quarta-feira, 15 de setembro de 2010

do Mato Grosso à Bahia, via Amazônia (parte 4/7)

...continuação
Uma Yanomami e os dois filhos embarcaram conosco, em busca de assistência médica. O mais novo tossia forte e frequentemente. A mãe aceitava tudo que oferecíamos, sem trocar palavras, olhares ou sorrisos. Durante a descida do rio, vista das serras ao norte, barcos transportando indígenas, pequenas malocas na beira do igarapé. Em uma delas nos ofereceram cestas de palha em troca de nossas roupas.
O belíssimo nascer do sol, acompanhado de densa cerração, o desabrochar de flores lilases e róseas nas árvores eram demonstrações da alegria da natureza e também sinal de despedida. Essas belas imagens compuseram o último trecho de barco.
O calor estava infernal em São Gabriel da Cachoeira. Antes do pôr-do-sol subi ao morro através de caminho tomado de oratórios e anteriormente usado como peregrinação religiosa. No topo, o mirante bastante pichado e em péssimo estado, a vista privilegiada da cidade, o rio Negro, as montanhas e a extensa floresta. No hotel, raspei a barba de doze dias antes do banho caprichado.
O funcionário da empresa aérea nos forneceu o cartão de embarque ainda dentro do ônibus e, sem qualquer controle, desci na pista de pouso para o embarque na pequena aeronave. Após o início das manobras para decolagem, o piloto abriu a porta da cabine de comando e gritou para todos:
“Ei, tem alguém aqui na pista me pedindo para parar. Alguém aí se esqueceu de devolver a chave do carro. Devolve logo!”.
A chave encontrada foi então atirada da janela da cabine, na direção de quem tinha pedido.
Hospedei-me na mesma pousada em Manaus, perto do teatro Amazonas. Dei voltas pelo centro da cidade. Sem fome, apenas belisquei e tomei guaraná em pó com frutas. Voltei ao quarto do hotel a fim de retirar, com a ponta do canivete, os últimos bichos de pé.
O restaurante na esquina próximo ao hotel oferecia comida razoável. A caipirinha era bem preparada e ainda se apreciava o movimento das pessoas nas calçadas. Os coitados dos garçons usavam calças compridas, grossas camisas de mangas compridas abotoadas e gravata borboleta. Transpiravam, ensopando as camisas. A equivocada linha da hotelaria no país, geralmente importada do exterior e sem critérios, ignora as especificidades do Brasil, como o clima e a cultura descontraída.

Comprei passagem no barco que sairia no dia seguinte para Belém. Tentei ir ao cinema e passar o tempo, mas só havia lixo estadunidense. Renovei meu estoque de livros em sebo do centro da cidade. Contos de Machado de Assis e Clara dos Anjos do mestre Lima Barreto.
Maravilha os pontos minúsculos na cidade vendendo guaraná natural, em pó ou xarope. Pode-se levar a matéria prima em saquinhos e vidros de diversos tamanhos ou consumir no local. Misturam com diversas frutas, cereais, leite, folhas afrodisíacas e adoçam com o próprio xarope do guaraná. O efeito estimulante sentia-se claramente. Num dia tomei dois copos de meio litro cada. Durante a madrugada, completamente sem sono e com os olhos vidrados, tive que sair do hotel e andar a esmo pelas ruas vazias para passar o tempo.
Arrumei a mochila e caminhei até o porto pela manhã. O camarote do barco, cubículo infestado de baratas, possuía beliche com duas camas estreitas e curtas, frigobar. Acima da cama superior existia a entrada do ar condicionado central, sem possibilidades de regular. O barco encheu à tarde e era grande a animação do público nas plataformas. Uma família cristã fundamentalista se instalou no camarote ao lado e saiu para passear no porto. Só voltaram quando o barco já havia desatracado. Gritaram desesperadamente, acenaram e o comandante voltou para pegá-los.
À medida que o barco se afastava do porto e descia o rio Negro, Manaus ficava para trás com as palafitas iluminadas pelo sol de final de tarde. Escurecia quando cruzamos o encontro das águas do rio Negro com o rio Solimões.
Não serviram o jantar no barco na primeira noite. Entrei no camarote para comer meus lanches. Difícil. Eu era observado e cercado por inúmeras baratas. Alternava as dentadas e mastigadas com porradas e pisadas. Mais eu matava, mais baratas apareciam pelas frestas das madeiras das paredes e do piso. Na volta do banheiro coletivo o camarote parecia filme de terror. Eram centenas de baratas por todos os lados. Não perdoavam nem as camas do beliche. Pouco se importavam se eu estava lá ou não. Praticamente não consegui dormir. Elas subiam pelo meu corpo e, após leves cochilos, acordava assustado. Batia com as mãos na cama, matei algumas. Nada parecia afugentá-las.  
Logo ao amanhecer forte tempestade atingiu o barco em cheio. A chuva entrou no convés e os passageiros instalados nas redes reclamaram. As águas barrentas do rio Amazonas carregavam galhos, troncos, folhas, pedras. Vez ou outra se avistavam ilhas alongadas e casas isoladas nas margens.
Após a chuva subi ao convés superior. Não havia sol e a temperatura, com a brisa do movimento do barco, era bastante agradável. Lá havia imensa área livre com cadeiras, mais quatro camarotes, bar e lanchonete, onde se vendiam bebidas, salgadinhos, lanches, doces e poucos gêneros de primeira necessidade. Das caixas de som saía música em alto volume, que variava de forró, brega, rock brasileiro a reggae.

O barco atracou no cais de Parintins para desembarcar grande carga de refrigerantes. Parte dos estrangeiros desembarcou ali. Assim que encostamos, dezenas de ambulantes, na maioria crianças, invadiram o barco vendendo tudo aos berros. Tinha sucos, sorvetes, banana seca, bolinhos, iogurtes, queijo de coalho e muito mais. Reforcei o pedido para o tripulante comprar inseticida. Usei quase todo o tubo nos cantos do camarote. Ficou cheiro forte, fechei a porta, esperei fazer efeito. Mais tarde voltei para verificar o resultado. As baratas não só ainda estavam lá como ficaram mais assanhadas e nervosas.
Os passageiros se aglomeravam na profusão de redes no convés intermediário, onde também havia mais cinco camarotes, além do meu e das baratas, a cabine de comando, quatro banheiros com chuveiros, quatro pias, reservatório de água potável e gelada, enorme mesa retangular para as refeições. O piso lotava de sacolas e objetos, o teto, de roupas e toalhas penduradas. O convés inferior era usado para carga e descarga, cozinha, acesso às maquinas e para a tripulação. Alguns passageiros armavam as redes no meio da carga que não ficou no porão, entre caixas e mais caixas, e até um carro.
Me banhei demoradamente no chuveiro frio e forte. Enxaguei as roupas e as vesti ainda molhadas. Parada para descarga de sal em Juruti no final da tarde. Desci e circulei pelas ruas cheias de gente.
Ventos fortes fizeram o barco balançar muito pela manhã. A impressão era que estávamos navegando no mar. Várias ilhas apareciam e se desmanchariam com a ação violenta das águas. Nelas se viam casas e muito gado.
Conversei com um passageiro paraense, vendedor de sapatos. A conversa ia muito agradável até que caiu no comércio da fé. Apelou ao dogmatismo habitual dos fundamentalistas, vomitou frases feitas, muita bobagem. Mudei de assunto na marra. Mesmo porque o hipócrita bebia, comentava baixarias sobre mulheres e as comia com os olhos. Muitos passageiros eram evangélicos. Havia momentos em que me sentia cercado pelas falas, cantos, mulheres de bigode vestindo roupas medievais.
Pela manhã, após o encontro das águas barrentas do Amazonas com as esverdeadas do Tapajós, o barco atracou em Santarém em porto de enormes guindastes. Abaixo da foz do rio Tapajós, o rio Amazonas ficou ainda mais largo, imponente e fascinante. O vento suave ainda provocava leve balanço no barco. Quando não havia ilhas e o barco navegava a meio caminho entre as duas margens, se notava apenas a linha escurecida no horizonte. Antes de aportarmos em Monte Alegre passamos por canal margeado por muito verde, mangues, poucas casas e pastagens de gado. A luz dourada de fim de tarde deu o toque mágico à natureza do lugar.
O barco parou pouco tempo em Prainha no começo da noite. Assim como nas demais paradas noturnas, a juventude da cidade, banhada e arrumada, permanecia no cais para assistir ao embarque e desembarque de passageiros. Um militar brasileiro, de feições indígenas, apreciava a movimentação, fardado e em posição de sentido, tendo o bizarro nome Kissinger bordado na farda.

Em parada em Almeirim no meio da madrugada ouvi a batida do brega paraense tocado em alto volume. Entramos no fuso horário de Brasília. No meio da manhã, chegada em Gurupá, simpática cidadezinha, com construções de madeira, inclusive todo o cais, onde se emaranhavam dezenas de barcos de diversos tamanhos.
O barco deixou o canal principal do rio Amazonas e avançou por entre rios e ilhas do extremo sul da ilha do Marajó. Tanto na entrada, como nas margens dos canais menores, pequenas casas de madeira ou palha. Não se via nada plantado. Nenhuma horta, criação, nada. Madeireiras, transnacionais na maioria, atuavam nas imediações. Em meio aos canais e ilhas se pediam esmolas a quem passava. Geralmente ocupadas por crianças saídas dos casebres, canoas rumavam na direção do barco, formando, em seqüência, longa fileira de canoas. As crianças agitavam as mãos e gritavam histericamente. Os passageiros do barco jogavam comida e roupas em sacos plásticos. As cenas causavam mal-estar, particularmente pela abundância, ao redor, de água, terra e verde.
A paisagem, porém, fascinava e ganhava mais nitidez devido à estreiteza dos canais. Os açaizeiros abundavam carregados de frutos. Mais à frente os canais se alargaram. As diversas entradas e saídas de água, em ambos os lados, eram mais evidentes.
Último café da manhã a bordo. Momento de arrumar tudo e se despedir das baratas, inclusive daquelas mais preguiçosas que fixaram residência na capa da mochila. Mais imagens de partes do arquipélago, dezenas de barcos de passageiros dos mais variados tamanhos.
O barco fez a curva acentuada e a baía de Guajará se apresentou, com a cidade de Belém no final do horizonte. Era uma larga muralha de edifícios altos ainda indefinidos pela distância. Pesava sobre a baía de Guajará a sina de afundar embarcações devido à forte influência da maré. Daí a maioria dos barcos chegarem a esse trecho somente nas primeiras horas da manhã, sob o risco de enfrentar correntezas traiçoeiras e prováveis naufrágios. Esperamos ainda algumas horas antes de chegarmos. Passamos em frente ao centro antigo, o mercado Ver-o-Peso, o burburinho da zona comercial. O barco atracou nas docas do porto de Belém no meio da manhã.
Caí nas ruas da cidade em busca de hospedagem nas ruas do centro velho. Logo em seguida, degustei dois tacacás e um vatapá com arroz e jambu.
À tarde o céu escureceu, estouraram trovões por toda parte e desabou temporal tipicamente amazônico. Permaneci o resto da tarde chuvosa no quarto do hotel, lendo e avaliando os próximos passos da viagem. Não saíam da cabeça as boas lembranças da viagem de barco pelo rio Amazonas e os desejos de repetir a dose em outros rios da região.

Fora do centro antigo, Belém se parecia com qualquer cidade grande, com a infinidade de edifícios altos, trânsito caótico, intenso e nervoso, poluição sonora das buzinas estridentes, escapamentos de caminhões em manobra, alarmes de carros. Dei uma volta pelo centro histórico, com ruas estreitas, construções antigas, bonitas e mal conservadas. Em bom estado apenas os prédios públicos, igrejas, museus. A catedral, suntuosa e bonita, por fora e por dentro. Nas imediações do mercado Ver-o-Peso, muita sujeira se espalhava ao redor das barracas de frutas, verduras, temperos, comidas, roupas, as com o creme do açaí pronto para o consumo. Na parte interna, dezenas de barracas de peixe. Instalado dentro de antigo forte, havia o restaurante de comidas típicas paraenses. Saboreei o autêntico pato no tucupi e o divino suco de cupuaçu, diante da baía de Guajará, com o circular de barcos de diversos formatos e tamanhos.  
Doei minha rede à camareira do hotel. Deixei a mochila no guarda-volumes da estação rodoviária e voltei de ônibus à região do teatro da Paz. Perto dali, outro restaurante de comida regional, porém em atmosfera pretensiosa, ambiente artificialmente requintado, ar condicionado congelando o ambiente. A frequência, a nata da alta sociedade belenense e de estrangeiros a trabalho, acompanhados de prováveis testas de ferro do Brasil. Foi servida porção minúscula em enorme prato estilizado e coberto de enfeites. A sobremesa típica também revelava mais prato que conteúdo. Paguei caro e saí com fome. Ganhei de brinde um prato decorativo que entreguei à moradora de rua da esquina.
O ônibus para Parnaíba também vinha com o ar condicionado desnecessariamente gelado. Na parada em Caxias foi servido o café da manhã substancioso já incluído no preço da passagem. A estação das chuvas deixava a paisagem agreste esverdeada no interior do Piauí. Passageiros com rostos sofridos subiam e desciam nas cidades intermediárias, vilarejos, no meio do nada. A trabalhadora rural que se sentou ao meu lado no trecho piauiense dava exemplo de luta e perseverança. A sindicalista se movimentava por toda a região na conscientização dos colegas de classe, jamais esmorecendo diante das dificuldades.
Desembarquei em Parnaíba e fui ao hotel de moto-táxi, cruzando a cidade plana, limpa, bem arrumada, com raros prédios altos. Na margem do rio Parnaíba, o Porto das Barcas, local de fundação da cidade com o conjunto de construções históricas. A área contava com ruelas, lojas de artesanato, bares e restaurantes, onde caí de cabeça, várias vezes, nas deliciosas galinhas ao molho pardo.
Tomei o ônibus para a praia de Atalaia no município de Luis Correia. Sem graça, extensa, plana e sem vegetação, a praia possuía muitos bares e cadeiras perto da linha do mar. A notável qualidade era a ausência de lixo. Peguei o rumo leste com as areias praticamente desertas. Caminhei mais de duas horas sob o sol inclemente até alcançar a praia do Coqueiro, mais bonita e simpática, onde saboreei caipirinha e peixada.
continua...

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