-de-sol, baião-de-dois com queijo coalho, macaxeira cozida, vinagrete, farofa. Enchi divinamente o bucho em mesa ao ar livre.

E ali, na calçada onde se instalavam as mesas ao ar livre, me deparei com fenômeno que marcava como selo os destinos religiosos e de peregrinação. A mendicância. Pedintes. Aos montes. De vários aspectos e estratégias de atuação. Um deles, vestido de missionário, com roupa longa de algodão cru e tudo o mais, rodeava as mesas de hora em hora, sempre com o olhar sofrido de mau ator. Mas eram muitos, muitos mesmo.



Na volta ao hotel encontrei enorme barata viva sob a cama de casal. A primeira barata vista em quarto de hotel em quase dois meses de viagem pelos interiores de seis estados brasileiros.

Pela manhã saí para subir a colina do Horto, sobre a qual se encontrava a estátua de Padre Cícero e outras construções religiosas. Era local de peregrinação intensa de brasileiros, sobretudo em quatro datas anuais. Descrevi em detalhes essa exploração nos relatos de minha viagem anterior, realizada vinte anos antes.

Era subida árdua e constante, durante mais de uma hora, por rua estreita e sinuosa, calçada de paralelepípedos, com esgoto a céu aberto fétido escorrendo por ambas as sarjetas. No topo, sob a estátua, nenhum guia ou pedinte, e poucos vendedores de bugigangas religiosas, ao contrário de minha primeira visita.

Além da vista panorâmica de Juazeiro do Norte, se destacaram os nomes e frases de milhares de devotos gravados a caneta, umas sobre as outras, na base da estátua do Padre Cícero.

Ao voltar, notei que, além de não terem limpado o quarto do hotel, os corredores de acesso não viam faxina havia dias. A mosca morta que encontrara na soleira da porta dias antes ainda estava lá, intocada.

Repeti o jantar da noite anterior. Circulei levemente pela praça Padre Cícero. Os pedintes, sempre os mesmos, caracterizados de igual maneira, incluindo o falso missionário e péssimo ator, pediam repetidamente, insistentemente.

E voltei ao quarto do hotel onde não havia limpeza, troca de itens sujos ou arrumação. Mas havia, sim, baratas vivas e moscas mortas.

O ônibus partiu cedo com poucos passageiros, metade dos quais, eu inclusive, usando máscara facial contra a covid-19.

O veículo parou em Crato, Farias Brito, Várzea Alegre, por entre serras, serrotes, colinas, vales, muito verde, umidade, água, fertilidade. Eram cidades de bom aspecto, mas as mutilações geométricas das árvores das ruas e praças estavam lá, desgraçadamente. Na margem de uma das rodovias, me chamou atenção igreja ou capela, isolada, no meio do nada, de fachada e portão alto, datada de 1762.

A relevo se suavizou ao chegar em Iguatu, cidade média cujo centro comercial fervilhava de movimento. Estação ferroviária, linhas de trilhos, simples e duplas, pontilhões metálicos, apontavam, assim como em toda a região nordeste, que a ferrovia, de cargas e passageiros, reinou com eficácia e eficiência durante décadas. A ditadura do transporte rodoviário, no entanto, se impôs pela força dos monopólios capitalistas, sucateando e abandonando o transporte ferroviário.

Nos arredores urbanos apareciam, esparsas casas de taipa ou de pau-a-pique, em péssimo estado. Algumas abandonadas, outras com seres humanos sobrevivendo amontoados.



A vegetação passou a agreste. A serra de Acopiara e a cidade de mesmo nome despontaram na paisagem. Parada para almoço em Catolé da Pista, distrito entre serras no município de Piquet Carneiro.

A rodovia seguia no rumo norte. Cidadezinhas surgiam e ficavam para trás, mas o ônibus parava em todas elas para desembarque e embarque de passageiros. Entre elas, Mombaça, Mineirolândia, Senador Pompeu.

Ainda na CE-060 brotaram lajedos cobertos de xique-xiques, rochedos imensos. Mas ao entrar em Quixeramobim os rochedos se afastaram e a cidade plana nada oferecia de atraente aos olhos.

Na BR-122, aí sim, mais monólitos, maiores, próximos da rodovia, escarpados, anunciando Quixadá, cidade rodeada deles e tão bem relatada na viagem anterior. Pertencente à região do Sertão Central, típica do semiárido cearense, exibindo vegetação de caatinga, Quixadá costumava sofrer com secas periódicas e devastadoras.

Anoiteceu.

Ao entrar na BR-116 o ônibus se deparou com buraqueira, lama, poças d’água, causados pelas chuvas recentes e pelo descaso do governo federal de então, a serviço de projeto capitalista de destruição da infraestrutura nacional e da entrega das riquezas brasileiras aos monopólios privados, sobretudo estrangeiros.

O frio se tornou intenso internamente. Vesti a blusa guardada providencialmente na mochila de ataque e logo adormeci. A maioria dos passageiros usava máscara facial de proteção conta a covid-19.

 Ouvi durante a madrugada o motorista anunciar aos dorminhocos a cidade de Camocim, no litoral oeste do Ceará. Amanheceu no Piauí, nas imediações de Cajueiro da Praia. Em seguida, bem próximo ao mar, o ônibus cruzou o município de Luís Correia, ao lado das praias do Coqueiro, Peito de Moça, Atalaia, antes de se dirigir à Parnaíba, passando não muito afastado da lagoa do Portinho. E vivas ao mar que aparecia pela primeira vez aos meus olhos em quase dois meses de viagem!

Desembarquei na rodoviária de Parnaíba no começo da manhã.

O funcionário do banheiro do terminal, que colocava bem altas as gravações de Roberto Carlos, talvez porque adorava o repertório, talvez para ajudar a encobrir os ruídos orgânicos dos usuários, pedia contribuições espontâneas ao final das necessidades fisiológicas de cada um.

Permanecei nos sofás da recepção do hotel, aguardando a liberação do quarto, apenas trocando de lugar para fugir dos raios de sol. Sim, porque em Parnaíba fazia calor de verdade. Aproveitei para registrar no diário as emoções e sensações vividas desde a saída de Juazeiro do Norte no dia anterior.

Almocei bem comida saborosa e temperada em restaurante simples. E hidratei a refeição com a divina cajuína cristalina da região. Parnaíba mantinha a qualidade dos serviços urbanos, entre garçons, balconistas, recepcionistas, caixas.

Comecei Romance d’ A Pedra do Reino, calhamaço de Ariano Suassuna. Acreditava que jamais iria encontrar monotonia naquelas mais de mil páginas.



Após o farto café da manhã tomei micro ao centro da cidade, zona conhecida como Porto das Barcas, na margem direita de um dos braços do rio Parnaíba, borda leste do Delta do Parnaíba. De lá subi em outro ônibus à praia da Pedra do Sal, ao norte da ilha Grande de Santa Isabel. Sentada ao meu lado, piauiense cinquentona de feição mameluca, envelhecida e gasta pela vida. Passara a noite em claro e exalava odor de álcool. Tinha filhos espalhados pelos estados do país. Morava num clã familiar, pouco ao sul do mar, sozinha em casa, mas ao lado de casas de filhos e outros parentes. Ali desembarcou, carregada de tralhas compradas na cidade e amontoadas no fundo do ônibus.

Desci no ponto final, em frente ao mar. As duas baías da praia da Pedra do Sal, a mansa e a brava, seguiam firme na situação de abandono. Pouca gente, barracas decrépitas de comes e bebes, a maioria fechada ou abandonada, dezenas em ruínas. Triste quadro em local repleto de belezas naturais. Os raros hotéis e pousadas, na mesma, caindo aos pedaços. Muito espaço vazio. Ruas e calçadas levando a lugar nenhum. Areia cobrindo pisos e calçadas. Coletores de energia eólica ocupavam extensas áreas em ambas as baías, compondo efeito visual questionável.

O vento fustigava com violência. E o sol não dava tréguas.

Acabei optando por bar, obviamente de mau aspecto, mas com meia dúzia de fregueses. Duas águas de coco, doze bolinhos de peixe até que razoáveis, me abasteceram parcialmente enquanto eu observava o mar agitado da maré subindo ao longo da baía brava. Visual bonito e relaxante de praias pouco frequentadas, águas limpas e natureza preservada. Apesar de tudo.

Durante o trajeto do ônibus na volta apreciei os carnaubais preservados em zonas alagadas ou alagáveis. Lindo demais! Nada construído ou cultivado por ali. Parecia unidade de conservação.

Em vez de descer ao pé da ponte sobre o braço do rio, fui até o ponto inicial daquela linha urbana de ônibus, até a zona do mercado 40. Naquele momento, fim da tarde de sábado, tudo fechado. Apenas alguns bares sórdidos acolhiam bêbados inveterados. Ao redor, moradores de rua, pichações do PCC nas paredes, ambiente para lá de suspeito. Apertei o passo para sair dali antes de escurecer e partir para longa caminhada ao hotel.

Jantei peixada atraente e fresquinha em bar e restaurante no canteiro central da avenida São Sebastião. Era local tranquilo, sem música ao vivo, silencioso, com a lua quarto-crescente subindo acima das copas das árvores.

continua...

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

de Goiás ao Piauí (via GO, MT, TO, BA, PE, CE, PI) (parte 5/7)

 ...continuação

O guia, que se dizia tetraneto de conselheirista, me pegou de moto de manhã cedo. Acompanhados de casal paulista sessentão que estavam de carro alugado em Aracaju, lá fomos para as explorações naturais, em casas e museus que explicavam a história do arraial de Belo Monte, depois Canudos, massacrado pelo exército do Brasil, após quatro tentativas de ataque aos moradores que resistiram bravamente ao genocídio.

Criado em 1986, o parque estadual de Canudos se mantinha administrado pela UNEB, universidade estadual da Bahia, universidade pública e gratuita.

Em área de mil hectares, o parque abrangia vários sítios onde ocorreram as batalhas travadas pelo exército contra o arraial, este posteriormente submerso pelo açude de Cocorobó, em atitude deliberada das classes dominantes para apagar a história. Pouco se via de vestígios do massacre ao longo do vale do rio Vaza Barris. Afinal se passaram mais de cento e vinte anos. Painéis explicativos e informações adicionais pelo guia nos ensinavam o que ocorrera no alto da Favela, no vale da Morte, nas trincheiras, em eventuais cartuchos e ossadas encontradas pelo caminho.

O açude de Cocorobó cobria a primeira Canudos, incendiada pelo exército. A segunda Canudos, para onde os moradores se transferiram voluntariamente, também foi submersa pelas águas do açude em 1968, auge da ditadura empresarial e militar implantada a partir do golpe de Estado de 1964.

Visitamos as ruínas da Canudos velha, a segunda, de onde se via a famosa igreja velha, emersa devido à baixa das águas do açude. Em seguida, a lagoa do Sangue, onde os conselheiristas sobreviventes do massacre foram degolados pelo exército, embora desarmados e rendidos, a maioria mulheres e crianças. Ainda caminhamos, atravessando o riacho Umburana, então completamente seco, ao ponto onde estivera o corpo do Moreira César. O arrogante e espalhafatoso comandante da terceira expedição contra Canudos fora ali abandonado após ser carregado pelos soldados famintos por quilômetros desde o arraial de Belo Monte, local da morte do oficial.



Encerramos o dia ao por do sol no eixo da barragem do açude de Cocorobó. A jusante floresciam plantações de bananas, entre outras frutas e produtos agrícolas, ao longo do leito umedecido do rio Vaza Barris. As exuberantes plantações comprovavam que ali jamais houve problemas com a fertilidade do solo, mas sim com a concentração da propriedade da terra e com a falta de acesso à água, ambas monopolizadas nas mãos da minoria de latifundiários.

Em nova visita ao IMPC, Instituto Popular Memorial de Canudos, os cuidadores realçaram a importância de manter viva a memória daquele crime hediondo cometido pelo exército, mais um dentre muitos, a serviço do então governo federal do Brasil. E também destacaram que a resistência prolongada dos moradores de Canudos contra os ataques militares comprovou que a organização, a união e a mobilização são as únicas armas do povo contra a exploração e a opressão das classes dominantes, de ontem e de hoje.

A Canudos nova, a terceira e atual, com menos de sessenta anos de idade, era aplainada e de traçado quadriculado. Felizmente, porém, não se espalhava em vias largas e inóspitas. Canudos tinha cara de cidade, sim. Nada de atraente arquitetonicamente, mas de resultado final satisfatório. Se fosse coibido o crime da mutilação geométrica das árvores de ruas e praças, destruindo sombras refrescantes, Canudos se tornaria bem mais agradável.

Passava da meia-noite. Do lado da janela do quarto do hotel, a inauguração de bar seguia a todo vapor com indivíduos se revezando no palco e vomitando gritarias. Do lado oposto, sons tão altos quanto o do evento, mas vindo das caixas de som de carros particulares. Os sujeitos duelavam para ver quem explodia o som mais alto e trepidante. E eu era o único hóspede do hotel naquela noite barulhenta de sábado.

Os policiais militares da Bahia perambulavam pelas ruas da cidade em carro oficial e com metralhadoras a tiracolo. Da lei do silêncio jamais ouviram falar. Aqueles fardados foram treinados para matar trabalhadores, pobres e pretos, jamais prevenir a poluição sonora ou proteger a vida dos cidadãos comuns.

No café da manhã, básico e condizente com a qualidade do hotel, a proprietária informou que de madrugada, durante a festa de inauguração do bar da esquina, um rapaz fora assassinado. Era canudense e conhecido dela. O corpo havia sido retirado do local do crime havia minutos.

E saí a esmo pelas ruas de Canudos. O assassinado da madrugada era o assunto recorrente. Ninguém se lembrava, no entanto, de condenar a polícia militar. A instituição daquele governo estadual constrangia cidadãos comuns pelas ruas da cidade, conforme eu testemunhara na noite anterior, mas não tinha competência, ou interesse, em barrar pessoas armadas numa festa de rua.



Encerrei o ótimo Cangaços, de Graciliano Ramos. Embora eu tivesse lido a maioria dos artigos em Viventes das Alagoas e em dois capítulos de Vidas Secas, agradou a ideia de editar num único volume aqueles textos sob o tema do cangaço. Menos os personagens em si, e mais as origens, as causas e o contexto histórico e social do fenômeno que assolou os interiores do Brasil, sobretudo durante a República velha.

Embalei as leituras com os contos de Negrinha, de Monteiro Lobato O autor era injustamente demonizado e perseguido pelos movimentos chamados de identitários, de cunho pequeno burguês, que defendiam conteúdos importados daquele regime terrorista ao norte do México.

À noite, mesmo com o tempo chuvoso e poucos em circulação pelas ruas e calçadas, o som alto, em bares e carros, confirmava a regra que no nordeste a poluição sonora reinava não como exceção, mas como característica cultural.

Sem o café da manhã, fui esperar o micro perto da esquina da rua com os enfeites das festas de Santo Antônio. No itinerário, pela BR-235, os distritos de Canché, Água Branca e Brejo Grande, a últimas duas vilas com casas dotadas de platibandas. Raríssimas, distantes e isoladas formações rochosas brotavam no horizonte. No mais, pequenas propriedades, bananais, gado, caprinos, coqueirais, caatinga esverdeada e úmida, terreno levemente ondulado.

Sob a chuva fina e teimosa, desembarquei bem cedo na minúscula rodoviária de Jeremoabo. Belisquei bolachas salgadas e iogurte, trazidos na mochila de ataque. Me mudava sempre de lugar a fim de driblar as inúmeras goteiras no teto do terminal.

Aproveitei a estiagem momentânea e me dirigi à pousada próxima, mal conservada, com quartos escuros e mofados. Detestei o que vi. Atravessei a avenida de volta à decrépita rodoviária.

Belisquei mais bolachas e castanhas. Haja goteiras no teto do terminal de zinco da estação! As pancadas de chuva se tornaram mais intensas.

No meio do dia embarquei em ônibus praticamente vazio. Pouco depois desci na rodoviária de Paulo Afonso. Era cidade nova, planejada e espalhada ao longo de extensas e largas avenidas que atravessavam a ilha em meio ao lago formado com as águas do rio São Francisco por conta da hidrelétrica de Paulo Afonso.

No meio da caminhada ao hotel me simpatizei com restaurante. Parei, com bagagens e tudo, para devorar carne de sol coberta com queijo coalho e acompanhada por macaxeira bem crocante.

Sem quaisquer retornos promissores das agências de turismo quanto a passeios organizados ao Raso da Catarina, inviáveis por conta própria, eu saí para caminhar pelas ruas e avenidas de Paulo Afonso, mais especificamente no rumo das águas da hidrelétrica no São Francisco.

A despeito de não contar com conjunto arquitetônico ou histórico digno de nota, e se distribuir por avenidas largas e extensas, Paulo Afonso tinha um charme peculiar. O povo sorridente e receptivo, as áreas verdes amplas e tranquilas nas imediações da represa, forneciam à cidade atmosfera leve e agradável. Passei pelo centro comercial, parques, margem da represa com a hidrelétrica ao fundo, bairros ribeirinhos ou ao lado de riachos que corriam ao longo de gargantas profundas, pedregosas e áridas, estas quase sempre beirando a divisa interestadual entre Bahia e Alagoas. Muitos usavam máscaras faciais contra a covid-19, inclusive em espaços abertos. População bem orientada.

As faixas de pedestres das avenidas de Paulo Afonso, sem qualquer semáforo, eram respeitadíssimas pelos motoristas. Bastava se posicionar na calçada, em frente à faixa, que os motoristas ligavam o pisca-alerta, paravam, e os pedestres podiam atravessar calmamente.

Não muito comuns, mas charmosíssimas, as motos adaptadas a triciclo com capota e banco duplo para passageiros. Uns incrementavam a carroceria, parecendo bólidos futuristas. Quem disse que tais tipos de veículos só circulavam pela Ásia ou em Iquitos?

O bacanal em torno da provável privatização da Eletrobrás ia a todo vapor. O capital financeiro se refestelaria com a aguardada subida dos valores das ações da empresa estratégica estatal e também com a criação de fundos lastreados nessa privataria. Era a orgia dos donos do mercado, da grande burguesia, dos grandes capitalistas que dominam a economia brasileira e mundial!



Li mais contos de Negrinha, de Monteiro Lobato. Ouvi vídeos debatendo a conjuntura política do Brasil, outros de humor para descontrair.

Embarquei pouco antes da meia noite em ônibus vazio proveniente de Maceió. A numeração dos assentos, nos pisos inferior e superior, em nada combinava com o mapa que a bilheteria me mostrara e através do qual escolhi o lugar. Não era ônibus executivo, mas leito. Acabei ficando no piso inferior em banco grande, largo, confortável e com inclinação quase horizontal.

Dormi bem. Só acordei durante a madrugada, na parada em Cabrobó, para voltar a adormecer novamente. Antes saquei a malha da mochila de ataque para me proteger do friozinho do ar condicionado.

Desembarquei ao amanhecer na rodoviária de Petrolina.

Era cedo demais. O quarto do hotel ainda estava ocupado. Conversei com a sorridente funcionária do balcão que estudava a bizarra combinação de relações internacionais e teologia.

Perambulei pela orla urbanizada do rio São Francisco, tendo como vista as águas do rio, a ponte velha, e ainda a única e sempre carregada, às vezes engarrafada pelo tráfego intenso de veículos, e a cidade de Juazeiro na margem oposta.

Atravessei a pé, pela extensa ponte, até a Bahia, observando a ilha do Fogo, no meio do caminho, mas ainda no estado de Pernambuco. A BR-407 entupia a ponte que funcionava como gargalo para quem se movia dentro dos interiores nordestinos. De Juazeiro voltei de barco de passageiros para Petrolina.

Do lado de fora, o restaurante do almoço parecia modesto e por quilo. Seria suficiente diante da pouca fome. Mas nada de quilo, bufê ou estabelecimento para alimentar trabalhadores do entorno. Se tratava de loja de vinhos, comes e bebes diferenciados, além de algumas mesas em salão separado. Logo notei os arrumadinhos e as arrumadinhas bebericando vinho branco gelado. E não eram garrafas de marcas regionais do vale do São Francisco. Os rótulos apontavam para países distantes. Me senti imerso em ambiente similar às tais novidades que surgiam em São Paulo, ganhavam destaque por um tempo, recebiam o nome de bistrô, serviam comida de micro-ondas, aquela galerinha que gosta de ver e ser vista comparecia em peso. Isso até o ponto envelhecer, os buscadores de badalações mudarem de destino e o tal bistrô fechar as portas.

A frequência pelas mesas era a fina flor da elite local. Muitos se conheciam e se cumprimentavam efusivamente ao entrar ou sair. Eles, de calça e camisa. Elas, produzidíssimas, vestidas para matar. Vez ou outra se viravam para a mesa vizinha e trocavam frases sobre grandes negociatas, suspeitos investimentos de vulto, envolvendo cifras gigantescas.

Aceitei a sugestão de tomar taça de vinho tinto do Alentejo, a preço não abusivo. Dentre as opções executivas, fiquei com o filé mignon ao molho de vinho acompanhado de arroz, purê de batatas, precedido de salada verde. Tudo saboroso e não tão caro quanto eu imaginava. Nas mesas ao lado, elas e eles pediam mais garrafas de vinho branco, engarrafadas bem longe do vale do São Francisco.

Ao final, antes de pagar a conta, e aproveitando que me encontrava em Pernambuco, entrei de cabeça em generosa fatia de bolo-de-rolo recheado de goiabada. Soube divinamente, como de praxe.



À noite, tracei picanha suína grelhada com farofa, vinagrete e cebola também grelhada em bar e restaurante na beira do rio. Na margem oposta, entre sons de música, a Bahia e a cidade de Juazeiro. Som ao vivo do lado baiano, som ao vivo do lado pernambucano, sob a acústica das águas correntes do rio São Francisco.

Logo após o café da manhã me incluí em passeio às vinícolas e à represa de Sobradinho.

Repleto de turistas brasileiros, o ônibus seguiu à vinícola situada no município de Casa Nova, Bahia. Lá nos explicaram as fases da produção dos vinhos, espumantes e tranquilos, tintos, brancos e rosês. E com direito a degustação livre de todos os tipos mencionados, sem falar do brandy. Primeiro provamos o ainda bruto destilado do vinho, com oitenta por cento de álcool. Depois o envelhecido em barris de carvalho, com trinta e oito por cento de álcool. Todos podiam repetir as degustações. O clima entre os visitantes começou a animar.

O ônibus nos levou à barragem de Sobradinho, onde embarcamos em catamarã. O céu azul e a placidez das águas da represa valorizavam o passeio fluvial.

Por quase uma hora o catamarã navegou pelas águas calmas do lago. Beberiquei mais espumantes secos do vale do São Francisco, cujas garrafas vinham a preços bem aceitáveis. O bufê oferecia variedade de pratos para todos os gostos.

O catamarã ancorou em banco de areia coberto com vegetação original da caatinga. Mergulhei em banhos nas águas mornas. Ao redor, vento refrescante, descontração entre todos, pela alegria e pelo efeito cumulativo de tanto álcool ingerido. A música ao vivo mexeu com os passageiros, que dançaram a toda, incentivados por garrafas e garrafas de espumante.

Tempos depois o catamarã retornou ao eixo da barragem de Sobradinho, de onde reembarcamos no ônibus de volta à Petrolina.

À noite, a orla fluvial lembrava orla de verdade, de mar e não de rio. Ventava forte, constantemente, refrescando o ambiente. Às vezes até incomodava, mas evitava o calor excessivo e a transpiração inconveniente.

continua...

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

de Goiás ao Piauí (via GO, MT, TO, BA, PE, CE, PI) (parte 4/7)

 ...continuação

Pela manhã dei voltas despretensiosas pelo parque Muritiba, área que englobava as nascentes do rio Lençóis que banha a cidade. Desviei o caminho para os altos da cidade de Lençóis e, lá de cima, tomei a trilha ao Ribeirão do Meio. Ao final da trilha, rio com corredeiras, pequenas quedas d’água, poços para banho. Nada de especial. E retornei à zona urbana.

Conversei com casal jovem brasileiro que viajava várias vezes por ano. E sem gastar um tostão. Por conta das filmagens e fotografias que produziam e divulgavam na internet, “surgiu”, do nada, um anjo que os financiava. Efetuavam as despesas de transportes, de hospedagem, alimentação, passeios, e automaticamente lhes era reembolsado o valor pago. Ele não conseguiu explicar como “surgiu” essa entidade. Tampouco como essa entidade sabia o valor gasto a ser depositado na conta deles. Nem o que essa entidade ganhava com a suposta “boa ação” ao casal. Nas palavras dele, “eu também não entendo...”. Simplesmente me garantiu que o negócio funcionava perfeitamente e jamais a tal entidade deixou de reembolsá-los.

À noitinha atravessei o rio Lençóis pela ponte principal, alcancei trecho frequentado por moradores e tracei dois acarajés legítimos, de mão. E me considerei jantado. Fazia frio. Muita gente, turistas inclusive, vestia blusas e casacos.

Encerrei Educação Como Prática da Liberdade, de Paulo Freire. Os capítulos que tratam especificamente da educação necessária e do método de aprendizado, indissoluvelmente ligado à conscientização crítica da realidade, fizeram o livro crescer em qualidade. Embora ele usasse termos como “amor”, “diálogo”, “respeito”, o método pedagógico de Paulo Freire nada tem de dócil ou caritativo. Ele insiste na evolução para a consciência crítica do povo pobre e trabalhador, rumo a uma nova sociedade, sem explorados e sem exploradores.



Emendei com outro livro, Os Cangaceiros, de Luís Bernardo Pericás, ensaio sobre o banditismo rural durante a República Velha.

Que maravilha rever Lençóis e a Chapada Diamantina pela terceira vez! Pelos baianos da região, pela cidade, pelas belezas naturais do entorno.

O ônibus procedente de São Paulo e com destino a Apodi partiu na alvorada. Atrasou uma hora devido ao congestionamento causado por acidente com caminhão na famigerada BR-242. Entre passageiros e cargas, e sob a ditadura do transporte rodoviário por estradas entupidas, o Brasil mostrava o quanto caminhava para trás. Sem a urgente mudança na matriz de transportes, sobretudo com maciços investimentos em ferrovias, não haveria luz no fim do túnel.

E lá fui rumo ao sertão norte da Bahia. Dentro do ônibus somente eu usava a máscara facial contra a disseminação da covid-19. O frio matinal da Chapada Diamantina provocava cerração forte nos vales e baixadas da região. A contemplação da serra do Sincorá continuava a me encantar.

Amanheceu com céu azul e muito sol, sem nenhuma nuvem. O ônibus entrou na BA-142, passando por Wagner, Utinga, Bonito, Morro do Chapéu. Esta última cidade, visitada anos antes, estranhamente em nada me foi familiar. Não reconheci uma esquina ou construção sequer. Tampouco as cercanias serranas.

Após Morro do Chapéu, tendo a serra do Sincorá a oeste, a estrada mergulhou na caatinga autêntica, embora ainda ligeiramente esverdeada. A vegetação, rala e ressecada, aqui e acolá cultivada por plantações de sisal, ora bem cuidadas, ora praticamente abandonadas e com muito mato crescido.

O ônibus daquela linha de longo percurso recebia frequência típica de quem ia visitar as distantes origens nordestinas. Famílias, grupos, crianças irritadiças pela viagem interminável, alguns passageiros metidos a besta e não se misturando com a plebe majoritária, outros bastante comunicativos. Para não serem assaltados nas paradas oficiais da empresa de ônibus durante o percurso, uns traziam comida de casa e se alimentavam com o veículo em movimento. Melodias variadas brotavam dos celulares, nada exageradamente em alto volume, mas compondo aos ouvidos bizarra gororoba musical.

O ônibus trafegava pela BR-324 e desceu o relevo rumo a Jacobina. A paisagem se tornou menos árida. Já perto da cidade, as serras rochosas, altas, imponentes, escarpadas, embelezavam tudo ao redor, as mesmas que me fascinaram durante as caminhadas de exploração anos antes.

Mais à frente, após Capim Grosso, o ônibus entrou na BR-407, novamente rodovia entupida de carretas. O trânsito fluía, mas de maneira lenta e arrastada. Chuviscou antes de entrar na rodoviária de Senhor do Bonfim, onde desembarquei.

Em plena noite de segunda-feira, numa cidade de porte médio, a quase totalidade dos poucos restaurantes existentes se encontrava fechada. Bem que circulei pelas ruas centrais e nada encontrei aberto. Improvisei diante do possível.

Comi bem no café da manhã do hotel ao lado de mesas ocupadas por senhoras e senhores a trabalho em Senhor do Bonfim. Turista, eu, apenas eu, somente eu.



Ao andar pelas ruas vazias senti o frio bater no rosto e no corpo. Nada exagerado, porém baita contraste com o esperado para o interior da Bahia e mais ainda com as regiões visitadas anteriormente naquela viagem, como Goiás, Mato Grosso e, principalmente, Tocantins.

Não me agradava a leitura de Os Cangaceiros, de Luís Bernardo Pericás. Além da estruturação e conteúdo dos capítulos, ambos confusos, o livro expunha visão preconcebida do autor sobre o cangaço e os cangaceiros, segundo ele desprovidos de raízes econômicas e sociais.

A população de Senhor do Bonfim e das cidades vizinhas, ao contrário das demais visitadas, no interior da Bahia e em outros estados, fazia uso da máscara facial, especialmente no transporte coletivo e ambientes internos. Muito bem!

E o tema recorrente da arborização urbana no nordeste voltava à baila. A mutilação das árvores de ruas e praças públicas, visando figuras geométricas ou estilizadas, mas sempre mutilação, prática nordestina que se propagava que nem praga, causaria indignação a qualquer ser humano dotado de bom senso. Além da destruição, ainda que parcial, da vegetação, comprometendo o desenvolvimento da planta, as mutilações eliminavam algo tão caro e tão desejado pela população, a sombra, a tão almejada sombra, sobretudo em locais tórridos pelo sol implacável. Então por que teimar em juntar a feiura do resultado da árvore mutilada com a disfunção prática do ato? Bastaria escolher devidamente a árvore adequada para um determinado local, praça, canteiro central, calçada larga, calçada estreita, e deixá-las crescer livremente. A população teria a combinação perfeita, ou seja, mais beleza e mais sombra. Simples assim.

O ônibus partiu ao amanhecer em frente à antiga e imponente escadaria da estação ferroviária da Leste em Senhor do Bonfim.  Percorreu a BR-407 até Filadélfia, depois a BA-381.

No assento ao lado, o funcionário da empresa de mineração de cobre, outrora estatal, sediada em Jaguarari, descreveu detalhes do dia a dia do trabalho. Em galerias a cerca de quinhentos metros abaixo do nível do mar, alcançando quatorze quilômetros de extensão, ele e colegas, em turno de sete horas, perfuravam e injetavam explosivos nas paredes frontais para avançar na lavra do minério. Sob as normas de segurança que lembravam regime militar, os operários padeciam naquelas profundidades quentes e úmidas, a despeito da ventilação artificial e dos salários, segundo ele, bastante atraentes. Ao final, me presenteou com duas pequenas amostras do minério azulado.

No meio da manhã eu caminhava pela cidadezinha de Itiúba. E com som ambiente. Pelos alto-falantes da rádio local, transmitido ao vivo, notícias, música, diversão e muitos comerciais das lojas locais. As vinhetas eram tantas vezes repetidas que acabei decorando a musiquinha e as frases feitas para atrair clientes.

A relação entre a zona urbana e a serra de Itiúba não deixava de intrigar. A ferrovia abandonada, a famosa Leste, a mesma que passava em Senhor do Bonfim, cortava a cidade de ponta a ponta. Nem sinal da estação de passageiros, mas apenas o desativado galpão de manutenção de locomotivas, em cuja placa de inauguração constava o nome do então presidente Getúlio Vargas. Ao fundo dos trilhos flagrei jegues transportando cargas em bagagens quadriculadas de couro legítimo, conduzidos por sertanejos após o escambo na feira municipal.



A leste de Itiúba, após cruzar os passos da serra, o veículo atravessou o vilarejo ao lado do açude de Camandaroba, represando as águas do rio Jacurici.

Após Cansanção, na cidade de Monte Santo, o monte santo propriamente dito se erguia a partir das ruelas do centro urbano. Era acessado somente a pé, através de subida intensa por escadarias e trilhas, conforme eu descrevera em relato anterior.

O tempo se mantinha fechado, com nuvens carregadas, chuviscos a toda hora, ventanias fortes. Em todo o trajeto percorrido, a caatinga esverdeada favorecia os plantios e o rebanho de bovinos e caprinos.

Desembarquei na feia Euclides da Cunha e sentei no banco precário da rodoviária. Minúsculo e sujo, o terminal não oferecia banheiros para os usuários, mas sim um bar, no lugar da tradicional lanchonete, em frente ao qual se concentravam bebuns em geral. Abri a mochila de ataque e detonei dois sanduíches de queijo e presunto, entre goles de água da garrafinha providencial.

O segundo ônibus acessou a BR-116 até Bendegó. De lá tomou a BR-235 ao meu destino final, a nova cidade de Canudos.

 Me hospedei em quarto de estabelecimento básico, com lençóis surrados e toalha de banho que se desfazia ao uso. Ao pedir outra na recepção, a proprietária do hotel, se espantou diante da toalha puída e afirmou “Que estranho! São toalhas da melhor qualidade que comprei há pouco tempo”.

Quase todos os restaurantes de Canudos se encontravam fechados naquela noite de quinta-feira. Em dia cujo café da manhã e o almoço se constituíram de apenas quatro sanduíches feitos às pressas eu novamente tive que improvisar. Mas o litro de suco natural de abacaxi lavou a alma.

Fazia friozinho noturno na terra onde Antônio Conselheiro ergueu a vila de Belo Monte, depois chamada de Canudos.

Pela manhã, visitei o memorial de Canudos, exibindo painéis explicativos, exposição de objetos do massacre, mapas esquemáticos da região ao final do século XIX.

Era dia de feira semanal em Canudos. Os moradores, da cidade e de distritos vizinhos, afluíram para vender e comprar. Todo o comércio se manteve aberto para receber o dinheiro recém-adquirido nas vendas. Feira movimentada, viva, alegre, vibrante.

Entrei no IPMC, Instituto Popular Memorial de Canudos. Penduradas nas paredes e soltas aleatoriamente no piso, pinturas que tinham o antigo vilarejo de Canudos como tema principal. Riscos vermelhos permeando todas as obras aludiam explicitamente ao sangue derramado durante o massacre da população pelo exército brasileiro. Também dentro do instituto, o cruzeiro de madeira, original da igreja velha da vila Belo Monte. E as dezenas de toras de cedro, nó da discórdia entre o Conselheiro e o fornecedor de Juazeiro, estopim para atiçar a curiosidade geral sobre Belo Monte e para atrair as primeiras tropas militares na intenção de reprimir o vilarejo que almejava a autonomia.



Tentei encontrar sombra pelo extenso e largo canteiro central da avenida principal. Sombra ali era artigo raro. Adivinhem o motivo!? Porque as árvores, dezenas delas, desgraçadamente, haviam sido mutiladas geometricamente, reduzindo as áreas de sombra à praticamente nada e disputadas ferrenhamente pelos sertanejos. Mania esquizofrênica de destruir as copas das árvores e liberar o sol escaldante para massacrar, sem proteções naturais, tudo e todos.

Terminei o ensaio Os Cangaceiros, de Luís Bernardo Pericás. Mantive a mesma toada em razão da região que eu atravessava. Iniciei Cangaços, de Graciliano Ramos, coletânea de artigos, inéditos ou não, que o escritor alagoano publicou em jornais e revistas. Logo nos primeiros textos percebi a superioridade, na forma e no conteúdo, na abordagem do tema do cangaço e dos cangaceiros.

Dois anos, 2020 e 2021, por conta da pandemia do covid-19, sem festas juninas no nordeste do Brasil, região que sempre foi apaixonada por elas. Daria para imaginar como estavam os moradores nos preparativos em cada cidade daqueles interiores. Em Canudos, cujo padroeiro era Santo Antônio, a população se agitava em contagem regressiva. Os quarteirões da rua da igreja Matriz já contavam com bandeirinhas, enfeites diversos, pau-de-sebo, entre tantas outras decorações juninas. Nas demais cidades dos interiores nordestinos a expectativa não era diferente. Tradicionalmente ruidosa, com músicas altas nas quase vinte e quatro horas do dia, a região trepidava a cada dia mais próximo das datas comemorativas.

À noite houve projeção de filme na concha acústica do canteiro central da avenida principal, a praça de Canudos. Filme de divulgação da transnacional que instalava captadores de energia eólica entre Canudos e Jeremoabo. Através de material publicitário produzido por equipe gaúcha o filme descrevia as belezas da energia eólica, a sustentabilidade da empresa, a harmonia social e cultural com os moradores das comunidades afetadas, enfim, aquele tipo de empresa capitalista dotada da tão alardeada “responsabilidade social”. O filme bradava que a tal transnacional envolvia a comunidade nos projetos técnicos e supostamente culturais, alegando que, assim, preservava a história de Canudos, do Raso da Catarina e das populações sertanejas tradicionais. Me engana que eu gosto!

continua...

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

de Goiás ao Piauí (via GO, MT, TO, BA, PE, CE, PI) (parte 3/7)

...continuação 

Acordei cedo. Enrolei bastante antes de ir ao café da manhã básico da pousada, à disposição em ampla mesa retangular e coletiva, ao lado dos anfitriões octogenários.

Ponte Alta contava com raras agências de turismo, ao contrário das mais funcionais cidades de Barreirinhas, São Jorge, Chapada dos Guimarães, Lençóis, São Raimundo Nonato, também situadas às portas de atrações naturais. Daí a imensa dificuldade, ou quase impossibilidade, de obter vagas na cidade nos passeios ao Jalapão que começavam e terminavam exclusivamente em Palmas. Só não me chateou muito porque jamais fui tão entusiasta de explorar ao Jalapão.

Terminei Vila dos Confins, de Mario Palmério. A campanha eleitoral e as eleições propriamente ditas, em cidadezinha do interior brasileiro, dominada até a medula pelo velho coronelismo, ocupavam apenas partes do texto. Na maioria dos capítulos o escritor descrevia cenas de pescarias, caçadas, lendas e casos rurais, personagens pitorescos, o clima, a geografia. Romance muito bem escrito por um não romancista.

Durante toda a noite, madrugada e início da manhã, a boate do outro lado do rio se manteve agitada, com música e vibração altíssimas, embora não tivesse impedido o meu sono. E ainda teríamos naquela noite de sábado, a Festa do Beijo, fartamente anunciada em cartazes e pelos alto-falantes de carro de som.

Caminhei despretensiosamente pela ponte nova sobre o rio Ponte Alta e por estradinha de terra que o margeava. Lagartos acinzentados e esverdeados, com mais de um metro de comprimento, exploravam os galhos altos das árvores para comer os brotos.

Retornei para me sentar sob a sombra da frente da pousada e começar a ler Cova 312, de Daniela Arbex. Da mesma maneira que no livro anterior, Holocausto Brasileiro, a autora tratava tema pertinente, humana e politicamente. No entanto, em ambos os livros de registro jornalístico, os textos careciam de organização e estruturação, confundindo o leitor com detalhes fora de hora ou apenas tocando superficialmente em temas de alto interesse.



Da janela do banheiro, eu ouvia gritos, imitações bizarras de cantos de galo, vozes instigantes. Mais tarde o casal idoso me contou que o sujeito, então quarentão, casara com uma das filhas da proprietária do terreno. Com o tempo passara a agredi-la fisicamente. Caiu na dependência química de drogas pesadas que lhe afetou os membros e o cérebro. Se tornou quase vegetal e dependente para as tarefas mais simples. O casal teve três filhos antes da decaída física e mental do marido. A justiça decidiu que a família dela teria a obrigação de cuidar dele. A dona do terreno construiu quartinho para o inválido, o sustentando meio como ser humano, meio como animal.

O micro me resgatou em frente à pousada. Antes de escurecer eu descia na rodoviária de Porto Nacional.

Pouco antes da meia noite, embarquei em ônibus que passou por Silvanópolis, Santa Rosa do Tocantins, Natividade, Almas, Dianópolis, Novo Jardim, a divisa entre Tocantins e Bahia, sempre ao lado de imensas monoculturas contaminadas de agrotóxicos dos capitalistas agrários.

Amanheceu na famigerada e tenebrosa Luís Eduardo Magalhães, cidade que, como o sobrenome indica, tudo para as classes dominantes, nada para os trabalhadores e o povo pobre. O dono de tudo e de todos na Bahia dos finais dos anos 1990 mandou trocar o nome original do distrito, Mimoso do Oeste, para o do filho morto. Tanto a emancipação do município como o novo nome sofreram diversas ações de inconstitucionalidade. Em vão. Inteiramente plana e sem horizontes, a cidade oferecia galpões, lojas, oficinas, no ramo agropecuário, sobretudo de empresas transnacionais, estadunidenses principalmente. Ali tudo parecia frio, distante, desumano, voltado exclusivamente para o acúmulo de capital pelo latifúndio e pelas empresas agropecuárias, jamais levando em consideração quem trabalhava dia e noite para construir e tocar tudo aquilo.

Desembarquei em Barreiras no começo da manhã depois de o relevo se acidentar levemente e exibir escarpas chapadas ao longo da BR-242.

No meio da tarde, depois de horas sem fim de espera na rodoviária, embarquei em novo ônibus.

A BR-242, depois do declive do planalto onde se localizava a repugnante Luís Eduardo Magalhães, novamente voltava a subir o relevo, cruzar a serra, comportando tráfego intenso de carretas-duplas. Parada para desembarque e embarque em Crisópolis, logo em seguida ao trevo para Baianópolis. A paisagem revelava cerrado dos gerais da Bahia, esparsamente ocupado por rebanhos de gado bovino e nada plantado. A natureza e a população original agradeciam. Ainda.

Anoitecia quando a estrada atravessou o rio São Francisco pela extensa ponte. No quadrante sudeste, o espetáculo inesquecível. A lua cheia, enorme, alaranjada, depois amarelada, subia no horizonte. Ibotirama, onde eu estivera anos antes, se erguia na margem oposta do rio. O luar se estendia sobre as casinhas da cidade e formava cauda prateada sobre as águas do São Francisco. Imagem deslumbrante. Impossível não se encantar com tanta beleza concentrada. Os passageiros do ônibus, sobretudo os do lado direito, pararam o que faziam para contemplar o efeito da combinação lua cheia, águas do São Francisco, cidade de Ibotirama. Lindo demais! Esqueci o cansaço de tantas horas em ônibus diferentes, as longas e monótonas esperas em rodoviárias, as noites mal dormidas, a alimentação precária de passageiro em trânsito, o desejo intenso de me instalar em quarto confortável para relaxar o esqueleto. Aquela perfeição de cena levantava os ânimos.



Após os fundos do vale o relevo tornou a se elevar. Mesmo no escuro da noite reparei no relevo acidentado atravessado pela rodovia. A imensa lua cheia iluminava tudo com a luz prateada. Serras, serrotes, paredões, escarpas verticais, asfalto sinuoso, em meio a tantos sobes e desces.

Desembarquei à noite em Seabra e fui a pé ao hotel.

Instigante a atmosfera desses locais que, como viajante, costumo parar por necessidade logística. Feios, poluídos, mais ou menos perigosos, barulhentos, nada convidativos para estadias longas. Mas, por outro lado, vibrantes, cheios de vida. Seabra nada tinha a ver com aquelas pavorosas cidades repartidas ao meio pela rodovia, apenas para servir ao capital agrário, de determinados interiores brasileiros, como no Mato Grosso, por exemplo. Seabra reservava a vibração de cidades autênticas, dotadas de qualidades e defeitos inerentes à localização ao lado de rodovia.

Sem precisar atravessar a fatídica BR-242, o restaurante de comida caseira servia comida saborosa, temperada e barata. Almocei carne de sol e demais acompanhamentos, todos deliciosos e preparados na hora, fresquinhos, quentinhos. Repentinamente caiu baita temporal, precedido e acompanhado de trovões e ventania. Não faltaram goteiras e pingos de chuva no quintal coberto da casa. Eu já terminara e raspara o prato de tão bom que soube a refeição. Apenas mudei de mesa para não me molhar. O mundo caía lá fora. Mais tarde, ao voltar pela rua, desviando e saltando do jeito que dava, enxurradas, poças d’água, lama arrastada das transversais não pavimentadas.

Em tarde de preguiça sem culpa no quarto do hotel, assisti a 7 Prisioneiros, filme de Alexandre Moratto. Apenas bonzinho.

Baixei cedo na rodoviária de Seabra.

Após a parada em Palmeiras, a BR-242 penetrou na Chapada Diamantina e o relevo se acidentou. A vegetação, floresta, cerrado, caatinga, brotava preservada em ambos os lados da rodovia que, entupida de carretas, exibia trânsito lento e favorável à contemplação da paisagem. Serras, morros testemunhos, vales, paredões e escarpas rochosas e íngremes, o emblemático visual da Chapada Diamantina. Entre os morros avistados, o do Camelo e o do Pai Inácio. Belíssimas e dramáticas imagens anunciando as riquezas naturais da região. Enquanto o ônibus engatinhava ao longo da fileira de carretas eu apreciava o panorama de cair o queixo.

Desembarquei na pequena rodoviária de Lençóis ainda pela manhã. Os quartos da pousada escolhida primavam tanto pelo conforto e funcionalidade que nenhum deles contava com a supérflua televisão para embrutecer os hóspedes. Também não havia esse aparelho no salão do café da manhã. Se o hóspede teimoso insistisse em se imbecilizar diante da telinha que descesse a uma espécie de porão coletivo sob a cozinha. Lá, entre sofás e bugigangas, poderia ficar na companhia de outros hóspedes. Pelo menos haveria um mínimo de integração social. Que outros hotéis e pousadas seguissem o mesmo caminho.

Além dos bares e restaurantes espalhados pelo centro histórico de Lençóis, havia a ruazinha estreita, a chamada rua da Baderna, ao longo de dois quarteirões, que concentrava diversos estabelecimentos de comes e bebes. Os garçons abordavam os passantes educadamente com o cardápio nas mãos.

Fora a música ao vivo na calçada, na base de MPB, uma deusa negra surgiu no meio da rua. Andava e cantava, por entre as mesas, sem microfone, recorrendo apenas ao triângulo de marcação e ao vozeirão estupendo. Interpretava peças musicais de gêneros próximos aos aboios e às vaquejadas. Cantava com personalidade. O ritmo, a melodia, os arranjos imaginários a completavam. Maravilhosa! A maioria, nas mesas ou circulando pela rua, nem davam bola. O som ao vivo da calçada, entretanto, se calou para reverenciá-la. Demais! Nem precisariam as caipirinhas, as cambraias, a carne de sol, devoradas no jantar. Ela preenchia a noite sem necessidade de mais nada.



Comecei a reler, depois de décadas, Educação Como Prática Da Liberdade, de Paulo Freire, autor tão louvado, citado e comentado, mas pouquíssimo lido e estudado. A educação politizada e libertadora do mestre sempre seria essencial aos povos do mundo, sobretudo ao brasileiro.

Na manhã seguinte, eu, outros passageiros soltos e o guia local partimos para explorar partes da Chapada Diamantina. A fim de contornar a área do parque nacional, pelo qual não havia estradas ao destino desejado, o guia pegou a terrível BR-242, congestionada de carretas-duplas de soja, antes de virar à direita na BA-142. Passou ao lado de Andaraí e próximo a Xique-Xique de Igatu, outrora centro de garimpo de diamantes que deixou crateras e assoreamento nos rios da região. Mais adiante vistas estupendas da serra do Sincorá, prolongamento da serra do Espinhaço desde o centro sul de Minas Gerais, e que recebia diferentes nomes regionais em toda a extensão.

No município de Itaetê o veículo acessou estrada de chão até a entrada do Poço Encantado, em propriedade particular, fora do parque nacional da Chapada Diamantina.

Portando capacete e lanterna acoplada, via trilha curta por escadaria adaptada nas pedras, desci até o ponto de observação dentro da gruta. O lago de águas cristalinas e azuladas pelo efeito luminoso recebia, naquele horário e naquele dia do ano, os raios do sol, criando efeitos esplêndidos, antes e depois de atingir a superfície da água. Efeitos de encantamento. Irreal. Arrebatador. Não era mais permitida a entrada na água como acontecia em minha primeira visita trinta e três anos antes. Em compensação, naquela época, não fui recompensado com a penetração dos raios solares pela boca superior da gruta. Dessa vez permaneceria deslumbrado com a imagem do Poço Encantado durante um tempão. Lindo demais!

Mais estradas de chão, rumo ao município de Nova Redenção, mais especificamente ao Poço Azul. A vegetação naqueles trechos da Bahia se encontrava esverdeada pelas chuvas recentes, mas se tratava de zona de caatinga em transição para floresta mais desenvolvida, sobretudo nas imediações dos cursos d’água. O veículo cruzou ponte frágil de madeira sobre o rio Paraguaçu, onde três banhistas se refrescavam nas águas ferruginosas.

Durante a espera de descer à gruta eu não cansava de apreciar a visão da serra do Sincorá no horizonte.



Então me dirigi ao curto trecho de acesso em declive. Por conta do horário e do dia do ano, o efeito dos raios solares nas águas correntes do Poço Azul se assemelhava, porém com menos impacto, ao do Poço Encantado. Ali era permitido, em grupos pequenos, flutuar nas águas e observar as profundezas, assim como o salão da gruta de baixo para cima. Novamente o azul gerado pelas águas e os raios do sol encantaram até não poder mais.

No final da tarde o veículo entrou de volta nas ruas charmosas de Lençóis.

A noite valeu, novamente, pela deusa negra andando e cantando na rua, emitindo a voz potente, acompanhada apenas e então somente pelo triângulo de marcação. Interpretou mais cantigas da cultura popular nordestina. Maravilhosa!

Saí alimentado do café da manhã para mais um dia de incursões, dessa vez ao norte da Chapada Diamantina.

Inicialmente, a caminhada ao lado do rio Mucugezinho, até o poço do Diabo.

Em seguida, a gruta da Fumacinha, situada no município de Iraquara. O local reservava enorme variedade de espeleotemas, entre estalactites, estalagmites, electites, cortinas, travertinos, agulhas, ao longo das centenas de metros da exploração, munidos de capacetes com lanternas acopladas.

No meio da tarde, o conjunto da Pratinha que incluía a descida à Gruta Azul. Local desfigurado e extremamente turístico, apesar das belezas naturais e da cristalinidade das águas. Serviu apenas para ticar mais atrações da Chapada Diamantina.

Por fim, ao entardecer, subimos o icônico morro do Pai Inácio, do alto do qual se tinha vista panorâmica das imagens clássicas da Chapada Diamantina, marcada pelos morros chapados em ambos os lados dos vales ricos em cursos d’água. Ainda no topo do morro, fomos presenteados por pôr do sol magnífico.

Anoitecia ao entrarmos nas ruas estreitas de Lençóis.

continua...