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domingo, 6 de fevereiro de 2011

do Nepal ao Camboja (parte 3/12)

...continuação
Último dia no Nepal. Kathamandu vivia o festival de luzes. Os moradores iluminavam, coloriam, alegravam a cidade com fogos e bombinhas. As crianças iam de loja em loja pedindo doações. À noite, vários estabelecimentos apagaram as luzes e acenderam velas. A cidade ganhou outra luz, mais mágica e fascinante. O Nepal e Kathmandu proporcionavam despedidas comoventes.
De madrugada rumo ao aeroporto. A cordilheira do Himalaia esteve presente durante o voo à Índia, pintando imagem inesquecível.
Do aeroporto, ônibus para a velha Delhi, à região de Pahargang, com a rua estreita, comercial, cheia de gente, veículos, animais. Hospedagem difícil após superar os pentelhos que queriam levar aqui e ali. Banho frio e refrescante, comida boa, sorvetes de complemento. Volta de reconhecimento nas imediações. O mesmo festival de Kathmandu acontecia nas ruas de Delhi. Os fogos de artifício, bombinhas, música alta, agitavam a cidade.
Logo cedo a bagunça começou dentro do hotel. Mas não vinha do festival. Dezenas de funcionários pregavam batentes e madeiras, batiam portas, falavam alto. Não consertavam nada. Nada acontecia. Em cenas comuns pela Índia, apenas desempenhavam atividades barulhentas e inúteis.
Na velha Delhi, o Forte Vermelho valia pela frequência diversificada de visitantes do campo e da cidade, de toda a Índia, que afluíam em ônibus fretados, velhos, lotados. Variedade de cores de pele, rostos, roupas, expressões, adornos dos indianos, que nos olhavam curiosos e assustados. Depois a grande mesquita, por rua longa, estreita e comercial, ocupada por muçulmanos, homens e mulheres vestidas de preto. Era outra Índia. Mergulho em deliciosa comida indiana, regada a refrigerante de manga.

Na principal estação ferroviária de Delhi, depois de preencher os formulários, entrar em longa fila, finalmente os bilhetes em mãos.
O trem a Amritsar foi confortável, com cadeiras amplas e espaçadas, serviço eficiente. Das janelas, terras planas, totalmente cultivadas com cereais e mostarda, nos estados de Haryana e Punjab.
Não havia pia nem chuveiro no banheiro do hotel em Amritsar, apenas torneira com água fria, instalada a um metro do chão. Era meio banho, sempre, mesmo ao lavar as mãos. A forte vazão espirrava água para todo lado, ensopando o banheiro, tornando o piso escorregadio e sujeito a tombos.
O Punjab foi um dos estados que mais sofreu com a separação criminosa entre Índia e Paquistão. Depois de ocupar militarmente a Índia por mais de cem anos, os invasores do império britânico jogaram muçulmanos contra hindus, provocando a partição da grande Índia em três países. Milhares de indianos, muçulmanos e hindus, foram massacrados durante a fuga para os lados opostos das fronteiras. A cidade principal do Punjab, Lahore, ficou no atual Paquistão. A cidade sagrada dos sikhs, Amritsar, na Índia.
A lanchonete servia pratos rápidos vegetarianos, principalmente o estupendo masala dosa, regados somente a refrigerante ou água de torneira. O refrigerante gasoso multiplicou por mil o efeito da pimenta.
Amritsar era feia, suja, empoeirada, cinzenta, poluída. O guia estrangeiro decepcionava a cada página. Ainda que de edição do mesmo ano, as informações não inspiravam confiança. Contava com erros grosseiros de mapas, preços, dicas. As recomendações suspeitavam pela parcialidade. Durante o transcorrer da viagem pela Índia e por outros países da Ásia, os defeitos desses guias seriam ainda piores.
Café da manhã em local escuro e espalhafatoso, parcamente iluminado com luzes vermelhas. Decoração de puteiro.

Longa visita ao Templo Dourado, local sagrado e de peregrinação para os adeptos da religião sikh. Para entrar, necessário tirar os sapatos e cobrir as cabeças com tecidos cedidos na entrada. O Templo Dourado, um dos locais mais belos e fascinantes da Índia, contava com o piso e as principais construções em mármore branco. A enorme piscina ocupava a parte central. Na ponta da água erguia o templo coberto de ouro, de formato retangular com núcleo alto e arredondado. Os sikhs se banhavam vestidos nas águas da piscina. Os guias espirituais cantavam versos sagrados dentro do domo central, acompanhados de instrumentos rústicos. Os alto-falantes propagavam os cânticos pela amplidão do ambiente. A beleza e leveza do cenário, o movimento lento dos fiéis, a água, o som contagiante tornavam a atmosfera especial. Ficamos ali sentados ou perambulando por quase o dia todo. Os frequentadores, retraídos e tímidos, trocavam sorrisos, leves acenos, saudações. Os raros que se aproximavam, o faziam de maneira desajeitada, mas sempre transmitindo curiosidade sincera, simplicidade, naturalidade. O senhor idoso e o casal com vários filhos se destacaram nos contatos, fazendo companhia, pedindo fotos, olhando sorridentes.
Retorno a Delhi em vagão com bancos duros de madeira. Em cada estação subiam mais passageiros. Não importava se no assento cabiam apenas quatro passageiros. O quinto, o sexto, o sétimo, cavava novo lugar. Fiz o possível para me garantir sentado. A maioria dos passageiros entrava e saía calada, revelava expressões tristonhas, não oferecia chances de conversas.
Em Delhi novamente à região de Pahargang. Os hotéis caros eram caros demais, os baratos, ruins demais. A má conservação dos hotéis e imóveis indianos assustava. Pisos, escadas, paredes, móveis, instalações elétricas e hidráulicas, pareciam cair aos pedaços. Era milagre nada explodir. A limpeza não ficava atrás. Tanto lençóis como cobertores exibiam manchas diversas, cores escurecidas. E no andar do hotel as obras pararam somente no meio da noite.
Em sebo optei por O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Novamente em inglês. Novamente releitura.
Nas calçadas do grande círculo de Nova Delhi os indianos ofereciam aos turistas pacotes de viagem, passagens, artesanato, jóias, maconha, ofertas de loja. Abordavam mal, com modos bruscos, desajeitados, sem convicção. Rejeitávamos com frases malucas, aleatórias, em português.
Viagem tranquila a Ajmer em trem executivo, mais caro, exclusivo para viagens diurnas, com lanche incluído. De Ajmer, ônibus comum, lotado, barato e rápido para Pushkar.

No hotel dentro de antigo palácio, com banheiro coletivo, a porta do quarto se compunha apenas de grade vazada, expondo o ambiente interno ao vento frio da noite.
Todos os hotéis de Pushkar iriam multiplicar os preços das diárias por cinco ou dez vezes em razão da feira anual de camelos. O mesmo ocorreria com os restaurantes. A fama da feira se espalhara pelo mundo e os turistas pagavam qualquer valor, contribuindo para inflacionar e alimentar a cadeia de aproveitadores. Falsos homens sagrados, pedintes, golpistas, fervilhavam pelas ruas na busca do dinheiro dos trouxas.
Era melhor partir e voltar depois do festival.
O sistema ferroviário do estado do Rajastão passava por reformas. Restou comprar passagens de ônibus para Jaisalmer em agência para lá de informal. Mas as demais eram ainda piores.
Do alto da colina próxima à cidade, a bela vista da cidade e da enorme quantidade de camelos estacionados. Independente do uso turístico, a feira servia como oportunidade privilegiada para comercialização dos animais e ponto de encontro dos moradores do deserto de Thar. Era fascinante caminhar por entre os camelos, donos e condutores, invariavelmente com turbantes coloridos. Os beduínos montaram barracas de comes e bebes, parque de diversões, serviços de dentista, barbeiro, massagem, emergências. Tudo improvisado. Um idoso implantava um dente em pacato cidadão do deserto que escolhera dentre os oferecidos em caixinha de papelão.
Os rituais hindus seguiam nos degraus da beira do lago. No meio dos verdadeiros, pentelhos profissionais disfarçados de homens sagrados vendiam cerimônias aos desavisados. Pushkar permanecia deslumbrante e relaxante, mas o clima comercial e turístico da feira ofuscava o autêntico. Aproveitadores se amontoavam nas ruas, becos, esquinas, calçadas, a fim de depenar alguém. Os turistas preservavam e até agravavam a situação, pagando para fotografar os malandros, adorando se passar por idiotas em cerimônias fraudulentas na beira do lago. Os becos e ruas mais afastadas do centro sofriam menor influência da comercialização da feira. Os pacotes turísticos não apareciam e os moradores sorriam e acolhiam com naturalidade.
Em barraca de sucos no meio da rua, ela pediu banana lassi. O vendedor entendeu ou fingiu entender bang lassi. Bang, espécie de droga legal, era vendida oficialmente em pontos licenciados. Ainda perguntou se era a primeira vez, se preferia forte ou médio. Ela tomou metade do copo. Logo se sentiu zonza, as pernas falharam, as coisas giraram ao redor. Permaneceu assim até o jantar, vomitando quase tudo. Seguiu-se moleza, sonolência, preguiça.
Fomos à agência esperar o ônibus rumo a Jaisalmer. Ela ainda se sentia mal, não enxergava direito, os movimentos do corpo não obedeciam ao cérebro. O homem que se dizia proprietário nos levou à outra agência e sumiu na escuridão. Ao verificar os bilhetes, o responsável da segunda agência afirmou não serem válidos, não se responsabilizando por nada. A possibilidade seria viajar na cabine do motorista ou em pequenos bancos de palha improvisados no corredor do ônibus. Ou então reaver o dinheiro na primeira agência e comprar novas passagens na dele para a noite seguinte. O dono da primeira agência, claro, desaparecera e deixara um adolescente atrapalhado que alegava nada saber. De volta à segunda agência, insistimos em viajar aquela noite. Ele repetiu as alternativas já mostradas. Decidimos arriscar o jipe lotado de passageiros e bagagens rumo à periferia de Ajmer para esperar o ônibus. Não havia terminal rodoviário, parada de ônibus, ou escritório de agência. O ônibus apareceu apenas à meia noite. Como seriam as próximas dez horas em banquinhos no corredor? Mas, ao embarcar, por encanto, arranjaram assentos para todos, eu, ela e mais quatro passageiros lesados em agência diferente. Os golpistas falavam com sorrisos benevolentes como se nos tivessem tirado da forca. E que sem a intervenção deles ficaríamos perdidos na noite. Obviamente esperavam ser recompensados. Nem um centavo! Os quatro gringos, também lesados, encheram os picaretas de rúpias e dólares. Afinal, não há malandros sem otários.

O ônibus chacoalhava demais na parte traseira. Esperei horas para conseguir descer e me aliviar. Nada de banheiros ou mictórios na parada. Penetrei nos fundos de construção semiabandonada, escolhi a sombra de uma árvore e mandei ver.
O ônibus encostou pela manhã no lado externo do forte em Jaisalmer. Com as mochilas nas costas, entramos na cidade fortificada rumo a hotel barato e ruim. Comemos algo e reservamos hotel melhor para o dia seguinte, também dentro do forte, dotado de banheiro privativo, sacada ampla com vista panorâmica do deserto de Thar. A maioria dos banheiros indianos não possuía papel higiênico, apenas torneira ao lado do buraco no chão. Muitos não tinham chuveiros. Outros não ofereciam pia.
Reencontro com o casal de franceses do Nepal. O homem era falador e boa companhia. Ela mantinha-se calada com expressão de tédio. A cidade parecia mais vazia que durante minha primeira visita dois anos antes. Hotéis e restaurantes não lotavam. Talvez a manada de turistas estivesse concentrada na feira de camelos de Pushkar. Era delicioso se perder nos becos estreitos da parte interna da fortificação. Os demais turistas apareciam somente pelas manhãs e se concentravam ao redor do palácio e templo jain.
Encontrei um exemplar em inglês de Rainha Bandida da Índia, da escritora indiana Mala Sen. Contava a longa e atribulada vida de Phoolan Devi, uma espécie de versão indiana e feminina de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, pelas ravinas e vilarejos da Índia central.
Dias soltos, relaxantes, reconfortantes, pela fascinante Jaisalmer, pelos becos do forte e pelas ruas da cidade abaixo dos muros. Entre passeios sem compromisso, leituras na sacada do quarto do hotel, alternando os olhares entre o livro e o deserto de Thar. O cenário se valorizava ainda mais durante a noite, quando as luzes amareladas iluminavam as construções e os becos, ambos de pedra. As casas reservavam interiores arrumados e limpos. A atmosfera geral emanava magia e poesia do deserto.
Em país com extensa e excelente rede ferroviária, temporariamente fechada para manutenção no Rajastão, os ônibus indianos careciam de conforto e segurança. De Jaisalmer, troca de ônibus em Jodhpur e desembarque em Udaipur antes do dia clarear. O famoso lago da cidade ficava à pequena caminhada do hotel, acessado de riquixá.
Dias para apreciar a região do palácio sem pressa. Era a grande vantagem de viagens longas, sem datas, sem roteiros fixos. Deixar o adiável para o dia seguinte e só fazer o que dava na telha.
Por agência local a passeio de bate e volta em Ranakpur. A maioria dos turistas era de indianos de classe média. Logo após a partida pela manhã o pneu do ônibus furou. Mas houve tempo para apreciar o estonteante templo jain, com milhares de colunas em mármore e trabalhadas em desenhos diferentes entre si. A iluminação natural, o silêncio, a limpeza extrema, os tons claros do mármore das colunas e imagens, requeriam calma e relaxamento. Imperdível! À noite volta a Udaipur.
Incursões pelos lagos da parte norte da cidade, vazia de turistas e estrangeiros, pelos becos da cidade velha, com casas azuis, desenhos de marajás, imagens religiosas nas paredes das residências. Dezenas de restaurantes se espalhavam na margem do lago principal com vistas privilegiadas da região. Mas a comida deixava a desejar. Sem falar nos amontoados de gringos sentados por ali durante horas e horas, a fim de verem e serem vistos. Em avenida movimentada e afastada do lago encontramos restaurante frequentado somente por indianos, servindo comida autêntica, saborosa, extremamente apimentada. Perfeito.
As lavadeiras dos degraus na beira do lago não gostavam de serem fotografadas. Indiferente à cultura local, uma estrangeira loura e magrela fotografou-as bem de perto. Não satisfeita com a grosseria, presenteou as mulheres com algo parecido com creme facial, talvez como compensação ao desrespeito. Sem trocar nenhuma palavra com as indianas, a gringa imediatamente se retirou. Os vários cafés nas proximidades do centro velho de Udaipur não se cansavam de exibir aos turistas vídeos do filme 007 contra Octopussy, com cenas filmadas na cidade.
continua...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

do Nepal ao Camboja (parte 2/12)

...continuação
Saboroso e tradicional, o dhal bath era o prato mais consumido na travessia. Estava bem à frente das diversas sopas com lamem e lamem frito. Ovos cozidos, chá, chocolate quente, predominavam no café da manhã.
Nevou durante a noite. Amanheceu com a paisagem toda branca. As temperaturas despencaram. Parou de nevar à tarde e saímos para desenferrujar as articulações. Deu para circundar o lago e seguir algumas centenas de metros na trilha rumo ao passo em paisagem composta de neve, gelo, água, rocha. E retorno para dentro dos sacos de dormir.
O refúgio estava abarrotado de franceses, se recusando a falar inglês, mesmo quando sabiam, nem com os nepaleses. Nos poucos lugares da cozinha do refúgio empurravam, forçavam espaço e sentavam sem olhar na cara.
Manhã da partida. Início em trilha escorregadia, inteiramente coberta de neve. Durante a subida ao passo Laurebina a 4.610 metros de altitude, cenário todo branco, frio intenso. Nevava e ventava sem parar. Não se via mais que a trilha e os lagos congelados. Reduzíamos o ritmo a fim de perpetuar e fixar aquelas imagens e sensações. Depois descida por trilha bastante inclinada. Não existia paisagem. A visibilidade não ultrapassava um metro. A descida prosseguia íngreme. Mesmo rareando a neve o frio castigava sem tréguas. Mas a trilha encantou entre florestas de rododendros, flores amareladas e alaranjadas, musgos nas árvores e rochas.

O refúgio em Tharephati, a 3.490 metros, contava com quarto coletivo. Espalhamos as bagagens e as roupas pelas demais camas vazias. A cozinha era minúscula. Cama às 18h.
Choveu e nevou durante a noite. Partida cedo sob um frio intenso. A neve e a chuva ficavam para trás, ou para cima. Mas o frio e o céu nublado permaneciam. A descida se manteve por trilhas íngremes, cruzando florestas de rododendros e pinheiros.
No vilarejo de Kuntunsang, a 2.470 metros de altitude, hospedagem em refúgio isolado e tranquilo. O tempo melhorou e permitiu almoçar ao ar livre. O sol apareceu no final da tarde para tirar o mofo de tudo. A crista da cordilheira nevada se erguia no fundo do horizonte.
E o jantar no refúgio emocionou. A cozinha era espaçosa, limpa, bem arrumada, com piso e paredes de barro batido, cuidadosamente acabado. Mais ninguém hospedado. A família completa nos convidou a dividir o espaço junto ao calor do rascunho de fogão no nível do chão, forçando-os a permanecer de cócoras para manusear as panelas. Entre linguagens de sinais e sorrisos, sentamos no chão ao lado deles. Serviram o farto e delicioso dhal bath. Ofereceram chang, fermentado de milho com sabor agradável. A magia do momento, o silêncio, os sorrisos, a comida saborosa, o lugar, a hospitalidade, afastaram o desgaste dos dias anteriores.
A caminhada do dia seguinte contou com grandes subidas e descidas íngremes. Em pequeno vilarejo os moradores hasteavam bandeirolas, batiam percussões, comiam, bebiam, dançavam, sorriam. E comemoravam a morte de um conterrâneo ocorrida meses antes. As trilhas em descida se alargavam e pareciam estradas. O vilarejo de Chipling se cobria de sujeira, pobreza, doenças, abandono, desolação.
Com exceção de Kuntunsang, a simpatia e espontaneidade dos moradores das vilas diminuíam à medida que caía a altitude. Os sorrisos careciam de naturalidade, os interesses materiais se sobrepunham aos de amizade. Os olhares mostravam desconfiança e segundas intenções. A civilização urbana se aproximava.

O refúgio em Chisopani, a 2.300 metros de altitude, era horroroso. Havia sujeira grudada no chão, paredes, móveis. Os dois marmanjos que nos serviram comida encaravam com ares de poucos amigos. A comida desceu como pedra.
O ambiente do quarto cheirava a mofo, à coisa velha e abandonada. Embaixo da cama suspensa, depósito de madeiras, garrafas, velharias em geral, sujas e fedidas. Em frente à cama um buraco no canto do piso descia até a rua do vilarejo. Durante a madrugada, ruídos estranhos sob a cama se propagavam pelo piso do quarto, em som intermitente, apavorante. Alcancei a lanterna sobre a mochila largada no chão e iluminei embaixo da cama. Nada vi além das velharias amontoadas. Mas, porém, contudo, todavia, olhei melhor, apurei a visão e a audição. E finalmente descobri. Ratos. Muitos ratos. Dezenas deles. Roíam as madeiras entulhadas, cutucavam os objetos no chão, corriam para o buraco da parede do canto do piso. Aos montes. Entravam e saíam do quarto. Trouxemos as tralhas espalhadas no chão para cima da cama. Os ratos se agitavam de um lado para outro. Demorou até os ratos diminuírem o ritmo. Conseguimos cochilar.
Ao clarear, em jejum, partimos aliviados daquele esgoto.
O guia sugeriu acompanhar outro grupo de caminhantes devido à floresta com probabilidades de assaltos. Os ladrões abordavam os turistas com facas e levavam tudo. Um final de travessia recheado de emoções, sem dúvida. Apesar da névoa, visões do vale de Kathmandu durante a descida, revelando terraços cultivados, esverdeados. E mais habitações, mais gente.
A sujeira no corpo apresentava-se indescritível. Barba longa, roupas fedidas, sobretudo as meias, cansaço. Mas travessias como aquela valiam e muito a pena. Trilhas sem eletricidade, sem veículos motorizados, sem televisão, cozinhas com fogões à lenha ou a querosene. A despeito dos turistas chatos e racistas, brindou o contato direto com a natureza única da cordilheira e com nepaleses simples e acolhedores.
Depois de magistrais dezessete dias de travessia pela cordilheira do Himalaia, a trilha terminou em área de estacionamento. O ônibus local cruzou toda a cidade. E rumo a banhos quentes e demorados no hotel em Kathmandu.

Dia para comer bem e bastante, muita preguiça. Em sebo garimpei um exemplar, em inglês, do livro Do Amor e Outros Demônios, de Gabriel García Márquez. Ajudaria nos dias de doce vagabundagem que viriam pela frente.
Ida à cidade de Patan através de longa e interessante caminhada. Primeiro a parte sul de Kathmandu, às margens do rio Bagmati, mostrando mais pobreza, sujeira, abandono. Após a ponte, Patan contava com discreto patrimônio histórico e arquitetônico, muito charme e raros pentelhos nas ruas. Inúmeros eram os templos, inclusive o dedicado a Krishna, diferente de todos os demais. As ruas exalavam tranquilidade, com oficinas de artesanato, sobretudo de metal. O povo revelava simpatia e sorrisos sem interesse. As crianças não nos pediam dinheiro ou presentes. O turismo predatório ainda não desvirtuara a hospitalidade natural dos nepaleses de Patan, com a danosa mania de distribuir dinheiro, canetas, doces e outros presentes a quem exigia apenas respeito e justiça social.
Cedo em ônibus a Pokara. As janelas exibiram trechos de rios com corredeiras e, mais no final, ligeiras aparições do Himalaia. Enxames de taxistas e agentes de hotéis atacaram na chegada. Mal dava para ouvir o que berravam. Pokara era bastante turística. Metade dos caminhantes que afluíam ao Nepal preferia as trilhas da região dos picos Annapurnas, ao redor da cidade.
Na subida da montanha ao topo chamado Sarangkot, os pentelhos ajudaram a aumentar o cansaço. Crianças e adolescentes grudavam, ofereciam serviços de guia, forçavam a venda de tralhas inúteis, ou simplesmente pediam canetas, dinheiro e demais presentes que os turistas dos países imperialistas os obrigaram a sentir necessidade. Estava nublado no cume para o lado das montanhas. E cobravam contribuições “espontâneas” para ver a paisagem. Nem pensar! Novamente os pedintes nos cercaram na descida. O garoto que se oferecera como guia na subida, agora nos pedia dinheiro agitando uma foice na mão direita.
Ocidentalizada e inteiramente voltada ao turismo, Pokara oferecia somente música descartável, sobretudo o lixo estadunidense de sempre. Os restaurantes serviam comida ocidental e sem tempero. A arquitetura da cidade nem dava sinais de país asiático. Os nepaleses abordavam para vender baboseiras ou exigir doações. E ameaçavam:
“eu quero 10 rúpias”,
“me dê canetas”.
Geralmente antipáticos e hostis, os turistas criavam e contribuíam para o agravamento da situação. O restaurante na beira do lago tornou-se o refúgio na busca de paz e sossego. Mas era obrigatório consumir.
As montanhas nevadas se impuseram ao lado dos rios encachoeirados durante ao ônibus da volta a Kathmandu.

Do topo do templo budista de Swayabunath se via a cordilheira ao norte da capital. As interessantes ruas comerciais das proximidades, calmas no princípio, se agitavam e lotavam à medida que se aproximavam do centro. O sol brilhante tornava as cores das roupas, ruas e lojas ainda mais vivas e alegres.
O café da manhã reforçado no terraço de sempre se alternava entre leituras, banhos de sol, o não fazer nada. Em ritmo lento, circuladas pela região da praça Durbar. Sentamos nas escadarias do templo, comemos banana, observamos o movimento do alto. Outro livro em sebo, mais um de Gabriel García Márquez, mais uma vez em inglês, A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e Sua Avó Desalmada. Releitura, mas valeria a pena.
Antes do amanhecer para assistir aos rituais no complexo de templos hindus de Pashupatinath. Os macacos do bosque atacaram e roubaram metade do lanche. O local fascinava pelas bênçãos no rio, o culto ao lingan de Shiva, as roupas multicoloridas das mulheres, a plástica dos rituais, a beleza dos templos, do bosque ao redor. As cremações emocionaram, envoltas em atmosfera triste e pesada. A preparação da lenha e do corpo, as bênçãos, a comoção dos familiares, o acender do fogo ardendo durante horas antes das cinzas e lenha serem atirados nas águas sagradas do rio. A maioria dos turistas do chamado primeiro desprezava o local e os familiares, circulando pelas áreas exclusivas de cremação, fotografando, filmando o sofrimento alheio, rindo, debochando. Vestiam roupas curtas e inadequadas ao local das cerimônias. Lançavam olhares de desdém aos familiares do morto.
Depois, a pé ao templo budista de Boldhanath, com direito a delicioso dhal bath e retorno em ônibus local junto com os nepaleses. À noite, pela região da praça Durbar, a cidade se preparava para mais um festival. As ruas se enfeitavam de gente e enfeites coloridos. Os comerciantes pintavam as portas das lojas.
Os condutores de ciclo-riquixás ganhavam em simpatia. Ofereciam os serviços educadamente, sempre alegres, sem precipitação. Diante das recusas, seguiam sorridentes e felizes. Eram pessoas simples, autênticas, alegres, resgatando o humanismo desgastado na turística Kathmandu.
Dois ônibus até Bungamati, ainda no vale de Kathmandu, guardando becos e o templo hindu impressionante. Os moradores usavam os mais diversos lugares para secagem ou limpeza de arroz e milho. As espigas, ainda dentro dos sabugos, eram penduradas e secadas nas paredes das casas. Pelas ruas estreitas, os habitantes cumprimentavam e sorriam espontaneamente. Raras crianças pediam qualquer coisa, a maioria apenas sorria e nos acenava. Dos terraços cultivados ao redor da cidade, ao fundo, a faixa da cordilheira do Himalaia. Sentados na guia da calçada do vilarejo, comemos duas dúzias de bananas.
continua...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

do Nepal ao Camboja (parte 1/12)

Diante do deslumbramento da minha primeira viagem à Ásia, ela me contagiou para nova exploração à região. Desta vez, sem roteiro engessado, sem data de volta, permanecer onde e por quanto tempo desejar. Iniciaríamos no Nepal, priorizaríamos a Índia, decidiríamos lá o restante.
Embarcamos no início de outubro. O primeiro trecho aéreo permitiu um dia inteiro em Londres. O segundo voo criou o suspense da conexão apertada em Delhi, rumo a Kathmandu. Mas funcionou a terceira e última etapa aérea ao Nepal.
A chuva fina recepcionou na chegada a Kathmandu. Depois de duas noites voando e sem dormir, o sono bateu em cheio.
Acordando no meio da tarde do dia seguinte e a acentuada diferença de fuso horário impediram de o sono vir à noite. Depois de conversas, leituras, esperas, enfim o sono. Dormi bastante e profundamente. O relógio biológico, por fim, se ajustava.
O dia se resumiu a atividades burocráticas e ao planejamento da travessia pelo Himalaia. Optamos pela junção de três trilhas na região do Lantang em 17 dias de caminhada. Encaramos a caríssima vacina contra hepatite A em hospital administrado por canadenses. Ficamos imunizados e desfalcados de bela grana. Mais tarde, ao templo budista de Swayabunath, situado no topo da colina.

Pela manhã, o templo hindu de Pashupatinath, dedicado a Shiva. Os fiéis vestiam roupas coloridas durante as cremações, bênçãos, purificações nas águas sagradas do rio, afluente do rio Ganges. Músicas religiosas acompanhavam os rituais. Os sadhus circulavam seminus pelas redondezas. Dos degraus da margem oposta do rio se via com calma as cenas à frente. Dali ao templo budista de Boldhanath, marcado pela grande estupa. Valia mais pelos restaurantes ao redor, a maioria com amplos terraços, ideais para comer, beber, ver o movimento frenético das ruas.
Dia ensolarado para ir à cidade de Baktapur. Bem preservada, com circulação restrita de veículos, a cidade guardava templos hindus, vielas medievais, cenas de rua, moradores receptivos e simpáticos. Era o tipo de lugar para se perder pelos caminhos e esquecer o tempo. Poucas ruas e praças se amontoavam de turistas. E, ali, oportunistas insistentes tentavam vender serviços de guia alegando serem estudantes de história e precisarem de dinheiro para pagar a escola. O restante da cidade, não menos interessante, permanecia calmo para explorações detalhadas e contatos mais íntimos com os moradores.
O ônibus lotado levou a Kirtipur, cidadezinha encravada no alto da colina. A cidade fora quase toda reconstruída após o terremoto de 1934, inclusive templos e estupas. Os moradores eram sorridentes e receptivos. E impressionava a visão da cordilheira do Himalaia. Retorno ao centro de Kathmandu em outro ônibus lotado de tipos fascinantes.
Aproveitamos a luz da tarde para perambular pela praça Durbar em Kathmandu, sentar nos degraus do templo e apreciar o vaivém dos moradores e turistas. Claro, sempre importunados por vendedores de bugigangas, condutores de riquixás, taxistas, falsos sadhus, falsos guias. A poluição em Kathmandu incomodava, dos escapamentos ou da abundante poeira em suspensão.
 Arrumação meticulosa das mochilas para a caminhada no dia seguinte. Não caberia todo o necessário, de jeito nenhum. O jeito era retiramos itens, encher novamente, esmagar, sentar em cima. Pronto. Coube.
Ainda no escuro para pegar o ônibus para Dunche, que cruzou paisagens em relevo acidentado e montanhoso. A estrada sinuosa subia e descia encostas rochosas, com muito verde. Se sucediam os precipícios, quedas d’água, desníveis fascinantes. O ônibus contava com ajudante para embarque e desembarque de passageiros e cargas, mas também nos momentos em que vinha outro veículo em sentido contrário ou em curvas fechadas na beira de precipícios.

O trajeto de quase onze horas cansou em ônibus com pouco espaço para pernas e bagagens. Pulava demais na estrada cheia de buracos, de terra ou pavimentada. A maioria dos passageiros era de nepaleses, simpáticos e receptivos. Os poucos turistas, loiros, primavam pela arrogância. Furaram impunemente a fila no embarque, não conversavam nem com os nepaleses.
Em Dunche, outro ônibus a Shiabru Bensi, a 1.420 metros de altitude. O jantar no refúgio básico veio de dhal bath reforçado com dois ovos fritos. Depois sono. O dhal bath era o prato típico nepalês, constituído de arroz, lentilha, batata temperada e, eventualmente, outros ingredientes de brinde.
Início da caminhada cedo pelo fundo do vale. A trilha ascendia invariavelmente em meio a florestas de verde abundante, acompanhada do riacho encachoeirado. Surgiam pequenas pontes de madeira, diversos abrigos, casa de chá. Raros turistas nas imediações.
Nos bosques pintados pelas cores de outono, as folhas evoluíam de verde, amarelo, laranja, até tons acastanhados. Escarpas rochosas, pássaros, cascatas, córregos se alternavam. O riacho principal que corria ao longo do vale reservava corredeiras e pequenas cachoeiras. A subida se acentuou e o vale se alargou. A vegetação tornou-se mais rala e de menor porte, exceto a ciliar. Os paredões verticais de rocha pura impressionavam com inúmeras quedas d’água. O lanche foi de lamem com ovo frito e muito chocolate de sobremesa. O pico nevado do Lantang Lirung apontou no fundo do vale e deu as boas-vindas na parada da vila de Lantang, a 3.500 metros de altitude.
Mesmo com cestos de lixo ao lado, os estrangeiros do assim chamado primeiro mundo jogavam papel dentro dos vasos sanitários e nunca puxavam a descarga. O banheiro fedia terrivelmente após a passagem deles. Lavamos o essencial no cano de borracha que trazia água gelada da montanha. E preguiça sob o sol de fim de tarde para relaxar e lembrar as belezas da trilha.
Despertar bem cedo para assistir ao nascer do sol nas montanhas nevadas ao redor. Apesar do frio quase insuportável, fortes emoções diante dos raios de sol que gradativamente iluminavam a ponta dos picos e depois toda a montanha.
Dia para caminhadas leves pelas colinas, apreciando as montanhas com calma e se aclimatando na altitude. Entre as trocas de pontos de vista com o guia a respeito de diferentes modos de vida entre Nepal e Brasil aumentou a consideração mútua. Os nepaleses preferiam nos procurar para conversar, sentar ao lado ou simplesmente sorrir. Como brasileiros, chamávamos atenção pela simpatia, receptividade, curiosidade. Os demais turistas se isolavam de tudo e de todos.

Novamente cedo cordilheira acima. A vegetação apresentava-se mais rala e dispersa em vale alargado. Apareceram iaques e naques em numerosos rebanhos. Os condutores ofereceram ruksi, bebida alcoólica forte e geralmente adulterada segundo o administrador do refúgio. Chegada em Kanjyn Gompa, a 3.800 metros de altitude deslumbrados com o visual de montanhas nevadas ao redor.
Antes do amanhecer, subida ao topo da montanha Tsergo, a 5.000 metros de altitude. Os efeitos da altitude exigiam paradas para repor o oxigênio e normalizar o batimento cardíaco. O visual encantava, sobretudo com os picos das montanhas mais altas iluminados pelas primeiras luzes da manhã. Pouca neve no começo, sobre os blocos de rocha, depois espessa, cobrindo totalmente a rampa acentuada, escondendo os buracos, tornando tudo escorregadio. O gorro, a bota, as luvas pouco amenizavam o frio.
 De volta ao vale do Lantang, rumo às cabeceiras e geleiras, a 4.500 metros de altitude, entre córregos com água corrente e blocos de gelo. O vale se estreitava e as montanhas se aproximavam à direita e à esquerda. Eram mais e novas montanhas nevadas. Uma delas, toda coberta de neve, mais parecia feita de nata. Do outro lado, terminava o Nepal e iniciava a China.
O aquecimento da água era feito com lenha cortada dos bosques, contribuindo para o desmatamento na cordilheira do Himalaia. Daí lavar o rosto, pés, as partes baixas, com água fria mesmo. A sujeira rapidamente era esquecida ao caminhar e contemplar as montanhas ao redor.
Subida ao cume do pico Kanjyn, a 4.300 metros de altitude. Da pedra do cume, a paisagem revelava imagens espetaculares do Lantang Lirung, das geleiras, da maioria das montanhas nevadas ao redor. Paz e silêncio na companhia apenas dos pássaros, da natureza do vale do Lantang, da cordilheira do Himalaia, durante horas, entre fotos, preguiça, observações, contemplações, frases, conversas. Nada descreveria o que os olhos e ouvidos captaram. E nevou levemente na descida.
O sol brilhava intensamente à tarde nas imediações do refúgio. A partir da água gelada das montanhas que brotava dos canos de borracha, o banho quase completo. Depois lagartear sob o sol morno para observar o lento movimento do vilarejo até quando o sol não esquentava mais. A neve estava mais brilhante do que nunca. As luzes e cores prendiam os olhares.
À noite o céu enchia de estrelas e a lua quarto crescente refletia o brilho nas encostas nevadas das montanhas, parecendo se acenderem com o luar, fazendo esquecer o frio intenso, mesmo quando íamos aos banheiros afastados e gelados.
Na descida do vale durante a manhã, o espetáculo vinha do verde, amarelo, castanho da floresta, o rio de águas verde-azuladas, a visão do maciço branco do Lantang entre as árvores. De cada curva da trilha, de cada ângulo de observação, mais belezas se revelavam. No refúgio, a 2.380 metros de altitude, banho frio, parcial, priorizando as partes críticas do corpo.
Mais caminhantes gringos subiam o vale, raramente retribuindo acenos, cumprimentos, saudações. No posto de fiscalização do parque nacional, os estrangeiros loiros não escreviam as informações necessárias, colocavam dados falsos, não assinavam, debochavam das normas.

Nos trechos sombreados em meio a florestas verdes e úmidas, o pico do Ganesh Himal servia de pano de fundo para Shiabru, graciosa vila situada na crista da montanha, a 2.100 metros de altitude. Terraços cultivados com cevada formavam conjuntos esverdeados. Aglomerados por entre becos e ladeiras, as construções da vilazinha ofereciam muitas flores nas sacadas. O festival do Dasain iniciava o período mais importante das comemorações.
E novamente montanha acima. Eram florestas de pinheiros, carvalhos imensos, coníferas, cujas folhas evoluíam do amarelo ao laranja. A maior parte da trilha percorreu cristas com os picos Lantang Lirung e Manaslu até o amontoado de barracos em Laurebina Yak, a 3.980 metros de altitude. Não nos cobraram nada pela estadia precária.
A paisagem mais uma vez mudou sob as encostas quase verticais de rocha acinzentada. Eram escarpas, abismos, com neve onde não batia sol. O cenário dos lagos, escuros, esquisitos, instigava em Gosaikund, a 4.380 metros de altitude. Nevou levemente, esfriou mais, mas dava para andar sem problemas.
E nos enfiamos nos sacos de dormir para gostosa preguiça. O refúgio lotou de novos caminhantes. Ouvíamos vozes em diversas línguas. O rádio dos sherpas tocava a todo volume. Mas distingui vozes em português brasileiro. O grupo filmava documentário na Ásia sobre a Rota da Seda entre o Paquistão e a China. Estavam no Nepal apenas a passeio. Sempre gratificante encontrar brasileiros, referências de alegria, receptividade, calor humano.
continua...

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

do Nepal ao Vietnã (parte 3/7)

...continuação
Embarquei em riquixá rumo a Pashupatinah, um complexo de templos hindus em meio a caminhos por entre as árvores. Ao lado, o afluente do rio Ganges e, por isso, sagrado. Os fiéis se banhavam nas águas sujas. Corpos eram cremados nas margens. A cena impressionava e impunha respeito. Fotografias não eram bem vistas. A arrogância dos gringos loiros pressionava os obturadores mesmo assim. Assisti os rituais da outra margem do rio. Saris, flores, essências em pó ou liquido, criavam marcante contraste de cores nas escadarias. Sadus perambulavam pelos templos, pintados, sujos e seminus, pedindo contribuições ou comida. Dezenas de macacos circulavam entre as árvores e nas escadarias da margem do rio.
Outro riquixá para Bodnath, templo budista dotado de estupa grande, circular, com detalhes em ouro. Inúmeras lojas de artigos religiosos e lembranças turísticas se aglomeravam ao redor.
Momento de ir à barbearia. Só havia uma cadeira disponível e cada um assistia o corte do outro. Após dar cabo da barba de vinte dias, o barbeiro iniciava sessão de massagem da barriga para cima. Eram pancadas com a frente e as costas das mãos, puxadas musculares, torções do pescoço, esticadas para lá e para cá. Divertido demais para quem recebia ou assistia.
As nepalesas do tipo indiano humilhavam as turistas pela beleza de rosto e corpo, pele morena, cabelos longos e negros, charme e sensualidade.

A cidade de Baktapur, perto da capital, restringia a circulação de veículos motorizados nas ruas. Sorte dela e dos visitantes. Andar pelos becos e ruas estreitas da cidade era verdadeira viagem no tempo. Calmaria, templos hindus, construções antigas com portas e janelas finamente trabalhadas em madeira. Secagem de arroz ao sol, teares manuais produziam belas peças. Mães banhavam os filhos na rua. Grupos de amigos e familiares se reuniam sob as sombras para conversar e esperar o tempo passar, sem pressa. Parecia que nada mudara em séculos. Nem precisaria.
E veio o dia de deixar o Nepal.
O atrasado embarque para a Índia só aconteceu à tarde. Achei melhor reservar táxi e hotel logo no saguão do aeroporto de Delhi. O taxista ainda alegou isso e aquilo para me fazer mudar de ideia. E, ao me conduzir a hotel diferente do escolhido, suplicava, com ares de ator canastrão, para que eu aceitasse a generosa sugestão. Permanecemos ali durante meia hora, enquanto ele se fingia de vítima. Após concluir que eu não arredaria pé, baixou a cabeça, exagerou no gesto dramático e, muito sentido, me conduziu finalmente ao hotel que eu reservara. Tentou ainda me enrolar ali no desembarque e, com expressão entristecida, fechou a porta do carro e nem se despediu. Péssimo ator.
Saí à procura de comida. Caminhei pelas regiões do Bazar central, estação ferroviária, arredores da parte velha da cidade.
Bastava encontrar um ponto na calçada e simplesmente observar a fascinante bagunça da velha Delhi. Havia de tudo. Homens tomando banho na sarjeta, barbearias ao ar livre, mictórios na calçada, veículos, vacas, outros animais, cargas, bicicletas, motos, lojas, ambulantes, barracas de comida. Gente, muita gente. O chão parecia tremer de tanta gente. Eventualmente um elefante passava com alguém no lombo. A síntese da Índia se revelava da esquina. Louca, confusa, barulhenta, suja, velha, mas extremamente interessante. Difícil descrever. Consertos de dentadura, comidas das mais variadas oferecidas nas calçadas, oficinas, passadores de roupas, mais animais, mais gente. Não sabia para onde olhar. Tudo fascinava.
Segui ao Forte Vermelho, enorme complexo de fortificações, construções de mármore, jardins, mesquitas. Passei pela enorme mesquita Jami Masjial. Tentei seguir adiante, variar o caminho de volta, mas me perdi nos becos. Demorei horas para saber onde estava e como sair dali. Os tipos físicos nas ruas eram dos mais diferenciados. Ninguém se parecia com ninguém. Raramente havia semelhança de rostos, cabelos, roupas, cor da pele, corpos, estaturas. Mas me olhavam intensamente. Suspendiam o que faziam, interrompiam as conversas, deixavam de engolir a comida, paravam as bicicletas, deixavam a carga no chão, se viravam.

Caminhei pela parte nova de Delhi. Pontos de artesanato, parques, lojas variadas, livrarias, prédios públicos, bancos, restaurantes, hotéis. Do imenso círculo central saiam avenidas radiais que cortavam as circulares. No meio do círculo, jardins, gramados e bancos para tentar relaxar. Impossível. Os indianos apareciam aos montes e assediavam sem dó nem piedade. Consertavam ou lustravam calçados, limpavam ouvidos, massageavam, analisavam a sorte, vendiam, pediam. Muito insistentes, eles perguntavam a minha vida inteira. À minha resposta sobre de onde eu era, repetiam automaticamente que eu vinha de lugar muito bom. Queriam saber a idade, quanto tempo na Índia, por quanto tempo ficaria, se eu estava gostando, perguntavam sobre casamento, filhos, nome do pai, profissão, salário. E insistiam, insistiam, insistiam. O limpador de ouvidos me forçou a ler uma caderneta, onde havia recomendações positivas dos serviços, escritas por pessoas das mais variadas nacionalidades, em diversas línguas. Nelas, os “clientes” teciam elogios ao método infalível contra cera no ouvido. Tratava-se de longa haste de metal com o tufo de algodão da ponta retirado de maçaroca do bolso da calça. Enquanto o indivíduo me mostrava os elogios escritos, se posicionava ao meu lado e apontava a haste em direção a minha orelha. Insistia muito. Não havia como relaxar. Descansar, somente no quarto do hotel.
As vassouras não tinham cabo na Índia e Nepal. Quem as usava era obrigado a se abaixar e permanecer assim durante a limpeza. A impressão era que tudo na Índia era antigo e velho.
O restante do grupo aterrissara na cidade na noite anterior. Despertar antes do amanhecer para tomar o trem a Ajmer. As margens das ferrovias, pelas manhãs, se enchiam de indianos que cagavam de costas para os trens. Com eles, a lata de água para a higiene das partes, sempre executada com a mão esquerda. Não era um ou dois, mas dezenas deles, enfileirados próximos às dormentes, de cócoras, na espera da saída diária dos produtos orgânicos. Não se importavam com a passagem dos trens. Nada faziam de anormal. Ao contrário. Como eles próprios afirmavam:
“a vergonha está em quem olha e não em quem faz”.
A paisagem vista pela janela do trem era plana e cultivada, com raros e pequenos serrotes. Camelos substituíam os bois ou cavalos. O ônibus velho nos pegou na estação ferroviária de Ajmer levando à cidade de Pushkar.
Local sagrado do hinduismo, Pushkar se estendia à beira de grande lago e aos pés de pequenas serras. Contava com seqüência de templos e escadarias, cujos degraus (ghats) desciam às águas do lago. A cor branca predominava em tudo. As escadas eram usadas para as cerimônias religiosas e cremações.
Antes de clarear, e sem os sapatos, eu estava nos degraus para assistir os hindus se benzerem nas águas do lago sagrado. Os brâmanes, religiosos pertencentes à casta mais alta no hinduísmo, cobravam aos turistas pelo ritual de purificação, o pujat. Nem pensar! O nascer do sol, refletido nas águas do lago, valorizava o momento reflexivo. Caminhei pelas ruas e becos atrás dos templos. Por ali circulavam pessoas coloridas, esquisitas, vacas, camelos. À tarde subida ao topo do morro nas proximidades da cidade, onde havia o templo em homenagem à mulher do Brahma. Do alto, impressionava a vista de Puskar, de outras pequenas serras, do deserto enevoado a oeste.
A maioria dos moradores de Pushkar era simpática e sorridente. A exceção ficava por conta da insistência das crianças, que pediam dinheiro e caneta, e dos vendedores de instrumentos de corda, que demonstravam lentamente os sons. Nunca desistiam. Além da arquitetura, o que mais se destacava eram as cores fortes das roupas das mulheres e dos turbantes dos homens, estes invariavelmente exibindo enormes e cuidados bigodes.

Durante a noite, soaram percussões e cantos, vindos da região dos templos, ecoando por toda a cidade.
Muitas horas de ônibus por estradas asfaltadas e estreitas, cortando regiões cada vez mais desérticas, com arbustos esparsos, veados com dois longos chifres, aves semelhantes às codornas. Almoço na cidade de Nagaur, em hotel sujo, mas com comida típica e comível.
Acampamento em Jambha, dentro da velha fortificação. Antes do jantar, o dono do pedaço providenciou espetáculo musical e dançante, com tambores e algo similar à sanfona. As dançarinas, em trajes típicos do Rajastão, se requebravam em movimentos sensuais dos quadris e das mãos. Pareciam trejeitos de cobras. A noite estava limpa e estrelada. Morcegos e grilos, que mais lembravam baratas, voavam baixo.
Pela manhã, montados em camelos, adentramos o deserto de Thar por quase sete horas. No caminho visita à pequena aldeia muçulmana, cujas cabanas cobertas de palha, construídas em areia e barro de cor ocre, eram decoradas com pinturas nas paredes. Os poços para obtenção de água subterrânea se restringiam às propriedades ricas. Nas demais as cacimbas faziam o papel de reservatórios de água. Almoço sem pressa em oásis, ao lado de centenas de camelos descansando e se hidratando. E adoravam se deitar ou se esfregar na areia. Vez ou outra namoravam e mantinham relações sexuais.
Os camelos nunca corriam, raramente trotavam, andavam lentamente. Eu os montava apenas quando agachados. Levantavam as pernas traseiras, inclinando-se totalmente para frente e, somente então, levantavam as pernas dianteiras. Entre essas duas etapas, eu tinha a impressão que despencaria de cima deles. No momento do desmonte, a situação era invertida, mas a sensação de queda iminente permanecia.
As mulheres optaram por serem acompanhadas do condutor, montado atrás delas. Um deles molestou uma delas e foi logo substituído. E o dito cujo estava prometido para casamento, cuja noiva ele vira apenas uma vez, por meia hora. Estava com 16 anos e a veria novamente só daí a cinco anos, na cerimônia de casamento.
Nas paradas, os indianos formavam roda e não se cansavam de nos observar, perguntar o país de origem, os nomes e muito mais. Os olhares eram fixos e cheios de curiosidade. Enfileirada e sobre os camelos ao entardecer, a expedição formava sombras na areia que lembravam as antigas caravanas pelos desertos.
O deserto de Thar não era somente areia. Contava com musgos, arbustos e árvores isoladas de médio porte. Espinhos pontiagudos não faltavam. O calor era suportável, ao contrário do sol, implacável. O pavão, símbolo do Rajastão, perambulava pelas areias, nas quais os buracos constantes indicavam a presença de grandes roedores.

Acampamento no final da tarde no meio das dunas. E os camelos ao lado. O pôr-do-sol foi de cair o queixo e a noite estrelada parecia tocar os rostos. Inesquecível. Jantar farto e saboroso em meio às fogueiras acesas. Depois apresentações musicais e de dança executada pelos guias e os ajudantes de camelos.
Antes de dormir, o guia alertou sobre a possível presença de escorpiões. Verifiquei com cuidado e não vi nenhum perto da barraca ou dentro das botas.
O nascer do sol no acampamento foi espetacular. A bola de fogo se ergueu atrás das dunas no fundo do horizonte.
Retorno cedo por caminho diferente e mais curto que o anterior. O sol pegou forte. No meio do percurso, passagem por escola rural. Os alunos, crianças e adolescentes, rezavam em público sob a disciplina férrea. O responsável pelo bom andamento da cerimônia circulava com pedaço de pau e o usava nas costas dos indisciplinados. Antes de meio-dia eu desmontava do camelo em Jambha, com as pernas abertas e doloridas, a bunda achatada. Mas feliz pela expedição inusitada.
Ônibus rumo à cidade de Jaisalmer, ainda no deserto de Thar.
O hotel ficava na parte interna da cidade murada, um forte construído no século XII. Apesar de bonito e bem decorado, com arquitetura fiel à época e com vista privilegiada da cidade fora da fortificação, o hotel era mal administrado e com serviços de espelunca. As instalações estavam apodrecidas, o banheiro caindo aos pedaços, com vazamentos, sem água quente. Em minha segunda viagem à Índia, eu aprenderia que, quanto mais aparência e suntuosidade, maior a decepção com os hotéis indianos. Viajando por conta própria era melhor se hospedar em hotéis simples, com banheiro no quarto, mas sem frescuras ilusórias. Muito mais baratos, a qualidade interna deles correspondia ao aspecto externo. Sem falsas expectativas, se conseguia bons lugares a preços justos.
Pela manhã passeio pelas ruelas e construções internas do forte. Visita ao complexo de templos da religião jain. Belíssimos, limpos, ricamente trabalhados. Mas os religiosos cobravam para fotografar os interiores. Praticamente todas as construções dali e a maioria das casas antigas, chamadas havellis, e datadas do século XVII, na parte externa eram em arenito finamente trabalhadas, com figuras, treliças, imagens, portas, janelas, sacadas. Tudo em rocha. Os desenhos impressionavam pelos detalhes e mais pareciam feitos em madeira. Ao redor do forte, Jaisalmer comportava o principal dos estabelecimentos comerciais, o grosso do movimento.
continua...

domingo, 5 de dezembro de 2010

do Nepal ao Vietnã (parte 2/7)

...continuação
Iaques transportavam materiais de acampamento durante a travessia das trilhas. Para agilizá-los, além de chutes e pedras, os donos que os conduziam apertavam por trás o saco dos animais, que, imediatamente se acendiam, saltavam e aceleravam o passo. As mulheres sherpas sempre trabalhavam, sozinhas ou acompanhadas dos homens. Muitas conduziam os animais de carga ou negociavam a venda de alimentos nas feiras.
A maioria dos caminhantes dos outros grupos próximos era de franceses. Nunca se comunicavam com ninguém. Não respondiam nem mesmo o “namastê”, a tradicional saudação nepalesa emitida por todos na trilha. Nas raras vezes que abriam a boca, resmungavam algo em francês. E só ficavam entre eles.
À noite o tempo fechou, as nuvens engrossaram, a neve cobriu tudo.
Acordei com princípios de dor de cabeça e enjoo. A curta caminhada até o local do almoço, com subidas leves em terreno nevado e escorregadio, foi de matar. Pareceu-me interminável. Não consegui engolir quase nada na parada. Após cruzar vales nevados, pontes sobre geleiras e campos esbranquiçados pela neve, Lobuche, a 4.950 metros de altitude. Para fugir do frio absurdo, deixei as coisas nas barracas e me enfiei no refúgio, onde conversei com outros caminhantes do mundo.
A tinta da caneta congelou. Peguei outra de dentro da mochila.

E comecei a melhorar diante da lua quarto crescente no céu estrelado. O luar, refletido nas encostas nevadas das montanhas, deslumbrava qualquer um. Retornei mais feliz para a barraca, agora exclusiva. Entrei no saco de dormir e caí em sono profundo. Tinha que consumir muito líquido para amenizar os males da altitude. E era inevitável acordar durante a madrugada para urinar. Eu resistia o máximo possível. Pensava em outras coisas, tentava dormir novamente. Não funcionava. A bexiga queria estourar. Não tinha jeito. Abria o saco de dormir, me vestia todo, abria os dois zíperes da barraca, enfrentava o frio de matar e me aliviava quase ali em frente. Ao levantar os olhos para o céu incrivelmente estrelado, com o luar refletido em todas aquelas imensas montanhas, a sensação de frio logo sumia. Era lindo demais. Beleza ímpar. Eu me hipnotizava diante de tanta perfeição. E nem me apressava para retornar à barraca.
Além do apetite abalado, já não aguentava o odor do óleo das frituras, as terríveis panquecas, o mingau de aveia, de todos os dias e noites. Como alternativa, empurrava vários ovos cozidos, garantindo a qualidade da alimentação e a reposição parcial das energias. E aqueles ovos eram transportados às dúzias por carregadores especiais e exclusivos, chamados de “homem ovo”. Ninguém ousaria tocá-los nas subidas, sob o risco de danificar a carga tão preciosa.
Caminhei por trilhas pedregosas e cobertas de neve. Nada de vegetação por perto. Nem rasteira. Ao redor, montanhas e mais montanhas, altas, nevadas, geladas. A paisagem árida impressionava pela beleza e imponência. Gorak Shep, a 5.160 metros de altitude, não era vila nem nada. Apenas ponto de vários acampamentos e refúgio sujo, fedorento, caindo aos pedaços. As barracas espalhavam-se na planície, branca e gelada. Acampamento alto, isolado e desolador. A latrina externa e coletiva, com o cercado de pedra para proteção do frio e vento, merecia elogios. A parte interna, no entanto, afugentava até os mais desesperados. Havia um buraco profundo e apenas duas barras estreitas e paralelas de ferro para sustentação e equilíbrio. Escorregou ou perdeu o equilíbrio, iria atolar nas merdas dos caminhantes do mundo todo.
As tardes vinham nubladas, com vento, neve, muito frio, sempre abaixo de zero. Mas nada, nem o frio, as nuvens, o enjoo das comidas, a falta de banho, as indisposições deste ou daquele, tiravam a emoção de estar em região única, na cordilheira do Himalaia, com o Sagarmatha (Everest), a montanha mais alta do planeta, bem perto. À tarde subi parte do morro do Kalapatar com a intenção de assistir ao pôr-do-sol. As nuvens não permitiram. Ainda assim o mais alto do mundo aparecia de quando em vez ao lado do Nuptse, ambos iluminados pela fraca luz do entardecer e, depois, também pelo luar. Abaixo a área plana das barracas, branca e nevada.
Praticamente não dormi à noite. Não foram pelos 9 graus negativos dentro da barraca, mas sim pela altitude. O ar rarefeito obrigou o coração a trabalhar muito mais rápido. Acelerei a respiração e não relaxei o necessário para adormecer.

Ainda estava escuro ao começar a caminhada. Amanheceu durante a ascensão na trilha em ziguezague. O sol apareceu e nos iluminou apenas no topo Kalapatar, com a temperatura abaixo de zero. Na sombra, as luvas e gorro amenizavam, mas não resolviam. Ainda ninguém por ali. O cume, a 5.600 metros de altitude e a apenas oito quilômetros do Sagarmatha (Everest). Os picos Nuptse e Pumori, embora mais baixos, conquistavam pela beleza e imponência. Do topo, visão privilegiada de quase 360 graus. Montanhas deslumbrantes, extensas geleiras, lagos, picos e mais picos nevados de diversos formatos. Uma montanha mais afastada, cuja encosta inclinava a quarenta e cinco graus, estava toda branca, cremosa, parecendo sorvete de nata. Demais!
Descida no meio da manhã. De posse dos artigos pessoais no acampamento, continuei. Cruzei rios e riachos congelados, entre as pedras. Acampamento em Tukla, a 4.650 metros de altitude. Muito frio e vento no caminho.
A sujeira no corpo atingia graus alarmantes, críticos. Os cabelos endurecidos e ensebados transformaram-se em blocos compactos, pastosos, pegajosos. O odor azedo nos pés e sob os braços infestavam a barraca. As partes íntimas se tornaram emaranhado de pelos ressecados, imundos, fedorentos. Mas fazia muito frio. E não havia água suficiente para banho. Muito menos quente. Nada disso, porém, preocupava. Ninguém se preocupava. Estávamos em estado de graça diante das maravilhas da cordilheira do Himalaia.
Caminhada em trilha levemente ascendente pelo vale do Chukung. Visão de montanhas diferentes até então, muito gelo e pedras, rios parcialmente congelados. Chegada ao acampamento, a 4.730 metros de altitude, ao longo de outro vale, o terceiro explorado na travessia. Tomei com prazer a sopa com ovos. Qualquer coisa menos as frituras, o odor das frituras.
Encontro com outros brasileiros caminhantes.
Fazia frio criminoso no começo da caminhada antes do amanhecer. Ainda estava muito escuro e minhas mãos e pés pareciam congelados, dada à falta de articulação e liberdade de movimentos. Eu vestia todas as roupas disponíveis, duas luvas, o casaco forrado com pena de ganso. Nem mesmo o nascer do sol amenizou a sensação térmica. Atingi cedo o alto da crista, a 5.380 metros de altitude. A vista era magnífica. A enorme parede do Lotse, se elevando a cerca de 90 graus, impressionava bem à frente. Outras montanhas, como o Pumori e o Amadablan, erguiam-se mais ao longe, acompanhadas de extensas geleiras. O frio não arrefecia e continuava vestido feito astronauta. No meio da manhã começou a nublar e tive que descer.

Descida até Dimboche, a 4.350 metros de altitude. A temperatura tornava-se suportável à medida que baixava a altitude. Ainda assim houve neve e vento gelado contra. O cenário parecia entorpecer. Eram tantas montanhas nevadas durante todos aqueles dias que me sentia acostumado e integrado à paisagem.
Um típico estadunidense, com físico de touro e cérebro de ameba, cismou de humilhar um dos membros da própria equipe de apoio. O energúmeno apontava o emblema na camiseta e não admitia que o sherpa desconhecesse o time de basquete correspondente. Descontrolado, ainda fazia brincadeiras preconceituosas e de mau gosto, dando espetáculos de racismo e prepotência. Talvez concluísse que seria necessário o país dele, em um dos passatempos favoritos, bombardear o Nepal para sanar aquela “situação”.
O percurso no dia seguinte foi longo e tranquilo, com poucas subidas e descidas, entre trechos arborizados e sombreados da floresta encantada de rododendros. Os rios eram mais caudalosos, embora ainda acidentados. Descida até Tengboche, a 3.800 metros de altitude, um amontoado de refúgios e pousadas ao redor do mosteiro budista, gompas e estupas. Muitos turistas por ali, sobretudo para assistir ao festival budista marcado para aqueles dias. Eram barracas para todos os lados sobre piso desgastado. Acampei no gramado levemente inclinado para o vale. Bem à frente, depois da depressão do vale, o caminho ascendente em direção às montanhas do Lotse, Nuptse e Sagarmatha (Everest).
E depois de doze dias de sujeira encardida voltei a tomar banho, o segundo e último em vinte dias de travessia. Paguei por dez litros de água quente. Tive que correr para tentar tirar parte da porcaria, naquela altura já grudada no corpo. A sensação de leveza e bem estar, de poder vestir roupas limpas, era animadora. Mas a emoção gratificante de ter realizado a travessia deslumbrante pelas montanhas nevadas me provocava alegria ainda maior.
À noite aconteceu festa improvisada por um grupo de irlandeses até bem tarde da noite. Não faltaram bebidas e gritarias. Os sherpas também organizaram confraternizações. Beberam umas e outras, surgiram bate bocas, e chegaram às vias-de-fato. Um deles atingiu a nuca do outro com o lampião. O ferimento não foi grave, mas o agressor foi sumariamente demitido pelo sardar da equipe.
Acordei sob a temperatura pouco abaixo de zero. Finalmente, em altitude mais suave, a fome voltou com todo o gás. Detonei no café da manhã, não deixei pedra sobre pedra. Aquele apetite descomunal tirava o atraso de vários dias. Meu estômago e a saúde em geral agradeciam.
Estendi o isolante na grama, ao ar livre. Deitava e ficava entregue à preguiça. Pelo menos até as nuvens cobrirem o sol e bater o vento gelado. Nas imediações das barracas pastava um iaque completamente doido. Os chifres estavam cortados, não trabalhava mais, perambulava para cá e para lá. De vez em quando, sem ninguém esperar, apresentava ataques histéricos e desembestava a correr, aos berros.
Os sherpas percorriam o caminho entre as barracas e o rio carregando pesadíssimos latões com água. Ainda assim, passavam com o sorriso nos lábios. O mesmo acontecia nas trilhas, quando carregavam cargas superiores a sessenta quilos. As cestas se sustentavam apenas pela tira de tecido alçada sob o queixo dos carregadores.

À tarde houve prévia da cerimônia budista do Mani Ringdu dentro das dependências do mosteiro. Espetáculo extremamente longo, monótono, repetitivo, cansativo. Os monges dançavam em círculos, desenvolviam movimentos lentos, ao som de cornetas, longas e graves, pratos e gongos. O público, que disputara os melhores lugares no início da cerimônia, lentamente se retirava. O vento e a neve forte trouxeram umidade e mais frio.
Mais um dia ideal para relaxar, tomar sol, conversar, apreciar o visual magnífico da cordilheira. A cerimônia de oferendas ocorreu ao lado do mosteiro, na parte da tarde. O Lama entregou pequenas bolas pastosas e bolinhas avermelhadas aos devotos em troca de contribuições “espontâneas”. Os agricultores também ganharam dinheiro, presentes, comida. As cenas fluíam de maneira arrastada, silenciosa, sonolenta. Havia mais turistas, ávidos por fotos, que moradores ou fiéis.
Durante a madrugada, mais músicas de dentro do mosteiro, vindas de cornetas, agudas e graves, gongos, pratos e outros sons. Ao entrar no saco de dormir, houve pânico pela corrida desenfreada dos iaques próximos às barracas. Passaram perto sem atingir ninguém.
Os monges fantasiados e mascarados dançaram dentro mosteiro no dia oficial do festival. A mesma lentidão e monotonia. No início os espaços se ocuparam por turistas que se acotovelavam para ver e fotografar. O tempo passava. A maioria logo debandou. Até o Lama maior, sentado e vestido a caráter na parte superior, se entediou e adormeceu. Por pouco não caiu de lado e deitou.
Hora da partida de Tengboche. A trilha desceu o vale profundo e subiu até a graciosa vila de Kunjung, a 3.700 metros de altitude. Acampei em meio às casas nas encostas das montanhas, picos nevados, cercas de pedra, extensos gramados.
Noite de despedida da equipe de sherpas. Passamos o chapéu, juntamos algum e entregamos. Aceitaram tímidos, mas alegres. Momento simples e comovente, como pediam os nepaleses.
Bem cedo, com temperatura de 5 graus negativos, rumo à pista de terra batida, para o embarque em helicóptero até Kathmandu.
Retornei ao hotel com o desejo de permanecer horas sob o chuveiro. Me ensaboei e me enxaguei várias vezes, até que a água preta que escorria para o ralo desaparecesse. Fiquei até mais leve. Afinal foram vinte dias com apenas dois banhos precários.
Vinte dias de caminhada pela cordilheira do Himalaia. Ainda estava em estado de graça.
continua...

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

do Nepal ao Vietnã (parte 1/7)

Finalmente realizaria o antigo sonho de explorar o Nepal, a cordilheira do Himalaia, a Índia, o Vietnã, outros países da Ásia.
Embarquei em outubro, no aeroporto de Cumbica, rumo ao primeiro trecho aéreo. Não havia espaço para as pernas no avião apertado da empresa aérea inglesa. O avião pousou em Londres no início da manhã. O voo de conexão só sairia à noitinha. Comprei bilhete de metrô válido para um dia e saí às ruas. Ainda me lembrava da cidade desde a visita de oito anos antes. Londres continuava a deliciosa salada cultural de sempre. O frio e a garoa obrigaram a me refugiar nas dependências da Galeria Nacional. Bateu o sono e cochilei nos sofás.
Embarquei em voo noturno com destino a Delhi. Mais um avião da mesma empresa aérea inglesa. Mais aperto e desconforto. O atraso causado pelo passageiro inglês em Londres me custou a perda da conexão para Kathmandu. A estonteante beleza das indianas que me atenderam no desembarque em Delhi compensou a transferência da passagem para o dia seguinte e o transporte ao hotel. Dormi cedo para tentar recuperar o sono perdido. A enorme diferença de fuso horário começava a bagunçar o relógio biológico.
Baixei cedo no aeroporto. No avião menor da empresa aérea indiana, mais espaço para as pernas. As comissárias indianas serviram balas e potes com grãos perfumados e esverdeados, parecendo alpiste. O voo rápido levou ao aeroporto de Kathmandu. As bagagens demoraram a aparecer e foram vistoriadas aleatoriamente. Paguei o visto de entrada no balcão de imigração.
Estava no Nepal, início de minha viagem à Ásia. No caminho ao hotel deu para sentir o trânsito caótico pelas ruas estreitas, entupidas de carros, ônibus, bicicletas, motos, riquixás e gente, muita gente. Jantei e dei uma volta básica pelas redondezas. O cansaço me empurrou de volta ao quarto do hotel.

Delicioso o café da manhã ao ar livre. Inúmeras opções de comida, cruas ou cozidas, salgadas e doces, sólidas e líquidas. Mais descansado, o ânimo crescera para explorar a cidade.
Passeio pela praça Durbar e arredores do centro. Templos e mais templos budistas e hindus, o antigo e imponente palácio real e a casa da Cumari, a rainha viva, cujo pátio interno guardava portas e janelas ricamente talhadas em madeira. Era desgastante caminhar nas ruas, invariavelmente estreitas, sem calçadas, com trânsito infernal e barulhento. Mas de todos os lados surgiam imagens interessantes. Segui ao templo budista de Swayambhunath, situado no alto do morro e com vista privilegiada da cidade. As nuvens deixavam tudo com tonalidade acinzentada e pouca luminosidade. Os monges, vestidos com túnicas avermelhadas, eram simples e bem humorados.
O pequeno avião que nos levou a Lukla pousou em pista de terra inclinada.
Teve início a travessia de vinte dias pela cordilheira do Himalaia, acompanhando o vale do rio de água verde leitosa. A trilha não chegava a encher de turistas, exceto nos mirantes e pontes suspensas, as quais, extensas, muito altas e sustentadas por cabos de aço flexível, emocionavam ao transpô-las, sobretudo ao oscilarem pelo vento ou pela passagem dos iaques. As águas do rio corriam com violência assustadora, bem abaixo de nós.
Chegada ao anoitecer em Monjo, ponto do primeiro acampamento, a 2.850 metros de altitude. Durante a madrugada a vontade insuportável de urinar me tirou do saco de dormir e da barraca. Fazia frio intenso, mas o céu estrelado deslumbrante fez esquecer o desconforto.
Amanheceu com céu azul e temperatura na marca de 2 graus negativos. Enormes montanhas nevadas se erguiam ao redor. A caminhada exigiu mais esforço e subi de altitude por trilha com fortes desníveis. O cansaço era deixado de lado diante do impacto visual da sucessão de belas montanhas. Primeira visão do monte Sagarmatha (Everest), com o Nuptse e o Lotse ao lado, dentro dos limites do Parque Nacional Sagarmatha. Atravessei outras pontes suspensas, mais altas, mais oscilantes, mais fascinantes. Acampamento em Nanche Bazar, a 3.410 metros de altitude, povoado colorido e alegre encravado na encosta da montanha.
Subi mais de 400 metros de desnível até o patamar com a privilegiada vista do Nuptse, Lotse, Sagarmatha (Everest), Amadablan, entre outras montanhas nevadas. Prossegui aos pequenos vilarejos de Kunde e Kunjung, ambos cercados por pedras e exibindo visual impressionante dos picos.
Uma grande bolha surgiu no dedão do pé direito. Tive que furá-la com agulha esterilizada para soltar o líquido e manter a linha de costura por dentro durante a noite.
O jantar iniciava sempre com sopa. Naquela noite foi de gengibre com legumes. Depois serviram momo (pastel tibetano fervido) e bolo de frutas. Para beber, opções de chá, suco artificial ou limonada, tudo invariavelmente quente.

Circulei pela manhã na animada feira semanal de Nanche Bazar. O açougue, ao vivo e em cores, expunha cabeças, pernas e demais pedaços de animais ao ar livre. Os habitantes utilizavam a bosta dos iaques como combustível nos fogões e aquecedores.
Retomada da trilha, oscilando entre subidas abruptas e trechos planos, tendo, ao lado, precipícios respeitáveis. O pico Transekur se erguia bem à frente. Do outro lado do vale, as vilas de Portse e Tengboche, com o mosteiro budista em evidência. A caminhada na parte da tarde foi mais dura com interminável subida até o templo budista a 3.950 metros de altitude. Desci em seguida ao ponto de acampamento em Portse Dranka, a 3630 metros de altitude, próximo ao rio, com temperaturas mais baixas. Nenhum turista acampado por ali.
Nos horários livres escrevíamos, líamos ou jogávamos cartas. Mais uma noite com o céu estrelado e ao som relaxante das águas do rio.
A caminhada curta levou a Dole, a 4.015 metros de altitude. O objetivo era a aclimatação lenta e gradual. Os rios estavam quase cobertos de gelo. As quedas d’água congeladas chamavam a atenção. Dole consistia de extenso gramado, algumas casinhas e refúgios, o pequeno córrego ao lado. E foi ali, no quinto dia de caminhada, que consegui tomar o primeiro banho na trilha.
A equipe de apoio era composta de sete sherpas, sempre atenciosos, simpáticos e prestativos. Nunca reclamavam de nada, suportavam cargas pesadas, sorriam com frequência.
Amanheceu com 7 graus negativos. A grama estava esbranquiçada, a toalha de borracha, deixada fora, congelada, a barraca coberta de gelo.
Caminhada curta até Machermo, a 4.400 metros de altitude. A quantidade de neve era mais expressiva, inclusive no acampamento, próxima às barracas. As geleiras surgiam nas encostas das montanhas e a vegetação tornava-se mais escassa e rala. Praticamente não havia árvores. Os pequenos povoados encravados nas encostas íngremes das montanhas encantavam pela simpatia. A temperatura não parava de cair, mesmo durante do dia, graças ao vento. Começou a nevar à tarde, cada vez mais forte. O frio tornou-se insuportável e nos escondemos no refúgio, permanecendo ali até o jantar, ao lado do aquecedor à base de bosta de iaque. O tempo se acalmou depois das 20h, abrindo céu estrelado, mas o chão do acampamento e as barracas se cobriram de neve.

A flatulência dava o ar da graça acima dos 3 mil metros de altitude. E os gases acumulados tinham que ser liberados. Eram peidos e mais peidos, involuntários, constantes, barulhentos, fedidos. Não havia hora e nem lugar. A situação constrangia no primeiro momento, obrigando a sair do refúgio ou da barraca-refeitório e aliviar do lado de fora. Depois desistíamos e relaxávamos ali mesmo. Ninguém mais se incomodava. Nas paredes internas dos refúgios, no entanto, o desenho e a frase em inglês advertiam: “proibido peidar”.
Amanheceu com 16 graus negativos. A neve cobria toda a área do acampamento. Assim que abri o zíper externo da barraca, o gelo e a neve caíram sobre as mãos. O chão escorregava e exigia cuidados para manter o equilíbrio. O sol brilhava forte e refletia na neve. A barraca-refeitório foi desmontada para o café da manhã ao ar livre. Ao redor, tudo nevado e branco. Gorro, luvas e toda a roupa não aqueciam o necessário.
Reinício da caminhada, subindo mais e mais. Todo cuidado era pouco para não escorregar na trilha nevada. A vegetação resumia-se a tufos rasteiros. Os rios transformaram-se em blocos de gelo. A paisagem branca e a infinidade de picos nevados tornavam a paisagem inóspita e encantadora. Atravessei o rio caminhando sobre gelo e pedras. Pequenas cascatas congeladas despontavam aqui e ali. Os lagos da região de Gokio apareceram um a um, cujas águas esverdeadas contrastavam com as geleiras e picos nevados ao fundo. Atingi o ponto de acampamento de Gokio, a 4.750 metros de altitude.
Subindo a crista do outro lado do vilarejo me deparei com a imensa geleira e a morena com areia e rocha acinzentada. Blocos se despedaçavam e causavam estrondo considerável. Caminhei ao longo da faixa estreita da crista. O tempo fechou no meio da tarde. Começou a nevar acentuadamente e o frio castigou. Desci imediatamente e me escondi no refúgio, ao lado de outros caminhantes. Formávamos círculo amplo ao redor do aquecedor. Parecia que cada país do mundo estava ali representado, tal a diversidade de tipos e línguas.
Quase não dormi durante a noite. O colega de barraca, que ia de mal pior, roncou feito trator na subida com afogador entupido. O processo de tristeza dele evoluíra para depressão. Nem subiu o pico de Gokio no dia seguinte.
Despertar antes do amanhecer. Engoli a grande tigela de sopa, bem quente, com tudo dentro, que levantaria até defunto. Início da caminhada ainda no escuro. Antes de começar a subida, trechos alagados e congelados. Foram 500 metros de desnível até o cume. O traçado bastante sinuoso da trilha amenizava o esforço físico. Depois de duas horas, quase sem fôlego e sem pernas, eu atingi o topo, a 5.250 metros de altitude. A vista de 360 graus era indescritível. Além da pirâmide negra do Everest e toda a cadeia de picos ao lado dele, havia o pico do Cho Oyu, mais e mais montanhas nevadas, extensas geleiras, lagos esverdeados, o povoado de Gokio e o extenso vale do dia anterior. Mesmo com o aparecimento das primeiras nuvens, ninguém queria deixar aquela maravilha.
Pelo outro lado do vale, descida à vila de Na, a 4.350 metros de altitude. O colega de barraca apresentou sintomas de hipoglicemia. Quase não comia, teve princípios de edema cerebral. A fraqueza o impedia de andar sem auxílio. A descida foi suave, mas a situação dele preocupava. O acampamento em Na e o refúgio ao lado estavam completamente vazios. Garantia de noite tranquila.
Os pães servidos nas refeições variavam quase todos os dias, com formatos, espessuras e sabores variados. Mas eram invariavelmente deliciosos.
A caminhada prosseguia em descida, com raras subidas. Foram mais de sete horas de caminhada. A neve fraca que caiu não incomodou. Acampamento em Portse, a 3.850 metros de altitude, vilarejo construído em degraus na encosta da montanha, sobre os quais havia o cultivo de batatas.
A cozinha montada pelos sherpas para o preparo da comida nos fazia voltar séculos no tempo. Era escura, com tudo espalhado pelo chão, o fogo improvisado. Nada parecia ter o mínimo de ordem ou planejamento. Mas funcionava a contento.
O estado do colega de barraca piorava. À noite no refúgio, cambaleante, perdeu o equilíbrio e se apoiou no cano da chaminé do aquecedor, derretendo a luva e causando fortes queimaduras nas mãos. Olhou a mão e os fiapos da luva sem expressão nenhuma. Não demonstrou sentir dor ou irritação na pele. Ameaçou sorrir e se sentou.
Ao amanhecer acordei com os movimentos atormentados dele, ainda dentro do saco de dormir, exibindo expressões de pânico e desconsolo. A cena era absurda. Ele simplesmente havia cagado horrores dentro do saco de dormir. Diarreia crônica o atacara durante a madrugada e não houve tempo ou condições de reagir. Estava atolado na própria merda. O espaço interno do saco de dormir não era dos maiores e a bosta quase alcançou o pescoço dele. Afastei minhas coisas para o canto oposto e saí da barraca imediatamente. O guia destacou um sherpa para acompanhá-lo até Tengboche, nossa penúltima parada antes do final da travessia. Nada tinha a ver com altitude ou desgaste físico. Como ciclista esportivo era o mais preparado fisicamente do grupo. Mas estava no lugar errado. E quando tomou consciência de não querer estar ali, o organismo entrou em parafuso.
A caminhada exigia mais esforço. Trilhas estreitas, precipícios, subidas e descidas. A neve e o vento, acompanhados de mais frio, complicou ainda mais à tarde. O almoço frio foi servido nas imediações de Pengboche, vilarejo com mosteiro budista, um dos mais antigos da região. Fomos abençoados na casa ao lado pelo Lama local que nos presenteou com postal autografado. Com sorrisos e mais sorrisos, ele aguardou nossa contribuição financeira e “espontânea”. No mosteiro, novamente, nos forçaram a contribuir com dinheiro. Recusamos o golpe, a despeito da insistência dos monges, que nada tinha de religiosa ou filosófica. Continuação da subida contra o vento e os flocos de neve. Chegamos ao povoado de Periche, a 4.250 metros de altitude, entre construções sobre areal cercado de montanhas.
continua...