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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Uruguai e Argentina (parte 3/5)

...continuação
Indecisos no que fazer pela manhã, uma vez que os horários dos transportes a Cabo Polônio não batiam, optamos por outro vilarejo. Corremos para o terminal rodoviário e embarcamos em tempo.
O ônibus entrou em La Pedrera, vilarejo na beira do mar. Mais adiante, passou na entrada do Parque Nacional de Cabo Polônio. Vários ônibus de turismo, mais uma dezena de automóveis, estavam estacionados ao lado. Longa fila de visitantes aguardava para embarcar nos veículos tracionados rumo ao miolo do Cabo Polônio. Algo me dizia que não iríamos adorar apreciar a natureza, física, vegetal e animal com os lobos marinhos, em meio àquela caravana de turistas.
Meia hora depois desembarcávamos em La Valizas. Saímos a pé pelas ruas de areia do vilarejo, pequeno, pacato, singelo, tranquilo, dotado de construções precárias e charmosas. Algumas completamente abandonadas, cercadas de mato e em estágio avançado de apodrecimento das madeiras das paredes, portas, janelas.
Atingimos a praia extensa e aplainada, cujas dunas invadiam as casas e bares de madeira erguidos irregularmente. A natureza, substituindo a negligência de construtores e autoridades, tratava de punir os infratores ambientais, forçando-os a abandonar as propriedades por bem ou por mal. Casas simples e inventivas, de cores berrantes, começavam a ser engolidas pelas dunas, em constante movimento devido ao vento intenso que não cessava um segundo sequer.
Na praia, frequência esparsa e desencanada.  Cada um na sua, despreocupados se os demais agiam assim ou assado. Bichos-grilos, autênticos e falsos, vestindo roupas puídas e encardidas, se espalhavam em raros e pequenos grupos ou casais pela imensidão da praia. A maioria procurava se encostar ao pé das dunas para se proteger, ainda que parcialmente, das rajadas de vento. É isso aí, bicho!
Na extremidade da praia, a barra do rio Valizas, que deu nome à cidadezinha, atravessado somente por barcos a motor mediante pagamento aos barqueiros. Do outro lado do rio, as dunas mais altas, mais praias e, no final do horizonte, pontões e ilhas rochosas, talvez nas proximidades do Cabo Polônio.
As águas calmas do rio lutavam contra a correnteza do mar, num vaivém constante de avanços e recuos, ora de um, ora de outro. Na margem esquerda, mais casas, casebres, cabanas, barracas, abandonadas pelo avanço das dunas, pela baixa temporada, pela falta de condições ou de interesse em mantê-las.
No geral, o conjunto natureza bruta em contato com as construções isoladas formava um desenho belo e atraente, delicioso para se deixar contemplar por horas.
Voltamos ao caminho de areia principal da vila na procura de algo substancioso para comer. Na primeira tentativa, em estabelecimento completamente vazio, o proprietário nos comunicou, em tom de quem não queria nada com nada, mas sorrindo ironicamente, que só tinha para oferecer peixe e camarão, já se desculpando, já se despedindo, e prontamente nos sugerindo outro restaurante ali perto.
Entramos no que parecia a única opção em refeições naquele dia em La Valizas. Comemos Chivitos, regados ao espumante uruguaio, o Medyo y Medyo, bem gelado e refrescante, em garrafa retirada do fundo do refrigerador depois de lenta procura pelo dono gordo e vagaroso. Nos empanturramos e saímos saciadíssimos do estabelecimento bem decorado, mas desmazelado pelo tempo e pelo descuido do dono que se arrastava pelo chão acompanhado da gata e da cadela.
O retorno de ônibus foi rápido na tarde ensolarada, iluminando pastos, alagados, baixios, criações de gado, ovelhas, cavalos, os bosques de pinheiros, as casas, as isoladas sedes de fazendas. Pouco depois desembarcávamos em La Paloma. O vento frio vencia com folga o sol brilhante e descendente.
Descemos ao procurado restaurante do hotel para o jantar. Fui de Cazuela de mariscos, ela de peixe grelhado com salada. Escolhemos vinho uruguaio e nos demos por saciados. Nem tentamos a sobremesa. O restaurante lotou naquela noite. Os interessados tiveram que esperar bastante no bar anexo ou desistir.
Arriscamos dar uma volta pelas ruas da cidadezinha, mas o frio penetrante, surpreendentemente sem vento, frio de verdade, nos obrigou a voltar e nos enfurnar no quarto do hotel. A lua cheia brilhava absoluta no céu desprovido de nuvens.
Acordamos cedo, para o começo do café da manhã. Lá estavam três gringos, um estadunidense com sotaque marcante de terrorista, um indiano ou paquistanês, um oriental, todos conversando amenidades com um uruguaio. A língua falada era a inglesa. Eu poderia jurar que ninguém estava a passeio pelo Uruguai, por La Paloma. E boa coisa para o povo uruguaio eles não vieram fazer na América do Sul.
Embarcamos em ônibus velho de dois andares. Na rodoviária de Montevidéu subimos em ônibus cheio que lotou ainda mais durante o percurso, obrigando dezenas de passageiros a viajarem de pé, esmagados no corredor.
Nada de novo na paisagem de campos aplainados, exceto na periferia oeste de Montevidéu. Além da refinaria da ANAP e de pequenas fábricas e galpões, extensa zona residencial bastante precária, favelas de concreto, cubículos imundos e entulhados de gente e tralhas. Depois, campos de gado, trigo, milho, pastos vazios, vegetação ciliar.
Descemos em Colônia Sacramento e nos hospedamos em hotel a poucos passos do terminal rodoviário e do terminal flúvio-marítimo.
Assistimos a partidas e chegadas das embarcações, da linha entre Colônia Sacramento e Buenos Aires, do parque ao redor da desativada estação ferroviária da cidade que alcançava a beira do rio da Prata. O Uruguai, assim como o Brasil, também se ajoelhou e caiu no conto do vigário do transporte rodoviário. As linhas de trem do país se encontravam totalmente abandonadas, cobertas pelo mato ou pelo asfalto. Ônibus, caminhões e automóveis compunham a rede de transportes uruguaios. O país vivia sob a ditadura do transporte rodoviário, encabeçada por corporações transnacionais, as mesmas que corromperam os governos a sucatearem a extensa malha ferroviária do Brasil.
Ainda deu tempo para contemplarmos o belíssimo por do sol na beira do rio da Prata, seguido magistralmente pelo nascimento de mais uma lua cheia e brilhante no lado oposto.
Opções gastronômicas se dispunham ao longo da avenida General Flores. Comemos a fraldinha grelhada ao ponto, acompanhada de saladas, pães e o bom vinho uruguaio. Sentamos em mesa na calçada naquela noite fresca e agradável.
Durante o jantar, passou pela avenida um bloco de Candombe, ritmo típico do carnaval do Uruguai. A despeito da origem africana, naquele bloco não havia nenhum mulato ou negro, apenas branquelos batucando, balançando as mãos e os quadris. O resultado se assemelhava bastante ao candomblé brasileiro, não só no nome, mas no ritmo das batidas da percussão e na coreografia dos passos de dança, particularmente em relação às festas de louvor aos orixás tão presentes nos terreiros e roças do Brasil.
A noite avançava e o frio sorrateiramente começava a nos envolver. Batemos no rumo ao quarto apertado do hotel.
Comemos o café da manhã, reguladíssimo, mas saboroso e suficiente. A senhora da cozinha nos esperava sentar para começar a servir item a item. Internamente, o hotel agradava pela disposição entre os quartos, pátios, corredores, pequenas escadas, entradas e saídas das áreas comuns. O enorme casarão foi bem aproveitado e decorado com discreto bom gosto.
E fomos caminhando pela arborizada rua Manoel Lobo, em homenagem ao fundador da cidade, rumo à Cidade Velha, à qual entramos pelo portão da antiga cidadela fortificada, através de espesso muro de pedras. O brasão português lá estava acima da fortificação, assim como os canhões voltados para as águas do rio da Prata. Dentro da cidadela, calçamento em pé-de-moleque, becos, azulejos, lustres, construções barrocas e neoclássicas, a catedral, o alicerce do palácio e residência de Manoel Lobo, saqueado e destruído pelos invasores portenhos, a Plaza Mayor, a Plaza Menor, o farol, a rambla costeira, pequenas enseadas, muitos restaurantes e pousadas, lojinhas de utilidades e inutilidades, carros antigos estrategicamente estacionados para realçar a atmosfera histórica e, surpreendentemente, poucos turistas e muita tranquilidade naquele começo de manhã.
Almoçamos menu turístico, bem servido na quantidade e na qualidade, em restaurante instalado despretensiosamente dentro de casarão da avenida principal, a General Flores. Até os banheiros eram originais, amplos, com pia, vaso sanitário, bidê, banheira. Tudo sob um pé direito alto e placas de motos e automóveis decorando as paredes internas dos salões.
Os uruguaios, e provavelmente os argentinos visitantes, não largavam a garrafa térmica debaixo do braço, a cuia e a bomba do chimarrão na mesma mão, durante quase vinte e quatro horas por dia, nas ruas, praças, parques, ônibus, carros, pontões de pedra, onde pescavam tranquilamente na beira do rio. Homens e mulheres, velhos e moços, vestidos assim ou assado, agiam como manetas, tendo apenas um braço e mão disponíveis para o resto das atividades.
Por ser pequena, bonita, famosa e em posição estratégica na ligação fluvial entre dois países, Colônia exibia turistas de todos os cantos do mundo, inclusive os mochileiros modernos, que em comum com os mochileiros exploradores de outrora só mesmo a própria mochila, como pude notar e anotar nas viagens anteriores pelo Brasil e por outros países do planeta.
Houve tempo de sobra na parte da tarde para revermos os nossos pontos favoritos da cidade. As pequenas distâncias e as sombras nas calçadas das ruas ricamente arborizadas de plátanos possibilitavam repetirmos esse e aquele roteiro a pé.
Sentamos em banco na beira do rio da Prata a fim de contemplar o encerramento do dia.
Para jantar, optamos por restaurante pequeno e charmoso numa praça da Cidade Velha, quase em frente à Catedral. Escolhemos mesa estrategicamente situada na calçada, sob a noite fresca. Vinho uruguaio, massa e a atmosfera bucólica da praça compuseram nosso jantar de despedida do Uruguai.
Praticamente não dormimos.
Bem depois da meia noite o casal do quarto ao lado discutia do lado de fora, muito próximo à nossa porta. O clima estava pesado e ela, principalmente, lhe lançava palavras fortes, enquanto ele desembestava a falar sem parar. Tudo em castelhano. Foi preciso eu reclamar na janela para eles entrarem e brigarem mais baixo.
Outros turistas se hospedaram tarde e conversavam em voz alta pelas saletas, escadas de metal e corredores. Um gaúcho adulto e todo esbaforido iria dividir o quarto com a mãe. Subia e descia as escadas tagarelando. Não sossegava de jeito nenhum.
A simpática disposição interna entre os quartos do hotel revelava os defeitos. A acústica era péssima. A proximidade de portas e janelas, ambas internas, concentrava e propagava todo e qualquer som. A escada de metal vibrava e amplificava o ruído dos passos.
Acordamos cedo e chegamos horas antes ao terminal flúvio-marítimo de Colônia. Despachamos as bagagens, passamos pela imigração uruguaia, exatamente ao lado da imigração argentina. Saímos de um país e entramos noutro em apenas trinta centímetros de balcão.
Embarcamos no barco com capacidade para duzentos e trinta passageiros. Escolhemos assentos a esmo. A viagem curta foi agitada pelas águas bravias do rio da Prata, provocando fortes oscilações na embarcação. O tempo nublara. Chuviscou e ventou bastante. Nada para ver dentro ou fora, exceto muita água e animações curtas nas televisões internas, intercaladas de propaganda comercial e repetitiva, uma delas da prefeitura de Manaus, convidando às atrações turísticas da capital amazonense.
 Desembarcamos no dique de Puerto Madero, em Buenos Aires.
Com as bagagens, saímos a pé e batemos de frente com o trânsito infernal do centro de Buenos Aires. Buzinas, muitas buzinas, histéricas. Obras nas calçadas e em algumas ruas. Gente, muita gente, indo, vindo. Cenas de megalópole em transe.
Estávamos adiantados para o horário de entrada nos quartos do hotel. Deixamos o peso das bagagens atrás da recepção e saímos para almoçar.
E haja entupimento de carros pelas ruas e avenidas, gente pelas calçadas, em meio a incrível poluição sonora. Bem menos paciência e gentileza, de motoristas e pedestres, que na acolhedora Montevidéu.
Entramos em restaurante comercial, frequentado por trabalhadores do centro, na verdade o Micro Centro de Buenos Aires. Comida comível em ambiente frenético, apertado e barulhento. Chamou atenção a longa fila formada de clientes para comprar comida para levar, naquele e em outros estabelecimentos. Muitos restaurantes por quilo nem mesas tinham. As pessoas entravam, enchiam as quentinhas, pesavam, pagavam e as levavam sei lá para onde. Comeriam sobre as mesas dos escritórios? Comeriam sentadas nas calçadas, em meio à insana poluição sonora e do ar, como vimos duas funcionárias de escritório em rua estreita e movimentada?
Espalhamos a bagagem no amplo espaço do quarto e da saleta do hotel. Relaxamos na cama grande de casal enquanto a enlouquecida Buenos Aires trepidava lá embaixo.
continua...

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Uruguai e Argentina (parte 2/5)

...continuação
Não importava se dia útil, quando os montevideanos se vestiam para o trabalho, muitos de terno e gravata e demais roupas formais. Ninguém abandonava a onipresente cuia de chimarrão numa mão e a garrafa térmica metálica debaixo do mesmo braço. Se comportavam como manetas, contando apenas com um braço e uma mão para os demais afazeres. Jamais abandonavam o mate. Jamais desocupavam um dos braços e a respectiva mão. Impressionante! Longe de criticá-la, porém, a população uruguaia era invariavelmente educada, prestativa, discreta, simpática.
Pagamos o hotel com cartão de crédito, mas em dólares estadunidenses, numa prática antipática de muitos hotéis uruguaios e argentinos. Poderíamos até realizar a operação em pesos uruguaios, depois de a recepção calcular o valor correspondente a partir da taxa de câmbio do dia. Acabamos aceitando a operação bizarra e questionável para países soberanos e membros do Mercosul.
Após o café da manhã, pegamos ônibus urbano para o terminal rodoviário. Embarcamos em ônibus confortável, mas frio pelo desnecessário ar condicionado, similar aos ônibus brasileiros de longo percurso.
Pequenas paradas para embarque e desembarque nas cidades de Pán de Azúcar, San Carlos e Rocha, esta maior e onde embarcaram dezenas de novos passageiros, sobretudo estudantes em saída escolar. O ônibus então lotou, inclusive no corredor, entupindo de pessoas em pé.
A paisagem durante o trajeto exibiu terrenos aplainados entre leves ondulações e serrotes baixos e pedregosos. Casas esparsas, fazendas de gado e ovelhas, alguns parreirais, riachos, lagos, pastos verdejantes.
Embora se notasse pobreza em moradores das margens da estrada e em passageiros do ônibus, nada de miséria ostensiva. As casas avistadas eram grandes, bem construídas e dotadas de chaminés para as lareiras. Ruas de areia cortavam a rodovia com residências em ambos os lados.
Desembarcamos em La Paloma e fomos a pé até o hotel, completamente vazio fora da temporada, assim como os demais da cidade. E também vazias e fechadas grande parte das casas de veraneio, lojas, sorveterias, restaurantes, bares, lanchonetes. Perfeito! Era exatamente o que queríamos.
Demos volta pelas praias, arredores do farol de Santa Maria, por ruas desertas de gente, antes de voltar à avenida central a fim de forrarmos o bucho em um dos dois únicos restaurantes abertos. Fomos bem atendidos pela simplicidade. Comemos carne regada ao saboroso e refrescante refrigerante de fruta local.
Dormimos muito, bem e profundamente sob o silêncio absoluto da noite da cidadezinha de pouco mais de três mil habitantes.
Sob o esplêndido sol e o céu azul límpido, saímos para caminhar pelas praias de La Paloma. O vento fresco e constante às vezes esfriava o corpo, mas nada para precisar se cobrir.
Praticamente ninguém nas casas ou praias. Uma ou outra pessoa andando com cães, apesar da placa visível proibindo a entrada de animais nas areias. Quatro garotas se esticavam sobre esteiras e cadeiras de praia na esperança de se bronzearem sob o sol da primavera fria.
Nenhum comércio na beira da praia. Somente casas espaçadas, sem muros ou grades, todas batizadas com um nome qualquer afixado em placa de madeira, da mesma maneira que se nomeiam chácaras, sítios e fazendas nos interiores. Todas elas dotadas de lareira e janelas amplas de vidro, às vezes de vidro duplo, contra o frio que deve cair por lá no meio do ano. E praticamente todas vazias, cujos frequentadores esperavam dias mais quentes ou as férias de final de ano. Algumas com mato alto nos jardins frontais ou laterais indicavam ausência de moradores havia mais de um ano.
Enorme variedade de pássaros, nos tamanhos, tipos, cores, cantos, penas, enfeitavam e alegravam os caminhos pelas praias ou pelas ruas desertas. As areias grossas e trechos com cascalhos de cascas de mariscos e conchas feriam as solas dos pés. Tínhamos que desviar ou vestir os chinelos nos trechos mais pontiagudos.
Escolhemos massa e vinho tinto no segundo dos únicos dois estabelecimentos abertos. Sentamos em mesa interna devido ao vento cortante. Acabou se tornando mais interessante que o ensolarado lado de fora.
Iria começar a transmissão ao vivo pela televisão do jogo entre Jordânia e Uruguai pela repescagem para a Copa do Mundo de Futebol de 2014. Um grupo de crianças, professora e cuidadoras, outros clientes, as garçonetes, o dono gorducho, eventualmente até a cozinheira, prestavam atenção à telona, torcendo pela seleção nacional. Bandeiras uruguaias foram hasteadas na parte de dentro e de fora, daquele e em outros pontos comerciais e residenciais. Uma delas bem acima de nossas cabeças, afixada no vidro.
A cada gol uruguaio, gritos e abraços. O homem do casal ao lado, acompanhado da esposa e dois filhos menores, entornou dois litros de cerveja, passando a olhar revirado para tudo e todos. Vez ou outra saía para fumar, não deixando de acompanhar a partida pelo vidro transparente do restaurante. Gritava gol bem alto, seguido de “Uruguay, No Más!”. Ainda bem que a goleada folgada os manteve alegres.
Desci sozinho para jantar no bom e prestigiado restaurante do hotel disposto em ambiente sóbrio e bem decorado. Tracei peixe com gengibre e mel e duas taças de vinho.
Amanheceu um céu limpíssimo, cristalino, sem nuvens, o sol brilhando sem obstáculos. Porém, considerando os dias anteriores, nos vestimos completos, com camiseta, calça, meias, botas, agasalhos na mochila, prontos para o que desse e viesse naquele passeio de um dia.
Pegamos ônibus matinal e descemos em San Carlos. O segundo ônibus passou pela cidade de Maldonado antes de nos deixar na famosa e badalada península uruguaia de Punta del Este, sob um sol implacável que prometia ainda mais calor.
Em ambos os ônibus, passageiros simples, alguns vestindo roupas velhas, rasgadas, manchadas, puídas. Pobreza, dinheiro contado, sim, mas nada de miséria.
Iniciamos nossa exploração pela parte oeste da península, o calçadão da Playa Mansa, bem próximo a hotel e cassino, locação presente em programas televisivos patéticos nos quais certo apresentador brasileiro sai à caça de celebridades, normalmente figurinhas em acelerado processo de decadência. De um lado, ausência de praias, costões de pedra, o mar entupido de barcos e iates exageradamente exagerados das marinas. Do outro, a avenida e prédios de apartamentos espalhafatosos, ostentando piscinas privativas, entre restaurantes de preços salgados, mas que os garçons atravessavam as pistas para nos aliciar. E turistas, claro, para lá e para cá, admirando e fotografando tudo.
Avançando ao sul da península, e ultrapassando a barreira fechada dos prédios, bares e cassinos, chegamos ao setor mais residencial, de apenas casas, na verdade mansões estratosféricas, ocupadas provavelmente por classes sociais que pouco se importam com a fome e a miséria que assola a maioria da população do planeta. Pelo contrário, não só se lixam como faturam e vivem dessa mesma miséria. As moradias impactavam mais pelo exagero, sempre o exagero, do que pela beleza, bom gosto ou qualquer tipo de apuro estético.
Contornamos a ponta de Punta del Este, onde um conjunto de esculturas femininas, desmazeladas, caindo aos pedaços, se erguia sobre os rochedos além da murada.
A partir dali, na borda leste da península, caminhamos pela Playa Brava, de mar mais agitado, cujas enseadas se cobriam de rochas e cascalhos de cascas de mariscos. Após o trecho de mansões faraônicas, novamente a barreira fechada de prédios de apartamentos, suntuosos, alguns nem tanto e até mal cuidados. Já no final do lado leste da ponta, uma extensa porção de praia de areia branca e fina e a escultura acinzentada com os dedos de uma mão aflorando acima da linha da areia.
Do outro lado da praia, o terminal rodoviário de Punta del Este e um restaurante de preços acessíveis. E foi nesse que entramos, suados, fervendo, cansados, sedentos, devido ao sol abrasador e ao adiantado da hora. Comemos bem comida trivial uruguaia, compensada pelos preços nada assustadores em cidade que o chique é pagar caro, nem que seja para adquirir o lixo do lixo.
Pouco antes de pedirmos a conta, um cantor desajeitado, cuja filhota de poucos aninhos perambulava perdida pelos meandros do restaurante, começou a apresentação para os gatos pingados ocupando mesas esparsas, a maioria de brasileiros. Ao saber a predominância da frequência, ele atacou com um sucesso comercial da dupla Vitor e Leo, ali vertido para o castelhano. Depois, outra versão em castelhano de um sucesso comercial de Michel Teló, aquela mesma que rendeu versões em sei lá quantas línguas. O nobre cantante então empurrou o microfone para os integrantes animados de uma mesa para que estes pagassem o mico de interpretar a letra no original, em português, enquanto ele cantarolava em castelhano. A cena tocante me encheu os olhos de lágrimas, tamanha a comoção.
Sob o sol implacável do meio da tarde, atravessamos a avenida, vestidos com roupas e botas de quem esperava o frio. Ônibus e mais ônibus se enfileiravam na avenida despejando turistas para se fotografarem ao lado e na frente da escultura dos dedos da mão sobre a areia da praia.
Caminhamos pela avenida central da península, do lado da sombra evidentemente, entupida de lojas, oferecendo produtos caros e supérfluos.
Era hora de dar adeus à badaladíssima, famosíssima, chiquérrima Punta del Este, e completamente desprovida de graça para viajantes com o mínimo de massa cinzenta. Valeu ter ido para comprovar o óbvio. E valeu pelo dia claro, pelas cores, pela cristalinidade das paisagens valorizada pela luz do sol.
Partimos de ônibus rumo à cidade de Rocha, onde esperamos o segundo ônibus que nos levaria para La Paloma. E em tempo de assistir ao estupendo por do sol nas planícies uruguaias.
Saímos para jantar no mesmo restaurante do almoço do jogo de futebol, aquele com o grupo das crianças em viagem pela escola. E lá estavam elas novamente, jantando disciplinadamente.
Que maravilha voltar à mansidão, ao silêncio, à atmosfera simples de La Paloma, longe, bem longe da badalação otária de Punta del Este. A noite estava fresca, sem o frio intenso das anteriores. Relaxamos no bucolismo da cidadezinha com raríssimos turistas.
Retornamos ao hotel, gratificados pelo dia ricamente aproveitado, e ricamente questionado, como não poderia deixar de ser.
O vento uivou durante a noite toda, embora até a meia noite a lua quase cheia ainda brilhasse no céu límpido. No entanto, amanheceu nublado, com brisa fria e chuviscos ocasionais.
Entre olhadelas às pancadas de chuva, permanecemos no quarto. Aproveitei para ler mais páginas deliciosas de Espelhos, do Eduardo Galeano. Se em dia de sol, calor e céu azul, as reflexões e relatos desse pensador uruguaio caíam bem, imaginem com o vento e chuva do lado de fora. Páginas com textos curtos e sucintos sobre a história da humanidade, pelo menos os fatos que efetivamente importam à maior parte da humanidade, sob o olhar apurado do escritor, enriquecem e enriquecerão sempre.
Perambulamos pelo centro, bairros e praias de La Paloma debaixo de céu ameaçador, momentaneamente sem chuva.
Numa das travessas das imediações do farol de Santa Maria, avistamos um pastor alemão, raça muito apreciada por ali, sobretudo nos quintais das casas vazias dos moradores de temporada. Era dos grandes e se movimentava atrás da cerca de ripas de madeira. E latia para um cachorro menor que passeava com os donos pela rua de areia. Sabíamos que latiria para nós também, ainda mais que teríamos que passar rente à cerca a fim de desviar das poças d’água criadas pela chuva. Só não sabíamos que o filho-da-puta do dono ou do cuidador tinha deixado o portão da cerca apenas encostado, sem o ferrolho, e o danado do cão fosse abrir o portão com a pata e nos atacar em plena rua. Mas foi exatamente o que aconteceu. O amorzinho veio em nossa direção enquanto passávamos na frente da casa, quase colados à cerca. Desencostou o portão e, latindo e rosnando feito um doido, saiu pela rua. Logo me alcançou e mandou ver uma série de dentadas na parte traseira da coxa. Se manteve assim, rosnando e me mordendo, por uns segundos enquanto mantínhamos nosso ritmo, sem parar, sem correr, sem olhar para trás. Bastou ultrapassarmos a distância mínima de segurança da casa para o cão interromper o ataque e voltar para o interior do quintal, atrás da cerca. Durante o episódio nem o encarei. Apenas notei o vulto e os rosnados atrás de mim. E as dentadas obviamente. Só fomos parar quando nos sentimos numa distância segura. A pele ardia, embora não apresentasse sangramento ou ferimentos mais profundos. A cabeça foi a mil. Meu desejo era matar o pastor alemão e o irresponsável que deixou o portão da cerca destrancado. Fora a raiva, nada a fazer senão desinfetar o local das dentadas. E torcer para que o cachorro estivesse em dia com as vacinas.
Ao sairmos para almoçar, nova pancada de chuva, com muito vento, mais forte que do começo da manhã. Comemos no restaurante do hotel mesmo, muito e bem. Vinho uruguaio regou o lauto almoço, enquanto o mundo desabava do lado de fora, em imagem que contemplávamos pelo vidro do restaurante.
E nos retiramos ao quarto do hotel, mergulhando sob o cobertor extra. Que preguiça para lá de bem-vinda! Li Eduardo Galeano, tiramos uma soneca, li mais, não fiz nada, depois mais nada ainda, até que o tempo abriu quase totalmente.
O hotel lotou, de uruguaios e principalmente de argentinos, entre famílias e casais. A quantidade de carros estacionados em frente e a agitação durante as refeições apontava a chegada do fim de semana portenho.
continua...

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Uruguai e Argentina (parte 1/5)

Fazia tempos que eu tinha curiosidade de visitar o Uruguai, país pouco falado pelos viajantes. Além do Suriname, era o único país da América do Sul no qual eu jamais botara os pés.
Teríamos bastante tempo para o Uruguai e para um pulo na Argentina, pelo menos em Buenos Aires e arredores. E fora da temporada, evitando as hordas de visitantes que certamente entupiriam as cidades e encareceriam os preços.
Então lá fomos pela via aérea, aproveitando as milhas dos programas de fidelidade, para Montevidéu no começo de novembro. Optei pelo metrô até a estação Tatuapé, onde tomei ônibus comum ao aeroporto de Cumbica.
Partimos imediatamente para o embarque a fim de flanar pelas lojas, na verdade uma só, do dutyfree. Nada de nada, fora os cheiros enjoativos dos perfumes importados e caríssimos que nos ofereciam para testar e que depois não nos largavam mesmo lavando bem com sabonete. Era um odor adocicado, nauseante, pegajoso.
Comemos somente um sanduíche pequeno servido pela empresa aérea no voo até a capital uruguaia, que nos recebeu sob as nuvens e com temperatura fresca.
O veículo que nos conduziu ao centro da cidade acompanhou todo o litoral de Montevidéu. O bairro de Carrasco guardava mansões e apartamentos de alto padrão, de no máximo quatro andares, entre ruas arborizadas e muita tranquilidade. À medida que nos aproximávamos do centro, os edifícios subiam de altura e caíam de qualidade, sem jamais se mostrarem decrépitos ou inabitáveis.
Depois de hospedados no centro da cidade, saímos para reconhecimento da vizinhança e encontrar local para encher a pança. Encaramos uma mistura de bar, lanchonete e restaurante. De decoração despretensiosa, o estabelecimento mal tinha entrado no horário de jantar. Comemos bife a milanesa, coberto por dois ovos fritos cada um, batatas frias e pão. A jarra de vinho da casa ajudou a hidratar as vias.
Me senti em casa perambulando pelas ruas de Montevidéu, tal a semelhança de rostos, tipos, jeitos, arquitetura do começo do século XX, guardadores de carro, alguns mendigos.
De diferente, aliás, bem diferente, a gigantesca quantidade de pessoas, de todos os estilos, sentadas ou andando pelas calçadas, com a cuia e a bomba de chimarrão na mão, a garrafa térmica metálica debaixo do mesmo braço. O costume era infinitamente mais numeroso e intenso que no Rio Grande do Sul ou na Argentina. E dá-lhe chupadas na bomba, reabastecimento de água quente da garrafa térmica, rearranjos do mate na cuia. Mulheres, homens, jovens, idosos, vestindo roupas formais, como terno e gravata, ou à vontade, de bermudas, tipos conservadores, moderninhos, descolados, sozinhos ou em grupos, praticamente todos. Em todas as direções, dezenas, centenas, milhares de usuários de chimarrão, ali chamado de mate.
A névoa baixa só se dissipou no final da manhã seguinte, mas não impedia, da janela do quarto, de avistar o horizonte, o rio, as construções mais distantes.
Passamos pela praça Independência, tendo ao centro a imponente estátua de José Artigas, herói nacional do Uruguai, sob o cavalo. Ao lado, a moderna sede da presidência da república, ocupada, na época, pelo progressista José “Pepe” Mujica. Na esquina com a avenida 18 de Julho, altíssimo prédio do início do século XX, em formato irregular e rebuscado, bastante interessante, cujo topo, em domo, se projetava rumo ao céu, acima de tudo e de todos.
Cruzamos o portal de pedra, resquício da antiga cidade fortificada, ao fundo da praça, e mergulhamos no miolo da Cidade Velha de Montevidéu. Perambulamos entre prédios antigos, da virada dos séculos XIX para o XX, outros nem tanto. Uns conservados, imponentes, charmosos, como o Banco da República, outros decrépitos, interditados para futuras reformas, ou simplesmente abandonados. Barracas de artesanatos, antiguidades, velharias, pipocavam, principalmente nas imediações da praça da Constituição, que abrigava também a Catedral metropolitana.
À medida que avançávamos rumo à ponta da cidade, ao limite das águas do rio da Prata, a cidade se estreitava e se deteriorava. As águas à esquerda e à direita se aproximavam. Moradores de rua, dependentes químicos, pedintes, poucos e nada ameaçadores àquela hora da manhã.
O reduzido movimento comercial e administrativo do sábado suavizou a caminhada por ruas, avenidas, becos.
E, finalmente, caímos na zona portuária, mais especificamente nas imediações do Mercado do Porto, principal atração turística de Montevidéu e sem atrativo externo, exceto duas seculares fontes metálicas de água potável na calçada em frente. Nos interiores, lojinhas de quinquilharias, mas especialmente diversos restaurantes típicos servindo carnes e mais carnes, de todos os tipos e sabores, grelhadas nas vistosas e exibidas grelhas, bem abastecidas de carvão em meio às chamas altas e avermelhadas.
A grande concentração de restaurantes, aliada à circulação de centenas de turistas, obrigava os garçons a sair à cata dos clientes. Nada ostensivo, sufocante, perturbador, mas presente e incisivo.
Escolhemos o restaurante cujo caçador de clientes foi mais simpático, conversador, puxando papos ensaiados sobre futebol assim que descobriu nossa cidade de origem. Até provocou que ele e os demais deveriam se preocupar com os bolsos se fôssemos corintianos. De qualquer maneira, o local tinha bom aspecto e os preços nos atraíram.
Matamos uma garrafa de vinho branco frisante, o popular Medyo y Medyo. Abrimos a refeição com um suculento chouriço, e caímos de cabeça em generosos pedaços de carne de boi acompanhada de salada mista e batata frita. A onipresente cesta de pães não poderia faltar na mesa uruguaia. Não deixamos farelo sobre farelo.
Já de volta, visitamos os exteriores do imponente teatro Solis, ao qual o afluxo de idosos para uma apresentação vespertina nos chamou a atenção. Eram todos bem velhinhos, alguns amparados por bengalas, muletas, cadeiras de rodas, cuidadores. Todos invariavelmente bem vestidos e orgulhosos para o evento.
Descemos a rua lateral ao teatro até a orla e margeamos a rambla, avenida e calçadão costeiro ao rio e ao mar, cuja extensão ultrapassava os vinte quilômetros, livre e sem interrupções ou qualquer tipo de comércio, quase vazia naquela tarde de sol tímido.
Para o bem dos uruguaios e felicidade geral da nação, não identificamos aquele comportamento esquizofrênico, tão comum pelo Brasil e outros países afora, em que as ovelhinhas de rebanho cutucam histericamente os celulares, geralmente conectando ações sem qualquer importância pessoal ou social. É claro, um ou outro se comunicava em ligações telefônicas móveis, mas a maioria não desfilava com esse objeto quase sempre supérfluo, preferindo mantê-lo em casa, nas bolsas ou nos bolsos.
À noite, nos estufamos de comida no café e restaurante da avenida 18 de Julho. Precisávamos nos movimentar. O vento frio e cortante, no entanto, nos impediu de relaxar em andanças digestivas e exploratórias pela cidade. Nas esquinas e na beira do rio e do mar, o clima exigia o casaco fechado. Longe do vento, difícil de suportar mesmo durante o dia, a temperatura era bem agradável.
Na outra manhã, saímos a pé pela avenida 18 de Julho, sentido leste. Alguns quarteirões padronizados de cinquenta metros de comprimento depois, atingimos a rua Tristán Narvaja, ao longo da qual, e em mais algumas transversais, acontecia a feira dominical.
Pela extensa área se vendia de tudo, comidas frescas e preparadas, roupas, quinquilharias, antiguidades, velharias, artigos eletrônicos, artesanatos, utilidades e inutilidades, dispostas em bancadas cobertas como nas feiras livres brasileiras. Nas calçadas e nos comércios fixos, mais antiguidades, cafés, bares velhos e tradicionais, nem sempre bem conservados, mas sempre prestigiados, além de dezenas de sebos repletos de livros variados, para fazer inveja a um Brasil de não leitores. Na calçada da avenida 18 de Julho, mudas de plantas, cobras, ratos, lagartos, tartarugas, todos vivos.
Na calçada oposta da avenida, a Universidade da República, expondo faixas e cartazes, pendurados ou colados, por mais investimentos na educação, contra a retirada de estudantes das moradias estudantis, entre outras reivindicações.
Dali, prosseguimos até o cruzamento com o Boulevard Artigas, larga e extensa avenida norte-sul, onde se erguia o obelisco dos constituintes de 1830 que escreveram a primeira constituição do Uruguai após a independência dos invasores espanhóis, mas negando direitos elementares à maioria do povo. Assim denunciou o escritor uruguaio Eduardo Galeano em excelentes livros, inclusive no clássico Veias Abertas da América Latina e em Espelhos, este um de meus livros favoritos e estrategicamente presente na bagagem daquela viagem.
Do obelisco, alcançamos o terminal rodoviário de Tres Cruces. Sobre o terminal, o xópin de mesmo nome e, como todos os xópins da face da terra, pasteurizado e repugnante, voltado exclusivamente ao consumismo doentio. Mas, como em todos os xópins do mundo, valeu pelos banheiros, somente pelos banheiros.
Retornamos ao centro da cidade de ônibus urbano. Comemos ravióli ao sugo com frango, precedido pela insípida Grappamiel, mescla industrial de aguardente de uva e mel, e regado ao Clericó, uma mistura refrescante de vinho branco, licor, pedaços de frutas variadas e pedras de gelo. Encontramos mesa na janela para a avenida, com direito a contemplação do movimento das calçadas, especialmente do Chafariz dos Cadeados, em cujo entorno os casais afixavam cadeados com os respectivos nomes, garantindo assim, pelo menos conforme a lenda, a eternidade do amor. Os turistas paravam e se fotografavam ao lado dos cadeados, de frente, de lado, um de cada vez, os dois juntinhos.
Esticamos às quilométricas ramblas que costeiam as águas do rio e do mar, sob o sol forte da tarde. Alcançamos as praias de areias brancas, após passar ao lado de discretas plataformas de pesca, largos para namorar e relaxar, pistas de patins, muito espaço disponível para olhar as águas, ler, ouvir música, conversar, passar o tempo sem pressa. Os montevideanos botaram fé no sol vespertino daquele domingo e baixaram em peso à orla da capital. Havia espaço para toda a população da cidade, para os turistas e mais um pouco. Nada lotava em Montevidéu, cidade repleta de espaços públicos e democráticos, bem diferente da privatizada e desumana São Paulo, cidade em que, na ausência dos mesmos espaços livres, a população se vê obrigada a “passear” e consumir supérfluos caros nos xópins da cidade.
Na capital uruguaia, como não poderia deixar de ser, mesmo em tarde quente e ensolarada, a população vinha acompanhada do onipresente chimarrão. A cuia e a bomba numa mão, a garrafa térmica metálica sob o mesmo braço. Caminhavam assim, se sentavam assim, se movimentavam assim, conversavam assim, paravam assim, entre sugadas de mate, todos os dias.
Retornamos ao quarto do hotel, esgotados de tanto andar para cima e para baixo. Abrimos a janelona voltada para o poente e o sol entrou em cheio. Preguiça merecida em tarde sem sensação de frio.
E refletimos sobre a inveja positiva que os uruguaios despertam nos brasileiros, em especial nos moradores da maioria das cidades grandes. Os uruguaios prestigiavam os locais públicos e democráticos, praças, parques, calçadões das ramblas, em família, casais, sós, jovens e idosos, pobres e ricos. Sem falar nas ruas arborizadas de plátanos, em ambas as calçadas, cujas copas se encostavam acima, formando alamedas sombreadas e esverdeadas. Também a diversidade nos logradouros públicos, bares, restaurantes, cinemas, teatros, áreas de lazer em geral, de idosos ao lado de jovens, casais próximos a turminhas, grupos em contato com pessoas sós, idades e tipos díspares convivendo no corpo a corpo.
O sol ainda brilhava depois das 19h quando saímos para experimentar o Chivito, o famoso sanduiche uruguaio. Contando com várias receitas, o Chivito trazia uma infinidade de ingredientes, vegetais e de carne, crus e cozidos, entre as metades do pão. Detonei o lanche regado à jarra de vinho.
A noite surpreendentemente quente, e sem o vento, atraiu montevideanos e turistas para as ruas, calçadas e praças do centro. A lua quarto-crescente no topo do céu limpo de nuvens coroou a cálida noite.
Segunda-feira útil em Montevidéu. Andamos a esmo pela Cidade Velha, observando pela segunda vez as construções neoclássicas, pesadas e atraentes.
Pegamos o ônibus municipal turístico e percorremos as principais atrações de Montevidéu, as já exploradas e as ainda não contempladas. Entre as últimas, o parque Batlle, o bairro e parque do Prado, repleto de verde e bucolismo, o estádio de futebol Centenário, a orla com as praias do bairro de Pocitos e Punta Carretas.
Esperávamos dia claro e ensolarado como o anterior, mas nublou e esfriou. Quase congelamos na parte superior e aberta do ônibus. Mesmo tremendo de frio diante do vento cortante, aguentamos firme todo o trajeto.
Assim que o circuito terminou, corremos para o Mercado do Porto, nos esquentando com uma dose de aguardente de uva, a Grappa uruguaia. Pedimos uma garrafa de vinho uruguaio e caímos de cabeça na fraldinha grelhada, ao ponto, enriquecida com molho levemente picante.
continua...