quarta-feira, 27 de abril de 2011

Gerais de Minas e Bahia (parte 4/4)

...continuação
Ao lado do vilarejo, peguei trilha ascendente entre blocos de calcário e vegetação rala, atingindo a entrada da gruta da Lapa dos Anjos. Passei pela entrada baixa, estreita, quase horizontal, o que me obrigou a deitar e girar o corpo para dentro da escuridão. Avancei pouco mais de um metro e já não enxergava nada. Comecei a ouvir vozes vindas do breu. Feixes de luz surgiram daquela direção. Eram três rapazes que voltavam da exploração aos interiores, portando lanternas e capacetes com carbureteiras. Ao demonstrar minha curiosidade em explorar a caverna, resolveram refazer o caminho até o fundo, me emprestando a lanterna de mão. Deslumbrante. Estalactites, estalagmites e cortinas, de diversos formatos e tamanhos, compunham amplo cenário, riquíssimo em beleza e detalhes. Sobes e desces, em meio a incríveis e variados espeleotemas, salões pequenos e grandes, baixos e altos, brilhavam com as luzes das lanternas. Bem adiante, nos deparamos com formação no piso, onde uma santa parecia carregar um bebê no colo.   
Voltamos ao Brejo do Amparo. Visitamos engenho de cana onde o herdeiro da família nos mostrou a linha de produção, limpa e organizada, da qual saíam toneladas de rapadura e inúmeras garrafas de cachaça. Pequenas e vendidas principalmente para merenda escolar, de tão saborosas, mesmo com sede, comi várias rapaduras.
Retornamos a Januária e nos instalamos em mesas na calçada do boteco. Surgiram mais colegas que dividiram os comes e bebes. Fiquei nas pingas puras, brancas, não envelhecidas, obviamente. Mesmo com o calor forte e abafado, entornei quatro doses generosas.

Um deles contou histórias sobre explorações nas cavernas das imediações de Montalvânia. Numa delas, descreveu a impossibilidade de descer de corda um abismo interno. A equipe tentou várias vezes. Sabia a profundidade, possuía cordas de comprimento mais que suficiente. Mas quando executava a descida algo ameaçador acontecia. Ou surgia neblina espessa impedindo a visão, ou desmoronavam pedras do teto principal da caverna ameaçando a segurança de todos. Ou isso, ou aquilo. Nem sequer conseguiam fotografar as etapas, cujas imagens saíam borradas. O guardião das cavernas, um senhor de idade, já lhes alertara da impossibilidade de penetrar onde não era permitido.
O centro antigo de Januária guardava casario do início do século XX, bem conservado, em ruas estreitas e silenciosas, com discreta arquitetura, abrigando as senhoras e os senhores sentados em cadeiras dispostas nas calçadas. Decepcionante era a igreja Matriz da cidade, moderna, horrorosa, sem personalidade, cinzenta, com cara de nada. Lembrava os templos das indústrias do fundamentalismo evangélico.
Reencontrei os colegas espeleólogos em botequim, tomando umas e outras. O local lembrava vendas antigas, com balcão pesado de madeira e prateleiras altas, em ambiente para lá de charmoso. Roda de samba e choro improvisada pelos fregueses contagiava aos sábados à tarde. O repertório de antigos sambas cariocas de morro acompanhava boas cachaças, linguiça, papos descontraídos. Vida simples e bem vivida.
Passei a noite pelos bares e restaurantes da orla fluvial. Gente, muita gente, circulava por ali. Espaço público, livre, alegre, democrático, sem o consumismo doentio das grandes cidades.
De volta ao povoado de Brejo do Amparo, botei o pé nas estradinhas de terra. Pequenos pastos, canaviais, lavouras simples, muitas mangueiras e goiabeiras desenhavam a paisagem rural. Pergunta daqui, confirma dali, e cheguei à antiga igreja Rosário dos Pretos, no povoado de Bairro Alto. Datada do século XVII, se encontrava desativada, sem qualquer utilidade para os moradores dos arredores. As pesadas portas estavam fechadas. A construção exibia apenas uma torre do lado esquerdo, sem sino. Desgastada e suja pelo tempo, a imagem em alto relevo de nossa senhora do Rosário dos Pretos aparecia acima da frente. Chupei três mangas das árvores espalhadas pelo adro. Da rosa ou da espada, sempre suculentas, as frutas possuíam sabor marcante e compensador para caminhadas sob o sol quente.
Depois dei grande volta, cruzei canaviais, roças, galinhas, gado, mais mangueiras e goiabeiras, mais gente sorridente e curiosa. No povoado me sentei sob a sombra e contemplei a manhã preguiçosa dos moradores. Um colega de bebes do bar da outra tarde passou de bicicleta e fomos até a casa dele. Bastante viajado e vivido pelas quebradas dos interiores do Brasil, já aprontara de tudo um pouco. As fotos que me mostrou, tiradas em diferentes fases da vida dele, confirmavam as aventuras. Aparentemente se aquietara e se estabilizara com a nova mulher.

Mais à noite em Januária troquei figurinhas com os demais hóspedes, vendedores, representantes técnicos, prestadores de serviços, gente de passagem. Já me habituara com essa frequência nas centenas de hotéis pelos quais passei nos quatro cantos do Brasil. Milhões de vezes mais agradáveis que os turistas, eles rendiam boas e divertidas conversas sobre tudo e todos. Valia a pena escutar as peripécias, pouco importando a veracidade, mas sim a maneira detalhada e engaçada como eram contadas.
Também na margem esquerda do São Francisco, as águas da cidade de Itacarambi causavam maior impacto, correndo mais próximas à cidade pelo vale estreito e profundo, dando-lhe aspecto mais fluvial e pitoresco. Barcos pequenos trocavam de margens transportando areia e passageiros. A cidade guardava urbanismo mais caprichado, cujas praças pequenas ofereciam painéis com pinturas descrevendo cenas rurais da época colonial.
Jantei em restaurante na orla fluvial de Januária, vazia naquela noite. Ouvia-se apenas o barulho do vento nas folhas das árvores, as rodas das raras bicicletas, o atrito dos chinelos no paralelepípedo.
Visitei novamente a igreja Rosário dos Pretos no povoado de Brejo de Amparo. Desta vez entrei na construção que guardava estilo entre barroco mineiro e barroco baiano, com belas pinturas no teto próximo ao altar. No final da tarde, preguiça merecida nas moradeiras a norte de Januária, com direito à vista do São Francisco, pescadores com tarrafa ou anzol, do alto do barranco da margem esquerda.
A epidemia de lanhouses por todo o país tornou-se questão de educação e saúde pública. Sempre cheios e frequentados por crianças e adolescentes, esses locais revelavam o nível cultural das novas gerações. Nada de pesquisas escolares ou curiosidade sobre assuntos gerais. Nada de atualizar o correio eletrônico. As crianças se afundavam por horas e horas em jogos eletrônicos extremamente violentos, acompanhados de gritos histéricos, xingamentos, ameaças, provocações. Já os adolescentes se atolavam em páginas de relacionamento e grupos de amigos virtuais. E se intrometiam na intimidade dos outros, observando o que faziam, do que falavam, com quem se comunicavam, aonde tinham ido, com quem, o que houve com esse ou aquele.
Acessados por estrada de chão revestida de cascalhos, o rio Pandeiros e as cachoeiras encantaram pela beleza rústica. A trilha na margem levava às três quedas d’água. Escolhi a segunda delas para sentar na sombra, entrar nas águas refrescantes, observar o trabalho incessante das formigas, admirar pássaros de várias cores e tamanhos que voavam das pedras às árvores. A vegetação revelava zona de transição do cerrado à caatinga, em trecho pertencente à Área de Proteção Ambiental de Pandeiros. Percebi preocupação em preservar o ecossistema em conjunto com a população do vilarejo de mesmo nome. No entanto, com o projeto ainda em fase inicial, a situação do lixo nas imediações do vilarejo preocupava.

No jantar em Januária, mergulhei de cabeça em delicioso churrasco em restaurante na beira do São Francisco, precedido, obviamente, de duas doses de cachaça artesanal. As januarienses vestidas para matar prometiam horrores para a noite que apenas dava os primeiros passos. Realizado pelo dia bem aproveitado, eu só pensava em escovar os dentes e desabar na cama.
E finalmente saiu o passeio ao vale do Peruaçu. Não às cavernas e às principais atrações, fechadas em função da inexistência de plano de manejo do parque nacional. Mas a aperitivos e a vistas panorâmicas a fim de ter ideia superficial do que poderiam render passeios futuros.
As serras e serrotes de calcário do vale escondiam cavernas, dolinas, paredões com pinturas rupestres, vegetação nativa, mais para caatinga que para cerrado, inclusive com a charmosa Barriguda. Alta, imponente, e barriguda, com o caule espinhoso mais espesso no centro, galhos curtos e de poucas folhas, copa mínima. Estranha e bela. Visita, de cima, do Buraco dos Macacos, enorme abertura entre duas partes da caverna do Janelão, formando vale profundo, com vegetação espessa lá embaixo, os paredões, uma das aberturas da caverna em cuja boca estalactites e outras formações pendiam aleatoriamente. Dava para ter visão panorâmica e imaginar o potencial de explorações mais detalhadas do conjunto. Parada no Paredão do Malhador, com formações e restos de pinturas rupestres no paredão vertical.
E acabou a visão geral do parque nacional das Cavernas do Peruaçu. Preço absurdamente caro, da quilometragem do veículo e do guia, por apenas três horas de passeio e duas visitas rápidas. Mais nada. Era por isso que apareciam poucos interessados em visitar o vale do Peruaçu. Com as principais atrações vetadas, valores tão exorbitantes cobrados por passeios curtos, não soava estranho o sumiço dos turistas em plenas férias, na alta estação.
À noite compareci ao aniversário de moradora da cidade, no quintal da casa, com direito à música ao vivo, serviço de garçons uniformizados, muita comida, cerveja e refrigerantes servidos em mesas de plástico cobertas por tecidos brancos de algodão e laços verdes nas cadeiras. A seleção musical, baseada em música regional, MPB, marchinhas de carnaval, agradou. Convidados pegavam o microfone e acompanhavam o vocalista oficial com vozes e palmas.
Fora dali, o mantra sonoro, o massacre mental da viagem, excedendo a todos os limites de tolerância do ser humano, quebrando qualquer lógica, prosseguia destruindo o mínimo de desenvolvimento de gosto, esmagando o bom senso do pior dos mortais. A tal banda de forró eletrônico superava todas as torturas sonoras que presenciara em décadas pelos interiores brasileiros e, pelo jeito, ainda se superaria a si própria por muito tempo. E aquilo continuava tocando, tocando, repetidas vezes, tocando, tocando, nos carros, nas casas, nos bares, tocando, tocando, tocando...

Uma traíra sem espinho, no calçadão da orla fluvial, acompanhada de cachaça de alambique, encerrou minha última noite em Januária. A cidade fervia nas imediações da orla. Muita gente, muita animação, embora, na maioria dos casos, proibida para maiores de 20 anos de idade.
E acabava mais uma viagem pelo norte de Minas Gerais que valera e muito a pena. Pelo povo simpático, acolhedor, hospitaleiro, educado, bom de prosa. Pelas paisagens dos Gerais, em meio ao cerrado em transição ao agreste e à caatinga. Pelas serras e serrotes, vales, rios de águas ainda límpidas, veredas decoradas de buritis. Pelas estradas de chão, largas e cobertas de cascalhos, ou estreitas e com bicos de pedras, dentro de ônibus empoeirados e acompanhados de passageiros, motoristas e cobradores prestativos e gentis. Pelos trabalhadores dos hoteizinhos, invariavelmente boas companhias para conversar, trocar informações e aprendizados sobre as idas e vindas. Pela boa comida e pelas deliciosas cachaças. Pela experiência adquirida diante das qualidades e defeitos da região, defeitos associados à miséria e às injustiças sociais, às monoculturas do agronegócio, envenenadas de agrotóxicos, que expulsam a população rural para as cidades.
Pegaria o caminho de volta para casa, gratificado por tanta coisa, boa ou má, a me enriquecer dali em diante. Embarquei em ônibus da monopolista empresa privada Gontijo, que lotou nas primeiras paradas. Estupendo pôr-do-sol amarelado, alaranjado, avermelhado, violeta, nos fundos do horizonte. Amanheceu pouco antes da cidade de Perdões, ainda em Minas Gerais.
Desembarquei no terminal rodoviário do Tietê em São Paulo naquele mês de agosto. E eu tinha que voltar e explorar, logo, mais trechos no norte de Minas Gerais.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Gerais de Minas e Bahia (parte 3/4)

...continuação
A cidade baiana mais distante da capital Salvador, Cocos contava com várias praças arborizadas e alongadas, vida noturna com as galeras enchendo as ruas, praças, bares, lanchonetes, sorveterias. O restaurante de frente à simpática praça era frequentado pela elite local, famílias e casais arrumadinhos. As mulheres se produziam como se fossem a casamentos chiques, com roupas, maquiagem, cabelos preparados por horas. Quase todos os clientes vinham com as respectivas caminhonetes de cabines duplas, mais parecendo item de identificação e ostentação daquele estrado social. Uns imitavam os outros numa espécie de concorrência em busca da melhor aparência. Seria vergonhoso saber que o colega adquirira caminhonete nova, invariavelmente da cor preta, e não providenciar uma também, tão ou mais cara, para poder desfilar na cidade e baixar naquela churrascaria com o brinquedinho de exibição. Os casais entravam, cumprimentavam os conhecidos, sentavam, raramente conversavam entre si, mais se preocupando em analisar os das outras mesas. Como não poderia deixar de ser, eu passei à atração extraterrestre naquela noite.
Cocos atraía mais à noite, pelo movimento dos moradores e também pelo urbanismo mais voltado à iluminação artificial. As casas antigas sobreviventes, em meio a construções mais modernas, chamavam atenção, especialmente as menos cuidadas. As pintadas e retocadas perdiam o charme original.

Soava como mantra o CD da banda de forró eletrônico de sempre durante a viagem. Mantra porque ouviam sempre, a toda hora, em todos os lugares, repetidas vezes, uma atrás da outra, sem parar. Parecia que não existia outro CD no mundo, por isso restava tocar aquele CD, somente aquele CD, sempre aquele CD. E aquilo entrava nos ossos, no cérebro, nas células, não queria mais sair. A música descartável sempre funcionou assim, em todos os lugares do mundo onde reinava a indústria cultural que transforma tudo em mercadoria. Tocava-se à exaustão, rumo ao limite do insuportável, até brotar a repugnância, para repeli-la de uma hora para outra, substituindo-a por outro lixo descartável. E assim por diante. Massacre sobre povo sem oportunidade de ouvir diferenças e de desenvolver o gosto. O tal do axé baiano torturava. Como se não bastassem as péssimas letras, os ouvintes eram obrigados a aturar as chamadas de incentivo dos vocalistas, sempre as mesmas, em todas as faixas ao vivo, em todos os CD´s, de todas as bandas do gênero, há anos sem novidades, de minuto a minuto:
“tire o pé do chão”, “levanta a mãozinha e bate na palma da mão”, “eu quero ouvir”.
A pousada de Cocos contava com varanda em frente à recepção, cadeiras e deliciosa sombra da cobertura de telhas de cerâmica. Local ideal para trocar ideias com o recepcionista, hóspedes que passam por ali, moradores, conhecidos. Assuntos diversos iam e vinham. A hora passava voando. E todos se alegravam com o ambiente formado, tão simples e acolhedor.
Acordei de madrugada, ainda escuro, e sentei na estação rodoviária para aguardar o ônibus. A estrada de chão, cortando terrenos ondulados cobertos pela caatinga e raras manchas de cerrado, sob a luz do início da manhã, valorizava a paisagem rústica e me animou diante das possibilidades. Veio a divisa entre Bahia e Minas Gerais sobre o rio Carinhanha e a vila de Pitarana do lado mineiro. Logo surgiu no horizonte a cidade de Montalvânia.
O hotel era afastado do centro, em mau estado, com quartos ruins e caros. O proprietário, o irmão, colegas em volta, não conseguiam acreditar que eu viajava pela região a passeio. Insistiam que eu era comprador de gado, de terras, ou algum industrial. Mudavam de estratégia e sugeriram que eu passasse em escritórios de contabilidade ou da prefeitura e averiguasse a possibilidade de emprego. Não houve jeito de convencê-los.
Fundada por Antônio Montalvão, filósofo e visionário, a cidade guardava relevo ondulado, nenhuma construção interessante ou antiga, tudo desleixado, sem urbanismo atraente. Talvez a única coisa que chamasse atenção fossem as placas das ruas da cidade. Eram nomes de filósofos, pensadores, cientistas, escritores, músicos, artistas, do mundo inteiro. O hotel ficava na avenida Confúcio, o mercado na praça Platão, a travessa da rodoviária chamava-se Marx, a avenida era Lao Tsé, e assim por diante.
Além de dois ou três restaurantes, bares e trailers de lanches abriram naquela noite. A churrascaria do almoço seria ideal se as mesas não estivessem em fila, lembrando escola primária. Os frequentadores de frente, não para a professora, mas para o televisor, se massacravam e se idiotizavam durante as refeições.

No mapa de Montalvânia, afixado na entrada do hotel, notei uma estrada mais estreita marcada apenas com a expressão “para fazendas e montanhas”. Era a minha cara e exatamente o que buscava.
Cruzei a ponte sobre o rio Cochá, dobrei à esquerda na rua Luis de Camões e logo andava sobre a estradinha de chão, rumo aos confins do noroeste da cidade. A caminhada não oferecia cenários estupendos, mas o tráfego de veículos era mínimo, de tal maneira que eu permanecia no meio da via sem sobressaltos. Habitações, currais e terrenos abandonados na primeira parte, tudo caindo aos pedaços, materiais apodrecidos, deixados para trás, sem ninguém por perto. Mais à frente as áreas mostravam-se utilizadas por pequenas plantações, criações de gado e galinha, entremeadas por vastos campos vazios. Praticamente nada restava da vegetação original, da caatinga ao agreste, sobre o relevo ondulado.
Cumprimentei inúmeros moradores, troquei palavras com outros, inclusive com garoto que vendia bijuterias femininas de casa em casa. Reencontrei a mulher que viajara com a criança no colo no mesmo ônibus vindo de Cocos. E acenava para os motoqueiros e ciclistas que passavam em sentido contrário. Aquela estradinha seguia ao distrito de Capitânia.
Retornei à cidade após mais de quatro horas de caminhada sob o sol do sertão mineiro. Somente um litro de água depois é que pedi a comida para recuperar as energias. Ao pagar a conta no balcão precário, sobre a prateleira ainda mais precária, ao lado de outras bebidas vagabundas, avistei cachaças de alambique produzidas na região. Prometi saboreá-las à noite.
E o mantra sonoro do momento continuava a massacrar corações e mentes. Não havia saída. Eu começava a desconfiar que todos os demais CD´s desapareceram da face da Terra e aos pobres ouvintes restava apenas aquilo. Daí a necessidade de tocá-lo o dia todo, repetidas vezes, sem interrupções, para deleite de uns e tortura de outros. 
Nada como dar tempo ao tempo, dar crédito ao local e a mim mesmo. O quarto do hotel, no final das contas, não era de se jogar fora. O bom colchão e o silêncio da noite me proporcionavam ótimo sono. A ampla janela, atrás das cabeceiras das camas, garantia claridade e prazer nas leituras de Noites do Sertão de Guimarães Rosa. O café da manhã era substancioso. Os dois irmãos proprietários foram gentis comigo de acordo com a rusticidade deles. A comida na churrascaria disposta como sala de aula me satisfazia. Os moradores sorriam, cumprimentavam e, se eu parasse ou mesmo diminuísse o ritmo da caminhada, puxavam prosa divertida e sem compromisso.

Em manhã de caminhada leve, comecei pela avenida Confúcio, dobrei na rua Pitágoras, peguei a avenida Lao Tsé. Experimentei a margem direita do rio Cochá, antes de cruzar a ponte, e dei de cara com trecho bastante degradado. Tubulações de esgoto, ainda que temporariamente secas, na cara do rio, murada em mau estado, rua mais parecendo canteiro de obras, mas sem obras, dois bares decrépitos, um deles com amplo espaço coberto e ventilado, um quiosque de frente à minúscula queda d’água.
Segui adiante da ponte e entrei na menos usada das vias para a cidadezinha de Juvenilha. Estradinha estreita de chão, cruzando campos e fazendas com a serra ao fundo. A luminosidade do sol e do céu sempre azul, sem nuvens, o chão arenoso claro, valorizava mesmo as coisas sem beleza.
Embarquei à tarde na rodoviária. Horas depois, em meio à estradinha de chão, furou o pneu do ônibus. O motorista encostou ao lado da borracharia mais próxima, permanecendo ali por quase uma hora e meia para colocar o estepe e tapar o furo na câmara. Caminhões e mais caminhões carregados até o topo de carvão para as siderúrgicas passavam no rumo sul. Trafegavam inclinados, tal o excesso de carga.
Depois de passar por Manga, Itacarambi e pela vila de Fabião I, o ônibus entrou em Januária.
Na orla do centro da cidade, de onde antes ancoravam os vapores que transportavam passageiros, o São Francisco se afastava mais de cem metros. Desci as escadas, caminhei pela areia e atingi o barranco que descia às águas.
A população se entristecia diante da situação calamitosa na qual se encontrava o São Francisco. O que antes fora referência de transportes, fonte de água e peixes, lazer, se degradara a ponto de quase morrer. O desmatamento, sobretudo das matas ciliares, causando a extinção de afluentes, o assoreamento, aliada à poluição urbana e industrial que despejavam efluentes sem controle, matava o tão famoso rio de integração nacional. Tímidas faixas nas praças e avenidas da cidade pediam à população que salvasse o rio. Insuficiente. O São Francisco necessitava urgentemente de profunda revitalização ao longo dos cinco estados por onde corria. Movimentos sociais organizados lutavam pelo envolvimento de todos no processo, responsabilizando o grande capital, ou seja, as indústrias, o agronegócio, o latifúndio, pela degradação socioambiental do vale. E denunciavam o projeto de transposição das águas do baixo São Francisco como mais uma obra a favorecer os capitalistas em detrimento da maioria pobre e miserável que dependia do rio.

A vida noturna fervia nas imediações da orla fluvial. Pizzarias, churrascarias, peixarias se distribuíam pela região. Estabelecimentos espalhavam mesas pelas praças e calçadas. Garçons eram obrigados a atravessar a rua com bandejas para atender os fregueses das mesas na outra calçada.
Pela manhã, encarei o caminho a pé ao povoado de Brejo do Amparo, berço da cidade de Januária. Pequeno, acolhedor, simpático, tranquilo, bucólico. Casas antigas, típicas do interior do Brasil, se dispunham ao pé de serrotes de calcário escuro. A vegetação transitava do cerrado à caatinga. Árvores frondosas de flores avermelhadas coloriam o conjunto de casas.
Logo surgiram crianças que me pediram para fotografá-las. Agradeceram, não pediram nada, seguindo com os afazeres diários. Conversei com moradora sobre a vida e a seca prolongada. Entrei em boteco composto pelo balcão de madeira, uma prateleira velha e nada mais, tudo caindo aos pedaços, mas, ainda assim, fascinante. O dono pretendia reformar o estabelecimento, mas o faturamento e o dinheiro herdado da família iam todo para a bebida. Nem era meio-dia e o sujeito não se aguentava em pé.
continua...

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Gerais de Minas e Bahia (parte 2/4)

...continuação
Buritis ficava entre serras alongadas, bem urbanizada e arborizada, mais com cara de centro-oeste do que interior mineiro. O rio Urucuia banhava a parte norte da cidade. Barcos nas margens indicavam maior relação da população com o rio. A somente quatro horas de ônibus de Brasília, a cidade respirava o planalto central e exibia jeitão goiano. A maioria das placas dos veículos era de Brasília, para onde partiam inúmeros ônibus da rodoviária. Apresentava comércio intenso e diversificado de insumos, máquinas e implementos agrícolas, materiais de construção, madeireiras, revelando o perfil agropecuário da região. A cidade vivia para o agronegócio, o que se comprovava pela presença de transnacionais de sementes, agrotóxicos, maquinários.
O ônibus lotou ainda na zona urbana, levando alguns infelizes a se segurarem de pé pelo corredor central do ônibus. O trajeto se estendeu em verdadeira e excitante estrada de terra, quase sempre estreita, com a vegetação esbarrando nas janelas do ônibus, subidas e descidas, curvas acentuadas, tendo as serras em ambos os lados, pontes frágeis de madeira sobre dezenas de rios e riachos, inclusive o próprio Urucuia. A poeira cobria tudo, olhos, boca, nariz, a cada cruzamento com outros veículos. O ônibus se deparou com carros de boi, um deles puxado por oito animais. Em outro pedaço, vaqueiros conduziam o gado, obrigando o ônibus a parar rente ao barranco, esperar a boiada passar calmamente, sem estouros ou sustos maiores. Inúmeros desembarques em caminhos laterais e porteiras de vastas fazendas de gado, onde passageiros eram recepcionados pela família e pelo providencial carrinho de pedreiro para carregar as malas. O ônibus parou em dois vilarejos para descanso, matar a sede, tirar água do joelho, lavar rosto e braços cobertos da poeira acumulada. Santa Inês, o primeiro, já se chamou Passa Três. Goiás-Minas, o segundo, se erguia sobre a divisa entre Minas Gerais e Goiás.

Apenas três passageiros permaneceram até o fim. Na mesma rua principal de Formoso onde o ônibus estacionou, entrei no hotel cujo dono me entregou a chave do quarto, me apontou o acesso e voltou para o sofá da sala. As várias portas do hotel para a rua jamais se fechavam. Não havia porteiro. A cidade não oferecia riscos.
Retirei outro carrapato, oriundo das trilhas pelo parque nacional Grande Sertão Veredas.
Na manhã seguinte caminhei pelas estradas de acesso e pelas ruas e pracinhas da cidade, levemente inclinada rumo à vereda ao norte, já quase na divisa com o estado de Goiás. Raras casas antigas ou velhas, ruas novas e arborizadas, pequeno comércio, bares e lanchonetes na rua principal. Formoso era ideal para parar, relaxar, puxar assunto com os moradores, deixar o tempo passar sem pressa, tomar cachaças de primeira. E o hotel, sem o dono ou qualquer funcionário, se mantinha de portas abertas, permitindo o acesso a todos os interessados e curiosos.
Após o almoço me recolhi ao hotel a fim de, acompanhando boa parte dos formosenses, fazer a sesta como se deve.
Bem cedo deixei a chave na porta do quarto, não acordei ninguém e andei até o ponto de partida do ônibus. Durante o embarque, um rapaz mudo, popular na cidade, morador de Brasília, descrevia do jeito que podia as aventuras sexuais durante o fim de semana. Com ruídos guturais, gestos com as mãos, trejeitos e caretas, entrava em detalhes da abordagem, das danças, dos abraços e beijos. Os passageiros prestavam atenção com curiosidade.
O veículo saiu lotado com passageiros em pé, que logo desembarcariam para serem substituídos por novos, também de pé, espalhados ou esmagados pelo corredor central. De vez em quando eu ouvia os gemidos do mudinho sentado mais no fundo, provavelmente continuando as descrições das cenas picantes com as paqueras. Logo após a partida entramos em Goiás, em Sítio d’Abadia. As cidadezinhas começaram a aparecer, invariavelmente pequenas, arrumadas, limpas. Ao redor, o cerrado e fazendas de gado.

Após parada em Mambaí, desembarquei na rodoviária de Alvorada do Norte à espera do segundo ônibus. Belisquei qualquer coisa e esperei sentado nos bancos de cimento da estação. Aproveitei para observar os dormitórios nas imediações, dos quais saíam casais ou mulheres com pouca roupa e muita maquiagem.
O ônibus partiu e logo parou para almoço em restaurante sujo na divisa entre Goiás e Bahia. Optei por meia dúzia de bananas maçã, oferecida logo na entrada. Eu e muitos passageiros nos indignamos com a cobrança pelo uso do banheiro local e utilizamos o do ônibus mesmo.
Já na Bahia, a rodovia subiu a serra, em cujo alto, ao longo do chapadão, entrou novamente no sinistro e assustador mundo do agronegócio, desta vez no sudoeste baiano. Monoculturas sem fim e sem trabalhadores rurais, devastação total do cerrado, trechos com eucaliptos ou pinus, enormes galpões de metal, propagandas de transnacionais como Bunge, New Holland, Syngenta, entre outras, além de anúncios de agrotóxicos de vários tipos. Quase não se viam pessoas, tudo mecanizado e apenas o mínimo do mínimo de mão de obra. Os duzentos quilômetros do ramal para Correntina se mostraram de uma monotonia sem igual. Monoculturas de ambos os lados, deserto humano, tristeza e desolação. Nenhuma cidade ou vilarejo. Nada. Somente pouco antes da chegada o cerrado voltou a predominar, com vegetação retorcida e de pequeno porte.
O quarto da pousada em Correntina estava infestado de nuvens de muriçocas. Pó preto se acumulava nos cantos do piso decorrente de fissuras nas paredes. A pia do banheiro estava entupida. A ducha do chuveiro espirrava água para todos os lados, menos para baixo. Coloquei o repelente de tomada e não surtiu efeito. As muriçocas reinavam absolutas no quarto e no banheiro. Mantive as janelas fechadas, o ar condicionado ligado, o repelente na tomada, e saí para dar uma volta.
Os fundos da pousada davam para a margem do rio das Éguas, com corredeiras, pedras, curvas, correnteza forte, belíssimo naquela luz de fim de tarde. Não poderiam faltar os bares na beira com direito a som alto de música para lá de descartável. Em competição, veículos estacionados detonavam, dos alto-falantes instalados nos porta-malas abertos, mais lixo comercial. Pessoas se banhavam nas águas entre as pedras. Lavadeiras esfregavam e enxaguavam roupas. Os mais chapados requebravam o esqueleto, dentro e fora d’água.
A frente da pousada dava para a praça da Matriz, atrás da qual subiam ruazinhas estreitas, casario antigo, tudo em terreno inclinado, morro acima. Ali Correntina era mais calma, mais humana. Troquei frases com morador histórico da cidade, de mais de 80 anos de vida, cheio de “causos” para contar, desde a emancipação do município, os garimpos de ouro, os indígenas, os animais de caça. Muito simpático e falante, rendeu bons momentos de aprendizado sobre a cultura local naqueles dias.
E enfrentei novamente a nuvem de muriçocas no quarto do hotel. Voavam e esbarravam em mim, mas até aquele momento ainda não tinham me picado. Cheguei a me barbear, lavar roupas, tomar banho, e nada de ataques.

Correntina acalmou-se assim que escureceu. Os bares na beira do rio fecharam, os veículos de porta-malas abertos debandaram, o local se esvaziou tornando-se mais bonito, apenas com o som das águas agitadas do rio das Éguas. As ruazinhas estreitas e inclinadas nas imediações da praça da Matriz ficaram desertas, valorizando o casario, os becos, o conjunto arquitetônico.
Refrescou durante a noite, mas as muriçocas permaneceram no quarto. O incrível é que centenas delas, que sobrevoavam o quarto e o banheiro, ou simplesmente estacionavam nas paredes e teto, não me picaram. Aproveitei para abrir todas as janelas e assistir algumas debandarem para o frio da madrugada.
A sonoplastia da casa vizinha, naquele início da manhã, vinha de legítima música caipira da estação de rádio local. Era o oeste baiano que, assim como os mineiros do noroeste, os gerais de ambos os lados da fronteira estadual, giravam em torno da cultura goiana e brasiliense.
Caminhei bastante pelas margens esquerda e direita do rio das Éguas. Parte pelo estreito calçadão, por onde os moradores circulavam em passeios ou em exercícios físicos, parte pelas trilhas no meio da mata ciliar. O rio era deslumbrante. As águas cristalinas, as corredeiras, as pedras, as pequenas quedas d’água, as minúsculas enseadas. Em ambas as margens, de maneira esparsa, lavadeiras, acompanhadas ou não pela família, faziam o serviço diário. As águas límpidas eram um convite a entrar, mergulhar, ouvir o som da correnteza, aqui ou ali, bastando escolher o ponto favorito.
Pena que rio acima surgiam cercas de propriedade privada impedindo o acesso público. Pelos mapas, o rio das Éguas nascia acima da zona de monoculturas das transnacionais do extremo oeste da Bahia. Ao utilizarem agrotóxicos, desmatarem o cerrado, introduzirem plantas exóticas na região, como eucalipto e outras espécies plantadas, como ficaria o impacto socioambiental no rio das Éguas, nos demais rios e riachos que correm no mesmo sentido, todos desaguando no São Francisco? Como estariam as comunidades que vivem das águas e dos peixes dos rios?
Na região do mercado municipal, mais moderna, mais movimentada e mais feia que o centro antigo, além dos produtos tradicionais vendidos, bancas ofereciam almoço com churrasco grelhado na calçada.
Consertei o entupimento na pia do banheiro do quarto do hotel, retirando o excesso de cabelos acumulados há tempos. A moça da limpeza lavou o chão e os móveis, deixando o ambiente mais apresentável. O chuveiro, no entanto, continuava péssimo. Tentei desenroscar a tampa de baixo para limpá-lo, mas nem se moveu. As muriçocas, em menor quantidade, pela limpeza, pela utilização do quarto, pelas janelas abertas, continuavam presentes, voando, pousando, e nada de picadas.
À tarde escolhi pequena enseada na margem direita do rio das Éguas, a montante da última passarela, e me deixei ficar ali, entre mergulhos, relaxadas sobre a pedra arredondada, com os pés submersos, até o sol se esconder atrás das árvores da margem oposta.
Degustei suculenta moqueca de pescada amarela, precedida de duas doses de cachaça artesanal, e sucedida pela jarra de suco de graviola, no próprio restaurante da pousada. O dono tinha a mania de colocar sempre o mesmo CD de cantor brasileiro interpretando canções italianas. E tocava dezenas e dezenas de vezes.
Os bares na beira do rio fechavam à noite, pelo menos durante os dias de semana. Caminhar por ali nesse horário era estonteante. O rio das Éguas corria quase no mesmo nível da rua, emitindo o som relaxante das águas agitadas. O céu estrelado, o cheiro de natureza, nenhum outro som vindo da cidade, pouca luz. Eu adorava permanecer ali, sobre uma das passarelas, bem no meio dela e relaxava, relaxava, relaxava...
Nas trilhas e minúsculas enseadas à montante, encontrei concentração de embalagens de camisinhas. Os casais sabiam muito bem aproveitar a vida, escolhendo a dedo o local do amor. Só faltou levar o lixo de volta.
Escolhi prainha do rio das Éguas, com sol e grandes pedras sob a sombra, para me refrescar nas águas frias da manhã. Assim que eu punha o corpo ou simplesmente os pés dentro da água, peixinhos logo me rodeavam. Alguns só me observavam, outros tocavam, os mais ousados, ou as mais ousadas, me beijavam, mordiam.

E começaram a chegar os turistas de fins de semana para lotar os hotéis e pousadas, em carros com placas da região, mas principalmente de Brasília. Casais, grupos e famílias prometiam agitação. E eu, nada interessado nisso, muito pelo contrário, em busca da tranquilidade dos últimos dias do meio da semana, me preparava para partir na manhã seguinte. Bares, fechados durante a semana, abriram, plantaram imensas caixas de som na porta, e dá-lhe lixo comercial baiano.
Ao acordar, ainda sob os lençóis, com a ampla janela aberta sobre a cabeceira da cama, fui presenteado pela entrada de um beija-flor. Batendo velozmente as asas, parou no meio do quarto, observou todo o ambiente e, segundos depois, disparou voando para fora.
Mesmo eu melhorando bastante a qualidade do quarto, entre pequenos consertos, com a entrada de luz e ventilação permanente, o problema da pousada residia no desleixo do arrendatário. Embora de família ligada ao ramo de hotéis e restaurantes em outras cidades, ele não se incomodava com o estado do estabelecimento e culpava os funcionários por tudo. Ainda reclamava que nada tinha para fazer, que o tempo demorava a passar. E se criara em Salvador e passara anos em Goiânia, cidades tradicionais no ramo hoteleiro.
O sujeito me contou como grande proeza ter tomado anabolizantes na adolescência quando começou a praticar musculação em academias de Salvador. Os músculos do braço e do antebraço cresceram mais de dez centímetros em apenas dois meses. Afirmou que na época costumava ter ataques de calor, suor constante, avermelhamento do corpo, taquicardia, tonturas. Garantiu que há anos não ingeria aqueles produtos tóxicos, mas, embora em menor grau, os efeitos colaterais assustadores continuavam e preocupavam.
O ônibus partiu quase vazio para Santa Maria da Vitória, onde embarquei em outro veículo que, via asfalto para lá de esburacado, ao lado de caatinga ou de cerrado, me deixou em Cocos.
continua...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Gerais de Minas e Bahia (parte 1/4)

Nas férias de meio do ano da nova pós-graduação, curso que seria interrompido devido ao conteúdo conservador, racista e conformista, optei por roteiro circular a oeste do rio São Francisco, percorrendo o miolo dos Gerais, o mineiro e o baiano.
O ônibus da monopolista Gontijo partiu de São Paulo no início de julho. Nem desci na desnecessária parada na garagem da empresa em Belo Horizonte. A maioria dos passageiros fez o mesmo. Amanheceu dia límpido nas imediações de Bocaiúva. A partir de Brasília de Minas, o cerrado deu lugar a esparsas manchas de agreste e caatinga.
Desembarquei na rodoviária de São Francisco sob o forte calor do meio-dia. Entrei em restaurante com janelas enferrujadas, centenas de insetos, mortos e vivos, pelos tetos e vidros. Mas oferecia visão privilegiada do rio São Francisco, de ambas as margens, da igreja Matriz da cidade.
À noite nas imediações da beira do rio, silêncio e tranquilidade. Tomei cachaça da roça com lombo de porco e farofa e vinagrete. E divaguei sobre um pouco de tudo.
Amanheceu céu azul e limpo, sol forte, nada de nuvens. São Francisco guardava casas velhas nos arredores da igreja Matriz, pequenas praças, poucas árvores nas ruas. O rio se destacava pela beleza do traçado e pelas águas azuladas. Barcos pequenos transportavam passageiros de uma margem à outra. Os moradores sorriam e cumprimentavam com naturalidade. A cidade se mostrava pacata e silenciosa, mesmo durante o horário comercial. E ainda mais no longo período da sesta.

Ao construir muro de contenção na margem do Velho Chico, a cidade se escondia amedrontada do melhor aliado dela, o rio. Mal se viam das ruas nesgas das águas. Em nada se investia no combate ao desmatamento incessante das margens, ao assoreamento do leito, à destruição de centenas de afluentes, à contaminação das águas, às monoculturas envenenadas de agrotóxicos. Nada de revitalização do São Francisco e afluentes. O rio morria lentamente enquanto o capital construía muros para isolar a população do que ela mais precisava.
Enrolei no quarto do hotel entre as deliciosas páginas de Noites do Sertão, de Guimarães Rosa.
Embarquei em ônibus rumo aos Gerais. Após cruzar de balsa o São Francisco, o veículo partiu em estrada plana, sem pavimentação, arenosa, cruzando o cerrado do noroeste mineiro.
Raríssimas casas, somente árvores retorcidas, esparsas porteiras de propriedades cercadas, nenhum ser humano. O vilarejo de Serra das Araras se erguia aos pés do morro que lhe dava o nome. Anoiteceu antecedido de pôr-do-sol com direito a cores púrpuras acima do horizonte. Nas imediações de Chapada Gaúcha, a presença fúnebre da praga socioambiental, a monocultura para exportação de soja, cercando tudo, até a primeira rua da cidade, sufocando a população. Desembarquei na calçada vazia da longa avenida principal, de onde avistei pousada simples, tocada por uma família gaúcha.
Segui pela avenida rumo à churrascaria, de gaúchos de Cruz Alta, terra de Érico Veríssimo. O estabelecimento oferecia diversos tipos de comidas, menos churrasco. Pedi cachaça de alambique ao garoto loiro que me atendeu. Cachaça branca, artesanal mesmo, que mereceu outras doses.
Chapada Gaúcha era plana, espalhada, sem graça, com cara de nada. Fundada a partir de projeto de colonização agrícola na década de 1970, com o afluxo de famílias gaúchas, somente no século XXI recebeu população de mineiros, oriundos de cidades e vilas próximas, em busca de trabalho. Os prefeitos antigos, todos gaúchos e grandes proprietários de terra, desviaram verbas públicas para as monoculturas de soja e capim. E nada para a cidade. As monoculturas, oprimindo as demais atividades da cidade, traziam consigo miséria e os venenos dos agrotóxicos borrifados em abundância. Somente após a eleição de prefeito de origem regional se investiu na cidade e principalmente nos moradores, asfaltando a avenida eixo da cidade, até então de terra. E a única praça da cidade teve que esperar o prefeito mineiro para ser construída.

Os lugares mais atraentes do parque nacional Grande Sertão Veredas ficavam a dezenas de quilômetros de distância. Somente veículos particulares com tração nas quatro rodas para atingi-las, a preços para lá de indecentes. E ninguém por perto a fim de dividir a facada. Surgiu a caminhada a partir da cidade para explorar a extremidade sudeste do parque, acompanhado do guia credenciado pelo IBAMA.
A primeira parte, através de estradinha de terra, acompanhou desoladoras plantações de soja e capim. Ao entrar na área do parque propriamente dito o cenário mudou radicalmente, e para melhor. Cerrado ainda verde pelas chuvas do mês anterior, pequenos morros, baixadas cortadas por veredas ornamentadas de buritizais, pequizeiros e diversas vegetações típicas do ecossistema compunham a natureza primária. Na estação de observação um funcionário do IBAMA detectava possíveis focos de queimadas e avisava por rádio imediatamente à central do parque. As veredas com dezenas de buritis carregados de frutos davam espetáculo à parte. Ao longo delas, água corrente e fresca, levemente ferruginosa, ótima para beber e se refrescar do sol quente. Os cupinzeiros revirados e esburacados revelavam presença recente de tamanduás famintos por formigas. Rastros de tamanduá bandeira, veados, cobras, antas, cantos de araras e jandaias, voos rasantes de gafanhotos que serviam de alimento às seriemas.
A trilha íngreme conduziu ao topo do morro Três Irmãos, de onde se tinha visão panorâmica de mais morros, mais veredas, mais vales, o cerrado a perder de vista. Descanso merecido sobre a pedra no alto do morro antes de tomar o caminho de volta à inóspita cidade de Chapada Gaúcha.
O guia, assim como os demais funcionários do IBAMA, da fundação, dos terceirizados das brigadas de incêndio, eram mineiros da região, simpáticos, hospitaleiros, acolhedores. Os gaúchos, alheios e inimigos da preservação socioambiental e do parque nacional, se interessavam somente pelas monoculturas de soja e capim, pelo uso intensivo de agrotóxicos que envenenavam a população da cidade, e em manter a arrogância e o racismo.
Vândalos agindo dentro do parque nacional haviam sido presos em flagrante naquela tarde, com barcos, material de acampamento noturno, armas, caixas lotadas de peixes recém-pescados e um jacaré já com o próprio couro arrancado. Seriam enquadrados em vários artigos da Lei de Crimes Ambientais e aguardavam detidos na delegacia da cidade. Os criminosos moravam em Chapada Gaúcha e eram todos gaúchos.

Vários trabalhadores que atuavam junto ao IBAMA concordavam que existia segregação oficiosa na cidade. De um lado, a classe dominante gaúcha mantinha as monoculturas e a destruição do ecossistema local. Do outro, a classe explorada de mineiros, empregada ou subempregada, pobre e miserável, discriminada dentro do próprio estado. E apenas mineiros entre os que lutavam pela defesa da sustentabilidade socioambiental do cerrado do parque nacional Grande Sertão Veredas.
Essa mesma situação se repetia onde gaúchos ou outros sulinos se implantaram nas colonizações agrícolas como grandes proprietários de terra, ou simplesmente grileiros, devastando e infestando a natureza com monoculturas contaminadas por agrotóxicos, no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, sul do Amazonas, sudeste do Pará, sul do Maranhão, oeste da Bahia.
O ônibus cruzou a paisagem triste e deprimente do agronegócio engolindo o cerrado devastado. Plantações sem fim de soja e capim, enormes armazéns e silos, maquinas barulhentas, pouquíssima mão de obra empregada. À medida que a estrada começava a descer, a serra ressurgia imponente com o cerrado esparsamente povoado.
Desembarquei no terminal rodoviário de Arinos, cidade no vale do rio Urucuia.
À noite percorri a avenida de entrada da cidade, larga, com substancioso canteiro central, arborizada, com pista para caminhadas e corridas. A avenida terminava na praça da igreja Matriz, um monstrengo acastanhado, moderno e horroroso, tendo em frente praça ampla, quebrada, abandonada. O restaurante frequentado por faixa etária mais alta servia tira-gostos e pizzas no forno à lenha. O céu limpo e coberto de estrelas parecia tocar meu rosto.
Pela manhã saí para caminhar a esmo e tentar encontrar alguma estradinha ou trilha no meio do cerrado. Arinos guardava urbanismo com traçado definido, ruas arborizadas, praças aconchegantes, calçadas em condições de uso, comércio distribuído. O relevo aplainado caía suavemente rumo à Vereda da Vaca, recheada de buritis e protegida como reserva ambiental.
Do outro lado da vereda, arrisquei algumas estradinhas estreitas de terra e trilhas, mas logo terminavam em cercas de propriedade privada. Ao fundo, a serra extensa e, antes, o vale do Urucuia. De vez em quando duplas de araras cruzavam o céu com cantos estridentes. Atravessei a vereda por ponte velha de madeira, encontrei conjunto de casas simples, uma rampa íngreme de barro e, finalmente, o Urucuia, de águas esverdeadas, límpidas e convidativas, sem praia, com alertas de riscos de afogamento.
As diversas propriedades privadas, uma ao lado da outra, nas margens do rio, bloqueavam o acesso da população às águas que banhavam a cidade. Acessos públicos ao rio, somente distantes. E viva a propriedade privada da terra!

Eu me impressionava com a tamanha calma, tranquilidade e silêncio da cidade, inclusive no auge do horário comercial. Nem parecia que a cidade funcionava a pleno vapor. E à noite o silêncio se acentuava. Era fascinante caminhar pelas ruas do centro ao som da brisa e sob a luminosidade do céu absurdamente estrelado.
Durante o jantar, na mesa ao lado, três latifundiários chegaram de caminhonete cabine dupla, enorme, mais parecendo um navio. Os três vestiam calças, camisas e chapéus completamente iguais, da mesma marca visível pelas etiquetas. Sentaram-se e em seguida apareceu o quarto elemento, advogado, corretor de imóveis, conselheiro ou coisa parecida. Logo iniciaram debates a respeito de compra, ou grilagem, de novas propriedades de terra pelos três latifundiários uniformizados. Os números navegavam em milhares de hectares e o grupo tratava como se fossem terrenos de cem metros quadrados.
E não é que a monstruosidade moderna, a matriz de Arinos, lotou na missa de domingo à noite? Até a praça ampla, mas completamente abandonada, sem árvores, com bancos quebrados, sem jardins, também criou movimento anexo à cerimônia. Pela cantoria excessiva e pouca conversa, a missa parecia ser da linha fundamentalista do catolicismo.
Estanquei na rodoviária muito cedo. O friozinho da manhã me fazia esperar ansioso o sol nascer. As faxineiras iniciavam a lavagem dos pisos e plataformas da estação.
O ônibus partiu cedo. Em meio a cochiladas, apreciei a paisagem do cerrado, as plantações de capim, a serra em descida sinuosa, o sol fraco começando a espantar o frio. Desembarquei na rodoviária de Buritis. Só haveria ônibus para Formoso no meio da tarde. Deixei a bagagem no guarda-volumes e caminhei sem roteiro pelo centro da cidade para passar o tempo, muito tempo.
continua...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Sertões de Minas e Bahia (parte 5/5)

...continuação
Segui ao bar com música ao vivo, onde diversos artistas regionais prestavam homenagem a Cláudio Barris, músico uauaense talentoso, dono de voz e ritmo suaves, rico melodicamente. O ambiente frequentado pela elite da cidade mergulhou no excesso de álcool, gritarias, danças histéricas e delírio geral.
Os quiosques e as praças novas e peladas da cidade enchiam de gente de todos os tipos e idades, movimentando e alegrando a noite de domingo, sempre a mais prestigiada dos interiores.
Acordei cedo em tempo de circular pela feira semanal. As comunidades urbanas e rurais afluíam para vender e comprar em meio à abundância de produtos frescos, animais, vegetais, manufaturados, contrastando com a carência e miséria geral da região. O orgulho de se depararem com gêneros diversos tornava a feira acontecimento grandioso e ansiosamente esperado.
Embarquei no meio da manhã cruzando o sertão ressecado pela estrada de chão até o entroncamento em Bendegó. O ônibus tomou então o asfalto, por entre caminhões e carretas em tráfego pesado. Chegada a Euclides da Cunha a qual, de atraente, só tinha o nome. Nem deu tempo de tirar água do joelho. O outro ônibus encostou e embarquei imediatamente. A estrada cruzou paisagem similar ao agreste, em meio a ouricuris, arbustos verde-acinzentados. Nada de água em riachos ou lagoas. Os animais padeciam na busca do que comer no terreno sem capim. Bodes e cabras, normalmente resistentes ao clima semiárido, mordiscavam tocos de madeira queimada. O ônibus passou reto pela aparentemente abandonada estação rodoviária de Monte Santo, me deixando na praça central da cidade.

A visão das ruas estreitas de onde inicia o caminho para subir a via sacra ao monte santo, o próprio, cortado pela escadaria branca e íngreme, prometia intensas emoções para o dia seguinte. A praça da Matriz, ampla, limpa, arborizada, apesar das tenebrosas mutilações geométricas das árvores, exibia monumento em homenagem aos mortos do massacre da vila de Canudos pelo exército brasileiro. E foi exatamente Monte Santo a principal base de suporte às tropas federais e estaduais durante os bombardeios visando exterminar aquele foco de rebeldia ao sistema dominante do final do século XIX.
Ventou forte e fresco durante a noite. A maioria do comércio fechou cedo, inclusive bares e restaurantes. A cidade mergulhou no silêncio absoluto, tendo ao fundo e acima todo o caminho sagrado iluminado, sobretudo os oratórios, as capelas intermediárias e a igrejinha final, situada no topo do monte santo.
Tomei café da manhã na improvisada cozinha do hotel. Sendo o único hóspede, comi ao lado de duas idosas, sisudas e caladas. Mas a ajudante me preparou dois suculentos ovos fritos.
Por trás da igreja Matriz, desgraçadamente moderna, no fim de rua estreita e inclinada, iniciava a via sacra para subir o monte santo. O caminho, calçado de pedras irregulares na primeira parte do trecho, depois traçado sobre a própria rocha da montanha, media cerca de três quilômetros. Após o começo em subida puxada, em seguida à primeira capela, o trajeto dobrava bruscamente e tornava-se mais gradual. Dezenas de oratórios se postavam em ambos os lados, geralmente com muita vela derretida, cruzes ou pequenas imagens na parte de dentro. Do lado de fora, ao lado da primeira capela, fotos e imagens de santos e do padre Cícero apoiadas nas reentrâncias do paredão rochoso. À medida que subia, o vento aumentava furiosamente, refrescando e aliviando o esforço, me obrigando a enfiar e segurar com insistência o chapéu na cabeça. Adiante das pedras que margeavam os dois lados da via, a caatinga cinzenta mostrava força. Atingi o topo, composto da capela principal, armazém de mantimentos fechado, gerador de eletricidade, torre de aço. Dali do alto, bem alto por sinal, se tinha visão privilegiada de Monte Santo, das estradas que lhe dão acesso, dos campos, de outras montanhas, do imenso sertão.
Permaneci sentado horas na soleira do portão do adro da igreja, ajustando os pensamentos, liberando-os, sem restrições. O vento fustigava sem parar de todos os lados. Não havia naquele momento sede, fome, cansaço, qualquer preocupação com o tempo. Apenas a deliciosa sensação de liberdade e a completa ausência de compromissos.

Já de volta à cidade, entrei em restaurante e bebi litros de líquidos antes de pedir algo para o almoço. Da ponta da mesa, eu conseguia ver o topo do monte santo e a capela branca, cuja alvura se ressaltava com o sol.
Monte Santo mostrava-se calma demais, revelando, talvez, o peso religioso do local. Quase nada se encontrava aberto à noite, nem as padarias, lanchonetes, farmácias. O som do vento predominava enquanto a cidade se recolhia. Dei voltas pelos becos antigos da parte velha da cidade erguida no pé da serra do monte santo.
A cidade contava com empresas de transportes oferecendo linhas de ônibus clandestinos a São Paulo e arredores. Nas paredes dos cubículos onde se emitam as passagens apreciam pintados os destinos exatos, detalhando os bairros aos quais seriam transportados os corajosos passageiros, principalmente às zonas sul e leste de São Paulo, periferia de Guarulhos, demais subúrbios.
Surpreendentemente, pela primeira vez naquela viagem, consegui me deslocar entre duas cidades em ônibus direto, sem necessidades de trocas ou conexões. A paisagem aplainada pela janela do ônibus, seca, sobre terreno arenoso e esbranquiçado, cobria-se de ouricuris ao longo de campos cinza-esverdeados, entre esparsas plantações de sisal.
Após a passagem por Cansanção, desembarquei na praça da Matriz em Queimadas. Nada de hotel ou pousada nas proximidades. O funcionário da agência de ônibus me indicou duas possibilidades na saída da cidade. Peguei moto-táxi e optei, por absoluta exclusão, por pousada básica na beira da estrada. A placa em destaque na entrada, ressaltando o funcionamento 24 horas, não deixava dúvidas quanto a real utilização do estabelecimento. Embaixo, estacionamento e depósito de bebidas, a rodovia em frente, bar e ponto de putas do outro lado do asfalto. Meninas, escandalosamente menores de idade, entornavam copos de cerveja com olhares perdidos. E o relógio ainda apontava meio-dia.
Queimadas, a mais jeitosa e urbanizada das cidadezinhas pelas quais passei a trabalho quase trinta anos antes, tornou-se pura decepção. Até mantinha casarões antigos, mas ficou feia, suja, sem cara de nada, desorganizada, largada, abandonada. Árvores esparsas e absurdamente mutiladas não ofereciam a sombra tão almejada. Pobres e miseráveis se amontoavam nas praças peladas a espera de não sei o quê. Talvez esmolas da administração municipal, da qual não notei sinais de atuação. Encontrei o hotel no qual eu costumava me hospedar naqueles tempos. O casarão defronte à pequena praça estava vazio, abandonado, à venda.

Assim que retornei à pousada, debaixo de sol abrasador, no bar do piso térreo, entre tijolos à vista e ares de inacabado, duas putas acompanhadas dos respectivos proprietários me lançavam olhares interessados entre olhadelas compulsivas aos telefones celulares. Matei a sede no bar do outro lado da estrada e a situação era a mesma.
Nem precisaria informar que aquela cidade catastrófica não possuía rodoviária. Na agência de ônibus, funcionando também como ponto de jogo do bicho, conversei com o senhor responsável pela emissão das passagens e pelas apostas. Segundo ele, Queimadas já não era a principal produtora de sisal da América como no início da década de 1980. Os proprietários trocaram as plantações, que tão bem se adaptaram ao clima local, por capim e gado. E se deram muito mal. A seca prejudicava e secava o capim. O gado, sem o capim, morria. Incompetência estúpida do capital privado e ausência total de políticas públicas para nortear a economia regional. E, para complicar a situação, os proprietários de terra desmatavam sem critérios a vegetação nativa, inclusive árvores frutíferas como o umbuzeiro, vendendo-as como lenha na cidade. Os latifundiários davam tiro no próprio pé ao lado da omissão criminosa do Estado. Sucessivas administrações municipais desastrosas abandonaram Queimadas à própria sorte, permitindo que ela chegasse ao caos que chegou. E o povo de Queimadas assistia a tudo sem dar um pio.
Depois de atravessar a pequena e simpática cidade de Itiúba, aos pés da serra de mesmo nome, entre outras imagens de destaque, o ônibus me deixou no centro de Jacobina, cidade rodeada de montanhas rochosas, com escarpas íngremes e trilhas instigantes a serem exploradas, ideal para me reter por bons dias.
O principal da noite de Jacobina acontecia no Alto da Missão. Bares e restaurantes ofereciam o que eu precisaria nas próximas noites. Faminto e carente da boa comida, eu me aconcheguei em mesa sob as árvores frondosas, comi picanha na chapa com arroz e feijão tropeiro. Parei na segunda caipirinha somente porque acabara a cachaça do estabelecimento. O vento uivava e deixava o ar fresco.
Logo pela manhã encarei a escadaria do morro do Cruzeiro, via degraus altos, exigindo impulso para superá-los. Milhares de fiéis costumavam subi-los na noite de quinta para sexta-feira santa, fornecendo imagem impressionante de velas e tochas acesas por todo o trajeto, conforme foto na portaria da pousada. O topo valeu pela vista panorâmica de toda a cidade, dos vales estreitos e profundos cortando as montanhas, pelas quais me empolguei a explorar.
Escolhi a esmo um dos vales avistados e botei as pernas para trabalhar. O calçamento acabou após ruas em desnível. Segui pela estradinha acima. Para minha sorte, movimento zero de motos, carros ou outros veículos incômodos. A estradinha estreita e margeada de perto pela floresta quase tropical subia sem tréguas pelo fundo do vale. Cercas e casinhas muito simples, somente no alto da serra. Íngremes paredões rochosos marcavam o contorno do vale. Após o passo, optei pela trilha que conduzia à cachoeira com queda pequena e convidativa sobre poço escuro. Entrei pelado para me refrescar e apreciar o vale por onde descia a água e os paredões de rocha exposta. A água fresca tirou o suor e a poeira do corpo, repondo as energias para prosseguir a caminhada. Retornei à estradinha e acessei a trilha de outra cachoeira, trilha esta merecedora do nome. Longa, fechada, em descida sobre encosta abrupta mergulhando ao fundo do vale, entre arbustos e pedras soltas. Atingi o fundo da garganta pela qual corria razoável volume de água. Andei sobre as pedras no sentido da correnteza até o ponto onde se formava a queda d’água em poço bem abaixo, prosseguindo pelo vale estrangulado pelos paredões.

Ao retornar, meus pés cobriam-se de poeira preta, as papetes escorregavam nos pés pela transpiração, as pernas bambeavam, eu pingava de suor. Entrei sem fome na primeira lanchonete que encontrei no calçadão do centro de Jacobina e liquidei em segundos a garrafa de um litro e meio de água. Na mesa ao lado, três idosos relembravam fofocas e intrigas das últimas eleições municipais. Um deles, o mais velho da mesa, desconsolado, lamentava os parcos trinta e oito votos recebidos para vereador. Os outros o aconselhavam a se preparar melhor para a próxima, se aproximando das pessoas certas e influentes da cidade.
Jantei novamente no Alto da Missão com mais movimento que na noite anterior. O vento incomodava, não pelo frio, mas pela violência das rajadas. A maioria dos frequentadores, no entanto, não se importava e curtia a noite, animada com música ao vivo ao lado da igreja.
O quiosque de informações turísticas, mantido pela prefeitura de Jacobina, foi estranhamente cedido à agência privada de turismo de outra cidade. Em flagrante promiscuidade entre o público e o privado, usando dinheiro público, a raposa da agência nada informava de interesse geral. Os guias adolescentes não dispunham de mapas, croquis ou qualquer dica útil sobre as trilhas ou cachoeiras dos arredores. Por outro lado, a tal agência vendia serviços de guias a preços salgados.
Deixei o quiosque privatizado e caminhei a outro vale. A estradinha coberta de cascalhos subia gradualmente ao lado do rio do Ouro, córrego com pedras, corredeiras e águas avermelhadas. Passei ao lado de duas pequenas represas pertencentes à antiga Companhia de Força e Luz de Jacobina. A estradinha se estreitava, ora no mesmo nível do rio, ora metros acima, até cortá-lo mais à frente, onde havia blocos de pedras de antigos trabalhos de garimpo ou pesquisa mineral. Poucos metros adiante do riacho, a trilha se fechou de vez, praticamente desapareceu. De ambos os lados do vale, encostas íngremes e rochosas das serras que cercam a zona urbana, gargantas estreitas cortando os paredões.
De volta à cidade, relaxei sob as árvores em frente ao bar, entre caipirinhas, desgraçadamente coadas e com gelo picado, saborosa carne de sol, sombra refrescante, visual preguiçoso do final de tarde. O céu limpo e a luz inclinada do sol imprimiam belos tons de cores nos paredões das serras.
Justifiquei rapidamente a minha ausência no segundo turno das eleições municipais no cartório eleitoral. E imediatamente botei o pé na estrada, a mesma de dias antes.
A cachoeira menor recebia uma família acolhedora, com panelas, fogo, comida. Decidi pegar o caminho longo com visual estonteante das montanhas e das gargantas. A trilha bastante inclinada levou ao poço no pé da cachoeira, bela apesar do pouco volume de água. Sombras em meio a árvores garantiam o conforto necessário. Depois de horas de banhos, preguiça e conversas soltas, refiz a mesma trilha da ida, peguei a estradinha de volta e mergulhei de cabeça em comida substanciosa na cidade.
Decidi encerrar no ápice aquela viagem pelos sertões de Minas Gerais e Bahia. Comprei passagem para São Paulo na única empresa que atendia Jacobina, a monopolista Gontijo.
O assento livre ao lado me permitiu esticar as pernas e ficar mais à vontade. Os homens do fundo do ônibus vomitavam chavões machistas, previsíveis, sem qualquer humor. Preferi cochilar e apreciar a paisagem, especialmente nas imediações do vale do Jequitinhonha, guardando relevo acidentado, montanhas, esquisitas formações rochosas.
Desembarquei no terminal rodoviário do Tietê em São Paulo, em finais de outubro, depois do sempre crônico congestionamento ao longo da marginal Tietê. Mas ainda carente de mais incursões ao norte de Minas Gerais.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Sertões de Minas e Bahia (parte 4/5)

...continuação
Falante e comunicativo, o proprietário do restaurante me convidou à roça. Em meio a mil ideias e planos de cultivar frutas variadas na terra, por enquanto apenas rascunhos de ameixeiras, pessegueiros, bananeiras, mangueiras, gravioleiras, quase todas atacadas impiedosamente por formigas substanciosas. Vacas paridas cambaleavam no fundo do terreno fortemente inclinado, onde corria vale de rio seco, mas do qual se obtinha água a menos de um metro de profundidade. No terreno vizinho, marmeleiros semiabandonados entre hortas bem cuidadas.
O lixão da cidade de Morro do Chapéu, implantado no alto do morro, bancado pela administração municipal, inclusive pelo prefeito eleito, gerava chorume e contaminava nascentes de água que cruzavam roças, inclusive as que abasteciam comunidade quilombola.
A rodovia estreita, asfaltada e cheia de buracos subiu mais a colina, ultrapassando a altitude de Morro do Chapéu, percorrendo o altiplano em solo pedregoso com vegetação acastanhada e monótona. Plantações de sisal predominaram na segunda metade da viagem. O ônibus entrou na pobre e triste Várzea Nova antes de descer a serra íngreme e sinuosa, já com a visão da cidade de Jacobina ao fundo do vale, cercada por enormes paredões de rocha, serras alongadas, vales estreitos e profundos. Muitas ladeiras e morros, casas nas encostas abruptas, escarpas rochosas, o traçado sinuoso da cidade, faziam de Jacobina local instigante para explorações. Subiu e desceu muita gente durante o percurso por vales férteis, verdes, mas pouco plantados. Corria água nos rios e riachos.

O ônibus entrou em Senhor do Bonfim no meio da tarde. Saí imediatamente às ruas, pois queria encontrar, antes de fechar o comércio, colega dos tempos em que morei na cidade quase trinta anos antes. De loja em loja, de casa em casa, me deparei com a mãe dele me informando que ele saíra.
O amigo apareceu no hotel antes de escurecer. Magro e envelhecido demais, completamente calvo, adoentado, mas feliz em me rever depois de tantos anos. Sentamos em bar ao ar livre, dos poucos quase intactos desde que deixei a cidade, a fim de tomarmos goles e matarmos as saudades. Após descrevermos por alto a vida de cada um, perguntei pelos amigos e amigas. A maioria ainda morava e trabalhava em Bonfim, casados, separados, com ou sem filhos. Outros se mudaram. Três casos, no entanto, me chocaram.
Um tornara-se caminhoneiro com o pai. Anos antes, quando cruzavam o oeste baiano, foram assaltados nas proximidades de Barreiras. E assinados. Pai e filho permaneceram desaparecidos por muito tempo. O caminhão e a carga jamais foram encontrados. Pedaços irreconhecíveis dos corpos apareceram tempos depois. Farrapos de roupas e restos dos calçados auxiliaram no reconhecimento das ossadas e da carne em decomposição.
Um homossexual famoso na época, além de se relacionar com meninos, intermediava mulheres casadas que queriam pular a cerca. Um dos maridos descobriu o esquema, encomendando a execução do agenciador. Mas não uma morte qualquer. O tal foi esquartejado em dezenas de pedaços.
Uma garota também tivera fim trágico. Meu amigo não soube precisar quando, mas ela, que jamais se casou, se suicidara ateando fogo ao corpo embebido em álcool.

Naquela noite, eu e ele marcamos ponto em três bares, bebemos bem, comemos, enchemos a barriga. A emoção do reencontro com a cidade de Bonfim, com o colega, as doses e mais doses nas mesas dos bares, a carne de sol no ponto, as bonfinenses sensuais, no entanto, não conseguiam afastar as imagens dos destinos tenebrosos daquelas três histórias.
Andamos sem rumo e sem pressa pelo centro comercial, pela feira ao ar livre, extensa, variada, uma das maiores da região. Tentamos encontrar outro amigão das antigas, mas de cuja casa ninguém tinha o endereço, nos obrigando a vagar a esmo e esperar a sorte de encontrá-lo nos lugares mais prováveis.
Mais à noite reencontrei o colega completamente bêbado, não falando coisa com coisa, ziguezagueando. Ainda assim, insistiu em novas explorações etílicas. Ao ar livre houve festa organizada pelo prefeito eleito, para a qual foi convidada banda de axé sobre gigantesco trio elétrico. A galera mais jovem, catalisada pelo álcool e outros aditivos, pulava e atendia obediente aos apelos do vocalista:
“sai do chão!”, “tire o pé do chão!”, “levanta a mãozinha e bate na palma da mão!”.
Suportei pouco aquela mesmice do lixo descartável da indústria cultural.
No dia seguinte, implorei ao colega para repetir a história triste da amiga que se suicidara. O danado repuxou da memória e acabou lembrando que aquele fim trágico ocorrera com outra mulher, de nome diferente, nem era morena, nem usava cabelos curtos, nem nada. Porra...
Inaceitável era a poda criminosa e de extremo mau gosto das árvores ao longo de ruas, avenidas e praças da maioria das cidades interioranas. Tratava-se de mutilação, sem falar que o bem mais procurado e precioso, a sombra, ficava comprometido. As administrações municipais reduziam árvores frondosas a minúsculos cubos, cones, esferas, corações e outras formas ridículas. As cidades, por conta disso, continuavam tórridas, feias, cinzentas, sem as tão desejadas sombras.
Outro amigo antigo apareceu com o colega. Demos voltas pela cidade nos lembrando dos velhos tempos. E, afinal, quem aparecia em foto histórica tirada durante as festas juninas da época, com seis de nós, era ele e não o tragicamente assassinado com o pai, como eu supunha inicialmente.
No início da noite encontramos outro colega. A conversa ia bem até ele desandar a matraquear sobre os conchavos e traições durante a campanha eleitoral. O tema simplesmente o obcecava. O primeiro colega se antecipou e picou a mula. A situação tornou-se insuportável quando sobraram apenas eu, ele e o antigo correligionário da campanha eleitoreira. Nada de projetos ou propostas políticas para a população. Apenas quem ajudou quem, quem traiu quem, quem se aliou a quem, quem debandou. Baixa politicagem, nada mais.
A caatinga e a poeira das estradas de chão me chamavam. Os colegas apareceram para se despedir. Prometemos manter contato.

A lotação saiu rumo à vila de Pilar. A rodovia penetrou de vez no coração da caatinga, acinzentada e ressecada, cortada por rios e riachos completamente secos. Serras e serrotes revelavam encostas pedregosas.
Cidadezinha planejada para atender à empresa de mineração quase ao lado, Pilar horrorizava em praticamente tudo. Espécie de rascunho em miniatura e mal feito de Brasília, com traçado quadriculado e quadras de apartamento na parte central, a vila guardava aspecto desolador no meio daquele sertão. Nada de verde, nada de praças, nada de acolhedor, nada de nada. Pilar mais parecia cenário de filmes de horror nos quais o personagem, desesperado, se vê em pesadelo, sem saída, perdido pela vila deserta, morta, cinzenta, sem habitantes ou alma viva sequer. Sentei no meio daquela pasmaceira aguardando o segundo transporte.
Após o ônibus passar ao lado da entrada da mineradora, o asfalto acabou e a estrada de chão fascinou pelo contato mais próximo com a paisagem e povoados esparsos. Xiquexiques, facheiros, mandacarus, umbuzeiros, umburanas, favelas, muito espinho, vegetação de médio porte ressecada, exibiam sem disfarces o semiárido nordestino. Bodes e cabras, pouco gado, vaqueiros de gibão e chapéu de couro conduziam rebanhos. Nas imediações de Caldeirão da Serra, serrotes cobertos de pedras e vegetação rala me aguçaram a curiosidade de caminhadas.
Desembarquei em Uauá no fim da tarde ao lado da praça nova, alongada, criminosamente sem árvores. Nada de sombra naquele miolo de caatinga tórrida, onde o sol jamais perdoava. Andei até hotel básico com quartos altos, duas janelas protegidas por telas antimuriçocas e pelas quais entrava brisa constante.
Entrei em restaurante que servia carnes da grelha improvisada na calçada, principalmente a de bode. O vento forte e fresco da noite afastava o calor. As pessoas animavam bares e espaços públicos. O vento frio e seco forçava os mais sensíveis a se protegerem com blusas e gorros. A ventilação natural do quarto do hotel não pediu o ventilador ou o quase sempre supérfluo ar condicionado. De volta ao clima tipicamente sertanejo, seco, poucas nuvens no céu, quente durante o dia, fresco à noite.
Caminhei pela manhã por estradinhas de chão e veredas estreitas em contato íntimo com a caatinga rala, em tons que variavam “radicalmente” do cinza-acastanhado ao castanho-acinzentado. Bandos de bodes e cabras, raros jegues, gado apenas ao longo do rio Vaza Barris, praticamente seco e apenas com poças de água parada, ladeado de várzea fértil e pouco aproveitada. Afloramentos rochosos cobertos de xiquexiques e outros arbustos espinhosos. Umbuzeiros floridos garantiam boas sombras e perspectivas de frutos para daí a meses. Umburanas cujos troncos e galhos pareciam envernizados tal o brilho polido.
Uauá significa vaga-lume, pirilampo, na língua dos habitantes originais da região. A pequena cidade, a capital do bode, contava com centro comercial discreto, sem casario antigo, ruas estreitas, atmosfera sertaneja, povo recatado. O silêncio e a sesta do início da tarde me convidaram a me refugiar do calor infernal no hotel.

Codorna frita com farofa e salada encerraram minha noite em mesas no meio da praça nova, a sem árvores, ventilada, observando o movimento da noite de Uauá.
Optei em caminhar exatamente de onde vinha poeira acastanhada que entrava pelas janelas do quarto do hotel. Passei por dentro do deprimente conjunto de casas populares, gaiolas horrorosas e mal acabadas de amontoar pobres. A estrada de chão, em meio às curvas contornando lajedos e blocos rochosos, descia e cruzava várzea fértil de riacho seco, onde a vegetação se desenvolvia com mais vigor. O verde abundava e até havia gado ao lado dos onipresentes bodes, cabras e carneiros. O relevo subiu novamente antes de despontarem casas e hortas isoladas do povoado de Queimada dos Padeiros, com direito ao cemitério, campo de futebol, capela, plantações de palma, árvores de grande porte cobertas de flores amarelas, de um amarelo bem vivo. Troquei frases soltas com moradores do povoado. Bem mais adiante, sob o sol do meio do dia, após me embrenhar por veredas em meio à caatinga espinhosa, resolvi dar meia volta. No retorno o sol sem nuvens fundiu a cabeça.
Bastava caminhar de chinelo ou papete, me aproximar do clima local, para a rachadura do meu calcanhar desabrochar. Somente quando incomodava demais e eu apelava para tênis e meia, ela dava para trás. Do contrário, o calcanhar dialogava com a caatinga e, assim como o dos sertanejos do local, rachava e abria em verdadeiro intercâmbio físico e cultural.
Apesar da terra de boa qualidade, a ausência de políticas públicas voltadas à democratização do acesso à água e a terra, irrigação de lavouras, armazenamento descentralizado da água, relegava os sertanejos à miséria e ao clientelismo, forçando-os ao êxodo rural e a entupir as periferias urbanas. Enquanto isso, menores de idade se prostituíam nos quiosques do centro de Uauá em troca de presentinhos e agrados diversos, lícitos e ilícitos.
Unidade especial da Policia Militar da Bahia, a Policia da Caatinga utilizava veículos, uniformes e armamentos próprios. Contava com carta branca para perseguir supostos fugitivos da lei, supostos acusados disso ou daquilo, normalmente achados no meio do sertão. A tal unidade jamais prendia ou recolhia os suspeitos vivos. Executava sumariamente e os enterrava lá no mato mesmo. Mas recusava comparações aos esquadrões da morte e às tropas de elite espalhadas pelo Brasil, que também criaram fama por assassinatos em massa sem qualquer tipo de julgamento ou o mínimo direito de defesa aos acusados.
A água encanada de Uauá vinha da cidade de Juazeiro, na margem do São Francisco, através de tubulação de mais de cem quilômetros de extensão, via a empresa de mineração. O valor do trecho entre a mineradora e Uauá era pago àquela empresa que repassava à companhia de água da Bahia, recebendo também da mineradora o valor referente ao trecho entre Juazeiro e a mina. Por mais que a cidade de Uauá tivesse recebido água canalizada somente em 1991, após a suposta iniciativa da empresa de mineração privatizada, cheirava mal a própria empresa privada controlar e agir como intermediário em setor de serviços essencial e sob o controle do Estado. Não por acaso havia irregularidade no abastecimento de água em Uauá, com constantes quedas de vazão, mas jamais com quedas nos pagamentos à mineradora privatizada.
continua...