...continuação
Pela manhã, ônibus para Shaoshan, cidade natal de Mao Zedong (Mao Tsetung).
Primeiro, o memorial com fotos, textos, reproduções de cenas da história do líder da revolução chinesa de 1949. Nova triagem de segurança e ônibus interno no sentido da praça principal. Ao redor da estátua de Mao dezenas de grupos depositavam coroas de flores, faziam três reverências inclinando o corpo. Havia três opções de coroa de flores, a pequena, a grande, e a enorme com direito a banda musical militar com soldados vestidos a caráter. Os chineses abarrotavam o local. Mais nenhum estrangeiro por ali.
O povo chinês prestava homenagem a quem esteve à frente das transformações revolucionárias que substituíram a velha China, feudal, miserável e submissa ao imperialismo ocidental e japonês, pela nova China, soberana, que aboliu a fome, a miséria, o analfabetismo, o desemprego, garantindo vida digna a mais de um bilhão e quatrocentos milhões de chineses. Transformações que não cessavam de ocorrer e contavam como apoio e a participação maciça da maioria do povo.
Mais filas longas e lentas para visitar a casa onde Mao Zedong morou com a família, contendo móveis e objetos pessoais. Em seguida a escola onde ele estudou os primeiros anos.
O ônibus atravessou a cidade de Changsha a fim de visitar a ilha alongada de Juzizhou, no rio Xiang Jiang, que banha e divide a capital da província em dois setores. Ao redor, espetáculo de luzes coloridas, temáticas e dinâmicas nas altas torres envidraçados das margens do rio. No meio da ilha, busto gigante e iluminado do jovem Mao Zedong.
Apesar de carentes de beleza, as cidades chinesas visitadas ganhavam leveza e qualidade de vida devido à arborização intensiva em ruas, avenidas, praças, parques, espaços vazios em geral, viadutos repletos de vasos de flores.
Em restaurante dentro de complexo retrô de três andares, lembrando armazém antigo, com paredes e pisos descascando, o jantar farto e variado. Veio de tudo um pouco. Camarão, lagostim, lula, rã, sapo, legumes variados, invariavelmente ensopados em molhos bastante apimentados. Tigelas de arroz não paravam de chegar. Hidratei o banquete com o destilado Baijiu e suco de frutas.
Ônibus ao aeroporto de Changsha para embarcar em voo rumo a Xi’An (Xian), capital da província de Shaanxi.
Em restaurante na avenida principal de Xi’an detonei dois pratos bem servidos. Primeiro noodles com legumes em caldo quente e temperado. Emendei com piang piang, macarrão largo e longuíssimo repleto de carnes e legumes.
Dei voltas pelo miolo da cidade, iluminada exageradamente, como regra nas cidades chinesas. Muita gente em circulação, conversando, comendo, e também dando sequência a hábito curioso entre parte das mulheres chinesas. Elas vestiam roupas das dinastias chinesas feudais, se maquiavam, se penteavam como tais, faziam caras e bocas e eram fotografadas nas calçadas como se fossem chinesas da antiguidade. Outras falavam sem parar diante de celulares posicionados sobre tripés a fim de serem vistas e ouvidas na internet. Não eram casos isolados e se concentravam em pontos da cidade.
Pela manhã, visita à filial distante e moderna do Museu de História de Shaanxi. Tudo amplo, novinho em folha. Painéis explicativos sobre a história dos primeiras dinastias que se unificaram, dominando diversas etnias espalhadas, sobre o território da China atual.
Pelas avenidas, de ida e volta ao museu, edifícios residenciais de mais de vinte andares, às pencas, abrigando parte dos um bilhão e quatrocentos milhões de chineses. Construções cinzentas, pardas, a despeito de amplos apartamentos, entristeciam aquela paisagem urbana sem fim. A arborização e o ajardinamento das cidades chinesas, por outro lado, iniciada havia mais de vinte anos e seguida à risca em todas as partes, amenizava a paisagem urbana.
Almoço perto do pagode do Grande Ganso Selvagem, ao qual nos dirigimos em seguida com a barriga cheia e satisfeita. Bem mais agradável e útil, porém, era apreciar e registrar flagrantes urbanos da cidade murada de Xi’an.
Circulei despretensiosamente pelo centro da aconchegante e atraente cidade de Xi’an. Flagrei cenas urbanas, as variadas e minúsculas motos elétricas, com ou sem cobertura, com ou sem reboque, com ou sem assentos traseiros, as barracas de sucos de frutas frescas, as de comes e bebes variados, a maioria limpa, organizada, colorida, vistosa. Como esperado, muita gente, mas muita gente mesmo, nas ruas.
No meio do dia rumo aos arredores de Xi’an (Xian), onde, em 1974, acidentalmente, por camponeses lavrando a terra, foi encontrado parte do mausoléu do imperador Qin Shihuang, da dinastia Qin, contendo os mundialmente famosos Exércitos de Terracota, uma das maiores atrações da China.
Em galpões cobertos, em processo de escavação arqueológica, com muito ainda a ser descoberto e exposto à visitação, lá estavam os soldados do imperador, em tamanho natural, cuja função seria a de protegê-lo após a morte. Em centenas de metros, enfileirados militarmente, soldados, armados ou não, cavalos, charretes, completos ou danificados, em pé ou caídos, mas todos em tamanho natural. Originalmente coloridos as peças perderam a pigmentação ao entrar em contato com a atmosfera.
Obviamente estava lotado de visitantes. Os turistas chineses e estrangeiros se empurravam para apreciar e fotografar da melhor posição possível.
O galpão contendo a escavação 1 era o maior e o mais deslumbrante. O galpão protegendo a escavação 2 era menor, mas também fascinante. O galpão da escavação 3 oferecia cenas diferenciadas, embora em menor quantidade.
O mausoléu do imperador Qin Shihuang, embora localizado e mapeado com exatidão, jamais fora escavado. O ar contaminado por mercúrio, o risco da atmosfera natural danificar pinturas, revestimentos e cores, como no exército já escavado e exposto, provocava o adiamento dos procedimentos até o momento em que novas tecnologias garantissem a preservação do material tal como foi no século III A.C..
Perambulações livres por Huimin Jie, o bairro muçulmano de Xi’an (Xian), ao lado da Torre do Tambor e da Torre do Sino.
O bairro charmosíssimo revelava ruas estreitas, becos, comércio alegre, comes, bebes, lojas de antiguidades, lembrancinhas, inutilidades, supérfluos. No meio dos itens expostos à venda, muita estupidez para turistas com problemas mentais, como camisetas com a foto do ex-presidente negro daquele regime terrorista ao norte do México, mais a expressão impressa em letras grandes “Oba Mao”. Também camisetas com foto do protofascista de plantão daquele mesmo regime, mesclados com frases da história da revolução chinesa. Servia para aqueles que pensam que já viram todas as idiotices do mundo. A despeito de ostentarem a própria estupidez os consumidores desses itens inevitavelmente contribuiriam com o comércio local de Huimin Jie. Era a ironia chinesa.
Ocupando espaço privilegiado no miolo do bairro muçulmano, a tranquila e fascinante Grande Mesquita de Xi’an. Em arquitetura tipicamente chinesa, mal reconheci estar dentro de uma mesquita, a não ser pelos escritos em árabe, os fiéis de barrete, as fiéis com véus. Caminhos estreitos, vegetação, passagem sob os arcos de pedra, madeiras e pedras trabalhadas, silêncio, paz, naquele espaço islâmico.
Ônibus à estação ferroviária de Xi’an (Xian) para embarque rumo a Yan’an (Yanan).
O trem confortável promoveu viagem tranquila, atingindo velocidade máxima de cento e sessenta e cinco quilômetros por hora.. No início do percurso, extensas planícies cultivadas. Depois a sucessão de túneis conduziu a composição para área de relevo acidentado, vegetação ressecada, encostas desmatadas, boçorocas, rios enlameados, aspecto geral de acentuada mudança climática e também de degradação ambiental.
Da estação ferroviária de Yan’an longo trajeto por estradas sinuosas aos arredores da cidade, colinas acima, no sentido do hotel composto por quartos e chalés amplos e ricamente decorados com motivos regionais. A intenção era fazer os hóspedes se sentirem em situação similar à dos revolucionários chineses nos anos 1930 após a Longa Marcha, do sudeste para o noroeste da China. Na época os membros do exército vermelho, para escapar do cerco do Kuomintang e das forças armadas das classes dominantes, se viram obrigados a morar em habitações improvisadas nas montanhas, em cavernas ou grutas de fachada discreta e disfarçada, mas de interiores abastecidos com todo o necessário.
Desci para tomar café da manhã autenticamente chinês, sem concessões. Comida de verdade, e com pimenta, típica da província de Shaanxi. Nem talheres havia, apenas os kuazi e as sempre charmosas colherzinhas estampadas com motivos locais.
Explorei as estradinhas atrás dos chalés, morro acima, em meio à cerração. Esquilos, pássaros grandes com caudas ainda maiores, paz, silêncio, vegetação, mais nenhum ser humano por ali. Dei de cara com algumas das grutas onde ficaram os membros do exército vermelho. História pura.
O complexo de grutas de Yangjialing concentrou a liderança do Exército Vermelho e do Partido Comunista da China, entre eles Mao Zedong, Chou Enlay, Li Shaoshi. Lá estavam as moradias durante os anos de recuo e reorganização. Eram minúsculos cômodos espartanos encravados na encosta. Havia também outros espaços para reuniões, assembleias, hortas comunitárias, etc. Uma vez descobertos, os revolucionários chineses montavam outra base nos arredores de Yan’an.
O segundo sítio visitado, Wangjiaping, também contava com grutas para moradias, locais de reuniões e hortas comunitárias.
Eram locais bastante visitados pelos chineses, em especial os membros do Partido Comunista e funcionários do governo. Mais nenhum estrangeiro em circulação.
Yan’an (Yanan) se diferenciava das demais cidades chinesas visitadas. Não era tão urbanizada, organizada, limpa, arborizada e, principalmente, padronizada. Talvez estivesse em estágio anterior das demais. A homogenização urbana ainda não a atingira.
Naquela manhã circulei pela beira do rio Yanhe, observando as montanhas com sinais de grutas escavadas. A icônica torre se erguia no topo da colina. Fluía pouca e barrenta água pelo vale do rio cortado por dezenas de pontes. Obras se espalhavam em diversos pontos da cidade. A cor preta predominava nas vestimentas deles e delas. Embora mais retraídos os moradores retribuíam sorrisos e acenos de mão.
Almocei sopa com legumes e bolinhos de massa recheada de carne, pouco apimentado. A dona do estabelecimento riu quando entrei e fiz o meu pedido conforme as fotos nas paredes. Me pareceu que estrangeiros raramente entravam ali. Emendei com enorme pão recheado com creme de ameixa. Durante a ida e a volta a pé, sozinho, fui alvo de olhares curiosos de todos os pedestres que sorriam e cumprimentavam.
Ônibus rumo à Nanniwan, vilarejo nas redondezas de Yan’an (Yanan). Tratava-se de mais uma referência na luta dos revolucionários que libertaram a China da opressão e humilhação imperialista. Ali fora formado o conselho de camponeses e soldados, auto suficiente, contendo escolas, atividades culturais, entre tantas opções libertadoras. Extensas plantações de arroz, dourado naquele mês do ano, embelezavam o outono. A imensa escultura da foice e martelo, em cor vermelha, se destacava no meio de tudo.
Voo de volta à capital Beijing (Pequim).
Eu tinha gostado da China, dos chineses, mas não o tanto para me fascinar e desejar retornar. Por outro lado, era claro, a China e os chineses iam muito bem, obrigado. E com tendências a melhorar ainda mais. Tudo graças à revolução chinesa de 1949, a partir de quando começaram as transformações radicais na sociedade chinesa, seguidas das correções e dos aperfeiçoamentos necessários. Noventa por cento dos um bilhão e quatrocentos milhões de chineses tinham moradia própria e de qualidade. Setenta por cento dos jovens de até trinta anos também. O salário mínimo médio na China era muito superior ao do Brasil. O poder aquisitivo dos chineses era ainda maior por conta do baixo preço dos itens essenciais, como alimentação, saúde, educação, lazer, transportes, etc. Contra fatos não há argumentos. A realidade favorável da China e dos chineses era inquestionável. E sem as transformações radicais iniciadas com a revolução de 1949 nada disso aconteceria.
Pela internet ouvi vídeo esclarecedor sobre a catástrofe nos Estados Unidos onde quarenta milhões de estadunidenses vegetavam abaixo da linha da pobreza. O jornalista Jamil Chade, autor do livro Tomara Que Você Seja Deportado, descrevia a calamidade social em que se encontrava o império.
No aeroporto de Daxing, voo para Doha, no Qatar. Durante o percurso as prestativas comissárias de bordo, mal orientadas pela chefia, serviram a refeição, depois o tira-gosto, depois as bebidas. Exatamente ao contrário.
Li e encerrei Os Urubus Não Esquecem, de Pedro Cesarino. Segui com os contos de As Coisas Que Perdemos No Fogo, de Mariana Enriquez. Comecei a ler Samarcanda, de Amin Maalouf.
Desembarquei em Doha. Me estendi em banco voltado para cochilos, bastante anatômico e espaçoso. Caí imediatamente em sono profundo, com direito a roncos variados.
Embarquei em voo lotado, como sempre, para São Paulo.
Li bastante o interessante Samarcanda, de Amin Maalouf.
Desembarquei em São Paulo à noite daquele início de novembro. Entrei em casa antes da meia-noite.
Fim de longa e maravilhosa viagem pela Rússia, Mongólia e China, três países diferentes que me marcaram e me marcariam por muito tempo.

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