segunda-feira, 20 de abril de 2026

Rússia (ferrovia Transiberiana), Mongólia e China (parte 6/8)

...continuação

De manhãzinha embarque no micro-ônibus munidos de rascunho de café da manhã fornecido emergencialmente pelo hotel em função do horário antecipado. Sanduíche com bastante coisa dentro, iogurte, água mineral.

Após a árdua batalha para romper a barreira infame do encalacrado trânsito de Ulan-Bator, avançamos na rodovia no sentido sudoeste. Logo a estepe mongol se fez presente, com grama acastanhada e baixa, ondulada por cadeias de montanhas ao longe, em ambos os lados da estrada de pista simples. Rebanhos de bois, carneiros, cavalos, pastavam livremente, tendo ao lado ou não os pastores de motos. Apesar da monotonia, a paisagem agradava aos olhos. Qualquer coisa era melhor que o caos de Ulan-Bator. Iurtas brancas e circulares, as tendas de pele de carneiro dos pastores nômades, se apresentavam, ora isoladas na estepe, ora em terrenos cercados. Se tratavam de famílias nômades que, a qualquer momento, assim que a grama secasse ou esgotasse, desmontariam tudo e se instalariam em outras paragens com alimento abundante, leia-se grama e água, para os rebanhos. Sempre se instalavam em terras devolutas, do estado, para usufruto comum, sem o ridículo e injusto sistema da propriedade privada da terra.

O almoço da beira da estrada veio de sopa de bolas de carne de carneiro com legumes e macarrão. Em seguida, prato quente de carne com macarrão e verduras. Na mesa a massa levemente gordurosa e amarrada em nós, como se fosse tecido, mas comestível, para comer junto com a sopa ou com o prato quente, ambos bastante parecidos no sabor, ambos com muita carne, ambos com poucos legumes, ambos carentes de temperos, ambos gordurosos. Estávamos na Mongólia.


De volta à rodovia de pista simples, mais estepes, mais rebanhos, mais iurtas isoladas ou em grupos. Em determinado trecho, estreita faixa de areia, entre dunas e vales, talvez ramal ou mancha do deserto de Gobi, este situado mais ao sul da Mongólia. Pastavam rebanhos de camelos, enormes e peludos, com duas corcovas muito altas, bastante diferentes dos camelos dos desertos tradicionais.

No meio da tarde chegada em Jarjorin, onde séculos antes existiu a famosa Harahorum (Karakorum), capital do império mongol, o maior império em área consecutiva do planeta, se estendendo do extremo oriente, Ásia Central, oeste da Ásia, até parte do leste europeu e da Rússia. Sobre a cidade destruída pela dinastia Ming do império chinês foi construído enorme complexo de templos budistas em área quadriculada e murada.

Mais adiante, visita ao museu Harahorum (Karakorum), dotado de vídeos e painéis explicativos das várias fases do império mongol que dominaram por séculos a história da Mongólia, dos Hunos aos Khans.

Houve tempo de subir o morro e assistir ao estupendo pôr do sol nas montanhas ao sul, em cujo vale abaixo corria o rio Orkhon, o mais longo da Mongólia. O cenário se compôs de imagens douradas, belíssimas, da sinuosidade prateada das águas, do vale pouco profundo, das montanhas ao redor, salpicadas de rebanhos de animais, lembrando manchas em tapetes aveludados, acastanhados, ondulados.

O vento aumentava drasticamente a sensação de frio.

Me instalei em iurta em que nada faltava para garantir o conforto, a higiene e a segurança. Energia elétrica, banheiro completo com chuveiro e água quente, duas camas de casal, roupas de cama aconchegantes, quentinhas, móveis para isso e para aquilo. Parecia mais chalé no formato circular do que iurta autêntica de pastor nômade. Efeitos da indústria do turismo de massas.

A lua cheia, escandalosamente imensa e brilhante ao fundo das iurtas, deu o ar da graça e aqueceu os corações na estepe gelada da Mongólia.

Entre as opções do jantar no restaurante do complexo turístico, saladas, sopas, vários tipos de carne, arroz, batatas, legumes cozidos, três tipos de sobremesas, entre outras delícias bem preparadas.

Acordei antes do amanhecer.

O micro-ônibus partiu no rumo nordeste. À esquerda, a serra pontilhada de pedras acompanhou a estrada em todo o percurso. Iurtas, rebanhos de ovelhas, cabras, bois, cavalos. Estepe mongol autêntica, de cor acastanhada.

Em trecho de areias e dunas, chamado Gobi Rico (Bayangobi), explorei detalhes da paisagem natural e humana. Riozinho de águas cristalinas, com trechos congelados, corria em vale raso e invisível à distância. Árvores secas, deserto de areia e dunas, musgos, gramíneas, camelos soltos e presos, iurtas, mongóis em roupas típicas.

No meio do dia entrada no Parque Nacional Hustai, em cuja sede havia restaurante, conjunto de iurtas rústicas e o salão social onde foi projetado filme didático sobre a região. No miolo do parque nacional era possível avistar cavalos selvagens, renas, veados, marmotas.

Após o jantar substancioso voltei à iurta para encarar, sem aquecimento, a noite que prometia, mais uma vez, gelada. Não esqueci de providenciar garrafas plásticas vazias para servirem de penico noturno. Assim eu não precisaria sair ao relento, com temperaturas negativas, na busca pelo banheiro coletivo. Dormi sob os dois espessos edredons disponíveis, mais o gorro na cabeça.


Amanheceu sete graus abaixo de zero. O ar congelava no caminho da iurta, ou ger, ao restaurante da sede. Me esbaldei no café da manhã com direito a omeletes preparados na hora.

O micro-ônibus partiu cedo na direção nordeste para trecho que demorou ainda mais pela necessidade de atravessar a cidade de Ulan-Bator. Ao longo de esplendorosas e fulgurantes avenidas entupidas de veículos particulares, para deleite das transnacionais da indústria automobilística, o trânsito permanecia eternamente congestionado. Pelo jeito não havia nada parecido com anel viário em torno da capital e maior cidade da Mongólia. Era bom lembrar que a população de Ulan-Bator mais que quadruplicou, por conta da abrupta queda da qualidade da vida, sobretudo no campo, após o fim do período socialista. As extensas periferias pobres ao redor da capital comprovavam a catástrofe.

Mais adiante pela estrada, o Parque Nacional Terelj, belíssima unidade de conservação dotada de serrotes rochosos pontiagudos e vales acentuados.

Só que não.

As belezas naturais estavam sendo desfiguradas e obstruídas por empreendimentos hoteleiros, dezenas deles, dentro da área do parque. Como assim? Comércio privado aos montes dentro de parque nacional? Seria aquilo realmente parque nacional ou o governo mongol entregou a natureza aos capitalistas lucrarem à vontade? Não havia pé de paredão rochoso, outrora deslumbrante, que não estivesse ocupado por tendas repletas de confortos urbanos, mais bares e restaurantes para turistas. Até o lixo musical no estilo bate-estaca, repetitivo e monótono, rolava por ali.

Ia mal a Mongólia. Muito mal.

A visita ao tal parque encerrou com visita a ger, ou iurta, de família nômade. Embora também voltada para o turismo predatório, a experiência agradou pela recepção calorosa, pelos comes e bebes típicos, iogurte, queijo amanteigado, creme de leite seco, de produção direta do rebanho da família. Eram cinco pessoas vivendo na ger. A dona da casa explicou como o nomadismo funcionava na prática, sempre em movimento na busca por grama fresca e alta para o rebanho de bois, cavalos, ovelhas, cabras, carneiros. A autossuficiência da família e eventuais comercialização dos excessos eram curiosamente acumulados em objetos de prata, nos arreios e selas dos cavalos, por exemplo.

Durante as conversas, a dona da casa salientou o choque cultural que o povo mongol enfrentava nos novos tempos. Eram os contrastes abissais entre a vida nas estepes como pastores nômades e a sobrevivência sedentária e sem mudanças em apartamentos nas periferias de Ulan-Bator. Sofriam para tentar se adaptar à nova vida, muitas vezes sem sucesso, enclausurados em cubículos de concreto dentro de prédios colados a outros prédios contendo centenas de cubículos de concreto. Mesmo os que ainda viviam nas iurtas móveis da vida nômade encaravam problemas com a educação dos filhos, que precisavam abandonar os hábitos familiares para se imobilizarem em escolas urbanas, retornando à vida nômade somente nas férias. Muitos não retornavam porque não aceitavam mais as origens. Outros não frequentavam escolas urbanas para não abrirem mão da liberdade e autonomia da vida nômade.

Partimos de volta ao doentio engarrafamento de veículos individuais e privados em Ulan-Bator. Na madrugada, van para o aeroporto. E mesmo nesse horário improvável havia congestionamentos isolados em partes da cidade.

Embarque cedo em voo curto da empresa aérea da Mongólia. Desembarque num dos gigantescos aeroportos de Beijing (Pequim). A China recentemente havia liberado de visto prévio, pelo período de um ano, os brasileiros que permanecessem no país até trinta dias.


Nos saguões do aeroporto adquiri o chip chinês. Via VPN, e apenas com ela, eu acessava todos os endereços não chineses da internet. Mas precisava desligar a VPN para usar os aplicativos e endereços chineses, como em todos os pagamentos, carros de aplicativos, transporte público.

Pelo caminho ao hotel, ruas e avenidas maciçamente arborizadas, edifícios altos, alguns ousados arquitetonicamente.

Almoço em restaurante típico chinês, em sala privativa e com a famosa mesa de centro giratório, para que todos pudessem comer de tudo. Os pratos vieram frescos, saborosos e baratíssimos.

Atravessando a avenida, o parque do Templo do Céu. Chineses de todas as idades aproveitavam a área pública, democrática, mas surpreendentemente paga. Sim, tinha que comprar os ingressos, eletrônicos, claro, antes de entrar. Muito verde e árvores frondosas formavam bosques escuros e sedutores dentro do parque.

Café da manhã do hotel com cardápio asiático. Sopas, frituras, carnes, ensopados, comidas de verdade, entre concessões ocidentais como pães, raríssimos queijos, ovos cozidos, cereais, sucos.

Aprendi a circular e me orientar no gigantesco, eficaz, eficiente e autoexplicativo metrô de Beijing. Almoço de comida típica e apimentada chinesa, obviamente. Devorei macarrão oriental com carne de porco e legumes, saborosíssimo, apesar de a pimenta arder no fundo da alma.

Caminhada pelos arredores, em meio avenidas arborizadas e outro parque, estanhamento pago como os demais. Calçadas inferiores e superiores margeavam canal de águas piscosas, dado a quantidade de pescadores de ocasião aguardando fisgadas. Outros caminhavam, corriam, pedalavam e até cantavam em karaokê improvisado na calçada, com direito a somente um espectador. Por ali também os hutongs, emaranhado de becos, de ruas sinuosas e estreitas. Era a Beijing antiga, resquícios do passado no meio da megalópole de urbanismo planejado e quadriculado.

No jantar um pouco de tudo no centro da mesa giratória. Legumes variados com carne de boi, carne de porco, carne de galinha, peixe, bambu em broto, sem falar na estrela da casa, o famoso pato laqueado de Beijing, com os acompanhamentos devidos. Me hidratei com baijiu, destilado chinês a partir do sorgo ou de outros grãos.

Retorno ao hotel a pé, para espairecer, respirar ar puro, auxiliar na digestão. As temperaturas amenas e as calçadas vazias convidavam a tais caminhadas.

Bem cedo o ônibus demorou até Jinshanling, uma das muitas entradas para a Grande Muralha da China. Não era a principal, perto de Beijing, costumeiramente lotada de turistas chineses e estrangeiros. Mas era distante o suficiente para encontrar paz, sossego, silêncio, entre raros turistas. Só assim para contemplar calmamente a construção milenar e a paisagem montanhosa ao redor.

Por escadarias laterais era possível atingir uma das tantas torres de controle da Muralha. A partir dali bastava caminhar e explorar. O sol brilhava e queimava com força. Foram quilômetros caminhando, entre torres de observação, repouso e reabastecimento, ao longo da fortificação de mais de vinte mil quilômetros de extensão. Construída no século XIV, durante a dinastia Ming, serviu como proteção contra invasões e incursões militares vindas do norte, sobretudo de mongóis e russos.

Do alto da muralha, pelas ameias e por cima das muradas laterais, se tinha visão privilegiada das montanhas ao norte e ao sul, dos vales profundos, da vegetação espessa. E, principalmente, se tinha visão da continuidade da própria muralha, serpenteando sinuosamente pelas cristas do relevo. O piso rochoso alternava rampas, escadarias com degraus baixos, altos e médios, portais às torres. Para aqueles com dificuldades de locomoção, bondinhos, teleféricos, com destino a paradas intermediárias.

Ao final de tantos sobes e desces, ao longo de quilômetros de caminhada, os músculos, especialmente os extensores e as panturrilhas, manifestavam esgotamento. Em pontos espaçados, vendedores ofereciam bebidas, tira-gostos, sorvetes, lembrancinhas.

Ao final fomos direto a restaurante das imediações de Jinshanling para matar a fome galopante em restaurante que servia comida chinesa tradicional. Imensas mesas com o centro giratório abasteceram os famintos com carne de porco, carne de cordeiro, peixes, legumes variados, brotos de bambu, cogumelos, tofu, entre outras delícias. Para beber, fui de chá de jasmim, gelado e quente.


Anoitecia ao embarcar no ônibus de volta para Beijing, com direito a trânsito pesado em estradas e avenidas da capital. Aproveitei para apreciar a iluminação impressionante dos altos edifícios que coloriam e alegravam a noite.

Na manhã seguinte metrô ao Museu Nacional da China. Espaço gigantesco, organizado, autoexplicativo. Circulei sem rumo pelos vários andares observando o movimento interno dos chineses, da capital e dos interiores, admirando as obras e objetos expostos.

Na frente do museu, a praça Tiananmen, a da Paz Celestial, onde se encontrava o mausoléu contendo o corpo de Mao Zedong e o monumento dos Heróis do Povo. Do lado oposto, o Grande Salão do Povo. À direita, a construção onde Mao Zedong, em outubro de 1949, declarou a fundação da República Popular da China. Atrás, a Cidade Proibida.

A visita à Cidade Proibida percorreu vários pavilhões internos, salões, praças, pontes trabalhadas em pedra. A guia local não parava de falar. Os detalhes enfadonhos da vida dos diversos imperadores que ali moraram e reinaram, pertencentes a esta ou aquela dinastia, entravam por uma orelha e imediatamente saíam pela outra. Talvez, levantar os contrastes da vida daquela nobreza com a vida da maioria do povo chinês na época, as causas e mecanismos desse sistema autocrático de exploração e opressão, seria mais informativo e reflexivo.

A partir da movimentada, colorida e alegre rua Quianmen, mas turística em excesso, mergulho nos becos do hutong dos arredores, penetrando em pedaços da antiga China, antes dos intensos processos de modernização. Povo na rua, conversando em frente às casas e lojinhas, residências, comércio, mercadinhos, bares e restaurantes tradicionais, simplicidade, bicicletas e motos elétricas, nada de automóveis.

Num desses restaurantes, caímos de cabeça em pratos apimentados e regados a vinho de arroz. A fome deu o tom.

continua...

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