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quinta-feira, 6 de outubro de 2022

de Goiás ao Piauí (via GO, MT, TO, BA, PE, CE, PI) (parte 1/7)

Depois de mais de dois anos de castigo em São Paulo, por conta da pandemia de covid-19, embarquei naquele mês de abril no terminal rodoviário do Tietê com destino a Goiás.

Eu e apenas cinco passageiros do ônibus usavam a máscara facial. Pouco ou nada valia a recomendação do motorista que a pandemia ainda não acabara e que era preciso se prevenir. Por outro lado, a maioria deles entrava em paranoia para tentar recarregar os celulares, a fim de usá-los para absolutamente nada de importante ou urgente, a não ser se rastrearem orgulhosamente.

A trintona sentada ao meu lado, goiana de Anápolis e moradora em São Paulo, separada com filho adulto, voltava de férias à terra natal. A baiana, a trabalho em Laranjal Paulista, onde vivia com o pai da filha de três anos, mas cansada da vida conjugal, estava literalmente fugindo, mais a filha, para a casa dos pais no interior baiano. Escolhera itinerário estapafúrdio, talvez para despistar o companheiro, via dois ou três transportes em dois dias de travessia.

O ônibus encerrou o trajeto em Anápolis na tarde do dia seguinte. Atravessei a avenida para comer algo substancial e, principalmente, fugir da rodoviária da cidade, construção enorme, vazia, abandonada, decrépita, deprimente, com lanchonetes às moscas, todas de péssimo aspecto.

Subi no final da tarde no segundo ônibus, desembarcando pouco depois em Pirenópolis.

À noite, caí na tal rua do lazer da cidade, composta de fileiras de restaurantes em ambos os lados, com música ao vivo, e garçons que disputavam, ainda que suavemente, os poucos turistas daquela noite de começo da semana. A maioria das opções gastronômicas abria as portas somente de quinta a domingo.

Pirenópolis encantava pela beleza do casario do século XIX e início do XX. Becos e ruas calçadas de pedra, igrejas e capelas antigas, detalhes em portas, janelas, escadinhas de acesso à entrada principal da construção. Tudo bem conservado, pintado de novo, de bom aspecto, pelo menos externamente. Praticamente ninguém de máscaras faciais contra a covid-19, nas ruas, comércios, restaurantes, etc. A iluminação noturna da cidade pouco iluminava e aumentava o charme do centro histórico.



A seleção musical durante o café da manhã da pousada, se não era na base do lixo sertanejo, tão marcante em Goiás, se restringia a sucessos da indústria cultural estadunidense dos anos 1990. Música brasileira, a rica e diversa música brasileira, nem pensar por ali.

Painéis turísticos da cidade de Pirenópolis divulgavam o chamado “Caminho de Cora Coralina”, que percorria cidadezinhas e vilarejos, entre Pirenópolis e a cidade de Goiás, por estradas vicinais, afastadas das rodovias estaduais e federais, nem sempre asfaltadas. Ótima pedida para se embrenhar pela história dos sertões do planalto central.

Depois da última rua calçada da cidade peguei a estradinha rumo à cachoeira do Bonsucesso. Percorri algo como dez quilômetros entre ida e volta. Não cheguei a entrar na propriedade privada, nem avistar a queda d’água. Para isso eu teria que desembolsar valor abusivo. Atração natural em propriedade privada dá nisso. A caminhada em si valeu pelo esforço físico. Ao cruzar com veículos, na maioria aqueles escabrosos SUV’s, meros símbolos de ostentação e poluentes ao extremo, a poeira subia e impregnava na pele, roupas, calçados e, principalmente, boca, nariz e pulmões.

Durante a leitura da extensa antologia de contos e crônicas de Luiz Fernando Veríssimo, me deparei com o conto A Mancha, escrito na primeira década do século XXI. Talvez o texto mais longo dentre os presentes no livro. Mas que conto! Impressionante. Aterrador. Nada daquele humor tão típico e delicioso do autor. Mas que conto! Li quase sem respirar, de queixo caído, de ponta a ponta. Texto para ler e reler, incontáveis vezes.

Se durante o dia a culinária goiana praticamente inexistia nos cardápios dos restaurantes de Pirenópolis, à noite esse quadro se agravava. À exceção dos pontos do tradicional empadão goiano, estabelecimentos pequenos, e alguns em processo de fechamento das portas, nada da rica culinária regional para o jantar. O que se via eram cardápios paulistanos, cobrando preços paulistanos.

Cidade bonitinha, mas ordinária. Em vez do visitante se adaptar a ela, era ela que se submetia aos supostos gostos dos visitantes. Completamente o inverso do desejável. A indústria do turismo predatório ia muito bem, obrigado.

Mandei às favas os restaurantes pretensiosos, com cardápios pretensiosos, servindo pouca comida a preços astronômicos. Fui de empadão goiano e suco de caju. O empadão, do tamanho de um prato de sobremesa, vinha recheado de tudo e mais um pouco, carnes de boi, carnes de frango, carnes de porco, azeitonas, batatas, legumes, tudo junto e misturado no mesmo empadão. Popular em Goiás era acrescentar a guariroba, espécie amarga de palmito. Paguei pouco e comi bem comida tipicamente goiana.

Pirenópolis começava a encher de turistas de fim de semana. Desfiles de SUV’s e caminhonetes cabines-duplas pelas ruas. Nas mulheres, roupas novas, cheirando a guardado, espalhafatosas, destaque especial aos saltos-agulha, apropriadíssimos para aquele calçamento de pedra irregular. Casais, muitos casais, famílias, grupos de amigos, raros os sozinhos ou as sozinhas.



Parti de Pirenópolis no ônibus bem cedo. Desci na rodoviária de Goiânia, de onde embarquei no segundo ônibus.

No trajeto rodoviário pela BR-070, paradas em Inhumas, Ituaçu e Itaberaí. Nas imediações dessa última, típico cenário do capitalismo agrário nos interiores do Brasil. Monoculturas de milho e laranja, usando e abusando de agrotóxicos, imensos rebanhos de gado, granjas gigantescas. Quem mandava por ali, feito coronel das antigas, era o dono de tudo, até dos seres humanos. Praticamente toda a população da cidade, direta ou indiretamente, trabalhava para empresas agropecuárias do grupo dele. Por conta dessa dependência explícita de somente um grupo empresarial, a cidade se espalhava ao longo da BR-070 numa concentração urbana repugnante, desumana, sem nenhuma qualidade habitacional ou de serviços para a população. Funcionava apenas como depósito de gente.

A passageira piauiense ao meu lado enalteceu o figurão, afirmando de boca cheia que a empresa fornecia vale-refeição e cobria tratamentos médicos e odontológicos. Mas essas não eram obrigações do empregador e direito dos empregados segundo legislação da CLT, em vigor havia mais de setenta anos e que o então regime federal fazia tudo para destruir? Há quatro anos radicada na cidade, atuando como empregada doméstica nas mansões dos donos do lugar, ela desembarcaria em Itapirapuã para visitar parentes e comparecer a ações judiciais que movera contra empresa de transportes. Quatro meses antes, o ônibus em que ela viajava quebrou e passou doze horas parado no meio do nada, sem água, sem comida, sem hospedagem, sem qualquer tipo de apoio ou orientação.

Desembarquei na cidade de Goiás no começo da tarde. Me hospedei de frente para o rio Vermelho, para a velha ponte de madeira e para o museu Cora Coralina, antiga residência da poeta que nasceu e viveu na primeira capital do estado de Goiás. Mais adiante, o casario colonial, os telhados dos sobrados, a serra ao fundo.

Com o sol mais baixo e o calor suportável, saí às ruas. Logo de cara, paixão à primeira vista pela cidade de Goiás, pelas ruazinhas e becos, pelo casario bem conservado, pelas construções maiores dos tempos de capital do estado, pelas pitorescas praças, pelo silêncio bucólico de fim de tarde de sábado. E pela simpatia espontânea dos moradores e visitantes esparsos. Radical e deliciosamente diferente do agito turístico de Pirenópolis. Goiás era bem mais bonita, mais ampla, mais acolhedora, mais charmosa, mais discreta, mais tudo.

Uma cavalgada teve início numa das praças, talvez a maior delas, em terreno extenso e inclinado. O evento trazia o patrocínio de parlamentares da região. A bandeira do Brasil no ombro dos cavaleiros indicaria a coloração política dos líderes do evento?

Saboreei sorvete de cajá, empadinha, café preto. Arrisquei perambuladas pela beira do rio Vermelho, antes e depois do busto e estátua de Cora Coralina. Havia outros visitantes por ali. Afinal, era tarde de sábado ensolarado. Nada a ver, porém, com o turismo massificado de Pirenópolis.

Saí para jantar em restaurante na praça do coreto. Som ao vivo na base de voz e violão interpretando canções brasileiras de qualidade. Destaque para o suco de cagaita, fruto típico do cerrado. E me sentei sob as árvores, ao lado da praça e de construções históricas imponentes, com vista para ruazinhas e becos charmosos, da iluminação noturna amarelada, do vaivém pequeno e discreto de pedestres e veículos.



De estômago cheio, circulei por outras ruas, vielas e praças. A maioria vazia, silenciosa, atraente, somente sob o som dos meus passos. Num sábado à noite estrelado, a cidade histórica e famosa, antiga capital do estado, não perdia a atmosfera tranquila e bucólica.

Pela manhã circulei por todo o centro histórico e mais um pouco. Bem conservado, bonito, tranquilo, silencioso. Poucos turistas. Nenhuma aglomeração. Visitei a casa, então museu, onde nasceu, viveu e morreu Cora Coralina. Singelo e comovente.

Me intrigava a enorme quantidade de casas, dentro do centro histórico, sem moradores, desabitadas, sem sinais de vida interior. Embora bem conservadas, pelo menos externamente, não tinham vida. Não por acaso, andar pelas ruas do centro antigo de Goiás primava pelo silêncio, não o relativo, mas o silêncio absoluto.

Almocei nos interiores do antigo mercado municipal. Pequenos restaurantes ofereciam comida simples e barata. Duas rodadas de sorvete na praça do coreto e me senti bem alimentado.

Encerrei a extensa antologia de contos e crônicas de Luiz Fernando Veríssimo, chamada Veríssimo Antológico. Subdividido cronologicamente conforme as décadas de edição dos textos, mais me atraíram os dos anos de 1980 e os da primeira década dos anos 2000.

Fazendo jus ao ano eleitoral em que o Brasil se encontrava, com previsão de arbitrariedades e violências de todos os tipos, e nada de debates politizados em torno de projetos para o país, ainda mais pelos nossos interiores, selecionei a releitura de Vila dos Confins, de Mário Palmério.

Mais voltas pelo estupendo centro histórico da cidade de Goiás, deliciosamente quieto e charmoso sob a iluminação pública amarelada. Atravessei o rio Vermelho e rodeei a igreja do Rosário, saboreando cada recanto, cada esquina, cada porta, cada janela, cada telhado.

Baixei de manhã bem cedo na rodoviária e embarquei rumo ao Mato Grosso.

A paisagem, em declive e com algumas sinuosidades, revelava cerrado esverdeado, rara e esparsamente ocupado por pastagens de gado. Paradas regulamentares em Itapirapuã e Jussara, cidades feias, espalhadas e sem cara de nada. A partir daí o relevo se tornou ondulado e os pastos para gado bovino e as monoculturas extensivas de milho, de soja, de capim, de cana-de-açúcar, entupidas de agrotóxicos, imperavam sem dó nem piedade. Gigantescos silos de armazenamento das colheitas compunham cenários apocalípticos à paisagem rural. O quadro se agravava nas imediações de Montes Claros de Goiás.

Na parada para o almoço, junto ao motorista do ônibus, arrisquei bufê com preço fixo, pois, segundo o malandro dono do estabelecimento, a balança estava quebrada. Nos pratos esvaziados pelos famintos passageiros notei vários pequis, limpos, raspados corretamente com os dentes e a língua, mas jamais mordidos a fim de evitar os terríveis espinhos do núcleo do fruto.



O relevo prosseguia em declive suave. Serrotes isolados se erguiam no horizonte. No começo da tarde, logo após a cidade de Aragarças, o ônibus atravessou a ponte sobre o rio Araguaia, divisa dos estados de Goiás e Mato Grosso e, em seguida, a ponte sobre o rio das Garças, já em território mato-grossense.

Me hospedei em quarto de hotel cujas janelas se voltavam para dentro, para o poço central do edifício. Ainda bem. Barra do Garças se notabilizava pela poluição sonora de veículos, sobretudo ao longo da avenida/estrada que corta toda a cidade, atravessa as duas pontes e atinge Goiás. Infinidades de carretas-duplas, os bitrens, transportavam soja dos interiores mato-grossenses em direção ao longínquo porto de Santos. E retornavam vazias. Num país sob a ditadura do transporte rodoviário, e das monoculturas extensivas para exportação, os produtos agrícolas, envenenados de transgenia e agrotóxicos, percorriam distâncias imensas pelas rodovias brasileiras. Cenas de país meramente exportador de produtos agrícolas e minerais.

E fui à volta de reconhecimento na única parte interessante naquela cidade agropecuária, nas margens dos rios das Garças e Araguaia. Neste, na margem goiana, apareciam esboços de praia naquele outono, início da estação seca.

Atravessei ambas as pontes a pé, observando as margens, o fluxo das águas fluviais, o vaivém das carretas-duplas, a vida pulsante e agitada nas duas cidades ribeirinhas. De tédio ou melancolia ninguém padeceria por ali. Indígenas da etnia Xavante, semelhante aos avistados na cidade de Goiás, circulavam se comunicando na língua original.

Na margem mato-grossense, praças e áreas públicas largadas às intempéries, inacabadas, arrebentadas, ocupadas por moradores de rua e afins. Bares e restaurantes, porém, abundavam por todos os cantos, com direito a putas perambulando ou atuando junto aos inseparáveis celulares. Ao som de músicas sertanejas em volumes ensurdecedores, o solo trepidava no estilo bem centro-oeste, na base de ostentação das quadrilhas do capital agrário. Como se isso não bastasse, em volumes ainda mais altos e graves, veículos desfilavam pelas ruas, repletos de caixas de som, tremendo tudo e todos. E era apenas começo de noite de terça-feira útil.

continua...

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Gerais de Minas e Bahia (parte 2/4)

...continuação
Buritis ficava entre serras alongadas, bem urbanizada e arborizada, mais com cara de centro-oeste do que interior mineiro. O rio Urucuia banhava a parte norte da cidade. Barcos nas margens indicavam maior relação da população com o rio. A somente quatro horas de ônibus de Brasília, a cidade respirava o planalto central e exibia jeitão goiano. A maioria das placas dos veículos era de Brasília, para onde partiam inúmeros ônibus da rodoviária. Apresentava comércio intenso e diversificado de insumos, máquinas e implementos agrícolas, materiais de construção, madeireiras, revelando o perfil agropecuário da região. A cidade vivia para o agronegócio, o que se comprovava pela presença de transnacionais de sementes, agrotóxicos, maquinários.
O ônibus lotou ainda na zona urbana, levando alguns infelizes a se segurarem de pé pelo corredor central do ônibus. O trajeto se estendeu em verdadeira e excitante estrada de terra, quase sempre estreita, com a vegetação esbarrando nas janelas do ônibus, subidas e descidas, curvas acentuadas, tendo as serras em ambos os lados, pontes frágeis de madeira sobre dezenas de rios e riachos, inclusive o próprio Urucuia. A poeira cobria tudo, olhos, boca, nariz, a cada cruzamento com outros veículos. O ônibus se deparou com carros de boi, um deles puxado por oito animais. Em outro pedaço, vaqueiros conduziam o gado, obrigando o ônibus a parar rente ao barranco, esperar a boiada passar calmamente, sem estouros ou sustos maiores. Inúmeros desembarques em caminhos laterais e porteiras de vastas fazendas de gado, onde passageiros eram recepcionados pela família e pelo providencial carrinho de pedreiro para carregar as malas. O ônibus parou em dois vilarejos para descanso, matar a sede, tirar água do joelho, lavar rosto e braços cobertos da poeira acumulada. Santa Inês, o primeiro, já se chamou Passa Três. Goiás-Minas, o segundo, se erguia sobre a divisa entre Minas Gerais e Goiás.

Apenas três passageiros permaneceram até o fim. Na mesma rua principal de Formoso onde o ônibus estacionou, entrei no hotel cujo dono me entregou a chave do quarto, me apontou o acesso e voltou para o sofá da sala. As várias portas do hotel para a rua jamais se fechavam. Não havia porteiro. A cidade não oferecia riscos.
Retirei outro carrapato, oriundo das trilhas pelo parque nacional Grande Sertão Veredas.
Na manhã seguinte caminhei pelas estradas de acesso e pelas ruas e pracinhas da cidade, levemente inclinada rumo à vereda ao norte, já quase na divisa com o estado de Goiás. Raras casas antigas ou velhas, ruas novas e arborizadas, pequeno comércio, bares e lanchonetes na rua principal. Formoso era ideal para parar, relaxar, puxar assunto com os moradores, deixar o tempo passar sem pressa, tomar cachaças de primeira. E o hotel, sem o dono ou qualquer funcionário, se mantinha de portas abertas, permitindo o acesso a todos os interessados e curiosos.
Após o almoço me recolhi ao hotel a fim de, acompanhando boa parte dos formosenses, fazer a sesta como se deve.
Bem cedo deixei a chave na porta do quarto, não acordei ninguém e andei até o ponto de partida do ônibus. Durante o embarque, um rapaz mudo, popular na cidade, morador de Brasília, descrevia do jeito que podia as aventuras sexuais durante o fim de semana. Com ruídos guturais, gestos com as mãos, trejeitos e caretas, entrava em detalhes da abordagem, das danças, dos abraços e beijos. Os passageiros prestavam atenção com curiosidade.
O veículo saiu lotado com passageiros em pé, que logo desembarcariam para serem substituídos por novos, também de pé, espalhados ou esmagados pelo corredor central. De vez em quando eu ouvia os gemidos do mudinho sentado mais no fundo, provavelmente continuando as descrições das cenas picantes com as paqueras. Logo após a partida entramos em Goiás, em Sítio d’Abadia. As cidadezinhas começaram a aparecer, invariavelmente pequenas, arrumadas, limpas. Ao redor, o cerrado e fazendas de gado.

Após parada em Mambaí, desembarquei na rodoviária de Alvorada do Norte à espera do segundo ônibus. Belisquei qualquer coisa e esperei sentado nos bancos de cimento da estação. Aproveitei para observar os dormitórios nas imediações, dos quais saíam casais ou mulheres com pouca roupa e muita maquiagem.
O ônibus partiu e logo parou para almoço em restaurante sujo na divisa entre Goiás e Bahia. Optei por meia dúzia de bananas maçã, oferecida logo na entrada. Eu e muitos passageiros nos indignamos com a cobrança pelo uso do banheiro local e utilizamos o do ônibus mesmo.
Já na Bahia, a rodovia subiu a serra, em cujo alto, ao longo do chapadão, entrou novamente no sinistro e assustador mundo do agronegócio, desta vez no sudoeste baiano. Monoculturas sem fim e sem trabalhadores rurais, devastação total do cerrado, trechos com eucaliptos ou pinus, enormes galpões de metal, propagandas de transnacionais como Bunge, New Holland, Syngenta, entre outras, além de anúncios de agrotóxicos de vários tipos. Quase não se viam pessoas, tudo mecanizado e apenas o mínimo do mínimo de mão de obra. Os duzentos quilômetros do ramal para Correntina se mostraram de uma monotonia sem igual. Monoculturas de ambos os lados, deserto humano, tristeza e desolação. Nenhuma cidade ou vilarejo. Nada. Somente pouco antes da chegada o cerrado voltou a predominar, com vegetação retorcida e de pequeno porte.
O quarto da pousada em Correntina estava infestado de nuvens de muriçocas. Pó preto se acumulava nos cantos do piso decorrente de fissuras nas paredes. A pia do banheiro estava entupida. A ducha do chuveiro espirrava água para todos os lados, menos para baixo. Coloquei o repelente de tomada e não surtiu efeito. As muriçocas reinavam absolutas no quarto e no banheiro. Mantive as janelas fechadas, o ar condicionado ligado, o repelente na tomada, e saí para dar uma volta.
Os fundos da pousada davam para a margem do rio das Éguas, com corredeiras, pedras, curvas, correnteza forte, belíssimo naquela luz de fim de tarde. Não poderiam faltar os bares na beira com direito a som alto de música para lá de descartável. Em competição, veículos estacionados detonavam, dos alto-falantes instalados nos porta-malas abertos, mais lixo comercial. Pessoas se banhavam nas águas entre as pedras. Lavadeiras esfregavam e enxaguavam roupas. Os mais chapados requebravam o esqueleto, dentro e fora d’água.
A frente da pousada dava para a praça da Matriz, atrás da qual subiam ruazinhas estreitas, casario antigo, tudo em terreno inclinado, morro acima. Ali Correntina era mais calma, mais humana. Troquei frases com morador histórico da cidade, de mais de 80 anos de vida, cheio de “causos” para contar, desde a emancipação do município, os garimpos de ouro, os indígenas, os animais de caça. Muito simpático e falante, rendeu bons momentos de aprendizado sobre a cultura local naqueles dias.
E enfrentei novamente a nuvem de muriçocas no quarto do hotel. Voavam e esbarravam em mim, mas até aquele momento ainda não tinham me picado. Cheguei a me barbear, lavar roupas, tomar banho, e nada de ataques.

Correntina acalmou-se assim que escureceu. Os bares na beira do rio fecharam, os veículos de porta-malas abertos debandaram, o local se esvaziou tornando-se mais bonito, apenas com o som das águas agitadas do rio das Éguas. As ruazinhas estreitas e inclinadas nas imediações da praça da Matriz ficaram desertas, valorizando o casario, os becos, o conjunto arquitetônico.
Refrescou durante a noite, mas as muriçocas permaneceram no quarto. O incrível é que centenas delas, que sobrevoavam o quarto e o banheiro, ou simplesmente estacionavam nas paredes e teto, não me picaram. Aproveitei para abrir todas as janelas e assistir algumas debandarem para o frio da madrugada.
A sonoplastia da casa vizinha, naquele início da manhã, vinha de legítima música caipira da estação de rádio local. Era o oeste baiano que, assim como os mineiros do noroeste, os gerais de ambos os lados da fronteira estadual, giravam em torno da cultura goiana e brasiliense.
Caminhei bastante pelas margens esquerda e direita do rio das Éguas. Parte pelo estreito calçadão, por onde os moradores circulavam em passeios ou em exercícios físicos, parte pelas trilhas no meio da mata ciliar. O rio era deslumbrante. As águas cristalinas, as corredeiras, as pedras, as pequenas quedas d’água, as minúsculas enseadas. Em ambas as margens, de maneira esparsa, lavadeiras, acompanhadas ou não pela família, faziam o serviço diário. As águas límpidas eram um convite a entrar, mergulhar, ouvir o som da correnteza, aqui ou ali, bastando escolher o ponto favorito.
Pena que rio acima surgiam cercas de propriedade privada impedindo o acesso público. Pelos mapas, o rio das Éguas nascia acima da zona de monoculturas das transnacionais do extremo oeste da Bahia. Ao utilizarem agrotóxicos, desmatarem o cerrado, introduzirem plantas exóticas na região, como eucalipto e outras espécies plantadas, como ficaria o impacto socioambiental no rio das Éguas, nos demais rios e riachos que correm no mesmo sentido, todos desaguando no São Francisco? Como estariam as comunidades que vivem das águas e dos peixes dos rios?
Na região do mercado municipal, mais moderna, mais movimentada e mais feia que o centro antigo, além dos produtos tradicionais vendidos, bancas ofereciam almoço com churrasco grelhado na calçada.
Consertei o entupimento na pia do banheiro do quarto do hotel, retirando o excesso de cabelos acumulados há tempos. A moça da limpeza lavou o chão e os móveis, deixando o ambiente mais apresentável. O chuveiro, no entanto, continuava péssimo. Tentei desenroscar a tampa de baixo para limpá-lo, mas nem se moveu. As muriçocas, em menor quantidade, pela limpeza, pela utilização do quarto, pelas janelas abertas, continuavam presentes, voando, pousando, e nada de picadas.
À tarde escolhi pequena enseada na margem direita do rio das Éguas, a montante da última passarela, e me deixei ficar ali, entre mergulhos, relaxadas sobre a pedra arredondada, com os pés submersos, até o sol se esconder atrás das árvores da margem oposta.
Degustei suculenta moqueca de pescada amarela, precedida de duas doses de cachaça artesanal, e sucedida pela jarra de suco de graviola, no próprio restaurante da pousada. O dono tinha a mania de colocar sempre o mesmo CD de cantor brasileiro interpretando canções italianas. E tocava dezenas e dezenas de vezes.
Os bares na beira do rio fechavam à noite, pelo menos durante os dias de semana. Caminhar por ali nesse horário era estonteante. O rio das Éguas corria quase no mesmo nível da rua, emitindo o som relaxante das águas agitadas. O céu estrelado, o cheiro de natureza, nenhum outro som vindo da cidade, pouca luz. Eu adorava permanecer ali, sobre uma das passarelas, bem no meio dela e relaxava, relaxava, relaxava...
Nas trilhas e minúsculas enseadas à montante, encontrei concentração de embalagens de camisinhas. Os casais sabiam muito bem aproveitar a vida, escolhendo a dedo o local do amor. Só faltou levar o lixo de volta.
Escolhi prainha do rio das Éguas, com sol e grandes pedras sob a sombra, para me refrescar nas águas frias da manhã. Assim que eu punha o corpo ou simplesmente os pés dentro da água, peixinhos logo me rodeavam. Alguns só me observavam, outros tocavam, os mais ousados, ou as mais ousadas, me beijavam, mordiam.

E começaram a chegar os turistas de fins de semana para lotar os hotéis e pousadas, em carros com placas da região, mas principalmente de Brasília. Casais, grupos e famílias prometiam agitação. E eu, nada interessado nisso, muito pelo contrário, em busca da tranquilidade dos últimos dias do meio da semana, me preparava para partir na manhã seguinte. Bares, fechados durante a semana, abriram, plantaram imensas caixas de som na porta, e dá-lhe lixo comercial baiano.
Ao acordar, ainda sob os lençóis, com a ampla janela aberta sobre a cabeceira da cama, fui presenteado pela entrada de um beija-flor. Batendo velozmente as asas, parou no meio do quarto, observou todo o ambiente e, segundos depois, disparou voando para fora.
Mesmo eu melhorando bastante a qualidade do quarto, entre pequenos consertos, com a entrada de luz e ventilação permanente, o problema da pousada residia no desleixo do arrendatário. Embora de família ligada ao ramo de hotéis e restaurantes em outras cidades, ele não se incomodava com o estado do estabelecimento e culpava os funcionários por tudo. Ainda reclamava que nada tinha para fazer, que o tempo demorava a passar. E se criara em Salvador e passara anos em Goiânia, cidades tradicionais no ramo hoteleiro.
O sujeito me contou como grande proeza ter tomado anabolizantes na adolescência quando começou a praticar musculação em academias de Salvador. Os músculos do braço e do antebraço cresceram mais de dez centímetros em apenas dois meses. Afirmou que na época costumava ter ataques de calor, suor constante, avermelhamento do corpo, taquicardia, tonturas. Garantiu que há anos não ingeria aqueles produtos tóxicos, mas, embora em menor grau, os efeitos colaterais assustadores continuavam e preocupavam.
O ônibus partiu quase vazio para Santa Maria da Vitória, onde embarquei em outro veículo que, via asfalto para lá de esburacado, ao lado de caatinga ou de cerrado, me deixou em Cocos.
continua...

domingo, 10 de outubro de 2010

do Acre à Bahia (parte 1/7)

Depois das explorações em viagens anteriores nos vales dos rios Purus, Negro, Juruá, Solimões, Amazonas, parte dos rios Tapajós, Xingu, Tocantins e Araguaia, optei por roteiro menos ambicioso na Amazônia para aproveitar melhor o nordeste do Brasil.
Escolhi a via rodoviária para chegar a Rio Branco no Acre. O ônibus partiu em abril, com espaço suficiente para me esticar nos bancos anatômicos. À medida que avançávamos pelo sul de Goiás cresciam as extensões de monocultura, sobretudo de soja. Acampamentos de trabalhadores rurais sem terra sucediam-se nas margens da rodovia, com coberturas de plástico preto, em meio a muita precariedade e abandono. O ônibus cruzou a ponte sobre o estreito rio Araguaia, que, pela proximidade da nascente, as águas transparentes corriam sobre lajes de pedra entre barrancos íngremes, de Santa Rita do Araguaia a Alto Araguaia. A monotonia das monoculturas para exportação se intensificou no Mato Grosso. O descaso com os trabalhadores rurais sem terra também.
O traçado da estrada tornou-se sinuoso na descida do planalto central, por entre chapadas e morros. Amanheceu cinzento em meio a terras desmatadas e não cultivadas do norte de Mato Grosso. Na fronteira com Rondônia, o enorme cartaz alardeava a frase “Bem-vindo ao estado com o maior crescimento de rebanho bovino do Brasil”. A paisagem nos lados da rodovia permanecia plana, desmatada, não cultivada. As cidades, planejadas, tristes, empoeiradas ou enlameadas, desagradavam. E a BR-364 continuava esburacada e cheia de caminhões.
Parada no posto fiscal e de vacinação contra a febre amarela na fronteira do Acre. Chegada a Rio Branco, a segunda maior cidade cearense do país, mais de sessenta e três horas após a partida de São Paulo. A viagem de ônibus, no entanto, foi tranquila, e almocei e jantei comida de verdade em todas as paradas.
Estava na Amazônia, mais uma vez, e animadíssimo para percorrê-la.

O Museu da Borracha, apesar de modesto, interessou para conhecer mais sobre os povos indígenas, a história da Acre e da borracha, evidências pré-históricas e até sobre a seita do Santo Daime.
Segunda-feira à noite com ruas vazias em Rio Branco. Mesmo assim passei boas horas no restaurante do Parque da Maternidade. Havia som ao vivo suave, na base de voz e violão. Observei moradores caminhando pelas pistas.
A funcionária do hotel acordava às 4h e sempre saía após o horário normal de trabalho. Recebia somente um salário mínimo, e com atraso. Separada do ex-marido agressor, ela alugava casa de madeira, com apenas um cômodo, banheiro externo e sem água encanada ou rede de esgotos. Recebia pensão do ex-marido de duzentos reais para os dois filhos. Não completou o primeiro grau e não conseguia arranjar outro emprego, a única maneira de dar mais atenção aos filhos e voltar a estudar. De tão cansada, dizia não se aguentar em pé depois das 20h.
Os acreanos, com grande autoestima, orgulham-se da história do estado, da independência da Bolívia, a passagem para o Brasil através da revolução acreana nos anos de 1902 e 1903. Enalteciam o movimento autonomista que levou a transformação do antigo território do Acre em estado no ano de 1962. Os povos originários contavam com 28 territórios demarcados e regularizados no estado. A maior concentração populacional era a Kaxinawa, do alto rio Purus. Os Ashaninka, do alto rio Juruá, usavam túnicas de algodão, bolsas e chapéus de palha, ocupando regiões de temperaturas mais amenas que se estendiam ao Peru. Os Hikawa tiveram as estampas pintadas e desenhadas em camisetas no exterior.
O ônibus chegou ao anoitecer em Assis Brasil, região da tríplice fronteira Brasil/Peru/Bolívia. A cidade era pequena, calma e com simpática praça, para onde muitos afluíam ao anoitecer.
A região amazônica carece de rochas, pedra e brita para construção. E no Acre a situação era crônica. As casas eram de madeira, o calçamento de muitas ruas de tijolo. Além de bonito, funcional, fresco, absorvia as águas da chuva.
A travessia das fronteiras do Peru e da Bolívia era efetuada pelo rio Acre em pequenas catraias. No lado peruano, o barranco enlameado, uma ripa de madeira sob o toldo de plástico preto, nenhum controle ou fiscalização. Iñapari, cidade com poucas ruas, prédios públicos caindo aos pedaços, casas de madeira, a estrada de terra que seguia para o horizonte e, apesar de menor, contando com praça mais ampla e bonita que a de Assis Brasil.

Retornei ao lado brasileiro para cruzar o rio Acre novamente. Acertei com o catraieiro de me buscar assim que eu reaparecesse na margem boliviana. Lá, três barracas vendendo variedades e o cartaz com as cores da bandeira nacional da Bolívia. Segui na trilha pelo mato. Nenhum ser humano ou sinal que cruzara a fronteira. Mais adiante avistei a bandeira boliviana hasteada. Entrava na vila de San Pedro de Bolpebra. Não havia mais que dez construções de madeira, a escola, o posto policial, em meio ao mato baixo. Dei meia volta, acenei para o catraieiro e voltei às ruas de Assis Brasil.
Assisti ao início da sessão da câmara de vereadores, composta de nove membros reunidos em salão com portas e janelas abertas para a calçada da rua.
O ônibus partiu e menos de uma hora depois a polícia rodoviária federal entrou para fiscalizar passageiros e bagagens. Somente eu tive que mostrar meus documentos e responder a perguntas básicas. Em frente ao bagageiro do ônibus, acompanhei um deles abrir a mochila, retirar volume a volume, abrir e observar tudo. A operação demorou meia hora.
Duas horas depois eu chegava em Brasiléia sob chuva fina. Jantei em restaurante simpático, estilo de fazenda, sem paredes, mesas grandes de madeira e ambiente acolhedor. Dei a volta pelas ruas escuras e vazias, revestidas de frescos, bonitos e eficientes calçamentos de tijolos nas ruas e calçadas. Brasiléia, sem ser o paraíso, revelava centro interessante, construções antigas de madeira, barracos usados como bares ou pensões. Na outra margem do rio Acre, a cidade boliviana de Cobija.
No sábado à noite em Brasiléia, sob a imensa e brilhante lua cheia, o centro da cidade virou cemitério. Praticamente ninguém circulando. A igreja não tinha praça, a praça central não possuía igreja. Brasiléia mantinha a calma e o charme de cidadezinha do interior. Caiu rápida e forte pancada de chuva, causando um barulho danado. Foi o suficiente para subir o nível do rio Acre e as águas carregarem galhos, pedras e terra das margens.
Defeito imperdoável e injustificável em diversas cidades espalhadas pelo Brasil, Assis Brasil e Brasiléia inclusive, era a mutilação geométrica das árvores de ruas e praças. Deixadas com formas de gosto duvidoso, cúbicas, cônicas, esféricas, com desenho de coração, degradavam a paisagem, reduzindo drasticamente as áreas de sombra. 
De volta à capital Rio Branco, domingo animadíssimo, tanto no Parque da Maternidade como na região da Gameleira, sob a noite estrelada. Rio Branco demonstrava que o lazer ao ar livre e em espaços públicos, sem templos de vitrines e o consumo compulsivo, é mais sadio, democrático e divertido.

A cidade de Sena Madureira se espalhava em ruas extensas ao redor de ampla praça no centro. Na margem do rio Iaco, barracos, favelas, bares podres, puteiros, armazéns. E muitos ambulantes. Barcos de pequeno porte atracavam nos barrancos enlameados, trazendo castanhas da Amazônia, compradas e encarecidas pelos intermediários. Povos indígenas se amontoavam em meio à lama, lixo, esgoto, urubus, fezes, mau cheiro. Tomavam banho nas águas barrentas do rio, se deitavam na lama fétida, em contato com o lixo urbano. Outros se reuniam no banco da praça, cutucavam a grama, se comunicavam em língua própria. Alguns, completamente bêbados, se arrastavam pelas calçadas, gritavam, choravam. Ninguém lhes dava atenção.
A indústria da religião não dava tréguas. Dezenas e dezenas de igrejas e templos, de nomes esdrúxulos, se espalhavam por todos os cantos, de onde se ouviam gritos, urros, choros. Mais parecia o fim do mundo.
Desembarquei em Porto Velho pela manhã, já em outro fuso horário. Fui direto ao local dos barcos que fazem a linha do rio Madeira. Os vendedores me levaram ao único com partida confirmada para daí a dois dias. Pechinchei bastante até baixar bem o valor do camarote.
As funcionárias do hotel contaram do abandono de Porto Velho, ruas sem iluminação, não pavimentadas, sem rede de água e esgotos. E da especulação imobiliária, que mantinha terrenos vazios, com mato alto e muito lixo. Quando os necessitados ocupavam, limpavam e ajeitavam o terreno, os tais “proprietários” acionavam a polícia para expulsá-los.
A deliciosa caldeirada de tambaqui, duas caipirinhas, o creme de cupuaçu, deram o tom do almoço.
Levei a mochila para o camarote do barco, já com muitas redes atadas. Dei a volta pelas paupérrimas e sujas redondezas do porto do Cai N’Água.
O barco, com dois pisos e meio, era carregado de batatas e mais batatas, cebolas e mais cebolas, desembarcadas de caminhões provenientes de Santa Catarina. A carga parecia não ter fim. Outra carreta de tomates foi esvaziada. O maranhense morador de Caxias pegaria o barco para visitar o pai depois de vinte anos sem contato. Nem sequer possuía foto dele.

O tempo amanheceu com a floresta presente nas margens do rio Madeira, largo e cheio. Pouco se via dos raríssimos e distantes casebres de madeira. Parada em Humaitá. Tarde na preguiça, leve cochilo junto à maioria dos passageiros. Depois boa conversa com um mineiro a trabalho no Amazonas, entre leves pancadas de chuva e belas visões da floresta.
Os vilarejos, com algumas casas e agricultura de subsistência, aumentavam em número. A cidade de Novo Aripuanã, onde o barco atracou, apresentava orla urbanizada, porto limpo e organizado. Em seguida, ocorreu churrasco no convés superior, com vários tipos de carne.
Os dois irmãos amazonenses, embarcados em Humaitá, relataram as arbitrariedades cometidas pelas autoridades locais. Prefeito, juiz, comandante da polícia mandavam prender e soltar, quando e quem eles queriam. Não respeitavam as leis, muitas vezes criadas por eles mesmos. Agrediam adversários políticos ou cidadãos que passavam no caminho. Invadiam casas dos desafetos, apedrejavam, estupravam, aliciavam, coagiam, intimidavam a torto e a direito. E se valiam da miséria, ignorância e abandono da maioria da população. O medo dos moradores, sob o terror das elites, garantia impunidade.
Paradas noturnas em Manicoré e Nova Olinda.
Amanhecemos no Paraná da Eva, corte de caminho na margem esquerda do rio Amazonas. Águas escuras, calmas e ladeadas por fazendas de gado e búfalos. Planícies verdes, árvores frondosas e isoladas, casas aconchegantes, com barquinhos atracados, formavam paisagem relaxante.
Aumentava a ansiedade dos passageiros pela chegada. Mais barcos e balsas em circulação, comunidades diversas e maiores nas margens, apontavam para a proximidade do grande centro. Grupos de amigos contavam piadas e fofocas da noite anterior na proa do convés superior.
continua...