Mostrando postagens com marcador c.Ásia-Camboja. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador c.Ásia-Camboja. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

do Nepal ao Camboja (parte 11/12)

...continuação
De madrugada, lotação ao lago. E o barco expresso, grande, rápido, desconfortável, inseguro. No meio do trajeto, o piloto do barco não atendeu aos chamados e os policiais dispararam rajadas de metralhadora. Nem reparei se alguma bala atingiu o barco.
A pé o longo trajeto do rio ao hotel em Phnom Penh. E, desaconselhável pela insegurança das ruas à noite, no restaurante do térreo, camarão ao alho e óleo, diversos copos de chá gelado com limão, café com leite gelado. Servido em copo cheio de gelo, o café misturado com leite condensado realmente deliciava. Não dava para parar de tomar. Ganhava disparado daqueles ótimos servidos no Vietnã dois anos antes. Comer e beber bem levanta a moral de qualquer cidadão.
De dia na parte norte de Phnom Penh, por avenidas e ruas planejadas, parecidas entre si. Não havia edifícios altos, mas extensos conjuntos de cinco andares, e casas, a maioria mal conservada. Muitas ruas não contavam com pavimentação e levantavam muita poeira misturada com lixo. Deficientes físicos e mulheres com crianças no colo pediam esmolas pelas calçadas. As imediações do mercado e feiras livres se destacavam pelas cores, povo sorridente, cenário fotogênico.
À tarde, o museu Tual Sleng, nada além de peça de propaganda do governo. Exibia fotos e gráficos ininteligíveis dos crimes do regime dirigido por Pol Pot e o Khmer Vermelho entre os anos de 1975 e 1978. Mas estranhamente suprimia os também hediondos crimes cometidos por quase cem anos de ocupação pela França, e pela invasão dos Estados Unidos por mais de dez anos.

O governo de plantão no Camboja, alinhado aos países imperialistas, desejava que o povo cambojano esquecesse as atrocidades impostas pelos regimes francês e estadunidense. Falsificava a história e não explicava que o governo extremista de Pol Pot tomou o poder graças ao vazio deixado pelas sucessivas guerras de agressão imperialistas. Também não explicava que em 1978 o país foi libertado da tirania de Pol Pot pelo exército do Vietnã. Pol Pot e o Khmer Vermelho se refugiaram nas montanhas, aterrorizaram a população e receberam apoio financeiro e militar dos Estados Unidos. A luta heroica pela independência do país, com tantos mortos, feridos, traumas, envenenamento do solo, águas, plantas, devido ao uso indiscriminado de armas químicas pelo exército estadunidense, jamais poderia ser ignorada, desprezada ou distorcida. Depois do sofrimento do povo por mais de um século, a antiga classe dominante, servil ao imperialismo e colaboradora nos massacres da população, voltara ao poder assim que o exército vietnamita deixou o Camboja. E ainda era chefiada pelo mesmo rei submisso da época das invasões.
Em outro ponto da cidade, nos campos de extermínio do regime de Pol Pot, vidros cheios de crânios e pedaços de roupa, buracos vazios pelo chão, acima dos quais escreveram legendas do tipo “vala comum dos adultos”, “vala comum das mulheres e crianças”, “vala comum dos sem cabeça”. E pensar que nenhum centavo do dinheiro arrecadado nas visitas daquilo fluía para o pobre povo cambojano. Não era de se estranhar os pedintes mutilados que se arrastavam pelas ruas, ignorados pelo rei.
Além dos mochileiros de sempre, o restaurante do hotel contava com suspeitos frequentadores, invariavelmente estadunidenses, apresentando idade superior aos 50 anos e aspecto militar ou paramilitar. Debatiam assuntos geopolíticos. Os doces agentes se deleitavam com a nova conjuntura local e auxiliavam a monarquia de plantão a explorar e oprimir o povo cambojano, a falsificar a história, a ocultar as atrocidades cometidas pela França e pelos Estados Unidos.
No dia anterior à partida do Camboja, dezenove pessoas morreram e cento e cinquenta ficaram feridas depois que uma bomba explodiu durante manifestação em frente ao palácio real. Apenas os manifestantes foram atingidos. Os policiais e agentes de repressão da monarquia nada sofreram.
Depois do voo a Bancoc, ônibus caro à região de Khao San, onde compramos vale-passagens de ônibus até a cidade de Nong Kay, nordeste da Tailândia, fronteira com o Laos.

Lotação pelo insuportavelmente lento trânsito de Bancoc à distante estação rodoviária. O motorista da lotação nos deixou com uma criança que nos conduziu pelas calçadas apinhadas de barracas de ambulantes e entupidas de gente até a rodoviária, ainda mais lotada e confusa. O garoto entregou os bilhetes definitivos, indicou a plataforma e desapareceu. Mas era a plataforma errada. No meio da confusão de milhares de pessoas, ônibus para todos os lados, barulho, fumaça, ninguém queria ajudar. Depois de muita luta, descobrimos o local correto, do outro lado do terminal.
Qualquer estação rodoviária do interior do Brasil, do mais miserável recôndito brasileiro, era mais organizada e civilizada que aquele buraco tailandês. Mas a Tailândia se submetia a todas as imposições da indústria predatória do turismo, se tornando um paraíso sem restrições para as transnacionais do ramo via degradação cultural, turismo sexual, tráfico de drogas, contrabando, lucros fáceis. Daí tantos elogios em guias e folhetos, alardeando a mentira de país “exótico” e “misterioso”.
Entre vários ônibus amontoados e fora das plataformas, multidões de pessoas com malas e sacolas se esmagavam e brigavam para embarcar. Os bilhetes escritos apenas em tailandês levariam somente até Udon Thani, e não a mais distante Nong Kay conforme o valor pago. Os assentos marcados nas passagens de nada valiam. O jeito era empurrar, abrir caminho, entrar em qualquer daquelas dezenas de ônibus e sentar imediatamente. E isso depois de inúmeras tentativas em vários ônibus. Era mais de meia noite, depois de cinco horas pastando no inferno da rodoviária de Bancoc.
Em Udon Thani, desembarque no meio da rua. De tuc-tuc até a estação rodoviária e, de lá, outro ônibus até Nong Kay, na margem direita do rio Mekong. Do outro lado, Vientiane, capital do Laos. Os condutores de tuc-tuc de Nong kay cobravam fortunas até o posto de fronteira tailandês. Nem pensar! O caminho seria feito a pé mesmo. Um francês que viera no mesmo ônibus alegava que da Europa cruzara por terra o Oriente Médio, Ásia Central, Índia. Mas caía em contradição ou não sabia responder às perguntas. Mesmo cansados, suados, famintos, e irritados, não deixamos de rir diante do farsante. E ele seguia com as estórias mirabolantes. Teimava que cruzaria a fronteira da China, iria até a Sibéria e embarcaria no trem transiberiano de volta à Europa e à França.
Pela distância sob o sol apelamos para lotação até a fronteira. Depois de cruzar o rio, entrada no território do Laos. Mais um tuc-tuc até o centro de Vientiane, vinte quilômetros adiante.

Optamos pelo primeiro hotel disponível em cidade sem vagas. E para a primeira refeição em 24 horas havia ambulantes oferecendo sanduíches feitos de baguete recheado com patê e verdura. Detonei dois imensos, mais copos de sucos de frutas frescas. Depois banho demorado e cama.
Após quatorze horas contínuas de sono profundo e merecido, nenhuma vontade de explorações. Então mais comida e mais cama. Despertar e mais desânimo. Entre voltas sob o calor tórrido de Vientiane, nada de fome, somente sucos deliciosos de frutas frescas. E novamente hotel.
Vientiane guardava atmosfera calma e tranquila. Nada de correrias, congestionamentos, gente apressada, poluição sonora. O tal progresso ainda não afetara o bucolismo da capital do Laos. Com exceção de avenidas periféricas, Vientiane mais se assemelhava a cidadezinha do interior. Em poucos minutos de caminhada a partir do centro, apareciam ruas de terra de vilarejo afastado. Casas simples, gente simpática e sorridente. Havia pobreza, mas sem miséria ou indigência. A margem do rio Mekong reservava bares e restaurantes de madeira, simples e despretensiosos. Mais adiante, cafés e restaurantes refinados e voltados para outros bolsos.
Caminhamos horrores sob o sol de rachar mamona e nada de ônibus a Luang Prabang, ponto ou terminal rodoviário, apenas passagens a Vang Vieng, cidade bem antes de Luang Prabang.
De ônibus à pequena Vang Vieng para agarrar o último quarto livre da pousada, simples, com banheiro coletivo, sem chuveiro, sem água corrente. Banho, somente de cuia. Na margem oposta do rio ao lado da cidade erguiam-se montanhas altas e escarpadas formando instigante paisagem no horizonte. Os moradores comentavam sobre cavernas no meio daqueles paredões.
O café da manhã típico da região, sopa com macarrão, verduras, ovos e demais temperos veio servido em enorme tigela. Deliciosa e bem preparada, a sopa levantava até defunto. O estômago agradeceu aquela maravilha.
As tais cavernas comentadas se encontravam em processo acelerado de destruição, com aterros, canalização do córrego de águas azuladas. A fauna e flora, aparentemente, ainda abundavam. Chalés turísticos se espalhavam pelo local ao lado de restaurantes com música ao vivo. Cobravam ingressos para entrar. Nada feito.
O ponto alto da pequena e barulhenta Vang Vieng, em obras por todos os cantos, ficava por conta da feira diária ao ar livre. Ao lado de produtos agrícolas tradicionais, barracas e ambulantes ofereciam iguarias finas do país, como besouros vivos, cobras, ratos secos, unhas, patas. Eram muito procurados pelos moradores e vendidos em poucos minutos.
Pela manhã em caminhonete lotada à cidadezinha de Kasi. A paisagem pela janela encantava com enormes montanhas escarpadas, bocas de cavernas entre vegetação espessa, vilarejos pitorescos de madeira, arrozais da região de Phatang.

Desembarque no acostamento, ao lado de Kasi, onde pararia transporte a Luang Prabang. Passaram somente dois ônibus abarrotados e sem garantias aonde iriam. Foram seis longas horas em vilarejo perdido no meio do nada. Os moradores permaneciam paralisados e com os olhos esbugalhados. Em nada ajudaram. Não moviam um nervo sequer do rosto. Mas não tiravam os olhos.
Do outro lado da estradinha apareceu ônibus em sentido contrário. Retornamos a Vang Vieng. Hospedagem em outra pousada, mais limpa, espaçosa, silenciosa e barata. As chuvas fortes trouxeram goteiras sobre a cama à noite. Mas não atrapalharam o sono.
De volta a Vientiane, concluímos pela enésima vez que o decepcionante sudeste asiático dera o que tinha que dar. Na capital do Laos havia uma imitação do arco do triunfo, construído durante a invasão e ocupação pela França por cem anos. Mesmo sem traços de forte personalidade, Vientiane seduzia pela calma, tranquilidade, apontando para cidade agradável de morar. Até quando?
Após cruzar a fronteira da Tailândia, passagem de trem para a Bancoc, a fim de evitar o pesadelo dos ônibus tailandeses. A boa e farta comida do restaurante em Nong Kay se contrapunha com o lixo estadunidense no último volume que vinha da televisão. E os interiores do trem noturno eram tristes, a frequência triste, o serviço de bordo triste, como regra naquele país triste. Na chegada a Bancoc, passagens conjugadas de ônibus e barco à ilha de Ko Pi Pi, com a intenção de passar o tempo até a data do voo salvador que nos libertaria do sudeste asiático.
continua...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

do Nepal ao Camboja (parte 10/12)

...continuação
Surgiu a ideia de voar Bancoc, Yangon, circulando por Mianmar, Vientiane e retornar por terra pelo Laos e nordeste da Tailândia. Sair de Bancoc e percorrer outras paisagens empolgou os sonhos.
Nada feito. Não havia mais voos entre Yangon e Vientiane. Teríamos que retornar para Bancoc para seguir ao Laos. Outra agência ofereceu melhores preços de voos para Yangon, Mianmar. Novamente ótimas possibilidades.
Eu não entendia uma cidade sem atrativos como Bancoc atrair tantos estrangeiros. Mas se abarrotava de turistas. Era enorme, feia, poluída, com trânsito infernal, descaracterizada culturalmente. O povo antipático destratava a maioria dos estrangeiros, queria tirar vantagens financeiras em tudo. Jamais sorria, mudava os preços conforme a cara do turista. Só mesmo os guias escritos por empresas transnacionais para rotularem a Tailândia de “exótica” e “misteriosa”, e chamarem o tailandês de “povo sorriso”. Pela segunda vez no país, eu constatava exatamente o contrário.
E a viagem a Mianmar também deu errado. A agência tailandesa comunicou que o voo semanal estava lotado. Devolveu o dinheiro das passagens, mas embolsou o valor dos vistos. E isso depois de garantir os lugares no voo dias antes. Jogou o dinheiro das passagens na mesa e se virou para outro lado. Nem sequer ouviu as reclamações. Confiava na impunidade do golpe. Conhecia o país onde morava.

Nada havia a esperar daquele buraco. Compramos passagens no voo mais barato para a América do Sul, somente de ida, para Buenos Aires. Mas somente para um baita tempão depois. Dois meses inteiros se apresentavam à frente antes da libertação definitiva do inferno.
A Tailândia se ocidentalizava em ritmo acelerado. A influência estadunidense se apresentava a todo instante. Músicas, roupas, propagandas, camisetas, carros com bandeiras daquele país. Os Estados Unidos fizeram da Tailândia o quintal durante as invasões das tropas estadunidenses ao Vietnã, Laos e Camboja. Usaram-na como base para atacar os povos dos países vizinhos. Desrespeitaram a cultura local e impuseram costumes ocidentais. Trataram o povo como escravo. Transformaram a Tailândia em mera colônia para atender à máquina de guerra estadunidense. A indústria da prostituição, o tráfico de drogas, o turismo sexual, marcas registradas da Tailândia, nasceram naquela época e ainda sobrevivem graças ao turismo predatório.
De lotação até a cidadezinha de Laen Ngop, ainda no continente, através de estradas monótonas, ao lado de paisagens feias, ocidentalizadas. Depois barco à ilha de Ko Chang ao entardecer. Chalés mal construídos predominavam ao longo da praia, a maioria em palha e madeira fina, a preços altíssimos. A praia medíocre também não empolgava. No chalé simples, com banheiro, cama suspensa do chão, mosquiteiro, as formigas circulavam impunemente.
Pelas praias de Ko Chang não se ia muito longe, pois logo surgiam pedras e corais pontiagudos. Os insuportáveis mosquitos tailandeses combinavam com o país. A estrada atrás dos chalés oferecia trânsito pesado de caminhões, jipes, motos. Compensou pelos cajus arrancados das árvores na beira do asfalto. Na maioria dos lugares da praia onde havia música tratava-se do lixo estadunidense. Os turistas, sobretudo australianos, se deslumbravam. E tudo continuava assim. O restaurante com mesas sobre a areia da praia oferecia boa comida, baseada em ensopados de frutos do mar.
Em todos os dias, na minúscula sacada da frente do chalé, horas sem fim de leituras. Ao olhar a praia sem graça, desânimo, mais leituras e preguiça geral. Tailandesas passavam pela areia oferecendo serviços de massagem. Um ou outro turista caía no papo. Nada havia de massagem, apenas enganação para as pencas de turistas deslumbrados.

Os infindáveis engarrafamentos pelas avenidas e minhocões deram as boas vindas ao pesadelo de Bancoc. Mais dias no inferno do Bancoc sem fazer absolutamente nada, apenas aguardando o voo ao Camboja.
Os tailandeses, sobretudo os de Bancoc, gananciosos, só se aproximavam com intenções de tirar o sangue. E mantinham submissão exagerada diante das figuras do rei e da rainha. Ninguém ousava questionar, criticar, zombar, fazer brincadeiras de qualquer tipo com os monarcas. Chegavam a ponto de jamais lamberem os selos com imagens do casal absolutista. Humilhação semelhante ocorria frente aos monges budistas. As mulheres não podiam tocá-los, nem lhes produzir sombra, obrigando-as a se abaixarem, a se contorcerem. A juventude e a maior parte da população se deslumbravam com o lixo musical e cinematográfico estadunidense. Rostos e corpos ocidentais ditavam padrões de beleza nos cartazes, propagandas em geral. Os tailandeses exibiam bandeiras estadunidenses afixadas nas roupas, carros, adornos pessoais.
Cruzar a fronteira terrestre da Tailândia com o Camboja era perigoso. Desde a invasão dos Estados Unidos ocorriam confrontos armados e poucos eram os lugares seguros. Recentemente tinham morrido turistas ao cruzar a fronteira terrestre. Voo tranquilo e visto rápido no aeroporto da capital do Camboja, Phnom Penh.
A lotação levou ao hotel mais comentado da cidade. A segurança precária desaconselhava andanças pelas ruas da capital depois das 20h.
Bem cedo ao apertado barco para Siem Reap, com teto baixo, janelas pequenas e escuras. A paisagem fluvial guardava sequências de palafitas, barcos, pescadores, habitantes sorridentes.
Em terra, lotação de pousada escolhida a esmo, situada em parte calma e silenciosa da cidade. Muitas pechinchas para adquirir as entradas para os templos de Angkor, o guia e o aluguel da moto durante vários dias. Siem Reap ardia de calor e não parávamos de beber água.

Garupa da moto ainda no escuro a fim de assistir ao nascer do sol no Angkor Wat, surgindo atrás das pontas do complexo de templos. Depois, os templos de Bayon e arredores, numa impressionante sequência de rostos esculpidos na rocha, pequenas áreas ricas em esculturas, entalhes em pedra. À tarde, volta a Angkor Wat, para explorá-lo por inteiro internamente, até o pôr-do-sol. Grupos de turistas se espalhavam pelas inúmeras dependências. A maioria dos templos da civilização Khmer estava em ruínas, em restauração ou se resumia a blocos de pedra amontoados. O tórrido calor desconcentrava e só queríamos beber líquidos.
Apesar de retraído, o motoqueiro, e também guia, conquistava pela simpatia e pontualidade. Eram os três na moto pequena. Não era aconselhável circular livremente em Siem Reap pela falta de segurança nas estradas e caminhos. O contato com o país real, povo, cultura local, inexistia até aquele momento.
Pela manhã, os templos da região de Ta Phron. As ruínas em meio às árvores lhes forneciam atmosfera misteriosa e intrigante. E sempre por caminhos entre blocos desmoronados, passagens estreitas, portais de templos, esculturas perdidas, galerias com pedras trabalhadas. A vegetação crescia nas paredes e rochas. O cenário formado pelos extensos labirintos, a ausência de turistas naquele horário, o verde intenso, as sombras refrescantes, os entalhes surpreendentes com desenhos de divindades e cenas de época, encantavam a cada nova descoberta.
Liberamos o motoqueiro até o começo da tarde. Nada da programação previsível e turística matinal por Angkor. Melhor mergulhar no Camboja real, ao lado dos cambojanos. Ignoramos as advertências sobre a insegurança. Caminhamos aos templos de Roulus, por ruas, a estrada principal, as estradas secundárias fornecendo perfil da vida rural do país. Casas de palha suspensas do solo, lavouras primitivas e pouco aproveitadas, vaivém de bicicletas, motos, caminhões. Os habitantes sorriam espontaneamente, interrompiam os afazeres, procuravam conversar. Mesmo apenas com gestos, olhares, havia a comunicação e as trocas de carinho.  De volta a Siem Reap, o mercado com o colorido e os burburinhos. Todos olhavam e lançavam sorrisos soltos. Comemos nas barraquinhas de rua. Mais saboroso e mais barato, sem falar no contato direto com os cambojanos. Nenhum outro turista se arriscava a conhecer o verdadeiro país, se restringindo em visitar os lugares indicados nas páginas dos famigerados guias.

À tarde, o pneu da moto furou e o guia a levou para a reparação. Enquanto esperávamos na beira da estrada, sozinhos, os cambojanos passavam e sorriam, estranhando dois estrangeiros parados no meio do nada. Um senhor de bicicleta parou, desceu, veio conversar. Três lavradoras também pararam as bicicletas.  Sorriram, gesticularam, falaram espontaneamente, deram batata doce. A mímica funcionou e bem em ambos os casos. O povo cambojano, distante do contato diário com o turismo, revelava-se mais simpático e acolhedor.
Com a moto reparada, repetição do pedaço favorito de Angkor, as ruínas de Ta Phron, durante horas pelos caminhos e restos de templos. Delicioso se perder pelas ruínas em meio às árvores, sentindo a magia daquela atmosfera. Retorno somente ao anoitecer.
Depois das comidas das barracas nas ruas do mercado, nunca mais a comida de hospital da pousada. Barata e boa comida em contato com o simpático povo cambojano. As donas da barraca habitual se sentaram para conversar. E despedidas festivas na certeza de que contatos com povo real valem mil vezes mais que visitas burocráticas a atrações turísticas.
continua...