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segunda-feira, 10 de outubro de 2022

de Goiás ao Piauí (via GO, MT, TO, BA, PE, CE, PI) (parte 2/7)

 ...continuação

Nas águas do Araguaia, dezenas de barcos, canoas e lanchas abrigavam pescadores de anzol, vez ou outra fisgando matrinxã, caranha, pintado. Logo baixou o barco da fiscalização a fim de verificar a documentação necessária, do barco e do piloto, e o tamanho mínimo dos peixes pescados.

Ao longo das escadarias do lado mato-grossense, moradores aproveitavam a sombra providencial para contemplar o rio, acompanhar e comentar os feitos e falhas dos pescadores. Permaneci ali durante horas, sem me cansar ou me entediar.

Do lado goiano, muito sol, praias em crescimento e a rua distante das águas. Máquinas da prefeitura terraplanavam o local para a temporada de praias que apenas começava.

Barra do Garças, apesar de tamanho médio, contava com ares de cidade grande, na infraestrutura, no comércio, nos serviços oferecidos. Obviamente a vida cultural diversificada, digna desse nome, inexistia. Mas o que esperar de polo e trânsito do capital agropecuário, celeiro de empresários e políticos truculentos?

À noite, belisquei algo exatamente de frente à praça do Garimpeiro, a famigerada rotatória próxima às pontes interestaduais, sobre os rios das Garças e Araguaia. Indignava a procissão monótona de incontáveis carretas-duplas transportando produtos agrícolas do centro-oeste brasileiro, entupidos de transgenia e agrotóxicos, para exportação no distante porto de Santos. Quadro triste, trepidante e barulhento.

O ônibus partiu ainda no claro e escuro da alvorada. O detalhe eram as cortininhas entre as duplas de assentos de cada lado do corredor, isolando os passageiros, em solução encontrada durante o auge da pandemia de covid-19.

Após Nova Xavantina, a leste da BR-158, placas indicavam aldeias indígenas do povo Xavante. Daquele lado, o cerrado imperava praticamente intacto. Do lado oposto, o dos brancos civilizados, nada do cerrado original, mas monoculturas extensivas, contaminadas por agrotóxicos, a perder de vista.



Em outra cidade, feia, quadriculada e espalhada, Água Boa, próxima às nascentes do rio Xingu, parada para desembarque e embarque de passageiros. Ao norte da cidade, a leste da rodovia, mais aldeias Xavante, da reserva Pimentel Barbosa, intercaladas por raras manchas de monocultura. A desolação reinava do lado oeste da BR-158. Eram milharais gigantescos, sem fim aparente.

À tarde mais uma cidade medonha, amontoada ao longo da rodovia, Ribeirão Cascalheira. Os passageiros tiveram que desembarcar e trocar para ônibus velho e duro, mais afeito às estradas de chão após do trevo de Alô Brasil e Bom Jesus do Araguaia.

As tenebrosas cidades pelas quais o ônibus passava estavam repletas de lojas de produtos agropecuários produzidos fora do Brasil, convivendo com a miséria da maioria da população que mendigava trabalho nas empresas da região. Típicas cidades a serviço do capital agropecuário.

A partir de Ribeirão Cascalheira, ao longo da agora não pavimentada BR-158, saía de cena o cerrado e entrava a floresta úmida mais desenvolvida, numa transição para a floresta amazônica mais ao norte.

Tanto nos ônibus, como nas rodoviárias, passageiros pobres, miseráveis, maltratados, cansados, esgotados, com os rostos sofridos e marcados, envelhecidos precocemente. Todos eles a trabalho, nas piores condições possíveis, para a minoria mandachuva da região, o capital agropecuário. Mas as monoculturas infinitas de milho ou soja empregavam pouquíssima mão de obra.

O acesso a Bom Jesus do Araguaia, outro depósito disforme de gente, foi por estrada de chão estreita, sinuosa, cheia de sobes e desces, margeada por pastos de gado bovino. À frente, Serra Nova Dourada e Alto da Boa Vista, mais duas calamidades urbanísticas. Mais depósitos de gente pobre e maltratada.

Desembarquei no começo da noite em São Félix do Araguaia. O hotel tinha mais cara de motel e abrigava hóspedes barulhentos. Pelo adiantado da hora jantei no restaurante anexo. E jantei bem pirarucu grelhado, arroz, purê de batatas e salada mista.

Quase nada de água saía do chuveiro. Retirei a tampa da ducha e a limpei de folhas e grãos de areia. Após o serviço simples a água jorrou com força e o banho se tornou refrescante.

Dei voltas de reconhecimento pela orla do Araguaia, bucólica, simpática, antiga, arborizada, relaxante, pelo menos no começo da manhã. Bem mais largo do que em Barra do Garças, o rio exibia a ilha do Bananal bem em frente, na margem direita. Dóceis e amigáveis, os Karajá descansavam sob as sombras das árvores enquanto, em silêncio, observavam o deslizar das águas. Logo atravessariam o rio para retornar às aldeias do oeste da ilha do Bananal. Voadeiras alugadas retornavam de pescarias e atracavam abaixo das muradas da orla. Pelo calçadão, quiosques de açaí, sorvetes, comes e bebes ligeiros.



Ali na beira do rio, contemplando quase em meditação as belezas fluviais, encontrei funcionário público estadual de educação, guia e pesquisador individual dos ecossistemas do Araguaia. Lamentou que o rio não contasse com linhas regulares de passageiros havia quarenta anos. Afirmava descender do povo Canela, etnia do Maranhão que fugira da invasão europeia. Ele e o pai atuaram com o falecido bispo Don Pedro Casaldaliga. Por isso se sentia ameaçado pelos grandes latifundiários e pelos respectivos políticos de estimação.

Amanheceu nublado, com nuvens escuras e sons de pancadas de chuva. No meio da manhã evoluiu gradualmente para parcialmente nublado com aberturas de sol tórrido.

Visitei a casa onde viveu Don Pedro Casaldaliga. O caseiro e militante das comunidades eclesiais de base me mostrou cômodo por cômodo, todos simples, incluindo livros e objetos de uso pessoal do bispo, cuja causa sempre se voltou para a luta dos trabalhadores, ribeirinhos, indígenas.

Segui ao cemitério abandonado, ao norte da cidade, onde o bispo fez questão de ser enterrado. Na sepultura de terra, sem túmulo de alvenaria ou lápide, apenas a cruz simples de madeira em cuja haste estava inscrita frase curta e direta do falecido.

Das paredes do cemitério partia estradinha beirando o rio Araguaia, tendo a ilha do Bananal me acompanhando na margem oposta. Ao final, zona de praias, ainda em esboços, de acordo com a lenta baixa das águas do rio. Grupos de pássaros cantavam desesperadamente diante de minha intromissão. E milhares de piuns fizeram a festa nas minhas pernas, picando e sugando meu sangue sem dó.

Na volta, me sentei durante horas em banco sombreado do calçadão da orla, bem de frente para o rio Araguaia. Batia vento constante, agradabilíssimo. E lá permaneci durante horas. Desejar mais do que aquilo para que?

Enquanto eu aguardava a fome brotar, ali parou para conversar o policial civil de folga. Contou do rapaz jovem assassinado a pauladas na noite anterior. Era antes do meio dia e aquele policial já estava bêbado. Me pediu cinco reais para beber mais. Neguei, evidentemente.

Tempos depois me levantei e repeti o restaurante de sempre ao final do calçadão. E precedi a refeição com goles de cachaça curtida em sementes de murici.

A febre dos celulares atingia as raias da dependência tecnológica e da obsessão pura e simples. Em praças, bares, restaurantes, lanchonetes, quiosques, todos, não importa o tipo, a idade ou a origem, com o aparelhinho nas mãos e os olhos neles vidrados. Ficavam em pânico na busca insana por tomadas a fim de recarregarem as baterias.

Retornei ao hotel para ler na sacada do andar superior, de frente para o rio.

No começo da manhã o ônibus partiu com meia lotação e apenas eu usando a máscara facial. Ao longo da não pavimentada BR-242, cerrado esverdeado e algumas plantações grandes de milho.

Parada para almoço em Alto da Boa Vista. A partir daí o ônibus lotou e apenas três pessoas usavam a máscara de proteção facial.



O veículo entrou na BR-158 que levava ao extremo nordeste do Mato Grosso. Em legítimo leito de terra castanho-avermelhada, repleto de sobes e desces a despontarem no horizonte, a estrada lembrava a Transamazônica. Enxames de carretas-duplas trafegavam nos dois sentidos, ziguezagueando a fim de driblar os buracos, levantando tanta poeira que mal se enxergava um metro à frente. O motorista avançava mais por reflexo e por familiaridade com o roteiro. O cerrado logo cedeu espaço para a floresta amazônica. Na verdade floresta de apenas dez a vinte metros de largura. Atrás dessa ilusão de natureza preservada, pastos sem fim com rebanhos de gado nelore.

Antes de Porto Alegre do Norte, cujo nome apontava quem mandava, explorava, oprimia e devastava por ali, surgiu o asfalto, gerando alívio principalmente ao estafado motorista do ônibus.

Pelas ruas daquela cidade, gigantescas lojas de material agrícola, oferecendo itens estrangeiros na maioria dos casos, equipamentos agrícolas, agrotóxicos, sementes transgênicas, de origens transnacionais e batizadas eufemisticamente de sementes híbridas.

A cidade de Confresa era a maior daquela região. Como as demais, repartida ao meio pela BR-158. A cidade segregava a classe dominante de um lado da rodovia e a massa trabalhadora do outro lado, esta invariavelmente em péssimas condições de vida. A primeira englobava paranaenses, catarinenses e, principalmente, gaúchos. A segunda, mamelucos, indígenas, imigrantes desesperados dos estados vizinhos.

Parada na pequena Veranópolis, antes de a estrada penetrar em relevo acidentado, em cujo trecho havia mais floresta e menos pecuária ou monoculturas. Por enquanto!

Desembarque em Vila Rica ao anoitecer, na rodoviária de bom tamanho, porém abandonada na maior parte, em ambiente triste, com lojas fechadas definitivamente. Belisquei pacote de bolacha salgada, castanhas-do-pará, castanhas de caju, banana-passa.

Uma hora depois embarquei em novo ônibus. A divisa entre Mato Grosso e Pará logo deu as caras. A buraqueira na estrada asfaltada, que já incomodava, se tornou catastrófica. Na verdade, eram buracos e crateras profundas entremeadas de restos de asfalto. A partir de Santana do Araguaia o estado da rodovia melhorou.

Ao meu lado sentou garota de vinte e nove anos e já mãe de quatro filhos. Nascida de pai tocantinense e mãe cearense, ela morava com o novo marido e três dos filhos em Santana do Araguaia. A filha mais velha morava com os avós nas imediações de Palmas.

No meio da noite, a lenta travessia de balsa pelo rio Araguaia. Do outro lado do rio, Caseara, estado do Tocantins.

Ainda no escuro o ônibus atravessou a ponte sobre o rio Tocantins que dava acesso a Palmas. Cruzou toda a capital tocantinense em meio ao traçado quadriculado, rotatórias, avenidas, espaços vazios, construções padronizadas, outras nem tanto, até estacionar no terminal rodoviário, ao sul da cidade.

No meio da manhã embarquei em ônibus para Porto Nacional. Após curto trajeto desci na rodoviária da cidade espalhada, cortada por largas e extensas avenidas.

Ao chegar ao hotel, surpreendentemente, não havia vagas. Eu telefonara dias antes para reservar, mas a recepção insistira que não haveria necessidade, pois sempre havia quartos livres. Não foi o que aconteceu. Acabaram me cedendo quarto no térreo, logo atrás da recepção. Verdadeira espelunca que a gerência empurrava para os desavisados. Nada de móveis, prateleiras ou cabides. Apenas a cama no meio do quarto apertado. Na parede, o suporte de TV, mas sem a TV. O banheiro, sujo e em mau estado. O outro hotel da cidade vivia lotado. Aceitei na esperança de mudar na manhã seguinte.

Ao entardecer, caminhei ao lago formado pelas águas do rio Tocantins. Era lago em razão da hidrelétrica de Lajeado, quilômetros a jusante. Orla bem cuidada e limpa, nada mais. Nas proximidades, poucas casas velhas, provavelmente resquícios do núcleo fundador da cidade. Mais adiante igreja imensa e pavorosa.



A dona do hotel, exibindo cara de vigia de reformatório de menores, ainda quis me agradar, tentando me oferecer outro quarto para o dia seguinte. Pedi e recebi desconto generoso por ter ficado naquele buraco.

De manhãzinha embarquei em micro ônibus que parou para lanche na cidadezinha de Monte do Carmo. Em seguida subiu a serra pela TO-255, sinuosa e bem conservada, ao topo do chapadão. Desembarquei em Ponte Alta do Tocantins no meio do dia.

Me hospedei em quarto adaptado para visitantes em casa simples e ampla de um casal de octogenários.

Comi comida saborosa e barata no restaurante principal da cidade. No meio da tarde dei extensa volta pela cidadezinha, desprovida de encantos maiores, mas acima do aceitável. Embora tentasse aqui e ali, nada de conseguir me encaixar em grupos de passeios ao Jalapão que já saíam lotados de Palmas.

Na beira do rio Ponte Alta a prefeitura providenciara máquinas a fim de arrumar a praia fluvial para estação seca que começava. Bares em ambas as margens abasteciam de comes e bebes os banhistas locais.

À tardinha, papos diversos com os octogenários da pousada. Já tiveram fazenda de gado e galinha, mas dividiram entre os filhos para poderem permanecer mais tempo na cidade. Ao visitar os demais quartos livres carreguei um cabide vertical de madeira e uma cadeira a fim de amenizar a falta de móveis para meus itens.

No mesmo bar e restaurante do almoço jantei omelete com arroz e feijão, precedido de duas doses da saborosíssima cachaça artesanal curtida em sementes de murici. Em outras mesas, três grupos de turistas, indo ou voltando do Jalapão, cada grupo por uma agência diferente de Palmas. Praticamente não se conversavam, preferindo cutucar os celulares.

Na beira do rio, aproveitando a noite fresca, me sentei em banco tranquilo de frente para a escuridão. Atrás de mim, do outro lado da ruazinha, lado a lado, porta a porta, quartos do hotel anexo ao restaurante. Imediatamente me lembrei de local parecidíssimo em Tutoia, no Maranhão. Lá me hospedara tarde da noite, depois de tentar, em vão, vaga em inúmeros hotéis, todos lotados, naquele meio de carnaval de vinte anos antes. No Maranhão, assim como ali em Ponte Alta, silêncio e breu total na frente dos quartos. Naquela noite, em Tutoia, dormi intrigado com o mistério à minha frente. Somente na manhã seguinte, ao abrir a porta do quarto, notei que me instalara bem em frente à extensa e tranquila praia do litoral maranhense.

continua...

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

de Goiás ao Piauí (via GO, MT, TO, BA, PE, CE, PI) (parte 1/7)

Depois de mais de dois anos de castigo em São Paulo, por conta da pandemia de covid-19, embarquei naquele mês de abril no terminal rodoviário do Tietê com destino a Goiás.

Eu e apenas cinco passageiros do ônibus usavam a máscara facial. Pouco ou nada valia a recomendação do motorista que a pandemia ainda não acabara e que era preciso se prevenir. Por outro lado, a maioria deles entrava em paranoia para tentar recarregar os celulares, a fim de usá-los para absolutamente nada de importante ou urgente, a não ser se rastrearem orgulhosamente.

A trintona sentada ao meu lado, goiana de Anápolis e moradora em São Paulo, separada com filho adulto, voltava de férias à terra natal. A baiana, a trabalho em Laranjal Paulista, onde vivia com o pai da filha de três anos, mas cansada da vida conjugal, estava literalmente fugindo, mais a filha, para a casa dos pais no interior baiano. Escolhera itinerário estapafúrdio, talvez para despistar o companheiro, via dois ou três transportes em dois dias de travessia.

O ônibus encerrou o trajeto em Anápolis na tarde do dia seguinte. Atravessei a avenida para comer algo substancial e, principalmente, fugir da rodoviária da cidade, construção enorme, vazia, abandonada, decrépita, deprimente, com lanchonetes às moscas, todas de péssimo aspecto.

Subi no final da tarde no segundo ônibus, desembarcando pouco depois em Pirenópolis.

À noite, caí na tal rua do lazer da cidade, composta de fileiras de restaurantes em ambos os lados, com música ao vivo, e garçons que disputavam, ainda que suavemente, os poucos turistas daquela noite de começo da semana. A maioria das opções gastronômicas abria as portas somente de quinta a domingo.

Pirenópolis encantava pela beleza do casario do século XIX e início do XX. Becos e ruas calçadas de pedra, igrejas e capelas antigas, detalhes em portas, janelas, escadinhas de acesso à entrada principal da construção. Tudo bem conservado, pintado de novo, de bom aspecto, pelo menos externamente. Praticamente ninguém de máscaras faciais contra a covid-19, nas ruas, comércios, restaurantes, etc. A iluminação noturna da cidade pouco iluminava e aumentava o charme do centro histórico.



A seleção musical durante o café da manhã da pousada, se não era na base do lixo sertanejo, tão marcante em Goiás, se restringia a sucessos da indústria cultural estadunidense dos anos 1990. Música brasileira, a rica e diversa música brasileira, nem pensar por ali.

Painéis turísticos da cidade de Pirenópolis divulgavam o chamado “Caminho de Cora Coralina”, que percorria cidadezinhas e vilarejos, entre Pirenópolis e a cidade de Goiás, por estradas vicinais, afastadas das rodovias estaduais e federais, nem sempre asfaltadas. Ótima pedida para se embrenhar pela história dos sertões do planalto central.

Depois da última rua calçada da cidade peguei a estradinha rumo à cachoeira do Bonsucesso. Percorri algo como dez quilômetros entre ida e volta. Não cheguei a entrar na propriedade privada, nem avistar a queda d’água. Para isso eu teria que desembolsar valor abusivo. Atração natural em propriedade privada dá nisso. A caminhada em si valeu pelo esforço físico. Ao cruzar com veículos, na maioria aqueles escabrosos SUV’s, meros símbolos de ostentação e poluentes ao extremo, a poeira subia e impregnava na pele, roupas, calçados e, principalmente, boca, nariz e pulmões.

Durante a leitura da extensa antologia de contos e crônicas de Luiz Fernando Veríssimo, me deparei com o conto A Mancha, escrito na primeira década do século XXI. Talvez o texto mais longo dentre os presentes no livro. Mas que conto! Impressionante. Aterrador. Nada daquele humor tão típico e delicioso do autor. Mas que conto! Li quase sem respirar, de queixo caído, de ponta a ponta. Texto para ler e reler, incontáveis vezes.

Se durante o dia a culinária goiana praticamente inexistia nos cardápios dos restaurantes de Pirenópolis, à noite esse quadro se agravava. À exceção dos pontos do tradicional empadão goiano, estabelecimentos pequenos, e alguns em processo de fechamento das portas, nada da rica culinária regional para o jantar. O que se via eram cardápios paulistanos, cobrando preços paulistanos.

Cidade bonitinha, mas ordinária. Em vez do visitante se adaptar a ela, era ela que se submetia aos supostos gostos dos visitantes. Completamente o inverso do desejável. A indústria do turismo predatório ia muito bem, obrigado.

Mandei às favas os restaurantes pretensiosos, com cardápios pretensiosos, servindo pouca comida a preços astronômicos. Fui de empadão goiano e suco de caju. O empadão, do tamanho de um prato de sobremesa, vinha recheado de tudo e mais um pouco, carnes de boi, carnes de frango, carnes de porco, azeitonas, batatas, legumes, tudo junto e misturado no mesmo empadão. Popular em Goiás era acrescentar a guariroba, espécie amarga de palmito. Paguei pouco e comi bem comida tipicamente goiana.

Pirenópolis começava a encher de turistas de fim de semana. Desfiles de SUV’s e caminhonetes cabines-duplas pelas ruas. Nas mulheres, roupas novas, cheirando a guardado, espalhafatosas, destaque especial aos saltos-agulha, apropriadíssimos para aquele calçamento de pedra irregular. Casais, muitos casais, famílias, grupos de amigos, raros os sozinhos ou as sozinhas.



Parti de Pirenópolis no ônibus bem cedo. Desci na rodoviária de Goiânia, de onde embarquei no segundo ônibus.

No trajeto rodoviário pela BR-070, paradas em Inhumas, Ituaçu e Itaberaí. Nas imediações dessa última, típico cenário do capitalismo agrário nos interiores do Brasil. Monoculturas de milho e laranja, usando e abusando de agrotóxicos, imensos rebanhos de gado, granjas gigantescas. Quem mandava por ali, feito coronel das antigas, era o dono de tudo, até dos seres humanos. Praticamente toda a população da cidade, direta ou indiretamente, trabalhava para empresas agropecuárias do grupo dele. Por conta dessa dependência explícita de somente um grupo empresarial, a cidade se espalhava ao longo da BR-070 numa concentração urbana repugnante, desumana, sem nenhuma qualidade habitacional ou de serviços para a população. Funcionava apenas como depósito de gente.

A passageira piauiense ao meu lado enalteceu o figurão, afirmando de boca cheia que a empresa fornecia vale-refeição e cobria tratamentos médicos e odontológicos. Mas essas não eram obrigações do empregador e direito dos empregados segundo legislação da CLT, em vigor havia mais de setenta anos e que o então regime federal fazia tudo para destruir? Há quatro anos radicada na cidade, atuando como empregada doméstica nas mansões dos donos do lugar, ela desembarcaria em Itapirapuã para visitar parentes e comparecer a ações judiciais que movera contra empresa de transportes. Quatro meses antes, o ônibus em que ela viajava quebrou e passou doze horas parado no meio do nada, sem água, sem comida, sem hospedagem, sem qualquer tipo de apoio ou orientação.

Desembarquei na cidade de Goiás no começo da tarde. Me hospedei de frente para o rio Vermelho, para a velha ponte de madeira e para o museu Cora Coralina, antiga residência da poeta que nasceu e viveu na primeira capital do estado de Goiás. Mais adiante, o casario colonial, os telhados dos sobrados, a serra ao fundo.

Com o sol mais baixo e o calor suportável, saí às ruas. Logo de cara, paixão à primeira vista pela cidade de Goiás, pelas ruazinhas e becos, pelo casario bem conservado, pelas construções maiores dos tempos de capital do estado, pelas pitorescas praças, pelo silêncio bucólico de fim de tarde de sábado. E pela simpatia espontânea dos moradores e visitantes esparsos. Radical e deliciosamente diferente do agito turístico de Pirenópolis. Goiás era bem mais bonita, mais ampla, mais acolhedora, mais charmosa, mais discreta, mais tudo.

Uma cavalgada teve início numa das praças, talvez a maior delas, em terreno extenso e inclinado. O evento trazia o patrocínio de parlamentares da região. A bandeira do Brasil no ombro dos cavaleiros indicaria a coloração política dos líderes do evento?

Saboreei sorvete de cajá, empadinha, café preto. Arrisquei perambuladas pela beira do rio Vermelho, antes e depois do busto e estátua de Cora Coralina. Havia outros visitantes por ali. Afinal, era tarde de sábado ensolarado. Nada a ver, porém, com o turismo massificado de Pirenópolis.

Saí para jantar em restaurante na praça do coreto. Som ao vivo na base de voz e violão interpretando canções brasileiras de qualidade. Destaque para o suco de cagaita, fruto típico do cerrado. E me sentei sob as árvores, ao lado da praça e de construções históricas imponentes, com vista para ruazinhas e becos charmosos, da iluminação noturna amarelada, do vaivém pequeno e discreto de pedestres e veículos.



De estômago cheio, circulei por outras ruas, vielas e praças. A maioria vazia, silenciosa, atraente, somente sob o som dos meus passos. Num sábado à noite estrelado, a cidade histórica e famosa, antiga capital do estado, não perdia a atmosfera tranquila e bucólica.

Pela manhã circulei por todo o centro histórico e mais um pouco. Bem conservado, bonito, tranquilo, silencioso. Poucos turistas. Nenhuma aglomeração. Visitei a casa, então museu, onde nasceu, viveu e morreu Cora Coralina. Singelo e comovente.

Me intrigava a enorme quantidade de casas, dentro do centro histórico, sem moradores, desabitadas, sem sinais de vida interior. Embora bem conservadas, pelo menos externamente, não tinham vida. Não por acaso, andar pelas ruas do centro antigo de Goiás primava pelo silêncio, não o relativo, mas o silêncio absoluto.

Almocei nos interiores do antigo mercado municipal. Pequenos restaurantes ofereciam comida simples e barata. Duas rodadas de sorvete na praça do coreto e me senti bem alimentado.

Encerrei a extensa antologia de contos e crônicas de Luiz Fernando Veríssimo, chamada Veríssimo Antológico. Subdividido cronologicamente conforme as décadas de edição dos textos, mais me atraíram os dos anos de 1980 e os da primeira década dos anos 2000.

Fazendo jus ao ano eleitoral em que o Brasil se encontrava, com previsão de arbitrariedades e violências de todos os tipos, e nada de debates politizados em torno de projetos para o país, ainda mais pelos nossos interiores, selecionei a releitura de Vila dos Confins, de Mário Palmério.

Mais voltas pelo estupendo centro histórico da cidade de Goiás, deliciosamente quieto e charmoso sob a iluminação pública amarelada. Atravessei o rio Vermelho e rodeei a igreja do Rosário, saboreando cada recanto, cada esquina, cada porta, cada janela, cada telhado.

Baixei de manhã bem cedo na rodoviária e embarquei rumo ao Mato Grosso.

A paisagem, em declive e com algumas sinuosidades, revelava cerrado esverdeado, rara e esparsamente ocupado por pastagens de gado. Paradas regulamentares em Itapirapuã e Jussara, cidades feias, espalhadas e sem cara de nada. A partir daí o relevo se tornou ondulado e os pastos para gado bovino e as monoculturas extensivas de milho, de soja, de capim, de cana-de-açúcar, entupidas de agrotóxicos, imperavam sem dó nem piedade. Gigantescos silos de armazenamento das colheitas compunham cenários apocalípticos à paisagem rural. O quadro se agravava nas imediações de Montes Claros de Goiás.

Na parada para o almoço, junto ao motorista do ônibus, arrisquei bufê com preço fixo, pois, segundo o malandro dono do estabelecimento, a balança estava quebrada. Nos pratos esvaziados pelos famintos passageiros notei vários pequis, limpos, raspados corretamente com os dentes e a língua, mas jamais mordidos a fim de evitar os terríveis espinhos do núcleo do fruto.



O relevo prosseguia em declive suave. Serrotes isolados se erguiam no horizonte. No começo da tarde, logo após a cidade de Aragarças, o ônibus atravessou a ponte sobre o rio Araguaia, divisa dos estados de Goiás e Mato Grosso e, em seguida, a ponte sobre o rio das Garças, já em território mato-grossense.

Me hospedei em quarto de hotel cujas janelas se voltavam para dentro, para o poço central do edifício. Ainda bem. Barra do Garças se notabilizava pela poluição sonora de veículos, sobretudo ao longo da avenida/estrada que corta toda a cidade, atravessa as duas pontes e atinge Goiás. Infinidades de carretas-duplas, os bitrens, transportavam soja dos interiores mato-grossenses em direção ao longínquo porto de Santos. E retornavam vazias. Num país sob a ditadura do transporte rodoviário, e das monoculturas extensivas para exportação, os produtos agrícolas, envenenados de transgenia e agrotóxicos, percorriam distâncias imensas pelas rodovias brasileiras. Cenas de país meramente exportador de produtos agrícolas e minerais.

E fui à volta de reconhecimento na única parte interessante naquela cidade agropecuária, nas margens dos rios das Garças e Araguaia. Neste, na margem goiana, apareciam esboços de praia naquele outono, início da estação seca.

Atravessei ambas as pontes a pé, observando as margens, o fluxo das águas fluviais, o vaivém das carretas-duplas, a vida pulsante e agitada nas duas cidades ribeirinhas. De tédio ou melancolia ninguém padeceria por ali. Indígenas da etnia Xavante, semelhante aos avistados na cidade de Goiás, circulavam se comunicando na língua original.

Na margem mato-grossense, praças e áreas públicas largadas às intempéries, inacabadas, arrebentadas, ocupadas por moradores de rua e afins. Bares e restaurantes, porém, abundavam por todos os cantos, com direito a putas perambulando ou atuando junto aos inseparáveis celulares. Ao som de músicas sertanejas em volumes ensurdecedores, o solo trepidava no estilo bem centro-oeste, na base de ostentação das quadrilhas do capital agrário. Como se isso não bastasse, em volumes ainda mais altos e graves, veículos desfilavam pelas ruas, repletos de caixas de som, tremendo tudo e todos. E era apenas começo de noite de terça-feira útil.

continua...

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

do Juruá ao Tapajós (via Transamazônica) (parte 7/7)

...continuação
O ônibus deixou a Transamazônica e retomou o leito não pavimentado da BR-163, a Cuiabá/Santarém. Atravessou as cidades de Trairão e Caracol, antes de mergulhar na noite escura. Os passageiros tentavam dormir. Cochilei em meio aos solavancos do ônibus, entre o asfalto esburacado e os trechos de chão enlameado.
Antes do amanhecer o ônibus parou em Moraes de Almeida. Clareou lentamente com névoa e cerração, cobrindo parcialmente a estrada e os campos próximos. Mais pastos e monoculturas sem fim. A floresta se distanciava bastante do leito da rodovia. A chuva fina continuava firme e forte umedecendo tudo e todos. No sentido oposto, a monótona procissão de carretas duplas, todas iguais, entupidas de soja transgênica e de agrotóxicos, vindas do Mato Grosso, com destino aos terminais e navios em Itaituba e Santarém. As mesmas carretas duplas retornariam vazias para novos carregamentos de soja unicamente para exportação.
Ainda a chuva insistente na parada em Novo Progresso, cidade feia, mais uma cidade com cara de provisória. Mais servia de depósito de gente desassistida e base aos pastos e monoculturas extensivas.
Pedaços de terra encascalhada se intercalavam com asfalto, ora bom, ora esburacado, naquele sul do Pará.
Parada na vila de Alvorada do Amazonas. Nas margens da estrada, imensas fazendas de gado, algum milho, vastas áreas improdutivas, desmatadas e abandonadas pelos especuladores de terra.
Mais adiante, a cidade com o doce nome de Castelo dos Sonhos. De cidade ela nada oferecia, como as demais, numa mistura de ruínas, escombros, construções inacabadas, lixo, desolação, gente também caindo aos pedaços. E, como as outras concentrações de povo mal tratado da região, a vila cresceu ao redor de enormes e trepidantes puteiros, numa infinidade de bares, boates, cabarés e afins.
Nas proximidades de Cachoeira da Serra, de novo nome atraente, mais pastos, áreas desmatadas e improdutivas. No horizonte, serras e serrotes cobertos de vegetação nativa.
A Cuiabá/Santarém atravessou a serra, em traçado sinuoso e acidentado, margeando a PCH Alto Curuá e a PCH Alto Buriti, além de cachoeiras e quedas d’água. Nos sobes e desces da serra em ziguezague, flores amarelas e roxas nas copas das árvores. Em frente, nos terrenos baixos, mais áreas improdutivas e desmatadas, latifúndios frutos da invasão e grilagem de terras públicas pelo grande capital. Nada cultivado ou criado.
No meio da tarde do segundo dia, a divisa interestadual entre o Pará e o Mato Grosso. A BR-163 serpenteou a serra do Cachimbo. Depois a troca de ônibus na rodoviária de Guarantã do Norte. O novo ônibus, de dois andares, partiu lotado.
Entramos de jeito no norte do estado do Mato Grosso. Planícies e mais planícies. Nenhum, absolutamente nenhum, vestígio da floresta amazônica, nem de longe, apesar de ali ainda pertencer à Amazônia. Somente as monoculturas extensivas a perder de vista, sobretudo de soja. Ao longo da BR-163, uma cidade atrás da outra, planejadas, com ruas e avenidas largas, rotatórias em série, tudo espalhado e distante. Ninguém a pé. Tudo triste. Cidades tipicamente agropecuárias, com silos, lojas de equipamentos agrícolas, tratores, fertilizantes, agrotóxicos, muitos agrotóxicos. Abundância de caminhonetes cabine-dupla. Muitos rostos sulinos. Poucos sorrisos. Cidades com cara de nada, nada acolhedoras, formavam paisagem monótona, repetitiva, a cada entrada do ônibus. Nada mudava entre o tédio de Matupá, Peixoto de Azevedo, Terra Nova do Norte, Nova Santa Helena, Itaúba, Sinop, Sorriso, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Nobres, Rosário Oeste, Jangada. O pé d’água que desabou em Nova Santa Helena e o razoável sinal de vida humana em Sinop, a maior cidade daquele trecho, quebraram a mesmice sonolenta do norte do Mato Grosso. Pelo menos à noite, Sinop, cidade que leva o nome de uma sociedade imobiliária do norte do Paraná, me despertou curiosidade. Havia amplos canteiros centrais da avenida principal arborizada, com ciclovia, jardins, bancos para sentar e namorar, prestigiado pela população em noite do meio da semana.
Conversas entre os passageiros do ônibus, nenhuma. Silêncio sepulcral pelos assentos.
Até que consegui cochilar bastante, a despeito do frio exagerado vindo do ar condicionado, contra o qual os passageiros reclamaram e nada foi feito.
Em Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá, intenso desembarque de passageiros. Ao amanhecer do terceiro dia, após sucessão de avenidas, viadutos, mais avenidas, o ônibus estacionou na rodoviária de Cuiabá, trinta e nove horas e meia desde a partida de Santarém.
Embarquei em micro ônibus à Chapada dos Guimarães, cidadezinha erguida no topo da chapada de mesmo nome, a menos de duas horas de Cuiabá, em pleno cerrado mato-grossense e com temperaturas mais amenas do que a caldeira da capital. O motorista do micro voou feito suicida pela pista sinuosa e acidentada da MT-251, encurtando perigosamente o tempo do trajeto.
Eu estava sujo, cansado, com sono, com fome. Mas feliz da vida de ter percorrido de ônibus mais uma estrada cheia de histórias, boas e más, a BR-163, a Cuiabá/Santarém. E retornava à Chapada dos Guimarães dezenove anos depois.
À noite encontrei três hóspedes nas proximidades da recepção da pousada. O capixaba que viajou de moto por mais de um mês pela América do Sul e preparava a volta pra casa na manhã seguinte. O casal paulistano passava pouquíssimos dias na Chapada dos Guimarães. Seguimos a bar no centrinho da cidade onde encontramos guias e outros moradores.
A chuva fina persistia do lado de fora.
Durante o dia, no amplo quarto da pousada, li bastante o terceiro volume de Memórias do Fogo, de Eduardo Galeano. Andei lentamente pela cidade. E mais nada.
À noite, sob o céu escandalosamente estrelado, e ao longo de ruas desertas e com rara iluminação pública, caminhei ao centrinho de Chapada dos Guimarães e repeti o mesmo bar da noite anterior. Uma caipirinha medíocre, duas doses de cachaça e vários copos de caldos bem temperados em diversos sabores. Movimento discreto nas outras mesas.
Após o café da manhã, decidi visitar o parque nacional da Chapada dos Guimarães, cuja portaria se localizava na estrada para Cuiabá. Fui e voltei de ônibus de linha.
Em trilha curta visitei as cachoeiras dos Namorados e a Cachoeirinha, ambas de beleza média e águas ainda turvas pelas recentes chuvas. Depois trilha curta ao cartão postal da Chapada dos Guimarães, a cachoeira Véu de Noiva. As águas despencavam de dezenas de metros sobre vale profundo e extenso, limitado por escarpas íngremes de arenito e mata atlântica nas partes baixas. Conjunto impressionante, pela beleza estonteante, pelas dimensões horizontais e verticais do vale, pelas escarpas rochosas de coloração ocre, pela densa floresta tropical verde-escura.
E o tempo virou na manhã seguinte. A frente fria trouxe nuvens escuras e carregadas, chuvas, ventos fortes. À medida que avançava o dia, rajadas de vento, chuva intensa, água, muita água, tempestade de impor respeito. A bruma e a neblina logo cobriram tudo, limitando a visibilidade a poucos metros.
A sensação de andar nas ruas à noite, envoltas pela neblina espessa, com visibilidade pouco acima de dois metros, se tornou excitante. Ninguém, absolutamente ninguém, a pé pelas bandas afastadas do centro da cidade. No centro, esparsos veículos iam e vinham pelas ruas turvas pela cerração.
Ao andar ao longo das ruas vicinais e mais afastadas do centro de Chapada dos Guimarães me lembrei de La Paloma, cidade litorânea do Uruguai. Lá como cá, dezenas de casas vazias pela baixa temporada. Lá como cá, cães ferozes guardavam os quintais e se aproximavam do muro frontal, espumando de raiva, latindo agressivamente à minha passagem. A diferença, para meu alívio, é que na Chapada dos Guimarães nenhum escapou para a rua e me atacou a dentadas, como aconteceu com o pastor alemão uruguaio. Cá, dois enormes cães, aos pulos e babando de ódio, certamente, se soltos, me reduziriam a pedaços de carne sem vida.
Embora as temperaturas se mantivessem baixas no dia seguinte, o sol acabou por se impor e proporcionar tarde luminosa e colorida. Sorte dos cuiabanos que subiram a serra. Muitas roupas quentes, casacos, botas, cachecóis, itens que jamais vestiriam na capital mato-grossense, o caldeirão sem disfarces.
De manhãzinha peguei o ônibus para Cuiabá, com direito às últimas vistas das escarpas ocres da Chapada dos Guimarães. Na rodoviária da capital mato-grossense esperei o segundo ônibus.
Na saída da zona urbana de Cuiabá a assembleia de caminhoneiros sob a tenda improvisada em rotatória preparava a paralisação nacional. Protestavam contra os sucessivos aumentos dos combustíveis praticados pela ditadura originada no golpe de Estado de 2016. E estavam em vias de bloquear rodovias.
Sobes e desces em ziguezagues pela serra de São Vicente, no município de Jaciara. Depois, monoculturas sem fim, entupidas de agrotóxicos, empregando pouca mão de obra. Praticamente tudo para exportação a preços ínfimos.
Após Rondonópolis, a subida da serra ao planalto central. Nos altos, a cidade de Alto Garças e a divisa interestadual entre Mato Grosso e Goiás, atravessando o estreito rio Araguaia correndo sobre lajes de pedra, ali não muito distante das cabeceiras. Do lado mato-grossense, a cidadezinha de Alto Araguaia, do lado goiano, Santa Rita do Araguaia. O frio batia no fundo dos ossos. Era difícil permanecer do lado de fora do ônibus durante as paradas.
Amanheceu no segundo dia na divisa entre Goiás e Minas Gerais, após cruzar as cidades goianas de Jataí, Rio Verde, Itumbiara. O frio se mantinha cortante, mesmo sob o sol. A rodovia atravessou o triângulo mineiro, cruzando Uberlândia e Uberaba, por entre terrenos levemente ondulados.
Depois da divisa entre Minas Gerais e São Paulo, canaviais sem fim, nenhuma plantação de alimentos. Me lembrei dos idos tempos do Brasil colonial. Talvez nem tão idos assim. Minúsculas cidades paulistas ofereciam mão de obra barata, quase de graça, aos senhores de engenho do século XXI. Sem falar nos migrantes, sobretudo do norte de Minas Gerais, que afluíam à região nos períodos de colheita e se entregavam a trabalhos praticamente de escravos, pessimamente remunerados, sem os mínimos direitos trabalhistas.
Em Ribeirão Preto, cidade outrora exibindo opulências, agora oferecia miséria, moradores de rua, prostituição escancarada pelas ruas do centro, inclusive de menores, em pleno meio-dia.
O estado de São Paulo também indignava pela infinidade de pedágios, um atrás do outro, caríssimos, extorquindo dinheiro da população via a ilegal bitributação, todos nas rodovias irregularmente privatizadas pela quadrilha que ditava as regras havia mais de vinte anos no estado.
E mais canaviais, nada de alimentos cultivados, mais pedágios, mais assaltos legalizados.
No começo da noite do segundo dia, naquele fim de maio, o ônibus estacionou na rodoviária da Barra Funda, em São Paulo.
Aquela estupenda exploração pela Amazônia, do rio Juruá ao rio Tapajós, via a Transamazônica, mais a famigerada Cuiabá/Santarém, ainda reverberaria por muito tempo em minha mente.

domingo, 10 de outubro de 2010

do Acre à Bahia (parte 1/7)

Depois das explorações em viagens anteriores nos vales dos rios Purus, Negro, Juruá, Solimões, Amazonas, parte dos rios Tapajós, Xingu, Tocantins e Araguaia, optei por roteiro menos ambicioso na Amazônia para aproveitar melhor o nordeste do Brasil.
Escolhi a via rodoviária para chegar a Rio Branco no Acre. O ônibus partiu em abril, com espaço suficiente para me esticar nos bancos anatômicos. À medida que avançávamos pelo sul de Goiás cresciam as extensões de monocultura, sobretudo de soja. Acampamentos de trabalhadores rurais sem terra sucediam-se nas margens da rodovia, com coberturas de plástico preto, em meio a muita precariedade e abandono. O ônibus cruzou a ponte sobre o estreito rio Araguaia, que, pela proximidade da nascente, as águas transparentes corriam sobre lajes de pedra entre barrancos íngremes, de Santa Rita do Araguaia a Alto Araguaia. A monotonia das monoculturas para exportação se intensificou no Mato Grosso. O descaso com os trabalhadores rurais sem terra também.
O traçado da estrada tornou-se sinuoso na descida do planalto central, por entre chapadas e morros. Amanheceu cinzento em meio a terras desmatadas e não cultivadas do norte de Mato Grosso. Na fronteira com Rondônia, o enorme cartaz alardeava a frase “Bem-vindo ao estado com o maior crescimento de rebanho bovino do Brasil”. A paisagem nos lados da rodovia permanecia plana, desmatada, não cultivada. As cidades, planejadas, tristes, empoeiradas ou enlameadas, desagradavam. E a BR-364 continuava esburacada e cheia de caminhões.
Parada no posto fiscal e de vacinação contra a febre amarela na fronteira do Acre. Chegada a Rio Branco, a segunda maior cidade cearense do país, mais de sessenta e três horas após a partida de São Paulo. A viagem de ônibus, no entanto, foi tranquila, e almocei e jantei comida de verdade em todas as paradas.
Estava na Amazônia, mais uma vez, e animadíssimo para percorrê-la.

O Museu da Borracha, apesar de modesto, interessou para conhecer mais sobre os povos indígenas, a história da Acre e da borracha, evidências pré-históricas e até sobre a seita do Santo Daime.
Segunda-feira à noite com ruas vazias em Rio Branco. Mesmo assim passei boas horas no restaurante do Parque da Maternidade. Havia som ao vivo suave, na base de voz e violão. Observei moradores caminhando pelas pistas.
A funcionária do hotel acordava às 4h e sempre saía após o horário normal de trabalho. Recebia somente um salário mínimo, e com atraso. Separada do ex-marido agressor, ela alugava casa de madeira, com apenas um cômodo, banheiro externo e sem água encanada ou rede de esgotos. Recebia pensão do ex-marido de duzentos reais para os dois filhos. Não completou o primeiro grau e não conseguia arranjar outro emprego, a única maneira de dar mais atenção aos filhos e voltar a estudar. De tão cansada, dizia não se aguentar em pé depois das 20h.
Os acreanos, com grande autoestima, orgulham-se da história do estado, da independência da Bolívia, a passagem para o Brasil através da revolução acreana nos anos de 1902 e 1903. Enalteciam o movimento autonomista que levou a transformação do antigo território do Acre em estado no ano de 1962. Os povos originários contavam com 28 territórios demarcados e regularizados no estado. A maior concentração populacional era a Kaxinawa, do alto rio Purus. Os Ashaninka, do alto rio Juruá, usavam túnicas de algodão, bolsas e chapéus de palha, ocupando regiões de temperaturas mais amenas que se estendiam ao Peru. Os Hikawa tiveram as estampas pintadas e desenhadas em camisetas no exterior.
O ônibus chegou ao anoitecer em Assis Brasil, região da tríplice fronteira Brasil/Peru/Bolívia. A cidade era pequena, calma e com simpática praça, para onde muitos afluíam ao anoitecer.
A região amazônica carece de rochas, pedra e brita para construção. E no Acre a situação era crônica. As casas eram de madeira, o calçamento de muitas ruas de tijolo. Além de bonito, funcional, fresco, absorvia as águas da chuva.
A travessia das fronteiras do Peru e da Bolívia era efetuada pelo rio Acre em pequenas catraias. No lado peruano, o barranco enlameado, uma ripa de madeira sob o toldo de plástico preto, nenhum controle ou fiscalização. Iñapari, cidade com poucas ruas, prédios públicos caindo aos pedaços, casas de madeira, a estrada de terra que seguia para o horizonte e, apesar de menor, contando com praça mais ampla e bonita que a de Assis Brasil.

Retornei ao lado brasileiro para cruzar o rio Acre novamente. Acertei com o catraieiro de me buscar assim que eu reaparecesse na margem boliviana. Lá, três barracas vendendo variedades e o cartaz com as cores da bandeira nacional da Bolívia. Segui na trilha pelo mato. Nenhum ser humano ou sinal que cruzara a fronteira. Mais adiante avistei a bandeira boliviana hasteada. Entrava na vila de San Pedro de Bolpebra. Não havia mais que dez construções de madeira, a escola, o posto policial, em meio ao mato baixo. Dei meia volta, acenei para o catraieiro e voltei às ruas de Assis Brasil.
Assisti ao início da sessão da câmara de vereadores, composta de nove membros reunidos em salão com portas e janelas abertas para a calçada da rua.
O ônibus partiu e menos de uma hora depois a polícia rodoviária federal entrou para fiscalizar passageiros e bagagens. Somente eu tive que mostrar meus documentos e responder a perguntas básicas. Em frente ao bagageiro do ônibus, acompanhei um deles abrir a mochila, retirar volume a volume, abrir e observar tudo. A operação demorou meia hora.
Duas horas depois eu chegava em Brasiléia sob chuva fina. Jantei em restaurante simpático, estilo de fazenda, sem paredes, mesas grandes de madeira e ambiente acolhedor. Dei a volta pelas ruas escuras e vazias, revestidas de frescos, bonitos e eficientes calçamentos de tijolos nas ruas e calçadas. Brasiléia, sem ser o paraíso, revelava centro interessante, construções antigas de madeira, barracos usados como bares ou pensões. Na outra margem do rio Acre, a cidade boliviana de Cobija.
No sábado à noite em Brasiléia, sob a imensa e brilhante lua cheia, o centro da cidade virou cemitério. Praticamente ninguém circulando. A igreja não tinha praça, a praça central não possuía igreja. Brasiléia mantinha a calma e o charme de cidadezinha do interior. Caiu rápida e forte pancada de chuva, causando um barulho danado. Foi o suficiente para subir o nível do rio Acre e as águas carregarem galhos, pedras e terra das margens.
Defeito imperdoável e injustificável em diversas cidades espalhadas pelo Brasil, Assis Brasil e Brasiléia inclusive, era a mutilação geométrica das árvores de ruas e praças. Deixadas com formas de gosto duvidoso, cúbicas, cônicas, esféricas, com desenho de coração, degradavam a paisagem, reduzindo drasticamente as áreas de sombra. 
De volta à capital Rio Branco, domingo animadíssimo, tanto no Parque da Maternidade como na região da Gameleira, sob a noite estrelada. Rio Branco demonstrava que o lazer ao ar livre e em espaços públicos, sem templos de vitrines e o consumo compulsivo, é mais sadio, democrático e divertido.

A cidade de Sena Madureira se espalhava em ruas extensas ao redor de ampla praça no centro. Na margem do rio Iaco, barracos, favelas, bares podres, puteiros, armazéns. E muitos ambulantes. Barcos de pequeno porte atracavam nos barrancos enlameados, trazendo castanhas da Amazônia, compradas e encarecidas pelos intermediários. Povos indígenas se amontoavam em meio à lama, lixo, esgoto, urubus, fezes, mau cheiro. Tomavam banho nas águas barrentas do rio, se deitavam na lama fétida, em contato com o lixo urbano. Outros se reuniam no banco da praça, cutucavam a grama, se comunicavam em língua própria. Alguns, completamente bêbados, se arrastavam pelas calçadas, gritavam, choravam. Ninguém lhes dava atenção.
A indústria da religião não dava tréguas. Dezenas e dezenas de igrejas e templos, de nomes esdrúxulos, se espalhavam por todos os cantos, de onde se ouviam gritos, urros, choros. Mais parecia o fim do mundo.
Desembarquei em Porto Velho pela manhã, já em outro fuso horário. Fui direto ao local dos barcos que fazem a linha do rio Madeira. Os vendedores me levaram ao único com partida confirmada para daí a dois dias. Pechinchei bastante até baixar bem o valor do camarote.
As funcionárias do hotel contaram do abandono de Porto Velho, ruas sem iluminação, não pavimentadas, sem rede de água e esgotos. E da especulação imobiliária, que mantinha terrenos vazios, com mato alto e muito lixo. Quando os necessitados ocupavam, limpavam e ajeitavam o terreno, os tais “proprietários” acionavam a polícia para expulsá-los.
A deliciosa caldeirada de tambaqui, duas caipirinhas, o creme de cupuaçu, deram o tom do almoço.
Levei a mochila para o camarote do barco, já com muitas redes atadas. Dei a volta pelas paupérrimas e sujas redondezas do porto do Cai N’Água.
O barco, com dois pisos e meio, era carregado de batatas e mais batatas, cebolas e mais cebolas, desembarcadas de caminhões provenientes de Santa Catarina. A carga parecia não ter fim. Outra carreta de tomates foi esvaziada. O maranhense morador de Caxias pegaria o barco para visitar o pai depois de vinte anos sem contato. Nem sequer possuía foto dele.

O tempo amanheceu com a floresta presente nas margens do rio Madeira, largo e cheio. Pouco se via dos raríssimos e distantes casebres de madeira. Parada em Humaitá. Tarde na preguiça, leve cochilo junto à maioria dos passageiros. Depois boa conversa com um mineiro a trabalho no Amazonas, entre leves pancadas de chuva e belas visões da floresta.
Os vilarejos, com algumas casas e agricultura de subsistência, aumentavam em número. A cidade de Novo Aripuanã, onde o barco atracou, apresentava orla urbanizada, porto limpo e organizado. Em seguida, ocorreu churrasco no convés superior, com vários tipos de carne.
Os dois irmãos amazonenses, embarcados em Humaitá, relataram as arbitrariedades cometidas pelas autoridades locais. Prefeito, juiz, comandante da polícia mandavam prender e soltar, quando e quem eles queriam. Não respeitavam as leis, muitas vezes criadas por eles mesmos. Agrediam adversários políticos ou cidadãos que passavam no caminho. Invadiam casas dos desafetos, apedrejavam, estupravam, aliciavam, coagiam, intimidavam a torto e a direito. E se valiam da miséria, ignorância e abandono da maioria da população. O medo dos moradores, sob o terror das elites, garantia impunidade.
Paradas noturnas em Manicoré e Nova Olinda.
Amanhecemos no Paraná da Eva, corte de caminho na margem esquerda do rio Amazonas. Águas escuras, calmas e ladeadas por fazendas de gado e búfalos. Planícies verdes, árvores frondosas e isoladas, casas aconchegantes, com barquinhos atracados, formavam paisagem relaxante.
Aumentava a ansiedade dos passageiros pela chegada. Mais barcos e balsas em circulação, comunidades diversas e maiores nas margens, apontavam para a proximidade do grande centro. Grupos de amigos contavam piadas e fofocas da noite anterior na proa do convés superior.
continua...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

do Mato Grosso à Bahia, via Amazônia (parte 1/7)

Em novembro larguei a paranoia do bug do milênio no banco onde trabalhava e decidi explorar o Monte Roraima e o Pico da Neblina no norte da Amazônia. E com tempo suficiente para aproveitar o caminho até o encontro com os colegas da empreitada em Boa Vista.
O ônibus com destino a Cuiabá saiu de manhã do Terminal Rodoviário da Barra Funda praticamente vazio. Ao chegar peguei outro ônibus para a cidade de Chapada dos Guimarães, cujo percurso passou por dentro do parque nacional, margeando imponentes escarpas. Jantar muito saboroso na base de galinha caipira com arroz e farofa de banana. A porção era imensa. Mesmo faminto, sobrou muito. Ainda teve a pinga da região, muito gostosa e gratuita.
Durante a noite, além dos mosquitos, o galo do vizinho da pousada não parou de cantar, histericamente.
Decidi me encaixar em passeio de grupo, difícil sem guia e transporte próprio, rumo à cachoeira da Martinha, caverna Aroe Jarí, gruta do Lago Azul e à Cidade de Pedra. Para atingi-las foi preciso encarar bastante estrada de terra, trilhas pelo cerrado e matas ciliares. A gruta do Lago Azul impressionou pelo tom azulado da água. A Cidade de Pedra reservava vista maravilhosa das escarpas da chapada e dos vales mais abaixo. Na parte alta e aplainada da chapada predominavam monoculturas de soja e fazendas de gado, mas os blocos rochosos de diversas formas e tamanhos chamavam mais a atenção. De volta à cidade, vazia naquela época do ano, delicioso jantar com o grupo na base de muita comida típica e pinga artesanal.
Durante o café da manhã da pousada surgiram paranaenses do interior, bem típicos, broncos, com medo de gente. Foi o sufoco para eles responderem ao simples “bom dia”. Peguei o ônibus local e caminhei até a entrada do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães. Visitei a cachoeira Véu de Noiva, as escarpas e os vales e, mais adiante, pelas trilhas no cerrado, límpidas cachoeiras, maravilhosamente sem ninguém. Deu para ficar nu e relaxar de verdade. As trilhas prosseguiam em meio ao cerrado com vistas dos paredões.

Aceitei a sugestão do mesmo guia de dias antes de caminhar até o morro São Jerônimo, o ponto culminante da Chapada dos Guimarães. Surgiu excursão de colegiais vindo do interior de Rondônia. Quase cinqüenta adolescentes mais dois coordenadores lotavam o ônibus de turismo. O passeio ficaria bem mais barato dividindo com a tropa. Eu e o guia fomos em pé, na frente, junto ao motorista. No toca-fitas rolava em volume altíssimo a música cujo refrão dizia:
Não te quero mais, Me deixe em paz, Procure outro rapaz (repete).
Piranha! (repete).
E no final arrematava com o doce verso “Socorro polícia, essa mulher roubou minha carteira”.
Antes da caminhada, cerca de vinte adolescentes empacaram logo na primeira cachoeira, urbanizada, e ali ficaram. Os remanescentes partiram para a caminhada, sob o sol quente, com chinelo de dedo, sem camisa, garrafas de água penduradas por barbantes, enormes sacos de sanduíche, bolachas, uma enorme e pesada filmadora. Antes de completar o primeiro quilômetro de trilha já estavam exaustos e querendo desistir, muitos já descalços. Mas apertaram o passo e passaram a curtir. Conversavam comigo e até elogiavam o guia. Subiram os paredões do morro satisfeitíssimos, fotografaram bastante, filmaram as explicações do guia.
Deixei o dia seguinte para não fazer nada e me entregar à lentidão e à preguiça da interiorana Chapada dos Guimarães. Circulei pelas ruas onde se construíam casas grandes para os ricaços de temporada. Na zona central, conforme determinação contemporânea à criação do parque nacional, somente casas térreas, janelas de madeira e acabamento colonial.
Durante a noite de sábado reencontrei os rondonienses na praça lotada. Além da escola ajudavam nas lavouras ao redor da cidade fundada pelos pais, imigrantes principalmente paranaenses e gaúchos. O grupo bancou a excursão a partir de contribuição de dois reais por cabeça, mais o dinheiro arrecadado em festas beneficentes. Extremamente broncos, simpáticos, sinceros e autênticos, contaram das cobras, muito trabalho, pouco lazer, hábitos conservadores, banhos de rio, falta de dinheiro.
Entrei novamente no parque nacional e explorei as trilhas situadas depois da cachoeira Véu de Noiva. Após a trilha íngreme, encontrei cachoeira quase selvagem com queda de cerca de quarenta metros. Araras voavam no céu azul. Depois de meia hora de absoluta tranquilidade surgiram três turistas guiados. Com menos de 30 anos, muito magra e tensa, a paulista explicou que a consultora esotérica lhe recomendou a viagem porque a data e o local se casavam com os astros no dia do aniversário dela. Ficaria na chapada apenas três dias e depois voltaria ao trabalho estafante. A coitada chegou tensa, permaneceu tensa e assim retornaria.

Tomei o ônibus urbano para Cuiabá. Na rodoviária, esperei o ônibus proveniente de Curitiba e com destino a Porto Velho. O ônibus era do tipo semileito, com terrível e gelado ar condicionado, água à vontade e aqueles incômodos suportes para pernas e pés. A frequência, claro, de paranaenses e sulistas em geral.
Depois de Várzea Grande a estrada sinuosa desviou para oeste evitando os trechos mais íngremes e dramáticos das chapadas, com serras de coloração verde escura, cerrado, escarpas. Nas partes baixas, extensas planícies parcialmente alagadas, fazendas e muito gado. Próximo ao entroncamento da fronteira boliviana, no meio da serra e sob a forte chuva, agentes da Polícia Federal pararam o ônibus para verificação de documentos dos passageiros masculinos. O veículo atravessou a plana cidade de Cáceres, com longas ruas de terra e muito verde. Haja mangueiras e sombras frescas. Mais à frente, o jantar em Pontes de Lacerda.
Na fronteira entre Mato Grosso e Rondônia a fiscalização sanitária apenas aconselhou aos passageiros a vacinação contra a febre amarela. O dia começou a clarear em Rondônia. Ao lado a cidade de, com o perdão da palavra, Presidente Médici.
Muitos sulistas desceram na parada em Pimenta Bueno durante a madrugada, quase esvaziando o ônibus. Embarcou e se sentou ao meu lado uma mineira de Ouro Fino. Idosa, morava na região desde 1964, quando nem havia estrada de terra. Até Porto Velho era preciso barcos pelo rio Machado e depois rio Madeira. A estrada veio mais tarde, com poeira, lama, atoleiros. Não tinha médicos, apenas enfermeiros despreparados e, eventualmente, estudantes do projeto Rondon. O marido faleceu em 1971 após aplicação indevida de injeção. Sobreviveu viúva à malária, hepatite e outras “febres de verão”, mantendo-se firme para, como lavadeira, sustentar sozinha os nove filhos. Foi atraída pelas falsas promessas da ditadura civil e militar. Depois da chegada, decepções e falta de dinheiro para voltar. Outros tantos milhares de seres humanos tiveram o mesmo destino.
A paisagem de Rondônia vista da janela do ônibus era desoladora. Cidades agitadas, como Ariquemes e Ji-Paraná, mas pobres, feias, sujas. Imensas áreas planas sem vestígios do que já foi a floresta amazônica. Não faltavam grandes galpões das madeireiras e caminhões transportando enormes toras. E no lugar da floresta? Plantações de alimentos, lavouras? Nada. Apenas o vazio cercado e as raríssimas criações de gado. A senhora mineira constatava e se entristecia com a catástrofe e a destruição desenfreada.
Ela se despediu emocionada na rodoviária de Porto Velho, afirmando que fora um prazer poder conversar comigo. Puxa, foi todo meu! Coloquei a mochila nas costas e, sob o sol escaldante, caminhei dez quarteirões até o hotel.
Porto Velho não tinha nada de especial. Plana com ruas longas, largas e planejadas, poucos prédios altos. Com exceção da parte central, tudo calmo e agradável de andar. Andei pela margem do rio Madeira, com o porto fluvial, os barzinhos, a estação desativada da ferrovia Madeira/Mamoré. A estação possuía museu com objetos e fotos que contavam a história da famosa ferrovia. Os textos falavam dos estrangeiros que trabalharam e acabaram ficando, entre os quais os negros de Barbados. O povo sempre desejou a reativação total da ferrovia. Mas, como em todo o país, é impedida pela ditadura do transporte rodoviário.

Na margem do rio Madeira, ancorados, barcos com destino a Manaus. Os vendedores das agências de passagens surgiam aos montes. Alto-falantes tocavam músicas e passavam recados pessoais. O monte de barro com pedaços de madeira servia de rampa para embarque e desembarque. Tudo muito improvisado e desleixado.
À noite, pelo centro, ruas desertas e sem iluminação. Raros veículos e nenhum pedestre. Breu total. Por outro lado, a tirania da televisão atingiu a cidade em cheio. Em praticamente todos os bares e restaurantes a desgraça estava ligada, para onde os frequentadores fixavam os olhares bovinos. Até nas barraquinhas de sanduíche existia a dita cuja voltada para as mesinhas dos fregueses.
Na outra margem do rio Madeira, nos acostamentos da BR-319, barracas cobertas com palha de buriti vendiam refrescos e salgadinhos. Numa delas, o homem gritava indignado para o colega:
“Onde já se viu admitir uma coisa dessas? A mulher chegou aqui em setembro e já arrumou quatro maridos nesse tempo. Assim não dá! Essa não presta”.
E emendava:
“Eu, quando cheguei aqui, até hoje já tive onze mulheres, com essa que está em casa. A primeira eu peguei na rua, dei comida para ela, ajeitei ela, deixei ela bem...”.
Em outra barraca três homens falavam mal dos índios, acusando-os de beberem um litro de pinga na mesma noite e quererem trocar três índias pela mulher do comerciante.
Encontrei churrascaria com comida saborosa, bela vista para o rio Madeira, trilha sonora de puteiro. Na árvore ao lado, a arara vermelha gritava por não suportar mais ouvir aquilo. Em frente, o grupo de amigos se confraternizava tomando vinho tinto. Embora servido gelado e em jarra, ainda acrescentavam pedras de gelo. Um deles estava a caráter, todo de preto, cinto com enorme fivela, botas, pulseiras.
Ainda era cedo no aeroporto. Enrolei, bebi umas e outras, belisquei amendoim. Em todas as alas do aeroporto os televisores transmitiam a instrutiva programação da tal rede de televisão. Contrato de exclusividade? Embarquei em voo vazio e tranquilo. Ainda estava claro e pude ver a floresta.
Em Boa Vista, de madrugada e sem ônibus urbanos, não consegui escapar de táxi caríssimo para percorrer o curto trecho até o hotel.
O centro oficial de Boa Vista, situada no hemisfério norte, fica na Praça do Centro Cívico, ampla, cercada por avenidas largas, prédios modernos, inclusive a catedral, palácio do governo, assembleia legislativa. Praticamente toda a cidade se espalhava em ruas e avenidas largas, sem edifícios altos. O sistema de ônibus urbano era organizado, com pequenos terminais, veículos novos, funcionários bem treinados e educados. O rio Branco parecia bem aproveitado como área de lazer pela população. Na margem erguia o núcleo histórico da capital de Roraima, com ruas estreitas, o porto, o mercado de peixes, o pequeno bairro com casebres de madeira, bares, a zona barra pesada.
A maioria da população da cidade era indígena, com pouca ou nenhuma miscigenação. O restaurante na beira do rio preparava uma caipirinha deliciosa, exibia vista panorâmica de praias atraentes, da ponte e das colinas ao fundo. A família de venezuelanos chegou e logo foram cumprimentados pelos brasileiros de outra mesa. Trocaram saudações e frases nas próprias línguas, sem traduções desnecessárias.

E amanheceu o dia do encontro. Os colegas mineiros finalmente desembarcaram em Boa Vista.
Viajamos por estrada plana, cortando o cerrado do norte de Roraima. Na divisa com a Venezuela relevo pouco mais acidentado. Serviço rápido e gratuito para obtenção do visto na fronteira. A pousada em Santa Helena de Uairén se compunha de ocas com os interiores, tetos, portas e quadros decorados pelo próprio proprietário. Dali se via a cidade e as montanhas mais ao fundo. O restaurante, improvisado no ateliê de pinturas. Comemos em meio a quadros, outras obras de arte, pincéis, tintas, ferramentas de trabalho.
Embarcamos cedo em veículos fora de estrada rumo ao início da trilha ao Monte Roraima, na aldeia indígena de Paraytepui. O caminho incluía inúmeros e enormes buracos, valetas profundas, somente restinhos de estrada aqui e ali.
Cumprimos as formalidades na portaria do parque nacional Canaima, visando o controle do limite máximo de pessoas. Os fiscais exigiram o roteiro detalhado da caminhada, os pontos e dias de acampamento, a data da volta. Com mais de dezoito quilos da minha mochila finalmente começamos a caminhar.
Em início fácil, por trilhas largas, bem marcadas e com poucas subidas, percorremos a savana venezuelana e logo na metade do dia começamos a avistar o Monte Roraima, à frente, e o monte Kukenan, à esquerda. O tempo abriu, as nuvens se dissiparam e a visão das imponentes montanhas ficou desimpedida. Jorrava do topo do monte Kukenan delgada queda d’água de centenas de metros.
A extensa e escorregadia laje de pedra no leito do rio Tek dificultou o cruzamento apesar da pouca água. E no rio Kukenan a forte correnteza sobre o fundo de pedras lisas e irregulares empacou o grupo na travessia. Depois de nos banharmos demoradamente, dormimos amontoados no casebre de taipa na margem do rio. Montar as barracas, porém, teria sido a opção mais adequada.
Pela manhã o monte Kukenan, iluminado pela luz do sol, nos presenteou a visão encantadora. A subida leve e constante antes do campo base do Monte Roraima quebrou a resistência, ainda mais com o estômago vazio. Após o lanche substancioso, iniciamos a longa subida até o topo, em trilha bastante íngreme, com pedras, trechos de mata, cursos d’água e até pequenas cachoeirinhas ou duchas naturais refrescantes. Margeando o paredão, o caminho parecia sem fim. A escarpa rochosa sobre nossas cabeças ficava cada vez mais alta. Toda a paisagem, porém, compensava e fascinava.
No topo, indescritível a visão das rochas negras, de vários formatos, dispersas nas nuvens. Escolhemos lugar abrigado, o “hotel”, para montar as barracas, sob a gruta na escarpa do morro. Em momentos de abertura do tempo era possível avistar, bem abaixo, os vales e os campos do primeiro dia. Comemos cedo e bastante, antes de desmaiar dentro da barraca.
continua...