sábado, 31 de março de 2018

O Vale do Amazonas e do Solimões (parte 9/9)

...continuação
Tomei o ônibus que, após cruzar a linha do equador e entrar no hemisfério norte, me deixou no centro de Macapá. Mas bem longe do hotel. Andei bastante, saltando os obstáculos das calçadas ou da falta delas.
Faminto e sedento coloquei o chapéu e, besuntado de protetor, caminhei na direção do rio Amazonas. Duro eram as calçadas, a descontinuidade delas, a ausência pura e simples delas. A caminhada se tornou verdadeiro salto de obstáculos. No trajeto, imóveis baixos, raríssimos edifícios altos, árvores e sombras eventuais. Me intrigaram as coberturas contra o sol sobre os túmulos do cemitério. Para os vivos, porém, a sombra era artigo raro.
Avistei ao fundo as águas barrentas do rio Amazonas, distantes da murada naquele horário. A maré baixa expunha extensa faixa de areia, indo além do longo e estreito trapiche e da estátua de São José, padroeiro da capital amapaense. Erguida na beira do rio, em formato pentagonal, impondo respeito pelas extensas dimensões horizontais, o forte de São José de Macapá se postava no trecho mais avançado nas águas, rodeado de gramados, árvores esparsas, ciclovias.
Mais ao sul, o cais de algumas linhas menores de barcos e lanchas, inclusive com destino à cidade suspensa de Afuá, situada no noroeste da ilha do Marajó, onde permaneci anos antes. Pelo ancoradouro, tudo seco, somente um barco estacionado sobre a areia. O final da tarde, horário em que a maré encheria, permitiria novamente a circulação fluvial e marítima. O restaurante onde tanto me esbaldei naqueles anos, em caldeiradas divinas, do outro lado da avenida do cais, não existia mais, substituído por dois hotéis envidraçados.
Após o almoço comprei um litro de açaí fresco, que matei em minutos dentro do quarto do hotel, sem açúcar mesmo, direto do furo no saco plástico que fiz com o canivete.
Jantei entre caipirinhas bem temperadas, picanha alta e ao ponto, acompanhamentos saborosos, porém, redundantes. Serviram arroz e baião-de-dois. Serviram farofa e farofa de ovo. Música ao vivo com os padrões da MPB, no formato voz e violão, em volume civilizado. Saí feliz e estufado, tanto que circulei pelas redondezas para facilitar a digestão e reduzir o inchaço.
O ônibus cruzou bairros e mais bairros de Santana e Macapá. Não notei miséria evidente, apenas a tradicional pobreza da maioria que contava com o mínimo para sobreviver. E valeu também para apreciar as atraentes macapaenses e santanenses.
Encarei a caminhada de volta ao hotel debaixo de sol absurdamente, escandalosamente, indecentemente, quente. Às vezes pensava que minha cabeça iria rachar ou que desmaiaria a qualquer momento. O sol da linha do equador era de impor respeito e temor.
No jantar experimentei bistrô em bairro que, a despeito do festival de horrores das calçadas, concentrava as camadas altas da sociedade macapaense. O pequeno estabelecimento lotou de galera branca, clara, de olhos verdes, vindo em carrões. Ninguém, absolutamente ninguém, indígena, mestiço, cafuzo, mulato, mameluco, caboclo. Descolei mesinha do lado de fora para evitar me contagiar daquilo.
Dei voltas pela região da avenida FAB, repleta de escolas. Estudantes lotavam calçadas e pontos de ônibus. No mais, bairro vazio, com comércio e vários bares fechados. Tudo estava na penumbra naquela noite do meio da semana. A avenida FAB leva esse nome por ter sido pista de pouso de aeronaves durante os primórdios da ocupação do homem branco, em que o Amapá era ainda território federal.
Visitei o marco Zero, a linha do equador, situado no bairro macapaense de Zerão. A atração oferecia o monumento suspenso, assinalando a linha do equador, marcos de concreto, e finalmente o obelisco bem alto, com listas verticais em verde e amarelo, mais o orifício circular no topo. Do lado oeste, o estádio Olímpico Zerão. A leste, a avenida Equatorial que levaria, bem adiante, à margem do Amazonas.
O trânsito de ambas as cidades amapaenses não era agressivo. Pedestres levantavam o braço e logo os veículos paravam para eles atravessarem. O gerente mineiro do hotel lamentava os altos preços praticados no Amapá, de imóveis, alimentos, combustíveis, serviços. Por outro lado estava gostando da terra e das pessoas, tanto que a esposa viria se instalar em breve.
No início da manhã eu já embarcava no navio, no porto do Grego, em Santana. Antes circulei pela região do porto, interessante ponto de comércio, bares, hotéis barra-pesada, puteiros.
Depois de apitar muito, e aguardar calmamente os retardatários, que corriam para embarcar cheios de bagagens, o navio partiu em meio às águas levemente agitadas do rio Amazonas, passando ao lado de navios cargueiros, tendo em terra, à esquerda, a praia da Fazendinha.
Conversei com o soldador, morador de Altamira, que se aventurara em garimpar pelo Amapá. Chegou a acumular oito gramas de ouro. Acabou por se desencantar. Partia para tentar nova vida em Imperatriz, no Maranhão. Descreveu a criminalidade insana na paraense Altamira após a invasão de todo o tipo de gente durante a construção da hidrelétrica de Belo Monte.
Ignorei a refeição paga à parte do preço da passagem. Comi o sanduíche de salame e queijo, mais duas bananas, trazidos do bufe do café da manhã do hotel em Macapá.
À medida que o navio se afastava do litoral amapaense, a cidade de Macapá surgia ao fundo, com a linha dos edifícios em destaque. Mais adiante, o estreito composto pela comunidade do Limão, ao longo do qual, da mesma forma que no também marajoara estreito de Breves, crianças, acompanhadas ou não das mães, se aproximavam em canoas. Aos gritos e abanando as mãos, pediam doações dos passageiros, alimentos, roupas, o que fosse. Alguns a bordo lançavam sacos plásticos recheados. Não por acaso, nas margens do estreito, empresas evangélicas escravizavam a mente dos moradores usando e abusando de balelas como “deus proverá”, “só cristo salva”. Mas quem provia mesmo, quem salvava mesmo, eram os passageiros dos navios e balsas que por ali trafegavam. O fundamentalismo servia para sequestrar mentes e bolsos dos pobres coitados.
Aproveitei as nuvens e me abandonei no piso de cima, dotado de mesas e cadeiras fixas, entre conversas com o soldador, enquanto apreciava a paisagem e as voadeiras que atracavam para vender camarão e açaí. De uma das voadeiras, pulou no navio uma adolescente de longos cabelos pretos e shortinho milimétrico, cheia de amor para dar aos eventuais interessados. Aningas abundavam nas margens dos canais indicando nos caules afinados o nível da maré alta. As nuvens engrossaram e escureceram. Ventou forte. A pancada de chuva expulsou todos dali. Cada um se refugiou na respectiva rede, suíte, ou na área coberta da lanchonete.
E o navio seguia em meio ao labirinto de águas e ilhas pertencentes ao arquipélago do Marajó. Local facílimo para se perder pelos canais, estreitos, água grande, curvas, retas. Nova pancada de chuva ao anoitecer, dessa vez precedida de raios e trovões, compondo visual impressionante de nuvens cor de chumbo, cobrindo as copas das árvores da floresta, se aproximando aos poucos do navio.
Algum movimento ali na lanchonete da popa. Na mesa do canto, as latinhas vazias de cerveja lotavam o espaço. Noutra, um casal em que ela me olhava de vez em quando. Em pé, três adolescentes sussurravam com expressões adultas. Duas mulheres do outro lado se mostravam disponíveis.
Entre ligeiras acordadas, dormi profundamente durante a noite. Nem ouvi as paradas previstas, em Curralinho e São Sebastião da Boa Vista, vilarejos do Marajó. O café da manhã, única refeição gratuita daquele trajeto, veio de melão, melancia, cuscuz, pão com queijo, café com leite, mingau. O navio percorria água grande, as margens muito distantes.
Estava demorando pra começar a tortura! Antes das 8h as caixas de som da lanchonete começaram a vomitar o lixo fundamentalista evangélico. Buscavam cooptar mais ovelhinhas para engordar o faturamento das empresas do ramo. Fornecer alimentação incluída no preço da passagem, como praxe na maioria das linhas fluviais de passageiros da Amazônia, nem pensar. O negócio era faturar para o comércio da fé.
O navio voltou a percorrer canais estreitos após visões das unidades de beneficiamento de bauxita. Passou ao lado de toda a cidade de Barcarena. E novamente trechos largos, cujas margens se afastavam a leste e a oeste.
E a linha dos edifícios altos de Belém apareceu no horizonte. Em seguida a embarcação perfilou o centro velho, a casa das Onze Janelas, o forte do Castelo, as igrejas, o mercado Ver-O-Peso, os casarões. Após me despedir dos passageiros chegados, desembarquei na Doca da capital paraense.
Depois de beliscar no entorno do mercado Ver-O-Peso, à noite deu vontade de comer bem. Escolhi a dedo o restaurante. Conversei com o garçom, com a recepcionista, ambos simples e, como eu, contrastando com a formalidade artificial do ambiente. Nas demais mesas ocupadas, a fina flor da elite belenense. Aniversariantes com direito a bolo, garçons mascarados e fantasiados coreografando e cantando o feliz aniversário, em ritmo de salsa. E cantando em inglês e espanhol, nadinha em português, a língua falada em Belém, inclusive pelos da mesa festeira. Os clientes próximos sorriam acanhados, não sabendo se era de bom tom se imiscuírem. As mesas livres se ocupavam aos poucos. As belenenses aterrissavam vestidas para matar, nem sempre com bom gosto ou discrição. A ideia era chamar a atenção, para o bem ou para o mal. Rostos entupidos de maquiagem, vestidos estrambólicos, provocantes, chamativos. Entre garfadas e goles, ouvi os garçons comunicarem que de outubro ao natal a casa e os garçons se decoravam para os festejos, envolvendo os clientes na atmosfera tocante. Saí de lá embriagado, com o estômago forrado, feliz da vida e com direito a contemplar a nata da cidade botando para quebrar.
Almocei em restaurante especializado em comidas paraenses. A comida vinha emoldurada com suposto refinamento, atendimento atencioso e, sobretudo, preços bem salgados, ainda mais se comparadas com a mesma comida servida na simpática região do mercado Ver-O-Peso. Mas valeu o filé de filhote grelhado, acompanhado de arroz com cenoura, farinha d’água, vinagrete e meio litro de açaí cremoso. Mesmo sem fome, comi tudo, principalmente o açaí, ingerido à paraense, sem açúcar, na base de colheradas entre as garfadas ao peixe.
No avião de volta para casa, mais leituras e cochilos.
O avião pousou no aeroporto internacional de Guarulhos. Ônibus comum, numa marginal Tietê surpreendentemente sem congestionamento, ao metrô Tatuapé. Entrei em casa em meados de agosto. O frio e a garoa me recepcionaram depois de dois meses afastado de São Paulo.

terça-feira, 27 de março de 2018

O Vale do Amazonas e do Solimões (parte 8/9)

...continuação
Qualidade de Oriximiná era a extensa orla com calçadão ao longo da margem do rio Trombetas, permitindo à população observar, contemplar, venerar as águas escuras do rio que lhe dava vida. Pela calçada da orla era possível caminhar, passando ao lado de oficinas de barcos, da zona do mercado municipal, do comércio variado, da área de embarque e desembarque de passageiros e cargas nas lanchas, barcos, navios, dos bares barra-pesada, dos discretos puteiros, de barrancos cobertos de vegetação. O povo, educado e sorridente, embora retraído, sempre se dispunha a ajudar.
À noite, a praça da Matriz contava com frequência numerosa. Indígenas relaxavam naquela noite cálida, entre goles de sorvete e conversas nas línguas originais. Reconfortante circular pelas ruas vazias e silenciosas de Oriximiná, sobretudo na beira do rio em trechos afastados do porto. O céu estrelado, a lua crescente, o astral da cidade pequena, o contexto, enriqueciam as sensações. Pena as ruas, tão longas, tão parecidas, tão retas, tão planas, tão asfaltadas.
Durante mais um jantar, os televisores do restaurante exibiam o espetáculo grotesco do Congresso Nacional, o mesmo que legitimou o golpe de Estado de 2016, votar pelo arquivamento dos processos contra o ditador de plantão. Cenas macabras do regime contra o povo.
Aterrissei bem cedo no cais da lancha, com direito à sombra e vento constante que soprava do rio Trombetas. O embarque foi rápido e rasteiro. Mais larga, mais confortável, mais estável que as amazonenses, a lancha contava com fileiras de oitos assentos, separadas por dois corredores. A capacidade total atingia cerca de cem passageiros. A proa lembrava pequena aeronave, com duas entradas, uma de cada lado da cabine de comando. Os assentos se assemelhavam aos dos ônibus intermunicipais, garantindo o conforto. Exceto pela velocidade, a lancha humilhava os aviões em tudo.
Ao anoitecer a lancha atracou no calçadão da orla de Santarém. Era noite, mas o calor sufocava, mesmo para os padrões amazônicos.
Pela manhã tomei ônibus a Alter do Chão. A vila se apresentava mais urbanizada que da última visita anos antes, com mais hotéis e pousadas, calçadão na orla do rio Tapajós, mais barcos e iates, mais turistas e grupos perambulando. O conjunto, porém, se mantinha vistoso e pitoresco.
A ponta de areia no meio das águas esverdeadas do Tapajós ainda se encontrava parcialmente submersa. O verde escuro das águas do rio, a areia branca das praias, o verde da vegetação acima ou sob as águas, formavam cenário belíssimo. Fugi do calor em restaurante de frente para as belezas. Tomei caipirinha e suco de taperebá para hidratar o tucunaré ensopado com arroz e macaxeira, servido em porção generosa.
Em Santarém, caminhei além da praça São Sebastião, por ruas internas, pela orla do Tapajós, na tarde luminosa, ensolarada, terrivelmente quente, com as águas verde azuladas do Tapajós se encontrando mais adiante com as barrentas do Amazonas. No calçadão da orla descolei sombra refrescante e contemplei a paisagem e o pouco movimento do meio da tarde. Até parecia vilarejo ribeirinho e não cidade de mais de trezentos mil habitantes. Comprei a revista Caros Amigos e li um pouco por ali mesmo.
À noite saí para admirar a orla do rio Tapajós e o prestígio que os mocorongos, nativos ou não, prestavam à cidade. Ao longo dos quilômetros do calçadão, as cenas me trouxeram imagens de outra orla, a das praias de Tambaú e Cabo Branco, em João Pessoa. Lá como cá a população comparecia em peso e interagia com solução urbanística tão simples, barata e envolvente. Aqui como lá moradores levavam cadeiras de praia, isopor com comes e bebes, conjunto de brinquedos para filhos e netos, formando diversos grupos de família, amigos, casais. Muita gente desfrutava do que a cidade tem de melhor, o rio Tapajós. Em espaço público, democrático, gratuito.
A maioria dos canais na TV do hotel era de compras ou religiosos, o que no fundo é a mesma coisa, comércio de produtos ou da fé alheia.
Pela manhã o céu azul exibia o sol desprovido de barreiras, iluminando e torrando tudo e todos. As águas esverdeadas do Tapajós estavam mais lindas do que nunca.
Depois de churrasco com amigos fomos tentar um mergulho na praia de Maracanã. Impossível. Frequência barra-pesada, bebedores profissionais e amadores, solitários de expressões raivosas, mulheres portando olhares avermelhados e pedintes. O cheiro de perigo no ar lembrava cidades do naipe da paraense Itaituba e da amapaense Oiapoque. Melhor não. Seguimos à praia de Carapanari. A floresta mostrava todo o esplendor e ao fundo as águas esverdeadas do Tapajós roçando de leve as areias brancas. Paradisíaca. A natureza reinava absoluta. Ficamos apenas com as cabeças fora d´água, conversando amenidades, nadando, flutuando, absorvendo aquela maravilha ao cair da tarde dourada pelo sol. Demais!
Eu e colegas fomos comer peixe no restaurante ao sul da avenida Cuiabá. Tucunaré e surubim saborosos, caipirinhas bem temperadas, em ambiente animado e prestigiado pelos moradores. Comemos bem, bebemos bem, conversamos e nos descontraímos bem.
Embarquei no navio no cais em frente à praça Tiradentes. A bordo, pai e filho de Nova Santa Helena, norte do Mato Grosso. O pai, quarenta anos na região, gaúcho desbravador, típico linha de frente na devastação social e ambiental da frente agrícola da Amazônia. Pretendia se transferir para o interior do Amapá. Sinal amarelo para o povo e a natureza amapaense. Eu torcia para não se adaptarem e retornarem o mais rápido possível ao Mato Grosso, lá no meio de gaúchos e paranaenses, entre explorados e exploradores do agronegócio, das monoculturas extensivas esgotadoras de solo, dos agrotóxicos, dos massacres das populações indígenas, da exportação de matéria prima bruta, da bancada ruralista, dos tumores da economia e política brasileira, dos engajados em golpes de Estado, como o de 2016. Uma caminhonete cabine dupla, com a carroceria abarrotada entrou no piso principal. De dentro dela, mais gaúchos, pai, mãe, dois filhos, kit chimarrão e tudo. Placa do veículo de Nova Guarita, Mato Grosso. Mais alertas de perigo ao povo e à natureza do Amapá.
Ao entardecer, o navio desatracou da balsa flutuante, desceu o restinho do Tapajós, com Santarém perfilando de ponta à ponta, e logo atingiu as águas barrentas do Amazonas. Ficaram para trás as luzes daquela cidade atraente e as cores sanguinolentas do por do sol. E de volta ao que eu realmente amo, viagens lentas nos barcos e navios amazônicos. Nada de lanchas tipo isso ou tipo aquilo, mas sim a tradicional embarcação de cargas e passageiros.
A tradicional sopa das primeiras noites dos percursos fluviais foi servida em enormes tigelas. Podíamos nos servir à vontade do caldo com macarrão, batatas, carne, legumes. Ao meu lado, todos os tipos possíveis de passageiros, e nenhum outro turista. As pessoas se olhavam, analisavam, avaliavam.
À noite o navio atracou no moderno porto de Monte Alegre, de frente ao canal paralelo ao curso principal do rio Amazonas. Houve embarque e desembarque de passageiros, além de carga de cebola, melancia e farinha.
Após a partida o navio pegou de frente o rio Amazonas, nervoso, cheio de ondas, banzeiros e rebojos. Oscilou terrivelmente, gerando receios e apreensões. Entrei na suíte. Começava a adormecer. Os balanços continuavam. E me lembrei da tempestade nessa mesma rota anos antes. Naquela oportunidade era barco menor, de casco de madeira, a caminho de Laranjal do Jari, sul do Amapá. O terror durante a tempestade durou horas. Só acalmou quando a embarcação abandonou o agito do rio Amazonas e entrou nas águas espelhadas e escuras do rio Jari. Até o prático e o comandante se sentiram então aliviados. De volta ao presente voltei a adormecer somente perto da segunda parada, em Prainha, quando as águas se acalmaram.
Acordei para o café da manhã na base de três fatias de frutas, um sanduíche, café com leite à vontade. Melhor foram as conversas que brotaram entre os passageiros da mesa, entre assuntos dos mais variados.
Parada curta em Almeirim no meio da manhã. Almoço na base de carne assada, arroz, fava, salada de maionese. E saí para conversar com os passageiros, entre paraenses, amapaenses, gaúchos, mato-grossenses.
Depois do surubim ensopado com arroz, farinha de Uarini e salada, durante o jantar, o tempo encrespou e o navio pegou a tempestade de lado. Os tripulantes baixaram a lona de proteção. Mesmo assim entrou água no setor aberto das redes, forçando passageiros a mudarem de local e a levantarem as bagagens do chão. O temporal logo passou, ficando apenas o banzeiro nas águas do rio Amazonas. À esquerda, a tempestade seguia o rumo, chovendo e ventando forte.
Antes da madrugada o navio atracou no porto da cidade de Santana, já no estado do Amapá. Permaneci deitado, mesmo com a barulheira do desembarque. Os ruídos foram diminuindo pouco a pouco. Acabei adormecendo.
O porto de Santana acordou cedo. Me despedi da tripulação. O navio agradou pela limpeza, pelos cestos de lixo espalhados por todos os pisos, pelo bom aspecto em geral.
continua...

sexta-feira, 23 de março de 2018

O Vale do Amazonas e do Solimões (parte 7/9)

...continuação
Nem reparei a que horas ou por quanto tempo o navio fez escala noturna em Fonte Boa. Dormi maravilhosa e profundamente.
Durante o dia, na parte sombreada da cabine, eu saboreava o Estas Estórias, do Guimarães Rosa. Destaque para o impressionante conto Bicho Mau, cujo personagem principal era uma cobra cascavel.
Como na subida, foi servido peixe uma única vez na viagem de baixada. Pirarucu ensopado, durante o almoço. Bem temperado, acompanhado de arroz e vinagrete. O suco aguado de cupuaçu e o pedaço de goiabada adoçaram o banquete.
O navio ainda percorria o Solimões ao amanhecer. Indícios de zona urbana começavam a aparecer na margem esquerda no meio da manhã. Desembarquei em Manaus no início da tarde. Me despedi dos tripulantes. Caminhei por toda extensão do porto privatizado e abandonado, às moscas, ocioso, subutilizado. Escolhi outro hotel para me instalar.
O navio, enorme, de ótimo aspecto, confortável, seguro, com suíte ampla, limpa, com tudo o que precisava dentro, além de varanda espaçosa e desnecessariamente privativa, com comida repetitiva e carente de peixes regionais, com a ditadura evangélica despejando diários rituais de horrores, com o lixo fundamentalista vomitado em todas as manhãs da caixa de som da lanchonete, com passageiros dos mais reservados com quem cruzei na Amazônia, deixaria saudades pelos quatorze dias a bordo, rio Solimões acima e abaixo. Inesquecível.
Almocei na rua Ferreira Pena, perto da esquina da Ramos Ferreira, rua que, entre a praça da Saudade e a rua Tapajós, a um quarteirão da avenida Getúlio Vargas, proporcionava raro trecho arborizado, sombreado, dando prazer em caminhar. Mas aquela paisagem era exceção na Manaus do concreto e asfalto. Os quarteirões que incluíam a rua Monsenhor Coutinho e praça do Congresso reservavam casarões e palácios do final do século XIX e início do século XX, da época em que a elite de Manaus se esbaldava com os ciclos da borracha. Destaques para o Instituto Educacional do Amazonas, a Academia Amazonense de Letras, mas principalmente o Instituto Benjamin Constant, escola técnica com belíssimo portão de ferro, escada ao amplo jardim, seguido de outras escadarias ao centro do prédio horizontal.
O largo São Sebastião, sem eventos ou apresentações musicais, sobrava em charme naquela noite quente, mas não tórrida, com direito à brisa suave. Grupos de amigos, casais, turistas, perambulavam despreocupadamente, ou ocupavam bares e restaurantes. Em silêncio, sem música alta, sem poluição sonora. O som da noite, das folhas das árvores, dos passos, dos murmúrios, das esparsas e discretas risadas.
Pela manhã, o motorista do furgão me pegou na portaria e, com mais quinze passageiros, passamos ao micro-ônibus. O veículo tomou o rumo norte. Duas horas pela BR-174, a que liga Manaus a Boa Vista e à Venezuela, atingimos a cidade de Presidente Figueiredo. O percurso contou com lagos, lagoas e buritizais próximos ao acostamento da rodovia.
O passeio iniciou pela cachoeira Iracema, quase ao lado de chalés do hotel anexo. Chalés que mais pareciam caixotes que os governos das elites econômicas empurram para os pobres sob o nome de habitação popular. A partir dali trilha curta pela floresta, ao lado de grutas e formações rochosas. A cachoeira, larga, de queda curta e violenta, seguida de suaves corredeiras, nada tinha de especial. Pouca gente naquele dia útil permitiu entrar nas águas e apreciar o local com calma.
Retorno à cidade, ao lado das corredeiras do Urubuí, para almoço farto e saboroso, regado a um litro de suco de cupuaçu, fruta abundantemente cultivada nos arredores.
À tarde, as cachoeiras do Santuário, mais afastada da zona urbana e oferecendo belezas naturais mais compensadoras. Também a trilha curta levou a várias quedas d’água, formando desenhos diversos, corredeiras, piscinas naturais, poços profundos para banhos e mergulhos de trampolins na própria rocha. Ali me senti num complexo de quedas d’água, maiores e menores, violentas e brandas, emolduradas pela floresta amazônica, dispondo de pontos de mergulhos, nados, massagens refrescantes e revigorantes. Pouca gente em terra e nas águas.
Nos trechos de remanso e afastados da correnteza das cachoeiras, se formavam linhas sinuosas e irregulares de espuma branca, configurando desenhos abstratos e instigantes sobre as águas escuras. A região de Presidente Figueiredo guardava mais de cem cachoeiras, grutas e cavernas. A cidade leva esse nome em homenagem ao primeiro governador da província do Amazonas, João Batista Figueiredo Tenreiro Aranha, após a separação da província do Grão Pará em 1850. Nada a ver, portanto, com o nome do último general de plantão da ditadura civil e militar iniciada com o golpe de Estado de 1964.
À noite em Manaus, pedi caipirinha e observei o agito bem manauara no largo São Sebastião. Ocorriam apresentações musicais com artistas de qualidade, legítimos representantes da música regional de raiz. Naquela noite, entre outros gêneros, prevaleceu o carimbó. Ritmo contagiante, ainda mais acompanhado pelas doces amazonenses, usando e abusando da quebra de quadris e na ginga sensual dos corpos.
A apresentação terminou e o público debandou. Desci a rua Barroso. Na esquina da rua do Banco do Brasil a galerinha se deixava levar pela apresentação ao vivo de canções da MPB, ali mesmo na calçada. Nada de palco ou formalidades desanimadoras. Desci mais, até a avenida Sete de Setembro. Deserto de almas naquele trecho que trepida de gente durante o horário comercial. Subi a avenida Eduardo Ribeiro, em cuja calçada uma peruana me ofereceu su cuerpo. Dobrei à esquerda na José Clemente. Na esquina com a Lobo D’Almada, na própria calçada e rua, rolava apresentação de música brega. Gente bonita, liberada, desencanada. No quarteirão abaixo, ainda na Lobo D’Almada, puteiros, hoteizinhos sórdidos, putas nas calçadas ou dentro do bares sombrios chamando os passantes para um “amor gostoso”.
Num dia sem planos, maravilhosamente sem planos, desci vagarosamente à beira do rio Negro, mais especificamente ao longo do porto da Manaus Moderna, ou Escadaria, local da Manaus verdadeira, fluvial, pulsante, excitante. Tomei meio litro de açaí, trezentos ml de guaraná com mel e limão, e me dei por almoçado. Voltei ao hotel para me refrescar do calor estratosférico de Manaus, contra o qual o chapéu e o protetor solar pouco funcionavam.
Comi pirarucu de casaca em barraca na praça do Congresso. À noite, tacacá com o casal amigo. Emendamos no bar com som ao vivo de samba de raiz. As cachaças vinham aquecidas à temperatura ambiente da noite manauara. Eu me hidratava com goles de água mineral gelada. Pelas mesas, olhares com segundas e terceiras intenções não faltavam. Nada de fingimentos em falsos papeis. Todos e todas querendo ser felizes na simplicidade. Curto e grosso foi o tocador de tamborim do regional de samba que se apresentava na calçada. Durante o intervalo das músicas, no momento em que eu ia ao banheiro, me abordou e me abraçou feito velho amigo. Perguntou meu nome e, na lata, me pediu dez reais. Neguei sem hesitar. Imediatamente o sorriso pegajoso desapareceu do rosto dele. E me deu as costas sem se despedir.
O dia começou de gala. Suco de cupuaçu e creme de açaí no café da manhã.
Acompanhado do casal amigo nos dirigimos a restaurante bem a montante da praia da Ponta Negra, naturalmente ventilado, sem ar condicionado. O garçom paraguaio nos atendeu bem. Duas caipirinhas bem temperadas precederam e acompanharam tambaqui assado, com baião-de-dois, farofa de banana, pimenta não picante, vinagrete.
Seguimos ao igapó do Tarumã, de onde, em meio às arvores da floresta alagada, pegamos canoa ao flutuante da margem esquerda do rio Negro. E era flutuante mesmo, com direito a oscilações conforme a passagem de iates, jetskys, outras embarcações ao lado. Mergulhei, nadei, boiei nas águas escuras, límpidas e sem mosquitos do rio Negro. As temperaturas internas e externas às águas estavam espetaculares. Mais caipirinhas, papos soltos e sem compromisso. Mais mergulhos nas águas negras e refrescantes enquanto o sol se punha atrás da margem oposta.
O casal me entregou são e salvo na porta do hotel. E não saí mais naquela noite. Nem para comer.
Em outro jantar, duas caipirinhas hidrataram a moqueca caboca, de pirarucu, com leite de castanhas, legumes, banana, arroz, pirão, ressaltados com a pimenta-de-cheiro. A fome era tanta que nem percebi do que se tratavam as rodelas de cor creme envoltas em invólucro delgado e preto. Era banana-da-terra com a própria casca. Comi assim mesmo. Engoli tudo. Matei a fome com prazer.
No largo São Sebastião, a Virada Sustentável apresentava grupos musicais amazonenses carregando nos ritmos regionais e nas letras provocadoras, rebeldes, politizadas. Bom público. Nenhum turista. Era a ala consciente da juventude manauara.
Antes do amanhecer fui ao terminal AJato, ao lado do porto da Escadaria. As lanchas das 6h, a Tefé e a Manicoré, despachavam as bagagens. A lancha para Tabatinga, em outra balsa flutuante, manobrava para a partida rumo à viagem de desconfortáveis trinta e seis horas. Tracei calmamente tapioca com ovos e o copo de café com leite, vendidos na bancada instalada sobre a balsa. Manaus amanhecia aos poucos. Após o despacho de bagagens a lancha partiu às 7h.
O tempo nublado se tornou ameaçador e caíram pancadas de chuva, sem, contudo, comprometer a segurança da navegação. A lancha não era das maiores e contava com assentos nada anatômicos. Serviram almoço ao meio-dia. E a bandeja sobre o próprio colo, sem mesinha ou suporte. Em seguida o tripulante apareceu com a garrafa de três litros de refrigerante e a pilha de copos descartáveis. Ainda me equilibrando com a bandeja da comida segurei o copo enquanto ele derramava o refrigerante. Uma mão ficou permanentemente ocupada. Com a outra, comi bem o almoço composto do trivial de dia de semana. Os tripulantes recolheram tudo depois. Às 15h foi a vez do mingau, na verdade mungunzá, novamente em copos descartáveis.
A TV a bordo da lancha começou transmitindo o lixo da indústria cultural da música e emendou com cinco filmes, também descartáveis, produzidos naquele país terrorista ao norte do México. O primeiro sobre surfista atacada por tubarão e confinada a minúsculo atol à espera de socorro. Seguiu uma pancadaria violenta e inverossímil. Depois filme sobre mineiros chilenos presos em galerias subterrâneas, cujo elenco se compunha de atores de língua espanhola, interpretando personagens com nomes de origem espanhola, ambientado em país de língua espanhola, mas todos eles falando, inacreditavelmente, em língua inglesa. Após uma fábula infantil debiloide, outra pancadaria gratuita.
Cochilei pouco entre as rápidas paradas em Itacoatiara, Parintins e Juruti. A tripulação primava pela educação, simpatia e atenção. De qualquer forma, viagens em navios e barcos são mais confortáveis e prazerosas do que em lanchas.
Desembarquei ao entardecer em Oriximiná, na margem esquerda do rio Trombetas, estado do Pará. Imediatamente após me hospedar, saí à procura de local para jantar. O faro me conduziu à praça da Matriz de Santo Antônio.
Oriximiná possui traçado quadriculado das ruas parecidas entre si. Tudo propositalmente asfaltado, para fluir melhor os veículos motorizados, sobretudo automóveis e motos. Mas com esgoto a céu aberto, correndo em valetas profundas. Na beira do rio Trombetas, movimento mais fascinante, de passageiros esperando as saídas de embarcações, indígenas conversando nas línguas originais, negros de antigos quilombos não muito distantes, como o distrito de Curuá, além de tipos variados e característicos das imediações de cais fluvial.
Os únicos hóspedes que reparei pelas áreas comuns do hotel pareciam gente a trabalho na região, talvez de folga da corporação transnacional que controlava e saqueava a bauxita, minério de alumínio, havia mais de quarenta anos, rio Trombetas acima.
Praticamente nada de histórico oferecia Oriximiná. Até as construções velhas eram novas. Mas não era cidade feia, exceto as horrendas sarjetas ao longo das quais corria esgoto escuro e fétido. De bom aspecto, construções bem conservadas, calçadas descontinuadas e trafegáveis a pé, o que não era pouco para a região. A cidade vivia a expectativa das celebrações do círio noturno de Santo Antônio, padroeiro de Oriximiná. Praças arrumadas, calçadas, muros e escadarias recém-pintadas, jardins podados e limpos, retirada de lixo acumulado, estandartes e bandeirolas, carros de som convocando a população.
continua...

terça-feira, 20 de março de 2018

O Vale do Amazonas e do Solimões (parte 6/9)

...continua
Mais à direita do mercado municipal fora construída uma orla turística, anos antes. Bares e restaurantes com terraços, sequência de quiosques de comes e bebes ao longo do calçadão e da murada no barranco alto do rio Javari. Tudo completamente abandonado, vazio, ou ocupado pela escoria da cidade, bêbados e dependentes químicos em geral. Tinha até a placa de inauguração, com nomes do prefeito e governador da época.
Mas o mercado municipal, a feira e comércio dos arredores, ferviam de gente. Muita gente. Brasileiros e peruanos comprando e vendendo em plena manhã de domingo. Poderia acusar de tudo a cidade de Benjamin Constant, mas jamais da falta de dinamismo comercial, formigando de energia humana.
Ao meio-dia a partida de Benjamin Constant rumo ao encerramento oficial da viagem de subida do rio Solimões. Horas depois o navio atracava no porto de Tabatinga, na divisa tríplice entre Brasil, Colômbia e Peru, completando oito dias de viagem fluvial desde Manaus. Em vez de hotel decidi permanecer na suíte do navio até a volta a Manaus.
Saí para volta rápida na cidade. Acabei comendo frango grelhado com arroz e fritas em restaurante tocado por colombiano. Muitas opções de comida nas imediações da igreja Matriz. Música colombiana, gente falando em espanhol. Na praça o mato crescia solto. Os bancos, quebrados e inutilizáveis. O chafariz, abandonado, talvez nunca tenha funcionado. Poucos e raquíticos arbustos. E nenhum ser humano masoquista pelo amplo espaço.
À noite fui às ruas de Tabatinga novamente. Música alta nas moradias, bares, restaurantes, barracas de comida improvisada em frente às casas de família. Gente em todos os lugares. Motos, muitas motos. Torneio de futebol de salão com torcida, juiz, uniformes e tudo que tem direito. As calçadas esburacadas e descontinuadas e o esgoto a céu aberto dificultavam os deslocamentos.
Acordei e comprei ingredientes em mercadinhos próximos para o café da manhã. Aproveitei as primeiras horas da manhã enquanto o sol amazônico ainda não batia na varanda da cabine do navio. E comi de frente ao rio Solimões, tendo as terras peruanas à vista na margem oposta.
Alimentado, desci a rua Santos Dumont e caí na beira do Solimões, a montante do porto, justamente o ponto das embarcações que ligavam Tabatinga a Santa Rosa, no Peru. A feira informal vendia produtos frescos. Ambulantes ofereciam fanes, a iguaria peruana envolta na folha de bananeira, além de caldo de galinha, quitutes peruanos em geral. Bares abasteciam os bebuns e ofereciam putas estropiadas. Hoteizinhos podres receberiam os eventuais casais de ocasião. Artigos em geral, comes e bebes, embarcações, moto-táxis, táxis, vendedores de quinquilharias, compunham multidão maltrapilha, em ambiente sujo, desorganizado, improvisado. Vendedores e vendedoras de bananas e abacaxis, vindos do lado peruano, exibiam aparências bizarras e vestiam roupas à moda de antes de cristo. Impossível descrever tamanha diversidade. Caos. Caos vivo. Caos fascinante, fotogênico.
Subi a outra rua que formava um U com a anterior, agora chamada de Marechal Mallet. Cruzei o mercado municipal. Mais lojas, mais pés-sujos de comes e bebes, principalmente de comida peruana. Mais gente, falantes de tikuna, português, espanhol. Seguindo em frente, a rua contava com lojas de roupas, sapatos, acessórios, hotéis de aspecto aceitável. Com o inadequado asfalto, mas sem árvores, sem praças, sem a tão desejada sombra. O sol queimava com tudo. O mormaço, vindo do excesso de concreto e asfalto, agravava o caldeirão. Ao final da rua, a arborizada avenida da Amizade guardava as árvores criminosamente mutiladas geometricamente. A poda estúpida tirava a beleza natural da vegetação e impedia as copas de se desenvolverem livremente, confinando as sombras à quase nada.
Dobrei à esquerda na avenida da Amizade e prossegui até a fronteira internacional. Pelo caminho, construções sem beleza, sem graça, sem calçadas, sem sombras, sem humanidade. Mal se percebia a fronteira entre Tabatinga, no Brasil, e Letícia, na Colômbia. Um posto policial de cada lado e nada mais. Ninguém era fiscalizado, em nenhum dos sentidos.
Letícia se mantinha infinitamente superior a Tabatinga, em praticamente tudo. Urbanismo humanizado. Ruas, ruelas e avenidas arborizadas, com calçadas largas e transitáveis. Praças com árvores frondosas refrescavam do calor e do sol impiedoso. Padarias, casas de lanches, restaurantes, cafés, com mesas sombreadas nas calçadas, viravam ponto de encontro e de observação do vaivém do centro da cidade. O comércio também apresentava aspecto mais decente e os moradores pareciam mais amistosos.
Letícia, porém, estava mais suja, mais abandonada pelos poderes públicos, do que na minha visita anterior. Os defeitos apareciam e cresciam com os anos. Mendigos, bêbados cambaleantes ou deitados nas calçadas, praças com mato crescido e bancos quebrados.
Tabatinga se entupia de bares e puteiros com caixas de som vomitando o lixo descartável no último volume. Inúmeros supermercados, restaurantes, comércio em geral, eram tocados por colombianos. A indolência ia às alturas com a ausência de políticas públicas para as atividades comerciais, para a educação, saúde, cultura, habitação. A prefeitura era assaltada de quatro em quatro anos por quadrilhas de criminosos que saqueavam e pilhavam o patrimônio, jogando a população no esgoto. Praticamente todos os prefeitos, vice-prefeitos, secretários, até vereadores, não residiam nas respectivas cidades. Aterrissavam vez ou outra a fim de rasparem os cofres públicos, fartos de impostos arrecadados junto à população e dos repasses dos governos estadual e federal. O comércio da fé e a indústria fundamentalista das empresas evangélicas entravam no vácuo, deitando e rolando, sequestrando mentes e bolsos dos desavisados e desesperados.
Inacreditavelmente, o alimento mais consumido em Tabatinga era frango e não peixe. O imenso rio Solimões a disposição, vários barcos e canoas de pescadores, não pareciam fazer diferença. Frango assado, grelhado, frito, em pedaços ou no espeto, em pratos feitos, em refeições. E oferecidos não somente em bares e restaurantes. Nos alpendres das casas as famílias instalavam a grelha, providenciavam panelas, pratos e talheres, armavam mesas com cadeiras. Ofereciam comida para complementar a renda ou obter a única renda de toda a família.
Pela manhã, a lancha que atracara na noite anterior, vinda de Manaus por desconfortáveis trinta e seis horas, era inspecionada pela Capitania dos Portos e pela Polícia Federal antes da partida Solimões abaixo. Os passageiros pagavam caro por assentos inferiores aos dos ônibus intermunicipais dos interiores do Brasil. Só compensava pela pressa de quem não queria ou não podia viajar de avião.
Encerrei as últimas páginas do febril Geografia da Pele, de Evaristo de Miranda, livro que narra em primeira pessoa um exercício radical de alteridade, tema pertinente aos viajantes sedentos por diferenças culturais. Engatei com o Estas Estórias, de Guimarães Rosa.
E a descarga de mercadorias do navio seguia a todo vapor, enchendo caminhões sem cessar. Fora do flutuante, na rampa de concreto do porto, se formava fila de mais caminhões a serem carregados.
E não é que o céu nublado, a ausência de sol, aliados a ventos constantes, trouxeram ar frio ao alto Solimões? Permanecer parado e exposto ao vento estava longe de ser confortável. Imediatamente me lembrei da famosa e saborosa sopa colombiana com tudo dentro, a sancocho. Esfriou mais durante a noite. Reflexos da intensa frente fria no sul e sudeste do Brasil. Acordei ao alvorecer, numa manhã limpa, de céu azul e sol brilhante, mas de temperaturas baixas. E eu estava no alto Solimões, no meio da Amazônia, próximo à linha do equador.
Logo pela manhã baixou a Polícia Federal, a Polícia Militar, cães farejadores. Inspecionaram milímetro por milímetro do navio, sala por sala, cabine por cabine, volume por volume. Mais de duas horas depois a equipe se postou em pontos estratégicos e liberou a entrada dos novos passageiros, verificando os documentos e as bagagens de cada um. Os liberados se apressavam ao piso Superior a fim de arranjar o melhor local para atar redes. Entre eles, um casal setentão de gringos, ambos encapotados contra o frio amazônico daquela manhã, mais dois rapazes sozinhos, ambos estrangeiros. Todos os quatro estrangeiros fediam horrores. O casal maduro retirou um manual ilustrado de como atar redes. Leram página por página, giravam as folhas para cima, para baixo, trocaram olhares. E nada de conseguirem lidar com as redes. Um dos contramestres, já vestido a caráter, de branco impecável, como os demais tripulantes, se prontificou e atou as redes de ambos. Os dois estrangeiros admiravam estupefatos, a rapidez e a agilidade do brasileiro. Jamais alcançariam sozinhos tamanha proeza.
No meio do dia o navio partiu de Tabatinga, rio Solimões abaixo. Centenas de barquinhos de pesca se postavam perto das margens ou dos bancos de areia surgidos com o avanço da vazante.
Uma hora depois o navio atracou em Benjamin Constant. Ainda a bordo, a Polícia Federal e a Polícia Militar se mantiveram posicionadas, observando o movimento de passageiros, embarcando ou desembarcando. Horas depois o navio zarpou, deixou o rio Javari e retornou ao leito do Solimões. Os integrantes da Polícia Federal e Polícia Militar ficaram em Benjamin Constant.
O céu se mantinha de um azul transparente e luminoso. O sol brilhava e resplandecia tudo naquela tarde. O Solimões, ainda que familiar, encantava pela gradação de cores entre as margens da floresta. Trechos esverdeados de mata baixa indicavam futuras praias. Águas barrentas adquiriam tons azulados. E o verde escuro da floresta propriamente dita.
Ao entardecer foi servida canja no refeitório. Grossa e substanciosa.
Logo em seguida o navio parou compulsoriamente no posto da Polícia Federal, justamente onde o rio se afunilava significativamente. Nem bem o navio se aproximou do posto, os carapanãs, em nuvens, atacaram sem dó nem piedade. Voei em fuga para os interiores da suíte. O policial entrou nas cabines, vasculhou cada canto, as bagagens, sob o colchão, banheiro, tudo. A fiscalização demorou entre os passageiros das redes. E ainda havia os porões, cozinhas, banheiros coletivos, lixeiras. O alto-falante do posto de fiscalização anunciou cinco nomes de passageiros, solicitando a presença deles para identificação e algo mais.
O navio desencostou e voltou a baixar no Solimões. Já sem os destemidos carapanãs, o ar frio da noite, do lado de fora, se mostrava atípico para a região.
Parada em São Paulo de Olivença no começo da madrugada.
Pela manhã o céu apresentava nuvens altas e esparsas, impedindo o sol de brilhar. A sinfonia encantadora das arirambas e colegas de voo recebeu a embarcação à entrada do rio Amaturá, com a cidadezinha logo em seguida. Pouco depois o navio retomava o Solimões, rio abaixo, não sem antes o encontro das águas negras do rio Amaturá compor espetáculo único.
As águas do rio Içá anunciavam a cidade de Santo Antônio do Içá. Na parada embarcaram muitos passageiros e alguma carga perecível, sobretudo peixe. A Polícia Federal efetuou a terceira verificação da baixa do Solimões.
Parada em Tonantins. As pessoas a embarcar e as mercadorias a carregar cozinhavam sobre a balsa de aço, descoberta, sob o sol da tarde amazonense. Nem os guarda-chuvas sobre as cabeças amenizavam a sensação do corpo a se fundir.
O massacre fundamentalista evangélico prosseguia desde o começo da manhã, vomitado da caixa de som da lanchonete, sem qualquer respeito por outras crenças ou por aqueles que não as tinham.
Parada em Jutaí à noite. Lá estavam as ladeiras de concreto, a mais larga acompanhando a encosta, a estreita perpendicular ao morro e à margem do rio.
Dos sete gringos a bordo, somente o casal peruano tomava banho e trocava de roupa, como os passageiros brasileiros. Os demais estrangeiros, o casal maduro e três pessoas sozinhas, jamais se banhavam ou trocavam as roupas sujas, ensebadas, fedorentas. A maioria a bordo os evitava, sobretudo às refeições.
Naquela noite, o espetáculo de horrores do fundamentalismo evangélico fora conduzido por uma das bigodudas que dividia a cabine com o pastor com cara de menino chorão. Ela parecia em meio a surto psicótico. Berrava histericamente, com os olhos arregalados, feito doida varrida.
continua...

sexta-feira, 16 de março de 2018

O Vale do Amazonas e do Solimões (parte 5/9)

...continuação
As temperaturas, ainda que ligeiramente, começavam a baixar. No início da manhã, a sensação térmica era de quase frio, sobretudo em comparação ao vapor quente dos dias anteriores. O céu limpo e o tempo estável garantiam águas calmas, quase espelhadas, do Solimões.
O navio parou no porto da cidadezinha de Amaturá, na foz do rio de mesmo nome, de águas escuras e atraentes. Longa escadaria para pedestres, rampa para veículos, o nome da cidade estampado no gramado inclinado e voltado para o rio. No topo, o largo da Matriz, enfeitado de bandeirolas vermelhas, azuis, amarelas e brancas, a cruz no centro. A igreja, a escola estadual e colégio em anexo, todos de nome São Cristóvão. O hotel antigo à esquerda, o restaurante e sorveteria, o mercadinho, árvores pela praça, desgraçadamente mutiladas geometricamente, reduzindo a sombra tão vital naquelas paragens. Centro com cara de centro, para felicidade geral da nação. Pequena orla urbanizada com calçada e mureta na beira do barranco para o rio, sombreada por árvores mais frondosas e, felizmente, não mutiladas. Ainda na orla, rio Amaturá acima, o parque infantil e o ponto oficial de moto-táxi. A jusante da praça, casario antigo e de madeira, pendurado no morro, a maioria em más condições, mas sempre charmoso e o mais fotogênico da cidade. Barranco abaixo, sobre as águas, sequência de flutuantes e lanchas escolares que foram amarelas um dia.
Ruas estreitas de concreto, outras de chão, normalmente em bom estado. Mercadinhos, alguns minúsculos, quatro escolas, três delas municipais. Obras financiadas pelo governo federal, dos tempos progressistas de Lula e Dilma. Centros de saúde, casas de apoio ao índio. Indígenas em circulação se comunicando nas línguas originais, de etnias estabelecidas havia milênios nas proximidades. Placas informais nas portas das casas e comércios anunciavam a venda de dindin em dezenas de sabores, gasolina a cinco reais o litro, açaí, serviços gerais.
Todos em Amaturá usavam e abusavam da popular sombrinha para se protegerem do sol. Colorida ou preta, masculina ou feminina, não importava. Impedir os raios de sol era o objetivo primeiro, segundo, terceiro e último. Depois do meio-dia, como ocorre em todas as cidades quentes, o povo se recolhia às casas, o comércio baixava as portas, as ruas se esvaziavam. Raros gatos pingados se refugiavam sob as sombras das árvores. A cidade praticamente adormecia para a merecida sesta debaixo daquele calor de caldeira.
Menininhas ousadas da cidade se vestiam com roupas de domingo, se produziam com esmero, se enfeitavam com capricho, e vinham passear pelos interiores do navio. Tiravam fotos delas mesmas com poses e sorrisos ensaiados. Assim como a maioria da cidade, elas portavam traços inteiramente indígenas.
Os três franceses a bordo nunca entravam em contato com nenhum brasileiro. Não se interessavam por nada. O mais velho bebia café e fumava o tempo todo. O mais moço às vezes tocava flauta doce. Nenhum dos três tomou banho ou trocou de roupa em todo o trajeto de Manaus a Tabatinga. Passar perto deles ou mesmo sentir o odor vindo contra o vento era caso de calamidade pública, de interdição pelos órgãos ambientais. Pobre dos vizinhos deles nas redes, brasileiros que costumavam tomar vários banhos por dia vestindo roupas limpas em seguida.
No meio da tarde o navio partiu de Amaturá. Cidade com jeito de cidade. Cidade pequena, indígena e graciosa. Cidade voltada para o rio através da orla urbanizada.
Dado o avanço da vazante, lagos afloravam próximos às margens do rio. E se tornavam destino de pescadores por confinar diversas espécies de peixes. Semanas depois, essas águas perderiam a ligação com o rio e ficariam ainda mais piscosas.
Avançando no rumo oeste da Amazônia, os dias terminavam mais tarde, obrigando a criação de outro fuso horário acima de Santo Antônio do Içá, duas horas atrás de Brasília. Na parte da tarde, por quilômetros de extensão, perfilou na margem direita do Solimões comunidade dividida em vários núcleos contíguos, entre casas, cabanas, flutuantes, pastos, gado, porcos, escolas, igrejas, gramados, comércio. E tudo iluminado com luz elétrica, graças ao programa Luz Para Todos do governo federal, dos tempos progressistas entre 2003 e 2014.
O peruano de Iquitos me contou a atribulada história de vida. Órfão de mãe muito cedo sobrevivera com os irmãos mais novos, abandonados pelo pai que se embriagava e não supria a casa. Ele largou a escola e vagou por Iquitos até entrar clandestinamente em navio peruano com destino a Letícia, Colômbia. Atravessou a fronteira brasileira para Tabatinga, onde trabalhou como estivador informal no cais e ambulante perseguido pela prefeitura. Como recepcionista de hotel se envolveu com traficantes peruanos de drogas que lhe pagavam para guardar encomendas no hotel. Descoberto, foi demitido e viveu de biscates até ser preso e condenado a anos de prisão em Manaus. Casou e fixou residência em Manaus, onde vivia até então como ambulante de variedades.
Um colombiano de Letícia, também passageiro do navio, se juntou à conversa. Vivia havia trinta anos em Manaus sem nunca ter retornado à terra natal, onde ainda tinha irmãs e irmãos, um deles traficante e portador de cinco documentos com cinco nacionalidades diferentes. O colombiano aguardava ansiosamente que o peruano lhe devolvesse os quarenta reais emprestados para apostar na mesa de caixeta do navio e que lhe escorrera das mãos em poucas rodadas.
Parada à noite em São Paulo de Olivença. Devido ao nome daquela cidade, ao informar que eu era de São Paulo, os passageiros assentiam e completavam:
“Ah, sim, São Paulo do sul...”
Os rituais satânicos e delirantes do fundamentalismo evangélico, puxado pelo pastor com cara de bebê chorão e casado com a cabeluda e bigoduda, funcionava todas as noites depois do jantar. Durante os horrores era vedado o uso da televisão do piso de Lazer. Naquele navio, na disputa acirrada pelo embrutecimento coletivo, o fundamentalismo evangélico levara a melhor sobre a desinformação e a deformação da mídia burguesa.
Antes do amanhecer o navio partiu de São Paulo de Olivença, rio Solimões acima.
Ribeirinhos utilizavam o puçá como instrumento auxiliar de pesca. Pelo cilindro feito de rede trançada, submerso nas águas, com a boca acima da superfície, os pescadores lançavam os peixes pescados e ainda vivos durante dias de atividade. Ao voltar à comunidade levavam todo o cardume, recolhido de uma vez só, com os peixes vivos e frescos. As mulheres ribeirinhas, ao lavarem roupas na beira do rio, vez ou outra enchiam canecas com a água do rio e se banhavam para refrescar.
Depois de sete dias de viagem Solimões acima, finalmente serviram peixe no almoço. Pirarucu ensopado. Acompanhei de arroz e vinagrete. A minúscula porção de pudim, servida no copinho de café, coroou a condescendência dos proprietários do navio.
Um dos contramestres do navio me informou que na fatídica sala de orações do piso de Lazer antes funcionava sala de cinema. Os doces proprietários da embarcação substituíram a ampliação dos conhecimentos, o enriquecimento cultural, o lazer, pelo estreitamento do pensamento, pelo embrutecimento das mentes, pelo fundamentalismo evangélico. E as ovelhinhas do rebanho ainda pagavam por isso.
Comunidades tikuna surgiam às margens do Solimões. Vendaval, Feijoal, Belém do Solimões, entre tantas.
O maranhense de Presidente Dutra já garimpou no Pará, Amapá, Guiana Francesa, Suriname. Largou família no Maranhão para se instalar com o novo amor em Atalaia do Norte, na fronteira com o Peru. Somavam sete os filhos que teve com as duas mulheres. Comerciante inquieto trabalhou de tudo um pouco. Planejava se mudar com a segunda família para Santo Antônio do Içá. Nordestino, falante, comunicativo, se diferenciava dos amazonenses reservados do alto Solimões.
O navio cortou caminho pelo paraná a fim de liberar os passageiros a desembarcar em Tabatinga. Mas somente os passageiros, adiando a saída das cargas ao encerrar o trajeto.
Uma hora depois, no início da madrugada, o navio atracou em Benjamin Constant, na margem do rio Javari, para a parada prevista de mais de vinte e quatro horas. Acordei e o navio estava vazio. Apenas tripulantes e carregadores retiravam lentamente as mercadorias para a cidade. Alto-falantes funcionavam no porto de Benjamin Constant na base de músicas regionais, dedicatórias, recados, convocações, conselhos sobre isso ou aquilo.
Desembarquei e comi o café da manhã nas barracas do mercado logo acima. Pão com tucumã, tapioca com queijo, café com leite. A rampa de terra e barro na beira do rio escancarava a decrepitude e abandono da cidade. Tudo em péssimo estado, caindo aos pedaços. Ruas esburacadas, calçadas inexistentes ou arrebentadas, terra, lama, sujeira. A administração municipal de Benjamin Constant seguia a linha da quadrilha que deu o golpe de Estado no Brasil em 2016, saqueando o município, desprezando a população.
Na margem oposta do rio Javari se via o aglomerado suspenso da cidade de Islândia, já em território do Peru. Eu e o contramestre pegamos a catraia brasileira e fomos ao outro lado. A cidade peruana, inteiramente suspensa a três metros do solo alagável, se interligava por passarelas, as principais de concreto, as secundárias de madeira. Prefeitura, posto de saúde, comércios, hotéis, áreas de lazer e esportes, residências, delegacia, bares e restaurantes, a igreja matriz, tudo acima do chão. Abaixo da passarela, somente o lixo que emergia na vazante. Bandeiras peruanas, vermelha e branca, estavam hasteadas em moradias, edifícios públicos, comércios. Os peruanos, de ambos os sexos e diferentes idades, sorriam e cumprimentavam.
De volta ao Brasil, circulei em Benjamin Constant pela zona do mercado e feira municipal. Apesar do movimento intenso, com muitos clientes e curiosos, da vida pulsante, o aspecto das construções, produtos, bares cheios de bêbados, restaurantes imundos, combinava com os desmazelos da administração municipal.
O contramestre, falante, cheio de lorotas e de contatos na cidade, encostou o esqueleto em boteco sórdido do mercado. O dono do cubículo me sugeriu provar a aguardente de cana curtida em pó de guaraná, gengibre, xixuá, mambaré. A bebida de coloração cinza acastanhada era seca e amarga, mas tragável e animadora. Bêbados circulavam e paravam para prosa rápida, invariavelmente portando olhos avermelhados, lábios inchados e úmidos, apertando e reapertando as mãos de todos, sorrindo mole de cinco em cinco minutos. Como todos os bêbados do planeta.
Reencontrei o vizinho da cabine do navio que encerrara a viagem em Benjamin Constant. Ao saber que iríamos almoçar em restaurante afastado da cidade, me levou na garupa da moto. O arrendatário do cubículo e o contramestre seguiram em outra moto. O local dispunha de lagos com peixes, cabanas ou chalés, amplo restaurante, redário, quiosques para relaxar na beira da água.
A caipirinha precedeu o matrinxã assado e acompanhado de arroz e farinha de Uarini. O arrendatário do cubículo no mercado municipal mostrou que era do ramo e preparou molho na base de limão, vinagre, sal, pimenta, a fim de enriquecer os sabores. Em três detonamos quase dois quilos do peixe inteiro.
Na volta ao centro da cidade, fizemos escala em bar para mais bebes. Experimentei a aguardente colombiana, licor à base de anis. Intragável. O arrendatário do mercado caía pelas tabelas. O contramestre falante e contador de vantagens fingia sobriedade. Retornamos ao navio para cochilar e recuperar as forças prevendo mais atividades sociais à noite. A descarga de mercadorias, em volumes pequenos, prosseguia ininterruptamente desde a madrugada.
Sábado em Benjamin Constant, ao anoitecer. A maioria do comércio fechando, restando abertos apenas bares, arremedos de restaurantes, barracas de comes e bebes. Impossível a poluição sonora naquela cidade empoeirada, esburacada, abandonada, desmazelada, desmantelada. Motos, muitas motos. Raros automóveis. Raras bicicletas. O barulho ensurdecedor enlouquecia. Não dava para conversar. Parecia que tudo iria explodir. A iluminação pública era quase inexistente. Não havia restaurantes, mas sim bares, muitos bares, todos imundos. Ambulantes peruanos vendiam espetos variados. Pelo menos serviam e tomavam sucos de frutas em quantidade e variedade. A praça da Matriz, contando com construção moderna, tenebrosa, monstrengo religioso inativo naquela noite, abrigava espaço insuficiente em alongados bancos de cimento sem encosto, ao lado de grama rarefeita e ressecada. Pouca gente por ali. Calçadas quebradas, descontinuadas, ocupadas por comércio ambulante ou por buracos profundos e entupidos de líquido preto e fétido. Benjamin Constant compunha um amontoado de defeitos e aberrações.
Repeti a banca do mercado para o café da manhã. Tapioca com ovo, tapioca com queijo, café com leite. Lá estava o arrendatário do cubículo de comes e bebes do mercado municipal com um colega. Iam a sítio para comer, e principalmente beber. Iam, mas não iam, pois paravam aqui, paravam ali, conversavam, tomavam umas, outras, se despediam para, finalmente, estacionarem em outro ponto para mais bebes, mais papos, mais bebes.
Circulei pelo centro decrépito de Benjamin Constant naquela manhã de domingo. Cachorros sarnentos, mancos, pernetas, somente pele e osso, disputavam comida com bêbados e demais párias sociais. A poeira em suspensão cobria alimentos expostos na feira e no mercado municipal. O terminal hidroviário da cidade fora construído e inaugurado com verbas federais, mas se encontrava abandonado, ocioso, vazio. Na avenida paralela ao rio, bares, bregas, puteiros, exibiam o lixo amontoado da noite de sábado. Na beira da água, mulheres de vestidos longos, lenços longos e escuros amarrados à cabeça, de seitas evangélicas para lá de medievais, lembravam personagens bíblicos de novelas de televisão. Empresas evangélicas próximas ao centro recebiam clientes ávidos por entregarem bens e consciências aos proprietários do fundamentalismo.
Sujeira, abandono social, miséria e embriagues de um lado. Fundamentalismo lucrativo de outro. Duas faces da mesma moeda. E com o golpe de Estado de 2016 o Brasil tenderia a aprofundar ainda mais essas mazelas sociais.
continua...