...continuação
Durante a madrugada o trem cruzou os montes Urais e entrou na Sibéria, a Rússia asiática. Também de madrugada passou e parou na cidade de Omsk, perto da qual muitos prisioneiros e deportados foram levados durante a ditadura dos tsares, antes da revolução russa, inclusive o escritor Fiódor Dostoiévski.
Dormi bastante, mas descontinuadamente. Pela manhã, sem fome, empurrei os três sanduíches preparados no café da manhã do hotel anterior. Solicitei o copo com o suporte metálico junto à chefe do vagão, adicionei água quente da torneira coletiva e me hidratei com chá com gengibre.
Do lado de fora das janelas do corredor lateral do vagão, a planície sem fim, terras cultivadas, florestas, vilarejos. Os russos, nas estações, ou mesmo dentro dos trens, vez ou outra tentavam se comunicar, normalmente sem sucesso pela barreira da língua.
Percorri internamente, com o trem em movimento, vários vagões de passageiros, de primeira, e até de terceira classe, estes dotados de cabines abertas e camas adicionais ao longo dos corredores. No vagão-restaurante um russo bêbado não parava de entornar garrafas de vodca e engolir pedaços de picles. Pegava nos braços da paciente garçonete. Tentou insistentemente, como todos os bêbados, grudar nos quatro brasileiros que ali ficaram.
Desembarque no final da tarde em Novosibirsk, a terceira maior cidade da Rússia e a maior da Sibéria. O quarto do hotel, no décimo nono andar, propiciava vista estupenda da cidade, da praça da estação, do imponente rio Ob.
Jantar de gala em restaurante de comida russa e afins. Escolhi prato da culinária uzbeque, duas doses de vodca, bolo de cereja, chá de ervas siberianas. Na imensa mesa retangular brotaram conversas das mais variadas. As garçonetes arranharam inglês básico e com o meu russo, ainda mais básico, a comunicação funcionou.
Acordei no susto por conta do despertador do celular. Meu organismo demorava a se ajustar aos novos fusos horários, constantemente em alteração. Sem falar nos repetidos embarques e desembarques nos trens, as entradas e saídas dos hotéis. Mas a travessia da ferrovia Transiberiana se tratava justamente disso. Vivas!
Via o eficiente metrô da cidade, visita ao gigantesco teatro municipal de Novosibirsk, o maior da Rússia e o maior da Europa até o século XX. Construído entre as décadas de 1930 e 1940, todo acarpetado e em excelente estado de conservação, a sala principal comporta mil e quinhentos espectadores. A orquestra sinfônica ensaiava peças clássicas. Numa das salas menores, a orquestra de câmera e a contralto ensaiavam trechos de ópera.
Em frente ao teatro, ampla praça com a estátua de Lenin e dos trabalhadores do campo e da cidade. Mais à frente, na parte interna de parque, o túmulo e o painel em homenagem aos mortos durante a guerra civil russa, entre 1917 e 1922.
Novamente metrô até a margem do rio Ob, para passear e espairecer com a população local. Alguns pescavam serenamente na beira das águas. Por ali almocei comida simples e saborosa com vista das águas do rio e das pontes.
Bati pernas pela cidade, por praças, estações de metrô invariavelmente decoradas com lustres, mosaicos, vitrais, pinturas, às dezenas e sempre vistosas.
Jantar em restaurante típico siberiano. Os pedidos variaram de carne de rena crua temperada, lábios de alce, pelmenis de carne de boi e carne de porco, suspiro com pinoles, chá-preto com sementes siberianas.
Embarque no início da madrugada em trem para Irkutsk. Tão logo me instalei na cabine caí no sono.
De manhã desci do beliche superior para apreciar a paisagem externa pelas amplas janelas do corredor lateral do vagão. O relevo levemente ondulado, dotado de colinas discretas, abrigava florestas de bétulas e, principalmente, pinheiros, atravessados por sinuosos e estreitos cursos d’água. Algumas folhas amareladas anunciavam o outono a iniciar em breve. Nenhuma plantação extensiva à vista. Vilarejos com casas pintadas com cores vivas. De maneira artesanal e em pequenas dimensões, hortas cultivadas em solo escuro, quase negro.
As funcionárias do vagão, a chefe e as auxiliares, bem jovens, primavam pela atenção e prestatividade. Vira e mexe passavam pano úmido nos pisos para desinfetar o ambiente. Havia a cabine ocupada por pai, mãe e filho pequeno, todos de traços orientais, corpos arredondados e atarracados. Siberianos, asiáticos legítimos.
Parada de vinte minutos na estação de Krasnoyarsk. Os fumantes logo esfumaçaram tudo ao redor. Aproveitei para perambular pela plataforma, observar e registrar belas imagens naturais e flagrantes humanos.
À tarde cochilei sem me enfiar dentro do saco do lençol. Na verdade aquela peça era o lençol para envolver a manta grossa e quente. Mas eu a usava com saco de dormir, e sem a manta, claro. Em todos os trens, após o embarque dos passageiros novos, a chefe do vagão fornecia o jogo contendo toalha pequena, lençol de baixo, o saco do lençol, fronha. O material não era de primeira mão, mas sempre vinha limpo e perfumado. A manta e o travesseiro permaneciam sobre as camas dos beliches. E, sob a solicitação de cada passageiro, era fornecido o copo de vidro e o suporte metálico rebuscado em metal.
Parada mais longa em Ilanskaya. Tempo para desembarcar, apreciar e registrar flagrantes do povo siberiano, inclusive do vilarejo ao lado da estação ferroviária. Subi as escadas rumo à passarela alta para troca entre as plataformas, permitindo visão mais panorâmica do entorno. Fazia frio. Mesmo assim saí apenas com a camiseta de manga curta, o calção, o chinelo de dedo. Era o uniforme oficial para os interiores dos trens climatizados acima dos vinte graus de temperatura.
Jantei o pote grande de lamen chinês. Era apimentado demais e ardeu até a alma. Mas valeu pelo sabor pronunciado. Acrescentei três pedaços de pão siberiano, compacto e pesado, garantindo mais substância na refeição e amenizando parcialmente o efeito da pimenta.
Antes do amanhecer acordei no susto. Permaneci apreciando a paisagem do corredor lateral do vagão. E veio o desembarque na estação ferroviária de Irkutsk.
Após voltas na margem do rio Angará e visita ao navio quebra-gelo almoço em restaurante de comida siberiana. O destaque foi o peixe omul, espécie endêmica do lago Baikal, situado nas proximidades de Irkutsk.
Como as demais visitadas, Irkutsk era cidade dotada de urbanismo humano, bem conservada, repleta de praças e parques, arquitetura arrojada e funcional, presença de casas tradicionais de madeira, povo sério e educado, trânsito civilizado dando sempre preferência aos pedestres. O rio Angará contava com orla, no formato de parque linear, em dois níveis, ambos bonitos, agradáveis e prestigiados pela população. Tudo limpo e bem tratado, pela administração pública, pelos próprios moradores e visitantes.
À noitinha jantar em restaurante especializado em carnes de caça de animais silvestres siberianos. Entre as iguarias, carnes de rena grande, rena pequena, alce, cabra selvagem, veado, entre outras delícias grelhadas. Provei todas elas e uma soube mais saborosa que a outra. Foram servidas com molhos à base de mel, frutas silvestres siberianas, legumes e tomate. Duas doses de vodca e suco de frutas vermelhas regionais hidrataram o banquete.
De ônibus na direção da cidadezinha de Listvyanka, na beira do lago Baikal. Circulei pela praia de água doce, contendo pedras grandes, águas geladas e morros com pinheiros e bétulas atrás da orla. Nas redondezas, concentração de hotéis, bares, restaurantes, lojinhas de lembrancinhas e inutilidades em geral. Havia aluguel de barcos com som alto, turmas para lá e para cá, agitação. Era local com afluxo de turistas russos e chineses.
Trezentos e tantos rios abastecem as águas do lago Baikal. No entanto, apenas o rio Angará, que banha Irkutsk, era abastecido por ele. Nasce no lago e deságua no rio Ienessei, a oeste.
No mercado local as bancas ofereciam o peixe típico do lago Baikal, o omul, defumado e pronto para comer com os acompanhamentos desejados.
O barco de passeio singrou as águas do lago Baikal rumo ao trecho por onde já passou, décadas antes, o trecho da ferrovia Transiberiana que contornava o lago. Desembarque e percurso a pé, sobre as dormentes, por parte do trecho da antiga ferrovia, agora utilizado apenas para passeios turísticos curtos, até o túnel velho.
Levantei bem cedo para tomar o café da manhã e embarcar em mais uma etapa da ferrovia Transiberiana, com destino a Ulan-Ude. Por mais de cinco horas a composição margeou o lago Baikal, cuja profundidade das águas atingia mil e setecentos metros. Na beira das águas, vilarejos de moradores e casas de temporada.
Aquela composição ferroviária pertencia à rara linha direta e completa que ia de Moscou a Vladivostok, cujo trajeto total, ininterruptamente, duraria seis dias. A chefe do vagão era séria, de poucas palavras, mas prestativa e eficaz. De vez em quando outra funcionária da ferrovia percorria os vagões do trem oferecendo coisinhas, comestíveis ou não.
Do lado de fora dos janelões do trem, as folhas das bétulas e de outras árvores começavam a amarelar, a alaranjar, poucas a avermelhar. O outono se anunciava em poucos dias.
Apesar de vistosa, impressionava a pobre biodiversidade da taiga, um dos ecossistemas, além da tundra, típicos da Sibéria. As árvores de poucas variedades, se concentrando em bétulas, abetos e pinheiros, logo se tornavam monótonas. Aquele verde infinito, cortados por estreitos cursos de água, entretanto, encantava. E instigava ainda mais saber que, durante o inverno, tudo estaria congelado, coberto de neve branca, com temperaturas beirando os quarenta ou cinquenta graus negativos.
Enganei o estômago com dois sanduíches de queijo e fatias de um dos milhares de tipos de embutidos russos, ou kalbassá. A maçã fresca coroou o lanchinho. E seguidas doses de chá de saquinho, preto ou com gengibre, em copos e suportes fornecidos pela chefe de vagão, acrescidos da sempre disponível água quente das torneiras coletivas.
À tardinha desembarque em Ulan-Ude, capital da República da Buriácia, cidade majoritariamente de etnia mongol e religião budista.
Pela proximidade da Mongólia e da China, era praticamente impossível saber se os circulantes eram russos, mongóis ou chineses. No centro da praça dos Sovietes, margeada pelo prédio do governo da Buriácia, em destaque, a maior cabeça em concreto de Lenin existente no mundo.
Jantei na base de buz, bolinho típico regional, fervido de carne envolto em massa também fervida, quitute parente do momo tibetano e do guioza japonês. De acompanhamento, salada de beterraba e queijo fata.
Explorei a beira do rio Selenga, na parte baixa do centro de Ulan-Ude. Atingi o calçadão da orla do rio, meio abandonada, com garrafas vazias de bebidas alcoólicas ao lado de lixeiras entupidas. À frente, ilha alongada, agrupamento de casas de madeira na margem oposta sob as colinas. A névoa que cobria a cidade ao amanhecer começava a se dissipar lentamente, mantendo trechos esparsos cobertos pelas nuvens passageiras, especialmente próximo à margem do rio.
Visita ao Museu de História da Buriácia. Salas explicativas, mapas, objetos, roupas, fotos, obras de arte, maquetes, reproduções de cenas antigas. O destaque ficou por conta de boneco em tamanho natural, representando o xamã regional, guia religioso anterior à conversão dos buriates ao budismo tibetano. No boneco, vestimentas e cobertura da cabeça, traços do homem sagrado que cultivava a relação com a natureza, fauna, flora, céu, estrelas.
Caminhei pela prestigiada rua Lenin, em especial no trecho com calçadão e público jovem caracterizado. Ao final, ao longo de extensa e estreita rua, inúmeros exemplares de casas antigas de madeira, típicas da região, cujas janelas grandes, ornamentadas, entalhadas, chamavam a atenção e imploravam por registros fotográficos.
As temperaturas despencaram. O vento gelado provocava sensação térmica desconfortável. E ainda faltava uma semana para terminar o verão russo.
Visita matinal ao mosteiro budista Ivolginsky Datsan, a quarenta minutos de Ulan-Ude, o maior centro religioso do gênero da Rússia. Lá se cultivava a memória do décimo segundo lama da região, Pandita Khambo Lama Dashi-Dorzho Itigilov.
Por ter visitado tantos templos budistas pelos países asiáticos explorados em décadas anteriores, nada me impressionava. Eu já sabia o que viria daquilo. Apesar da ilusória aparência leve e relaxante, eram longas e monótonas estórias, misticismos, dogmas inventados por seres humanos, como em todas as religiões, disciplina rígida e sem sentido, regras absurdas, lendas e fábulas impossíveis de acreditar para quem não se permitia manipular por fundamentalismos.
Nunca seria demais lembrar que os monges budistas daquela linha fundamentalista se aliaram ao tsarismo, ou seja, a favor da classe dominante exploradora e opressora do povo da velha Rússia. Além disso pegaram em armas contra os que estavam à frente da libertação e emancipação dos trabalhadores russos. Os budistas da Buriácia agiram em sintonia com a maioria das elites religiosas pelo mundo afora, a favor das elites e contra o povo.
De volta a Ulan-Ude, me abasteci em supermercado com itens comestíveis para o trecho mais longo da ferrovia Transiberiana, de mais de cinquenta horas, a iniciar na manhã seguinte.
À noite restaurante onde, entre outras opções, se servia menu degustação de dez pequenos pratos da culinária buriate. Mergulhei de cabeça e animadíssimo nessa opção. No entanto, nenhum destaque entre as dez opções servidas, decepcionantes na quantidade e, sobretudo, na qualidade.
Ainda no escuro, na recepção do hotel, peguei o saco com o café da manhã compacto fornecido pela cozinha. A plataforma da estação ferroviária sofria com ar gelado naquele quase alvorecer.
continua...
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