sexta-feira, 28 de setembro de 2018

do Juruá ao Tapajós (via Transamazônica) (parte 7/7)

...continuação
O ônibus deixou a Transamazônica e retomou o leito não pavimentado da BR-163, a Cuiabá/Santarém. Atravessou as cidades de Trairão e Caracol, antes de mergulhar na noite escura. Os passageiros tentavam dormir. Cochilei em meio aos solavancos do ônibus, entre o asfalto esburacado e os trechos de chão enlameado.
Antes do amanhecer o ônibus parou em Moraes de Almeida. Clareou lentamente com névoa e cerração, cobrindo parcialmente a estrada e os campos próximos. Mais pastos e monoculturas sem fim. A floresta se distanciava bastante do leito da rodovia. A chuva fina continuava firme e forte umedecendo tudo e todos. No sentido oposto, a monótona procissão de carretas duplas, todas iguais, entupidas de soja transgênica e de agrotóxicos, vindas do Mato Grosso, com destino aos terminais e navios em Itaituba e Santarém. As mesmas carretas duplas retornariam vazias para novos carregamentos de soja unicamente para exportação.
Ainda a chuva insistente na parada em Novo Progresso, cidade feia, mais uma cidade com cara de provisória. Mais servia de depósito de gente desassistida e base aos pastos e monoculturas extensivas.
Pedaços de terra encascalhada se intercalavam com asfalto, ora bom, ora esburacado, naquele sul do Pará.
Parada na vila de Alvorada do Amazonas. Nas margens da estrada, imensas fazendas de gado, algum milho, vastas áreas improdutivas, desmatadas e abandonadas pelos especuladores de terra.
Mais adiante, a cidade com o doce nome de Castelo dos Sonhos. De cidade ela nada oferecia, como as demais, numa mistura de ruínas, escombros, construções inacabadas, lixo, desolação, gente também caindo aos pedaços. E, como as outras concentrações de povo mal tratado da região, a vila cresceu ao redor de enormes e trepidantes puteiros, numa infinidade de bares, boates, cabarés e afins.
Nas proximidades de Cachoeira da Serra, de novo nome atraente, mais pastos, áreas desmatadas e improdutivas. No horizonte, serras e serrotes cobertos de vegetação nativa.
A Cuiabá/Santarém atravessou a serra, em traçado sinuoso e acidentado, margeando a PCH Alto Curuá e a PCH Alto Buriti, além de cachoeiras e quedas d’água. Nos sobes e desces da serra em ziguezague, flores amarelas e roxas nas copas das árvores. Em frente, nos terrenos baixos, mais áreas improdutivas e desmatadas, latifúndios frutos da invasão e grilagem de terras públicas pelo grande capital. Nada cultivado ou criado.
No meio da tarde do segundo dia, a divisa interestadual entre o Pará e o Mato Grosso. A BR-163 serpenteou a serra do Cachimbo. Depois a troca de ônibus na rodoviária de Guarantã do Norte. O novo ônibus, de dois andares, partiu lotado.
Entramos de jeito no norte do estado do Mato Grosso. Planícies e mais planícies. Nenhum, absolutamente nenhum, vestígio da floresta amazônica, nem de longe, apesar de ali ainda pertencer à Amazônia. Somente as monoculturas extensivas a perder de vista, sobretudo de soja. Ao longo da BR-163, uma cidade atrás da outra, planejadas, com ruas e avenidas largas, rotatórias em série, tudo espalhado e distante. Ninguém a pé. Tudo triste. Cidades tipicamente agropecuárias, com silos, lojas de equipamentos agrícolas, tratores, fertilizantes, agrotóxicos, muitos agrotóxicos. Abundância de caminhonetes cabine-dupla. Muitos rostos sulinos. Poucos sorrisos. Cidades com cara de nada, nada acolhedoras, formavam paisagem monótona, repetitiva, a cada entrada do ônibus. Nada mudava entre o tédio de Matupá, Peixoto de Azevedo, Terra Nova do Norte, Nova Santa Helena, Itaúba, Sinop, Sorriso, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Nobres, Rosário Oeste, Jangada. O pé d’água que desabou em Nova Santa Helena e o razoável sinal de vida humana em Sinop, a maior cidade daquele trecho, quebraram a mesmice sonolenta do norte do Mato Grosso. Pelo menos à noite, Sinop, cidade que leva o nome de uma sociedade imobiliária do norte do Paraná, me despertou curiosidade. Havia amplos canteiros centrais da avenida principal arborizada, com ciclovia, jardins, bancos para sentar e namorar, prestigiado pela população em noite do meio da semana.
Conversas entre os passageiros do ônibus, nenhuma. Silêncio sepulcral pelos assentos.
Até que consegui cochilar bastante, a despeito do frio exagerado vindo do ar condicionado, contra o qual os passageiros reclamaram e nada foi feito.
Em Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá, intenso desembarque de passageiros. Ao amanhecer do terceiro dia, após sucessão de avenidas, viadutos, mais avenidas, o ônibus estacionou na rodoviária de Cuiabá, trinta e nove horas e meia desde a partida de Santarém.
Embarquei em micro ônibus à Chapada dos Guimarães, cidadezinha erguida no topo da chapada de mesmo nome, a menos de duas horas de Cuiabá, em pleno cerrado mato-grossense e com temperaturas mais amenas do que a caldeira da capital. O motorista do micro voou feito suicida pela pista sinuosa e acidentada da MT-251, encurtando perigosamente o tempo do trajeto.
Eu estava sujo, cansado, com sono, com fome. Mas feliz da vida de ter percorrido de ônibus mais uma estrada cheia de histórias, boas e más, a BR-163, a Cuiabá/Santarém. E retornava à Chapada dos Guimarães dezenove anos depois.
À noite encontrei três hóspedes nas proximidades da recepção da pousada. O capixaba que viajou de moto por mais de um mês pela América do Sul e preparava a volta pra casa na manhã seguinte. O casal paulistano passava pouquíssimos dias na Chapada dos Guimarães. Seguimos a bar no centrinho da cidade onde encontramos guias e outros moradores.
A chuva fina persistia do lado de fora.
Durante o dia, no amplo quarto da pousada, li bastante o terceiro volume de Memórias do Fogo, de Eduardo Galeano. Andei lentamente pela cidade. E mais nada.
À noite, sob o céu escandalosamente estrelado, e ao longo de ruas desertas e com rara iluminação pública, caminhei ao centrinho de Chapada dos Guimarães e repeti o mesmo bar da noite anterior. Uma caipirinha medíocre, duas doses de cachaça e vários copos de caldos bem temperados em diversos sabores. Movimento discreto nas outras mesas.
Após o café da manhã, decidi visitar o parque nacional da Chapada dos Guimarães, cuja portaria se localizava na estrada para Cuiabá. Fui e voltei de ônibus de linha.
Em trilha curta visitei as cachoeiras dos Namorados e a Cachoeirinha, ambas de beleza média e águas ainda turvas pelas recentes chuvas. Depois trilha curta ao cartão postal da Chapada dos Guimarães, a cachoeira Véu de Noiva. As águas despencavam de dezenas de metros sobre vale profundo e extenso, limitado por escarpas íngremes de arenito e mata atlântica nas partes baixas. Conjunto impressionante, pela beleza estonteante, pelas dimensões horizontais e verticais do vale, pelas escarpas rochosas de coloração ocre, pela densa floresta tropical verde-escura.
E o tempo virou na manhã seguinte. A frente fria trouxe nuvens escuras e carregadas, chuvas, ventos fortes. À medida que avançava o dia, rajadas de vento, chuva intensa, água, muita água, tempestade de impor respeito. A bruma e a neblina logo cobriram tudo, limitando a visibilidade a poucos metros.
A sensação de andar nas ruas à noite, envoltas pela neblina espessa, com visibilidade pouco acima de dois metros, se tornou excitante. Ninguém, absolutamente ninguém, a pé pelas bandas afastadas do centro da cidade. No centro, esparsos veículos iam e vinham pelas ruas turvas pela cerração.
Ao andar ao longo das ruas vicinais e mais afastadas do centro de Chapada dos Guimarães me lembrei de La Paloma, cidade litorânea do Uruguai. Lá como cá, dezenas de casas vazias pela baixa temporada. Lá como cá, cães ferozes guardavam os quintais e se aproximavam do muro frontal, espumando de raiva, latindo agressivamente à minha passagem. A diferença, para meu alívio, é que na Chapada dos Guimarães nenhum escapou para a rua e me atacou a dentadas, como aconteceu com o pastor alemão uruguaio. Cá, dois enormes cães, aos pulos e babando de ódio, certamente, se soltos, me reduziriam a pedaços de carne sem vida.
Embora as temperaturas se mantivessem baixas no dia seguinte, o sol acabou por se impor e proporcionar tarde luminosa e colorida. Sorte dos cuiabanos que subiram a serra. Muitas roupas quentes, casacos, botas, cachecóis, itens que jamais vestiriam na capital mato-grossense, o caldeirão sem disfarces.
De manhãzinha peguei o ônibus para Cuiabá, com direito às últimas vistas das escarpas ocres da Chapada dos Guimarães. Na rodoviária da capital mato-grossense esperei o segundo ônibus.
Na saída da zona urbana de Cuiabá a assembleia de caminhoneiros sob a tenda improvisada em rotatória preparava a paralisação nacional. Protestavam contra os sucessivos aumentos dos combustíveis praticados pela ditadura originada no golpe de Estado de 2016. E estavam em vias de bloquear rodovias.
Sobes e desces em ziguezagues pela serra de São Vicente, no município de Jaciara. Depois, monoculturas sem fim, entupidas de agrotóxicos, empregando pouca mão de obra. Praticamente tudo para exportação a preços ínfimos.
Após Rondonópolis, a subida da serra ao planalto central. Nos altos, a cidade de Alto Garças e a divisa interestadual entre Mato Grosso e Goiás, atravessando o estreito rio Araguaia correndo sobre lajes de pedra, ali não muito distante das cabeceiras. Do lado mato-grossense, a cidadezinha de Alto Araguaia, do lado goiano, Santa Rita do Araguaia. O frio batia no fundo dos ossos. Era difícil permanecer do lado de fora do ônibus durante as paradas.
Amanheceu no segundo dia na divisa entre Goiás e Minas Gerais, após cruzar as cidades goianas de Jataí, Rio Verde, Itumbiara. O frio se mantinha cortante, mesmo sob o sol. A rodovia atravessou o triângulo mineiro, cruzando Uberlândia e Uberaba, por entre terrenos levemente ondulados.
Depois da divisa entre Minas Gerais e São Paulo, canaviais sem fim, nenhuma plantação de alimentos. Me lembrei dos idos tempos do Brasil colonial. Talvez nem tão idos assim. Minúsculas cidades paulistas ofereciam mão de obra barata, quase de graça, aos senhores de engenho do século XXI. Sem falar nos migrantes, sobretudo do norte de Minas Gerais, que afluíam à região nos períodos de colheita e se entregavam a trabalhos praticamente de escravos, pessimamente remunerados, sem os mínimos direitos trabalhistas.
Em Ribeirão Preto, cidade outrora exibindo opulências, agora oferecia miséria, moradores de rua, prostituição escancarada pelas ruas do centro, inclusive de menores, em pleno meio-dia.
O estado de São Paulo também indignava pela infinidade de pedágios, um atrás do outro, caríssimos, extorquindo dinheiro da população via a ilegal bitributação, todos nas rodovias irregularmente privatizadas pela quadrilha que ditava as regras havia mais de vinte anos no estado.
E mais canaviais, nada de alimentos cultivados, mais pedágios, mais assaltos legalizados.
No começo da noite do segundo dia, naquele fim de maio, o ônibus estacionou na rodoviária da Barra Funda, em São Paulo.
Aquela estupenda exploração pela Amazônia, do rio Juruá ao rio Tapajós, via a Transamazônica, mais a famigerada Cuiabá/Santarém, ainda reverberaria por muito tempo em minha mente.