segunda-feira, 18 de abril de 2011

Gerais de Minas e Bahia (parte 1/4)

Nas férias de meio do ano da nova pós-graduação, curso que seria interrompido devido ao conteúdo conservador, racista e conformista, optei por roteiro circular a oeste do rio São Francisco, percorrendo o miolo dos Gerais, o mineiro e o baiano.
O ônibus da monopolista Gontijo partiu de São Paulo no início de julho. Nem desci na desnecessária parada na garagem da empresa em Belo Horizonte. A maioria dos passageiros fez o mesmo. Amanheceu dia límpido nas imediações de Bocaiúva. A partir de Brasília de Minas, o cerrado deu lugar a esparsas manchas de agreste e caatinga.
Desembarquei na rodoviária de São Francisco sob o forte calor do meio-dia. Entrei em restaurante com janelas enferrujadas, centenas de insetos, mortos e vivos, pelos tetos e vidros. Mas oferecia visão privilegiada do rio São Francisco, de ambas as margens, da igreja Matriz da cidade.
À noite nas imediações da beira do rio, silêncio e tranquilidade. Tomei cachaça da roça com lombo de porco e farofa e vinagrete. E divaguei sobre um pouco de tudo.
Amanheceu céu azul e limpo, sol forte, nada de nuvens. São Francisco guardava casas velhas nos arredores da igreja Matriz, pequenas praças, poucas árvores nas ruas. O rio se destacava pela beleza do traçado e pelas águas azuladas. Barcos pequenos transportavam passageiros de uma margem à outra. Os moradores sorriam e cumprimentavam com naturalidade. A cidade se mostrava pacata e silenciosa, mesmo durante o horário comercial. E ainda mais no longo período da sesta.

Ao construir muro de contenção na margem do Velho Chico, a cidade se escondia amedrontada do melhor aliado dela, o rio. Mal se viam das ruas nesgas das águas. Em nada se investia no combate ao desmatamento incessante das margens, ao assoreamento do leito, à destruição de centenas de afluentes, à contaminação das águas, às monoculturas envenenadas de agrotóxicos. Nada de revitalização do São Francisco e afluentes. O rio morria lentamente enquanto o capital construía muros para isolar a população do que ela mais precisava.
Enrolei no quarto do hotel entre as deliciosas páginas de Noites do Sertão, de Guimarães Rosa.
Embarquei em ônibus rumo aos Gerais. Após cruzar de balsa o São Francisco, o veículo partiu em estrada plana, sem pavimentação, arenosa, cruzando o cerrado do noroeste mineiro.
Raríssimas casas, somente árvores retorcidas, esparsas porteiras de propriedades cercadas, nenhum ser humano. O vilarejo de Serra das Araras se erguia aos pés do morro que lhe dava o nome. Anoiteceu antecedido de pôr-do-sol com direito a cores púrpuras acima do horizonte. Nas imediações de Chapada Gaúcha, a presença fúnebre da praga socioambiental, a monocultura para exportação de soja, cercando tudo, até a primeira rua da cidade, sufocando a população. Desembarquei na calçada vazia da longa avenida principal, de onde avistei pousada simples, tocada por uma família gaúcha.
Segui pela avenida rumo à churrascaria, de gaúchos de Cruz Alta, terra de Érico Veríssimo. O estabelecimento oferecia diversos tipos de comidas, menos churrasco. Pedi cachaça de alambique ao garoto loiro que me atendeu. Cachaça branca, artesanal mesmo, que mereceu outras doses.
Chapada Gaúcha era plana, espalhada, sem graça, com cara de nada. Fundada a partir de projeto de colonização agrícola na década de 1970, com o afluxo de famílias gaúchas, somente no século XXI recebeu população de mineiros, oriundos de cidades e vilas próximas, em busca de trabalho. Os prefeitos antigos, todos gaúchos e grandes proprietários de terra, desviaram verbas públicas para as monoculturas de soja e capim. E nada para a cidade. As monoculturas, oprimindo as demais atividades da cidade, traziam consigo miséria e os venenos dos agrotóxicos borrifados em abundância. Somente após a eleição de prefeito de origem regional se investiu na cidade e principalmente nos moradores, asfaltando a avenida eixo da cidade, até então de terra. E a única praça da cidade teve que esperar o prefeito mineiro para ser construída.

Os lugares mais atraentes do parque nacional Grande Sertão Veredas ficavam a dezenas de quilômetros de distância. Somente veículos particulares com tração nas quatro rodas para atingi-las, a preços para lá de indecentes. E ninguém por perto a fim de dividir a facada. Surgiu a caminhada a partir da cidade para explorar a extremidade sudeste do parque, acompanhado do guia credenciado pelo IBAMA.
A primeira parte, através de estradinha de terra, acompanhou desoladoras plantações de soja e capim. Ao entrar na área do parque propriamente dito o cenário mudou radicalmente, e para melhor. Cerrado ainda verde pelas chuvas do mês anterior, pequenos morros, baixadas cortadas por veredas ornamentadas de buritizais, pequizeiros e diversas vegetações típicas do ecossistema compunham a natureza primária. Na estação de observação um funcionário do IBAMA detectava possíveis focos de queimadas e avisava por rádio imediatamente à central do parque. As veredas com dezenas de buritis carregados de frutos davam espetáculo à parte. Ao longo delas, água corrente e fresca, levemente ferruginosa, ótima para beber e se refrescar do sol quente. Os cupinzeiros revirados e esburacados revelavam presença recente de tamanduás famintos por formigas. Rastros de tamanduá bandeira, veados, cobras, antas, cantos de araras e jandaias, voos rasantes de gafanhotos que serviam de alimento às seriemas.
A trilha íngreme conduziu ao topo do morro Três Irmãos, de onde se tinha visão panorâmica de mais morros, mais veredas, mais vales, o cerrado a perder de vista. Descanso merecido sobre a pedra no alto do morro antes de tomar o caminho de volta à inóspita cidade de Chapada Gaúcha.
O guia, assim como os demais funcionários do IBAMA, da fundação, dos terceirizados das brigadas de incêndio, eram mineiros da região, simpáticos, hospitaleiros, acolhedores. Os gaúchos, alheios e inimigos da preservação socioambiental e do parque nacional, se interessavam somente pelas monoculturas de soja e capim, pelo uso intensivo de agrotóxicos que envenenavam a população da cidade, e em manter a arrogância e o racismo.
Vândalos agindo dentro do parque nacional haviam sido presos em flagrante naquela tarde, com barcos, material de acampamento noturno, armas, caixas lotadas de peixes recém-pescados e um jacaré já com o próprio couro arrancado. Seriam enquadrados em vários artigos da Lei de Crimes Ambientais e aguardavam detidos na delegacia da cidade. Os criminosos moravam em Chapada Gaúcha e eram todos gaúchos.

Vários trabalhadores que atuavam junto ao IBAMA concordavam que existia segregação oficiosa na cidade. De um lado, a classe dominante gaúcha mantinha as monoculturas e a destruição do ecossistema local. Do outro, a classe explorada de mineiros, empregada ou subempregada, pobre e miserável, discriminada dentro do próprio estado. E apenas mineiros entre os que lutavam pela defesa da sustentabilidade socioambiental do cerrado do parque nacional Grande Sertão Veredas.
Essa mesma situação se repetia onde gaúchos ou outros sulinos se implantaram nas colonizações agrícolas como grandes proprietários de terra, ou simplesmente grileiros, devastando e infestando a natureza com monoculturas contaminadas por agrotóxicos, no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, sul do Amazonas, sudeste do Pará, sul do Maranhão, oeste da Bahia.
O ônibus cruzou a paisagem triste e deprimente do agronegócio engolindo o cerrado devastado. Plantações sem fim de soja e capim, enormes armazéns e silos, maquinas barulhentas, pouquíssima mão de obra empregada. À medida que a estrada começava a descer, a serra ressurgia imponente com o cerrado esparsamente povoado.
Desembarquei no terminal rodoviário de Arinos, cidade no vale do rio Urucuia.
À noite percorri a avenida de entrada da cidade, larga, com substancioso canteiro central, arborizada, com pista para caminhadas e corridas. A avenida terminava na praça da igreja Matriz, um monstrengo acastanhado, moderno e horroroso, tendo em frente praça ampla, quebrada, abandonada. O restaurante frequentado por faixa etária mais alta servia tira-gostos e pizzas no forno à lenha. O céu limpo e coberto de estrelas parecia tocar meu rosto.
Pela manhã saí para caminhar a esmo e tentar encontrar alguma estradinha ou trilha no meio do cerrado. Arinos guardava urbanismo com traçado definido, ruas arborizadas, praças aconchegantes, calçadas em condições de uso, comércio distribuído. O relevo aplainado caía suavemente rumo à Vereda da Vaca, recheada de buritis e protegida como reserva ambiental.
Do outro lado da vereda, arrisquei algumas estradinhas estreitas de terra e trilhas, mas logo terminavam em cercas de propriedade privada. Ao fundo, a serra extensa e, antes, o vale do Urucuia. De vez em quando duplas de araras cruzavam o céu com cantos estridentes. Atravessei a vereda por ponte velha de madeira, encontrei conjunto de casas simples, uma rampa íngreme de barro e, finalmente, o Urucuia, de águas esverdeadas, límpidas e convidativas, sem praia, com alertas de riscos de afogamento.
As diversas propriedades privadas, uma ao lado da outra, nas margens do rio, bloqueavam o acesso da população às águas que banhavam a cidade. Acessos públicos ao rio, somente distantes. E viva a propriedade privada da terra!

Eu me impressionava com a tamanha calma, tranquilidade e silêncio da cidade, inclusive no auge do horário comercial. Nem parecia que a cidade funcionava a pleno vapor. E à noite o silêncio se acentuava. Era fascinante caminhar pelas ruas do centro ao som da brisa e sob a luminosidade do céu absurdamente estrelado.
Durante o jantar, na mesa ao lado, três latifundiários chegaram de caminhonete cabine dupla, enorme, mais parecendo um navio. Os três vestiam calças, camisas e chapéus completamente iguais, da mesma marca visível pelas etiquetas. Sentaram-se e em seguida apareceu o quarto elemento, advogado, corretor de imóveis, conselheiro ou coisa parecida. Logo iniciaram debates a respeito de compra, ou grilagem, de novas propriedades de terra pelos três latifundiários uniformizados. Os números navegavam em milhares de hectares e o grupo tratava como se fossem terrenos de cem metros quadrados.
E não é que a monstruosidade moderna, a matriz de Arinos, lotou na missa de domingo à noite? Até a praça ampla, mas completamente abandonada, sem árvores, com bancos quebrados, sem jardins, também criou movimento anexo à cerimônia. Pela cantoria excessiva e pouca conversa, a missa parecia ser da linha fundamentalista do catolicismo.
Estanquei na rodoviária muito cedo. O friozinho da manhã me fazia esperar ansioso o sol nascer. As faxineiras iniciavam a lavagem dos pisos e plataformas da estação.
O ônibus partiu cedo. Em meio a cochiladas, apreciei a paisagem do cerrado, as plantações de capim, a serra em descida sinuosa, o sol fraco começando a espantar o frio. Desembarquei na rodoviária de Buritis. Só haveria ônibus para Formoso no meio da tarde. Deixei a bagagem no guarda-volumes e caminhei sem roteiro pelo centro da cidade para passar o tempo, muito tempo.
continua...

8 comentários:

  1. Li! e nem foi por curiosidade rsrs já sabia, mais ou menos, o conteúdo rs
    Muito bom o seu relato! Parabéns!
    Bjus!!!!!

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  2. Obrigado pela leitura, seja por curiosidade ou conhecimento do conteúdo. Espero que continue lendo este e outros relatos.
    Aliás, também já sei, mais ou menos, quem escreveu esse comentário como "anônimo" rsss. Beijões!!!

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  3. Sou mineiro moro em Chapada Gaúcha e agradeço aos Gaúchos pela sua "monocultura"
    porque eles sabem administrar e por isso os mineiros tem emprego. voce ficou um ou dois dias na cidade e acha que ja sabe de tudo, moro aqui a 27 anos e sou muito grato aos Gaúchos

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  4. Oi anônimo, obrigado pelo comentário.
    Se você defende tanto a atuação deles por aí, por que não entrou no mérito dos tantos crimes sociais e ambientais mencionados nesses meus relatos que o agronegócio cometeu e tem cometido na região?
    Você poderia comentar também por que os gaúchos, mas não somente eles, têm sido usados pela gang do agronegócio com instrumentos, pelo Brasil afora, para arrasar ecossistemas e culturas seculares de convívio harmonioso com a natureza.
    Defendo e mantenho minhas denúncias que foram reforçadas pela maioria com quem conversei na região de Chapada Gaúcha.
    Abraços e comente sempre!

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    1. Ta bom, vc nao come nada que venha do agronegócio, duvido, e quanto às pessoas que dependem de emprego dado pelos gaúchos? e quanto ao meu emprego? Amm já sei, vamos viver todos do bolsa família e ficar sete dias por semana jogando sinuca e bebendo pinga.

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    2. Oi anônimo.
      Mantenho minha resposta acima, a qual, mais uma vez, você não fez referências e nem respondeu.
      Leia com atenção o texto completo dos relatos do blog e vai entender o que escrevi.
      Abraços e comente sempre, mas somente depois de ler e analisar.

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  5. Concordo com o que escreveu sobre os males do agronegócio no seu blog. Tenho a mesma opinião.
    O agronegócio emprega pouca mão de obra, usa muitos agrotóxicos e sementes transgênicas, invade terras públicas e expula os trabalhadores rurais, mata indígenas, deita e rola com o dinheiro público.
    O agronegócio produz mal e para exportação, enriquecendo apenas um punhado de fazendeiros parasitas.
    Quem alimenta o povo brasileiro é a pequena propriedade agroecológica. Mais de 70% da produção de alimentos vem dela, e alimento saudável. Basta consultar as estatísticas.
    Obrigado.

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  6. Olá,
    Obrigado pela visita e os comentários.
    Quem não tem rabo preso com esses senhores da terra e nem depende deles ideologicamente, mas apenas analisa e interpreta os fatos em si, sabe do que estou falando.
    Essa triste realidade opressora do agronegócio vale não só para Chapada Gaúcha, como para diversos rincões perdidos e esquecidos pela imprensa burguesa pelo Brasil afora.
    Vamos nos manter críticos para não virar ovelhas de rebanho.
    Comente sempre.

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