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sexta-feira, 6 de setembro de 2019

do Acre ao Piauí (via AC, RO, AM, PA, AP, MA, PI) (parte 2/8)

...continuação
O aeroporto municipal de Jordão se encheu de Kashinawá. Mantendo a tradição, bastava um Kashinawá viajar ou voltar à terra natal para a festa ser grandiosa e prestigiada.
O voo no mesmo bandeirante da ida correu tranquilo até o pouso em Tarauacá. Esperei o ônibus, procedente de Cruzeiro do Sul. Logo desembarquei em Feijó, cidade feia, sem rodoviária, com buraqueira nas ruas, sem calçadas, o mesmo descaso de Tarauacá com a população.
A chuva teimosa desabou na cidade à tardinha, em seguida a raios e trovões. O espeto de carne de porco do jantar veio acompanhado de baião, macaxeira e suco de cupuaçu. O cardápio, a grelha na calçada, o dono, claro e de óculos, não podiam ser mais cearenses, como praticamente todo o Acre não indígena.
Dei volta leve pelas ruas escuras, molhadas e esvaziadas de Feijó.

Baixei cedo pela manhã no pequeno, simpático e naturalmente ventilado aeroporto municipal de Feijó, construído no estilo de cabana de floresta, com toras resistentes de madeira e coberto com duas águas de telha de verdade, de cerâmica. Muitos voos dali, depois de parar em Envira, seguiriam a Eirunepé, cidade onde, quinze anos antes, esperei oito dias a embarcação para baixar o rio Juruá, o sinuosíssimo Juruá.
Antes do embarque na aeronave, as bagagens, e também os passageiros, foram pesados e checados no saguão.
Em monomotor do modelo minuano, para seis passageiros, mais o piloto e o copiloto, o voo partiu lotado, com direito à vista impressionante da floresta e das curvas dos rios. O avião pousou em Envira, já no estado do Amazonas, cidade da margem direita do rio Tarauacá.
Envira, assim como Guajará, Ipixuna, Boca do Acre, e parcialmente Eirunepé, todas elas cidades do Amazonas, se abasteciam e recorriam ao estado do Acre. Pela mesma distância absurda da capital Manaus, as amazonenses Lábrea, Humaitá, Apuí, se voltavam para o estado de Rondônia.
No meio da tarde, violento vendaval atingiu a cidade. Portas e janelas tremeram. Areia e poeira penetraram pelas frestas e cobriram os interiores do hotel. O céu escureceu, as nuvens engrossaram, mas caiu pouca chuva. O que caiu, ligeiramente, foi a temperatura. Chamado de friagem, o fenômeno anunciava o fim do inverno amazônico, a estação das chuvas, e o começo do verão amazônico, a estação seca.
Dei voltas pela cidade ao cair da tarde. As obras do porto fluvial, atrás do hotel, andavam a passos de tartaruga havia anos. A orla de Envira, toda arrebentada, estava interditada com cerca de madeira apodrecida caindo aos pedaços. Os moradores a ignoravam e a ultrapassavam impunemente. A prefeitura de Envira abandonava completamente as responsabilidades sociais. Pelas ruas, muitas construções abandonadas, vazias, inacabadas, em ruínas. Típico de cidades do interior do Amazonas, cujos prefeitos e secretários nem residiam nas cidades, preferindo torrar o dinheiro público na capital ou no exterior. A situação só pioraria com o governo federal tomado por forças ultraliberais e antipopulares.
Quatro passageiros de voo vespertino se hospedaram no hotel, exibindo olhares esbugalhados. Devido ao vendaval da tarde, o voo foi terrível, assustador, turbulento, nervoso. Ventou, choveu, descarregou eletricidade em meio às nuvens negras e espessas.
Não encontrei restaurantes para jantar. Os sons, gritos e apupos vindos do ginásio municipal de esportes me atraíram. Parece que metade da população de Envira lotava a parte interna do ginásio e os entornos. Campeonato de futebol de salão empolgava torcedores e curiosos. Lanchonetes e ambulantes dos arredores abasteciam os frequentadores. A polícia militar comparecia com o veículo de pisca-pisca aceso e seis policiais armados de cassetetes longos e armas de fogo. A frequência raramente superava os dezoito anos de idade. Os jogos eram bem jogados, bem disputados, entre times uniformizados e batizados com nomes de equipes famosas, brasileiras e estrangeiras.

Abriram a torneira do céu e a esqueceram aberta por toda a madrugada. Choveu demais e assim amanheceu. Mas que som aconchegante batendo na cobertura de alumínio do hotel!
Durante o café da manhã, os passageiros do voo dos horrores da tarde anterior aguardavam a liberação do aeroporto para a continuação até Itamarati, com escala em Eirunepé. Em breve estiagem eles foram chamados para embarcar. Menos de uma hora depois ouvi o ronco do motor e avistei o avião a caminho do vale do Juruá.
A chuva engrossou para valer, firme e forte, mais tarde. A televisão do quarto, como regra nos demais hotéis, continha noventa por cento dos canais voltados a comerciais, sobretudo propagando o fanatismo religioso. Pelas ruas, dos templos de empresas evangélicas, se ouviam os gritos histéricos dos pastores e das ovelhinhas mais exaltadas, tomadas pelo transe fundamentalista.
À noite, repeti as imediações do ginásio de esportes, aonde todo mundo ia. Meninas, crianças ainda, andavam de mãos dados com o namorado, noivo, marido, e já carregavam filhos no colo. O futebol de salão prosseguia bem jogado e disputado na quadra.
Acompanhando o costume dos interiores brasileiros, Envira acordava cedo, bem cedo, de maneira ruidosa, transbordando vida para todos os lados. Andei bastante, por quase toda a cidade. Arrisquei o fim de muitas ruas, mas a lama acumulada impedia e me forçava à outra opção. O sol e as picadas dos piuns arderam sem dó nem piedade.
Deliberadamente abandonada, Envira se apresentava suja, em obras inacabadas ou interrompidas, largada, indiferente à população sofrida que pagava impostos e era convocada somente em períodos eleitorais. Barro, lama, poeira, mato alto, construções fechadas, deixadas para trás, em ruínas, praças que viraram matagais, parques transformados em depósitos de lixo. A população se mantinha resignada, desanimada, amortecida, sem ninguém para lhe abrir os olhos e levantar o ânimo com novas políticas, novos projetos urbanos, utopias necessárias. Nesse caldo de cultura fedorento os oportunistas das empresas do comércio da fé, sobretudo as evangélicas, usavam e abusavam da desesperança generalizada, mergulhando o povo em buraco ainda mais fundo e pegajoso.
Poucos indígenas circulavam pelas ruas de cidade mestiça. Eram da etnia Kulina. Caminhavam em grupos fechados, molambentos, maltrapilhos, em condições físicas preocupantes.
Após o café da manhã, sempre bem servido e com ovos fritos na hora, saí decidido a caminhar bastante. Inicialmente o curto trecho ao aeroporto municipal. Margeei a pista do aeroporto até a cabeceira, por estrada de chão, larga, desprovida de beleza e ocupada por caminhões em trânsito. Dobrei à direita, por caminho estreito, entre cabanas isoladas de madeira. Nada plantado ou criado. Peguei estradinha próxima ao outro lado da área do aeroporto. Atoleiros, água empoçada, argila pegajosa e plástica, a famosa tabatinga. Uma atolada aqui, uma afundada de pé ali, e rapidamente os pés, tornozelos, papetes, partes das canelas, se cobriram de lama e água barrenta.

Ao retornar à zona urbana, o conjunto de casas populares, pré-fabricadas, eufemismo para cubículos claustrofóbicos que os opressores da elite empurravam aos pobres, se encontrava abandonado, sem moradores, com o mato alto. “Casas” novas, jamais usadas, jaziam largadas pelos governos municipais.
No trecho urbano e calçado de tijolos entrei na extensa área do elefante branco batizado de Parque de Exposições do Produtor. Inúmeras construções de alvenaria, arena para rodeios, salas de esportes e jogos, espaços para apresentações musicais, espaços vazios e urbanizados, água encanada, energia elétrica. Construções com o dinheiro público para funcionar uma ou duas vezes ao ano, ocupando espaço imenso no meio da cidade.
Aproveitei o banheiro abandonado e aberto do tal parque. Usei a abusei da água encanada do monstrengo vazio para lavar os pés, tornozelos, papetes, pernas, respingos de barro na bermuda. Mais à frente, mas ainda nas dependências internas, desertas e sem fim do elefante branco, arrematei o restante da sujeira numa das várias torneiras de tanques espalhados e sem uso pela população cuja maioria nem possuía água encanada em casa.
À tarde o céu limpou e o sol brilhou desimpedido. A poeira que já incomodava se tornou preocupante. As ruas se cobriam de terra e areia, pelas obras na margem do rio, pelos caminhões transportando cascalho e terra, pelos veículos em geral revolvendo e mantendo tudo em suspensão. Os moradores tampavam bocas e narizes com as mãos, com a camiseta erguida até os olhos, com pedaços de pano solto.
Durante o café da manhã, em conversas com piloto de táxi aéreo, lamentamos que cidades ribeirinhas, antes autossuficientes em produtos agropecuários para alimentar os moradores, passaram a depender em tudo de fora depois dos êxodos populacionais rumo aos grandes centros. A população pagava bem mais caro por produtos piores, e isso quando os produtos chegavam.
No saguão do pequeno aeroporto municipal de Envira, mais críticas ao prefeito que se elegeu e fugiu da cidade, gastando o dinheiro dos envirenses, largando a população às moscas, ao barro, à poeira. Não se aperceberam, porém, da catástrofe social do governo federal que pretendia arrancar o pouco do que o povo conquistara nos tempos progressistas de Lula e Dilma para entregar aos grandes capitalistas, sobretudo estrangeiros.
Depois de pesar as bagagens e os passageiros embarquei em monomotor, do modelo corisco, com capacidade para somente três passageiros, mais o piloto. Comigo, moço rústico e o “doutor” de origem peruana. Já na pista, com ambas as portas dianteiras abertas, para ventilar, e fechadas somente depois da decolagem, o piloto grandalhão se virou e comunicou:
“Será mais ou menos meia hora de voo. Vai balançar um pouco porque já é tarde e o ar esquentou.”
E se virou para acionar os motores no máximo e decolar. O voo e o pouso em Feijó, porém, foram sem turbulências, possibilitando visão privilegiada da floresta amazônica, do rio Tarauacá, da boca do Envira a montante da cidade de Envira. Sequências belíssimas de curvas sinuosas dos rios por entre a mata fechada.
Na beira do rio Envira, centro de Feijó, os Ashaninka e os Kashinawá perambulavam maltrapilhos, bem diferentes dos orgulhosos de Jordão. Ali em Feijó se comportavam mais como párias do que como legítimos e originais moradores daquelas terras.

Jantei novamente no espetinho cearense próximo ao hotel. Depois, atravessei a rua para me deliciar com uma bola de sorvete de açaí e outra de cupuaçu. Mais adiante, a praça ocupada por famílias. No quarteirão seguinte, outro espetinho, também cearense. No final da calçada, a entrada do parque urbanizado, repleto de quadras, trilhas, pistas para bicicleta, fazendo lembrar o Parque da Maternidade em Rio Branco.
De manhãzinha embarquei no ônibus com destino a Rio Branco.
Pelo caminho a extensa ponte, de mais de duzentos metros, sobre o caudaloso rio Purus. Almoço de meia hora no centro de Sena Madureira. Pancada de chuva intensa e rápida nas imediações de Bujari. Nova pancada de chuva na entrada de Rio Branco.
Caminhando pelo centro de Rio Branco, me sentei na margem esquerda do rio Acre, sob a sombra providencial das palmeiras. Vez ou outra a brisa leve amenizava o calor abafado. Vendedores, grupos de recuperação de dependências químicas, pedintes, pediam ajuda, sem insistir ou grudar. Me sentia satisfeito de rever aquele pedaço tão aconchegante da capital acreana. As pontes para veículos motorizados, a passarela para pedestres, ambas as margens do rio Acre, o comércio bem organizado dos arredores, o vaivém dos moradores, visitantes, curiosos.
Pela manhã embarquei em ônibus para Porto Velho. Durante a travessia da balsa sobre o rio Madeira, ao lado da construção quase finalizada da ponte, eu não avistei à montante, como em viagens anteriores, as dezenas de balsas flutuantes de garimpo de ouro, de triste fama e de muitas mortes “acidentais”.
No Acre o ônibus passou pelas cidades de Senador Guiomar e Acrelândia. Em Rondônia, Califórnia, Extrema, Vista Alegre do Abunã, Jaci Paraná, o distrito de Teotônio, ao longo do qual, por dezenas de quilômetros, a BR-364 atravessou o lago formado pelas novas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio.
Desembarquei na apertada rodoviária de Porto Velho no começo da noite.
Pela manhã caminhei pelo traçado quadriculado o longo trecho até o porto do Cai N’Água, na margem direita do rio Madeira. Ao lado, totalmente cercado e fechado para visitação, o espaço da antiga estação da ferrovia Madeira Mamoré. Triste fim de meio de transporte que tantas vidas e dinheiro público foram consumidos na construção mais de cem anos antes.
No porto, ferryboat programado para partir daí a dois dias a Manaus. Camarotes e suítes, todos lotados.  Nova embarcação, do mesmo tipo, sem o charme e a beleza dos navios e barcos convencionais, por ser mais voltada a carga de veículos do que de passageiros, somente daí a cinco dias.
Definitivamente Porto Velho deixara de ser amazônica. Nem o rio Madeira ali ao lado lhe assegurava o ar de cidade ribeirinha, ainda que média a grande. Pelos imigrantes que deram o tom no estado de Rondônia, a cidade adquiriu jeitão de cidades do centro-oeste brasileiro, do oeste paulista, do triângulo mineiro. Vez ou outra eu esbarrava em lojas de venda de creme fresco de açaí ou de cupuaçu, lembrando que eu estava na Amazônia. O imponente rio Madeira se escondia atrás das construções da margem das águas. Não havia orla fluvial a fim de aproximar os moradores do rio. O crescimento da cidade afastou os habitantes da maior riqueza natural ali disponível. Mais uma cidade amazônica a dar as costas à fonte de água, de peixes, de lazer, de transportes.
continua...

terça-feira, 3 de setembro de 2019

do Acre ao Piauí (via AC, RO, AM, PA, AP, MA, PI) (parte 1/8)

Passava da meia-noite do fim de março quando o avião pousou, debaixo de garoa, no aeroporto de Rio Branco, cidade com fuso duas horas atrás de Brasília.
Durante o dia perambulei por cidade familiarizada de outras viagens. A capital acreana continuava de bom aspecto, pelo menos na região ao redor do centro e das margens do rio Acre, então alto pelas chuvas recentes. O tempo abafado, nublado e sem chuva, aumentava a temperatura do corpo.
Na manhã seguinte embarquei em ônibus a Tarauacá. Parada para o café da manhã entre as cidades de Bujari e Sena Madureira. Exceto curtos trechos, a BR-364 se mantinha esburacada, impedindo maiores velocidades do ônibus. Às margens da rodovia, pastos, capinzais, quase nada plantado, algum gado perambulando.
Depois da ponte sobre o rio Purus, do acesso a Manoel Urbano e da entrada para embarque e desembarque na cidade de Feijó, o ônibus encostou na rodoviária de Tarauacá.
As ruas de Tarauacá, em completo abandono pela administração municipal, se entupiam de crateras, lama, terra, poeira, restos de asfalto e de calçamento de lajota de barro. Ao anoitecer desabou a típica chuva amazônica. Sem relâmpagos, raios ou trovões. Nem vento havia. Somente água, muita água, e por muito tempo. O inverno seguia firme e forte.

Após simplório e suficiente café da manhã do hotel fui caminhar nas ruas e caminhos próximos da margem do rio Tarauacá, do mercado municipal, e, mais à jusante, da pista da BR-364. Casas e barracos de madeira, ruas de lama, areia ou restos de calçamento de tijolos. Tudo feio, sujo, abandonado. O rio, refletindo as recentes e intensas chuvas, corria ligeiro, alto, caudaloso, barrento, carregando troncos e galhos. Laranjas e bananas eram vendidas em grandes quantidades pelas ruas. Morangos, “diretos do produtor”, oferecidos em caixas nas calçadas. E abacaxis, muitos e enormes abacaxis.
Os moradores, sorridentes, cumprimentavam, saudavam discretamente, se abriam para prosa. Indígenas, poucos, baixos, atarracados, vestindo roupas urbanas, de pintura nos rostos, sobretudo listras pretas e horizontais na altura dos olhos, circulavam na zona comercial. Mulheres indígenas recheadas de adornos coloridos, nos braços, pescoço, pernas, mas sem pinturas na pele. Os demais pela cidade, moradores de jeito cearense.
Os barcos que subiam o rio rumo à cidade de Jordão eram invariavelmente pequenos e precários para percurso de sete dias de viagem. Eu já percorrera dezenas de rios, subindo ou baixando, por toda a Amazônia. O sacrifício para ver paisagens e cenas familiares não valeria a pena naquelas condições. Entre boas conversas no hotel me convenci a optar pelos voos regionais para chegar a Jordão.
À tarde detonei um litro de creme de açaí recém-batido diretamente da fruta. Furei o saco plástico e engoli aquele néctar em minutos.
Tentei circular pelas ruas a fim observar a noite de sábado de Tarauacá. As dificuldades de andar durante o dia, tal o descalabro das ruas e restos de calçadas, se multiplicavam com a escuridão e a parca iluminação pública. Era enorme o risco de cair, tropeçar, escorregar, atolar, entre outros prazeres ao ar livre. A volta tímida e arriscada no quarteirão do hotel já foi um sufoco. A avenida com canteiro central arborizado, com duas fileiras de árvores, aguardava o fim das obras. Telas e pilares de proteção cercavam tudo, por vários quarteirões. A população, intolerante com o descaso da prefeitura, derrubou os pilares e as telas, circulando por ali, mesmo em meio às infindáveis obras.
Tantos absurdos urbanos não eram para menos. A prefeita de Tarauacá ignorava as necessidades do povo, preferindo viajar pelo Brasil e exterior. E fez questão de beijar a mão do novo presidente do Brasil, o mesmo que defende os ricos contra os pobres.

O sol quente continuou a torrar no período da tarde em Tarauacá. Permanecer no quarto do hotel era a solução em cidade que dava as costas para o rio e para a brisa que dele sopra. Mais uma cidade estupidamente construída, ignorando e desprezando a maior riqueza dela. Passei o tempo entre releituras de O Livro de Ouro da Amazônia, de João Meirelles Filho.
Ao anoitecer a população encheu as ruas, arremedos de praças, rascunhos de calçadas, ruas esburacadas, lanchonetes, sorveterias, bares, os raros restaurantes. A maioria vestia roupas de domingo, especialmente elas, enfeitadas até demais. Famílias saíam completas para passear, comer ou beber algo. Alguns de carro ou moto, a maioria de bicicleta, meio abundante na cidade, ou a pé.
Na manhã do outro dia paguei o valor da passagem no balcão da empresa aérea no saguão do aeroporto municipal. Não recebi bilhete, cartão de embarque ou comprovante de pagamento.
Fiz hora perto da pista, conversando com outros passageiros, enquanto observava a carga a ser transportada para Jordão. Tomate, verduras, cebola, ovo, frango congelado, entre outros. Itens que pagariam de frete a bagatela de três reais por quilo. Jordão era mais uma cidade amazônica que nada produzia, nem alimentos simples de plantar e criar, e de tudo dependia de outros centros. E transportar os alimentos de barcos, pequenos, lentos, sem refrigeração adequada, nem pensar.
O bandeirante era modelo para até dezoito passageiros, mais piloto e copiloto, além de amplo compartimento de carga. O copiloto deu as boas-vindas e se sentou ao lado do comandante.
A aeronave voou a uma altura em que permitia boa visão da floresta amazônica, compacta na maior parte do trajeto, de pastos esparsos, de suaves colinas entre drenagens, uma atrás da outra. Exceto por alguns minutos, ao passar por nuvens espessas e escuras, com direto a chuva e trepidação preocupante, o voo passou sem susto.
Depois de grande contorno sobre a cidade de Jordão, o rio Tarauacá e a boca do rio Jordão, o bandeirante pousou na pista do aeroporto municipal. Muita gente se aglomerava no minúsculo saguão ventilado e sem paredes.
Almocei peixe ensopado ao molho de macaxeira, com arroz, feijão e farinha. A jarra de um litro de creme fresco de açaí coroou o banquete.
Um cacique Kashinawá também almoçou ali e me convidou a visitar a aldeia, rio Jordão acima. Mais tarde outro Kashinawá apareceu, me pedindo dinheiro para consertar o motor do barco, em troca de pulseira de miçangas coloridas.
Na mesa ao lado do restaurante, dois grandalhões evangélicos e moradores de Tarauacá não paravam de perguntar ao jovem à frente sobre tudo e todos da região, sobretudo temas comerciais. Ele e ela queriam saber dos preços, quantidades, movimentos, interesses, oferta e procura, isso e aquilo, nos mínimos detalhes. Se diziam a passeio, mas carregavam segundas e terceiras intenções de se estabelecer ali, colados aos poderosos, associados a quem mandava. Planejavam mandar e lucrar também em cima da população. Típico comportamento de quem se enriquece do comércio da fé alheia, de quem manipula os bens e as consciências do povo.
Integrantes da etnia Kashinawá era o que mais tinha pelas ruas de Jordão. Vinham de aldeias rio Tarauacá acima, e principalmente do rio Jordão, para os afazeres urbanos. As aldeias do rio Jordão atraíam inúmeros turistas, brasileiros e estrangeiros, para tomar contato com a cultura Kashinawá, participar das atividades coletivas, comprar artesanato e, principalmente, beber muito chá de ayahuasca. Era a chamada vivência nas comunidades indígenas.
Avistei gringos, ou turistas do sul do Brasil, sujos e maltrapilhos, provavelmente entre duas cerimônias com o chá de ayahuasca. E os Kashinawá, pela cidade toda, me abordando sempre:
“De onde você é?”
“Chegou hoje?”
Circulei na beira do rio Tarauacá, estreito e correndo violentamente. Pequenas embarcações, daquelas de linha ou dos Kashinawá, estavam atracadas em ambas as margens. Na margem oposta, a floresta, não muito alta. Jogo de futebol de fim de tarde na areia da margem do rio. A rua principal ao lado, com a prefeitura, a câmara de vereadores, a igreja Matriz, algumas secretarias municipais, o hospital, lembrou rua similar em Marechal Thaumaturgo, mas sem o charme e a beleza da margem do rio Juruá. Lá, encantava a visão mais de cima, sob a sombra da tarde, com a luz do sol batendo na margem oposta, em curva sinuosa e atraente.
Antes de jantar avancei até o fim da rua principal. Seitas evangélicas berravam histericamente para o demônio que supunham surdo. Centros de atividades físicas e musicais, ambas ligadas à prefeitura, então de administração progressista, recebiam bom número de interessados. E novamente fui abordado por outro cacique Kashinawá. Após as perguntas de sempre, discorreu sobre o que fazia. Pediu o meu número de telefone e me ofereceu rapé, além de outros produtos que não identifiquei. Expos algo sobre se tornar padre, com batismo, mas padre indígena.
Dividi a única mesa coletiva no café da manhã do hotel com o casal grandalhão e evangélico. O tal pastor discursou que a igreja “dele” não visava o dinheiro dos fieis e sim passar a “palavra”, a “mensagem de conforto”, atitude distinta das grandes corporações do mercado da fé que ele rejeitava. Certamente vomitava tamanha demagogia porque ainda se sentia pequeno no ramo. À medida que o negócio auferisse mais lucros, fatalmente o tal pastor e equipe se comportariam como os demais empresários do fundamentalismo evangélico, sequestrando bens e consciências dos frequentadores, se é que já não agiam assim desde sempre.
Sentado sob a sombra dos jambeiros na calçada da rua principal, contemplei a vida fluvial e ribeirinha da cidade, puxada pelo vaivém dos Kashinawá de todas as idades, vestindo roupas urbanas, mas com pinturas, adornos, pulseiras e colares característicos.
Moradores e comerciantes enfatizavam que os Kashinawá, nas aldeias e na zona urbana, compreendiam cerca de dois terços da população do município de Jordão. Eles eram o principal ativador do comércio local, os que mantinham a vida na cidade, comercial, política, humana, cultural.
Além do chá de ayahuasca, havia outras drogas disponíveis nas aldeias, para euforia dos turistas deslumbrados, sedentos pela fuga da realidade. O kampô, excreção do pescoço de determinada espécie de sapo, inoculado no sangue. O xuru, a maconha para os nativos. Certa substância pingada nos olhos, da qual não obtive maiores detalhes. Os turistas que vagavam pelas ruas de Jordão feito zumbis, em trapos, de olhos esbugalhados, lembraram os equivalentes na situação com quem cruzei pelos interiores da Índia. Em ambos os locais a busca desenfreada de tirar os pés, ou o corpo todo, da realidade maçante nas respectivas origens. Os indígenas brasileiros, e isso não era exclusividade dos Kashinawá ou do Acre, e os indianos, aproveitavam a situação e aumentavam as receitas. E, também nos dois casos, se expunham à desfiguração cultural e à dispersão dos próprios povos.
No geral Jordão apresentava bom aspecto, com traçado quadriculado das ruas, a maioria revestida de tijolos, mais guias e sarjetas para escoamento da água e esgotos. E calçadas de cimento, contínuas e em bom estado. Escolas, inclusive de ensino médio, novas e bem conservadas. Postos de saúde de boa aparência externa. Órgãos públicos apresentáveis. No que a população mais necessitava Jordão estava melhor que Tarauacá e Feijó.
          Sentado sozinho na mesa coletiva do café da manhã, um gringo ouvia notícias em inglês pelo celular. Não parecia consumidor do chá ou dos demais alucinógenos. Mais um honorável membro da biopirataria, solenemente ignorado pelas autoridades diante de tais crimes contra a soberania nacional?
continua...

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

do Juruá ao Tapajós (via Transamazônica) (parte 3/7)

...continuação
Sem café da manhã embarquei no ônibus de manhãzinha.
Antes da partida o motorista comunicou aos passageiros as normas de segurança, o tempo aproximado da viagem e acrescentou que:
“Atenção, o banheiro do ônibus é só para o número 1”
“O que é número 1?”, perguntou um passageiro.
“É o xixi, mijo, urina”.
O motorista acrescentou: “Se precisar fazer o número 2, me avisa que eu paro e o apertado entra na mata e se vira”
“Tá certo”. Todos concordaram.
O ônibus cruzou a ponte da União, sobre o rio Juruá, e seguiu pela BR-364. Inicialmente um pouco de floresta preservada em ambas as margens da estrada. A oeste do rio Liberdade, a rodovia cruzou o território indígena Katukina, distribuído em comunidades distintas. Dentro do território, os indígenas respeitavam a natureza. A floresta estava toda de pé e preservada, para alegria da fauna, flora e dos próprios moradores, os mais beneficiados. Os indígenas aprenderem em milênios de vida a conviver harmonicamente com a natureza. Eles ainda tentam ensinar os brancos, que raramente aprendem a lição. O sistema econômico e político a qual os brancos pertencem é predatório e devastador. Tanto que, após cruzar o rio Liberdade e o território Katukina ficar para trás, pouco se via da floresta, apenas pastos e mais pastos. Muito gado, cabras e porcos. Raras e esparsas plantações de banana, mandioca, macaxeira.
No começo da tarde, depois de atravessar a extensa ponte sobre o rio Tarauacá e, em seguida, o rio Envira, o ônibus entrou na cidade de Feijó. Desembarquei no centro da cidade.
Feijó adormecia profundamente naquele começo de tarde ensolarada de domingo. Admirei as águas do rio Envira que corria bem ao lado do centro da cidade. Na margem, lamaçal até os flutuantes e pontões, barcos precários, voadeiras. Em terra, a pequena praça arborizada e mal cuidada, com bêbados e comércio popular. Percorri ruas e avenidas planejadas, longas, retas, planas, na parte mais moderna da cidade, oferecendo sorveterias, pontos de açaí, lanchonetes, prédios públicos e administrativos. Indígenas circulavam pelas ruas, em grupos.
À noite Feijó renasceu e exibiu moradores circulando em muitas bicicletas pelas ruas. Belas imagens das magrelas, silenciosas e sustentáveis. Arrisquei espetinho servido na varanda de casa de família. Escolhi o de carne de porco, acompanhado de tigela com arroz, farofa, macaxeira, vinagrete. Feijó e o Acre, a cada dia, a cada fato, a cada rosto, se mostravam mais cearenses. Definitivamente, a capital do estado, Rio Branco, era a segunda maior cidade cearense do Brasil, perdendo apenas para Fortaleza.
Não notei miséria evidente na cidade, mas simplicidade, como se os moradores tivessem o suficiente para viver. Casas de madeira, perto da margem do Envira, caprichavam nos adornos e detalhes para compensar a monotonia das ripas de madeira. Vasos de flores de tamanhos e formatos diferentes, no chão, sobre os móveis ou pendurados, flores coloridas alegrando o ambiente, e as onipresentes bicicletas que sempre harmonizam cenários.
Diversas etnias indígenas circulavam a pé pelas ruas de Feijó. Se deslocavam das tendas provisórias montadas na margem do rio oposta à cidade. Reconheci imediatamente os Ashaninka pelas túnicas de cores vivas usadas por elas e, ali, também pelos homens, de todas as idades. Outros povos, dotados de pinturas faciais e corporais, além das pulseiras e colares de tecidos estampados, também marcavam presença na cearense Feijó.
O restaurante anexo ao hotel era o principal restaurante da cidade, dado a frequência, entre engravatados, policiais fortemente armados, profissionais liberais. O picolé de buriti e outro de açaí coroaram a refeição do meio do dia. O sol estava de rachar a cuca. Estanquei sob as sombras e de frente para o rio Envira.
No básico quarto do hotel encerrei o informativo e formativo A Elite do Atraso, de Jessé Souza, que deveria se tornar livro de cabeceira dos brasileiros.
O ônibus partiu do posto de gasolina no começo da tarde.
Nas margens da rodovia, fazendas de gado e alguma floresta preservada, sobretudo ao longo dos cursos d’água. Após o trevo de acesso à cidade de Manoel Urbano, a várzea coberta pela floresta ciliar e, em seguida, a extensa e alta ponte sobre o meu querido rio Purus, ao longo do qual, subindo ou baixando, durante dias e dias, percorri de barco mais de uma vez. Lá estava ele, caudaloso e imponente, como sempre.
O tempo fechou e a chuva caiu com vontade.
Ocorreram problemas mecânicos no motor do ônibus, obrigando o motorista a parar várias vezes no acostamento para arranjos provisórios. Nesses momentos, com o ônibus parado e desligado, brotavam entre os passageiros mais propensos os sintomas da famosa síndrome de caminhão-baú. Os portadores dessa síndrome da pós-modernidade ansiavam por serem rastreados. Ansiavam compulsivamente. Agarravam os celulares e avisavam deus e o mundo onde estavam, até com detalhes do quilômetro da estrada. As cenas se repetiam a cada enguiço do motor. E foram inúmeros.
O veículo passou sem parar pelas cidades de Sena Madureira e Bujari. Antes da meia noite entrou numa das plataformas do moderno e internacional terminal rodoviário da capital Rio Branco. A chuva se mantinha firme e forte.
Cenas tragicômicas durante o café da manhã do hotel. Lá estava o televisor ligado. A maioria dos hóspedes chegava e ocupava desesperadamente as mesas bem de frente para aquilo. E deitavam os olhares bovinos diante da programação embrutecedora. Todos na busca da dose diária de distorção de realidade transmitida pela telinha. E assim rasteja a humanidade!
Dei ampla volta pelo centro comercial e administrativo de Rio Branco, nas margens do rio Acre. O Mercado Velho, o Palácio Rio Branco, inúmeros prédios públicos, praças arborizadas e bem cuidadas, muitas escolas públicas, estaduais e municipais, repletas de estudantes uniformizados, o comércio popular, o camelódromo. A capital acreana se mantinha limpa, organizada, bem administrada, pelo menos naquela região, graças à série de governos populares e democráticos, encabeçados pelo PT, tanto no estado do Acre, como na prefeitura de Rio Branco.
À noite tomei tacacá, cujo jambu fez jus à fama e adormeceu a ponta da língua.
O ônibus confortável e não exageradamente gelado saiu ao anoitecer. Os três haitianos que também esperaram na rodoviária embarcaram.
Paradas nas cidades acreanas de Senador Guiomard e Acrelândia. Logo depois a divisa entre Acre e Rondônia. Antes da meia noite, a demorada operação da travessia da balsa sobre o rio Mamoré, com direito a longa fila de caminhões e ônibus.
Depois da balsa, a rodovia BR-364 margeou o distrito de Abunã, situado em trecho dos mais difíceis tecnicamente durante a construção da finada ferrovia Madeira/Mamoré. Inúmeros trabalhadores, em regime de quase escravidão, morreram durante as obras mais de um século antes. Carcaças parciais de vagões e locomotivas se viam ao longo do que foi a ferrovia, atualmente soterrada por camadas de asfalto. A ditadura do transporte rodoviário, de cargas e passageiros, mais uma vez, tinha esmagado a eficácia e a eficiência da ferrovia.
E caí no sono sobre o assento acolchoado do ônibus.
O ônibus estacionou na apertada rodoviária de Porto Velho antes do amanhecer. O segundo ônibus partiu quase vazio. Resgatou ainda uns gatos pingados pelas ruas da capital de Rondônia. Atravessou a imensa ponte sobre o rio Madeira, construída nos tempos progressistas de Lula e Dilma. Antes a população ficava à mercê da máfia das balsas para mudar de lado do rio.
O ônibus pegou a BR-319, rodovia reta e plana. Ao lado, fazendas de gado, pequenas propriedades, ramais a noventa graus permitindo a penetração na floresta, esta quase toda desmatada. Exceção foi a Estação Ecológica do Cunha, já em território do estado do Amazonas.
No meio do dia desembarquei na rodoviária de Humaitá, a velha conhecida de quinze anos antes. Identifiquei o hotel menos que básico onde na época fiz boas amizades enquanto aguardava durante dias o caminhão que me levaria a Lábrea via o último trecho da rodovia Transamazônica.
Jantei em restaurante com música ao vivo baseada nos clássicos da MPB. A fina flor da elite de Humaitá marcava presença, com os respectivos e as respectivas. A péssima decoração do ambiente, cujas mesas se separavam por altos encostos no estilo das antigas lanchonetes estadunidenses, isolando a clientela em células de quatro ou seis pessoas, entretanto, não integrava. Os músicos, no fundo, praticamente não viam os clientes e não eram vistos por esses.
Pela manhã caminhei lentamente ao centro, na margem esquerda do rio Madeira. Ali era a Humaitá amazônica, ribeirinha, equatorial. O feriadão esvaziou a cidade. A área na beira do rio atraiu os olhares e os sentidos, ainda mais sob aquele sossego sedutor.
Morando em ônibus velho, mas em funcionamento, o hippie paulista de Leme vivia solto no mundo e da venda de artesanatos esotéricos em tecido, varetas, penas, etc. O setentão já foi casado, teve quatro filhos com a finada japonesa nascida na Coreia, e duas filhas com Ashaninka do rio Breu. Foi caminhoneiro, paraquedista do exército, comerciante. Criado na FEBEM de Batatais, conheceu os pais apenas acidentalmente. Já rodou a América toda dentro de uma Besta, ida e volta ao Canadá, por terra. Era marginal por opção, adepto sem exageros de alguma filosofia mística, e muito bom de conversa. Expôs o artesanato na praça central de Humaitá, entre a prefeitura, a igreja Matriz e a escola mais tradicional da cidade.
Eu desejava tomar creme de açaí. Não o congelado e adoçado da maioria dos centros urbanos do Brasil. Mas o creme fresco, centrifugado horas antes. E detonei o litro sem açúcar, sem farinha, sem mais nada. Sorvi aquela preciosidade amazônica em menos de cinco minutos. Néctar dos deuses! Delícia das delícias!
Repeti a noitada no restaurante com música ao vivo. Havia ali mais gente que na noite anterior, mas gente escondida pela esdrúxula divisão entre as mesas, escondendo os músicos do público, o público dos músicos e o público do próprio público. Nas mesas, grupos, casais, praticamente todos ostentando o celular, o tempo todo. Quase nem se olhavam ou se falavam. Nos raros momentos de interação trocavam fotos tiradas ali mesmo ou outras imagens engrandecedoras para o destino da humanidade. Elas invariavelmente vestidas para matar. Eles mais à vontade. No palco, o repertório se restringia ao assim chamado sertanejo universitário. Letras e melodias pavorosas e parecidíssimas entre si. Se o sertanejo universitário era daquele nível, mais baixo que cu de cobra, eu nem queria conhecer o sertanejo médio ou o sertanejo fundamental.
No final da tarde seguinte, o nascer da lua cheia, bem cheia, imensa e amarelada, na margem oposta do rio Madeira, se tornou espetáculo indescritível de tão belo. Nenhuma luz vinha do outro lado. À medida que aquela bola enorme subia, aumentavam as dimensões e o efeito luminoso do reflexo nas águas, formando cauda prateada. As imagens paralisavam de encantamento os poucos moradores que se encontravam no centro de Humaitá naquele horário. Ninguém pronunciava uma palavra sequer. E nem precisava. Aquela pintura dizia tudo.
continua...

terça-feira, 11 de setembro de 2018

do Juruá ao Tapajós (via Transamazônica) (parte 2/7)

...continuação
Domingo em Marechal Thaumaturgo, vazio, tranquilo, silencioso, relaxante. E com vista privilegiada, do alto, da curva do Juruá, da foz do rio Amônia à montante da cidade. Nem restaurante, lanchonete, sorveteria, venda de alimentos, comércio em geral, se encontravam abertos. Descanso merecido para todos, sem exceção. A maioria dos moradores se dirigia a passeios nos próprios barcos, Juruá e afluentes acima, a banhos em igarapés, lagos, sítios de famílias ou amigos.
Circulei bastante pela cidade quase deserta, subindo e descendo ladeiras revestidas de concreto, solução bem mais conveniente que o tórrido asfalto, ladeadas por casa na maioria de madeira, simples, mas não miseráveis. Chamaram atenção as singelas e fotogênicas barbearias instaladas em cubículos quadrados de madeira e pintadas com cores vivas.
Retornei à praça central, distribuída em patamares sobre o barranco alto em frente ao rio Juruá. Quase ninguém por ali. Um ou outro Ashaninka, um ou outro Kashinawa. Eu estava adorando aquela paz e sossego, sob a brisa fresca e o farfalhar das folhas das árvores.
Enquanto olhava o curso do rio, perdido em pensamentos, o comerciante natural da cidade acreana de Jordão apareceu e puxou papo. Em seguida surgiu outro colega, thaumaturguense, de moto, e se juntou ao debate.
O jordanense nos convidou para almoçar na casa temporária dele, na verdade um puxadinho nos fundos da loja de roupas, toda a construção em madeira, com cama, rede, fogão, geladeira, mesa estreita, banheiro sem descarga e sem água encanada.
Seguimos à palafita de frente para o Juruá, de propriedade do thaumaturguense. Antes passamos num dos mercados dele para pegar comes e bebes. Não me deixaram pagar nada. Sentamos na varanda da palafita, sob a sombra, diante da brisa constante e refrescante e da vista privilegiada do rio, da margem oposta, da curva acentuada a montante, da foz do Amônia. Vira e mexe retornavam ao mercado, quase ao lado, para trazer mais comes e mais bebes.
Acordei cedo. Em hotel sem café da manhã, experimentei o servido na praça, quase em frente à prefeitura, diante da senhora com a barraquinha. Opções entre tapiocas, mingau de banana, bolo, café com leite em pó acrescido na hora. Enrolei por ali, assistindo ao movimento do começo de manhã de segunda-feira, sob a árvore, ao lado de thaumaturguenses falantes.
Passei na loja do jordanense para os cumprimentos iniciais do dia antes de caminhar pelas ruas da cidade.
Percorri ruas nas bordas da zona urbana, margeando as águas do Amônia a sul, e a zona rural a oeste e norte. Sucessão de ladeiras pavimentadas com concreto, raras as de terra, perfiladas por casas de madeira coloridas, em sobrados ou térreas, assim como os esparsos pontos comerciais ou construções públicas. Os serviços de saúde, educação, infraestrutura, energia, todos com placas dos tempos progressistas de Lula e Dilma. Nada, absolutamente nada, para a população após a ditadura iniciada com o golpe de Estado de 2016. Aliás, como regra em todas as regiões visitadas no Brasil depois dessa data fatídica.
Na rampa que termina na escadaria de madeira descendo ao rio Amônia os Ashaninka, em maior quantidade, e os Kashinawa subiam e desciam as escadas, dos barcos para o comércio e vice-versa. Um dos Ashaninka, alto, cabeludo, com jeitão de cacique, vestia túnica tradicional de cor crua com listas verticais pretas. Os Kashinawa, mais magros e com outras pinturas em preto no rosto e corpo, entraram no mercado pedindo cerveja. Por ser proibido vender bebidas alcoólicas a indígenas, o dono regateou antes de ceder duas latinhas para cada um, solicitando a ambos que bebessem no fundo do estabelecimento. Os dois me cumprimentaram e, ao saber minhas origens, comentaram que queriam expor a cultura e os costumes do povo Kashinawa em São Paulo. Então comentei sobre a então recente exposição de culturas indígenas dos vales dos rios Jordão e Tarauacá em centro cultural da avenida Paulista.
Uns metros acima na rampa do mercado, grupo de bêbados, todos brancos e urbanos, entornavam garrafas e corotes de cachaça da pior qualidade. Mal conseguiam parar em pé ou pronunciar palavras.
A cidade cativava pelo silêncio e tranquilidade no começo da noite. Me sentei na pracinha em frente à prefeitura. Praticamente ninguém por ali. Um ou outro indígena ainda em circulação. Paz e sossego na noite estrelada. E as temperaturas frescas, quase frias. Perfeito.
De manhãzinha comi a tapioca com manteiga, queijo e presunto, mais o café com leite em pó, na senhora de sempre parada na praça.
Marechal Thaumaturgo, mantendo a triste regra dos interiores amazonenses, praticamente nada produzia para o consumo dos habitantes. Exceto farinha de mandioca, dependia em tudo de fora. Ninguém plantava verduras, legumes, frutas, ou criava galinhas para ovo e carne, etc. A indolência e o parasitismo ia às alturas diante da ausência de políticas públicas de incentivo agrícola. Na tentativa de quebrar a inércia improdutiva, o governo estadual do Acre, encabeçado por forças progressistas, desenvolvia produção de polpa de frutas.
Vistos com bons olhos e muitas esperanças pela população, contudo, eram os médicos estrangeiros, pertencentes ao Mais Médicos, programa social criado durante o governo progressista de Dilma Rousseff. Peruanos e cubanos ainda cobriam parcialmente o enorme déficit de assistência médica naquela região.
Passei parte da manhã com o jordanense na loja de roupas, conversando junto às funcionárias ociosas diante da falta de clientes. Outros entraram e se juntaram às conversas. Prevaleceu o tema da administração catastrófica do então prefeito de Marechal Thaumaturgo. O dito cujo alegava que a situação financeira do município era desesperadora, mas não mostrava os números a ninguém, nem mesmo aos vereadores. Agia de maneira arbitrária, se recusava a dialogar e a ceder, ainda que parcialmente, configurando o impasse administrativo. Funcionários sem receber os salários devidos, alunos sem escola em razão da paralização das obras de reforma do prédio, obras civis suspensas, colapso no atendimento ao público. Comentavam pelas ruas que o então prefeito inflexível mantinha ligações nebulosas com a rede Golpe de televisão e com ONG’s estrangeiras, daquelas que posam de defensoras da natureza e dos indígenas. A população se encontrava insatisfeita e indignada, próxima de uma revolta. Valeria lembrar que as administrações municipais anteriores, encabeçadas por forças progressistas, mais especificamente pelo PT, sempre privilegiaram os serviços públicos e o povo da cidade.
O marido da senhora miúda que atendia no restaurante não aparecia no estabelecimento para auxiliar a esposa, nem nos almoços, nem nos jantares. Menos de um mês antes, ele e mais dois colegas pescavam horas a montante da cidade, na localidade de Grajaú. Acidentalmente ele pisou em jacaré de médio porte. Em legítima defesa, o réptil abocanhou o tornozelo do sujeito e arrancou significativa quantidade de carne, do calcanhar à panturrilha. Estava imobilizado em casa, totalmente dependente da filha e da esposa para as atividades pessoais.
A vazante do Juruá avançava rapidamente. O que não passava de pequena ponta de areia na curva três dias antes, se estendeu formando istmo rio adentro. Larga faixa de areia úmida indicava trecho submerso dias antes.
Permaneci parte da tarde sentado na varanda do andar superior da construção que abrigava o mercado e o hotel, na sombra, de frente ao Juruá e ao vaivém dos moradores. Li mais A Elite do Atraso, de Jessé Souza.
À noite houve missa na discreta e pequena igreja matriz de São Sebastião, a qual os fiéis se dirigiam a caráter. Depois da volta deles para casa, Marechal Thaumaturgo mergulhou em delicioso silêncio. Três ou quatro gatos pingados permaneceram na praça aos cochichos. E nada mais. Sossego mais que bem-vindo.
E o barco programado para descer o Juruá na manhã seguinte não mais partiria. Segundo o comandante da embarcação a vazante acelerada do rio tornaria a navegação perigosa, sobretudo em trechos de pedras e corredeiras, muito comuns por ali. Só me restava novamente a lancha.
Evento no ginásio de esportes com a presença do governador Tião Viana (PT), deputados estaduais, o ex-prefeito de Marechal Thaumaturgo, secretário estadual de educação, coordenadores regionais, diplomou dezenas de idosos alfabetizados pelo programa Quero Ler. O programa de âmbito estadual atingia todo o Acre. Louvável iniciativa das administrações populares havia quatro mandatos no governo do Acre. Atitude que nenhuma das administrações estaduais anteriores tiveram para com o povo acreano.
Nas falas durante a cerimônia, os oradores enfatizaram os programas educacionais, que garantiram, em Marechal Thaumaturgo inclusive, escolas estaduais até o ensino médio, ausentes do município anos antes. A população da cidade compareceu em peso e prestigiou as ações governamentais progressistas.
Antes de clarear eu já me levantara. Amanheceu sob a forte cerração cobrindo a visão e compondo imagem inusitada em região não serrana.
Desci ao flutuante. A última etapa da rampa enlameada preocupou. Fui que fui e acabei não indo. Lama escorregadia, escada armadilha caindo na ponte de madeira estreita e também escorregadia. Minha preocupação era que o peso da bagagem me desequilibrasse e me fizesse despencar nas águas barrentas do rio.
E no começo da manhã a lancha partiu Juruá abaixo, deixando para trás a aconchegante cidadezinha de Marechal Thaumaturgo.
Eu me sentara, ao contrário da viagem de subida, na segunda fileira desde a proa. Tudo para evitar a surdez ao lado do ruído estratosférico do motor de popa. Estava então distante do banheiro minúsculo. Quando a situação apertou, me levantei e, de portinhola central dos assentos em portinhola central, de fileira em fileira, de obstáculo em obstáculo, de licença aos passageiros em licença, de sorrisos amarelos em sorrisos amarelos, alcancei o cubículo que fazia as vezes de banheiro na popa da lancha. O teto baixo me obrigou novamente à posição intermediária entre em pé e agachado, para lá de desconfortável e inadequada para relaxar.
Exceto curtos trechos em corredeiras, bancos de areia, tocos de madeira, exigindo mais cautela do piloto, o trajeto seguiu tranquilo.
No meio do dia, parada em Porto Walter, para descanso e refeição.
À jusante de Porto Walter o piloto precisou usar a ré numa manobra. O motor não respondeu. Tentou várias vezes e nada. Ele teve que entrar no rio e empurrar, no muque, a lancha para trás. Para ter ideia do avanço da vazante do Juruá, o nível das águas lhe bateu nas coxas. Desembarques em comunidades, em casas isoladas, no cais de Rodrigues Alves. Chegada em Cruzeiro do Sul no começo da tarde, sete horas após a partida de Marechal Thaumaturgo.
Feriadão nacional. Nada para fazer em cidade feia e conhecida. Ler mais e refletir sobre o conteúdo esclarecedor de A Elite do Atraso, de Jessé Souza, eram os planos principais para aquele dia em Cruzeiro do Sul.
No jantar, comi o espeto de carne no quiosque bem em frente ao hotel. Ambiente aberto com livre circulação de pessoas. E de cachorros, muitos cachorros, atraídos pelo cheiro das carnes grelhadas. Dois deles se estranharam justamente ao lado da mesa onde eu escolhera. Se pegaram a centímetros de mim. Ganiram, se enrolaram, se morderam, empurraram a mesa durante os movimentos bruscos. Por pouco não despencou no chão toda a comida que estava sobre a mesa. E por pouco, muito pouco, não me sobraram mordidas.
continua...

terça-feira, 4 de setembro de 2018

do Juruá ao Tapajós (via Transamazônica) (parte 1/7)

Crescia a vontade de percorrer novamente os interiores do Brasil. E mais uma vez a Amazônia brotou como principal candidata. O oeste do Acre e o alto rio Juruá caíam como luva para o ponto de partida. E lá eu desenharia o prosseguimento do roteiro.
No começo de abril o avião pousou em Cruzeiro do Sul. Passava da meia noite, horário local, mais de duas horas da madrugada segundo meu relógio biológico. E despenquei na cama do hotel.
Ao amanhecer, pela janela do quarto do hotel, a visão da curva do Juruá a jusante do centro da cidade. Vista animadora para começo de viagem repleta de ideias e carente de planos definidos.
A uma quadra do hotel, a construção de Unidade de Pronto Atendimento, ligada ao Ministério da Saúde, obra do governo federal dos tempos progressistas de Lula e Dilma. No entanto as obras estavam paradas, abandonadas, num desserviço a população, resultado da ditadura iniciada com o golpe de Estado de 2016.
Cruzeiro do Sul continuava sem beleza e sem urbanismo definido, conforme eu verificara na visita quatorze anos antes. O Tribunal de Justiça no alto do morro mais alto da cidade, de costas para o rio. A ponte da União, construída nos tempos progressistas de Lula e Dilma, atravessava o Juruá, levando à margem direita e à continuidade da BR-364 no sentido leste, ao restante do estado do Acre. Antes, apenas balsas atravessavam o rio.
Na rampa de terra, a jusante da ponte, o que seria o porto da cidade. Para o local ser chamado de precário teria que melhorar muito ainda. Amontoados, acessados por frágeis pinguelas ou pranchas de madeira, flutuantes caindo aos pedaços ofereciam passagens de lanchas rio acima e rio abaixo. Barcos nada convidativos, a maioria de somente um piso, transportavam cargas e passageiros nos dois sentidos, em viagens mais lentas e mais baratas.
Cruzeiro do Sul, ao contrário do costume em cidades quentes, sobretudo as amazônicas, se encontrava deserta de almas no começo da noite. Comi muita carne na churrascaria de gaúcho natural de Arvorezinha, cidade serrana do Rio Grande do Sul. Apenas duas mesas ocupadas. O proprietário, vestido a rigor, sugando a cuia de chimarrão e tudo mais, se ressentia das noites vazias da cidade. A situação contrastava com até três anos antes, quando o estabelecimento vivia cheio e com espera de mesas. Segundo ele, os altos índices de violência na cidade, com pelo menos um assassinato por dia, afastavam os moradores da vida noturna. E alertou dos perigos de circular pelas ruas após o anoitecer. Resolvi não arriscar. Mesmo porque não haveria aonde ir diante daquele clima de cemitério.
Nem bem clareou o dia e a cidade despertou. Pedestres, bicicletas, motos, carros, circulavam pelas ruas e calçadas. Voadeiras zanzavam em todas as direções pelas águas do Juruá. A Cruzeiro do Sul que se recolhia no começo da noite em pânico pela insegurança pulava da cama bem cedo.
O Acre era o estado brasileiro que mais demarcou territórios indígenas, não obrigando as populações originais a perambularem pelas cidades por falta de terras para viverem e manifestarem as culturas tradicionais. As duas campanhas da borracha, no final do século XIX e em meados do século XX, deslocaram multidões dos sertões nordestinos, sobretudo do Ceará, para regimes de quase escravidão na coleta e defumação do látex proveniente das seringueiras. Desse modo, o Acre, especialmente Cruzeiro do Sul, parecia filial do Ceará, apesar de deveras distante daquele estado.
Em meia hora o ônibus urbano cruzou a divisa entre o Acre e o Amazonas e me deixou na pacata Guajará. A cidadezinha amazonense se erguia também na margem esquerda do Juruá. Contava com orla fluvial urbanizada, calçadão, quiosques, árvores, sombra, tudo bem de frente às águas do rio. As ruas transversais ou paralelas ao rio, majoritariamente de terra ou com restos de asfalto velho, primavam pelo sossego e tranquilidade. Muitas moradias e comércios construídos em madeira e levemente acima do solo. O porto, dotado de ampla balsa flutuante acessado por rampa asfaltada, humilhava o lamaçal de Cruzeiro do Sul, cidade no mínimo quatro vezes maior que Guajará.
Andei e me sentei em banco do calçadão, sob as sombras da orla, com direito à vista privilegiada do Juruá, da margem oposta, praticamente desabitada, das poucas canoas em circulação.
Perto da modernosa igreja de São Francisco de Assis, com discreta praça e coreto em frente, almocei no restaurante familiar. Fui de frango ensopado, arroz, feijão, saladinha. E caminhei lentamente ao ponto do ônibus de volta a Cruzeiro do Sul.
Perambulei pela zona do mercado e pelo principal trecho comercial da cidade. Apesar de dinâmicos e vibrantes, os vários setores do mercado, dispostos em construções separadas, compunham conjunto feio de doer. Nada, absolutamente nada, chamava visualmente a atenção.
Em quiosque do canteiro central da avenida Rodrigues Alves preenchi o estômago vazio. Inúmeros cachorros e pedintes ziguezagueavam pelas mesas de plástico. E, em cidade esvaziada à noite, retornei ao hotel para ler bastante A Elite do Atraso, livro de Jessé Souza.
Sem o café da manhã do hotel me dirigi a pé ao flutuante precário de onde partiria a lancha Juruá acima. Sentei na última fileira da embarcação. Atrás de mim o cubículo do banheiro e o motor de 200 HP. A lancha, coberta, mas sem proteção lateral fixa, apenas com lonas plásticas móveis, comportava vinte e oito passageiros, distribuídos em sete fileiras. Não havia corredores laterais ou centrais. No meio de cada uma das fileiras havia encosto móvel, com trincos, para que os passageiros da frente pudessem acessar o banheiro, atrás. Imaginem a operação de guerra para que os mijões atingissem o cubículo da popa. Um passageiro de cada fileira, o sentado no centro, se levantava. Alguém abria o encosto móvel deslocando os trincos nada lubrificados. Assim, o mijão se deslocava, lentamente, fileira por fileira, da proa até a popa. Na volta tudo se repetia no sentido contrário. E usei o dito cubículo. Eu não conseguia ficar de pé devido ao teto de cerca de um metro e meio de altura. Agachado também não em razão da altura do vaso sanitário. Sentado, nem pensar pelas condições de higiene. Acabei ficando numa posição desconfortável, nem de pé, nem de cócoras, nem sentado, com os músculos tensionados, a cabeça prensada no teto.
Nas primeiras horas fez frio, sensação agravada pela chuva fina e pelo deslocamento da lancha. As lonas plásticas laterais foram arriadas. Aí não dava para ver nada do lado de fora, apenas as cabeças dos passageiros à frente. Os assentos não eram dos piores anatomicamente, acolchoados, num bloco contínuo para cada fileira. Inacreditável era o volume do motor da popa. O piloto o exigia ao máximo. Na primeira parada, para desembarcar passageiro numa comunidade ribeirinha, o motor foi desligado e logo percebi que estava quase surdo. Eu pouco ouvia o que acontecia ao meu redor. As vozes, inclusive a minha, além de baixas, pareciam vir de um pato, por ondas curtas, de um rádio amador antigo. E ali ainda era o comecinho do percurso. Definitivamente a opção mais apropriada de navegar pelos rios era em barco tradicional, lento, com espaço para andar, circular, apreciar a natureza do entorno da maneira desejada.
O Juruá se estreitava rio acima e a vazante avançava com rapidez. Se sucediam as famosas curvas do rio, sem perdão, algumas perto de cento e oitenta graus.
Parada em Porto Walter no meio do dia, cidade erguida também na margem esquerda do rio. Os passageiros interessados teriam meia hora para encomendar almoço em pensão no centro, a poucas ruas dali. O motor da lancha foi desligado. Alívio dos alívios, mesmo sem ouvir nada ao meu redor. Subi a alta escada de madeira do porto, alcancei a rua da beira do rio, caminhei ao centro da cidade. Estiquei as pernas.
Passageiros almoçados, lanchados, descansados. E a viagem prosseguiu Juruá acima. A chuva passou. O sol ameaçava furar o bloqueio das nuvens carregadas. As lonas laterais foram recolhidas e a paisagem das margens do rio se descortinou. A floresta, comunidades isoladas, placas indicativas dos limites do parque nacional da Serra do Divisor na margem esquerda.
Vez ou outra a lancha se encostava à margem para que o piloto pudesse desenroscar folhas e raízes da hélice ou entregar encomendas aos ribeirinhos. Nesses momentos, de maneira fulminante, os piuns atacavam em bloco, visando especialmente carne e sangue novo. Os braços ficaram pontilhados de picadas que coçavam barbaridade logo de cara.
Ao final da tarde, após curva acentuada, mais uma entre as milhares do sinuoso Juruá, surgiu no alto do barranco da margem esquerda a cidadezinha de Marechal Thaumaturgo, exatas nove horas depois da partida de Cruzeiro do Sul.
Desembarquei no flutuante, subi a longa escada de madeira, avancei a rampa asfaltada e, logo no começo da rua beira-rio, entrei no hotel sem recepção. O funcionário do mercado embaixo me indicou quarto básico, limpo, amplo, suficiente. Antecipei o banho frio em local nem tão quente assim. Estava quase surdo, é verdade, mas bem disposto.
 Saí cedo para jantar bem no único restaurante da cidade. Em ambiente caseiro comi filé e picanha grelhada na chapa, acompanhados de arroz, feijão, macaxeira cozida, purê de macaxeira, farofa. E um generoso copo de suco de cupuaçu para não perder o costume.
Silêncio na cidade naquela noite de sábado. Adolescentes se olhando na praça alta, em desnível e de frente para o Juruá. Outros nas janelas. Poucas motos e carros. Poluição sonora quase zero. Delícia das delícias. Meus ouvidos, ainda zunindo terrivelmente, agradeciam a folga. As ladeiras sobre o barranco alto e de frente para o rio atraíram logo de cara.
Me lembrei das imagens pela internet da impressionante passeata, toda vermelha de bandeiras e bandeirolas, feito cobra comprida e sinuosa, pelas ruas de Marechal Thaumaturgo durante a campanha eleitoral municipal de 2016. A luta dos moradores era para manter a administração da prefeitura pelo PT. Pela diferença de menos de um por cento nos votos, porém, venceu o representante das classes dominantes, com apoio da grande mídia que participou do golpe de Estado de 2016.
Uma das muitas ações arbitrárias, desumanas e ilegais do novo prefeito empossado em 2017 foi deixar de pagar os salários dos funcionários públicos municipais. A categoria corretamente se revoltou, ocupou a prefeitura e trancou o prefeito no interior do prédio. Somente quando o dito cujo liberou a metade do valor devido, os funcionários soltaram o meliante. Na pequena câmara dos vereadores apenas um parlamentar ainda o apoiava. Para auxiliar a população, a limpeza das ruas estava por conta do governo estadual, encabeçado pelo PT.
Na margem do rio Juruá oposta à cidade, indígenas do povo Ashaninka montavam acampamentos provisórios enquanto duravam os afazeres na cidade. De voadeira vinham a Marechal Thaumaturgo para compras, assistência médica, social, entre outras tarefas urbanas. Elas vestiam as tradicionais túnicas folgadas e coloridas. Eles, mais comumente usando calção e camiseta, cumprimentavam e conversavam. Os Ashaninka eram trilíngues e fluentes em ashaninka, espanhol e português. As principais aldeias se localizavam Juruá acima, tanto em território peruano como brasileiro.
Reparei também em casal jovem na praça central. Ele, de calção e camiseta, rosto pintado de vermelho. Ela, de vestido acima dos joelhos. Ambos sorridentes e sempre me cumprimentavam. Eram da etnia Kashinawa. Vez ou outra circulavam em grupos maiores.
continua...