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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Escandinávia (parte 4/4)

...continuação
Subimos no barco rumo a Svolver, ao norte. O tempo nublado e chuvoso mais a proximidade da costa fez a embarcação balançar. Após a chegada, enquanto aguardávamos o próximo barco, entramos em pub a fim de nos protegermos do mau tempo. Sentamos com três garotas alemãs divertidas, pedimos apenas uma bebida para não gastar muito. Enrolamos como pudemos. Contamos histórias, piadas, debochamos. O inglês mais tímido e recatado se escandalizava com nossas falas e ações, alegando que o deixávamos embaraçado. Todos riam ainda mais, inclusive o outro inglês, falante e descontraído.     
Nova partida em barco quase à meia noite. O tempo ruim continuava e a rota se aproximava à linha da costa, provocando fortes oscilações em meio às ondas altas formadas no mar. O pior trecho, até a conhecida Stamsund, causou ataques de mal estar na maioria dos passageiros. Muitos corriam aos banheiros para vomitar o que tinham e o que não tinham no estômago. Exibiam expressões de pânico, faces pálidas e esverdeadas. Nem as instruções de se manterem deitados nos pisos acarpetados amenizava a situação. A todo instante alguém se levantava e, com as mãos na boca, cambaleante, se dirigia rapidamente ao banheiro mais próximo. Eu me estendia no carpete, tentava conversar, respirava fundo. Enjoei também, mas sem vomitar. O inglês recatado era, disparado, o que mais sofria. Mas nunca se esquecia de pedir desculpa e licença antes de fugir para o vaso sanitário, de quem se tornou o maior companheiro na viagem.
Embora tentássemos adormecer, nada do sono envolver e afastar momentaneamente daquela tortura. O barco levantava a proa, voava sobre as ondas, depois despencava novamente, batendo violentamente contra as águas. Logo em seguida começava tudo novamente. Mesas e cadeiras das áreas sociais do barco prendiam-se ao piso por molas de aço, o que as impedia de sumirem pelos ares.
Após a escala em Stamsund, no meio da madrugada, o barco tomou rota afastada da terra, enfrentou águas mais calmas e a paz voltou a reinar. Usei a bagagem como travesseiro e consegui dormir. Os demais passageiros também desmaiaram de cansaço.

Desembarque pela manhã, sob o céu escuro e ameaçador, na cidade litorânea de Bodo, grafada com o segundo “o” cortado em diagonal. Ventava e chuviscava de maneira intermitente. Sem descansar dos dois desgastantes percursos de barco, do arquipélago das ilhas Lofoten ao continente, nós embarcamos em trem com destino a cidade de Trondheim. 
A diversificada paisagem evoluía entre montanhas, vales profundos, rios, lagos, fiordes esverdeados. Vales separavam vilas, bosques de pinheiros, trechos pedregosos e cobertos de vegetação rala amarelada ou alaranjada. Os rios alternavam entre caudalosos, verdes, cobertos de espessa neblina, e acinzentados e cheios de cascalhos.
Conversei bastante com os ingleses, sobretudo com o mais comunicativo. Desprendido e desapegado de posses materiais, ele planejava diversas viagens à Europa, África e Ásia. As norueguesas dos vagões do trem eram demasiadamente loiras, quase transparentes, de rostos e corpos arredondados, estaturas baixas, troncudas. E jamais sorriam ou se interessavam em conversar com estrangeiros.
Após quase vinte e quatro horas de viagens em dois barcos e um trem, desembarcamos em Trondheim à noite. A compensação veio com o excelente albergue da juventude, grande, impecavelmente limpo, tranquilo. Poucos hóspedes ocupavam as dependências, dando para escolher a cama nos quartos coletivos. Os dois ingleses preferiram seguir adiante.
E o café da manhã fez jus ao todo, servindo diversos tipos de iogurtes, pães, tortas, frutas, queijos, cereais, sucos. Os ovos cozidos eram separados pelo tempo de cozimento, 1 minuto, 3 minutos, 5 minutos, 7 minutos. E o banquete estava incluído na salgada diária, bem norueguesa.
Trondheim alegrava-se naquela manhã de sábado com muita gente circulando nas ruas e praças. Diversos trechos contavam com moradias exclusivamente de madeira, recém-pintadas, com vasos de flores nas entradas. A colina a oeste proporcionava visão ampla e privilegiada da cidade. As residências construídas nos altos eram brancas, de madeira, em sobrados, exibindo janelas com cortinas e pequenas floreiras debruçadas na calçada. O dia nublado e com pouca luz ofuscava a beleza do fiorde situado entre a cidade e o mar. Datada do século XI, a imponente catedral impressionava mesmo com a falta de luz nos interiores, evidenciando a atmosfera medieval e as pedras expostas.
Encontrei chilenos exilados durante manifestação de rua contra a ditadura militar do Chile, que massacrava o povo graças ao apoio direto do regime dos Estados Unidos. Informações esclarecedoras denunciavam a presença de dezenas de milhares de chilenos obrigados a morar fora do país em virtude de perseguições, torturas, assassinatos cometidos pela ditadura.
Cansado de comer sanduíches de itens dos supermercados, encarei pizza rápida no almoço e sanduíche com fritas em lanchonete no jantar. Gastei muito, sem por isso ficar satisfeito e bem alimentado. E a proximidade de Oslo, a capital norueguesa, fazia os preços subirem ainda mais.
À noite, como nas demais cidades pequenas, médias e até algumas grandes, da Escandinávia, tudo ficava deserto. Ninguém nas ruas, praças, restaurantes e lanchonetes em pleno verão norueguês. A fim de fugirem da atmosfera triste e pesada, espantar a solidão, os noruegueses de Trondheim lotavam as inúmeras máquinas de caça-níqueis, espalhadas nos quatro cantos da cidade. E, é claro, não faltavam os bêbados solitários, perambulando com garrafas nas mãos. Às vezes cantavam, às vezes pediam dinheiro, às vezes perturbavam os raros transeuntes.
A caminhada sob a chuva fina do albergue à estação ferroviária me deixou arrepiado de frio. E, com as roupas molhadas, embarquei pela manhã rumo à capital norueguesa.
O serviço a bordo do trem vendia salgadinhos, sanduíches, refrescos, a preços absurdos, regra nos trens europeus. Reparei em diversos noruegueses, homens e mulheres, novos e velhos, o movimento repetido e nervoso de, subitamente, abrir a boca, inspirar e expirar rápida e intensamente. Nas primeiras oportunidades, distraído, me assustava, pois parecia que fariam, logo em seguida, algo brusco e violento.
E a paisagem continuava a dar espetáculos. Altas montanhas, muitas cobertas de neve, vales profundos com cascatas e pequenas cachoeiras, planaltos, velhas cabanas de madeira. A vegetação escassa e amarelada rareava nas alturas junto à neve permanente. Nas regiões mais baixas predominavam bosques, pequenas plantações, chácaras. Dava vontade de desembarcar e seguir a pé, a fim de apreciar tudo lentamente, sem pressa, degustando, sobretudo entre Oppdal e Dombas. Após Lillehammer, o relevo aplainou-se e um lago grande e alongado surgiu a oeste.
No meio da tarde desembarquei na estação ferroviária de Oslo. De bonde cheguei ao albergue da juventude. Reencontrei os dois ingleses e o casal alemão que se recusara a embarcar no porto de Narvik. A boa recepção dos colegas aliviou o atendimento rude e grosseiro da recepção do albergue. O funcionário odiava responder perguntas, exibindo expressão enojada, não fazendo questão de esconder o racismo guardado. A diária em quarto coletivo era a mais cara já vista na Europa.
Sobretudo na zona central, Oslo mostrava-se confusa, poluída, barulhenta. O tráfego incomodava, obras dificultavam a circulação de pedestres. Motoristas infringiam as leis estacionando os veículos nas calçadas. Bêbados abundavam pelas ruas e estação ferroviária. Jovens vestindo roupas rasgadas e sujas juntavam-se em bandos pelas esquinas. E o tempo, invariavelmente cinzento, não ajudava em nada. Destino de asilados em geral, a capital exibia rostos de refugiados do Paquistão, Sri Lanka, de países africanos e americanos.
O extenso parque Frogner destoava do cenário desolador da cidade. Gramados sem fim, árvores simetricamente plantadas, bancos estrategicamente posicionados. Muita paz e tranquilidade em meio ao verde intenso. Em obeliscos ou estátuas, as obras de artista plástico norueguês se destacavam na parte central do parque. Apesar do frio cortante e úmido, eu adorava perambular pelos vazios daquele oásis de sossego. Outros parques menores mostravam que, pelo menos nisso, Oslo estava de parabéns.

A cinco quilômetros do centro, em meio a bucólico parque, o museu Viking guardava navios naufragados e resgatados no final do século XIX. Eram embarcações datadas do ano 900 antes de cristo. Valia a visita apesar de apenas dois navios inteiros e peças mal conservadas nos interiores.
Última noite na cidade mais cara do país mais caro da Escandinávia. Decidi me esbaldar e comer bem. Optei por restaurante de comida italiana. Nada de lanchonete ou comida rápida. Restaurante italiano legítimo, com cheiro de comida de verdade. Escolhi talharim ao sugo com fatias de calabresa, mais travessa de pães italianos para acompanhar e reforçar. Molho de tomate de verdade, nada de creme ou concentrados insípidos. Saboroso. Lambi os beiços, esfreguei as fatias de pão no prato até ele ficar bem limpinho. Gastei a fortuna mais bem gasta da viagem. Despedida perfeita da hostil e sombria Oslo, mas também da bela e cara Noruega.
Embarquei cedo em trem à cidade sueca de Gotemburgo. O relevo do sul da Noruega apresentava-se ondulado, com pequenas chácaras, plantações, poucas fábricas. Em áreas não povoadas, extensos bosques de pinheiros. O tempo claro e ensolarado finalmente voltara. Já em território da Suécia, a nova cobradora do trem, agora sueca e trabalhando em companhia da filha, exibia expressões mais leves e alegres.
Desembarquei no meio do dia em Gotemburgo. Atravessei correndo a rua em frente à estação para pegar o bonde até o porto. O horário extremamente apertado me deixava apreensivo. A condutora me orientou onde eu deveria descer, sempre sorrindo e me tranquilizando que eu chegaria a tempo. Desembarquei na boca do porto. A balsa já apitava. A sueca da bilheteria me aconselhou a correr e pagar a passagem a bordo. Atravessei a ponte de embarque no exato momento que o marujo se preparava para retirá-la. Se perdesse aquela, eu teria que esperar horas, complicando as conexões seguintes.
Em meia hora de retorno à Suécia, comprovei a solicitude e educação dos suecos. Definitivamente não sentiria saudades dos noruegueses. Menos ainda dos finlandeses.
Depois que a balsa atracou no meio da tarde, eu já andava em solo dinamarquês, na cidade de Frederikshavn. Caminhei à estação ferroviária, com tempo suficiente de pegar o trem para Aalborg. A paisagem plana cortada pela ferrovia agradava pelas pequenas casas esparsas nas plantações e chácaras. Grandes hélices metálicas coletavam energia eólica. A tênue luz do entardecer realçava os contornos.
Já em Aalborg, peguei ônibus urbano ao albergue da juventude. Tomei banho reconfortante, guardei as coisas no armário individual do quarto e me dirigi ao centro da cidade para saciar minha fome daquele dia sem almoço.
Dividida em duas pelas águas do fiorde, Aalborg contava com movimento agitado de pessoas e veículos, conquistando pela harmonia do urbanismo, construções antigas, ruas estreitas e sinuosas, tudo enfeitado e bem conservado. Não faltavam no centro bares, restaurantes e pubs, ao longo de calçadão exclusivo para lazer noturno, colorido, aventando grandes noitadas.
As dinamarquesas agradavam aos olhos, sobretudo se comparadas com as troncudas norueguesas. Porém eu ainda não estava diante de beldades irresistíveis. De qualquer maneira, a atmosfera geral passava mais descontração e leveza que a Noruega.
Os vagões do trem com destino a Copenhague lotaram e oscilaram bastante sobre os trilhos. E fez-se a luz! Não mais que de repente, para a felicidade geral da nação, a porta da cabine abriu. E entrou a condutora para conferir os bilhetes. Vinte e poucos anos, cabelos lisos e dourados, olhos claros, traços delicados, expressão jovem e alegre, sorriso natural, olhar oblíquo. Mesmo vestindo terrível uniforme azul escuro, ela me fez esquecer a lotação, os balanços fortes do trem, a frieza generalizada dos escandinavos. Loira com o charme e a sensualidade de morena, simplesmente era a mulher mais bonita e atraente de toda a viagem. Não me esqueceria dela tão cedo.
A monótona paisagem rural mantinha-se aplainada, com plantações, chácaras, vilarejos minúsculos. O trajeto cansou pelas quase vinte paradas até a capital, pela cabine cheia, abafada e carente de boas conversas. Fazendo frio ou calor, os dinamarqueses vestiam longos casacos ou jaquetas. E, tão logo entravam na cabine do vagão, fechavam janelas e portas, ligavam o então desnecessário aquecedor. O mesmo valia para os ônibus.
Depois da parada na cinzenta Arhus, a densidade populacional cresceu com mais vilarejos e plantações na ilha de Funen, unida por ponte à porção norte do país, chamada de Jutland. Os bosques já não eram comuns. Escala na cidade de Odense, com melhor aspecto que a anterior Arhus. Em travessia demorada, o trem subiu em balsa a fim de ser transportado até a ilha de Zealand. Antes, a composição se dividiu em várias partes que se juntariam do outro do lado do mar. Os passageiros aproveitaram e desembarcaram rumo ao bar, restaurante, áreas de lazer.
E a cabine permanecia lotada, majoritariamente de idosos mal humorados.
Depois de horas de percurso cansativo, desembarquei na estação ferroviária de Copenhague. Na plataforma procurei pela estonteante cobradora vestida de azul escuro. Em vão.
Desta vez optei pelo albergue mais distante, porém superior em tudo ao desorganizado do centro. Até o atendimento na recepção indicava um estabelecimento decente. Sem falar dos quartos bem conservados, banheiros limpos, hóspedes sociáveis. E mais barato.
Reencontrei a colega, dinamarquesa legítima, junto da qual fiquei até altas horas da madrugada, entre conversas e impressões. Embora exageradamente inquieta e carente, se tornou companhia agradável naquele final de viagem. À noite, o numero de bêbados crescia vertiginosamente, cambaleando pelas ruas e calçadas, gritando alto contra tudo e todos.
No dia seguinte ela e eu fomos a Roskilde, cidade com o fiorde e a catedral onde estavam enterrados os antigos reis da Dinamarca. Permanecemos apreciando o verde e a paz em parque próximo.
As escandinavas ocupavam diversas funções de trabalho, antes consideradas exclusivamente masculinas. Adiante da maioria dos países do mundo, elas dirigiam ônibus, metrôs, bondes, trens, máquinas perfuratrizes, tratores, motores de embarcações de diversos tamanhos, veículo de carga.
Revimos pontos já conhecidos de Copenhague. Entramos no interessantíssimo museu de holografia, e também no museu de Artes.
Me despedi da coleguinha ciente de que jamais nos veríamos novamente.
Desembarquei em São Paulo em fins de setembro, depois de um mês de viagem gratificante, mais pelos momentos e contatos humanos vividos do que pelos lugares visitados.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Escandinávia (parte 3/4)

...continuação
Embarquei em trem rumo a Kemi, onde após pequena espera, peguei ônibus para Tornio ainda na Finlândia, de onde embarquei em novo trem para cidade sueca de Haparanda, com desembarque no meio do dia. Ali a espera foi longa. Aproveitei para dar uma volta.
Na beira do mar báltico, a pequena Haparanda envolvia pela singeleza, ordem e limpeza. Ruas arborizadas guardavam casas em cores vivas e flores nas janelas. Ninguém nas ruas. A pouca comida que eu trouxera não deu conta da fome. Calculei mal as coroas suecas restantes, não havia bancos abertos, nem chances de obter mais dinheiro. A única alternativa foi comprar uma barra de chocolate para enganar o estômago.  
Finalmente, depois de horas, novo embarque em trem com destino a Boden. O relevo, sempre plano, exibia extensos bosques, pastos de ovelhas ou gado, algumas casas vermelhas ou amarelas. Pouco antes da chegada, ao anoitecer, como se estivesse pegando fogo, o céu se tingiu de cor púrpura, luminoso, incandescente. Ninguém tirou os olhos daquela maravilha.
A espera em Boden pelo novo trem foi ainda mais longa e desconfortável. Os funcionários fecharam a estação ferroviária à noite e os passageiros de conexão tiveram que ficar ao relento. A noite caiu e, com ela, o frio cortante. A passagem subterrânea sob a ferrovia serviu como o único refúgio contra o frio e o vento. Mas o corredor era vazio e com paredes cimentadas, amenizando apenas parcialmente. Vesti tudo o que tinha direito, me agitando para não congelar.
Como posto militar no norte da Suécia, a cidade de Boden não oferecia nada de atraente para ver ou fazer, sobretudo em uma noite gelada. Bem que tentei circular pelas principais ruas. Tudo escuro, fechado, vazio. Apenas o som do vento e de meus passos se ouvia naquele fim de mundo da Lapônia sueca.
Retornei à passagem subterrânea. Me aproximei de dois ingleses comunicativos, evitando quatro italianos do norte que esbanjavam arrogância, presunção e racismo. Não era sem motivo que os italianos do sul os rotulavam de austríacos frustrados. Um dos ingleses, o mais falante, salvou o ambiente, ajudando passar o tempo e a espantar o frio.
E, depois de sofrer a tortura de mais uma espera sem fim, do frio insuportável, sem dormir, a estação reabriu. O trem encostou e partiu no absurdo horário das 2:15h da madrugada.

Chegada a Kiruna ao amanhecer em meio a morros e colinas cobertas de vegetação rala. Do lado oposto, encontrava-se uma mina de ferro. Meia hora depois embarque em novo trem, a sexta e última conexão do trajeto entre Rovaniemi, na Finlândia e Narvik, na Noruega. Ninguém aguentava mais.
O relevo mantinha-se com leves ondulações, colinas cobertas por vegetação mais rala. Aumentavam as latitudes, subiam as altitudes, o solo tornava-se mais árido e rochoso. Lagos surgiam nas margens da ferrovia. A névoa matinal que os cobria fornecia efeito visual interessante. Nenhum sinal de vida, casas ou plantações. E o relevo tornou-se mais acidentado após a estação de Abisko. As minúsculas estações ferroviárias atendiam quase que exclusivamente montanhistas e escaladores.
Nas imediações da fronteira norueguesa a paisagem ficou ainda mais dramática. Vales estreitos e profundos cortavam montanhas escarpadas e cobertas com finas camadas de neve. E o lindo fiorde de águas transparentes nos deu as boas vindas ao norte da Noruega.
No meio da manhã, depois de vinte e cinco horas de trens e ônibus pelos nortes da Finlândia, Suécia e Noruega, de longas esperas, do frio intenso, da noite sem dormir, cansado e faminto, eu desembarcava em Narvik na Noruega. Todos suspiraram aliviados. A maioria, como eu, hospedou-se no albergue da juventude.  Os dois ingleses seguiram adiante.
Situada 300 quilômetros ao norte do círculo polar ártico, Narvik agradava, sobretudo em razão do belíssimo fiorde ao lado e das montanhas escarpadas, parcialmente cobertas de neve e gelo. Por ser o único a nunca congelar no inverno, o porto da cidade tornou-se o principal do norte da Escandinávia. A maioria das residências era de madeira e pintada em cores vivas. Cenário típico escandinavo se exibia nas imediações das águas azuladas do fiorde, oriundas do derretimento da neve das montanhas. 
Os preços da alimentação do norte da Noruega conseguiam a inglória proeza de superar os dos vizinhos escandinavos. Impossível de comer nos restaurantes. Como saída, havia os supermercados com pães, sucos, frios, queijos, chocolates.
À tarde o tempo fechou. Baixou nuvem escura e carregada cobrindo as montanhas. A temperatura despencou, ventou forte, ameaçou chuva. Restou o acolhedor salão social do albergue que concentrava a maioria dos hóspedes.
À noite, depois de comer o que comprara no supermercado, com frio e chuva do lado de fora, me juntei ao pessoal que se sentava ao redor de grande mesa do albergue. Diversas partes do mundo se reuniam ali para conversar, ouvir, aprender, trocar ideias, passar o tempo. Todos se revezavam em saciar a curiosidade dos demais a respeito dos respectivos países. Queriam saber da geografia física e humana, situação social e política, cultura, esportes, detalhes desse e daquele tipo. Momentos para lá de agradáveis, quebrados somente pela chegada de um estadunidense. Brotou mal estar em todos assim que souberam a origem do infeliz. E o sujeito começou a perguntar qual a marca e o ano do carro de cada um. Ninguém deu bola à tamanha estupidez. Não satisfeito, pegou as vítimas do lado e, sem que se mostrassem interessadas, passou a descrever avidamente o modelo, a cor, o ano, as características mecânicas, do carro que alegava possuir, entre outras bobagens consumistas.
Demorou muito para que a prepotência do estadunidense lhe permitisse perceber que não era bem-vindo por ali. Saiu de mansinho e com olhar desentendido. A paz voltou a reinar naquela mesa cosmopolita. Por boas e longas horas.
Eu e mais quatro alemães fomos bem cedo ao porto da cidade. Planejávamos seguir ao arquipélago das ilhas Lofoten. Fazia frio naquela manhã nublada e chuvosa. O preço, que só soubemos depois de embarcar, era norueguês demais. Caríssimo. Não sabendo quando e se eu voltaria àquela parte do mundo, decidi encarar a empreitada. Os alemães se recusaram a pagar e desembarcaram imediatamente. Não sem antes, a alemã mais alta, e que parecia a líder do grupo, se despedir de mim com forte abraço e um molhado beijo na boca.

E o barco partiu com mais dez passageiros desconhecidos. O trajeto foi tranquilo e confortável, pouco balançando a embarcação moderna, aquecida, acarpetada. Depois de rápida escala numa ilhota, o barco continuou o percurso por entre ilhas montanhosas até parar em Svolver.
O escritório de turismo estava fechado. Apelei para a central de polícia, onde me informaram a suposta localização do albergue da juventude. Mas não consegui encontrá-lo. Após conversar, ou o que quer que os dois australianos rudes com quem cruzei no percurso chamassem aquelas frases cuspidas, decidi seguir até Stamsund, outra ilha do arquipélago.
Como o barco já partira, embarquei em ônibus no rumo sul. O trajeto reservou minúsculos vilarejos na beira do mar, com casas de madeira em cores vivas. Atrás, onipresentes montanhas escarpadas, rochosas, de picos pontiagudos. Novas, estreitas e sem acostamento, as estradas proporcionavam emoção e perigo nas curvas. O ônibus cruzou várias pontes antes de atingir o destino final.
Depois de passar por Leknes, desembarquei à tarde em Stamsund, pequeno vilarejo de pescadores varrido pelo vento e chuva fina. O pequeno porto, o comércio modesto, os inúmeros barcos atracados pareciam abandonados naquela tarde horrível. Caminhei até o albergue da juventude.
Galpão informal de madeira e isolado na beira do mar, a espelunca mais parecia brincadeira de mau gosto. O ambiente interno, por outro lado, com ares de república estudantil, seduzia pela liberdade e descontração, raras portas, paredes ou divisórias. Os hóspedes nem reparavam no que os outros faziam ou deixavam de fazer, mesmo estando bem ao lado. O albergue cobrava caro por cinco minutos de banho em instalações precárias, do lado de fora. Quem se dispusesse a pagar, teria que enfrentar o vento, a chuva, o frio, na ida e na volta do tal banho. Não notei ninguém com tamanha coragem. E não fui exceção.
Reencontrei os colegas ingleses da via sacra de Rovaniemi a Narvik. Encaramos aquele tempo sombrio, a estrada sem acostamento, e fomos comprar comida no supermercado do centrinho. Não vimos nenhum restaurante na vila de Stamsund.
O albergue possuía cozinha coletiva no andar térreo e o cheiro de comida se propagava pelo recinto, inclusive ao mezanino acima, onde se espalhavam colchões e sacos de dormir. Tudo escancarado e misturado. O clima entre os hóspedes contagiava pela atmosfera de paz e amor. Beiraria a perfeição se ali se encontrasse uma, pelo menos uma mulher com o mínimo de atributos elogiáveis. Mas todas eram assustadoras sob quaisquer ângulos. E muitas estavam acompanhadas dos respectivos. Nem sei o que aconteceria se, por algum desastre natural, todos ficassem retidos ali por semanas e mais semanas, isolados do mundo.
Depois de muita comida, papo gostoso, o sono veio devagar, pegando um a um. O albergue, finalmente, mergulhou no silêncio da noite. Nem reparei em roncos ou outros ruídos.
Amanheceu com o clima peculiar da região. Nublado, frio, com chuva fina, vento forte. As raras pessoas que se aventuravam pelas ruas e estradas curvavam-se para se protegeram. Os hóspedes do albergue permaneciam recolhidos e cobertos de roupas. Iam às ruas apenas na busca de mais comida. Rodinhas se formavam na cozinha e invariavelmente próximas aos fogões. Eu e os ingleses decidimos partir aquela noite.
A retirada incluía esdrúxulo roteiro até o continente. Primeiro um barco rumo norte, a Svolver, depois outro barco rumo sul, a Bodo, mas com a aparentemente inexplicável escala em Stamsund, justamente onde estávamos. É que queríamos, a todo custo, evitar as tarifas ainda mais caras das sextas-feiras, o dia seguinte. Abrimos mapas, consultamos horários de barcos. O esquema das conexões não poderia furar.
E lá fomos nós, no começo da noite, com todas as bagagens, até o porto de Stamsund. Éramos em mais de dez pessoas.
continua...