quarta-feira, 1 de setembro de 2010

do Acre ao Maranhão (parte 1/7)

Novamente fiz bom uso das milhas do programa de fidelidade, desta vez até a distante cidade de Cruzeiro do Sul, extremo oeste do Acre.  
O avião partiu lotado com meia hora de atraso. As pernas se espremiam no reduzido espaço entre os bancos. Há muito tempo que os ônibus intermunicipais humilham os aviões em espaço e conforto. Em Manaus corri para embarcar no outro avião da empresa regional. Após a decolagem a aeronave retornou ao aeroporto de Manaus com problemas mecânicos. Nova decolagem ocorreu só uma hora depois. Ao meu lado sentou-se um rapaz de Cruzeiro do Sul cujos pais morreram em desastre aéreo daquela mesma empresa regional.
Chegada em Cruzeiro do Sul ao anoitecer. Vesti o pequeno capacete que cobria pouco além da metade da minha cabeça. O moto-taxista me deixou na porta do hotel simples e limpo.
Feia, mal cuidada, pobre, suja, a cidade de Cruzeiro do Sul desprovia de charme. Os habitantes eram reservados, mas simpáticos e prestativos.
O estreito rio Juruá estava alto e com as águas barrentas, carregando detritos, galhos, folhas, pedras e blocos de terra. A cidade, infelizmente, lhe dava as costas. A área de lazer situava-se longe da margem, em canteiro central da avenida principal. Bares, lanchonetes, pistas de corrida e ciclismo, bancos de praça, tudo mal feito, mal desenhado, sem carinho, de mau gosto.
Peguei ônibus para Guajará, cidade próxima, mas já no estado do Amazonas. A estrada cruzou terrenos ondulados, com muitas curvas e inclinações, pastos verdes e alguma floresta mais afastada. Organizada, limpa, arborizada e tranquila, Guajará reservava casas de madeira simples e de boa aparência, sombras refrescantes, orla despretensiosa e simpática na margem do rio Juruá. Ali havia bancos, gramados, barracas de comes e bebes, o porto flutuante, pequeno e funcional, acessado por escada cimentada. Os habitantes saíam às ruas, brincavam, passeavam, conversavam ou simplesmente se sentavam para apreciar o deslizar das águas. Bem diferente da sonolenta Rodrigues Alves, rio Juruá acima.

Durante a noite em Cruzeiro do Sul reparei em meninas menores de idade, circulando ou simplesmente paradas na esquina do outro lado da avenida em frente ao hotel. Vestiam roupas brilhantes e óbvias, comportamentos sugestivos, passeando para lá e para cá, sempre em pares. Trocavam frases com quem passava de moto ou carro, olhavam para os lados, eventualmente subiam nos veículos, observavam todos os passantes. Era evidente demais. Infelizmente.
O café da manhã foi esticado com boas conversas com outros hóspedes. Um hóspede a trabalho na cidade, com trinta e poucos anos, tinha cinco filhos com cinco mulheres diferentes em cinco municípios diferentes do Acre. Apenas dois eram registrados com o sobrenome dele. Justificativa todos os casos e jurava não ser culpado em nenhuma das situações. Apaixonava-se com facilidade e não conseguia segurar as emoções. Ainda faltavam 17 filhos para completar os 22 municípios do estado.
Enfermeira brasileira recém-formada em Cobija, cidade boliviana que faz fronteira com o Brasil. Aguardava o barco para levá-la até o posto de trabalho, em Porto Walter, um dia de viagem rio Juruá acima. Teria casa à disposição, salário mensal substancioso, mais ajuda de custo.
Cruzeiro do Sul e as cidades vizinhas passavam por epidemia de malária. Cartazes e faixas espalhadas pelas ruas alertavam e orientavam a população.
Raros os barcos rio Juruá abaixo. Atracavam em extenso lamaçal na beira da água. Tripulantes improvisaram trilha coberta de serragem para evitar o atoleiro. Armei minha rede no pequeno barco enquanto ainda estava vazio. Evitaria o vento noturno vindo da proa e o ensurdecedor barulho do motor na popa. Mais tarde o exíguo espaço interno lotou e as redes foram armadas lado a lado, acima, abaixo. O balanço de um passageiro causava o balanço dos demais.
No barco de um nível só, quem não se deitava nas redes permanecia na proa para conversar, jogar cartas ou apreciar a paisagem. Poucos nunca deixavam as redes, permaneciam calados, jamais sorriam. Se alguém lhes dirigisse a palavra, respondiam com contrariedade, aos grunhidos, olhando para o chão.
As águas muito barrentas do rio Juruá ainda refletiam a estação chuvosa, recém-encerrada. Os barrancos estavam comidos pela correnteza. Poucas e escuras eram as praias, de areia ou lama. Casas de palha isoladas ou em pequenos ajuntamentos apareciam nas margens. Canoas pescavam próximas às margens. A sinuosidade do rio era espetacular. Sentado na proa para melhor apreciar a paisagem reparava nas curvas e mais curvas, sempre bastante fechadas. A posição do sol variava a todo instante, à frente, à direita, à esquerda, atrás. O entardecer foi lindo e colorido.

Após o anoitecer, me recolhi à rede. O vento frio castigou aqueles instalados mais próximos da proa. Quando alguém circulava esbarrava nas alças da rede e provocava incômoda vibração. Na ida noturna ao banheiro tive que afastar delicadamente as bundas que me cercavam. Desenvolvi acrobacias entre o emaranhado de redes. Meio curvado e meio de cócoras no banheiro feito para anões consegui aliviar a vontade. Na volta, mais acrobacias, novo afastamento das bundas com as mãos, entrada na rede e liberação final das bundas. Alcancei, aparentemente, a proeza de não acordar ninguém.
O barco atracou no porto flutuante de Ipixuna no meio da madrugada. Luzes apagadas e ninguém na recepção do único hotel em funcionamento na cidade. O proprietário morava na casa em frente, de onde surgiu uma senhora, tal uma carcereira, com enorme molho de chaves nas mãos. Pegamos as chaves e escolhemos os números dos quartos a esmo. Desabei na cama sem tomar banho.
Em hotel que não servia café da manhã, saí à procura de comida nas ruas vazias da pequena cidade. Em pleno domingo quase tudo estava fechado. Encontrei uma mistura de padaria e mercearia aberta. Comi somente um pedaço de bolo e dois copos de suco de cupuaçu. Almocei e jantei no único restaurante da cidadezinha, familiar e com comida razoável.
As águas barrentas do rio Juruá estavam com o nível pouco abaixo da linha das casas, alimentadas pela vazão de mais igarapés e rios. Singelas cabanas de madeira e palha se erguiam na outra margem, de onde se ouviam os gritos das crianças e as marteladas nos barcos. Canoas atravessavam as águas levando passageiros e caixas de isopor.   
Ipixuna era pequena e com relevo levemente ondulado. As casas eram de alvenaria apenas na região central. No restante, de madeira, simples, caindo aos pedaços, tipo palafitas e exalando forte odor de esgoto. Os dois primeiros quarteirões da rua principal, perpendicular ao rio, formavam calçadão exclusivo para pedestres com canteiro central e vegetação plantada. O abastecimento de água era feito a partir de quatro poços artesianos, seguidos de tratamento precário, com no máximo cloro. A energia local era termoelétrica, com direito a racionamento e cortes noturnos de energia. A situação se agravaria em caso de atraso da balsa de combustíveis.
O prefeito do então PFL(DEM), segundo os moradores, era do tipo que “prende e arrebenta”, sempre acobertado pela total impunidade. A justiça inexistia e o juiz comparecia apenas trimestralmente. Nada acontecia ao infrator, desde que aliado da máfia do prefeito. Aos de fora da camarilha, mesmo inocentes, sobravam prisões arbitrárias e diversas perseguições. O padre local, conservador, não se interessava pelos inúmeros problemas sociais da cidade.

Durante minhas caminhadas, os moradores paravam de conversar e me observavam com olhos paralisados. E me perguntavam intrigados o que eu fazia por ali, tendo tantos lugares bonitos no Brasil para visitar.
Da mesma forma que Guajará, Ipixuna estava muito isolada do restante do estado do Amazonas e dependia da cidade acreana de Cruzeiro do Sul. Até surgiam ideias de ambas serem anexadas ao Acre. Era razoável a ligação fluvial entre Ipixuna e Cruzeiro do Sul, assim como entre Eirunepé e o rio Solimões. O hiato ficava por conta do trecho entre Ipixuna e Eirunepé. E nada de barcos rumo a Eirunepé.
Acordei ao som ensurdecedor da chuva tipicamente amazônica batendo no telhado do hotel. Nada de raios, trovões, relâmpagos ou vento. Somente água, muita água, como milhares de torneiras abertas ao máximo. Foram trinta minutos de chuva torrencial.
Os piuns me comiam vivo. Imperceptíveis, quando os notava já era tarde. No restaurante de todos os dias e noites era pior e os ataques fulminantes. Minhas pernas e pés ficaram pontilhados de picadas, marcas, furos. O repelente tornou-se imprescindível.
O único restaurante transformou-se em ponto de encontro para conversar e passar bons momentos, sobretudo no jantar, entre os fregueses e os membros da família. Uma das filhas do dono do restaurante aguardava para se inscrever no vestibular regional das universidades públicas. Estudaria em Eirunepé ou em Cruzeiro do Sul. Para cada curso, ofereciam apenas três vagas para todo o sudoeste amazônico. Somente três vagas! Apareceu também uma senhora com o rosto e corpo castigados pelo tempo. Afirmou estar com muitas dores e perguntou o que era preciso para combater o reumatismo. No posto de saúde, segundo ela, não havia medicamentos. A dona do restaurante, que a ajudava com alimentos, entregou-lhe um saco com caixinhas de medicamentos de tarja vermelha.
Um morador me contou que um barco de passageiros chegaria a Ipixuna e com destino a Eirunepé. O barco aceitaria passageiros para amenizar os custos de transporte de uma remessa de motores de popa para a cidade de Envira. E avisou que logo o rádio da cidade iria anunciar a novidade. Peguei a mochila no hotel quase preparada para essa tão aguardada surpresa.
Embarquei. O proprietário do barco autorizou a saída mesmo com apenas sete passageiros.
A floresta de árvores altas surgiu imponente, em ambas as margens do rio Juruá, assim que deixamos Ipixuna. Casas isoladas, pequenas comunidades com escola, poucas e desmatadas fazendas de gado. Os moradores apareciam nas portas e janelas para assistir à passagem do barco.

Tarde com luminosidade belíssima, realçando as águas espelhadas do rio Juruá, a floresta iluminada com o verde intenso. Duplas de araras e quartetos de tucanos sobrevoavam o barco. As águas do rio tocavam a base das árvores nas margens. Surgiu a lua quarto crescente e as estrelas refletiram-se no espelho d’água.
O tempo virou durante a madrugada e começou chuva fina e contínua.
O nível do rio subia cada vez mais e crescia a sinuosidade de curvas e mais curvas com a mata fechada em ambos os lados. As raras casas de palha situadas nas margens, suspensas para se defenderem das enchentes, apresentavam péssimo estado, quase aos pedaços, algumas sem paredes e com famílias inteiras nos interiores. Gado pastava nas áreas alagadas. O trajeto entre as casas era feito de canoa ou a pé por passarelas de madeira.
Grandes voadeiras transportavam mercadorias a serem vendidas na feira em Eirunepé. Era farinha de mandioca e banana produzidas pelos ribeirinhos. Era uma a excelência da qualidade da farinha de mandioca produzida no alto rio Juruá, considerada a melhor do país.
Mais uma tarde deslumbrante. A sucessão de curvas fechadas do Juruá, perfazendo círculos quase completos, aumentava, e muito, a duração da viagem. Os furos, canais estreitos que cortam as curvas, tornando o trajeto mais curto, ofereciam largura insuficiente para a travessia.
continua...

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