sexta-feira, 27 de setembro de 2019

do Acre ao Piauí (parte 8/8)

...continuação
Dois ônibus à praia da Pedra do Sal. Desembarquei na praia Mansa.
Caminhei no sentido oeste, por quilômetros a fio. Atravessei inúmeros riachos com tocos de madeira, conchas, vegetação, areia escura e grossa. Não alcancei a foz do rio que passa no porto de Tatus. O farol da Pedra do Sal, no entanto, ficou distante e minúsculo no horizonte leste. A maré enchia lentamente, fornecendo beleza ainda mais arrebatadora naquele trecho de praia completamente deserta de seres humanos e de construções. Praia selvagem! Jegues pastavam nas imediações dos cursos de água doce. Gaviões altivos se postavam em pontos estratégicos na busca de presas. Raros urubus se deleitavam nas areias com restos apodrecidos de peixes e siris. Parei para entrar e me refrescar nas águas do mar.
Jantei novamente no destino dos mais entre os mais de Parnaíba. Duas caipirinhas acima da média regaram o filé aperitivo acebolado, acompanhado de fritas e pão de alho. O ambiente, cheio e ruidoso, mal ouvia a voz e o violão interpretando os sucessos de sempre da MPB.
Circulei pelas imediações da antiga estação ferroviária da cidade. Desgraçadamente, como tem ocorrido em todo o Brasil, e em inúmeros países sob a ditadura do transporte rodoviário, lá estava o prédio da estação, do almoxarifado, do posto médico, da administração, entre outras construções da ferrovia, em ruínas, abandonados, deliberadamente abandonados. Na estação propriamente dita, um senhor idoso, idealista, cuidava dos objetos que restaram dos vários saques e roubos aos prédios da EFCP, Estrada De Ferro Central Do Piauí. Uma locomotiva maria-fumaça era exibida como relíquia, no acesso vindo da avenida. Os trilhos, enterrados pelo asfalto, mato, areia, barro.
Os oligopólios das corporações automobilísticas, de automóveis, caminhões, ônibus, impuseram aos governos fantoches a destruição da malha ferroviária brasileira, e no nordeste do Brasil ela foi imensa, forçando ao esquecimento e abandono deliberado de tudo que remetesse às ferrovias. O transporte ferroviário sempre foi mais barato, para o Estado e para a população, mais confortável, mais eficiente, mais seguro, mais romântico. E certamente mais rápido se houvessem as modernizações rotineiras do sistema.
O transporte rodoviário mata ao redor de cinquenta mil pessoas todos os anos no Brasil, fora os feridos, leves e graves, com ou sem sequelas. No entanto, graças à publicidade sufocante, direta ou subliminar, muita gente ainda sonha em ter o “carro próprio”.
Entusiasmado com as belezas e as vantagens das ferrovias sobre as rodovias, e indignado com a opção rodoviária forçada do Brasil, me dirigi a Luís Correia, cidade que já foi chamada Amarração, para conferir a última estação ferroviária da EFCP, também desativada e abandonada havia cinquenta anos. Criminosamente largada às traças, a construção se tornou banheiro público e refúgio de párias da sociedade.
Circulei pela região do porto de Luís Correia, próximo à foz do rio Igaraçu e a extensos manguezais. Armazéns de pesca, fábricas de gelo, barcos atracados, trapiches apodrecidos, feições com olhares de poucos amigos, eles e elas, atmosfera portuária típica. O manguezal, amplo e exposto, atraía pela beleza e calmaria.
À tarde li páginas de Geraldo Vandré, Uma Canção Interrompida, de Vitor Nuzzi, uma das três biografias lançadas quatro anos antes sobre o genial compositor e intérprete da música brasileira. Nos intervalos eu refletia e divagava ao som de Imyra, Tayra, Ipy, álbum de Taiguara censurado pela ditadura civil/militar.
Embarquei no meio da manhã no confortável ônibus intermunicipal na rodoviária de Parnaíba. Pela BR-343 o veículo recolhia e despejava passageiros pelas cidades intermediárias, Buriti dos Lopes, Piracuruca, Brasileira e, finalmente, Piripiri, onde desembarquei.
Imediatamente comprei passagem para Pedro II, em outro ônibus que partiu quase vazio. Percorreu a BR-404, subindo leve e continuamente o relevo, por estrada arborizada e estreita. Serrotes despontavam ao norte e a leste.
Em Pedro II me hospedei em hotel na própria avenida/estrada que corta a cidade. A pia do banheiro do quarto era uma graça. Dava na altura dos meus joelhos. E o espelho refletia o meu umbigo. A cidade cresceu ao longo da rodovia BR-404. Tudo de importante se encontrava nas margens dela, inclusive a pousada e outros hotéis, cujo quarto em que fiquei, de frente para o movimento, recebia a sonoplastia rodoviária.
O ar fresco dos setecentos metros de altitude de Pedro II, cidade erguida na região da serra dos Matos, se fazia sentir à noite e ao amanhecer. Nada da fornalha de Parnaíba ou das cidades amazônicas. A cachaça artesanal piauiense caía como luva nessas temperaturas.
Pedro II acordava cedo e de maneira escancaradamente barulhenta. O tráfego pesado de veículos na estrada/avenida da frente da pousada, com destaque para as motos estridentes, vibrava logo após o clarear do dia. As obras na pousada, e as da padaria ao lado, começavam ao amanhecer.
Circulei pela zona urbana que guardava casario do início do século XX, bonito e em ótimo estado de conservação. Parecia que a cidade inteira se preparava para o festival de inverno. Paredes, portas, janelas, pintadas. Praças e ruas, limpas e arrumadas. Enfeites dos moradores nas calçadas e paredes, festejando as flores, a limpeza, a necessidade de não poluir as vias públicas. Tendas começavam a ser montadas nas imediações da praça de Nossa Senhora da Conceição, ao redor da qual se erguia a prefeitura, a rádio local, a igreja Matriz, o principal do casario antigo, antes residências da elite dominante de Pedro II. O centro comercial fervia entre lojas e barracas de ambulantes. Carros de som esbravejavam as tais “promoções”, agravando a poluição sonora ao longo da estrada/avenida que atravessa toda a extensão da cidade. Lojas de joias, muitas delas utilizando a matéria prima símbolo local, a opala, se espalhavam próximas à Matriz.
Arrisquei local simples, pequeno e tradicional de Pedro II, para almoçar panelada, prato típico regional. O restaurante se situava a dez ou mais quarteirões de caminhada. Fui e voltei sob o sol a pino, me esgueirando pelas paredes onde havia calçada. Preparado com miúdos do estômago de boi, mais nacos de mocotó, tudo imerso no molho da própria carne, acompanhado de arroz, farinha e vinagrete, o prato da panelada empolgou pelo sabor pronunciado. O estabelecimento, situado em bifurcação, contava apenas com duas mesas externas e duas internas.
Me refugiei na sombra da sacada coletiva em frente ao quarto da pousada. Cadeiras livres, vento refrescante, preguiça bem-vinda. O sol abrasador, somente lá fora. Eu tentava, com muita força de vontade, me abstrair da poluição sonora, da avenida/estrada, das marteladas na padaria ao lado, das obras na pousada, das gritarias e ruídos da barulhenta Pedro II.
Depois de caminhar quarteirões da zona urbana finalmente alcancei estradinha de chão avermelhado. Pelo caminho, buritis, árvores frondosas, chacrinhas, formações rochosas com vegetação de caatinga, olho d’água em trecho sombreado e fresco, córregos a serem atravessados pulando as pedras, casinhas novas, cercas de paus, morros, a serra mais ao longe. Entre os moradores, saudações efusivas de uns, rosto fechado de outros.
Atingi patamar alto, o povoado de Terra Dura, no mesmo município de Pedro II. Casas espalhadas, a capelinha com pequeno adro, campo de futebol, escola, cisternas instaladas nos tempos populares de Lula e Dilma. E porcos, muitos porcos, dezenas ou centenas deles, soltos, ciscando, comendo o que viam pela frente, famílias inteiras, porcão, porcona, porquinhos, porquinhas. Uma infinidade de suínos perambulando pelo vilarejo.
Na cidade almocei saborosíssimo sarapatel no mesmo local do dia anterior. Valeu, e muito, repetir aquele minúsculo restaurante.
No meio do dia seguinte embarquei em ônibus a Teresina.
A região em torno do hotel no centro da capital piauiense se apresentava organizada, limpa, de bom aspecto, abrigando hospitais, clínicas, laboratórios, consultórios médicos, gente de branco circulando para lá e para cá. A avenida Frei Serafim, marco da cidade, começava na igreja de São Benedito, perto da margem direita do rio Parnaíba, e avançava rumo o rio Poty. Contava com amplo canteiro central, dotado de duas alamedas de árvores e bancos para descansar e tomar à fresca. As piauienses e os piauienses cumprimentavam sorrindo, tomando sempre a iniciativa, hábito para lá de generoso e gentil.
Avistei de longe o rio Parnaíba. Na margem oposta, a cidade de Timon, já no estado do Maranhão.
Teresina oferecia linha ferroviária urbana, com onze estações e trens de três vagões. A população usufruía daquele serviço público essencial entre os bairros. A estação de Frei Serafim foi outrora a estação central da cidade, em tempos em que a ferrovia, por todo o nordeste e interiores brasileiros, mais confortável e mais segura do que as estradas, ainda não havia sido destruída pela ditadura do transporte rodoviário, o mesmo que mata cinquenta mil pessoas por ano no Brasil.
Em minha última noite daquela deliciosa viagem de dois meses e meio, desde o Acre até o Piauí, encerrei o livro Geraldo Vandré, Uma Canção Interrompida, de Vitor Nuzzi. Bom conteúdo em edição mal cuidada. Me pareceu que não houve revisões para eliminar ou corrigir as repetições, as redundâncias, as descontinuidades, as lacunas.
Embarquei na tarde seguinte em voo para São Paulo.
Entrei em casa no mês de junho, em estado de graça pela viagem, longa e fascinante.