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segunda-feira, 7 de outubro de 2024

da Bolívia ao Piauí (via Bolívia, Peru, AM, PA, MA, PI) parte (3/7)

 ...continuação

Pela manhã subi em barco rumo à ilha da Lua, no meio das águas do lago Titicaca.

Assim que o barco contornou a última ponta do continente, eis que surgiu ao fundo, à direita, esplêndido, imponente, adiante das águas azuis do lago, o nevado Illampu, contando com seis mil trezentos e trinta e um metros de altitude. De base ampla, aquela montanha sempre me atraiu para circuito de caminhada durante sete dias ao redor dela a partir da cidade de Sorata.

O barco atracou na ilha da Lua. Desembarquei para observar as ruínas do templo inca das Virgens, ou Iñaq Uyu. Valeu mais pelas contemplações sem fim do Illampu.

Novo embarque, rumo à ilha do Sol, para atracar no cais Huacani. Almocei comida típica do camponês do altiplano boliviano, o Apthapi, similar àquele experimentado no salar de Uyuni. Mais barco para contornar a ponta da ilha do Sol e atracar em porto onde havia a ruína do templo inca Pilkokaina.

Subi a encosta atrás do templo até atingir a trilha quase em nível. O caminho margeava terraços para plantação de milho, batatas, entre outras culturas, na fase da semeadura umas, na de colheita outras. Casinhas esparsas, pousadas simples para turistas, indicavam a aproximação do principal vilarejo da ilha do Sol, Yumani. Carneiros e lhamas pastavam livremente nas encostas. Agricultores produziam alimentos em pequenas propriedades. Do lado leste, as águas escandalosamente azuis do lago Titicaca e, mais adiante, ele, sempre ele, o nevado Illampu e a cordilheira dos Andes.

Após mais de uma hora de caminhada leve e deslumbrantemente cênica entrei na hospedagem composta por chalés bem dispostos na encosta voltada para o leste, com direito a vista das plantações em terraços, das águas azuis do lago Titicaca e dele, do nevado Illampu.


Tomei enorme xicara de chá de muña, preparado a partir de infusão das folhas. A muña servia para atenuar eventuais problemas com a altitude, aumentando a oxigenação do sangue, e também para problemas digestivos e intestinais, ainda mais no caso da ilha do Sol a três mil e oitocentos metros de altitude.

Não havia sistema de calefação na hospedagem, apenas dispositivos ecológicos de aquecimento do ambiente, aproveitando e armazenando, de uma forma ou de outra, o calor da luz solar presente durante todo o dia.

O ponto mais quente da hospedagem, como não poderia deixar de ser, era a sala onde serviam as refeições. Os poucos hóspedes se concentravam lá a maior parte do tempo ocioso. O jantar veio de sopa de legumes, truta grelhada com legumes e batatas, maçã assada no forno. Para beber, infusão refrescante de muña.

Antes de voltar ao chalé a recepção forneceu bolsa de água quente a ser colocada sob as cobertas, junto às pernas, num prenúncio de como seriam as temperaturas noturnas em quarto sem calefação.

Entrei sob todas as cobertas, mais a bolsa de água quente e tentei adormecer.

Sob o edredom a temperatura era até que suportável, me permitindo dormir por uns tempos. Durante a madrugada fui ao banheiro sob o frio de trincar ossos. O ar do quarto estava gelado. O sistema ecológico de retenção de calor do sol, apesar das melhores das intenções com o meio ambiente, com o planeta, com a humanidade, não funcionava. A bolsa de água quente, colocada entre as pernas, há tempos que não estava mais quente. Ao sair da cama, me enrolava nos tecidos que vinham às mãos. Cobria cabeça, pescoço, pernas e o que mais eu conseguia a fim de não congelar entre a cama e o banheiro.


Pela manhã, corri à sala de refeições para não congelar no chalé. Tomei o saboroso e farto café da manhã cuja maioria dos itens era preparada na hora. Vinham fresquinhos, quentinhos, deliciosos.

Desci a trilha ao cais da beira do lago. Margeei as três saídas de água da chamada fonte da Juventude, Baixei os degraus da longa escadaria guardada, aos pés, por duas divindades incas, mulher e homem, na forma de esculturas coloridas, já no nível do atracadouro dos barcos sobre as águas do lago Titicaca. E embarquei no porto de Yumani de volta ao continente, à cidade de Copacabana.

Almocei e caminhei ao ponto de ônibus em Copacabana. Depois de formalidades burocráticas da empresa, preenchendo formulários, embarquei em ônibus de linha regular com destino a Puno, cidade peruana na margem do mesmo lago Titicaca.

Meia hora depois da partida de Copacabana o ônibus parou na fronteira internacional. Os passageiros caminharam cumprindo as etapas migratórias. Saída na migração boliviana, carimbo do passaporte, controle da alfândega boliviana, troca dos bolivianos remanescentes em soles e, finalmente, a entrada em território do Peru.

O ônibus vinha lotado de turistas jovens do hemisfério norte, mochileiros, todos com rostinhos de filhinhos do papai, bem alimentados, bem cuidados, bem financiados, muito diferentes dos autênticos mochileiros de décadas antes. Exceções havia, é claro, como o casal equatoriano que voltava para casa por terra. Muito jovem, talvez europeia, de olhos bem azuis e expressão levemente abobada, a turista sentada ao meu lado se recusou a conversar, mantendo o olhar vidrado para frente.


No meio da tarde o ônibus entrou no terminal terrestre de Puno. Peguei moto-taxi coberto e fechado, com assentos atrás para duas pessoas. Puno, revisitada quarenta e um anos depois, crescera, mas continuava entre cinzenta e acastanhada, sem belezas urbanísticas. As águas do lago Titicaca se encontravam afastadas do centro antigo da cidade. Situada a três mil e novecentos metros de altitude, a cidade era bem fria e fustigada por ventos gelados vindo do lago e das montanhas nevadas não distantes dali.

Apesar das pouquíssimas opções oferecidas no bufê do café da manhã do hotel, caiu bem demais da conta. Tracei cinco pães, de formato irregular e pouco fermento, com manteiga e queijo, suco de manga e suco de laranja, encerrando com chá de camomila. O minúsculo salão comportava apenas duas mesas e não havia mais ninguém.

Dei extensa volta pela cidade, incluindo a praça Mayor, com a catedral pesadona e suntuosa, em preparos para festividades, o parque Pino, praça pequena e sempre prestigiada pelos moradores. Estiquei por ruas e avenidas, até o porto de Puno. Na orla do lago Titicaca, extenso calçadão, limpo, bem cuidado e com bancos para sentar, relaxar, contemplar, conversar. Vendedores de pacotes às ilhas do lago assediavam, sem insistir ou sufocar.

Os peruanos de Puno tinham tez mais escura que os bolivianos do outro lado da fronteira e vestiam roupas mais sóbrias. Mais atraentes que as bolivianas, elas exalavam discreta sensualidade. As mulheres maduras, vestidas a caráter, com trajes andinos, saiões, chapéu coco, tranças longas, se assemelhavam bastante às bolivianas.

A despeito da ausência de arquitetura ou de urbanismo marcantes e vistosos, ao andar pelo centro e arredores da beira do lago Titicaca, Puno agradava aos olhos. Auxiliava significativamente aquela impressão a sensação de liberdade de viajar sem guias, roteiros, prazos, destinos marcados. Nada como circular por conta própria, por onde queria, no meu jeito e no meu ritmo.

Jantei o excelente lomo saltado com arroz e batatas, precedida de dose de pisco. Em ambiente clássico, aconchegante e aquecido, a proprietária setentona e sisuda costumava cercar insistentemente os fregueses no momento de escolher os pratos e bebidas. Eventualmente intervinha na mesa até mesmo durante a refeição. Era o jeito dela. Mas jamais chegava a sufocar ou impor nada. Apenas sugeria com excesso de ênfase. Era questão de sorrir, se esquivar para o que desejava e seguir em frente. Eu a driblei elegantemente, retirei sorriso daquele rosto amassado e, ao pedir a conta, até recebi outra dose de pisco como cortesia.

Dei volta rápida pelo calçadão principal do centro antigo, o peatonal, Fazia frio cortante e intenso, mas minhas roupas, inclusive gorro e luvas, me protegiam à altura. Muita gente nas ruas, calçadas e praças, prestigiando espaços públicos, democráticos e gratuitos. Apesar das baixíssimas temperaturas, as sorveterias funcionavam normalmente e os peruanos afluíam em massa, chegando a formar pequenas filas.

Pela manhã acompanhei a linha do trem no sentido de quem deixa a cidade. Atingi o lago Titicaca em outro ponto. Observei e contemplei os arredores, refletindo sobre um pouco de tudo. Estava na outra ponta do longo calçadão da orla do lago que se iniciava no porto. Naquele trecho o calçadão se alargava e virava parque linear. Do outro lado da avenida, a Universidade Nacional do Altiplano.

Assisti à passagem do trem para Cuzco, não o comum e regular, mas o que cobrava preços absurdamente altos para pensão completa e parada noturna para os passageiros dormirem fora dos vagões. Pouquíssimos passageiros ousaram desembolsar a fortuna impagável para meros mortais. Aquela opção, voltada para turistas milionários, bilionários ou insanos, contudo, servia para arrecadar fundos para o turismo peruano. Tiravam de quem tem muito. Certíssimo!

Jantei maravilhosamente em restaurante com frequência exclusiva de peruanos. Os ditos gringos alternativos, completamente diferentes dos autênticos mochileiros de décadas passadas, jamais arriscariam estabelecimentos não recomendados pelos influenciadores e, aquele ainda pior, pois frequentado apenas pelos nativos, dos quais os gringos preferiam a distância.

Esnobei Cuzco e Machu Pichu, locais visitados em minhas duas primeiras visitas ao Peru. Tomei o rumo de Iquitos, na Amazônia peruana.

As partes da manhã e da tarde daquele dia, entre a origem e o destino do meu deslocamento geográfico, apresentaram os absurdos contrastes; Em Puno, altiplano, -2 graus, 3.900 metros de altitude, 15% de umidade do ar. Em Iquitos, Amazônia, +32 graus, 150 metros de altitude, 80% de umidade do ar.

Não havia aeroporto em Puno. O dono do hotel estava na recepção para me orientar no deslocamento para o aeroporto da cidade de Juliaca. Amanhecia. Debaixo de frio glacial nos dirigimos ao escritório da transportadora que ainda se encontrava fechado. Entrei e permaneci dentro de veículo estacionado em frente. Serviu apenas para aguardar a perua definitiva. E porque ficar na calçada sob a temperatura de dois graus negativos seria desumano. Finalmente apareceu o veículo, já com outros passageiros sentados, e embarquei.

O trajeto durou cerca de uma hora por estrada cruzando zonas planas, de mais altitudes que Puno, semiáridas, pouco habitadas, tendo colinas ao fundo. Juliaca era cidade empoeirada, de tamanho médio, revelando casas e demais construções com tijolos à vista.

Juliaca saiu dos mapas no ano anterior quando dezoito pessoas foram assassinadas pelas forças de repressão política. Intensas manifestações protestavam contra o golpe de Estado que derrubara o presidente democraticamente eleito, Pedro Castillo, e impunha ao povo peruano regime ilegítimo e autoritário. O macabro episódio urbano ficou conhecido como o massacre de Juliaca.

Durante o voo avistei pico que exalava fumaça preta e espessa, denunciando provável vulcão em erupção. Mais adiante, vista privilegiada e desimpedida da cordilheira dos Andes. Montanhas altas, encostas íngremes, vales profundos, alguns picos e cristas nevadas e isoladas.

Ao sobrevoar a Amazônia peruana, o tempo abriu de vez e a paisagem se descortinou. Verde denso da floresta, rios largos e caudalosos, entre eles, evidentemente, o rio Amazonas. Raras e pequenas clareiras na floresta. A despeito de cenários conhecidos e tantas vezes contemplados em viagens anteriores pela Amazônia brasileira, aquela paisagem verde da floresta e dos rios sinuosos me emocionou mais que as estupendas montanhas nevadas da cordilheira.

O avião pousou em Iquitos em pista cercada pela floresta amazônica, parcialmente preservada.

Do lado de fora do aeroporto tomei o famoso moto-táxi de Iquitos, simples, eficaz, coberto e aberto na frente e nos lados, ao contrário, por motivos óbvios, dos moto-táxis fechados da gelada Puno. Longo trajeto ao centro da cidade, ao lado de incontáveis outros moto-táxis, ziguezagueando pelas ruas e avenidas largas.


No quarto do hotel comecei a reorganizar a mala, escondendo em compartimentos bem apertados as roupas de frio e resgatando do fundo os itens de calor. Afinal, somente naquele dia, eu trocara Puno, cidade a dois graus negativos, por Iquitos, a trinta e dois graus positivos.

Na mesa ao lado do restaurante do jantar, quatro estadunidenses se vangloriavam entre si das próprias sexualidades, e das respectivas esposas que ficaram lá no regime terrorista ao norte do México, bem comportadas, segundo a ingenuidade deles. Em dado momento encostou moto-táxi de onde dois peruanos sorriram em excesso para um dos quatro gringos. Sorriam de maneira pegajosa enquanto o gringo os ignorava solenemente. Mesmo assim os dois peruanos não desgrudavam dali. Olharam fundo quando um dos quatro estadunidenses abriu a carteira para pagar a conta. Algo não cheirava nada bem naquele conjunto. Me bateu a dúvida de quem mais explorava quem na história entre os seis. Nada era o que parecia. Em se tratando da origem dos quatro sentados imaginei o pior dos cenários.

Tanto na orla fluvial, com calçadas largas de ambos os lados da rua, como no calçadão paralelo à orla, ou na ampla Plaza de Armas, os peruanos passeavam e viviam a noite ao ar livre, em casais, amigos, famílias, sozinhos, prestigiando espaços públicos e democráticos. O policiamento peruano se fazia presente, para intervir em qualquer eventualidade, que não parecia latente. Pontos, muitos pontos, à Bolívia e aos bolivianos, ao Peru e aos peruanos. Humilhavam a maioria dos espaços similares no Brasil, normalmente negligenciados e abandonados pela população, que era induzida a se idiotizar nos xópins, e por causa disso entregava os espaços públicos a dependentes químicos, moradores de rua e afins.

Saí de manhã cedo para caminhar, apreciar a cidade de Iquitos e a orla fluvial. Ao redor da Plaza de Armas, e da beira do rio Amazonas, na verdade lagoa a partir das águas dos rios Itaya e Nanay, mais acima, construções antigas, da virada do século XIX para o XX, em meio a novidades quadriculadas, cheias de vidro e concreto. A jusante da orla fluvial urbanizada, a planície alagável da lagoa, habitações e comércios flutuantes sobre grossas ripas de madeira resistente à água. Famílias ali viviam em casas de madeira e tetos metálicos, amontoadas, sem ventilação natural. Mais ao sul do centro havia enorme concentração dessas favelas que, desgraçadamente, atraíam visualmente pela precariedade. Era o famoso e extenso bairro de Belén.

continua...

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

da Bolívia ao Piauí (via Bolívia, Peru, AM, PA, MA, PI) parte (2/7)

 ...continuação

Atravessamos a empoeirada e sem graça cidade de Uyuni. Mais ao norte, após o vilarejo de Colchani, me hospedei em hotel em cujos tetos do quarto, e nas cúpulas das áreas comuns do hotel, havia detalhes feitos de sal.

Levantei cedo para o dia do grande deserto de sal da Bolívia, o salar de Uyuni. Se tratava de mais de dez mil quilômetros quadrados de sal branco, produto extraído para processamento e consumo, sem comprometer, no entanto, a paisagem e o ecossistema.

Dentro da área do salar atravessamos de carro extensões de paisagens inacreditáveis, pela beleza e pela esquisitice dessa beleza, duas qualidades que se multiplicavam. Aquela paisagem, assim como o diferente e deslumbrante monte Roraima, na divisa tríplice entre Brasil, Venezuela e Guiana, transmitia beleza esquisita, ou esquisitice bela.

O deslocamento no quatro por quatro parecia que não evoluía, pois o entorno, montanhas, vulcões, não se movia, tal a imensidão das distâncias.

Paramos no meio do nada. Piso plano, branco, cristalino, riscado pelas gretas pentagonais, em todas as direções. Ninguém, nenhum veículo por perto. Seria o lugar do almoço, a partir de comida preparada no hotel de Colchani. Vez ou outra, firmando a vista protegida pelos eficazes óculos de sol, eu notava, bem longe, minúsculo, um veículo em movimento, feito inseto em deslocamento naquele infinito branco. Foram retiradas do porta-malas mesas e cadeiras dobráveis e dispostas sobre o piso branco e salgado. Guarda-sóis nos protegeram do sol implacável, ainda que sob as temperaturas frias. Em nenhum momento tirei os óculos de sol, sob o risco de ferir as retinas com tanta luz e brilhos. O cardápio daquele almoço nobre sobre local especial se compôs do Apthapi, comida típica boliviana, da etnia aymara, que costuma ser apreciada no início da semeadura e da colheita nas zonas rurais. Vinham muitas opções secas, carne de boi, carne de frango, charque em fios finos, milho branco, diversos tipos de batatas, inclusive as desidratadas, legumes variados. O sabor da comida, apesar dos itens demasiadamente ressecados, os dois colegas bolivianos como companhia, o entorno único, plano, branco, cristalino, infinito, o nada, o isolamento, o silêncio absoluto, me proporcionaram emoções ímpares, diferentes de tudo que já experimentara.


Bem abastecidos de comida seguimos em frente. Em trajeto longo, plano e muito branco, é claro, avançamos no salar no sentido norte.

O veículo encostou ao lado da ilha Incahuasi, morro cercado de sal por todos os lados. Sobre o terreno irregular, rochas vulcânicas, corais, cactos gigantes, na altura e na espessura. Percorri a trilha em formato circular. Permaneci bastante tempo no topo, onde se realizavam periodicamente rituais aymara e de onde se tinha visão panorâmica completa do salar em todas as direções. A visão dos cactos grandes e gordos e da planície salgada infinita era arrebatadora. Parecia impossível a orientação dentro da imensidão branca.

Deixando a ilha no sentido de Colchani, mas ainda no meio da brancura de sal, em ponto onde havia afloramento de águas, aconteceu a parada para assistir ao por do sol. Novamente a mesa dobrável foi montada. Foi aberta garrafa de vinho boliviano da região de Tarija, acrescida de potinhos com salgadinhos variados. O sol se punha de um lado e a lua, quase cheia, se erguia do outro. Mágico! A cada minuto que passava a temperatura despencava alguns graus. Sem mais luz, exceto a da lua, tudo foi guardado de volta no porta-malas do veículo. Retornei à vila de Colchani.

Durante o jantar encontrei dois brasileiros quarentões, capixabas, viajando em duas motos desde o Espírito Santo. Pareciam descolados e cheios de aventuras para contar. A conversa não durou muito. No entanto, sempre emociona quando brasileiros se encontram em viagens. E me lembrei de outro encontro com capixaba, dessa vez um cinquentão sozinho, na Chapada dos Guimarães, cinco anos antes. Ele também viajava de moto, e também explorara os interiores dos países vizinhos andinos.

Pela manhã lá fui eu ao pequeno e simpático aeroporto de Uyuni.

Após voo tranquilo, com direito a vistas acachapantes da cordilheira Real a oeste, destacando o onipresente Illimani e, principalmente, o Huayna Potosi, pico de formato piramidal e coberto de neve recente, o avião pousou no aeroporto da cidade de El Alto.

No aeroporto em El Alto peguei veículo que desceu centenas de metros, por estradas sinuosas, até a cidade de La Paz.

Da cidade, vista privilegiada do nevado Illimani, sempre ele. Durante a noite, festejos com banda musical nas proximidades, provavelmente na praça do Estudante. Muitas buzinas, mesmo durante a noite e a madrugada, para os motoristas tentarem, em vão, escapar dos crônicos congestionamentos de La Paz.

Entre os comes e bebes, tomei duas xicaras de chá de folha de coca no café da manhã variado do hotel. Todo cuidado era pouco diante da altitude e do ar rarefeito.


Embarquei na estação de uma das linhas do teleférico de La Paz. Ao contrário do que imaginara sobre o teleférico, apenas como ferramenta turística e de passeios aleatórios, se tratava de meio de transporte local, composto de onze linhas que se integravam por estações de conexão. Tanto que percorri três linhas através de duas conexões em estações modernas, eficientes e limpas. Para viajantes, no entanto, servia como passeio, pela vista do alto da cidade de La Paz, dos morros, colinas, escarpas, cortadas pelos estreitos caminhos de rato e por raras avenidas, tornando insuportável o trânsito da cidade, mesmo fora dos horários de pico.

Belisquei saltenhas de massas adocicadas e me hidratei com o mocochinchi, refresco industrializado boliviano, exageradamente adocicado e enjoativo.

Subi ao mirante Killi Killi de onde se tinha visão de trezentos e sessenta graus da cidade. Pude apreciar os contrastes do urbanismo e do trânsito de La Paz, ambos caóticos e fascinantes. Dali, vista do pico Illimani, coberto de neve, principal fonte de água potável para a cidade, dos morros com altíssima densidade demográfica e casas com tijolos à vista, das linhas de teleférico, dos prédios novos da zona sul, mais procurada pelas elites locais por contar com menor altitude e, sobretudo, por se afastar dos bairros mais altos e ocupados pela população indígena.

Segui ao centro antigo de La Paz, entre becos, ladeiras, casario barroco, palácios administrativos, galerias de arte. Era a La Paz autêntica, dos velhos tempos, inclusive o da minha primeira visita à cidade quarenta e um anos antes. Entrei na galeria de arte de artista boliviano contemporâneo cujos temas realçavam cores e formas da cultura andina, as paisagens, a mitologia, as crenças.

Circulei pela praça Murillo, o marco zero de La Paz, tendo ao redor o palácio presidencial e o congresso. Na calçada que circundava a praça, o quitute típico pacenho, a gelatina avermelhada com cobertura de chantilly, oferecida pelas inúmeras vendedoras em barracas improvisadas.

Continuei a caminhada à assim chamada rua das Bruxas, ou mercado das Bruxas. Além de lojinhas para turistas, havia as tendas com produtos místicos para rituais de simpatias, a favor ou contra, numa variada profusão de itens expostos e também de matérias primas utilizadas, inclusive fetos ressecados de lhama.


Me deparei com o baita engarrafamento de trânsito, a famosa trancadera de La Paz, como os habitantes denominaram aquela calamidade de veículos em excesso em cidade que já existia assim havia séculos.

Mais para o sul de La Paz, sempre baixando a altitude, visitei o então desfigurado Vale da Lua. As casas da elite boliviana invadiram o entorno bem próximo, estragando de vez com o que jamais se constituiu em atração imperdível.

De volta ao centro da cidade, bandas tocando marchas militares continuavam na ativa pelos lados da praça do Estudante, o local preferido dos pacenhos para encontros, eventos, manifestações.

Cedinho pela manhã embarquei em perua com destino à cidade de Coroico, na região dos Yungas, na altitude de apenas mil e quinhentos metros, ou seja, dois mil e cem metros abaixo de La Paz.

De La Paz, por ruas íngremes e esburacadas, o veículo subiu a quatro mil e seiscentos metros de altitude. Somente a partir daí iniciou a descida propriamente dita, pela estrada nova, ainda assim muito perigosa, pelas curvas fechadas e pelos declives acentuados, fatores agravados pelo comportamento imprudente de muitos motoristas. Pela estrada velha, a famigerada estrada da morte, muitos morreram dentro dos ônibus que despencavam no abismo por conta da absurda estreiteza do leito do caminho extremamente sinuoso.

Na primeira parte da descida da cordilheira, a neblina, seca e depois úmida, envolveu parte da paisagem. O verde e a vegetação se assemelhavam à da serra da Mantiqueira, no sudeste brasileiro, porém se diferenciava pelas encostas mais altas e mais íngremes. Casinhas e pequenas plantações despontavam aqui e ali.

Mais acima da cidade de Coroico visitei o cafezal orgânico onde ouvi explicações sobre cada fase da cultura do café, desde a produção de mudas, a semeadura, colheita, limpeza, secagem, torrefação, liberação para o consumo.

O clima úmido, serrano, rico em vegetação exuberante, abriu escancaradamente o apetite. O almoço veio de torradas com alho, azeite e pesto, salada de legumes e quinoa, sempre ela, espaguete ao pesto, sorvete de café e maracujá, suco diferente e refrescante de sultana e hibisco.

E veio a subida da cordilheira de volta a La Paz. Mais neblina e também garoa teimosa. Pelas faixas da rodovia, brotavam motoristas que desejavam morrer e matar os outros, tal a imprudência doentia nas ultrapassagens. Talvez fossem saudosos incuráveis dos perigos de morte da estrada velha.

O carro entrou à noite em La Paz, congestionada como regra, mas ainda mais por conta dos eventos da Entrada Folclórica do Gran Poder, festividade anual que avançaria pela madrugada.

Naquele domingo pela manhã circulei de leve pelo centro antigo de La Paz. Pessoas circulavam sob o sol ameno, comprando pequenas coisas ou simplesmente batendo pernas com a família. Passei pela igreja de São Francisco, construção suntuosa, pesada, em cor ocre.

Escolhi para almoçar restaurante frequentado pela elite pacenha, em ambiente decorado de modo conservador e servido por garçons uniformizados e submissos. Fui de filé mignon alto, coberto por dois ovos fritos, mais arroz branco e batatas fritas. Encerrei com xicara de chá de camomila. Ali dentro, pessoas de traços indígenas, ou seja, a maioria esmagadora da população boliviana, somente os garçons e demais empregados. Nas demais mesas, descendentes dos invasores europeus.

E me estendi no quarto do hotel para prosseguir a leitura de O Século das Luzes, de Alejo Carpentier.

Na manhã seguinte deixei La Paz pela cidade de El Alto. Assim como o nevado Illimani era onipresente em La Paz, em El Alto quem se fazia visível de todas as partes era o estupendo nevado Huayna Potosi. De formato piramidal, coberto de neve, era o legítimo e charmoso guardião da cidade.

Após cruzar a extensa e populosa cidade de El Alto, o veículo finalmente alcançou a rodovia. A cordilheira Real, nome regional da cordilheira dos Andes, se erguia imponente a leste, dotada de vários picos nevados com altitude acima dos cinco mil metros, inclusive o nevado Condoriri.

O veículo teve que encarar uma das longas filas para abastecer com gasolina em posto de combustíveis da beira da estrada. A fila do diesel era infinitamente mais longa. A Bolívia passava por problemas de abastecimento de combustíveis e as correntes de extrema-direita tentavam faturar em cima da crise, a favor dos capitalistas e contra a maioria da população.

Mais ao norte, não demorei a avistar as águas do lago Titicaca. O visual da cordilheira exigiu parada para contemplar e registrar as imagens do lago, de águas extremamente azuis, das montanhas nevadas da cordilheira ao fundo e, na beira da água, de casas espaçadas.


No povoado de Tiquina o veículo subiu na balsa para atravessar o estreito e mudar de margem do lago Titicaca. Gaivotas mansas e curiosas pousavam na grade lateral da balsa, a menos de um metro dos passageiros. O céu limpo, sem nuvens, pouco vento, valorizava as luzes e as cores em terra e, principalmente, as águas incrivelmente azuis do lago.

Do outro lado do estreito a estrada se tornou terrivelmente sinuosa. Em dado momento, depois de uma das inúmeras curvas acentuadas, dos altos, avistei Copacabana, espremida entre dois morros, a encosta íngreme atrás, e a imensidão das águas azuladas do lago Titicaca à frente.

Lá embaixo me hospedei em hotel de construção de bom gosto, com quartos amplos e envidraçados, sem excluir o banheiro, apesar da criminosa banheira escorregadia, solução sanitária copiada da Europa e dos tempos do onça.

Almocei enorme filé de truta, pescada em criadouros no lago, ao molho de muña, verdura aromática. O creme de cenoura serviu como entrada e a torta de maracujá como sobremesa para fechar com chave-de-ouro o almoço saboroso.

À tarde circulei por Copacabana, visitando a imensa igreja da Virgem e padroeira da Bolívia. Emendei com as escadarias do calvário, rumo ao topo do morro cerca de duzentos metros acima. E naquela altitude a escadaria não poderia ter outro nome. A árdua subida, no entanto, teve como recompensa a estupenda vista da cidade, do lago até o último horizonte, outros vilarejos lacustres distantes, minúsculos ou pequenos, nas margens do lago.

Desci as escadarias e contemplei o por do sol na orla de Copacabana. Ali, na ruazinha da orla, Copacabana se transformara, havia anos, naqueles pontos de turistas jovens, previsíveis, iguaizinhos pelo mundo afora, metidos a alternativos, a falsos mochileiros, termos anacrônicos na terceira década do século XXI. E, como esperado, os tais estavam lá. Sentados nas cadeiras de mesas que pareciam cativas, pois jamais as desocupavam. Raros os que retribuíam aos meus cumprimentos. Uma ou duas ruas, transversais ou paralelas, concentravam os bares, restaurantes, agências de turismo local. Embora ainda dotada de belezas e charmes, longe de totalmente deformada pelo turismo e pelos turistas, Copacabana em algum lugar do passado já fora local idílico.

Jantei sopa de amendoim, keperí, prato típico da Amazônia boliviana, mais especificamente do departamento de Beni, composto de carne amaciada com cozimento brando e demorado, purê de batatas servido ao redor de bastão de madeira, legumes variados. De sobremesa, a deliciosa repetição do almoço, torta de maracujá.

continua...

terça-feira, 1 de outubro de 2024

da Bolívia ao Piauí (via Bolívia, Peru, AM, PA, MA, PI) parte (1/7)

Embarquei naquele mês de maio pela empresa boliviana de aviação, rumo à conexão em Santa Cruz de La Sierra. Novo voo para Sucre pela mesma empresa. Durante ambos os voos, me debrucei nas leituras de O Século das Luzes, de Alejo Carpentier.

Pousei no aeroporto de Sucre, distante trinta e três quilômetros da cidade. Durante o percurso, pela janela do avião, secura, montanhas de tom ocre e pouco habitadas. Sucre se situava a cerca de dois mil e oitocentos metros de altitude. Embora cidade muito alta para os padrões brasileiros, era considerada baixa diante do altiplano boliviano.

O casario colonial, todo recém-pintado de branco para as comemorações de data nacional, encantava nas margens das ruas estreitas e alongadas de Sucre, a capital constitucional da Bolívia, deixando La Paz como a sede do governo. A cidade guardava centro urbano belo e charmoso, dotado de inúmeras atrações históricas, arquitetônicas, culturais, sem falar dos próprios moradores, entre muitos estudantes universitários.

Visitei a praça da Recoleta, o convento em uma das faces, e outras construções repletas de balcões chamativos. Caminhei por ruas cujas construções, invariavelmente brancas, se encontravam adornadas com vasos de flores suspensos nas paredes frontais. O povo boliviano que coincidia com meu caminho se mostrava sempre educado e gentil, tomando a iniciativa de sorrir e de me cumprimentar.

Percorri diversas ruas estreitas, em meio ao casario antigo, atravessando a praça principal, rodeada de construções suntuosas, incluindo o supremo tribunal, sede do judiciário da Bolívia, e da administração do departamento de Chuquisaca, nos limites do qual se localizava a cidade de Sucre. Tudo bem preservado e recém-pintado de branco. Acolhedoras as praças e parques prestigiados pelos sucrenhos, valorizando os espaços públicos, democráticos, gratuitos, bem cuidados pelas administrações públicas e pela população.


Durante a noite, ruas e praças enchiam de sucrenhos, aumentando a minha admiração pelos bolivianos e crescendo minha consternação pelos brasileiros enfurnados em xópins e lixos afins. Em dia e noite com campanha dos museus de Sucre de incentivo à visitação dos habitantes, os preços simbólicos cobrados atraíram ainda mais gente para ruas, praças, bares, restaurantes, centros culturais, museus.

Levantei cedo para pegar a estrada para o sul da Bolívia O motorista foi bancário em La Paz por trinta e dois anos. Durante todo o tempo sofreu de desgaste nervoso, causando sérios problemas de saúde, devido aos excessos de trabalho e às pressões psicológicas. Abandonou tudo e se mudou com a esposa, professora universitária, para Sucre. Como motorista de turismo, ele resumia a própria vida antes, quando pagava para realizar as raras viagens a passeio, e a vida atual que passara a receber para viajar sempre. Sarou de todos os sintomas doentios. Ele e a mulher se sentiam felizes e renascidos para a vida.

A paisagem durante o percurso, campos com arbustos e gramíneas, se tornou mais dramática após a entrada no departamento de Potosi, cujas rodovias subiam sempre de altitude.

Em Potosi visitei a Casa da Moeda, local onde, durante quase quinhentos anos, se cunhavam as moedas a partir da prata extraída de minas nos arredores da cidade. Durante séculos o metal foi retirado criminosamente pelos invasores espanhóis utilizando mão de obra escravizada dos indígenas da região. Extraíam das galerias do famoso Cerro Rico de Potosi, montanha ao lado da cidade, riquíssima em prata, chumbo, zinco.

Circulei a pé pelas ruas estreitas de Potosi. Os charmosos balcões fabricados em cedro, pintados geralmente de verde, não poderiam faltar, além do casario secular, entre palácios, igrejas, torres, obeliscos, revelando conjunto arquitetônico extremamente vistoso e atraente. Potosi se localizava a quatro mi e cem metros de altitude. O ar demasiadamente seco congestionava as narinas, provocando espirros ocasionais, seguidos de secreções volumosas.

Parei para almoçar em restaurante familiar, simples, básico, frequentado por moradores e visitantes. Comi comida comum bem servida. A trilha sonora do ambiente, baseada em versões bolivianas de sucessos da música comercial internacional, com arranjos para lá de bregas, foi o destaque ridículo daquele estabelecimento instalado em mais um casarão colonial.

Após o almoço, vestindo capacete e uniforme de segurança, visitei uma galeria da mina do Cerro Rico. Antes entrei em comércio local para adquirir oferendas ao protetor dos mineiros, entre folhas de coca, pasta comestível de cinzas, álcool 96 graus. Sim, os mineiros de Potosi bebem álcool 96 graus! As minas estavam então sendo administradas por trinta e cinco cooperativas, empregando trinta mil mineiros em péssimas condições de trabalho, insalubre e de horário demasiadamente extenso.


As centenas de galerias tornavam o Cerro Rico formigueiro repleto de caminhos internos abertos à dinamite, o transformando em volume cada vez mais oco que rochoso. Situação que ameaçava desmoronar a estrutura, total ou parcialmente, a qualquer momento. Na boca da galeria entreguei as oferendas a um dos mineiros que se embebedavam com colegas em dia de feriado em homenagem ao Espírito.

Entrei na galeria, irregular, baixa, obrigando a me curvar. Logo no começo lá estava o boneco da divindade protetora dos mineiros, rodeado de oferendas. Aproveitei para observar, e matar saudades dos tempos de prospecção mineral, os filões do minério nas paredes e tetos. Da galeria de entrada, saíam, para os lados, para cima e para baixo, outras galerias menores, ainda mais claustrofóbicas que a principal.

De volta à rodovia para enfrentar os últimos duzentos quilômetros até a cidade de Uyuni. O traçado sinuoso, as montanhas belíssimas valorizadas pela luz do sol vespertino, ora acinzentadas, ora acastanhadas, ora avermelhadas, encantavam os olhos. Os dobramentos das camadas geológicas, nítidos, escandalosamente visíveis a olho nu, causariam orgasmos múltiplos aos profissionais e estudantes da área.

Em trechos mais planos da paisagem, com ofertas de água vinda das montanhas, esverdeando o capim e as gramíneas, rebanhos de lhamas atravessavam a estrada vez ou outra em busca de pastos mais verdes e suculentos.

No começo da noite cheguei a Uyuni e logo fui jantar. Fui de sopa de quinoa, seguida de lhama grelhada com arroz e legumes. Tudo preparado com carinho e servido com atenção e simpatia.

O dia seguinte amanheceu seis graus negativos. O quarto e o banheiro privativo do quarto do hotel, no entanto, se encontravam levemente aquecidos pelos dois aquecedores previamente acionados antes de eu entrar na noite anterior.

Saí ao vilarejo de Pulacayo, sede de antiga mineradora estatal de estanho, cuja administração passara à cooperativa de mineiros. Nos limites da mina, trens abandonados sobre trilhos desativados, maquinário obsoleto, casario precário e quase abandonado. A descoberta de novas jazidas próximas, sob o cerro principal, reativaria a economia local e vida na cidadezinha. Circulei pelas ruazinhas, observando construções vazias e paradas no tempo. Fazia frio intenso, agravado pelo vento constante.

De volta às imediações de Uyuni parei para visitar o cemitério de trens, ao lado de ferrovia desativada. Antes os trilhos levavam minérios ao porto de Antofagasta, cidade hoje pertencente ao Chile, mas que anteriormente à guerra do Pacífico, no final do século XIX, fazia parte do território da Bolívia. Daí o abandono de locomotivas, vagões, acessórios ferroviários em geral.


A cidade de Uyuni se apresentava empoeirada, plana, espalhada, desprovida de qualidades visuais. Com traçado de ruas quadriculadas, parecidíssimas entre si, sem calçamento, mais parecia concentração urbana perdida no deserto, e reerguida e ampliada para o turismo.

O veículo tomou o rumo sul para longa jornada com destino ao vilarejo de Villamar, percorrendo estradas pavimentadas e não pavimentadas, estas cheias de poeira em suspensão. Do lado oeste a cordilheira dos Andes se aproximava e, ao fundo, montanhas mais altas e nevadas. Lhamas e vicunhas pastavam livremente em terrenos ricos em vegetação rasteira.

Parada sem graça em San Cristobál para visitar igreja toda construída em pedra e que fora transplantada e reerguida em outro local da cidade, pois o primeiro ponto se localizava sobre rica jazida mineral de estanho.

À tardinha chegada em Villamar que me fez sentir bem afastado das zonas urbanas do país. Ao redor, vilarejo precário e, ao fundo, formações rochosas curiosas de coloração ocre.

Antes de jantar coloquei o nariz do lado de fora da porta de entrada do hotel. Frações de segundo foram suficientes para concluir que as temperaturas despencaram rapidamente para abaixo de zero.

Jantei sopa de legumes, seguida de carne com batatas, arroz e salada. Para hidratar e aquecer o sangue eu escolhi meia garrafa do vinho malbec boliviano da região de Tarija. O ambiente do jantar era pequeno e acolhedor, servido por funcionária da cozinha, calada e sorridente, e pelo gerente do hotel, também calado e atencioso.

Muito frio pelos corredores ao retornar ao quarto.

Bem cedinho eu embarquei no veículo quatro por quatro, apenas com a mochila de ataque, com o guia e o motorista, sob o frio congelante. Pela madrugada os termômetros atingiram a marca de onze graus negativos. Eu vestia todo o arsenal contra o frio disponível na bagagem. Meias grossas de montanhismo, botas de montanha, minhocão térmico sob a calça de caminhada, camiseta térmica de mangas longas, malha justa de montanha até o pescoço, casaco duplo com capuz, gorro, luvas. Como se tratava de material técnico, voltado a montanhismo e a atividades ao ar livre, sob as baixas temperaturas, me senti seguro de que não passaria frio. E não passei.

Percorrermos naquele dia, em trajeto circular, cerca de quatrocentos quilômetros. Por estradas e caminhos arenosos, ou sob as cinzas vulcânicas, ambos irregulares, nas partes mais altas com neve fresca sobre o leito dos caminhos, exploramos com calma aquela região do extremo sul da Bolívia, única no mundo.

Logo no começo, lagoa seca e produtora de bórax, evaporitos de tons creme a acinzentados, de extensões sem fim. Ao fundo, montanhas de encostas íngremes.

Lhamas, pertencentes a rebanhos particulares, e vicunhas, animais silvestres e sem donos, eram vistas com frequência. A vegetação, único alimento dos animais, não passava de gramíneas naquelas altitudes frias e áridas. Viscachas, raposas, chinchilas, circulavam tranquilamente, sem se assustarem.

Parada na Laguna Colorada, atração turística famosa, porém surpreendentemente vazia. A lagoa contava com pouca água e alguma névoa. Flamingos circulavam ou flutuavam sobre as águas avermelhadas. Ao redor, montanhas ressecadas e de cor ocre compunham cenário desértico bem mais atraente que a própria atração turística.


De volta aos caminhos improvisados. E sempre subindo. Em trecho longo, demorado, mas visualmente magnífico, com muita neve nas estradinhas, assim como nas encostas e topos das montanhas próximas, o veículo atingiu os cinco mil metros de altitude. Era o ponto chamado Sol de Mañana, conjunto de gêiseres ativos, exalando vapor de água com odor podre de enxofre, depressões com lama acinzentada e borbulhante, revelando atividade vulcânica intensa em toda a região. Nem parecia que eu estava na Terra, tal a paisagem insólita, única, esquisita, incrivelmente bela e fascinante.

Em mais um longo percurso, a lagoa Chalviri, repleta de vicunhas pastando na beira das águas com montanhas nevadas ao fundo. Mais à frente, as curiosíssimas formações rochosas sobre encosta ocre de cinzas vulcânicas, imagens que inspiraram quadros do pintor surrealista Salvador Dali. Se tratavam de blocos de rocha, monólitos, que se erguiam isolada e aleatoriamente na paisagem árida, completamente desprovida de vegetação.

Ao final do percurso, a Laguna Verde, bem ao lado de uma das fronteiras com Chile, mais usada pelos veículos tracionados das empresas de turismo de ambos os países. Bem mais bonita e fascinante que a Colorada, a Laguna Verde exibia águas cinza esverdeadas pelo sulfato de cobre, águas crespas pelo vento implacável. Ao fundo, dois vulcões. O mais impressionante deles, o Licancabur, se erguia imponente com encostas íngremes e acastanhadas. O topo da estrutura cônica estava parcialmente coberto de neve.

O vento constante e gelado não me impediu de circular entre os blocos de rocha vulcânica negra. Consegui avistar, mais ao fundo, outras montanhas com encostas nevadas, e, no rumo sul, o posto da fronteira entre Bolívia e Chile, para onde afluíram quatro veículos quatro por quatro, provavelmente em travessia entre os dois países. Eles pararam ali apenas alguns minutos, tempo insuficiente para apreciar decentemente a Laguna Verde, os vulcões, as montanhas nevadas do entorno.

De volta à Lagoa Chilviri, dentro de instalações precárias de construção baixa, almoço simples a partir de comida preparada no hotel de Villamar. O banquete veio de frango ensopado, arroz, batatas fritas, legumes, maçã de sobremesa. A comida estava fria, mas saborosa e providencial para a fome galopante. E muitas conversas instigantes com o guie e o motorista, ambos bolivianos e comunicativos.

Tomamos o caminho de volta a Villamar, a tempo de observar, no vilarejo, em local próximo ao hotel, pinturas rupestres datadas de três mil anos sobre rochas de cor ocre, esculpidas em formas curiosas pelos ventos glaciais.

Pela manhã o guia e o motorista comentaram o frio escandaloso que passaram durante a madrugada em alojamento coletivo do vilarejo. Sem aquecimento central, sem cobertores e edredons suficientes, se enrolaram nas próprias roupas e dormiram aos trancos e barrancos, acordando sempre com o corpo tremendo e os maxilares tiritando. Enquanto os turistas eram bem tratados e bem alimentados, em ambiente aquecido, a despeito de pagarem caro por isso, os imprescindíveis funcionários do turismo boliviano, sem os quais nenhum passeio aconteceria, sofriam com o frio e o desconforto.

Acessamos charco esverdeado pela umidade constante, com pouca água visível, mas alguns fios congelados. O vale largo e alongado era margeado por paredões irregulares de rocha de coloração ocre. Ao fundo, depois de extensa e estimulante caminhada, ao lado de viscachas, chinchilas, gaivotas, variados patos selvagens, surgiu o lago Catal, de águas plácidas, silencioso, discreto. Aquele ambiente tranquilo, sem turistas ruidosos, em meio a curiosas formações rochosas, à fauna e à flora exuberantes, ao ar puro, ouvindo o delicado som do silêncio, gerava imensa paz interior e prazer sem fim de estar ali, naquela hora. Caminhei, contemplei, relaxei, divaguei, devaneei. Retornei por caminho distinto da ida, também exuberante, me obrigando a, vez ou outra, pular fios de água congelada. A fauna ao lado reinava absoluta e pouco se importava com a minha presença.

Mais adiante, a Garganta da Anaconda, a profunda garganta com vales úmidos e esverdeados era ladeada por altíssimos paredões rochosos, avistada do promontório de rocha no formato de cabeça de cobra gigante. Definitivamente não era local para quem tem medo de altura.

Almoçamos novamente comida preparada pelo hotel de Villamar, dessa vez em salão vazio do povoado de San Cristobál. Carne ao molho com legumes, torta de batata, quinoa com milho. E, novamente, debatemos os cotidianos dos dois países, satisfazendo a curiosidade de ambos os lados. O guia e o motorista se mostravam simpáticos e falantes, embalando o diálogo, esquecendo a rotina turística e as funções temporárias de cada um.

continua...

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Mato Grosso do Sul (parte 2/2)

...continuação
Sentei na frente do hotel e papeei com o casal de proprietários catarinenses. Os temas alternavam entre as rebeliões de presos em São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, acompanhadas das costumeiras opiniões fascistas divulgadas pelos meios de comunicação, do tipo “bandido tem que morrer”, ou os tais protestos dos grandes do agronegócio, previstos para atingir o auge no dia seguinte, agora com a adesão compulsória de parte dos pequenos agricultores. Os argumentos gastos e duvidosos utilizados pelos latifundiários sensibilizavam o casal, que os lia, um a um, no panfleto recebido. Ela destacava o aumento dos preços dos insumos frente aos preços finais de exportação. E repetia a ladainha que o governo tinha que ajudar os coitadinhos. Mas se esquecia de louvar a tão louvada economia de mercado e a falácia da liberdade dos preços.
Quem sempre produziu alimentos foram os pequenos agricultores e não os latifundiários ou o agronegócio. Mas o maior montante do dinheiro público ia para esses últimos, que o usavam para engordar as próprias fortunas.  E eles exigiam mais dinheiro público. Dinheiro público para a monocultura de exportação e não para a agricultura familiar que alimenta o povo brasileiro.
Deixei o hotel, em jejum, ainda de madrugada. Tomei café puro gentilmente preparado pelo vigia noturno e caminhei até a estação rodoviária, ainda vazia.
O ônibus pequeno partiu com menos da metade da lotação. Passageiros subiam e desciam na beira da estrada. A lua cheia a oeste iluminava a paisagem do cerrado enquanto o clarão de luz começava a aumentar a leste.
E, afinal, não houve bloqueio algum por parte dos soldados do agronegócio. O dia clareava quando atravessamos Bonito, cidade coberta de pousadas, restaurantes, comércio disposto em ruas largas e extensas. Muito diferente de quando visitei a região onze anos antes.
Com palmeiras e matas ciliares, a paisagem dos campos de cerrado evoluía de relevo ondulado a levemente acidentado à medida que se aproximava a serra da Bodoquena. Pequenas elevações alongadas cobriam-se de vegetação de porte médio. Raríssimas plantações nas imensas fazendas. Emas circulavam livremente. A rodovia cruzava o pantanal em meio a campos, buritizais, canais alagados, com aves de diversas espécies e jacarés dormitando ao sol. O ônibus cruzou ponte extensa e elevada sobre o rio Paraguai na rodovia federal que nos levava a Corumbá. A estrada tornou-se sinuosa, o asfalto piorou, as serras erguiam-se em ambos os lados. Uma mineração de ferro instalara-se no meio das colinas.
Desembarquei na estação rodoviária de Corumbá no meio do dia. Coloquei a mochila nas costas e saí na procura de hotéis. Fazia calor, o sol torrava. Nem sinais do frio dos dias anteriores no sul do estado.
A maioria dos hotéis baratos do centro da cidade se instalava em prédios velhos e caindo aos pedaços, com corredores e quartos escuros, ausência de janelas, o mobiliário podre. Optei por um de quarto grande, com cama de casal, janela aceitável, banheiro que se ensopava durante o banho.
Esvaziei a mochila no armário sem prateleiras, gavetas ou divisões.
À noite fui direto me deliciar com pintado ensopado, saboroso demais, ricamente temperado. Para esperar, detonei duas caipirinhas bem preparadas, e para encerrar, me refresquei com refrigerante local, esverdeado, com aroma e sabor intenso de mate. O restaurante ficava instalado em casarão antigo, com pé direito alto e portas altas de madeira, diretamente na calçada. O senão ficou por conta do televisor ligado nas besteiras da rede monopolista. Ainda bem que encontrei mesa atrás de grossa coluna, imune àquele pesadelo.
Caminhei sem rumo pelas ruas do centro antigo de Corumbá, tomado de casarões, escadarias, bares surpreendentemente tranquilos. Lá embaixo, corria o rio Paraguai com dezenas de barcos atracados no cais. A calmaria predominava naquela noite estrelada.
De volta ao clima quente, finalmente. Calor, roupas leves, transpiração, gente nas ruas, alegria. Vida, muita vida!
Pela manhã me dirigi ao centro histórico, com a calma que ele merecia. Circulei pelas partes superior e inferior, interligadas por ladeiras e escadarias. Valia e muito a pena me deixar levar. Construções da virada dos séculos XIX para o XX, a maioria abandonada ou, principalmente, em restauração. A cidade baixa, com certeza, ficaria linda após o término da revitalização. Praças, largos, barracas, sob as sombras atraíam transeuntes, visitantes.
Embarcações atracadas de diversos desenhos e tamanhos, para passeios ou pescarias, esperavam os interessados para percorrer o rio Paraguai. As águas estavam altas e escondiam dezenas de bancos de areia. Na ponta da praça nova e alongada, casarões antigos se alinhavam ao pé do morro, agora ocupados por agências de turismo ou lojas de artigos regionais.
Sentei no banco da praça sob a sombra refrescante. Logo apareceu companhia. O senhor aposentado se instalou ao lado e começou a conversar, sobre tudo e todos, com jeito agradável e estimulante. No meio da conversa animada fui premiado com significativa cagada de pássaro alojado na árvore, me atingindo os cabelos e ombro. Aproveitei a mangueira de irrigar os jardins e me lavei do jeito que deu.
Especulei sobre roteiros de passeio nas redondezas. Os bloqueios nas estradas pelos soldados dos latifundiários esvaziaram Corumbá dos turistas e impediam o número mínimo para as saídas. Mas eu não podia reclamar. Era exatamente como eu queria encontrar a cidade.
Dois bares animavam a noite ao lado do hotel mais caro da cidade. Ao passar por entre as mesas da calçada, mulheres vistosas e em quantidade me lançaram olhares convidativos. Olhares profissionais. Não foi difícil compreender a situação e a intenção de se postarem ao lado de hotel, cujos hóspedes, para elas, eram todos ricos. As mulheres comuns de Corumbá jamais olhariam assim.
No mais, a cidade mergulhava em profundo silêncio.
Corumbá possuía traçado quadricular de ruas, paralelas e transversais ao rio Paraguai, algumas arborizadas, com poucas praças. Raros edifícios altos, casas geralmente no estilo das décadas de 1950 e 1960. Bolivianos e familiares compunham a maioria dos ambulantes da cidade. Ofereciam malhas, couros e bugigangas em geral, sobre as barracas ou em panos estendidos diretamente no chão da calçada. Os seguranças que protegiam as agências bancárias e os prédios públicos do centro portavam armas pesadas e pareciam prestes a atirar.
E seguiam os preparativos para o início do festival da América do Sul, previsto para daí a dias. A programação incluía apresentações musicais, exposições artísticas, ciclo de filmes, longas e curtas metragens, oficinas, cursos de artes e de cultura sul americana. Os organizadores montavam tendas e bancas na parte alta e baixa do centro da cidade. Ao lado do Porto Geral ergueram enorme palco em frente à extensa plateia cercada de tapumes.
Peguei ônibus em cujo ponto final eu atingi a fronteira internacional com a Bolívia.
Segui pé, passando sob o arco da alfândega do lado brasileiro. Cruzei ponte curta sobre córrego imundo. Margeei a alfândega boliviana e, finalmente, estava em solo boliviano. Não foi preciso apresentar passaporte ou qualquer outro documento. Os guardas de ambos os lados mal olhavam quem entrava ou saía. O barulhento trecho de cerca de cinquenta metros entre os dois postos de fronteiras cobria-se de poeira e sujeira. Entupia-se de motos, automóveis, caminhões, carretas pesadas.
Primeira vila boliviana após cruzar a fronteira, zona franca, Puerto Aguirre tornava-se paraíso de compras de brasileiros picados pelo consumismo compulsivo. Os olhos deles brilhavam. Corriam para cá e para lá, em meio às lojas e barracas, a fim de não deixar nada para trás. Entre os itens à venda predominavam roupas, lãs, tênis, calçados, casacos e artigos de couro.
Puerto Aguirre mais parecia periferia miserável de qualquer grande cidade. Pequena, empoeirada, comércio deplorável, suja, largada. Com canteiro central mal cuidado, a rua principal levava até a cidade de Puerto Suarez.
Numa esquina, presenciei choque entre moto com placa do Brasil e caminhonete com placa da Bolívia. O motoqueiro voou, rolou na pista, feriu-se levemente. Logo surgiu o policial boliviano, de óculos escuros. Parecia querer resolver o problema. Não fiquei para assistir o desfecho do impasse. Ao meu lado, durante a discussão do acidente, uma adolescente boliviana observava tudo. Graciosa, vestia saia bem curtinha, me sorrindo maliciosamente. A intuição me avisava que era hora de voltar ao Brasil.
O final de semana se aproximava, o calor aumentava, a noites traziam mais corumbaenses para as ruas, bares, restaurantes, praças. Mas a maior parte da cidade e das casas ainda mergulhava no silêncio.
Invariavelmente, em todas as manhãs, as funcionárias do hotel espremiam laranjas no aparelho elétrico. Imaginei que se tratava de reposição para a mesa do café da manhã daquele mesmo dia. Mas não. Elas guardavam o suco em imensas panelas abertas na geladeira e somente o serviam nos dias seguintes. Daí o gosto de velho e passado. A ordem para tamanha estupidez naquele hotel vinha dos donos catarinenses?
O dia amanheceu nublado, com nuvens escuras, carregadas. A frente fria acompanhada de chuvas atingia Corumbá.
Decidi reservar a última noite no melhor restaurante da cidade, o que servia comida primorosa. Mas os preços, em poucos dias, subiram consideravelmente. O Festival de Cultura iniciava e trazia consigo a sede de lucro fácil. Os fregueses que se danassem. Mas a qualidade da comida mantinha-se impecável. A pimenta no ponto certo realçou o sabor do pintado ensopado sem mascará-lo. Nem o televisor, para o qual os bovinos dirigiam os olhares, ofuscou o prazer de comer e beber bem.
Na mesa ao lado, uma morena estonteante brilhava no ambiente. O proprietário da beldade, sentado ao lado dela, ostentava todo o machismo regional. E ela se submetia calada, de cabeça baixa. O predador comia com a mão direita e enlaçava a presa com a esquerda, bem apertada, a fim de demonstrar a todos que ele era o dono, de papel passado e tudo mais. Talvez até trouxesse a nota fiscal de aquisição no bolso da camisa. Por mais que conhecesse os meandros do machismo brasileiro, não dava para engolir tamanha submissão e humilhação. Mas a história ensinava, no entanto, que eram justamente naqueles casos que mais ocorriam as puladas de cerca. Não faltariam “ricardões”, sempre ternos, carinhosos e compreensivos, para consolar e marcar presença. O corno manso, o grande macho, claro, continuaria a apertá-la durante as refeições e nas aparições públicas do casal. Afinal, a mulher pertencia a ele, somente a ele. Ora, pois!
Na saída, o casal subiu em caminhonete típica dos fazendeiros regionais, tão grande que mais parecia iate. O machão e a mulher submissa. Mas só dele!
Empurrei o último café da manhã, sem ao menos tentar o suco de laranja vencido. Não suportava o barulho sem fim dos espremedores elétricos, nem assistir às cozinheiras guardarem os sucos frescos na geladeira enquanto os hóspedes se sujeitavam a beber aquela droga feita dias antes.
Caminhei até a estação rodoviária. Cheguei cedo demais. Fiquei mais de uma hora encolhido de frio, tentando me proteger do vento cortante que passava por toda a estação.
O ônibus partiu no horário com metade da ocupação. Logo começou a chover.
Como normalmente ocorre nas vias que saem de fronteiras internacionais, a Polícia Federal parou o ônibus para fiscalização logo nos primeiros quilômetros da estrada. O fiscal entrou e analisou os passageiros. Escolheu um boliviano, uma moça carregando o filho pequeno e eu. Tivemos que desembarcar e, enquanto três fiscais vasculhavam as bagagens, o chefe nos despejava várias perguntas para sondar terreno. Lia o nome na carteira de identidade e checava no celular se havia algo contra. Foram até simpáticos, olhando tudo, detalhadamente, com calma. Com a bagunça formada de todas as minhas coisas espalhadas no chão, fui convocado para colocar tudo de volta. Havia espaço interno na mochila e não me preocupei em caprichar no arranjo.
E nem adiantaria.
Uma hora depois, novo bloqueio, nova fiscalização. Desta vez da Polícia Rodoviária Federal. As cenas se repetiram. Além dos três sorteados da primeira fiscalização, também foi escolhido um casal jovem.
Chovia e os policiais me solicitaram para levar a mochila sobre a mesa da sala coberta. Vasculharam mais uma vez os itens da mochila. Verificaram meus documentos e checaram-nos no computador contra o cadastro de pessoas procuradas. Repetiram a operação com o nome da minha mãe.
No banco do outro lado do corredor do ônibus, perto de mim, uma senhora viajava com diversas sacolas e malas sob os pés. Ela nem quisera transportá-las no bagageiro do ônibus. Os fiscais jamais a convocaram para abrir as bagagens ou a responder perguntas.
Amanheceu céu azul e limpo no interior de São Paulo. O nascer do sol, à esquerda, impressionou pelo brilho forte e alaranjado.
Desembarquei pela manhã no terminal rodoviário da Barra Funda, nos finais de maio. As nuvens reapareciam no céu.
A cidade ainda se calava, assustada, com a onda de atentados atribuídos ao PCC dias antes. E, nos dias seguintes, mais de quinhentas pessoas, isso mesmo, quinhentas pessoas, a maioria jovem e sem antecedentes criminais, seriam executadas sumariamente pela Polícia Militar, sem direito a julgamento, sem acusação, sem provas, sem motivos, somente por serem pobres e moradoras das periferias de São Paulo.