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segunda-feira, 25 de julho de 2011

do Pará a Alagoas (parte 6/6)

...continuação
Caminhei lentamente pelas ruas vazias até os altos da cidade. Lá o casario do final do século XIX e início do século XX se alinhava em ambas as calçadas, valorizando o silêncio da noite. Dei volta grande até atravessar a praça com o canhão, descer à margem do rio sob o rochedo do antigo forte, cruzar o beco e, de volta à ladeira principal, atingir a praça da igreja de Nossa Senhora da Corrente. Tudo ficava mais charmoso sob a iluminação e a calma da noite do centro de Penedo.
A lotação lotou de verdade com muitos passageiros irregularmente em pé. As vítimas precisavam se inclinar devido ao teto baixo. Depois de passar por Piaçabuçu, desci no vilarejo do Peba, diante da praia extensa.
Veículos de todos os tipos, carros, motos, caminhonetes, ônibus, circulavam impunemente pela areia da praia, transformada em pista de trânsito urbano. Os banhistas tinham que atentar aos motoristas, sofrendo ainda com as buzinadas. O peso e a velocidade dos veículos marcavam a areia, que também recebia manchas de óleo e outros danos provocados pelo tráfego constante.
Praia entupida de veículos não é praia.
E traziam consigo o famigerado som de carro. Som ensurdecedor tocando o lixo comercial da ocasião. E não vinha de um ou dois carros espaçados. Eram dezenas deles, lado a lado, todos vomitando poluição sonora no último volume. Obrigavam os demais a ouvirem também, por bem ou por mal, quisessem ou não. Nem se ouvia o som do mar, do vento, da natureza. E, com os carros indo e vindo por toda a praia, ninguém caminhava na beira da água. Deslocamentos, mesmo curtos, só de carro. Creio que me consideraram um extraterrestre andando a pé, chapinhando os pés na água do mar, sentindo o calor do sol, a brisa refrescante. Com os veículos vinham mil tranqueiras, comida, bebida, embalagens plásticas, e lixo, muito lixo.

Tive que caminhar muito, mas muito mesmo, para me livrar da poluição geral. Mas não me livrava dos carros que iam e vinham de todas as direções. Coitada da praia do Peba, sobretudo dos moradores originais do Peba, e das demais praias que permitiam aquele crime. Praia que libera o acesso de veículos jamais será uma praia. 
Matei a sede, belisquei peixe frito e fugi daquela tragédia.
Em Penedo, depois de cruzar de barco o São Francisco, visitei a cidadezinha sergipana de Santana do São Francisco, a antiga Carrapicho.
Pequena, discreta, erguida na encosta inclinada da margem do rio, a cidade tornou-se pólo de produção de arte figurativa em barro, usando temática regional. Em dezenas de pontos espalhados, trabalhadores em condições precárias moldavam, secavam, queimavam e, finalmente, pintavam os utensílios de casa, imagens de santo, cenas folclóricas. A produção em série comprometia a qualidade das obras. O aspecto de barro cozido, atraente por si só, recebia camadas de algo como verniz, nas cores laranja, verde abacate, rosa, tirando o encanto do artesanato. De qualquer maneira, agradava assistir aos processos de produção, totalmente artesanais.
De Carrapicho peguei moto-táxi à vizinha Neópolis, ainda em Sergipe. As ruas e calçadas, a apresentação do comércio e das residências, superavam as mazelas das cidades alagoanas. Claro, Neópolis estava longe de um paraíso, mas tornava ainda mais evidente o quão miserável, abandonado e mal tratado tem sido o estado de Alagoas por séculos de coronelismo e neocoronelismo. Qualquer semelhança com a catástrofe social do Maranhão não era mera coincidência, nem nas causas, nem nos efeitos.
 Tomei outro barco, cruzei o rio e retornei a Penedo, pobre e abandonada, mas extremamente atraente.

Repeti a peixada no restaurante no alto do rochedo. Ao passar determinada cena de novela, em reprise, no televisor no fundo do salão do restaurante, atrás do balcão e do caixa, todos, mas absolutamente todos os funcionários da casa, interrompiam os afazeres do momento, exibiam o olhar bovino e não o desgrudavam da telinha. Os garçons, cozinheiros, auxiliares, dono, esqueciam os clientes, inclusive os recém-chegados e ainda não atendidos, assimilando o embrutecimento pela televisão, esquecendo o mundo real. Bizarro e engraçado. Me dirigi ao balcão, bem perto da televisão, a fim de pagar a conta. Todos os funcionários estavam de costas, para mim e para o resto do restaurante. Minutos depois, um garçom, por um milagre, se virou e me notou. Lentamente gritou ao dono, no caixa, que também não desgrudava os olhos do televisor:
-- o cliente, o cliente!
Ele me olhou depois de muita insistência e me encarou, mudo, cheio de dúvidas.
-- Eu queria a conta.
-- Ah, sim... Mas se virou novamente e deixou cair o queixo diante da televisão.
-- ...
-- O que foi mesmo?
O garçom o ajudou a pegar no tranco:
-- Mesa 9, cliente da mesa 9!
-- ...
-- O senhor quer a conta?
-- Isso...
Anotava um item, olhava para a televisão, anotava outro item, olhava novamente para a televisão. No meio da soma, voltava a olhar para a televisão. Entregou-me a conta e imediatamente se virou para a televisão. Entreguei o meu cartão de crédito e, antes de ele pegar a máquina, olhou para a televisão. E assim foi, demoradamente, até completar o processo.
-- Muito obrigado, volte sempre.
E voltou a olhar, embasbacado, junto com os demais funcionários, para o televisor. Era reprise de um capítulo de uma novela qualquer. Era o início da tarde de um restaurante com várias mesas ocupadas.

Embarquei à tarde para Maceió. O confortável ônibus de linha usava o método antigo e funcional da ventilação natural vinda das janelas abertas. Perfeito. O ar sempre se renovava. A temperatura amenizava com a brisa. Ninguém sentia falta de ar ou enjoos decorrentes das janelas fechadas e do ar condicionado. Tudo mais simples, eficaz, eficiente. 
No hotel em Maceió recebi desconto generoso pela semana anterior ao carnaval. O calçadão da praia da Ponta Verde rapidamente se esvaziou naquela noite, assim como os bares, restaurantes, barracas e afins. Restaram gatos pingados para manter a noite acesa. A orla se apresentava bonita, iluminada, ventilada, perfumada pelo tradicional sargaço da areia da praia. Comi excelente tapioca recheada com coco, queijo e banana, andei, dei olhadelas na parte esquerda da praia de Sete Coqueiros, ao final da rua, no sentido oposto da Ponta Verde. Estava ainda mais vazia e tranquila.
Bem cedinho, pelo calçadão, tomei a praia da Ponta Verde, quase deserta naquele horário, até o fim da praia de Cruz das Almas, pouco antes de Jacarecica. As praias de Maceió continuavam bonitas apesar de urbanizadas e de muita sujeira. Não do sargaço, característico da região, mas do lixo lançado pelos usuários. Sem falar nas tubulações sanitárias despejando esgoto fétido diretamente nas areias.
Os banhistas, sobretudo os turistas, se aglomeravam nos trechos em frente aos grandes hotéis, deixando extensos vazios na areia. Bares, restaurantes, quiosques de tapioca, coco, lanches, sucos, bem cuidados, se estendiam regularmente ao longo das praias da Ponta Verde e Jatiúca. Após a Lagoa da Anta, caía bastante o movimento e as ofertas de comes e bebes. O que não significava melhores praias. O trecho da praia de Cruz das Almas encontrava-se degradado, sujo, com calçadas arrebentadas, construções inacabadas atrás da avenida. Aquele pedaço fora abandonado à própria sorte.
Mais ao norte aumentavam os coqueirais, remetendo, aparentemente, a praias mais desertas e preservadas. Ledo engano. No patamar dos morros chapados, tão tradicionais em Maceió, ocupando extensa faixa atrás dos coqueirais, bem próximo da praia, havia um enorme lixão. E ativo. Ativíssimo. Caminhões de lixo despejavam toneladas de resíduos sólidos, disputados a tapa pelos urubus e pelos catadores miseráveis. Tudo isso próximo e perfeitamente visível de vários pontos da praia, uma das principais fontes de renda do município. Mais que isso, o lixão expunha a miséria e o descaso socioambiental a que foi jogada a população da cidade. Enquanto os turistas permaneciam no máximo uma semana na cidade e arredores, os moradores de Maceió conviviam com aquela catástrofe social todos os dias do ano.
Por outro lado, cartazes instalados nos bairros nobres de Ponta Verde, Jatiúca e Pajuçara alardeavam o número recorde de turistas na cidade durante o ano anterior. Tudo ia muito bem, obrigado!
Retornei caminhando pela praia, ali no final das ondas, refrescando os pés na água do mar. Parei em bar e restaurante aberto do trecho mais movimentado da praia da Ponta Verde e me instalei em mesa sombreada e com boa visão da paisagem natural e humana. Deixei o tempo passar vagarosamente. Comi sururu ensopado com leite de coco. Detonei duas caipirinhas, encerrando com suco de pitanga.

Na manhã seguinte caminhei no sentido das praias de Sete Coqueiros e Pajuçara, esta animada pelas vendas de artesanato, pelo ponto de partida dos passeios de jangada às piscinas de corais. A Pajuçara ainda guardava casas, térreas ou em sobrados, mas predominavam os edifícios de luxo, envidraçados, de poucos andares.
Típico, muito típico de Maceió, eram os carrinhos dos vendedores de picolé. Os pequenos alto-falantes repetiam gravações de ofertas dos produtos, o mais famoso e marcante era “picolé caseiro Caicó”. Não era alto, mas o suficiente para todos ouvirem e não esquecerem aquela marca registrada da cidade.
Voltei à praia da Ponta Verde para repetir o local e os pedidos do dia anterior. Foi tão bom. Porque mudar? E enrolei tudo o que tinha direito na véspera de retorno a São Paulo.
À noite, o vento refrescante e constante vindo do mar garantia temperaturas agradáveis para andar na orla ou simplesmente sentar e observar o vaivém de turistas e alagoanos. Repeti a grande e deliciosa tapioca recheada com coco, queijo e banana.
Peguei ônibus urbano ao aeroporto, economizando a facada do táxi. O voo causou susto ao pousar no destino, quando chovia forte, aliado a raios, relâmpagos e trovoadas. O avião balançou bastante, ameaçou arremeter com ruídos estranhos das turbinas, além de muita trepidação. Finalmente, pousou são e salvo em São Paulo, em meados de fevereiro. Os passageiros, aliviados de estarem vivos, aplaudiram fervorosamente as manobras do piloto.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

do Pará a Alagoas (parte 5/6)

...continuação
Após deixar a rua do último bairro, peguei a estradinha de pedras irregulares. Ali, só de botas firmes, com solado duro e grosso, para amenizar os impactos nas solas dos pés. Cercas de pedra, pequenas propriedades com terraços cultivados, goiaba, manga, jaca, coco, mamão, maracujá. Relevo acidentado, entre sobes e desces, colinas rochosas, vales profundos, olhos d’água, pequenas criações de animais, casinhas de pedra ou alvenaria. Duas jararacas e uma coral cruzaram o caminho calçado. Ao me atrapalhar nas encruzilhadas, tive que aguardar passar alguém para confirmar a direção correta e prosear aqui e ali com os lavradores locais.
Atingi o topo do Pico do Papagaio, onde grupo de crianças e duas professoras se divertiam antes de iniciarem o retorno por caminho diferente do meu. Construção em cimento no formato do Careta, a figura símbolo do carnaval de Triunfo, vestida a caráter, com o chicote nas mãos e tudo mais, marcava o ponto culminante. Do alto se viam cadeias de serras, serrotes, vales profundos e verdejantes, casinhas esparsas, lajedos, parte das cidades pernambucanas de Triunfo e Flores, além da cidade paraibana de Princesa Isabel. O vento refrescante secou o suor e me manteve em ambiente cheio de paz e tranquilidade, garantidas após a descida dos escolares.
Pouco parei na volta. Entrei nas ruas de Triunfo com a sede acumulada de mais de quatro horas. Detonei duas garrafas grandes do mesmo refrigerante pernambucano fabricado em Garanhuns.
Almocei e me deixei levar pela preguiça gostosa da tarde.
À noite repeti os pedidos durante o jantar. A conta, porém, veio com valor menor do que a da outra noite. Acho que o dono nem calculava item a item. Chutava um valor equivalente ao consumido e ponto final. Encerrei com giro pelo centro antigo de Triunfo depois de margear todo o lago pelo calçadão. As ruas, praças e ladeiras, como sempre, combinando com o lugar tão pitoresco, se mantinham escuras, vazias, silenciosas.

Em outro dia, dei breves voltas pelo centro da cidade, visitei o precário e simpático museu regional. Jantei no bar de sempre, bebendo as de sempre, comendo o de sempre. E estava longe de enjoar daquela deliciosa rotina.
Embarquei à noite. Nem vesti a malha separada previamente contra possíveis frios decorrentes do desnecessário ar condicionado. A ventilação natural pelas janelas, que sempre funcionou tão bem, agiu bem melhor.
Logo após a saída de Triunfo a estrada se tornou sinuosa, em descida de serra. O veículo parou em diversas cidadezinhas para embarques esparsos, até o momento que adormeci e não acompanhei mais nada. Eu acordava assustado de vez em quando e voltava a dormir. Foi assim a noite inteira até notar que o ônibus trafegava pelas avenidas de Recife. A estação rodoviária da cidade ficava bem afastada do centro, devido à correta intenção de afastar o fluxo dos ônibus intermunicipais.
Mesmo assim o ônibus passou por vários bairros de Recife, arrebanhando passageiros em pontos de ônibus comum, seguindo pela repugnante BR-101, com o intenso movimento de veículos leves e pesados. A rodovia passava por obras de duplicação, emperrando o já emperrado fluxo geral. Se todo esse tempo, dinheiro, mão de obra, esforços gastos, fossem direcionados para a construção ou modernização de ferrovias, de passageiros e cargas, o povo brasileiro se beneficiaria de verdade. Mas não. As duplicações e os repetidos asfaltamentos das rodovias são vendidos ao público como a salvação da pátria. Na verdade, apenas se tratam de mais lucros para as construtoras, as transnacionais de veículos, autopeças, combustíveis e demais benfeitores da humanidade. É a famigerada opção rodoviária imposta pelas corporações aos brasileiros desde meados do século XX.
E o massacre prosseguia na BR-101 com mãos únicas de direção, desvios, trechos esburacados, automóveis e mais automóveis, caminhões e mais caminhões. Nas margens da rodovia, canaviais sem fim, cidadezinhas miseráveis, feias, sujas, desumanizadas, sem cara de nada. Ambulantes maltrapilhos expunham jaca e manga para vender. Ninguém parava para comprar. No posto fiscal, na divisa entre Pernambuco e Alagoas, um emaranhado de caminhões e carretas transformava o local no fim do mundo. 
 Todo o cenário social desolador se acentuou após a entrada em território alagoano. Aumentou a miséria, a sujeira, o abandono de tudo. E os canaviais prosseguiam como reis absolutos na paisagem, intercalados com vastas áreas improdutivas. Acampamentos de trabalhadores rurais sem terra, lutando por espaço para plantar alimentos, se erguiam na beira da estrada em condições desesperadoras.
O outro ônibus partiu de Maceió percorrendo pedaços belíssimos, as lagoas de Mundaú e Manguaba, as praias de Barra de São Miguel, a praia do Gunga, parte do litoral de Coruripe. Anoiteceu e a estrada se afastou do mar para passar por Piaçabuçu e chegar a Penedo. A ressalva ficou por conta dos canaviais e arrozais muito próximos ao mar entre Barra de São Miguel e Coruripe. O contraste entre a beleza da paisagem natural e o jeito sombrio da monocultura gerava apreensões quanto ao futuro da região.

Em Penedo, a pousada instalada em sobrado colonial se destacava pela imponência, interna e externa. O quarto era amplo, em estilo rústico e antigo. O assoalho feito de longas ripas de madeira rangia ao caminhar.
Encontrei restaurante de madeira na beira do rio São Francisco, charmoso, caro, oferecendo comidas e bebidas saborosas. Enquanto matava a sede e a fome, pude apreciar a calmaria das águas do rio, o esparso movimento de barcos, as luzes de Sergipe na margem oposta. Casais, grupos de amigos e dois gringos petiscavam nas outras mesas.  
Tomei dois grandes copos de suco de jenipapo durante o café da manhã. Nem lembrara a última vez que experimentara aquela delícia, antes de se transformar no famoso licor, tão apreciado nas festas juninas do nordeste.
Caminhei lentamente pela calçada da margem do São Francisco, retornando pelas ruazinhas de dentro, até atingir o centro histórico de Penedo. Misturado ao comércio popular e ao mercado, provisoriamente ao ar livre, o casario antigo, as igrejas, as ladeiras, os becos, os sobrados, aquele trecho central da cidade encantava de vários ângulos que se apreciasse. Sem falar na presença marcante das águas verde-azuladas do rio e das cidadezinhas de Sergipe na outra margem. O horrendo edifício do hotel São Francisco e os dois prédios cinzentos ao lado destoavam da harmonia arquitetônica e chamavam a atenção pelo mau gosto.
Visitei igrejas, conventos, museus, todos memoráveis. Mas o melhor mesmo era andar sem compromisso pela cidade, sobretudo pela pitoresca margem do São Francisco, situada abaixo do paredão do antigo forte. Em local íngreme e arborizado, o beco sinuoso ladeava as águas e atraía pescadores, banhistas ou meros observadores. O sol torrava a cuca e eu tinha que me esgueirar sob as marquises ou parar sob as sombras das árvores para tomar fôlego. Ainda bem que a brisa constante mantinha o ar respirável.
Após delicioso almoço, no qual me esbaldei com peixada à brasileira de dourado, com direito à vista panorâmica do São Francisco, decidi fugir do sol e me refugiar no quarto da pousada, alto, claro, bem ventilado. Nas esquinas próximas, inúmeras lotações chamavam passageiros com destino às cidadezinhas próximas.
A pousada, a igreja de Nossa Senhora da Corrente, exatamente ao lado, e o atual paço municipal, atravessando a rua, pertenceram à família que fez história na cidade. O casal espalhou a fama por ser contra a escravidão, inclusive escondendo negros cativos nas dependências da igreja particular, oferecendo-lhes a carta de alforria em seguida.
À noite apenas perambulei pela orla fluvial, circulei pelo melhor do centro histórico de Penedo, sob a iluminação noturna. A maioria dos moradores se concentrava nos bairros altos e alinhados na saída para Piaçabuçu. O centro, comercial, administrativo e turístico, se esvaziava à noite, oferecendo silêncio e tranquilidade.

Peguei lotação até Piaçabuçu, também na margem do São Francisco. Andei pela orla fluvial, ao longo da qual uns bêbados jovens ainda entornavam copos e garrafas, meninas vomitavam atrás das barracas, pairando certo ar de fim de festa, só contrastado pelo ir e vir dos barcos de pesca. Piaçabuçu era completamente plana, com ruas estreitas e parecidas.
Lotações chegaram de Maceió trazendo os turistas para o passeio de barco. Nem bem desciam dos veículos, começavam a disparar a câmera fotográfica, principalmente fotos deles mesmos, passo a passo, até o convés do barco. Praticamente só havia casais jovens, a maioria da região sudeste do país. Conversavam apenas entre si, jamais se dirigindo a outros, muito menos a mim, que não viera nas lotações da capital. Nunca sorriam ou se mostravam receptivos.
O barco partiu do cais fluvial de Piaçabuçu e atingiu as dunas bem próximas à foz propriamente dita do São Francisco.
Nem me lembrava em quantos pontos e em quantas oportunidades eu estivera nesse rio maravilhoso. Das nascentes nos altos da Serra da Canastra, dos tantos sítios em Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, eu agora visitava a foz dos quase três mil quilômetros do chamado rio de integração nacional. Rio judiado pelo capitalismo, especialmente pelo desmatamento das cabeceiras e margens, da poluição industrial e residencial, do descaso na aplicação das políticas sociais e ambientais. É certo que havia pequenas e aguerridas resistências dos ribeirinhos, em diversos estados, pela revitalização das águas e do curso do rio. Esses importantes focos de consciência socioambiental eram esmagados pela repressão, ignorados, perseguidos ou distorcidos pela justiça e pelos oligopólios privados dos meios de comunicação.
A tripulação marcou o horário de volta e cada casal tomou o rumo desejado. Preferi subir as dunas, apreciar a vista, antes de caminhar até o ponto exato da foz, onde as águas doces do São Francisco encontram o mar na margem alagoana. A praia oceânica, plana e de mar bravo, o farol abandonado próximo ao lado sergipano, o novo farol movido à energia solar, as águas refrescantes do Velho Chico. Caminhei bastante pelas dunas e margem, me refresquei nas águas esverdeadas do rio, contemplei a paisagem única.

Troquei boas frases com a tripulação do barco. Essa gente sofrida e trabalhadora não era reconhecida e muito mal remunerada pelos patrões que insistiam no estilo de coronéis regionais.
Ao retornar ao cais de Piaçabuçu, belisquei qualquer coisa na cidadezinha e peguei lotação de volta a Penedo.
O camarão ao alho e óleo regado a duas caipirinhas, o visual noturno do São Francisco, sempre ele, no bar e restaurante de Penedo só não foi perfeito em razão de dois gringos na mesa atrás. Conversavam em francês, em volume alto, bem alto, exigindo que todos ouvissem o discurso. E ainda fumavam um cigarro atrás do outro. Outros clientes também se incomodaram com aquela arrogância. Clientes e garçons suspiraram aliviados quando pagaram a conta e sumiram do mapa. O ambiente voltou à leveza costumeira. Fiquei ainda um tempão degustando os comes, os bebes, o suave som das águas do rio.
continua...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

do Amazonas a Sergipe (parte 7/7)

...continuação
Após a cidade de Alagoa Grande, terra de Jackson do Pandeiro e Margarida Maria Alves, o ônibus começou a subida da serra, percorrendo estrada estreita, cheia de curvas perigosas, sem acostamento. Nos altos do relevo apareceram as primeiras casas e ruas de Areia, berço do pintor Pedro Américo. A cidadezinha guardava casario do final do século XIX e início do século XX. Moradias, sobrados, escolas, prédios públicos se distribuíam por ruas estreitas, ladeiras, rampas bem acentuadas, calçadas de paralelepípedos. Havia também um teatro de meados do século XIX, infelizmente fechado e sem programação. Instalado em casarão de pé direito alto, o Bar do Chifre, entupido de chifres nas paredes e teto, exibia diversas mensagens alusivas aos cornos. “Se você não for chifrudo seja bem-vindo e toque o sino”, “chifre ficou para homem, boi usa de enxerido”, “O cavalo não tem chifre porque a mulher é uma besta”. O estabelecimento vendia garrafas e doses de cachaças produzidas nos engenhos da região. Tomei duas doses generosas de cachaça branca, não envelhecida, não perfumada, não aromatizada, pura, muito saborosa.
Retornei à capital paraibana somente à noite. O calçadão de Tambaú se alegrava com público variado, famílias, casais, grupos de amigos, aproveitando a noite ao ar livre, em espaço público e democrático. Nada de desfile em frente a vitrines luminosas e entupidas de supérfluos. Embora houvesse gente nos bares e restaurantes, a maioria circulava pelos calçadões e praças, se sentava em roda ou nos extensos bancos de cimento da praia. Gente de todas as idades, sexos, níveis sociais. Cada um da maneira que mais lhe aprouvesse, em enorme reunião de cidadãos na plenitude do lazer saudável e comunitário.
Entre cochilos breves, observei pela janela do ônibus a paisagem paraibana e pernambucana de relevo acidentado, ocupada quase que completamente por canaviais e engenhos antigos. Raros trechos de mata atlântica, em frangalhos. No trecho alagoano, os casebres de taipa, a miséria e o abandono me lembraram do interior maranhense.

O segundo ônibus partiu cedo com metade da lotação, mas logo, ainda em Maceió, transbordou de passageiros, enchendo o corredor de pobres diabos, de pé, tratados como gado. As paradas continuavam e o percurso evoluía lentamente. A partir da parada em Palmeira dos Índios a estrada penetrou de vez no sertão alagoano, com buracos, miséria, seca, abandono. O ônibus cruzou a cidadezinha de Olho D’Água do Casado na qual, após conselhos do motorista, desembarquei. Ali peguei carona colina abaixo, até o pé do morro em Piranhas.
Na beira do rio São Francisco comi peixe frito diante das águas esverdeadas e convidativas, dos barcos atracados, das encostas desabitadas do lado sergipano. Retornei à pousada, escadaria acima, a fim de cochilar e tentar me recuperar do cansaço dos últimos dias.
Piranhas estava mais limpa, organizada e preservada que seis anos antes. Casas pintadas com cores vivas, pracinhas revitalizadas, orla urbanizada com quiosques, bares, restaurantes de alvenaria, pequeno porto flutuante.
Me sentei no terraço da pousada. Já anoitecera e as luzes da cidade se acenderam. Sob os ventos refrescantes, a lua cheia apontou bem em frente, atrás da colina do cruzeiro, amarelada, brilhante, compondo espetáculo único sobre a cidade. As ruas embaixo logo mergulharam no silêncio. Só se ouvia o barulho suave do vento. A arquitetura fracamente iluminada fazia bem aos olhos.
Subi as escadarias rumo ao cruzeiro, erguido no alto do morro oposto à pousada. A irregularidade na altura e extensão dos degraus dificultava o ritmo dos passos, mais que a subida propriamente dita. Com bar e restaurante no topo, o local oferecia vista privilegiada da cidade, do vale do São Francisco, das encostas secas da caatinga. As águas transparentes do rio faziam os barcos parecerem flutuar.
Tomei a trilha da beira do rio, leito da antiga ferrovia. Caminhei para valer debaixo de sol abrasador, calor sufocante, mormaço tórrido. Sentia dificuldades até para respirar o ar quente. Mas valeu a pena avançar próximo à margem esquerda do Velho Chico. Ninguém por ali, somente os cactos, vegetação ressecada, pássaros, lagartos, as águas verde azuladas, transparentes mais abaixo. Mergulhei em seguida. A temperatura da água refrescava a alma. Me alojei em restaurante na beira da praia a fim de degustar caipirinhas e almoçar. O calor insuportável da tarde expulsava os moradores das ruas, lançando-os nas sombras dos interiores das casas. Piranhas dormia em silêncio profundo. Imitei os moradores e me recolhi também.

Caminhei rio abaixo pela estradinha calçada. No caminho, igreja pequena e bem conservada no meio de praça singela, casas e casebres muito simples, mas pintadas recentemente de cores vivas, algumas de taipa expondo a miséria local. Os moradores daquele trecho se ligavam direta ou indiretamente à pesca, sobretudo de surubins e pitus.
Mais mergulhos nas águas refrescantes do Velho Chico, enquanto o relógio avançava lentamente. Preguiça à tarde. O sol e o calor pareciam fundir tudo e todos. Andava apenas de sunga, e de chinelos para não fritar os pés. E sempre retornava à sacada da pousada para apreciar a vista da cidade e do rio, lá embaixo.
Tomei novamente o rumo sobre o leito da antiga ferrovia e avancei o mais que pude. Em dado momento a trilha se afastou da margem do rio e adentrou em outro vale estreito. Logo ouvia sons relaxantes de quedas d’água. E não era alucinação. No meio da caatinga ressecada havia olho d’água formando riacho estreito com algumas quedas nos trechos mais acidentados. O gado se deliciava com a preciosidade e não abandonava o vale. A pequena propriedade cultivava milho, coco, banana, outras frutas. No meio da plantação se destacava antigo pontilhão da ferrovia, as rochas de sustentação, os trilhos de aço corroídos pelo tempo e abandono. Torrado pelo sol, ensopado de suor, com pés e pernas cobertas de poeira seca, garganta sedenta, as águas refrescantes do São Francisco me esperavam para os mergulhos reanimadores.
Não havia linhas de barcos pelo São Francisco, ferrovia ou rodovia pelas margens, entre Piranhas e Pão de Açúcar. O transporte coletivo no interior de Alagoas forçava o longo e demorado trajeto por Xingó, Olho D’Água do Casado, Olho D’Água das Flores e finalmente Pão de Açúcar. Cada trecho teria que ser feito separadamente, em transportes diferentes, ônibus, moto-táxi, lotação, caminhonete.
Consegui carona até Olho D’Água das Flores, no trevo para Pão de Açúcar. Larguei a mochila sob a árvore da beira da estrada e aguardei o transporte. Duas peruas passaram caindo aos pedaços, lotadas de cargas e passageiros. Apareceu uma sergipana acompanhada do filho, ambos a espera do catastrófico transporte coletivo alagoano. Contou que acabara de pagar quatro reais à senhora passageira do ônibus anterior em troca de rezas pela felicidade dela e da família. Mas, ao descer do ônibus, a reza ainda não havia terminado e, por isso, ela temia que os votos da benzedeira se alterassem para serviços do mal. Um caminhão basculante da prefeitura de Pão de Açúcar parou e subimos os três na cabine. Não era uma carona e o motorista cobrou quatro reais.

Também na margem esquerda do São Francisco, Pão de Açúcar, cidade plana e alongada paralelamente ao rio, não atraía, na arquitetura e na praia. Barracas de comida, improvisadas e de mau aspecto, se estendiam entre a rua e a areia da praia, em meio ao mato rasteiro. O pedaço do canteiro central da avenida encontrava-se sem jardim, com calçadas arrebentadas, bancos quebrados e sujos. Tirando as casas dos ricos, as moradias assustavam pelos interiores miseráveis. Em sujos depósitos de gente, pobres, muito pobres, panos encardidos ou tijolos improvisados separavam os cômodos. Esgoto a céu aberto, nenhum saneamento básico, lixo e mau cheiro.
No topo do morro se erguia estátua do cristo redentor. O calor ia às alturas, não havia sombra pelo caminho, o chapéu pouco amenizava os raios solares. No alto da colina, com vista para as águas do rio, encostei o corpo sob a sombra da estátua do homem de braços abertos, que de tão quente nem me permitia sentar.
Durante as noites, em típica cidadezinha do interior, os moradores de Pão de Açúcar sentavam-se em cadeiras nas calçadas e praças, as crianças brincavam ao ar livre, os jovens andavam de bicicleta, os casais recatados escolhiam os pontos menos iluminados nos jardins ou dos pedaços mais aceitáveis no canteiro da avenida principal.
Pela estrada de terra que acompanhava a descida do rio, pastos, caatingas, casas antigas de fazenda com alpendre e tudo, vaqueiros de gibão e chapéu de couro. No final, no pé da serra, a estrada se afastava do vale e iniciava subidas sinuosas pelos morros. Leito acidentado, pedregoso, vegetação ressecada e espinhosa. E circulei pela praia naquele domingo ensolarado. Muita gente se empanturrava de bebidas alcoólicas de quinta categoria, litros e litros de refrigerante, carros com som no último volume, bêbados, famílias, casais. Mas era lazer real em um Brasil sertanejo real.
Presenteei a funcionária do hotel com o único livro lido que eu ainda guardava na mochila. Trabalhando seis dias por semana, das 5h às 18h, ela recebia apenas R$ 120 por mês. Menos de um terço do salário mínimo nacional, por uma semana de 72 horas. Sem registro em carteira profissional, não contava com direitos trabalhistas, como férias, décimo terceiro salário, fundo de garantia, saúde pública. Porém, a dona do hotel, tocada pela generosidade inerente aos patrões, deixava-a sair de vez em quando para resolver problemas urgentes. Por pouco tempo, obviamente. No terceiro ano do ensino médio, a funcionária pretendia seguir enfermagem, mas as mensalidades de R$ 180 da escola privada estavam além das possibilidades. A tia idosa, com quem morava, não podia ajudar. O pai abandonara a família. A mãe alcoólatra vivia no interior de Sergipe, no limite da miséria. E, noiva de aliança, ainda reclamava da gastrite e de dores de cabeça devido à vista fraca.

Acordei com os ruídos da feira semanal, típica de sertão onde se vendia de tudo. Bodes, cabras, bois eram comprados, vendidos, trocados na rua da orla do rio.
O barco na margem do rio São Francisco partiu lotado rumo ao lado sergipano. Os passageiros reclamaram com razão do excesso de passageiros e temiam acidentes.
O ônibus antigo partiu da vila de Niterói em direção a Aracaju. A primeira hora da viagem, até a cidade de Monte Alegre, percorreu quarenta quilômetros de estrada de terra do semiárido sergipano. A partir do início do asfalto a paisagem mudou radicalmente. Tornou-se mais verde e úmida, entre diversas propriedades, grandes e pequenas. O nível social evoluiu da miséria da caatinga para a pobreza dos trechos mais úmidos. A rodovia cruzou cidades pequenas, a maioria chamada Nossa Senhora de alguma coisa, até atingir a infernal BR-101, com tráfego pesado de carretas, caminhões, ônibus, veículos em geral. A tarde avançava quando o ônibus estacionou no moderno terminal rodoviário de Aracaju.
Aracaju parecia bem organizada, urbanizada, limpa, com muito verde e espaços públicos. Contava com urbanismo planejado, praças públicas, avenidas arborizadas, faixas exclusivas de ciclistas e pedestres. A população retribuía aproveitando a cidade. A região da praia de Atalaia, irreconhecível desde minha visita anterior, oferecia calçadões, quadras, lagos, chafariz, parques, pistas de skate e kart, bares, restaurantes, distribuídos na ampla área entre a areia e a avenida de pista dupla. A larga e extensa faixa de areia dava de cara com mar bravo, com as plataformas da Petrobrás no horizonte. Nada de edifícios altos, para a felicidade geral da nação. Poucas moradias, espaços vazios, sobretudo nas ruas paralelas e transversais à avenida da praia. Mas a intervenção urbanística exagerada ofuscou a natureza, independente das qualidades e defeitos de cada uma delas.
De ônibus para São Cristóvão, a antiga capital de Sergipe e a quarta cidade mais antiga do Brasil. Localizado no alto da colina, o local reservava rico patrimônio histórico e arquitetônico, entre igrejas, conventos, mosteiros, residências, museus, prédios públicos. Mas quase tudo passava por lento processo de reformas e restaurações. Exceto o museu de Arte Sacra e do complexo da igreja franciscana, apreciei as demais atrações apenas do lado de fora.
Os sergipanos aproveitaram o feriado e foram à praia. Larga e sem fim, jamais lotou, nem nos trechos mais procurados. O mar batido atraía poucos banhistas. Os surfistas quase não arriscavam.
O ônibus para São Paulo não lotou.
Amanheceu em Jequié. O sertão baiano exibia verde intenso pelas últimas chuvas. A miséria, no entanto, com ou sem água, permanecia assustadora.
Em Vitória da Conquista, a empresa Gontijo trocou de ônibus sempre com atendimento grosseiro, desumano, se recusando a maiores satisfações. Em Governador Valadares, nova troca, para ônibus de qualidade inferior. Eu e mais dois passageiros exigimos explicações e ônibus de qualidade similar ou superior. A maioria dos passageiros, porém, feito gado no curral, se calou e abaixou a cabeça. Muitos eram evangélicos, fundamentalistas, conformados, idiotizados pela indústria lucrativa do fanatismo. A empresa não cedeu e as ovelhas de rebanho entraram no terceiro e pior ônibus da viagem. Afinal, “foi o que Je$u$ quis”. Anotei tudo a fim de formalizar as reclamações junto à Agência Nacional de Transportes Terrestres.
As paradas impostas pela Gontijo continuavam caras e sujas. Cobravam até pelo uso dos banheiros imundos.
Em novembro, o ônibus estacionou no terminal rodoviário do Tietê, em São Paulo. 

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

do Acre à Bahia (parte 6/7)

...continuação
Outra manhã cinzenta e chuvosa. Peguei ônibus ao litoral sul do estado do Rio Grande do Norte. Mesmo com o tempo cinzento e algumas pancadas de chuva, valeu sair, respirar ar puro e observar as inúmeras praias. Retornei no mesmo micro-ônibus até a estação rodoviária, onde comprei minha passagem de fuga dali.
Muitos pedintes, sobretudo crianças, perambulavam pelos corredores da estação rodoviária de Natal. O ônibus oferecia um monte de perfumarias que encareceram a passagem, como lanche ressecado, cobertores e travesseiros, suporte para os pés que me impediam a liberdade de movimento. Os bancos, amplos e confortáveis, não garantiram a tranquilidade da noite de sono. O ar condicionado, estupidamente gelado e com o jato não regulável voltado diretamente para o meu rosto, causavam enorme desconforto e irritação. Ônibus convencional, sem ar condicionado, mas com ventilação natural, seria muito mais barato e confortável.
Cheguei no terminal rodoviário de Maceió antes de nascer o sol. Telefonei para a amiga de tantos anos na cidade de União dos Palmares, para onde fui de micro-ônibus, desta vez um básico, para o meu alívio.
Extensos canaviais predominavam na paisagem da zona da mata alagoana, intercalados de pequenas roças de alimentos. Mais acampamentos de trabalhadores rurais sem terra, em barracos cobertos de plástico preto, apontavam para a urgência da reforma agrária. Duas horas depois o micro estacionou na rodoviária de União dos Palmares.

Todos da família me receberam entusiasticamente. Conversei, vi fotos e mais fotos, saciei a curiosidade geral. Almocei em mesa sempre cheia de gente animada e comida saborosa.
Mas fiquei em hotel básico no centro da cidade. Tentei cochilar a fim de recuperar parte da noite perdida.
Lanchei e jantei novamente na casa deles. Foram mais deliciosas conversas até tarde da noite. A chuva fina não conseguia apagar as dezenas de fogueiras, acesas tradicionalmente às 18h naquela véspera do feriado de São Pedro. Na véspera de São João a cidade se cobrira de fogueiras, rodeadas de pessoas comendo milho assado, canjica, ao som de músicas de quadrilha, baião, xote e xaxado.
União dos Palmares custou a acordar na manhã chuvosa do feriado de São Pedro. O irmão mais novo da dona da casa apareceu e nos convidou para almoçar em churrascaria na beira da estrada para Garanhuns. A rodovia sinuosa cortava a região serrana do norte de Alagoas, entre canaviais, laranjais, plantações de mandioca, banana e outros alimentos em encostas íngremes, verdes e férteis. O sol tornava a paisagem ainda mais colorida e brilhante. A churrascaria pertencia a um pequeno agricultor local que ganhara milhões na loteria anos antes.
A temperatura caiu levemente à noite e bateu vento fresco acompanhado de fracas pancadas de chuva. A família amiga me tratava com extremo carinho.
Primeiro dia do mês, feira semanal em União dos Palmares. Filas quilométricas nos terminais de autoatendimento do banco. Trabalhadores rurais, aposentados e pensionistas lotavam o saguão com rostos sofridos e roupas suadas.
A chuva começou no meio da manhã e não parou mais. Todos estavam à minha espera para o almoço de despedida. A dona da casa me presenteou com o delicioso licor de jenipapo, costume tradicional durante as festas juninas.
Ainda chovia muito quando eu e a amiga entramos no carro para pegar a estrada vazia. Uma hora depois estávamos em Maceió, minha velha conhecida de tantas viagens passadas. Me hospedei na casa da tia com quem ela morava há muito tempo.
E a chuva não parava. Mesmo assim fomos a um barzinho baiano, pertinho da Jatiúca, com pouca gente nas mesas. Aproveitamos para refletir e descer a lenha na indústria da religião, para as quais as tias dela foram aliciadas. A amiga estava desconsolada. E se sentia sufocada com o cerco do fundamentalismo das empresas evangélicas.
Amanheceu estiado depois de noite chuvosa. As muriçocas infernais foram implacáveis e picaram mesmo por cima do lençol. A tia evangélica insistiu para que eu convencesse o filho menor de idade a desistir do futebol e apenas continuar os estudos. Recusei delicadamente aquela batata quente. Ainda mais que o garoto resistia bravamente e não se deixava levar pelo fanatismo da mãe.
O desejo de seguir viagem e explorar novas paisagens crescia após aquela fase social da viagem. E as chuvas na região, típicas nessa época do ano, não colaboravam em nada. A comida servida na casa da tia, preparada pela empregada também fundamentalista, não dava para engolir. Nem o suco com odor de detergente. A tia não substituía a empregada porque ambas frequentavam o mesmo templo empresarial. Templo é dinheiro! Tudo pelo corporativismo da indústria religiosa. Então comíamos fora. Saboreamos deliciosa moqueca de sururu, polvo, peixe e camarão, caipirinhas, suco de mangaba, doce de goiaba.

E em plena segunda-feira, meu último dia em Maceió, amanheceu com céu azul e sol brilhante. Circulamos pelas praias de Jatiúca e Ponta Verde. Além de aproveitarmos o dia ensolarado, evitaríamos o grude na casa da tia. As praias não lotavam, as águas azuis esverdeadas do mar se sobressaíam na paisagem. E as ondas tornavam-se mais agitadas e altas à medida que seguíamos no rumo da praia da Cruz das Almas.
Embarquei em ônibus convencional, sem o supérfluo ar condicionado, para alívio da maioria dos passageiros. Após passar por Feira de Santana, a rodovia escancarou a imagem da Bahia ausente dos cartões postais. Trânsito infernal, buracos e mais buracos, poluição sonora e do ar. Miséria, abandono e falta de infraestrutura social nos vilarejos nas margens da estrada, habitados principalmente por negros. Os moradores improvisavam precárias fogueiras no acostamento, assavam sabugos de milho verde e tentavam vendê-los em meios aos veículos leves e pesados. Após a parada para o almoço em Itaberaba, onde estacionou outro ônibus com destino a Lençóis cheio de estrangeiros, a paisagem de caatinga predominou pelo restante do trajeto. Os morros do Pai Inácio e do Camelo, integrantes da região da Chapada Diamantina, se exibiram imponentes, bem próximos à estrada, pouco antes da chegada em Seabra. 
A partir desse ponto o ônibus penetrou no miolo do sertão oeste baiano, paupérrimo, com vegetação e riachos ressecados, serras pedregosas cobertas de mato ralo, muita desolação. Entre as localidades de Lagoa do Dionísio e Queimada Nova, desceu a serra da Mangabeira, áspera e cheia de pedras, através de estrada íngreme, sinuosa e estreita. Na parte mais baixa do relevo, no início da grande planície, a rodovia virou piada de mau gosto, entre grandes crateras, restos de asfalto, muita poeira. A velocidade dos veículos não ultrapassava vinte quilômetros por hora. Alguns optavam pela estrada paralela à rodovia, assumidamente caminho de areia e terra, porém com leito mais regular. Como na maioria dos casos das rodovias na Bahia, a situação da BR-242, que liga nada menos que Salvador à Brasília e ao centro oeste do país, era uma calamidade. Mas isso não aparecia nos folhetos turísticos do estado comandado com mãos de ferro pela camarilha do DEM.

Os passageiros se alternavam durante o percurso. Embarcavam e desembarcavam nas vilas e cidadezinhas, com ou sem bagagem. Sorriam e cumprimentavam. Queriam sempre conversar e falar sobre a vida. Eu estava no sertão, longe do turismo e dos comportamentos previsíveis, mas ao lado de povo maltratado, sofrido, simpático, de bom coração.
Em Ibotirama optei por hotel simples, novo e barato, próximo à rodovia. Jantei em restaurante familiar, pequeno, com comida farta e saborosa. Do lado de fora, um carro qualquer detonava o som do porta-malas para toda a cidade ouvir.
Amanheceu dia ensolarado e brilhante, típico dia outonal. Fresco nas sombras, pela manhã e noite, mas quente e seco sob o sol. Ibotirama apresentava ruas estreitas com casas baixas, avenidas largas com sobrados, árvores mutiladas geometricamente, reduzindo as sombras e estragando a naturalidade do verde. Caminhei pela rua principal, cruzei o centro comercial e, mais à frente, atingi a orla do rio São Francisco. A murada alta, calçadão estreito, bares, restaurantes e, mais atrás, o palco voltado para apresentações culturais. O Velho Chico impressionava pela imponência. Barcos pequenos a motor e canoas a remo atracavam nos barrancos. Os moradores circulavam, a pé ou de bicicleta, pela orla arborizada. Paravam sob a sombra e observavam, sem pressa, as águas caudalosas do rio, o movimento eventual de peixes, os pássaros na procura de comida na superfície. Pescadores aproximavam-se da beira e tentavam a sorte com anzol ou tarrafa. Lavadeiras em grupos traziam baldes de roupa, estendendo-as depois para secar nas pedras. Amigos conversavam sob as sombras, namorados aproveitavam a calmaria.

A mata ciliar original na maior parte do curso do rio São Francisco tinha sido devastada e o solo fora exposto à chuva e ao sol. O volume, profundidade e qualidade das águas sofriam com a situação, causando assoreamento, poluição, diminuição e até extinção dos peixes, além de comprometer a qualidade de vida das populações ribeirinhas. Também não havia mais linhas regulares de barcos de passageiros, vapores, lanchas. O assoreamento criminoso do rio reduziu drasticamente a profundidade das águas. E as rodovias esburacadas que correm paralelamente ao rio decretaram o fim daquele meio de transporte, tradicional, simpático e eficiente. A necessidade da revitalização do Velho Chico estava há anos na ordem do dia.
O fundamentalismo e a indústria a religião continuavam a fazer estragos. O cada vez mais retrógrado vestuário das fanáticas piorava em Ibotirama com as roupas mais fechadas, mais conservadoras, mais ridículas. Dava pena de ver as crianças coagidas a vestirem coisas que as transformavam em idiotas. E aterrissou na cidade um grupo de cristãos fanáticos, ainda mais fervorosos, ocupando imensas caminhonetes. As mulheres vestiam roupas medievais, usavam corte de cabelo medieval, cobriam a cabeça com toucas medievais. Pareciam vindas da época da inquisição. Os homens, de ar carrancudo, vestiam-se normalmente, fazendo jus a essas seitas extremamente machistas.
Não havia terminal rodoviário em Ibotirama. O movimento acontecia nas lojas das empresas de ônibus, situadas em endereços diferentes. Muita gente e muita confusão. Nada de horários afixados em local visível ou plataformas de embarque e desembarque. Os passageiros corriam aos ônibus para saber de onde vinham e para onde iam. Os funcionários da bilheteria comunicavam apenas a partir de que horas o ônibus poderia partir.
continua...

terça-feira, 21 de setembro de 2010

do Mato Grosso à Bahia, via Amazônia (parte 6/7)

...continuação
Senhor do Bonfim estava irreconhecível quase vinte anos depois que encerrei minha temporada na cidade em 1981. A pensão onde morei ainda estava lá, mas as duas irmãs gêmeas que tocavam o estabelecimento faleceram havia tempos. Engoli três acarajés no bar da praça e tracei as próximas etapas da viagem.
O uso do moto-táxi pegara mesmo na região. Diversos pontos espalhavam-se pela cidade, todos ao preço de um real, para qualquer parte. Era o mesmo preço em todo o nordeste. Prático, ágil, seguro, barato.
Irritante e infindável a frequência em que muitos locais públicos da Bahia levavam o nome de Luís Eduardo Magalhães, o filhinho morto de Antônio Carlos Magalhães. Além do nome do pai, presente em dezenas de lugares, o do filho aparecia em escolas, hospitais, aeroporto internacional de Salvador, até em uma cidade do interior. E era justamente essa a cidade infestada de latifúndios de estrangeiros, da monocultura, de lojas de equipamentos agrícolas estadunidenses, de plantios da famigerada soja transgênica. A maioria da população local sobrevivia em meio à enorme miséria.
O ônibus para Euclides da Cunha saiu à tarde e cruzou por dentro a caatinga, esverdeada nessa época, com muitos sobes e desces de passageiros. Muitos dos que entravam alegavam estar sem dinheiro para a passagem. O motorista reclamava, esbravejava, mas tudo ficava por isso mesmo. Ao lado de Monte Santo erguia a serra com o longo e sinuoso caminho calçado de pedras pintadas de branco, pequenas capelas e oratórios ao longo da subida até o local tradicional de peregrinação desde os tempos de Antonio Conselheiro. O sol começava a se esconder atrás da montanha, no instante em que a enorme e brilhante lua cheia surgia no lado oposto.
Amanheceu dia de feira em Euclides da Cunha. Dezenas de ônibus e caminhões traziam o povo dos vilarejos ao redor. Toda a cena era marcada por fortes contrastes. Barraca singela vendendo fumo de corda em frente à loja de telefonia celular, cuja parede dividia com pequeno armazém comprador de farinha dos sertanejos, usando enormes e antigas balanças. Senhores sisudos vestidos de gibão e chapéu de couro ao lado de adolescentes de tênis e penduricalhos eletrônicos nas mãos e ouvidos. 
No percurso até Jeremoabo, passando por Bendegó, Nova Canudos, Candé e Água Branca, vi o açude de Cocorobó e partes da antiga igreja, acima do nível da água, construída pelos seguidores de Antonio Conselheiro antes do massacre de Canudos. Mais à frente, e na parte elevada da área reservada ao parque estadual de Canudos, havia o monumento ao Conselheiro, com a estátua branca, ele em pé, com a túnica e o cajado. Mais da metade da viagem transcorreu em estreitas estradas de chão. Era o sertão autêntico do Raso da Catarina, cortado de oeste para leste, ao longo do vale do rio Vaza Barris. Pequenas serras de cor ocre, formações rochosas avermelhadas, vilarejos e aldeias típicas, vaqueiros de gibão e chapéu de couro. Plantações de milho e mandioca, coqueiros, mangueiras e bananeiras nos oásis.

Um casal iniciou discussão acalorada dentro do ônibus. Ele a acusava de aprontar e ameaçava deixá-la. Ela, em prantos e com o recém-nascido no colo, oferecia-lhe a criança, mas ele recusava bruscamente. Em determinado momento, ele desembarcou, seguido por ela ainda chorando intensamente.
Em Jeremoabo embarquei em outro ônibus quase vazio. A estrada, teoricamente asfaltada, era um pesadelo. O ônibus balançava de ponta a ponta em meio a festival de buracos com pedaços de asfalto. Encontrei hotel confortável e caro em Paulo Afonso. Era noite, estava bem cansado.
Acordei cheio de expectativas de explorar a famosa estação ecológica do Raso da Catarina e me dirigi ao centro cultural de onde saíam os roteiros. O preço para o dia de passeio ao Raso da Catarina, incluindo serviços de guia e transporte, ultrapassava os limites aceitáveis. E o atendente simplesmente saiu da sala no meio da conversa para fumar e conversar no lado de fora. Dei o fora.
Comprei passagem para a cidade sergipana de Canindé, onde peguei caminhonete até Piranhas nova. Apertado e curvado pela lona baixa do teto da carroceria da caminhonete, vi a ponte sobre o rio São Francisco, divisa com o estado de Alagoas e, mais à esquerda, a hidroelétrica de Xingó, um monstrengo cinzento de concreto. Em Piranhas Nova subi em moto-táxi para descer a estrada sinuosa até a Piranhas Velha, nas margens do rio São Francisco. Logo na entrada, o impacto da beleza e do charme da cidadezinha, ruas estreitas, ladeiras, casas antigas. Ao lado, as águas esverdeadas do rio correndo entre as encostas secas da caatinga. Encontrei pousada no alto da escadaria com vista indescritível da cidade, morros, o vale profundo, o rio. O entardecer com aquela paisagem maravilhosa à frente me indicava que ali era o lugar para ficar. Em Paulo Afonso me juraram que a antiga cidade de Piranhas estava submersa pelas águas da hidrelétrica e em Canindé afirmaram que a cidade nova, por mais absurdo que parecesse, era mais bonita.
Antes do anoitecer, banhei-me nas águas do velho Chico ao lado da simpática praia de areias finas. Saboreei a peixada, degustei caipirinhas. Contemplei a lua cheia, enorme e prateada, subindo bem em frente.
As águas esverdeadas do rio São Francisco correm por dentro do vale profundo. Nos trechos mais estreitos e sinuosos apareciam corredeiras. Em ambas as encostas, o clima semiárido e a caatinga, pedras, diversos tipos de cactos. Na parte baixa da cidade o prédio da antiga estação ferroviária, desativada no fatídico ano de 1964, o do golpe. Até então ligava as cidades de Penedo em Alagoas e Jatobá em Pernambuco. O local abrigava o singelo Museu do Sertão. A seção dos objetos era pobre, porém a de fotografias exibia imagens interessantes. Eram detalhes dos cangaceiros de Lampião e Corisco, dos policiais ou volantes, antes e depois do assassinato de Lampião. A foto que mais chamou atenção foi tirada em 1998. O ex-volante e o ex-cangaceiro, ambos muito idosos, pousam apertando as mãos, sorridentes para a câmera.

Em poucos dias me sentia intimo dos moradores de Piranhas, os cumprimentava pelas ruas, conversava sem pressa. Um garoto me pediu um caderno, pois a família não tinha como comprá-lo. Não era esmola e sequer houve pressão ou chantagem emocional. Era apenas a necessidade imediata para frequentar a escola. À noite sentei na barraquinha na beira do rio e saboreei delicioso pitu fervido acompanhado de muitas caipirinhas. A calma e a brisa suave vinda do rio deixava tudo leve e agradável.
Não muito longe de Piranhas está o sítio de Angicos, local onde foram assassinados vários cangaceiros, inclusive Lampião e Maria Bonita. Desci de barco o rio São Francisco e avancei na curta picada pela caatinga até o local exato, em território sergipano. O sítio de Angicos era composto por um pequeno abrigo sob um bloco rochoso às margens de córrego temporário. Ali dormiam os cangaceiros quando foram surpreendidos durante a madrugada pelos volantes. Alguns conseguiram fugir, mas Lampião, Maria Bonita e outros companheiros não tiveram a mesma sorte. Foram imediatamente executados e degolados, tendo as cabeças exibidas nas cidades como troféus. Segundo o barqueiro e o garoto que me acompanharam na trilha, encontrou-se ali na época dinheiro e ouro, saqueados e usados pelos volantes para comprar imóveis e enriquecer da noite para o dia. Em 1998, cem anos do nascimento e sessenta do assassinato de Lampião, foi colocada placa comemorativa e a cruz ao lado de outra mais antiga. Periodicamente, nas datas importantes, são realizadas missas no local.
Encontrei vários alagoanos que costumavam fazer o trajeto de barco entre Penedo e Piranhas. Vestiam camisetas com frases de protesto contra os planos de transposição do rio São Francisco. As mangas frescas e maduras, colhidas nos pés ao redor do local, temperaram o ambiente de conversas e reflexões. 
Na parte da tarde, em Piranhas, fiquei na beira do rio bebendo umas, beliscando tira-gostos e dando mergulhos para me refrescar. De repente um forte vendaval levantou tudo e foi areia para todos os lados, olhos, nariz e boca. Mais mergulhos e estava limpo e refrescado novamente. Como por encanto a cidade adormeceu completamente no começo da noite. Os barzinhos da praia, as escolas e todos os cantos da cidade mergulharam em gostoso silêncio. Demais caminhar pelas ruas desertas, ao som apenas do vento e das folhagens.

Reservei o dia para não fazer absolutamente nada e agir conforme o vento. Caminhei preguiçosamente pelas ruas da cidade. Conversei com um aqui e outro ali, amarrei meu burro no barzinho na beira do rio e lá fiquei entre bebidas, comidas e mergulhos nas águas.
Ouviam-se repetidamente os grupos Mastruz com Leite, Caviar com Rapadura, Calcinha Preta e tantos outros. As melodias seguiam padrão primário e dançante, com letras sofríveis. Pegavam sucessos internacionais, colocavam qualquer letra, acrescentavam batidinhas programadas e estavam prontas para o consumo. Nas gravações ao vivo não se cansavam de frases do tipo “que lindo!”, “está demais!”, “jamais esqueceremos de vocês!”. Como os grupos são incontáveis e parecidíssimos, entre as músicas ou mesmo durante elas, sempre martelavam com o nome da banda e o do disco: “É o Calcinha Preta, Ao Vivo, Volume 5, O melhor do forró pra você...” e outras preciosidades.
Não havia transporte direto para a capital Maceió. Peguei ônibus até Delmiro Gouveia, em cuja praça motoristas e ajudantes de várias caminhonetes gritavam os próximos destinos, mas nada de Maceió. Acertei o preço para a cidade de Arapiraca, mas ainda esperei o veículo lotar. Nas rodinhas masculinas formadas na praça se ouvia a realidade regional. Embora entrecortada por ruídos, ouvi o homem dizer:
“aí o cara matou a mulher grávida com uma faca...”.
E o outro arrematar:
“mas ela merecia, desrespeitou o homem”.
Cruzar o sertão escancarou a Alagoas miserável, seca e desolada. A caatinga, embora ligeiramente esverdeada pelas chuvas, mostrava-se rala e pobre. Pequenas serras cobertas de pedras cercavam os vales e baixadas com esparsas plantações de palma para alimentar o gado nas épocas secas. As cidades e vilas eram invariavelmente feias, cinzentas, tristes. Olho d’Água do Casado, São José da Tapera, Olho d’Água das Flores, Batalha, Jacaré dos Homens. As estradas apresentavam trechos em péssimo estado, cheias de buracos. Crianças recolhiam com pás a terra da beira da estrada e a depositavam nos buracos do asfalto. E estendiam as mãos, pedindo esmolas pelo trabalho realizado. Não vi ninguém dar nada. Miséria e indigência pura e simples. Em São José da Tapera notei várias frases escritas na parede de uma casa, oferecendo serviços de costura, eletricista, encanador e reformas em geral. Demorei a entender, pois não havia uma palavra sequer escrita segundo as regras gramaticais do português oficial. Na cabine da caminhonete o senhor de cinqüenta e poucos anos bradava que traçava até quatro mulheres por dia. Sentia-se preocupado por não conseguir gozar na quarta mulher, e indignado pelo fato dela, a quarta, gozar três vezes.   
O micro-ônibus em Arapiraca, a terceira etapa do trajeto desde Piranhas, deu grande volta pelo litoral até estacionar em Maceió.

Apesar da intensa urbanização das praias, edifícios altos, da horda de turistas, a orla de Maceió continuava bonita e agradável. Os usuários desfilavam roupinhas novas, camisetas e tênis da moda, o uso incansável dos telefones celulares e assim por diante.
Estava em transição a mudança da entrada de passageiros, da porta traseira para a porta dianteira, nos ônibus urbanos da cidade. Parte da frota funcionava da maneira nova, outros ainda seguiam o processo antigo. Somente as pessoas já embarcadas sabiam o segredo, daí a gritaria para os de fora quando corriam para a porta traseira:
“é pela frente!”, “não é aí não!”.
Colocavam os braços para fora da janela e batiam na lataria do ônibus. Os passageiros ocupavam, mas sem sentar imediatamente, o assento recém-liberado. Ainda de pé, esperavam esfriar, ou ao menos passar a quentura do usuário anterior.
Caminhei preguiçosamente entre as praias de Ponta Verde e Jatiúca, alternando com rápidos mergulhos para me refrescar. Revi a distante praia da Sereia. Durante o percurso, passando por Jacarecica, Guaxuma, Garça Torta e Riacho Doce, as construções e urbanizações não afetaram demasiadamente as praias, os coqueirais, o azul do mar.
Embarquei em ônibus sem o desnecessário ar condicionado. A paisagem tornou-se mais acidentada, perigosa, e interessante, no meio da Bahia, a partir de Itaberaba. As centenas de crateras e a lamentável conservação da via obrigavam os veículos a acrobacias e desvios. Mais grupos de miseráveis tapavam os buracos com areia ou terra e depois pediam dinheiro. Desci no trevo de Lençóis para, logo depois, subir em lotação proveniente de Seabra.
Lençóis se enchia de turistas, na maioria estrangeiros, que se concentravam à noite nos bares e cafés para ouvir rock e reggae, como em qualquer ponto de concentração deles ao redor do mundo. E somente entre eles, ignoravam as demais pessoas ao redor. Mas a cidadezinha ainda encantava, com os baianos simpáticos e hospitaleiros.
Peguei trilha curta e fácil às cachoeiras e corredeiras do ribeirão do Meio, vazia e bastante agradável para se refrescar ou mesmo não fazer nada, apenas contemplar a natureza ao som gostoso das águas.
A proximidade do feriado de carnaval preocupava, pois deixaria a cidade lotada e nada atraente. Acertei longa travessia de oito dias com acampamento, saindo de Lençóis, passando por baixo da Cachoeira da Fumaça, vale do Capão, vale do Pati, até a cidade de Andaraí.
       O guia apareceu bem cedo, acompanhado da canadense e do iraniano. O casal se conhecera durante passagem pela Bolívia. Dividimos a comida nas mochilas cargueiras. Peguei o saco de dormir e o isolante, ambos alugados. A trilha começou a subir bastante em meio à vegetação agreste e a antigas tocas usadas por garimpeiros. O visual no alto da chapada oferecia escarpas íngremes, pedras, gargantas, cachoeiras, vales profundos. Subimos no mirante sobre grande pedra para lancharmos e apreciarmos a paisagem. O caminho seguia por trechos com obstáculos de fácil superação. Paradas providenciais e refrescantes nas cachoeiras do Palmital e Capivara reanimaram os corpos. Acompanhamos o rio sobre as pedras escorregadias das margens até encontrar o riacho da Fumaça, por onde subimos pelas lajes de pedra e, mais acima, encontramos o local das próximas duas noites. Ao lado, duchas refrescantes e piscinas naturais para qualquer hora. Não trazíamos barracas e dormiríamos dentro das tocas de pedra em caso de chuva.
continua...