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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

do Mato Grosso à Bahia, via Amazônia (parte 2/7)

...continuação
Acordamos cedo e caminhamos na parte oeste do topo do Monte Roraima que mede noventa quilômetros quadrados. As abruptas mudanças de tempo, entre sol, névoas, nuvens passando em velocidade, várias luminosidades, configuraram surpreendentes e esquisitas belezas, formatos, cores, vales, planícies, quedas d’água, morros, pilares, concentrações de cristais de quartzo.
A fronteira tríplice entre Venezuela, Brasil e Guiana guardava o marco geográfico piramidal, em cujas três faces apareciam os nomes de cada país, exceto a da Guiana devido a pendências fronteiriças com a Venezuela. Mais adiante, o poço arredondado que se ornamentava com colunas esculpidas pelas águas caídas de pequenas cachoeiras para depois sumirem no vazio escuro.
Dia para os lados das escarpas da Guiana e da Janela.  Subimos pico Maverick, o ponto culminante do monte Roraima com 2875 metros de altitude. De lá, visão privilegiada de parte do topo e, em dias claros, das savanas e campos.
Tomávamos nossos banhos nos lagos formados entre as pedras ou em pequenos riachos.
Na terceira noite no topo, o céu ficou simplesmente perfeito, limpo, cheio de estrelas. Era o final de ano. Eu passava a virada para o ano 2000. Sem o bug do milênio, mas com muita emoção e deslumbramento, acampado no topo do belo e esquisito Monte Roraima. A beleza esquisita ou a esquisitice bela da paisagem ao redor fascinava, envolvia tudo e todos.
Acordamos ao amanhecer para desmontar as barracas, refazer as mochilas e iniciar o retorno. A descida extenuou agravada pelo peso da mochila cargueira e pelos escorregões. Mas eu contemplava sempre, mil vezes mais, o paredão do monte Roraima. Nova parada inadequada para dormir em casebre apertado às margens do rio Kukenan. Após o banho refrescante e preguiçoso, logo me vesti para evitar os insaciáveis piuns e me deliciar diante do fantástico pôr-do-sol dourando o monte Roraima, seguido de linda noite estrelada.
Aquele que se nomeou guia do grupo agiu como militar, sisudo e duro, insistindo no casebre da beira do rio, exagerando nos horários, invariavelmente de mau humor e sem descontrações. Desrespeitava as diferenças. Se mantinha sempre intolerante e irritadiço.

A maioria dos estrangeiros na trilha não entendia e nem queria entender espanhol. Racistas, grosseiros e mal educados, os loiros se recusavam a cumprimentar e a se comunicar em outras línguas. Já uma bióloga venezuelana me esclareceu sobre a situação política e social do país. O início do processo político conduzido democraticamente e com a participação do povo pelo governo Hugo Chavez estava revolucionando as estruturas sociais da Venezuela em favor dos pobres. Daí a irritação dos ricos capitalistas e dos grandes meios de comunicação pelo mundo afora. Através da assembleia constituinte eleita pelo voto direto a população discutia e escolhia o melhor caminho para o país.
Conversei com os índios na chegada à vila de Paraytepui. Bebi cachere, o fermentado de mandioca e batata roxa. Os guias locais com as famílias, na base da chantagem emocional, nos pressionaram a lhes dar presentes. Foram mal acostumados pelos turistas que os tratam como indigentes, promovendo e incentivando a mendicância.
Em Santa Helena de Uairén nos hospedamos em outra pousada, bem decorada e mais confortável que a anterior. E com jantar farto e saboroso. 
Nas paisagens pelo norte de Roraima, cerrado, focos de queimadas, lindas faixas de buritizais, áreas alagadas com garças e seriemas. A rodovia cruzava reservas indígenas e, exceto pelas cabanas cobertas de folhas de buriti, nada se notava.
Tivemos o jantar de despedida no restaurante da margem do rio Branco, em Boa Vista. Detonei quatro caipirinhas e a deliciosa caldeirada, entre bons papos. Sempre haveria divergências em grupos e com aquele não foi diferente, sobretudo devido ao tipo carrancudo de Belo Horizonte. Mas a caminhada correspondeu e o visual encantou.
Acordei cedo e fui de ônibus urbano à estação rodoviária de Boa Vista. O percurso até Manaus durou o dia inteiro. Não seria exagero dizer que perto de duzentas pessoas subiram e desceram do ônibus antes de cruzar a fronteira estadual. À medida que o ônibus avançava para o sul a paisagem evoluía de cerrado para floresta tropical, ou o pouco que restou dela. E onde o desmatamento foi total, nada de plantações, apenas o triste cenário cercado de desolação e abandono. Os vilarejos eram feios e sujos. Nem parecia que ali viviam seres humanos. Nos carros e caminhões de transporte de passageiros, várias e longas faixas saudavam e adulavam os políticos locais com frases do tipo “apoio do deputado fulano”, “este serviço é graças ao deputado sicrano”, e outras excrescências.

A parte mais fascinante de todo o percurso rodoviário ocorreu na travessia da reserva indígena Waimiri-Atroari, criada em 1987 depois de anos de conflitos gerados pela abertura da estrada no início dos anos de 1970. Inúmeros massacres que dizimaram parte da população indígena provocaram reações não menos violentas. Relatos descreviam diversas crueldades dos brancos, como amarrar famílias inteiras indígenas com arame farpado, ensopá-los de combustível e atear-lhes fogo. Após a verificação dos documentos de cada passageiro pela Polícia Federal, o ônibus percorreu, sem paradas, toda a extensão da reserva. Placas no acostamento reforçavam sobre a área de proteção e que ninguém deveria parar. Na reserva indígena a floresta amazônica estava preservada. Ao contrário dos invasores brancos, os indígenas convivem harmoniosamente há milênios com a natureza. Sem destruí-la, garantem a boa qualidade de vida das comunidades. Pouco se via da janela do ônibus, além da floresta, raras cabanas e escritórios da FUNAI alertando a proibição da entrada.
Desembarquei em Manaus no início da noite. Nas imediações do hotel, diversos níveis de hospedagem, da luxuosa a simples, prostituição aberta nas ruas ou quase camuflada nos bares e restaurantes. Um morador afirmou que “muita menina nova envolvida com o consumo de drogas cobrava dez ou até cinco reais por programa”.
Manaus estava quente, feia, suja, confusa, com esgotos a céu aberto, trânsito caótico, engarrafamentos, buzinas ensurdecedoras. Passei pelo porto flutuante e pelo mercado municipal, construído em estrutura metálica no auge do ciclo da borracha, quando a minoria rica da cidade vivia em pleno luxo e ostentação. Na parte interna, além do comércio de peixes e carnes frescas, secos e molhados, artesanato e quinquilharias, vários restaurantes, muito simples e baratos, serviam pratos feitos na base de peixe frito, arroz e feijão ou baião-de-dois.
A navegabilidade do rio Negro, na parte mais alta, estava comprometida pelo baixo nível das águas. Ficaria para outra vez. Acordei antes do amanhecer e segui direto ao aeroporto local. Fui chamado no último minuto para o voo do pequeno avião da empresa regional. Do alto, as águas escuras do rio Negro se realçavam com as ilhas alongadas, formando interessantes labirintos e arquipélagos.
De nome original Uaupés, São Gabriel da Cachoeira guardava relevo acidentado, ladeiras asfaltadas entre morros, belíssima visão do rio Negro, das corredeiras, praias de areias brancas, pedras, ilhas. A pacata e discreta população da cidade era composta basicamente de indígenas e mamelucos, com rostos arredondados, olhos puxados, estatura baixa e quadris largos. A intensa presença militar se notava em todos os cantos. A energia elétrica vinda da pequena central termoelétrica provocava poluição sonora e do ar com constantes nuvens de fumaça. E estava paralisada. A população, há dias sem energia, sobrevivia com dificuldades.
Nada melhor que o refrescante banho nas águas escuras, transparentes e mornas do rio Negro, permanecendo com o corpo imerso até o pescoço, percebendo o tempo passar lentamente. A acidez das águas do rio dificulta a formação das larvas e impede o aparecimento de mosquitos.   
Conversas longas e elucidativas com o funcionário do IBAMA referentes ao parque nacional Pico da Neblina. Eram apenas dois funcionários para proteger, fiscalizar e cuidar de mais de dois milhões de hectares da então segunda maior unidade de conservação do Brasil.

No final da tarde, agora em companhia de quase toda a população da cidade, outro banho no rio Negro, desta vez de roupa e tudo. Com o sol mais baixo e a temperatura levemente mais amena, os moradores se banhavam, lavavam roupas, louças e afins.
Decidi ir à vila de Cucuí na fronteira tríplice com Colômbia e Venezuela.
O percurso durou o dia inteiro por caminho generosamente denominado de estrada. O ônibus velho e podre, batizado de “Profeta”, lotou o tempo todo, mais as cargas variadas espalhadas pelo corredor. O motorista pedia para os passageiros descerem nas travessias de antigas e frágeis pinguelas. Dois ou três troncos alinhados longitudinalmente à estrada metiam medo até de atravessar a pé. A floresta margeava bem próximo da estrada, com lagoas de águas escuras, ornamentadas de arbustos de folhas verdes de mais de um metro de comprimento e quase o mesmo de largura. Serras e colinas surgiam pelo caminho. Os passageiros despejavam pela janela restos de comida, papéis, garrafas, latas, pilhas usadas.
Pequena vila encravada no meio da floresta na margem esquerda do rio Negro, Cucuí vivia em função dos postos militares, ainda mais que São Gabriel da Cachoeira.  Mais ao norte, se erguendo firme e elegante no horizonte, muito acima das copas das árvores, destaca-se a pedra do Cucuí. O formato, coloração e luminosidade ao entardecer impressionaram. Fiquei em pensão precária de madeira e sem água encanada. E permaneci mergulhado nas águas do rio Negro por longo tempo a fim de tirar o calor e a poeira da estrada.
A presença de militares, circulando com uniformes por toda a cidade, constrangia e sufocava, sobretudo pelas atitudes prepotentes. Em um bar tive que aguentar o exibicionismo de autoridade dos milicos que, sem justificativas, insistiam em me revistar. Em pequena elevação da vila às margens do rio Negro, o posto de observação do exército se constituía de pequena tenda coberta de palha de buriti protegendo a metralhadora sobre o tripé fixo no chão. Um soldado montava guarda nas 24 horas do dia apontando a arma para a fronteira da Colômbia. Outro pequeno grupo ao lado fortemente armado também se voltava para a mesma direção. Todos orgulhosos alegavam proteger o Brasil do inimigo. Perguntei qual inimigo e, após se atrapalharem na resposta mal decorada, os militares acusaram a guerrilha colombiana. Mas de nada servia aquela encenação patética. Moradores comentavam que havia grande movimentação de pessoas na fronteira, principalmente durante a noite. Contrabandeavam combustível, mantimentos, trocavam mercadorias de ambos os lados.
Entrei embaixo do mosquiteiro no quarto da pensão. Com o ventilador ligado, adormeci sem muito esforço, mesmo com os estrondos causados quando frutas caíam das árvores sobre o frágil telhado. 
O ônibus voltou mais vazio a São Gabriel da Cachoeira. O radiador furado do “Profeta” obrigava o motorista a parar periodicamente enquanto o auxiliar o preenchia com incontáveis garrafas d’água. Deparamos com um caminhão caído no buraco. A carroceria atravessada na estrada impedia o fluxo dos demais veículos. Só foi possível retirá-lo após o “Profeta” guinchá-lo com o cabo de aço. Mais adiante, o homem parado na beira da estrada pediu ao motorista para parar. Entregou-lhe saco cheio de peixes como pagamento das passagens anteriores. Diante da alegação do motorista de ser muita quantidade, o senhor garantiu que havia peixe demais na região.

A ostensiva televisão em São Gabriel da Cachoeira irritava nas lojas, restaurantes, bares, barraquinhas, casas, ruas. E o povo parava, sentava e assistia com expressão bovina. E praticamente tudo se jogava nas ruas, calçadas, terrenos, praias, rio. Nenhuma lata ou cesto nas calçadas. O recolhimento municipal não funcionava. Nas margens do rio abundavam garrafas, cacos de vidro, plásticos, copos, roupas velhas, latas, restos de comida.
A cidade não plantava ou criava nada. Alimentos em geral, grãos, verduras, carne, ovos, leite, combustível vinham de Manaus ou de outras regiões do país. E com a navegabilidade do rio Negro prejudicada, começavam a surgir sinais de desabastecimento. A situação gerava exaltados comentários pelas ruas, muitas vezes precipitados e equivocados. Negavam a rica herança e sabedoria milenar indígena. Insistiam em encarar a floresta como inimiga e obstáculo. Recusavam-se a enxergar e admitir os erros cometidos em outras partes da Amazônia. Apontavam a falta de estradas e do progresso como causas dos problemas regionais. Lamentavam a interrupção da abertura da rodovia perimetral que ligaria São Gabriel da Cachoeira a Boa Vista e esta ao Pará e ao Amapá. Mas a situação de Rondônia e da rodovia transamazônica no sul do Pará demonstravam o desastre humano e ambiental derivados desses projetos criminosos. Doía ouvir de engenheiros a trabalho na região que a “saída para melhorar a vida na cidade seria a construção de vários hotéis nas margens do rio e de estradas pavimentadas por toda a região para incrementar o turismo”. Nenhum comentário sobre lixo, desmatamento, miséria, carência de serviços públicos essenciais, ausência de agricultura familiar de alimentos, descaso administrativo na educação e na saúde com a população.
Ainda tive que enrolar muitos dias sob o calor abafado até a chegada dos demais integrantes da expedição. Permanecia sob as sombras mais fresquinhas e observava o vaivém dos moradores. E assisti, de repente, um motorista de táxi, depois de forte espirro, lançar a dentadura, como um projétil, a dois metros de distância.
continua...

do Mato Grosso à Bahia, via Amazônia (parte 1/7)

Em novembro larguei a paranoia do bug do milênio no banco onde trabalhava e decidi explorar o Monte Roraima e o Pico da Neblina no norte da Amazônia. E com tempo suficiente para aproveitar o caminho até o encontro com os colegas da empreitada em Boa Vista.
O ônibus com destino a Cuiabá saiu de manhã do Terminal Rodoviário da Barra Funda praticamente vazio. Ao chegar peguei outro ônibus para a cidade de Chapada dos Guimarães, cujo percurso passou por dentro do parque nacional, margeando imponentes escarpas. Jantar muito saboroso na base de galinha caipira com arroz e farofa de banana. A porção era imensa. Mesmo faminto, sobrou muito. Ainda teve a pinga da região, muito gostosa e gratuita.
Durante a noite, além dos mosquitos, o galo do vizinho da pousada não parou de cantar, histericamente.
Decidi me encaixar em passeio de grupo, difícil sem guia e transporte próprio, rumo à cachoeira da Martinha, caverna Aroe Jarí, gruta do Lago Azul e à Cidade de Pedra. Para atingi-las foi preciso encarar bastante estrada de terra, trilhas pelo cerrado e matas ciliares. A gruta do Lago Azul impressionou pelo tom azulado da água. A Cidade de Pedra reservava vista maravilhosa das escarpas da chapada e dos vales mais abaixo. Na parte alta e aplainada da chapada predominavam monoculturas de soja e fazendas de gado, mas os blocos rochosos de diversas formas e tamanhos chamavam mais a atenção. De volta à cidade, vazia naquela época do ano, delicioso jantar com o grupo na base de muita comida típica e pinga artesanal.
Durante o café da manhã da pousada surgiram paranaenses do interior, bem típicos, broncos, com medo de gente. Foi o sufoco para eles responderem ao simples “bom dia”. Peguei o ônibus local e caminhei até a entrada do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães. Visitei a cachoeira Véu de Noiva, as escarpas e os vales e, mais adiante, pelas trilhas no cerrado, límpidas cachoeiras, maravilhosamente sem ninguém. Deu para ficar nu e relaxar de verdade. As trilhas prosseguiam em meio ao cerrado com vistas dos paredões.

Aceitei a sugestão do mesmo guia de dias antes de caminhar até o morro São Jerônimo, o ponto culminante da Chapada dos Guimarães. Surgiu excursão de colegiais vindo do interior de Rondônia. Quase cinqüenta adolescentes mais dois coordenadores lotavam o ônibus de turismo. O passeio ficaria bem mais barato dividindo com a tropa. Eu e o guia fomos em pé, na frente, junto ao motorista. No toca-fitas rolava em volume altíssimo a música cujo refrão dizia:
Não te quero mais, Me deixe em paz, Procure outro rapaz (repete).
Piranha! (repete).
E no final arrematava com o doce verso “Socorro polícia, essa mulher roubou minha carteira”.
Antes da caminhada, cerca de vinte adolescentes empacaram logo na primeira cachoeira, urbanizada, e ali ficaram. Os remanescentes partiram para a caminhada, sob o sol quente, com chinelo de dedo, sem camisa, garrafas de água penduradas por barbantes, enormes sacos de sanduíche, bolachas, uma enorme e pesada filmadora. Antes de completar o primeiro quilômetro de trilha já estavam exaustos e querendo desistir, muitos já descalços. Mas apertaram o passo e passaram a curtir. Conversavam comigo e até elogiavam o guia. Subiram os paredões do morro satisfeitíssimos, fotografaram bastante, filmaram as explicações do guia.
Deixei o dia seguinte para não fazer nada e me entregar à lentidão e à preguiça da interiorana Chapada dos Guimarães. Circulei pelas ruas onde se construíam casas grandes para os ricaços de temporada. Na zona central, conforme determinação contemporânea à criação do parque nacional, somente casas térreas, janelas de madeira e acabamento colonial.
Durante a noite de sábado reencontrei os rondonienses na praça lotada. Além da escola ajudavam nas lavouras ao redor da cidade fundada pelos pais, imigrantes principalmente paranaenses e gaúchos. O grupo bancou a excursão a partir de contribuição de dois reais por cabeça, mais o dinheiro arrecadado em festas beneficentes. Extremamente broncos, simpáticos, sinceros e autênticos, contaram das cobras, muito trabalho, pouco lazer, hábitos conservadores, banhos de rio, falta de dinheiro.
Entrei novamente no parque nacional e explorei as trilhas situadas depois da cachoeira Véu de Noiva. Após a trilha íngreme, encontrei cachoeira quase selvagem com queda de cerca de quarenta metros. Araras voavam no céu azul. Depois de meia hora de absoluta tranquilidade surgiram três turistas guiados. Com menos de 30 anos, muito magra e tensa, a paulista explicou que a consultora esotérica lhe recomendou a viagem porque a data e o local se casavam com os astros no dia do aniversário dela. Ficaria na chapada apenas três dias e depois voltaria ao trabalho estafante. A coitada chegou tensa, permaneceu tensa e assim retornaria.

Tomei o ônibus urbano para Cuiabá. Na rodoviária, esperei o ônibus proveniente de Curitiba e com destino a Porto Velho. O ônibus era do tipo semileito, com terrível e gelado ar condicionado, água à vontade e aqueles incômodos suportes para pernas e pés. A frequência, claro, de paranaenses e sulistas em geral.
Depois de Várzea Grande a estrada sinuosa desviou para oeste evitando os trechos mais íngremes e dramáticos das chapadas, com serras de coloração verde escura, cerrado, escarpas. Nas partes baixas, extensas planícies parcialmente alagadas, fazendas e muito gado. Próximo ao entroncamento da fronteira boliviana, no meio da serra e sob a forte chuva, agentes da Polícia Federal pararam o ônibus para verificação de documentos dos passageiros masculinos. O veículo atravessou a plana cidade de Cáceres, com longas ruas de terra e muito verde. Haja mangueiras e sombras frescas. Mais à frente, o jantar em Pontes de Lacerda.
Na fronteira entre Mato Grosso e Rondônia a fiscalização sanitária apenas aconselhou aos passageiros a vacinação contra a febre amarela. O dia começou a clarear em Rondônia. Ao lado a cidade de, com o perdão da palavra, Presidente Médici.
Muitos sulistas desceram na parada em Pimenta Bueno durante a madrugada, quase esvaziando o ônibus. Embarcou e se sentou ao meu lado uma mineira de Ouro Fino. Idosa, morava na região desde 1964, quando nem havia estrada de terra. Até Porto Velho era preciso barcos pelo rio Machado e depois rio Madeira. A estrada veio mais tarde, com poeira, lama, atoleiros. Não tinha médicos, apenas enfermeiros despreparados e, eventualmente, estudantes do projeto Rondon. O marido faleceu em 1971 após aplicação indevida de injeção. Sobreviveu viúva à malária, hepatite e outras “febres de verão”, mantendo-se firme para, como lavadeira, sustentar sozinha os nove filhos. Foi atraída pelas falsas promessas da ditadura civil e militar. Depois da chegada, decepções e falta de dinheiro para voltar. Outros tantos milhares de seres humanos tiveram o mesmo destino.
A paisagem de Rondônia vista da janela do ônibus era desoladora. Cidades agitadas, como Ariquemes e Ji-Paraná, mas pobres, feias, sujas. Imensas áreas planas sem vestígios do que já foi a floresta amazônica. Não faltavam grandes galpões das madeireiras e caminhões transportando enormes toras. E no lugar da floresta? Plantações de alimentos, lavouras? Nada. Apenas o vazio cercado e as raríssimas criações de gado. A senhora mineira constatava e se entristecia com a catástrofe e a destruição desenfreada.
Ela se despediu emocionada na rodoviária de Porto Velho, afirmando que fora um prazer poder conversar comigo. Puxa, foi todo meu! Coloquei a mochila nas costas e, sob o sol escaldante, caminhei dez quarteirões até o hotel.
Porto Velho não tinha nada de especial. Plana com ruas longas, largas e planejadas, poucos prédios altos. Com exceção da parte central, tudo calmo e agradável de andar. Andei pela margem do rio Madeira, com o porto fluvial, os barzinhos, a estação desativada da ferrovia Madeira/Mamoré. A estação possuía museu com objetos e fotos que contavam a história da famosa ferrovia. Os textos falavam dos estrangeiros que trabalharam e acabaram ficando, entre os quais os negros de Barbados. O povo sempre desejou a reativação total da ferrovia. Mas, como em todo o país, é impedida pela ditadura do transporte rodoviário.

Na margem do rio Madeira, ancorados, barcos com destino a Manaus. Os vendedores das agências de passagens surgiam aos montes. Alto-falantes tocavam músicas e passavam recados pessoais. O monte de barro com pedaços de madeira servia de rampa para embarque e desembarque. Tudo muito improvisado e desleixado.
À noite, pelo centro, ruas desertas e sem iluminação. Raros veículos e nenhum pedestre. Breu total. Por outro lado, a tirania da televisão atingiu a cidade em cheio. Em praticamente todos os bares e restaurantes a desgraça estava ligada, para onde os frequentadores fixavam os olhares bovinos. Até nas barraquinhas de sanduíche existia a dita cuja voltada para as mesinhas dos fregueses.
Na outra margem do rio Madeira, nos acostamentos da BR-319, barracas cobertas com palha de buriti vendiam refrescos e salgadinhos. Numa delas, o homem gritava indignado para o colega:
“Onde já se viu admitir uma coisa dessas? A mulher chegou aqui em setembro e já arrumou quatro maridos nesse tempo. Assim não dá! Essa não presta”.
E emendava:
“Eu, quando cheguei aqui, até hoje já tive onze mulheres, com essa que está em casa. A primeira eu peguei na rua, dei comida para ela, ajeitei ela, deixei ela bem...”.
Em outra barraca três homens falavam mal dos índios, acusando-os de beberem um litro de pinga na mesma noite e quererem trocar três índias pela mulher do comerciante.
Encontrei churrascaria com comida saborosa, bela vista para o rio Madeira, trilha sonora de puteiro. Na árvore ao lado, a arara vermelha gritava por não suportar mais ouvir aquilo. Em frente, o grupo de amigos se confraternizava tomando vinho tinto. Embora servido gelado e em jarra, ainda acrescentavam pedras de gelo. Um deles estava a caráter, todo de preto, cinto com enorme fivela, botas, pulseiras.
Ainda era cedo no aeroporto. Enrolei, bebi umas e outras, belisquei amendoim. Em todas as alas do aeroporto os televisores transmitiam a instrutiva programação da tal rede de televisão. Contrato de exclusividade? Embarquei em voo vazio e tranquilo. Ainda estava claro e pude ver a floresta.
Em Boa Vista, de madrugada e sem ônibus urbanos, não consegui escapar de táxi caríssimo para percorrer o curto trecho até o hotel.
O centro oficial de Boa Vista, situada no hemisfério norte, fica na Praça do Centro Cívico, ampla, cercada por avenidas largas, prédios modernos, inclusive a catedral, palácio do governo, assembleia legislativa. Praticamente toda a cidade se espalhava em ruas e avenidas largas, sem edifícios altos. O sistema de ônibus urbano era organizado, com pequenos terminais, veículos novos, funcionários bem treinados e educados. O rio Branco parecia bem aproveitado como área de lazer pela população. Na margem erguia o núcleo histórico da capital de Roraima, com ruas estreitas, o porto, o mercado de peixes, o pequeno bairro com casebres de madeira, bares, a zona barra pesada.
A maioria da população da cidade era indígena, com pouca ou nenhuma miscigenação. O restaurante na beira do rio preparava uma caipirinha deliciosa, exibia vista panorâmica de praias atraentes, da ponte e das colinas ao fundo. A família de venezuelanos chegou e logo foram cumprimentados pelos brasileiros de outra mesa. Trocaram saudações e frases nas próprias línguas, sem traduções desnecessárias.

E amanheceu o dia do encontro. Os colegas mineiros finalmente desembarcaram em Boa Vista.
Viajamos por estrada plana, cortando o cerrado do norte de Roraima. Na divisa com a Venezuela relevo pouco mais acidentado. Serviço rápido e gratuito para obtenção do visto na fronteira. A pousada em Santa Helena de Uairén se compunha de ocas com os interiores, tetos, portas e quadros decorados pelo próprio proprietário. Dali se via a cidade e as montanhas mais ao fundo. O restaurante, improvisado no ateliê de pinturas. Comemos em meio a quadros, outras obras de arte, pincéis, tintas, ferramentas de trabalho.
Embarcamos cedo em veículos fora de estrada rumo ao início da trilha ao Monte Roraima, na aldeia indígena de Paraytepui. O caminho incluía inúmeros e enormes buracos, valetas profundas, somente restinhos de estrada aqui e ali.
Cumprimos as formalidades na portaria do parque nacional Canaima, visando o controle do limite máximo de pessoas. Os fiscais exigiram o roteiro detalhado da caminhada, os pontos e dias de acampamento, a data da volta. Com mais de dezoito quilos da minha mochila finalmente começamos a caminhar.
Em início fácil, por trilhas largas, bem marcadas e com poucas subidas, percorremos a savana venezuelana e logo na metade do dia começamos a avistar o Monte Roraima, à frente, e o monte Kukenan, à esquerda. O tempo abriu, as nuvens se dissiparam e a visão das imponentes montanhas ficou desimpedida. Jorrava do topo do monte Kukenan delgada queda d’água de centenas de metros.
A extensa e escorregadia laje de pedra no leito do rio Tek dificultou o cruzamento apesar da pouca água. E no rio Kukenan a forte correnteza sobre o fundo de pedras lisas e irregulares empacou o grupo na travessia. Depois de nos banharmos demoradamente, dormimos amontoados no casebre de taipa na margem do rio. Montar as barracas, porém, teria sido a opção mais adequada.
Pela manhã o monte Kukenan, iluminado pela luz do sol, nos presenteou a visão encantadora. A subida leve e constante antes do campo base do Monte Roraima quebrou a resistência, ainda mais com o estômago vazio. Após o lanche substancioso, iniciamos a longa subida até o topo, em trilha bastante íngreme, com pedras, trechos de mata, cursos d’água e até pequenas cachoeirinhas ou duchas naturais refrescantes. Margeando o paredão, o caminho parecia sem fim. A escarpa rochosa sobre nossas cabeças ficava cada vez mais alta. Toda a paisagem, porém, compensava e fascinava.
No topo, indescritível a visão das rochas negras, de vários formatos, dispersas nas nuvens. Escolhemos lugar abrigado, o “hotel”, para montar as barracas, sob a gruta na escarpa do morro. Em momentos de abertura do tempo era possível avistar, bem abaixo, os vales e os campos do primeiro dia. Comemos cedo e bastante, antes de desmaiar dentro da barraca.
continua...