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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Cuba e México (parte 2/2)

...continuação
Comemorado no dia primeiro de janeiro, o aniversário da revolução cubana não contou com festas e discursos na tradicional praça da revolução. O governo alegou economia de recursos e cancelou o ato. Acordei cedo no primeiro dia do ano. A praça, ruas e redondezas estavam vazias naquela manhã ensolarada. Havana parecia de ressaca da virada do ano e ninguém dava sinal de vida.
Havia os opositores à revolução, que não se escondiam como insiste em mentir a imprensa burguesa. E nem se amedrontavam ao se depararem com os simpatizantes da revolução, a maioria do país. Ambos os lados faziam questão de expor as ideias em público. Segundo depoimentos que ouvi, o governo perseguia e prendia somente os que cometiam atos de traição e terrorismo, incêndios criminosos, sabotagens à economia nacional, espionagem para os estadunidenses. O conteúdo das críticas ouvidas se restringia à falta de variedade de roupas da moda internacional nas lojas, deficiência do transporte coletivo, lentidão no processo de melhorias na habitação, racionamentos. Mas se assustavam quando eu descrevia as “maravilhas” do capitalismo brasileiro e latino-americano. Também reconheciam que muitas das dificuldades da situação cubana provinham do criminoso bloqueio econômico e naval imposto pelo regime dos Estados Unidos desde o início dos anos de 1960. Conheci cubanos curiosos sobre o movimento social brasileiro e a então novidade do Partido dos Trabalhadores.
De maneira geral o povo cubano se assemelhava muito ao brasileiro. E sabiam disso pela música, dança, calor humano, malícia, bom humor, comunicabilidade. Embora com características físicas diferentes, a influência africana se fez presente em ambos os países, atingindo profundamente inúmeros setores da cultura popular.
Os cubanos se libertaram da miséria secular causada pelos domínios espanhol e estadunidense. Não por coincidência, a maior parte do povo, inclusive os negros e mulatos, possuíam curso universitário, se conscientizavam da situação social cubana e mundial, tinham todos os dentes. E não havia menores abandonados ou passando fome perambulando pelas ruas.

O tempo voava e tive que deixar Cuba.
Desembarquei perto da hora do almoço na capital mexicana. O simpático atendente do balcão de informações turísticas me auxiliou na escolha do hotel. Ao saber que eu vinha de Cuba, me perguntou, rindo, quantos fuzis eu carregava na bagagem. Informei que coube apenas um. E ele prontamente me ofereceu carona.
Nem sei o quanto demorou o trajeto ao distante centro da maior cidade do mundo, mas as conversas animadas do mexicano ajudaram o tempo passar rápido. Entre muitos outros povos, o mexicano sempre foi admirador do povo e cultura brasileira. Era evidente em cada frase dele. E eu sempre tentei retribuir esse acolhimento.
O hotel se localizava em área nobre, sem muitos edifícios altos, em razão da alta incidência de tremores de terra. E as conseqüências do terremoto de dois meses antes tinham se transformado em atração turística. Ruínas, desmoronamentos, rachaduras, escombros, entulhos, construções destruídas parcial ou totalmente, atraíam fotógrafos, mórbidos e curiosos em geral.
No café da manhã do hotel, arrisquei os huevos mexicanos. O dito cujo veio com pintinhas vermelhas por toda parte. Não deu outra. Queimou feito fogo no estômago. Não eram ovos com pimenta, mas pimenta com ovos. Trucidei todo o pão e manteiga possível. Bebi o jarro inteiro de café com leite. Amenizou o incêndio, mas não resolveu.
Caminhei pelas imediações do hotel, fui até o centro antigo, o Zócalo, passeei pelo parque, entrei em contato com a rotina dos mexicanos da capital. A situação social da maioria dos mexicanos contrastava com a dos cubanos, mas se assemelhava à dos brasileiros. Cenas ausentes em Cuba abundavam pela cidade do México. Menores de rua, pedintes, insegurança, miséria do povo, ao lado do luxo, riqueza e ostentação da minoria muito rica. Nem por isso os mexicanos perdiam a simpatia. Simpatia que logo crescia ao descobrirem que eu era brasileiro.
O destaque na cidade ficou por conta do estupendo Museu de Antropologia. Ao contrário da maioria dos do gênero pelo mundo afora, o museu mexicano conseguia a proeza de ensinar sem ser enfadonho. Percorri a imensa área, lentamente, aproveitando cada ponto. Constatei, mais uma vez, que é possível mostrar história de maneira profunda e empolgante.
E era hora de voltar ao Brasil.
Reencontrei no aeroporto com os judeus paulistas, aqueles que exigiram que a nora se convertesse ao judaísmo.
A escala do voo prevista em Lima não foi possível em razão das fortes chuvas na capital peruana. O avião pousou em Guayaquil, litoral sul do Equador. O comandante liberou o desembarque dos passageiros enquanto aguardava novas instruções. Desci e me dirigi ao café do pequeno aeroporto. Observei o mapa do Equador pendurado na parede. Era em alto relevo e logo me encantei. O pequeno país erguia-se do leste, a partir da floresta amazônica e do oeste, a partir do litoral, formando a cordilheira dos Andes, ao centro, como grande espigão, de norte a sul. Em minutos concluí que desejava explorar aquela obra de arte da geografia. Mas esse sonho teve que aguardar alguns anos.
Desembarquei em São Paulo em janeiro do ano seguinte, emocionado com o tanto que aprendera naquela viagem.