quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Espírito Santo (parte 4/4)

...continuação
Nublara novamente e ventava um vento frio e constante.
Foi servido comes e bebes no final da tarde na pousada. Ao descer, observamos objetos antigos, penduricalhos, itens diversos adornando agradavelmente cantos e escadas. O perfume nauseante do incenso, no entanto, tirava o apetite.
Lá embaixo, ao redor da mesa, estavam o casal proprietário e um colega. Tomamos chá, beliscamos pãezinhos, queijos, frios. E conversamos. Na realidade, mais ouvimos. Falavam de tudo um pouco, longa e contundentemente, deixando raras oportunidades de nos manifestarmos. Mas, em viagens, agrada mais ouvir do que falar. Viajantes desejam aprender, apreender, captar, absorver, e não só as paisagens.
O casal se conheceu nos tempos da Vale do Rio Doce, empresa estatal de mineração, gestão modelo e altamente lucrativa, até ser privatizada ilegalmente em 1997 durante o governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso. Os testas-de-ferro do grande capital a entregaram a preço de banana, muito abaixo do valor real da companhia, a capitalistas privados. A privataria, recheada de irregularidades e inconstitucionalidades, conduzida por corruptores e corruptos, rendeu inúmeros processos criminais. O povo brasileiro aguarda ansiosamente a apuração dos crimes, a condenação exemplar dos culpados, a devolução da empresa ao patrimônio público brasileiro, com juros e correção.
Durante nossa estadia na pousada, o marido nos entupiria de informações sobre a história da região. Impressionante a capacidade de ele falar durante horas, emendar assuntos aparentemente desconexos, abrir parênteses e jamais fechá-los, ignorando a reação dos interlocutores. A esposa, que não era boba e nem nada, escapava do ambiente tão logo o marido começava a discursar. E sobrava para o casal recém-chegado ávido por histórias. Ainda mais que fomos os únicos hóspedes naqueles dias.
Após banho morno entramos na pizzaria ao lado da pousada. Arriscamos vinho, condizente com a noite fresca e o vento insistente, comemos pizza bem preparada. O dono da pousada, sentado na mesa ao lado, aceitou nosso convite, se sentou com a gente, provou do vinho e da pizza. Desembestou a contar mais histórias, invariavelmente longas e ligadas magicamente a outras, sem pontos, sem vírgulas, sem parar, quase sem respirar.
Botei lenha na fogueira ao lhe perguntar sobre o caso Aracelli, famoso crime dos anos 1970, divinamente registrado e analisado pelo jornalista José Louzeiro, no livro Aracelli, meu Amor. Naqueles anos de ditadura civil e miliar, uma garota de nove anos foi drogada, estuprada seguidas vezes, espancada, usada e abusada, depois assassinada por membros da nobre elite de Vitória. Todos identificavam os culpados, inclusive os inúmeros policiais que participaram das investigações, muitos deles também assassinados ao se aproximarem da verdade. Mas ninguém até hoje foi condenado ou preso.
O Judiciário brasileiro não prende e condena os ricos. O Judiciário brasileiro só prende e condena os pobres.
Animado pelo vinho, ainda o cutuquei com vara curta a respeito do elevado número de execuções pelos esquadrões da morte no Espírito Santo, estado com um dos índices mais altos do Brasil nesse tipo de crime. Receoso, ele falou, mas não disse nada. Era um tema espinhoso que a maioria amedrontada evitava se manifestar. E o pavor apenas comprovava a existência generalizada desses assassinatos por encomenda.
Adormecemos cedo naquela noite quase fria.
Comemos bem e variado durante o café da manhã. Mas, como de praxe, ele, o marido, sentado ao lado e diante do jornal do dia, comentava sobre qualquer coisa que lesse. Não importava a relevância do tema, mas a necessidade de falar. Nem nos olhava, se satisfazendo em vomitar mil assuntos nos ouvidos próximos. A esposa, como também de praxe, saía de fininho, inventando atividades para se afastar.
Mais ao sul, no bairro planejado, triste e melancólico do Coqueiral, assim como em muros de outros trechos do município de Aracruz, a pichação “Pó preto não”, referência óbvia à poluição causada pela corporação privada de eucaliptos e celulose.
O tempo começava abrir para o sol. E fomos aproveitar a claridade da manhã.
Passamos ao lado de aldeias indígenas, a Boa Esperança entre elas, abrigando etnias tupiniquins e guaranis, segundo as fontes da pousada. Atravessamos a ponte sobre os manguezais e chegamos ao povoado de Santa Cruz.
Perambulamos pelo vilarejo de pescadores que lotaria de turistas na temporada de verão. Silencioso e bucólico no meio do ano, Santa Cruz dava prazer em circular pelas ruas estreitas, praias e beira do mar de águas calmas, mangues, fonte de água potável.
Retornamos pela mesma ponte e entramos nos acessos a outras praias, cheias de casas, algumas da elite capixaba ou mineira, todas vazias.
Na convidativa praia do Mar Azul, o vento frio não deixou que nos estendêssemos sob o sol nas areias desertas diante do mar bravio. Castanheiras e coqueiros, com troncos e galhos inclinados comprovavam a incidência do vento constante. Nenhuma alma viva, na praia ou nas ruas.
Na praia dos Quinze, similar à anterior, nos chamou atenção uma casa, provavelmente sobrado de família abastada, completamente queimada. Somente duas estruturas de concreto ainda em pé. O resto, de madeira, tudo torrado no chão, espalhado entre detritos pretos, cinzas, cacos de vidro, pedaços retorcidos de eletrodomésticos. A cerca, também de madeira, estava intacta, mantendo o distintivo da empresa de segurança que deveria cuidar dessa e de outras residências ao redor.
Informações colhidas mais tarde garantiram que a polícia identificara os culpados, adolescentes vizinhos e sedentos por emoções, mas a punição parara nas repreensões verbais aos pais. Será? O dono da residência, em trabalho no exterior, nem viera verificar os estragos, mesmo meses após o ocorrido.
Retornamos à praia dos Padres, onde nos deliciamos com moqueca de badejo. Estupenda! Saboreamos a maravilha da culinária capixaba precedida de caipirinhas e doses de cachaça, purinha, branquinha.
Nublou e ventou frio ao entardecer, nos afastando de aventuras nas praias que não fossem observar e registrar rapidamente a paisagem.
Nos refugiamos na pousada sem conseguir evitar o assédio do dono, especialmente durante o chá da tarde. Entre muitas e boas, todas longas e encadeadas espetacularmente umas às outras, o colega nos contou como resolviam problemas com cães e gatos que perturbavam a paz dos moradores dali. Após a advertência inicial aos donos dos animaizinhos, que relutavam em tomar as providencias cabíveis, fatos misteriosos aconteciam. Gatos e cães apareciam mortos de uma hora para outra. Versões oficiais davam conta que, repentinamente, os bichos estranhavam o vento incessante vindo do mar e vinham a falecer.
Ao ouvir aquilo, num curioso processo de cognição, me lembrei das conversas da noite anterior, com ele mesmo, sobre os esquadrões da morte e as execuções de seres humanos por encomenda no Espírito Santo.
A comida e a bebida do jantar empolgaram como na noite anterior. Na mesa ao lado do restaurante, dois brasileiros ciceroneavam cinco portugueses, todos a trabalho e vestidos socialmente. Entre cochichos e sussurros, tratavam de assuntos relacionados a tipos e qualidade de solo, técnicas e maquinários agrícolas.
Nos matamos de comer pela manhã, antes de encerrar a conta e pegar novamente a estrada.
Na avenida da Praia Grande demos de frente com protestos que bloqueavam a ponte ligando à Nova Almeida. Queimaram pneus sobre a ponte e a fumaça preta logo subiu aos céus avisando que a manifestação ia demorar. Não ia e nem vinha nenhum veículo. Nada a fazer, senão deligar os motores e esperar.
Passavam carros da polícia militar, dos bombeiros. Voltavam em seguida. E nada.
Ninguém era informado sobre a situação. Os manifestantes deveriam distribuir panfletos, carregar faixas, explicar as razões do bloqueio. Numa dessas, em solidariedade às causas e às reivindicações, a população, nas calçadas, ruas, veículos, poderiam apoiar e engrossar a luta. Mas não tínhamos a mínima ideia de nada.
Cerca de duas horas depois do início dos protestos, a fila de veículos começou a avançar. Atravessamos a ponte sobre asfalto enegrecido pelos resíduos pneumáticos. Trechos ainda soltavam fumaça do chão.
E rumamos para sul sem saber as causas, as motivações, as reivindicações, os temas, os porquês da manifestação. Nenhum panfleto, nenhuma faixa ou bandeira, nenhuma palavra de ordem. Nada nas camisetas ou algo similar que nos fizesse entender contra o que protestavam. Falha imperdoável dos organizadores. Perderam a oportunidade de conquistar aliados às lutas. Ao contrário, aproveitando essa desinformação, a mídia conservadora jogaria a população contra eles.
Cruzamos Nova Almeida e Jacaraípe por avenidas monótonas. Entramos na capital capixaba e devolvemos o carro na locadora.
Saímos do hotel para esticar as pernas. Sem pressa, apreciando a paisagem praieira, caminhamos pelo calçadão da praia de Camburi. Cruzamos a pequena ponte e, já na praia do Canto, encontramos lugar convidativo para comer bem, de maneira variada, em ambiente frequentado por capixabas a trabalho e pela fina flor do bairro elitizado.
Tingidos pela luz agradável do meio da tarde, perambulamos mais pela beira do mar de Camburi. Chapinhamos pelas águas, mas nada de entrar. O vento mais que fresco não atiçava o desejo por mergulhos. E nos entregarmos à preguiça merecida no quarto do hotel, desta vez nos fundos. Ouvíamos os ruídos incessantes da autoestrada da praia, porém em volume inferior ao dos quartos de frente para o mar.
À noite, caprichamos o paladar entre galetos e linguiças caseiras grelhadas, regados a razoáveis caipirinhas.
De volta ao bom café da manhã do hotel. E obviamente de costas para o televisor em direção ao qual a maioria abandonava os olhares bovinos nas programações embrutecedoras de sempre.
Despretensiosamente, sem planos para nada, fomos andando pela praia de Camburi, pela praia do Canto, com jardins e parques infantis formando conjunto aconchegante, mas largado e carente de manutenções. Avistamos os acessos às antigas ilhas do Frade e do Boi, a Curva da Jurema com barraquinhas de comes e bebes.
Rumamos novamente à praia da Costa em Vila Velha. A manhã luminosa encantava, assim com as areias e a cor do mar, mas entrar nas águas estava fora de questão devido ao vento frio.
A temperatura amena aguçou o apetite. Imediatamente nos lembramos do restaurante de nossa primeira e inesquecível moqueca capixaba. Repetimos a fenomenal moqueca de dourado, acompanhada de arroz, pirão e da surpreendente moquequinha de banana-da-terra, cozida no próprio molho da moqueca. Tudo saborosíssimo e ideal para a despedida dessa maravilha da culinária brasileira. Nossos olhos resplandeciam em meio a garfadas e goles. Definitivamente a moqueca capixaba supera com folga a deliciosa moqueca baiana.
Retornamos a Vitória em tempo de visitar o galpão oficial das famosas Paneleiras do Espírito Santo. Acompanhamos as diversas etapas da fabricação das panelas, caldeirões, tigelas e afins. A modelagem com a argila especialmente voltada para a atividade, a secagem, a queima em fogos improvisados de restos de madeira velha, do lado de fora do galpão e parecendo lixões à distância, o banho com a tinta obtida da casca de arbusto do mangue, a exposição para venda, a embalagem e o envio para o Brasil todo.
Antes do amanhecer do dia seguinte, os coitados dos turistas de pacote já arrastavam as ruidosas malas de rodinha pelos corredores do hotel, sem o café da manhã, apressados em direção ao ônibus da empresa que os aguardava com o motor ligado.
Passeamos pelas areias da praia de Camburi sob o sol impecável, sem nuvens. Pratiquei vinte flexões para tomar coragem e entrar no mar. A maré vazava, as ondas estouravam em terreno mais plano. O mar puxava menos e pude relaxar após o choque térmico inicial.
Pegamos ônibus e, depois de passar por terminais urbanos ao norte de Vitória, descemos na enseada de Jacaraípe, município de Serra.
O dia luminoso, brilhante, realçava as formas e cores, valorizando a paisagem.
A enseada de Jacaraípe atraía frequência simples, alegre, sem fricotes, ao longo de praia aplainada, atraente, de ondas regulares. Ao lado da ponte de pedestres sobre o rio que vinha do manguezal, a placidez de barcos coloridos dos pescadores atracados nas muradas da praça.
A caipirinha abriu caminho para postas de badejo acompanhadas de arroz com alho e salada mista. Alternávamos garfadas e goles com contemplações da praia, do azul do mar, do movimento discreto daquele sábado de sol forte.
Subimos em outro ônibus urbano até o aeroporto de Vitória.
O tranquilo e rápido voo nos deixou em São Paulo naquele final de julho.
Em pouco tempo eu entrava em casa, feliz pela viagem, pelo Espírito Santo e pelos capixabas.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Espírito Santo (parte 3/4)

...continuação
Instalado em galpões bem montados e distribuídos, mas desmazelados pelo tempo e desinteresse dos responsáveis, o museu abrigava uma numerosa e impressionante coleção de roupas, uniformes, capacetes, armas, medalhas, fotografias, mapas, documentos, veículos, munição, bandeiras, recortes de jornais e revistas, além de réplicas e reproduções de cenas reais, usando manequins artesanais, das várias etapas de diversas grandes guerras desde o século XIX. Incluía as guerras napoleônicas, as guerras franco-prussianas, a primeira e a segunda guerra mundial. Isso porque a família do responsável, desde o tataravô, vivenciara todas elas.
Quem nos recebeu e no guiou foi a atual esposa dele, brasileira, descendente de alemães. Conheceu o herdeiro do museu, alemão legítimo e com quem se casou pela segunda vez, quando ele passeava pelos interiores do Espírito Santo. Moraram juntos anos na Alemanha. O museu se localizava então na Áustria. O casal resolveu se mudar para a zona rural do município de Afonso Cláudio, terra onde ela nasceu e morou com toda a família.
O problema começou quando o casal decidiu trazer o museu junto com eles. Da Áustria para o interior do Espírito Santo. Eles nada entendiam dos meandros burocráticos, comerciais, jurídicos, alfandegários, internacionais. Não buscaram assessoria especializada na Alemanha e na Áustria, a fim de compreender como despachar, legalmente, aquela imensidão de materiais, o museu inteirinho, para outro país. Tampouco procuraram assessoria no Brasil para o recebimento. Nem tinham uma lista completa, contendo descrição detalhada de cada item.
E deu no que deu. Peças valiosas se perderam no transporte. Outras caíram ou foram tragadas para os bolsos das alfândegas. Outras ainda se danificaram irreversivelmente. Sem falar na infinidade de mãos que o casal teve que molhar diante daquele transporte valiosíssimo e descontrolado.
O marido alemão se arrependeu amargamente daquela transferência. E descontava praguejando contra o Espírito Santo e o Brasil, contra os capixabas e os brasileiros. Afundou-se na depressão e no alcoolismo, bebendo exageradamente o que encontrasse pela frente, em todos os lugares, em todos os momentos. Até diante dos visitantes ao museu ele se embriagava desavergonhadamente.
Mas as desgraças do casal não terminavam aí. Ao retornarem da última e costumeira viagem anual à Alemanha, ele foi barrado na entrada no Brasil devido aos documentos vencidos. Foi deportado para a Alemanha, além de ser obrigado a pagar uma determinada multa que ela não descobriu do que se tratava.
O museu, no entanto, valia a pena visitar. Pelo inusitado do tema, pela coleção extensa e valiosa de testemunhos e reproduções das inúmeras guerras europeias desde o século XIX. Percorremos cena por cena, sempre acompanhados por ela e pelo cachorro brasileiro que entende apenas chamados em alemão.
Saímos dali com a impressão de nos libertarmos de um pesadelo. Não só dos crimes cometidos pelos senhores das guerras, mas das ações intempestivas do casal.
Preenchemos o restante da tarde nos fundos do hotel, entre banhos de sol nas espreguiçadeiras, mergulho na piscina de águas frias, perambuladas preguiçosas pelos gramados e pala beira do riacho encachoeirado. Merecíamos, pelo dia repleto de impactos visuais e humanos.
Mesmo depois de encerrada a semana missionária católica, com direito a desfile vespertino dos missionários em trio elétrico e convocações ao microfone no pior estilo do comércio evangélico, a praça da Matriz atraiu boa parte de Afonso Cláudio. Moradores de diversas idades afluíram ao centro da cidade para comer, beber, encontrar conhecidos, paquerar, azarar, fuxicar e, claro, o interminável jogo de cartas na mesa atoalhada de sempre. As carrocinhas de lanches até armaram mesas com cadeiras para bem servir os famintos.
Pela manhã, aceleramos pela estrada de chão com destino a Itarana. A pouca poeira e o movimento fraco não nos perturbaram em leito largo e bem mantido pelos serviços públicos, nos tranquilizando diante de sinuosidades, aclives e declives, pirambeiras incríveis.
Ignoramos o acesso a Laranja da Terra e começamos a descer a serra, íngreme como ela só. Casinhas, muitas suspensas do solo e decoradas com faixas oblíquas pretas nas paredes, se erguiam esparsas. Percorríamos trecho capixaba pouco explorado por forasteiros. Paredões de rocha exposta, vales profundos, vegetação nativa, terrenos cultivados, raríssimos seres humanos em circulação.
Atingimos Itarana no fundo do vale. Carente de apelos visuais, a cidade nos chamou a atenção pela placa afixada na porta de uma residência. Nela, frases do tipo “Itarana, cidade sem lei. Já se passaram tantos dias do assassinato covarde de tal pessoa e ninguém foi preso ou nenhuma providência foi tomada. Onde está a Justiça?”.
Retomamos o asfalto na saída da zona urbana. Mais subidas, descidas, curvas fechadas, serpenteando em meio à paisagem rural, rochedos impressionantes, serras, cafezais. Vinícolas de uva e jabuticaba, propaganda de cantinas, bandeirolas branca, vermelha e verde, anunciavam zona de colonização italiana.
Perto do meio do dia chegávamos à Santa Teresa.
A cidadezinha se agitava ao longo da rua do Lazer, fechada para o tráfego de veículos e perfilada por casario do início do século XX. A casa onde cresceu Augusto Ruschi, a igreja Matriz, cantinas, bares e restaurantes, comércio fechado naquele domingo ensolarado. Contemplamos sem pressa as fachadas, janelas e portas, os detalhes, os penduricalhos. O dia luminoso e a temperatura confortável nos rendiam à atmosfera do lugar.
Como ninguém é de ferro e o período da tarde ia a todo vapor, encostamos o esqueleto no bar estrategicamente posicionado no meio da rua do Lazer.
As mesinhas no meio do paralelepípedo se ocupavam de ávidos por boa bebida, boa comida, jogar conversa fora, ouvir o grupo musical de dentro do estabelecimento. Os músicos se alternavam entre os voluntários que passavam por ali, fregueses, curiosos, garçons. Bastava se aproximar, pegar um instrumento, sanfona, concertina, pandeiro, chocalho, e se inspirar pelo clima musical.
Saboreei três doses da divina cachaça branquinha, sem o desnecessário envelhecimento que descaracteriza e padroniza a bebida pelo perfume e sabor da madeira. Enchemos o bucho com linguiça caseira e polenta com queijo. Arriscamos o scudiguim, um enchido de miúdos de porco, servido com feijão preto. O problema era que os miúdos se resumiam à banha do porco, somente à banha, nada mais que a banha. Consegui engolir tudo, auxiliado por goles da cachaça e colheradas do saboroso feijão preto. Mas jamais repetiria a dose. Uma vez bastou para toda a eternidade.
O movimento das outras mesas, o vaivém pela rua e calçadas, a música descontraída dos interiores do bar, o jeito alegre e receptivo de todos, nos mantinha ali, pedindo sempre mais bebes para hidratar e enlevar.
E eis que um cinquentão, neto de italianos, encostou à nossa mesa. Batemos papo com o notório autor de uma das canções tocadas pelo grupo musical. Ele se animou com minha cachaça branca e entornou goela abaixo a metade da dose que restava no copo. E, cambaleando ligeiramente, se dirigiu à mesa do bar ao lado para filar um cigarro.
O ambiente empolgava, a cachaça deliciava, a temperatura convidava. Mas tínhamos que sair para procurar hospedagem. A tarde avançava pelo meio e nem tínhamos ideia de onde ficar.
Depois de três tentativas, acabamos fechando na pousada situada no fundo do vale e acessada por estrada estreita de terra. A construção da pousada era a única em meio a jardins decorados com bom gosto, lagos, discretas áreas de lazer, a mata atlântica ao redor. O sobrado isolado e em estilo antigo abrigava poucos quartos no andar de cima e contava com salas aconchegantes no térreo, oferendo vasto acervo de livros e revistas para os hóspedes.
O anoitecer trouxe a sinfonia dos grilos, e dos sapos coaxando intensamente nos lagos ao redor do sobrado.
Resolvemos não sair para jantar. Ainda mais que a pousada nos sugeriu sopa de capelete, suculenta, saborosa, acompanhada de pães caseiros.
Dormimos cedo um sono profundo em meio ao silêncio e ao isolamento bem-vindo. O friozinho noturno nos ajudou a adormecer rapidamente.
Acordamos dispostos. Entre as duas estradas a Santa Leopoldina, a de terra ou a asfaltada, por motivos mais que óbvios escolhemos a primeira, estrada de chão, sempre mais espetacular visualmente e com menos impactos nos arredores.
Cumprimos a pequena distância entre as duas cidades descendo sempre, em meio à mata atlântica, pequenas propriedades, plantações, casinhas esparsas, suspensas ou não, o riacho encachoeirado à esquerda, quedas d’água. E o verde, muito verde, um verde intenso.
Chegamos a Santa Leopoldina, cercada de colinas, e fomos explorar a cidade a pé. A rua principal do centro histórico reservava casarões do início do século XX, bem conservados e pintados de cores vivas. Não encontramos o antigo porto fluvial visitado por membros do segundo império. A igreja luterana pairava acima de tudo, na encosta superior da colina.
Manhã movimentada pelos moradores da cidade, loiros e morenos claros, circulando pelo comércio, órgãos públicos, agências bancárias. Raríssimos pretos e mulatos, poucos cafuzos. No tempo da escravidão, pretos fugidos se protegiam nas aldeias indígenas das perseguições, ataques e assassinatos que ambos sofriam dos brancos invasores. Daí o significativo número de cafuzos.
Mais sinuosidades entre subidas e descidas pela estrada asfaltada cruzando a serra rumo a Santa Maria do Jetibá. Cidade sem graça, desprovida de atrativos arquitetônicos, erguida ao longo da estrada, Santa Maria do Jetibá guardava a maior concentração de imigrantes pomeranos do estado. Grupos de loiros, loiríssimos, avermelhados, manchados, descascados pelo sol tropical, conversavam em dialeto pelas esquinas, na frente dos comércios de produtos agrícolas, bancos, bares. Rústicos e broncos agricultores, não pareciam interessados em travar contatos mais íntimos com os não pomeranos. Muitos nem sequer frequentam escolas, jamais aprendendo a falar e entender português.
No começo da tarde retomamos a estrada acidentada e vistosa de volta à pousada em Santa Teresa.
Conversamos bastante com a funcionária depressiva, com a dona aposentada, com casal recém-chegado de São Mateus, norte do Espírito Santo. Ele loiro, luterano, conversador, ela morena, calada e mais interessada em se atualizar nas fofocas “sociais” pelo notebook que ele prontamente buscou no carro assim que desembarcaram.
Repetimos a noite nos deliciando com a sopa de capelete, desta vez precedida de uma garrafa de vinho de jabuticaba produzido na zona rural do município.
O café da manhã da pousada conseguiu a proeza de ser pior que o do dia anterior. Frutas feias e passadas. Granola vencida, murcha, amarga, mofada. Bolo que um dia foi comível. Café novamente transparente e insípido. Só se salvou o suco de goiaba do qual detonei três copos. Mas no restante a pousada agradara em cheio.
Fechamos a conta e pegamos a estrada rumo norte.
Bastou sair da zona urbana de Santa Teresa para a rodovia asfaltada iniciar intensa descida entre curvas acentuadas. A paisagem paulatinamente perdia a imponência da serra, dando lugar a regiões aplainadas e monótonas, nas quais predominavam o gado, alguma plantação, sítios e fazendas.
Passamos direto por São Roque do Canaã, ao lado de pequenas concentrações industriais, unidades de ensino técnico agrícola. Não demorou até entrarmos nas ruas de Colatina, cidade média nas margens do largo rio Doce, com areais e praias devido à estação seca. Apenas circulamos de carro pelas ruas e avenidas do centro nervoso da cidade, antes de pularmos fora no sentido do litoral.
O trânsito se intensificava. Os apressadinhos e fortes candidatos a acidentes graves se antecipavam com ultrapassagens criminosas, ignorando normas de civilidade e as leis de trânsito. Quem sabe uma colisão numa betoneira carregada mais à frente não faria a necessária justiça a esses assassinos no volante?
Aumentou drasticamente o movimento e a tensão na estrada ao nos aproximarmos da famigerada BR-101. Porém percorremos apenas dez quilômetros daquele inferno rodoviário. Logo desviamos à estrada local, livres do templo da ditadura do transporte rodoviário.
Inadmissível como muitos comemoram a duplicação de rodovias pelo Brasil, obras que atraem mais carros e mais congestionamentos, em vez de lutarem pela construção e revitalização das ferrovias de cargas e passageiros, mais seguras, mais eficazes, mais confortáveis, mais sustentáveis, mais bonitas.
Entramos no trevo para a cidade de Aracruz e aí demos de cara com a catástrofe socioambiental das monoculturas de eucalipto. Extensões sem fim, de ambos os lados da rodovia, daquela praga que emprega pouca mão de obra, seca os riachos e lençóis freáticos, expulsa a fauna e a flora nativas, invade e contamina a natureza ao redor. A corporação privada lucrava horrores com os crimes cometidos contra a natureza e, sobretudo, contra as populações da região que ficavam com a miséria e o passivo ambiental. Metros de papel continham a lista de denúncias comprovadas dos crimes cometidos pela corporação contra os funcionários, trabalhadores rurais sem terra, indígenas, quilombolas, pescadores, população das cidades vizinhas. Nenhuma providência do Judiciário foi tomada até então.
Atravessamos Aracruz sem parar e, à frente, mais desolação das monoculturas de eucalipto em estrada reta, plana, monótona e entupida de carretas a serviço da corporação produtora de lenha e celulose. Fumaça preta cobria parcialmente o céu.
No final da estrada, na beira do mar, no vilarejo de Barra do Riacho, a fábrica poluidora da corporação privada e, ao lado, as obras de construção de um estaleiro ou porto avançando sobre as águas do mar.
Seguimos para sul, ainda pelo município de Aracruz, passando ao largo das praias da Barra do Sahy, do Mar Azul, do Sauê, dos Quinze, do Putiri, até chegar à praia dos Padres. Escolhemos pousada em sobrado bem decorado. A proprietária nos conduziu ao quarto acima de todos, com duas janelas, uma delas de frente para o mar batido cinquenta metros adiante.
continua...

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Espírito Santo (parte 2/4)

...continuação
Iniciamos o trajeto saindo de Vitória pela monstruosa e faraônica Terceira Ponte, sentido Vila Velha, com direito a filas e pedágio que o povo capixaba já sinalizou que não deveria existir. Acessamos a rodovia litorânea e, pouco antes de Guarapari, novo pedágio, oito vezes mais caro que o da tenebrosa Terceira Ponte. O governo estadual do Espírito Santo seguia a mesma linha dos assaltos rodoviários do governo estadual de São Paulo. E ambos com a complacência criminosa das respectivas assembleias legislativas.
Contornamos a cidade de Guarapari e acessamos as praias do município somente pelo lado sul, menos entupido. No entanto, mesmo num mês de julho nada quente, as praias estavam lotadas em plena manhã de quinta-feira. Os prédios altos, como parece ser uma triste regra por ali, e as avenidas para os carros, invadiram o espaço das praias, praticamente eliminando-as durante as marés cheias. Sem falar nas sombras, escurecendo tudo por conta dos edifícios imensos.
Registramos e rumamos para a praia de Meaípe, pertencente ao município de Guarapari, mas afastada da balbúrdia. Mais discreta e sem a barreira de prédios, embora também tomada pelo turismo de massa, Meaípe mantinha atmosfera pacata, pelo menos naquele mês de julho. Casas de alto padrão se erguiam pelas encostas de acesso ao mar.
Já saudoso dos estupendos sabores da moqueca capixaba, entramos em restaurante famoso, citado e estrelado, especializado na iguaria. Contava até com área em que as mesas e cadeiras se postavam diretamente sobre a areia, facilitando a vida de quem vinha diretamente da praia. A cozinha era um espetáculo. Atrás de extensa parede envidraçada, dezenas de bocas de fogão, uma ao lado da outra, cobertas pelas famosas panelas de barro, cozinhavam moquecas de badejo, dourado, camarão, lagosta, siri, as moquequinhas de banana-da-terra, o pirão, o arroz.
Muitas mesas ocupadas, alguns com clientes em trajes de banho, outros de passagem, outros ainda de terno e gravata e sem se falarem entre si, cutucando histericamente os celulares.
Mas, porém, contudo, todavia, ainda que gostosa, a moqueca capixaba daquele restaurante tão comentado não encantou. O caldo grosso secou em instantes, o sabor não provocou estalos na língua. Comemos tudo, mas sem o brilho nos olhos. A fama nem sempre corresponde à qualidade, regra que não se restringe a restaurantes. E produção em série, como vista pelos vidros da cozinha, jamais daria em boa coisa. Mas aquela experiência seria exceção. Outras moquecas que saborearíamos durante a viagem reforçariam as qualidades da moqueca capixaba.
De Meaípe, prosseguimos para sul, pelo litoral. Nas imediações da simpática praia do Ubu, as enormes instalações de mineradora transnacional, abrigando mineriodutos, carretas pesadas, chaminés, fumaça, degradação socioambiental. Tudo na beira do mar, onde se localizava porto para levar embora o minério de ferro brasileiro a preço de banana. Horror dos horrores.
Mais ao sul entramos na empoeirada cidade de Anchieta, com a praia de areias e águas acastanhadas, devido à foz de rio ao lado e, talvez, pelos efeitos nefastos da empresa de mineração logo ao norte. Nos altos, o secular santuário do beato Anchieta, no qual o padre tão atuante pelas bandas de São Paulo veio a falecer. Em construção que lembra bastante o Pátio do Colégio, marco de fundação da cidade de São Paulo, o santuário na cidade capixaba, bem conservado, exibia interiores simples. Dali dos altos, vista do vale do rio, da praia, de partes da cidade de Anchieta.
Ao caminharmos em direção ao carro de aluguel no estacionamento frontal do santuário, ouvimos os estalos e o som surdo da queda. Duas palmas de tamanho e peso consideráveis tinham acabado de despencar das palmeiras imperiais. E a centímetros do veículo. Por pouco, muito pouco mesmo.
Pegamos o sentido transversal ao litoral, por estrada local. Contornamos o outro lado do crime socioambiental da mineradora, desviando de carretas e da poluição. No povoado de Jabaquara, cruzamos por baixo a famigerada BR-101 e fugimos por estrada local, serra acima.
Iniciamos a incursão rumo às serras capixabas por entre muito verde da mata atlântica, rios encachoeirados, corredeiras, relevo acidentado, via estrada estreita e sinuosa.
Depois da singela cidade de Alfredo Chaves, o relevo se acidentou mais violentamente, aumentando os perigos da estrada, mas também as belezas. Montanhas e rochedos mais altos e mais íngremes, verde abundante realçado pela luz da tarde, sons relaxantes vindos das águas de córregos, de pequenas quedas d’água, de mais corredeiras. Agricultura familiar em pequenas propriedades plantava alimentos sem agredir o ambiente. E dá-lhe subidas e curvas cada vez mais radicais pela estrada. Eu alternava a visão na pista e nos esparsos carros em sentido contrário com olhadelas no espetáculo em ambos os lados.
Nos altos da serra, o vilarejo de Araguaia e a estação ferroviária terminal da linha turística de trem, embora os trilhos prosseguissem no sentido de Minas Gerais. Ao redor, acabamentos caprichados para os turistas que encaravam os preços abusivos daquele passeio vindo da cidade de Viana e organizado por empresa privada.
Atingimos a BR-262 ao anoitecer com o característico tráfego pesado da principal rodovia que liga Vitória a Belo Horizonte. E as sinuosidades e perigos se mantiveram presentes durante a longa descida, passando pela cidade sem graça de Marechal Floriano, até o acesso a Domingos Martins.
Em Domingos Martins, paramos o carro em qualquer lugar permitido e andamos até o hotel que avistáramos na avenida principal.
Básico e suficiente, o estabelecimento cobrava diárias razoáveis. Mas a partir da noite seguinte o valor triplicaria. O tradicional festival de inverno da cidade começaria e o comércio sonhava com cifrões. Tentamos em outra pousada nos arredores, mas a situação era a mesma. Todos os quartos vagos. Estavam ávidos pelos turistas que chegariam durante o festival para poderem escorchá-los devidamente.
Indiferentes e até reticentes em permanecer na cidade coalhada de turistas deslumbrados e de comércio oportunista, eu e ela decidimos ficar apenas aquela noite, enquanto as diárias dos hotéis eram aceitáveis.
Saímos para jantar sem fome, enquanto operários montavam palcos e barracas temáticas ao redor da pracinha principal. Arriscamos lanchonete de bom aspecto e servida por casal simpático. Tomei somente metade do caldo de capelete, uma verdadeira salmoura, enquanto ela lutava contra o caldo de mandioca e milho, ambos preparados com a mesma má vontade dos recepcionistas do hotel.
Demos volta rápida pela avenida principal, pelo calçadão paralelo e dotado de lojas, órgãos públicos e restaurantes, pelas obras da praça, antes nos recolhermos ao quarto do hotel. A cidade mantinha traços da colonização germânica, em parte da arquitetura, nos nomes de logradouros e estabelecimentos comerciais, nos tipos físicos pelas ruas. Algumas placas em português exibiam embaixo a frase “aprenda alemão” e a respectiva versão naquela língua.
Embora bem menor e menos desfigurada que a congênere paulista, sentimos calafrios somente em aventar as semelhanças entre Domingos Martins e a exageradamente famosa Campos do Jordão.
Fazia frio discreto e sem ventos. Nada que uma pequena blusa não nos protegesse e garantisse o conforto.
Acordamos cedo e nos entupimos de boa comida no café da manhã. Numa das mesas da entrada do salão, dois senhores distintos, na frente de um notebook, acertavam os últimos detalhes de tenebrosas transações. Usavam tom de voz, palavras, frases, que diziam muito do significado do conchavo. Muita gente sairia perdendo com aquilo, mas certamente não seria nenhum daqueles dois.
Circulamos sob o sol matinal pela cidade cercada de colinas não muito altas. A igreja matriz, luterana, destoava de um Brasil majoritariamente católico. Poucas construções atraentes. Comércio e administração municipal em transe pela aproximação do festival e de ganhos políticos e financeiros. Mais placas e nomes de origem alemã. Mais chamados para que se “aprenda alemão”.
Registramos o que valia a pena e botamos o pé, no caso o carro, na estrada. De volta à sinuosa e perigosa BR-262, desta vez morro acima. Mais montanhas, curvas fechadas, aclives e declives.
Quilômetros serra acima, a deslumbrante Pedra Azul, majestosa, desimpedida, impondo fascínio e respeito.
Percorremos a rua principal do vilarejo e logo entramos na zona rural. Por curvas, subidas e descidas da estradinha, cenas campestres entre espaçadas chácaras de temporada, contornamos admirados a Pedra Azul de leste a oeste. Caminhantes faziam o percurso a pé apesar da ausência de acostamento no asfalto estreito.
De volta à BR-262, avançamos tangenciando paredões rochosos, ao lado de vales pronunciados, do verde dos restos da mata atlântica, das propriedades agrícolas.
Chegamos famintos a Venda Nova do Imigrante, a cidade conhecida pela culinária de influência italiana. Na verdade, mais um ajuntamento de construções de beira de estrada, exceto pelo grupo de palmeiras imperiais ao longo do que parecia o “centro” da cidade, mas com a BR-262 no meio de tudo.
Pegamos o acesso local ainda em asfalto. Cenas rurais, com criação de animais e pequenas plantações, entre colinas e montanhas maiores, nos acompanharam até Afonso Cláudio, cidade também desprovida de atrativos urbanos e erguida ao longo de estrada estreita, passando à rua. E nada de negros, mulatos, cafuzos. Somente gente clara, loira ou morena bem clara.
Jantamos em restaurante recém-inaugurado numa sobreloja de frente à praça da Matriz. Possuía nome igual ao do hotel localizado na mesma construção. Ao contrário do restaurante, no entanto, o aspecto externo do hotel, decrépito, fez lembrar as espeluncas em que tanto me hospedei nas incursões pelos interiores do Brasil e de outros países.
Na praça da Matriz, barracas de sanduíche e milho cozido. Uma mesa de baralho, com toalha verde e tudo mais, sustentava seriamente as partidas, conforme já notara na parte da tarde. Os jogadores só se movimentavam durante o dia para trocar a mesa de lugar e acompanhar a sombra das árvores.
O povo da cidade prestigiava o espaço público e democrático da praça que reservava atrações à noite devido à semana missionária católica. Às danças típicas pomeranas com os integrantes, todos loiros, vestidos a rigor, se seguiram apresentações da Folia de Reis, estas mais bonitas e alegres. Os moradores assistiam e arriscavam passos de dança durante a apresentação de dois músicos de origem pomerana que tocavam concertina. Os dois tocavam sem quaisquer expressões faciais ou corporais, estáticos, carrancudos, congelados. Nem parecia que sentiam a música e o entusiasmo da plateia.
Bem cedo na manhã seguinte saímos na busca dos melhores ângulos para se contemplar o pico dos 3 Pontões, nas imediações de Afonso Cláudio.
Avançamos na estrada que levava a Itarana e Laranja da Terra. Logo avistamos a imensa torre de pedra com as três pontas irregulares no cume. Impressionante e bela, se impondo na paisagem, apesar de outras montanhas por perto. Mas a rodovia começou a descer a serra numa sucessão de curvas fechadas rumo a vale extenso, fértil e cultivado de maneira variada.
Arriscamos um ramal em estradinha de chão. Subimos horrores, acima dos 3 Pontões, e o avistamos do alto, junto com mais montanhas e vales férteis. Tínhamos nos afastado da crista da montanha.
Tentamos via um aglomerado de casas que contava com uma igrejinha luterana. Entrei no quintal de uma família e desci para perguntar. Um trabalhador rural loiríssimo, que residira e trabalhara a terra em Rondônia, me recebeu alegremente. Desandou a falar bastante, feliz por eu tê-lo escolhido para a consulta. Nos orientou a ir em frente na estradinha de terra, acidentada, subindo sempre.
E lá fomos nós montanha acima. Mas logo o piso ficou complicado para aquele tipo de carro baixo. Tentei dar meia volta no caminho estreito, inclinado, cheio de valetas profundas. Numa das etapas da manobra, o carro encalhou na valeta. Não ia nem para frente e nem para trás. Insisti na primeira marcha, na marcha ré. Nada. Um morador das proximidades assistiu ao estrago e se aproximou para ajudar. Tenta daqui, vira o volante assim, joga para lá, vira para cá, acelera mais, para, vai. Até que o carro se moveu. Ufa! Agradeci envergonhado pela imperícia e tomei o caminho de volta para o asfalto.
E a presença de igrejas luteranas não se resumia àquela perto no nosso encalhe. Inúmeros exemplares, dessas construções inconfundíveis, tendo a torre estreita e alta com a pequena cruz no topo, apareciam em meio às plantações de alimentos. Nada de monoculturas ou mecanização exagerada. Pequenas propriedades tocadas por caboclos ou descendentes de europeus, agricultura familiar, cultivavam alimentos voltadas para a própria região. Eventualmente alguma plantação mais extensa de café para comercialização em grande escala.
Entramos em outro acesso. Em poucos quilômetros nos deparamos com visão próxima e desimpedida, expondo todo o Pico dos 3 Pontões desde a vegetação das encostas. O tempo abrira, o sol brilhava e iluminava a imponência. Contemplamos e apreciamos o belíssimo pico até enjoar.
Eu lera algo a respeito de um Museu das Guerras pelo qual passáramos antes. Sabia que continha objetos originais de várias guerras passadas. No mínimo algo insólito em plenas montanhas capixabas. Como circulávamos por região habitada por imigrantes europeus de várias origens, tudo era possível. Ficava na beira do asfalto e resolvemos averiguar.
continua...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Espírito Santo (parte 1/4)


Eis que ela, movida por um saboroso impulso de curiosidade, cismou de viajar ao Espírito Santo.
Adoro impulsos. Então lá fomos para Vitória em meados de julho.
Embarcamos em voo ligeiro que nem deu para esquentar o assento apertado e desconfortável da aeronave. Adiante do relevo montanhoso do interior do Espírito Santo, avistei a serra do Caparaó, na divisa com Minas Gerais, o pico do Cristal e o Pico da Bandeira, aos quais subira, e sob o mais alto acampara doze anos antes, em belíssima caminhada pelo lado mineiro.
Em frente ao aeroporto pegamos ônibus urbano até o hotel localizado na avenida da praia de Camburi.
Chamar de avenida a via que corria entre os prédios e a praia de Camburi seria pura benevolência. Dotada de seis pistas, três indo, três vindo, aquilo mais parecia rodovia, tal o tráfego intenso, a alta velocidade dos veículos e, sobretudo, pela indescritível poluição sonora. O constante e ensurdecedor barulho apenas dava tréguas quando os semáforos se fechavam e a sensação de alívio, ainda que por menos de trinta segundos, nos fazia crer que não enlouqueceríamos.
Caminhamos pelo calçadão da praia de Camburi, com pouco movimento em plena manhã de domingo ensolarado. De frente à praia, mais para esquerda, imagens apocalípticas do porto de Tubarão, por onde a maior parte do minério de ferro extraído em Minas Gerais ia embora a preço de banana para países que em seguida nos venderiam caro produtos manufaturados com o ferro brasileiro. Qualquer semelhança com o Brasil colonial não seria mera coincidência. O povo brasileiro pagou caro, está pagando, e pagará ainda mais por essa prática primária e submissa da economia brasileira.
O mar, a praia e a urbanização do calçadão, incompleta até aquela data, no entanto, agradavam, tinham beleza e eram prestigiados por capixabas e forasteiros, a despeito da barreira de prédios escondendo o sol ao entardecer.
Caminhamos até o início da praia de Camburi, pela ponta com a estátua de Iemanjá, ao redor da qual os pescadores esperavam pacientemente pelas fisgadas, e barquinhos de pesca encostavam ao longo do remanso, entre garças e outras aves em busca de alimentos.
Cruzamos a ponte e entramos na praia do Canto, ao longo dos muitos aterros promovidos na ilha décadas antes no intuito de criar espaços entre os morros e o mar. Espaços principalmente para os automóveis, infelizmente, através de avenidas de muitas pistas.
Ainda mais que Camburi, a praia do Canto se entupia de prédios altíssimos, provocando o sombreamento da praia. Uma ponte dava acesso à ilha do Frade, aproximada da praia pelos aterros. Na entrada da ilha, seguranças, barreiras e câmeras garantiam a tranquilidade dos privilegiados da elite capixaba que residiam nas mansões construídas ao arrepio das leis ambientais. Mais à frente, pelo calçadão da praia, entre parquinhos, gramados, galpões de pranchas e barcos, a ilha do Boi, que deixou de ser uma ilha, conectada à praia por ampla avenida.
Mas o conjunto visual, natural ou artificial, fazia bem aos olhos, particularmente em tarde ensolarada e luminosa. Talvez por estarmos em domingo de julho, nada de multidões ou tumultos. A calma garantia o prazer. Os discretos capixabas, sem alarde, simpatizavam e nos acolhiam na cidade. E a caminhada inspirava, nos impelindo para adiante.
Entre os rostos, muitos loiros e de peles claras. Negros e mulatos eram verdadeiras moscas brancas, raríssimos.
De volta ao quarto do hotel, mais uma vez sentimos a dinamite sonora vinda da “autoestrada” em frente, antes do calçadão da praia do Camburi. Vez ou outra a porta de vidro para a sacada tremia decorrente dos veículos, leves e pesados, voando no asfalto.
Durante o café da manhã seguinte, hóspedes a trabalho ou a passeio. A maioria, apesar de brasileiros, era de loiros ou muito claros. Um casal idoso chamava a atenção. Ambos loiríssimos, altos, carrancudos, feições germânicas, não olhavam para ninguém e trocavam esparsas falas em língua gutural. Ela, de blusa e vestido ultraconservadores, cabelo preso em coque medieval, lembrava as beatas do norte da Europa. E os cenhos franzidos dos dois jamais se abriam. Dias depois, ao subirmos as serras capixabas, veríamos mais desses tipos pouco afeitos a miscigenação, oriundos das fechadas comunidades de pomeranos, alemães, austríacos e afins.
Quase a totalidade dos hóspedes durante o café da manhã se sentava de frente para o televisor do fundo da sala, de costas para mesa dos comes e bebes, deitando os olhares bovinos de sempre, se imbecilizando diante da programação embrutecedora da telinha. Propositalmente de costas para a praga televisiva, eu permanecia de frente para as frutas, sucos, pães, queijos, bolos.
Pegamos ônibus urbano rumo à vizinha cidade Vila Velha, já no continente e ligada a Vitória pela imensa, monstruosa e horrenda Terceira Ponte, um verdadeiro escândalo visual, construída sabe-se lá em que condições de superfaturamento e paga pelo povo capixaba.
Voltada para atender a ditadura do transporte rodoviário, o elefante branco se configurava em crime urbanístico sob qualquer ponto de vista. Para completar o massacre contra a população, instalaram pedágio sobre a ponte. E pedágio caro. Entre as reivindicações que mobilizaram milhões de brasileiros no mês de junho de 2013, os capixabas protestaram contra o valor cobrado nas catracas do pedágio, e também contra o pedágio em si. Arrancaram a primeira vitória, forçando a redução dos preços nos bloqueios. A luta popular continuaria para eliminação sumária daquele absurdo.
No terminal urbano de Vila Velha, outro ônibus até a Prainha, acima da qual ficava o morro e convento da Penha, datado de meados do século XVI.
Subimos a pé o caminho calçado de pedras até a construção branca erguida sobre o rochedo. Nos interiores do convento, capelas e altares foliados a ouro, obras de arte, sala dos ex-votos, mas especialmente a panorâmica e estupenda vista de Vila Velha e da baía de Vitória, a horrorosa Terceira Ponte, as praias de ambas as cidades, os morros, mais montanhas de pedra a se perderem no vasto horizonte azulado.
Lá de cima do morro do convento notei mais claramente a capital capixaba, espremida entre o mar e as montanhas, sobretudo na região do centro velho, uma versão reduzida da cidade do Rio de Janeiro, além dos trechos aplainados surgidos dos inúmeros aterros realizados na década de 1970, invadindo o mar, emendando ilhas.
A segunda capital menos populosa do Brasil, perdendo apenas para Boa Vista em Roraima, Vitória era também menor que as três cidades que se somavam à área metropolitana do centro capixaba, Vila Velha, Serra e Cariacica, compondo um mosaico de alta densidade populacional.
Descemos o morro e relaxamos na Prainha, trecho calmo com casas simples, uma casa de cultura, área da marinha, praça carente de atenção, pequena praia com barcos de pescadores. Mais visões privilegiadas da ilha de Vitória, do convento da Penha, da tenebrosa Terceira Ponte.
Pegamos outro ônibus até a praia da Costa, a principal de Vila Velha. Mais extensa e vistosa que a praia de Camburi, a praia da Costa também era de tombo e contava com a barreira de prédios altos que a privava do sol na parte da tarde.
Famintos pelo adiantado da hora, caímos de cabeça na incomparável moqueca capixaba. Deliciosa, saborosa, seriam adjetivos pobres para qualificar aquela maravilha da culinária brasileira. Além dos tradicionais acompanhamentos, arroz e pirão, a moqueca de dourado nos presenteou com a moquequinha de banana-da-terra, preparada no próprio molho da moqueca. As quatro partes cozidas e servidas nas panelas de barro feitas pelas famosas paneleiras capixabas. O banquete baixou na mesa no momento em que eu me hidratava com a segunda caipirinha, de cachaça branquinha obviamente.
Nem precisaria dizer que detonamos tudo em minutos. E que sabor! Se antes eu tinha dúvidas, agora não mais. A moqueca capixaba humilha a também saborosa moqueca baiana. Não pela ausência do dendê ou leite de coco que aprecio a valer. Talvez pelo uso do tomate, pelo coentro providencial que realça os sabores, pela banana-da-terra como acompanhamento. O certo é que, ao terminarmos de comer, eu já pensava em quando e onde nos enlevaríamos com a próxima moqueca capixaba.
Na volta a Vitória, batemos de frente a enorme congestionamento no alto da tal Terceira Ponte. Cidadãos capixabas iam assistir das galerias da assembleia legislativa à votação que tratava do cancelamento do pedágio na ponte. Mas foram brutalmente impedidos pela polícia militar. Seguiram-se cenas de violência desmedida contra o povo que protestava pacificamente, justamente o maior interessado pela eliminação do pedágio. O trânsito foi desviado e asfixiado no centro de Vitória. Já na descida da ponte assisti à cena deplorável, de pura barbárie. Seis policiais da Tropa de Choque da polícia militar, armados até os dentes, em uniforme de guerra, de capacetes e altos escudos de aço, apontavam modernas armas letais contra três jovens manifestantes postados a vinte metros de distância, os três desarmados, aterrorizados, não sabendo se andavam, sentavam, deitavam ou o quê.
Horror dos horrores de um sistema que defende os interesses de uma minoria de capitalistas contra a maioria do povo. E de uma polícia que jamais poderia ser militar e treinada somente para matar pobres.
Pela manhã e à noite, os capixabas ocupavam o calçadão e a areia da praia de Camburi para praticar exercícios físicos variados. Individualmente ou em grupos, nas atividades organizadas por grupos privados ou públicos. Alegravam a cena noturna da autoestrada da praia, enquanto outros encostavam o esqueleto em bares e restaurantes instalados preferencialmente nas transversais.
De manhã, fizemos longa caminhada até a final da praia de Camburi, já se aproximando da área do porto de Tubarão. No meio do caminho margeamos extensa mata e manguezal pertencente à Infraero que se estendia da praia até o aeroporto. Após o descanso desse verde providencial, nova barreira de prédios altos na avenida, escondendo as montanhas e o sol na parte da tarde.
Pegamos ônibus até o centro velho de Vitória. Circulamos pelas ruas estreitas, ladeiras, escadarias estilizadas, avenidas movimentadas, comércio popular. Entramos em capelas históricas, apreciamos construções imponentes como o palácio Anchieta, o teatro Carlos Gomes, a pesada catedral, a igreja Franciscana. Vitória literalmente se espremia entre o mar e as montanhas de pedra.
Os capixabas, a despeito da discrição e reserva inicial, se mostravam prestativos, acolhedores, atenciosos. Não por acaso a identificação cultural com os vizinhos mineiros que transformaram o Espírito Santo num autêntico litoral de Minas Gerais. E durante o ano todo, conforme os sotaques ouvidos e as placas dos veículos nas ruas.
Engolimos lanche mixuruca em padaria desajeitada. Valeu pelas duas peruas que se sentaram ao nosso lado. Bem coroas, apesar dos cumulativos serviços de funilaria, se produziram tais quais os carros alegóricos da Marques de Sapucaí. Não paravam de falar em compras, preços, pechinchas, promoções, liquidações. As roupas da dupla possuíam cores discretas tais como verde limão, laranja, vermelho, azul celeste. E de todas as partes dos corpos delas balançavam penduricalhos reluzentes. Espetáculo digno de se ver.
O ônibus da volta passou nas imediações da assembleia legislativa, desta vez sem o ataque feroz da polícia militar, mas totalmente cercada por altas grades de aço. Tudo para o povo não se inteirar das ações e conchavos dos nobres deputados estaduais capixabas.
Repetimos a ida a Vila Velha, desta vez nos estendendo às praias de Itaparica e Itapuã, sempre por ônibus conectados em terminais urbanos. Caminhamos bastante sobre as areias fofas das praias. O sol e a claridade de inverno coloriam a paisagem, embora a barreira de prédios altíssimos, por toda a avenida das praias de Vila Velha, cometesse o crime de esconder as montanhas e o tão bem-vindo sol na parte da tarde.
O tombo da praia, a onda violenta estourando diretamente na areia e as águas frias não permitiram que eu permanecesse por mais tempo dentro da água, mas me deliciei a valer. Raríssimos banhistas na areia, menos ainda dentro d’água.
Pela manhã, esperamos a entrega do carro básico da locadora que acertáramos no dia anterior. Subiríamos as montanhas capixabas evitando ao máximo o tráfego infernal das BR’s, passeando sem pressa, apreciando, contemplando, percorrendo rodovias locais.
continua...